Estudos sobre Religião - Biblioblog

terça-feira, 24 de abril de 2012


Estela de Licinia Amias, Roma,  III séc.
Maurice Casey é Professor Emérito de Lingua e Literatura do Novo Testamento da Universidade de Nottinghan (Reino Unido). Casey tem desenvolvido um sólido trabalho como Aramaista, e isso influencia sua abordagem das origens do cristianismo.
Em sua mais recente contribuição, "Jesus of Nazareth: An Independent Historian's Account of His Life and Teaching", em que ele analisa as fontes sobre Jesus, apresenta sua metodologia e resultados, que nós do adcummulus temos prazer em analisar, em continuidade a nossa série "Quem Eles Dizem Que Eu Sou".

 Preliminares: O livro de Casey tem causado um grande impacto nos meios acadêmicos. Ele inicia seu livro "pondo na mesa" sua visão do cristianismo. Ele não pertence a qualquer grupo religioso, ou anti-religioso [1]. Na verdade, Casey é agnóstico, após ter se "desconvertido" na juventude de uma carreira que o conduziria ao ministério na Igreja Anglicana. Dito isso, Casey observa como a figura de Jesus, e mesmo a pesquisa histórica foi influenciada por interesses dos mais diversos, para legitimar agendas específicas ou apresentar uma ou outra leitura como relevante para um tempo ou circunstância específica. Ele comenta sobre as várias tentativas de apagar e anular a identidade judaica de Jesus, culminando na perversa teoria do Jesus Ariano dos nazistas. No entanto, ele aborda também os progressos e avanços da pesquisa, como a contribuição relevante de Geza Vermes, e sua análise de Jesus firmemente integrada ao contexto judaico do I século, seguida em linhas gerais por E. P. Sanders, da formulação da "Third Quest" com NT Wright nos anos de 1980, e James Dunn [2]. Ele comenta também sobre o Jesus Seminar, de cujo o trabalho Casey não é muito simpático. Sobre o trabalho de  John Dominic Crossan, Casey também é bastante crítico. Em uma seção sugestivamente chamada "From Bad to Worse" ("de Mau a Pior"), o "USS" Maurice Casey aponta seus canhões na direção das reações dos estudiosos conservadores ao Jesus Seminar, e a amarga polêmica resultante, e contra fenômenos "pop" bastante diversos como o Código Da Vinci, o Livro do Papa Bento XVI sobre Jesus, e algumas tentativas de negação da historicidade de Jesus em setores mais radicais, tanto na academia, como a do Professor Robert Price, quanto fora dela, como a do biólogo e ativista Frank Zindler [2].

Métodos Tradicionais: Casey discute metodologia no capítulo 3 de seu livro. Sucintamente ele aborda os critérios tradicionais de historicidade, como já fizemos aqui no Adcummulus, suas vantagens e limitações.

A respeito do Critério de Multipla Atestação, Casey avalia que é utíl quando propriamente utilizado, e mesmo assim sua aplicação é limitada. Como exemplo de fato autenticado através deste critério, Casey cita a atuação de Jesus como exorcista e a controvérsia causada por ela [3]. Jesus é acusado de expulsar demônios pelo poder do diabo tanto em Marcos (3:22-30), quanto na fonte de ditos Q (Mt 12:22-32/Lc 11:14-23 e 12:10), o que configura múltipla atestação de fontes. Além disso, exorcismos de Jesus são descritos ou aludidos em narrativas, sumários, parábolas, e controvérsias, ou seja, multiplamente atestados nas formas literárias. Em conjunto, isso implica que Jesus era conhecido como exorcista, e que essa atividade foi fonte de controvérsia em seu ministério [3].

O Critério do Constrangimento também é aceito por Maurice Casey [4], que utiliza o já recorrente exemplo do Batismo de Jesus por João Batista. Seja qual tenha sido a intenção de Jesus, uma vez que João pregava o batismo de arrependimento para a remissão de pecados, a narrativa de batismo poderia ser interpretada (e certamente foi) por adversários e grupos rivais como prova de que Jesus era pecador. E essa interpretação causou evidente incômodo aos evangelistas. Mateus acrescenta então que João Batista teria dito de que ele é que precisava ser batizado por Jesus (Mateus 3:14-15). Já no Evangelho dos Hebreus (ou dos nazarenos), Jesus é convidado por sua mãe e seus irmãos para ser batizado por João, para o perdão dos pecados. Ele responde "Eu pequei, que pecado eu cometi, para que me deixe batizar? A não ser que o que eu tenha dito seja ignorância (istoé, um pecado de ignorância). [4]

Como já haviamos desenvolvido aqui no adcummulus, em nossa série constrangimento e diferença e seus análogos fora da pesquisa do novo testamento, o critério do constrangimento é útil porque, como nos diz o Como também já observamos aqui no adcummulus (citando o Professor Murray G Murphy, da Universidade da Pensilvânia): "Em outras palavras, se uma narrativa relata um fato que vai contra a tendência do autor, haverá maiores razões para acreditar nele, uma vez que o viés do autor nos levaria a esperar sua omissão, a menos que sua ocorrência fosse tão bem conhecida que não pudesse ser excluída". Murphy esta utilizando justamente o exemplo do batismo de Jesus por João, como um exemplo do "papel dos fatos nos relatos históricos", "uma vez que o viés de todos esses escritores [os evangelistas] vai contra a inclusão do batismo, o fato de três deles o mencionarem, dois deles contra a vontade, depõe em favor da autenticidade do acontecimento em Marcos"[5]

No entanto, Casey considera ambos os critérios limitados no sentido que os casos claros e bem definidos de multipla atestação e constrangimento são relativamente raros nos evangelhos [6]. Ele então endossa a percepção de Gerd Theissen [6], que coloca o Critério da Plausibilidade Histórica e Adequação ao Contexto como um dos pilares da pesquisa do Jesus Histórico, como também já vimos aqui no Adcummulus nos dois primeiros posts dessa Série. Casey acrescenta que nossas fontes primárias unanimemente e sem ambiguidade colocam Jesus no contexto do judaísmo do I século, o que implica que o Jesus obtido pela reconstrução histórica deve ser compreensível nesta matriz cultural. Assim quando uma determinada peça de informação sobre Jesus ou aqueles que o circundaram no seu ministério se adequa àquele período histórico específico, e ai somente, isso constitui um forte argumento em favor de sua historicidade. [6]

Casey usa como exemplo de evento autenticado pelo critério da plausibilidade o fato de que Marcos relata que, após realizar um exorcismo na Sinagoga de Cafarnaum (Marcos 1:23-27) e curar a febre da sogra de Pedro (Marcos 1:30-31) em um sábado:Casey observa:

E, tendo chegado a tarde, quando já se estava pondo o sol, trouxeram-lhe
todos os que se achavam enfermos, e os endemoninhados (Marcos 1:32)"
Carrying burdens on the sabbath was against the Law (Jer 17:21-22). and anyone who was tried to carry a sick person should understand that the person is so heavy and difficult to carry that bringing this under the prohibition of carrying burdens is almost inevitable. This is why Mark's note of the time is so careful. The Sabbath ended when darkness fell. 'When evening came' might not be clear enough: "When the sun had set" settles it - his audiences would know that people carried other people only when the sabbath was over, so as not to violate the written law. It follows that this report cannot be the work of the early church, who were not interested in such matters: it must go back to a real report transmitted during the historic ministry, when this observance of the written law mattered, and everyone took this for granted that a careful note of this time was sufficient to bring it to mind. It is also therefore powerful evidence of Jesus' sucessful ministry of exorcism and healing" (tradução) Carregar peso no sábado era contra a Lei (Jr 17:21-22). E qualquer um que já tentou transportar uma pessoa doente sabe qunto é pesado e difícil de carregar, e englobar isso sob a proibição de transportar cargas é quase inevitável. É por isso que Marcos é tão cuidadoso em especificar o momento. O sábado termina quando a noite cai. "Quando chegou a noite" pode não ser claro o suficiente: "Quando o sol se pôs" afasta qualquer dúvida - seu público saberia que os doentes foram carregados somente quando o sábado tinha acabado, de modo a não violar a lei escrita. Conclui-se que este relato não pode ser obra da Igreja primitiva, que não estavam interessada em tais questões: ele é derivado de fato real cujo relato foi transmitida durante o ministério histórico, quando a observância da lei escrita importava, e todos davam como certo que uma observação como essa era necessária. É também uma evidência, portanto, do poderoso e bem sucedido ministério de exorcismo e cura de Jesus [6]

Ou seja, o fato de que o relato marcano tenta demonstrar que Jesus não havia quebrado a Lei (ou compactuado com a sua violação) ao realizar a cura de um enfermo carregado no Sábado, é evidência de que a fonte a qual ele se baseou refletia esse tipo de preocupação, e não teria se originado da igreja gentia do final do século I, destinatária do evangelho de Marcos, para qual essas sutilezas pouco sentido faziam. Em suma, o episódio reflete uma realidade compatível com o judaísmo palestino da primeira metade do século I, em que Jesus viveu, ao mesmo tempo em que está desalinhada com a Igreja gentia dos anos 65 a 80 DC quando Marcos foi escrito.

Mt 14:29, Ilustração Manuscrito Armênio.

A Tese de Casey: O Critério dos Traços de Aramaico como essencial na pesquisa do Jesus Histórico

No entanto, a principal proposta de Casey quanto a metodologia se refere ao uso do critério de traços de aramaico. Casey não inventou o critério. Muitos estudiosos vislumbraram  sua utilização, partindo do ponto óbvio de que Jesus, sua família, discípulos, seguidores e oponentes falavam aramaico, e que nos anos seguintes a sua morte as tradições e memórias orais foram transmitidas nessa lingua, e somente uma ou duas gerações depois foram incorporadas aos evangelhos escritos em grego que, mesmo assim, conservam um razoavél número de expressões na lingua materna de Jesus que poderiam, teoricamente, indicar a presença de fontes mais antigas e que remontam ao Jesus histórico.
No entanto, o critério dos traços de aramaico nunca conseguiu se firmar. Por exemplo, ao mencionarmos aqui no adcummulus, a discussão de John P Meier, sobre critérios de historicidade, o de traços de aramaico é relegado ao nível de critério secundário [7]. Casey atribui esse estado de coisas a três motivos i) até recentemente a base de escritos em aramaico para aquela região e período era limitada ii) Em parte por causa de i) os poucos estudiosos que tentaram utilizar os traços de aramaico na pesquisa histórica  não possuiam controles eficientes sobre seus métodos iii) a maior parte dos pesquisadores de novo testamento e Jesus histórico não são proficientes em aramaico. [8]
Mas Maurice Casey anuncia uma nova era. Com a descoberta dos manuscritos do Mar Morto, em 1948,  e de vários outros textos em aramaico da Síria e Palestina do início da Era Cristã, a base de dados aumentou consideravelmente, e, dessa forma, o critério dos traços de aramaico pode ser  reformulado e utilizado com proveito [8].
A proposta de Casey é utilizar o critério de traços de aramaico em conjunção com o de plausibilidade histórica. Assim, ainda que escritos em grego, os evangelhos atribuem várias expressões em aramaico a Jesus, e essas são mais comuns justamente em nossa fonte mais antiga, o evangelho de Marcos. Adicionalmente, também em Marcos, encontramos expressões em grego que parecem fazer pouco sentido, mas seriam mais inteligíveis em aramaico, e vários desses ditos e narrativas, segundo Casey, atendem o critério de plausibilidade histórica. [8] Além disso, os traços de aramaico em Marcos, tanto em termos incorporados ao texto grego quanto outros que parecem ter sido mal traduzidos do aramaico, em situações que se encaixam bem na realidade da Judéia e Galiléia da primeira metade do sec. I DC, levaram Casey a postular a existência de fontes aramaicas compostas poucos anos após a morte de Jesus, que foram utilizadas por Marcos, e na fonte Q, nos seus livros Aramaic Sources of Mark's Gospel e Aramaic Approach to Q: Sources for the gospels of Matthew and Luke.
Uma exemplo citado por Casey [9] é Marcos 1:41,
 Jesus, pois, compadecido dele, estendendo a mão, tocou-o dizendo: Quero; sê limpo (...)
Agora, vejamos a mesma narrativa em Mateus (8:3):
Jesus, pois, estendendo a mão, tocou-o, dizendo: Quero; sê limpo (...)
E em Lucas (5:1):
 Jesus, pois, estendendo a mão, tocou-lhe, dizendo: Quero; sê limpo (...)
Mas porque Lucas e Mateus omitem a compaixão de Jesus?

Casey toca aqui em um problema de crítica textual bastante conhecido, de uma variação entre os termos compadecido e zangado. Como observa o Professor Bart Erhman, da Universidade da Carolina do Norte alguns antigos manuscritos do evangelho de Marcos tem orghistheis (irritar/irritando-se) ao invés de splangnisteis (compadecer/compadecido), e que essa variante dataria, no mínimo, do século II. [10]. Embora a variante do Jesus irado seja menos "popular", a possibilidade de que seja a versão original é grande. Em primeiro lugar, que os copistas tivesse preferido o Jesus compadecido ao Jesus zangado é plenamente compreensível, o contrário, porém, é absurdo. Em segundo lugar, e mais importante, no final do século I, Lucas e Mateus usaram o Evangelho de Marcos como fonte, e, se repetem verbatim o que ele escreveu nesse ponto, porque omitiriam a compaixão de Jesus? Talvez porque em suas cópias do evangelho de Marcos, Jesus estivesse com raiva e não compadecido. Mas mesmo se aceitarmos a variante textual como autêntica, a raiva de Jesus faz pouco sentido no contexto. Porque Jesus estaria com raiva do pobre leproso? Em suma, a variante do "Jesus compassivo" é duvidosa diante do testemunho textual, enquanto o "Jesus raivoso" parece deslocada do contexto.

Casey então usa o seu domínio do aramaico, e propõe uma solução, em minha opinião, brilhante:

"The aramaic source will have read regaz. This word often does mean "be angry", which is why Mark translated it with orgistheis. But the aramaic regaz has a wider range of meaning than "be angry", including "tremble" and "be deeply moved". Accordingly, Mark did not mean that Jesus was angry. He was suffering from interference, the influence of one of his languages on another. All bilinguals suffer from interference, especially when they are translating, because the word which causes the interference is in the text which they are translating . In Mark's mind, the greek word for being angry (orgistheis) also mean "tremble" or "be deeply moved", because this was the range of meaning of the normally equivalent aramaic word in front of him. (tradução) A fonte aramaica, devia usar o termo regaz. Este palavra frequentemente significa "estar com raiva", razão pela qual Mark traduziu com "orgistheis". Mas o aramaico regaz tem um leque mais amplo de significação do que "ficar com raiva", e  inclui "tremer" e "ficar profundamente comovido". Assim, Marcos não quis dizer que Jesus estava com raiva. Ele estava sofrendo interferência, a influência de um de seus idiomas em outro. Todos os bilíngües sofrem de interferência, especialmente quando traduzem, porque a palavra que causa a interferência esta no texto que se quer traduzir. Na mente de Marcos, a palavra grega para estar zangado (orgistheis) também significa "tremer" ou "ser profundamente comovido", porque essa era a gama de significados da palavra aramaica normalmente equivalente a sua frente. [11]

Essa abordagem resolve uma série de problemas, principalmente por dar sentido a uma passagem cujo original era, provavelmente, confuso. Além disso, em outra parte do livro, Casey observa que Lepra no texto bíblico designa uma série de doenças de pele, e até o crescimento colônias de fungos em residências. De fato, ele acrescenta que nenhuma das descrições dessas enfermidades no texto bíblico parece condizente com a Hanseniase, e, mais ainda, como já discutimos aqui no adcummulus, algumas dessas doenças de pele tem seus sintomas desencadeados ou agravados por vetores psicosomáticos, e portanto a ação de curandeiros e carismáticos pode ser bem sucedida [12], como também já vimos aqui no adcummulus.

Casey utiliza um outro exemplo em Marcos 2:23
 E sucedeu passar ele num dia de sábado pelas searas; e os seus discípulos, caminhando (ou abrindo caminhos), começaram a colher espigas.
E compara com Mateus (12:1):
Naquele tempo passou Jesus pelas searas num dia de sábado; e os seus discípulos, sentindo fome, começaram a colher espigas, e a comer
E Lucas (6:1)
E sucedeu que, num dia de sábado, passava Jesus pelas searas; e seus discípulos iam colhendo espigas e, debulhando-as com as mãos, as comiam.
Entre os preceitos de proteção dos pobres da Lei Mosaica, temos em Levitíco 23:22 que "Quando fizeres a sega da tua terra, não segarás totalmente os cantos do teu campo, nem colherás as espigas caídas da tua sega; para o pobre e para o estrangeiro as deixarás. Eu sou o Senhor vosso Deus". Ou seja, a Lei estabelecia que os fazendeiros deveriam deixar os cantos (ou seja, às áreas adjacentes a caminhos e trilhas existentes) e as espigas caidas da colheita para que os necessitados, famintos e viajantes obtivessem
alimento ao passarem pelas trilhas circundantes. Não havia, a princípio, problema em os díscipulos fazerem isso, ainda que a questão do Sábado tinha potencial para causar controvérsia, uma vez que poderia ser considerado trabalho.  No entanto, o grego de Marcos dá a entender que Jesus e seus díscipulos "abriram caminhos" por entre a plantação, não se contentando em colher as espigas nas plantas adjacentes as trilhas existentes. Isso seria considerado uma séria ofensa a Lei, abusando do dono do campo ao recolher as espigas que estavam destinadas a sua atividade econômica e não aos pobres. (Quase uma versão galiléia ano 30 do ditado "Dou a mão, e vocês querem o braço!!!").

Mateus e Lucas parecem ter percebido o problema, e omitem a referência a "abrir caminhos", acrescentando que as espigas foram colhidas porque os discípulos estavam com fome (Mateus) ou debulharam com as mãos e comeram imediatamente, implicando que tiraram do campo apenas o necessário para suas necessidades imediatas, sem carregar nada (Lucas). Casey comenta a questão:

Mark's Greek, however, says that the disciples were making a path, a serious offence which does not figure in the subsequent dispute. Hence neither Matthew nor Luke repeats it. Mark's Greek is however easy to understand as a slight misreading of a single aramaic word. Mark's Aramaic source will have read lema'ebhar, so they began "to go along" a path, which everyone was perfectly entitled to do on the Sabbath, so the Pharisees had no reason to object to this. This has been slightly misread as lemaebhadh, "to make" with "d" (ד)  rather than "r" (ר) as the final letter, by a translator who was again suffering from interference. Mark will have had a text written on something like a wax tablet or a shett of papyrus, and these could be difficult to read. Moreover, in Aramaic, the letters 'r' (ר) and 'd'(ד), very similar in the square script which I have printed here, were often virtually indistinguishable in an ancient written text. This is how the translator came to misread the text. Similar mistakes occur in the Septuagint, the only surviving translation of the whole Hebrew Bible into Greek [13] (tradução) O grego de Marcos, no entanto, diz que os discípulos estavam abrindo um caminho, uma ofensa grave, que não é mencionada na disputa seguinte. Assim, nem Mateus, nem Lucas repete isso. O grego de Marcos é, contudo, fácil de entender como um leve erro de tradução de uma única palavra aramaica. A fonte aramaica de Marcos teria lema'ebhar, então eles começaram a "ir pelo" caminho, algo que era perfeitamente permitido de se fazer no sábado, assim os fariseus não teriam porque se opor a isso. O que foi levou a uma pequena confusão como lemaebhadh, "fazer" com "d" (ד) ao invés de "r" (ר) como a letra final, por um tradutor que estava novamente sofrendo interferência. Marcos tinha provavelmente um texto escrito em algo como uma tábua de cera ou uma folha de papiro, e estes poderiam ser difíceis de ler. Além disso, em aramaico, as letras 'r' (ר) e 'd' (ד), já são muito semelhantes na fonte que eu tenho impresso aqui, e muitas vezes virtualmente indistinguíveis em um texto antigo escrito. Assim podemos entender como tradutor interpretou mal o texto. Erros semelhantes ocorrem na Septuaginta, a única tradução remanescente de toda a Bíblia hebraica para o grego. [13].
O "abrir um caminho" pela plantação em Marcos, também não figura na controvérsia subsequente com os fariseus, que se centra sobre a observância do sábado, embora fosse um alvo fácil, caso se quissesse criticar Jesus. Como argumenta Casey, a melhor explicação é Marcos ter traduzido erroneamente sua fonte aramaica, algo plaúsivel pelo fato dos termos "ir pelo" e "fazer" um caminho serem extremamente semelhantes em aramaico e quase indistinguíveis.

Menino e a Virgem, Catacumbas de Roma, IV sec.
Uma tradução pode ser detectada às vezes pelo uso de construções que parecem estranhas no texto traduzido, mas fazem sentido em sua lingua original. Recentemente, a proliferação dos gerundismos, como os famigerados "nós vamos estar enviando", ou "estaremos entrando em contato com o Senhor brevemente", foram posts na alça de mira dos professores de português. Os gerundismos se originam de traduções literais do "future continuous" da lingua inglesa (I will be sending = Vou enviar), mais provavelmente, da tradução um tanto apressada de manuais de treinamento de telemarketing, onde construções verbais no "future continuous" eram muito comuns.

Casey faz menção a um caso semelhante  no evangelho de Marcos:
"Translations also affects the frequency with which words are used. For example, Mark uses the greek word for "begin" 26 times, far more than one would expect in a Greek document, and Matthew and  Luke have a strong tendency to remove it, though they have other examples of their own. The word for "begin" (archomai) is as normal in Greek as it is in English, but the Aramaic equivalent (sheri) is often used when to us means nothing very much, and this is what Matthew in particular seems not to have liked. He kept only six of Mark's  26 examples, and he has only 13 altogether. Examples include Mk 2.23, where the disciples "began to make a path". I have discussed 'make", and I pointed out that this is a mistake due to Mark's misreading of an Aramaic source. There should be no doubt that in this instance Mark has translated sheri literally from his aramaic source. Matthew omitted the incorrect "make a path' and edited the narrative to read "began tio pluck the ears" (Mt 12:1), while Luke omitted 'began to make a path" altogether. Mark's 26 examples should be attributed to his use of aramaic sources. This is part of an argument of cummulative weight for the dependence of our oldest gospel on written aramaic sources. [14]
(Tradução)
Traduções também afetam a freqüência com que as palavras são usadas. Por exemplo, Marcos utiliza a palavra grega para "começar" 26 vezes, muito mais do que esperaria em um documento grego, e Mateus e Lucas têm uma forte tendência para removê-lo, embora tenham alguns outros exemplos próprios. A palavra para "começar" (archomai) é usada com frequência semelhante em grego quanto em em inglês, mas o equivalente aramaico (Sheri) é muito frequente, utilizado mesmo quando para nós não significa nada especifico, e é isso que Mateus, em particular, parece não ter gostado . Manteve apenas seis dos 26 exemplos de Marcos, e, ao todo, tem apenas 13 exemplos em seu texto. Exemplos incluem Mc 2,23, onde os discípulos "começaram a fazer um caminho". Tenho discutido "fazer", e mostrei que isso é um erro devido à má interpretação de uma fonte aramaica por Marcos. Não deve haver nenhuma dúvida de que nestes casos Marcos traduziu sheri literalmente de sua fonte aramaica. Mateus omitiu o incorreto "fazer um caminho "e editou a narrativa para ler "então começaram a colher as espigas"(Mt 12:1), enquanto Lucas omitiu " começou a fazer um caminho "completamente. Os 26 exemplos encontrados em Marcos devem ser atribuídos ao seu uso de fontes  aramaicas. Esta é parte de um argumento de peso cumulativa para a dependência do nosso mais antigo evangelho de fontes aramaicas escritas.[14]
 Assim, como as traduções literais de de manuais de telemarketing que fizeram "I will be sending", significar "eu vou estar enviando", traduzindo literalmente (e indevidamente) o verbo to be e o gerúndio, Marcos teria traduzido literalmente o verbo "sheri" do aramaico como começar, mesmo em situações em que o grego dispensa essa forma verbal. Mateus e Lucas, por sua vez, tendem a eliminar esse vício desnecessário ao usar o texto de Marcos como fonte.

Concluindo, Casey utiliza vários outros exemplos de termos em aramaico e construções em grego que indicam a existência de uma fonte aramaica para o evangelho marcos. Ainda que alguns desses casos específicos possam ser contestados de forma bem sucedida, no todo, é possível perceber um padrão que aponta fortemente na utilização de fontes aramaicas escritas por Marcos, pelas razões citadas acima. Adicionalmente, grande parte dessas ocorrências é observada quando o evangelista descreve situações condizentes com a realidade cultural e histórica da Galiléia da primeira metáde do século I e dos judeus cristãos, como controvérsias sobre o sábado e a lei, ao passo  "em que está desalinhada com a Igreja gentia dos anos 65 a 80 DC quando Marcos foi escrito", como já dissemos acima, indicando de forma clara que a fonte desses elementos é Galiléia e Judéia do Ministério do Jesus Histórico, e não a criatividade das comunidades cristãs helenisticas. 

Referências Bibliograficas.

[1] Maurice Casey (2011) Jesus of Nazareth: An independent historian's account of his life and teaching, T & T Clark International, Londres,  fl. 2
[2]  Maurice Casey (2011) Jesus of Nazareth: An independent historian's account of his life and teaching, fls.3-44
[3] Maurice Casey (2011) Jesus of Nazareth: An independent (....), fl. 102
[4] Maurice Casey (2011) Jesus of Nazareth: An independent (....), fl. 105
[5] Murray G Murphey (2009), Truth and History, fl. 88

[6] Maurice Casey (2011) Jesus of Nazareth: (....), fls. 106-108
[7] John P Meier (1991), Um Judeu Marginal, Repensando o Jesus Histórico Vol 1, fls. 187-191, Ed. Imago
[8] Maurice Casey (2011) Jesus of Nazareth: (....), fls. 108-109
[9] Maurice Casey (2011) Jesus of Nazareth: (....), fls. 63-64
[10] Bart Erhman (2006), O que Jesus Disse? O que Jesus não disse? Quem mudou a Biblia e porque  fls. 146-147, Ediouro
[11] Maurice Casey (2011) Jesus of Nazareth: (....), fls. 63 
[12] Maurice Casey (2011) Jesus of Nazareth: (....), fls. 266-267
[13] Maurice Casey (2011) Jesus of Nazareth: (....), fls.64-65
[14] Maurice Casey (2011) Jesus of Nazareth: (....), fls.113-114








quinta-feira, 19 de abril de 2012

Professor Mark Goodacre traz a notícia.
Bart Erhmann, Professor da Universidade da Carolina do Norte em Chapel Hill, e autor de vários livros como "Jesus Apocaliptic Prophet of New Millenium" e "O que Jesus Disse? O que Jesus Não Disse" resolveu lançar seu próprio blog (que parece mais um portal) "Christianity in Antiquity, The Bart Erhman Blog".

Em sua postagem inaugural, Erhmann comenta o anuncio da descoberta de um fragmento de um manuscrito antigo do evangelho de marcos, supostamente do século I , feito justamente em um debate dele com Dan Wallace. Nós comentamos sobre isso aqui no adcummulus, faz alguns meses.

Parte do conteúdo do blog (ou portal, como queiram), é acessível apenas para assinantes. A proposta é que os valores pagos sejam destinados pela Bart Erhmann Foundation a causas sociais e de erradicação da pobreza.  




quarta-feira, 11 de abril de 2012

Faz alguns anos, eu escrevi uma série de posts sobre a imagem de Jesus como Mestre e Sábio, em alguns dos primeiros testemunhos não cristãos do século I e II. Na introdução, escrevemos:


"Jesus como homem sábio e mestre é uma das imagens mais presentes nos evangelhos. Ao fim do sermão do monte as "multidões maravilhavam-se de seu ensino porque as ensinava como tendo autoridade, e não como os escribas" (Mateus 7:27). Também na sinagoga de Cafarnaum (Marcos 1:22). Em uma das mais antigas confissões credais da Igreja Primitiva, Jesus é chamado de profeta poderoso em palavras e atos (Lucas 24:19; Atos 2:22 e 10:38). A fonte Q, assim chamada por conter material comum a Mateus e Lucas, não encontrado em Marcos, é formada basicamente por ditos e ensinos. Na literatura apócrifa temos também importantes testemunhos dessa imagem. (http://adcummulus.blogspot.com.br/2009/05/jesus-como-mestre-e-sabio-na-visao-das.html)



Naquela ocasião, nós abordamos Josefo, Mara Bar Serapion, Luciano de Samosata e Galeno.

Esses foram os meus primeiros posts aqui no Adcummulus. E ficamos muito felizes com a oportunidade de interagir com essas fontes, e quando os posts foram publicados na seção de Novo Testamento do Biblical Studies Carnival XLII (maio de 2009).

Desde então, revisitamos a referência em Josefo algumas vezes, principalmente ao discutirmos o Testemunho Flaviano.

Por isso é importante apresentar a opinião de um estudioso do porte de Geza Vermes. Há algum tempo, ele escreveu sua peça anual para a revista Slate, onde ele analisa as referências de Josefo a Tiago, Irmão de Jesus, João Batista e o Testemunho Flaviano.

Jesus, in the Eyes of Josephus (Geza Vermes)

Ele conclui pela autenticidade das duas primeiras referências, e de um núcleo autêntico no Testemunho Flaviano, que descreveria a crucificação de Jesus, e sua atuação como "Homem Sábio" e 'Realizador de Feitos Controversos", e ressalta a significância dessa menção para os estudos de Jesus Histórico.


(Geza Vermes) Both "wise man" and "performer of paradoxical deeds" take us to plain Josephus territory. Great biblical and post-biblical characters like the priest Ezra, the miracle-worker Honi-Onias (Hame'agel, the circle-maker), and the Pharisaic leader Samaias are regularly portrayed as "just men" and John is called a "good man". More specifically, the legendary King Solomon and the Prophet Daniel carry the title of "wise man", and the miracle-working prophet Elisha is said to have performed "paradoxical deeds". The notion of a paradox is commonly used by Josephus in relation to extraordinary events caused by God (the manna or the burning bush) and to miracles performed by Moses (Ant. 3:37-38) and by the prophet Elisha (Ant. 9:182).
In contrast, the phrase "wise man" has no New Testament parallels in reference to Jesus and falls far short of an honorific title that a Christian forger would choose to describe the divine Christ. Note that in Paul "wise man" has a pejorative onnotation (1 Cor 1:18-31) and in a saying of Jesus "the wise" are unfavourably compared to "babes" (Mt 11:25; Lk 10:21). Furthermore, a Christian interpolator would be presumed to use phrases borrowed
from the New Testament such as "mighty deeds" or "signs" instead of the neutral "paradoxical deeds". The term "paradoxical" is found only once in the New Testament on the lips of uncommitted witnesses of a Gospel miracle (Lk 5:26).
e
So by portraying Jesus not unsympathetically, yet without fully embracing his cause, he achieved what none of his ancient Jewish successors managed to do: he sketched a non-partisan picture of Jesus. The Testimonium lies half way between the reverential portrait of the early church and the caricatures of the Talmud and of the early medieval Jewish lives of Jesus (Toldot Yeshu). In conclusion, what seems to be Josephus's authentic portrait of Jesus depicts him as a wise teacher and miracle worker, with an enthusiastic following of Jewish disciples who, despite the crucifixion of their master by order of Pontius Pilate in collusion with the Jerusalem high priests, remained faithful to him up to Josephus's days.


quinta-feira, 5 de abril de 2012



Eu entendo que para aqueles interessados nas origens do cristianismo e no judaísmo do segundo templo, uma das maiores dificuldades é identificar e encontrar fontes acessíveis e confíaveis. Muito do que se encontra se perde em polêmicas ou apogética contra ou a favor do cristianismo. Além disso, muitas vezes as fontes não são citadas, ou não são confiáveis, ou citadas de forma distorcida.


Portanto, para suprir essa lacuna, e como já haviamos feito, apresentamos abaixo artigos acadêmicos acessíveis ao público leigo. Verdadeiro ouro garimpado da internet.



1) Messianismo e Pretendentes Messiânicos: O Professor Jona Lendering, lecionou Teoria da História e História Antiga na Universidade Livre de Amsterdã, e é um dos fundadores da Livius Onderwijs, associação de professores voltados para a historia antiga, sediada em Amsterdã, que promove cursos e palestras sobre a Antiguidade Clássica. Já haviámos falado do trabalho de Lendering sobre o Jesus Histórico em um dos posts da Série Quem Eles dizem que Eu Sou, junto com Martin Goodman, John P Meier e André Chevitaresi.


Lendering aborda o fenômeno do Messianismo em vários artigos, que abrangem as origens do conceito (o ritual da unção do Rei, nos profetas e salmos messiânicos, e figuras como o Rei Josias, o Imperador Ciro, e Zorobabel). Também analisa a evolução histórica do conceito de Messias, desde os Macabeus até a destruição do Templo, com suas várias facetas "Um Rei e Lider Militar como Davi", "Um profeta como Moisés", "um Mestre de sabedoria como Salomão", ou um "Sacerdote como Melquisedeque".

Lendering também discute os líderes que reivindicaram a condição messiânica, ou foram vistos assim por seus seguidores, como Simão de Peréia, Judas Galileu, João Batista, e, obviamente, Jesus de Nazaré, avaliando fontes históricas como os evangelhos, Josefo e Tácito.

O leitor pode seguir os links acima, ou ir direto para o overview aqui.


2) Análise Histórica dos Evangelhos: Samuel Nunes dos Santos (2011) O Evangelho de Lucas Enquanto Fonte Histórico-Biográfica. Revista Jesus Histórico e sua Recepção - Ano IV [2011] - volume 7, fls. 89-110.

Resumo: O nosso objetivo no presente artigo é avaliar o evangelho de Lucas enquanto uma fonte histórico-biográfica. Para tanto, analisaremos algumas palavras/expressões contidas no texto grego em que ele foi escrito e sua vinculação com o trabalho de um historiador em aspectos tais como: caráter narrativo, discurso de verdade, organização dos fatos, pesquisa. E, apresentaremos, em forma narrativa, uma síntese das informações colhidas em Lucas sobre o Jesus Histórico.
Palavras-Chave: Fonte Histórica, Biografia, Jesus Histórico, Discurso de verdade

O uso dos evangelhos como fonte histórica é tema constante aqui no blog, tal como na série, em progresso, "Quem Eles Dizem que Eu Sou", em que buscamios apresentar como vários estudiosos abordam a questão. O artigo de Samuel dos Santos é muito interessante pois aborda de forma muito sensata e equilibrada as limitações dos evangelhos enquanto fontes históricas, que, contudo não inviabiliza sua utilização, situando suas virtudes e limitações no contexto mais amplo de outros escritos da Antiguidade Clássica. Ele conclui:

(Samuel Nunes dos Santos) "Por fim, podemos constatar que o Evangelho de Lucas possui diversos fragmentos biográficos passíveis de análise histórica, ricos em detalhes úteis na construção de uma Vita de Jesus. Pode-se observar que os aspectos histórico-biográficos detectados no evangelho, atribuído ao evangelista Lucas, revelam o interesse não de escrever uma biografia, mas de relatar eventos históricos. Sua preocupação é com os “fatos que entre nós se cumpriram”, e neles o seu principal personagem é Jesus. O relato destes fatos, o autor deste evangelho os denomina de tratado (loghon) em Atos 1.1: “Fiz o primeiro tratado, ó Teófilo”.
Verificamos então que o Evangelho de Lucas não é uma obra biográfica sobre Jesus. Lucas escreveu em um gênero que estava nascendo naquele século: o evangelho. Nele se inseriram parábolas, sentenças, narrativas, alegorias e também fragmentos biográficos. O que se vê nele é uma variedade de gêneros muito grande. É coerente a afirmação de Klaus Berger que diz haver uma multiplicidade de gêneros nos Evangelhos, entre eles a biografia (KLAUS BERGER, 1998: 5-6). O material biográfico existente no evangelho lucano é suficientemente rico em detalhes da vida e pessoa de Jesus, o que possibilita a grande utilidade deste evangelho como fonte histórico-biográfica."[O Evangelho de Lucas Enquanto Fonte Histórico-Biográfica, fl. 19 (pagina 107)],

Outros artigos como este podem ser encontrados na Revista Jesus Histórico., publicada pelo IFCS/UFRJ.

domingo, 1 de abril de 2012

Somente os idiotas armazenam na sua memória ferramentas para as quais não têm uso. É o desafio vital que excita o pensamento.
Rubem Alves, "Sobre homens e moluscos"


James D. G Dunn é Professor Emérito de Divindade na Universidade de Durham, ocupando a cadeira de John B. Lightfoot . Ele possui Ph.D. e D.D. na Universidade de Cambridge e M.A. e B.D. na Universidade de Glasgow. Foi presidente do Studiorum Novi Testamenti Societas, liderando o corpo internacional para os estudos do Novo Testamento.

É mais conhecido por ser um dos “campeões” da, assim nomeada ( ele mesmo foi o expoente a utilizar esta nomenclatura, ainda que posteriormente muitos problematizaram que ela abrange um leque de posições de estudiosos bem diversa) “Nova Perspectiva sobre Paulo". No Brasil a Editora Academia Cristã publicou a respeito suas obras monumentais “Nova Perspectiva sobre Paulo”  e a Paulus publicara “A Teologia do Apóstolo Paulo”. Porém ele despontou com trabalhos inovadores, fecundos, polêmico, concisos e abrangentes sobre a pneumatologia nas origens cristãs. Livros como “Baptism in the Holy Spirit”, “The Christ and the Spirit (vl 1): Christology” e “The Christ and the Spirit (vl 2): Pneumatology” possuem lugar garantido em todos os debates com preocupação acadêmica, acerca do tema.

Aqui faremos um recorte em seu trabalho acerca da questão do “Jesus Histórico”, buscando fazer uma breve e simples apresentação de sua perspectiva e proposta metodológica e epistemológica que oferece uma linha de trabalho peculiar; neste momento não aprofundarei em termos mais específicos acerca das descrições que o autor faz sobre o que considera histórico no ministério de Jesus. Devido a questões de tamanho e propriedades inerentes de visualização de blog, me ative a notas e citações que julguei imprescindíveis para ajudar na compreensão.

*Obs: os trechos de citações estão em tradução livre direta, por questões de espaço; caso se solicite, poderei com prazer repassar os originais em inglês.



Introdução 

O livro em que emergira onde reuniu e organizou dados e tratamentos, as referências e argumentos de diversos trabalhos publicados, é o massivo “Jesus Remembered”.

Ele está dividido em cinco partes. Dunn abre com uma discussão sobre "Fé e Jesus Histórico”. Aqui, ele re-conta a história da ascensão da pesquisa crítica em Jesus e no início do Cristianismo. Parte 2: "A partir dos Evangelhos de Jesus", procura mais uma vez reconstruir o que podemos realmente saber sobre o Jesus dos Evangelhos . Tendo o material peneirado , Dunn, em seguida, aborda as questões de " Missão de Jesus” (parte 3), “auto-compreensão de Jesus” (parte 4), e “morte de Jesus, ressurreição, recordação e entre os seus seguidores” (parte 5).

"Jesus Remembered" é o primeiro volume de sua monumental série acerca dos primeiros 120 anos de cristianismo, “Christianism in Makind” (na qual também faz parte “Beginning from Jerusalem”), uma tentativa de "dar uma descrição integrada e fazer análise, tanto histórica e teológica, quanto social e literária dos 120 primeiros anos ou mais do cristianismo"("J.R.", p. 6). Dunn acredita que "Há três grandes questões para os alunos do início do Cristianismo: (1) O que havia em Jesus que explica tanto o impacto que ele acarretou sobre seus discípulos e por que ele foi crucificado? (p.2) Como e por que aconteceu que o movimento de Jesus que decolou depois de sua morte não permanecera dentro judaísmo do primeiro século e se tornou inaceitável para o judaísmo rabínico emergente? (3) o cristianismo que surgiu no segundo século foi como uma religião predominantemente de gentios, essencialmente o mesmo que sua versão do primeiro século ou significativamente diferente em caráter gentio? " (p 3).



Problematização com Crítica das Formas

Tradicionalmente, a metodologia da Crítica das Formas busca retirar acréscimos secundários para chegar no que é realmente factual em cada passagem, caso haja algum. Ela então concebe como aspecto básico do caráter da composição dos evangelhos, que foram uma composição a partir de um mosaico de pequenas unidades fragmentárias, transmitidas oralmente através de coletivos anônimos, de modo informal e sem controle; moldadas comunitariamente às situações vivenciais do contexto em que foram compiladas reunindo-se os fragmentos independentes e colocadas sob uma moldura no ato de escrita. [1]

De acordo com o pensamento de um dos seus principais nomes, "O que as fontes nos oferecem é, antes de tudo, a mensagem da comunidade cristã primitiva, que, na maior parte a Igreja livremente atribuíra a Jesus" (Bultmann, Jesus, 12).

Dunn faz uma análise crítica destes postulados. Uma de suas provocações reverbera: "Poucos hoje, se há alguém, assumem que as fontes escritas levam o leitor de volta diretamente para o Jesus que atuou e ensinou na Galileia três ou mais décadas antes" (Jesus Remembered, p.173)

O pesquisador infere aguçadamente que “a ‘configuração padrão’ do ‘paradigma literário’ , ou seja, o ponto de vista que os autores dos evangelhos sinóticos foram literariamente dependentes uns dos outros” (geralmente levando em consideração a forma de Mateus e Lucas , dependendo de exemplares literários de Marcos e “Q” - nota minha) - "é demasiado limitado para explicar as complexidades da tradição de Jesus" (336) [grifo meu]. Ou seja, quem analisar de forma esmiuçada e também topicamente os Sinóticos pode ver os tipos de diferenças entre eles, mas grande número dessas diferenças dificilmente permite a conclusão de que, por exemplo, Lucas copiou Marcos só fazendo mudanças para atender às suas ênfases.

Usando gráficos regulares que apresentam os textos sinóticos em colunas paralelas e sublinhando os paralelos mais próximos, Dunn busca referências no trabalho de Kenneth Bailey, em "Informal Controlled Oral Tradition and the Synoptic Gospels”, sugerindo com rigor que as diferenças entre os paralelos sinóticos refletem uma interação complexa entre edição literária e o uso da tradição oral. Dunn também pesquisa de forma concisa o que ele descompactou em detalhes de numerosos escritos díspares sobre a unidade e a diversidade do judaísmo em que Jesus nasceu. Sugere que o critério orientador é o de fazer uma varredura ampla através da tradição sinótica sobre vários temas, procurando o que é, ao mesmo tempo mais característico e mais distinto, bem como o que é mais provável que seja autêntico.



A base: transmissão “informal e controlada”

Kenneth E. Bailey, Ph.D. em Novo Testamento, viveu por 47 anos no Oriente Médio, tendo sido professor de matérias sobre o Novo Testamento em diversas instituições, dentre elas o Biblical Department of the Near East School of Theology, em Beirut, e no Tantur Ecumenical Institute for Theological Research, em Jerusalém. Estudou diversos exegetas árabes cristãos antigos, como Ibn al’-Assãl, Ibn Al-Salíbí, e Ibn Al-Tayyib.

Neste clássico artigo ele postula que a forma como as sociedades das aldeias do Oriente Médio, marcadas pelo valor da tradição oral em reportar histórias, transmitem-nas, é feito em um ambiente informal, mas controlado. A imagem faz parte de uma reunião de aldeia onde a comunidade está a "preservar seu depósito de tradição" (Bailey, “Informal Controlled” p.6). [2]

Esta prática de "preservar as tradições tem alguns controles importantes que lhe são postos”. Primeiro, "Apenas aqueles dentro da comunidade que cresceram ouvindo as histórias têm o direito de recitá-las em reuniões públicas" ("Informal Controlled", p. 6) [grifo meu].

Em segundo lugar, às histórias que são importantes para a identidade das comunidades foi permitido alguma flexibilidade nos detalhes, mas os "tópicos centrais da história não podem ser mudados" (Bailey, "I.C.",p. 7) [grifo meu]. Bailey dá vários exemplos de como isso funciona na prática. Ele conta as ocasiões em que pediu a várias pessoas diferentes narrarem a mesma história. O que ele descobriu foi que cada vez lhe fora dito, essencialmente, a mesma história, com alguma flexibilidade, mas muitas vezes as linhas principais da história eram literalmente as mesmas, independentemente do contador. (p 10). Ele passa a observar que, analogamente para as comunidades cristãs dispersas, "lembrar as palavras e atos de Jesus de Nazaré foi afirmar sua própria identidade. As histórias tinham de ser contadas e controladas ou tudo o que fez eles serem quem eram estava perdido"(Bailey,"I.C.",p. 10).



A necessidade de uma abordagem que supere a crítica das formas clássica

Ao formular a metodologia de seu programa de estudo, Dunn insiste que maior atenção deve ser dada ao fato de que os materiais evangélicos foram derivados, não aleatoriamente, de tradição oral. Ele não põe de lado a “hipótese das duas fontes”, admite que existem paralelos entre os Evangelhos que dificilmente podem ser explicados por outro que não dependência literária (144 n . 15). Mas, ao mesmo tempo, ele insiste que a maneira usual de se utilizar a “hipótese das duas fontes” uma ferramenta de pesquisa simplesmente errada (248).

Enquanto ele aceita a evidência de Fonte de Ditos, ele é cético em relação a tentativas de detectar camadas literárias em Q ( “J.R.”, p. 467, nota 70 ) e rejeita a afirmação de que “Q” era o Evangelho apenas voltado para alguma comunidade , rejeitando assim o noção de uma comunidade Q”.[3]

Os Evangelhos não devem ser considerados como uma série de edições escritas dos documentos anteriores, a serem estudados de tal maneira a remover a camadas mais precoces para chegar à forma mais antiga da tradição. Em vez disso, a maioria dos paralelos entre o Evangelhos sinóticos, de fato exibem mais de características de “re-contagens” orais do mesmo evento: “variações dentro do mesmo” (“J.R.”, p.212)[grifo meu] , tal como seria de esperar para encontrar como o produto de um processo como o que os relatos contemporâneos de Kenneth Bailey na vida das aldeias no Oriente Médio. Ele ilustra este por um certo número de exemplos extraídos do Evangelho paralelos , todos os quais mostram que o paradigma literário simplesmente não serve ("J.R.", p.234).

  • Alguns exemplos; observe-se o que se tem de plena semelhança, dentre todo o conjunto:

Mateus 7,13-14 - Entre pela porta estreita (...) muitos são os que entram

e Lucas 13,24 - Esforçai-vos por entrar pela porta estreita, pois eu vos digo que muitos procurarão entrar e não conseguirão.

Mateus 10,34-38 - Não penseis que vim trazer paz à terra; eu não vim trazer paz, mas uma espada. Pois eu vim jogar um homem contra seu pai, uma filha contra sua mãe e a nora contra sua sogra. Aquele que ama pai ou mãe mais do que a mim não é digno de mim; e aquele que amar filho ou filha mais do que a mim não é digno de mim. Aquele que não tomar sua cruz e não seguir após a mim não é digno de mim.

Lucas 12,51-53 - Pensais que vim trazer paz sobre a terra? Não, eu vos digo, mas sim a divisão. Pois de agora em diante uma casa com cinco pessoas ficará dividida; ficarão divididos três contra dois e dois contra três, mãe contra pai e pai contra mãe, mãe contra filha e filha contra mãe, sogra contra nora e nora contra sogra.

Lucas 14,26-27 - Quem quiser vir após mim e não odiar seu pai e sua mãe, mulher e filhos, irmãos e irmãs, sim, e até sua própria vida, não pode ser meu discípulo. Quem não carrega sua própria cruz e vem após mim não pode ser meu discípulo. 

Ninguém que lê estes relatos duvidaria que eles são a mesma história. No entanto, são diferentes o suficiente para sugerir que eles podem não ter a mesma fonte textual. Se assumirmos que estes estão mais para serem como diferentes recontagens orais da história dentro de uma comunidade, transmitindo suas histórias pela tradição controlada informal, então faz sentido. A história básica é a mesma: 1) Jesus está com os seus discípulos em um barco, 2) uma grande tempestade surge enquanto Jesus está dormindo, 3) os discípulos acordam Jesus, 4) Ele repreende o vento e o mar e traz calmaria, 5 ) Jesus questiona a falta de fé dos discípulos. Várias linhas são lembradas literalmente (“J.R.”, p.. 217).


Implicações

Sua aceitação da hipótese das duas fontes é criticamente qualificada, não apenas pelo reconhecimento do uso de tradições independentes por Mateus e Lucas, mas também por sua hipótese de a transmissão oral da tradição. Advêm diferenças decorrentes da vida dos que estão envolvidos na tradição oral, em que a partir das variedades destas tradições paralelas se diz a redação literária. Disso ele tira duas implicações.

Primeiro, as fontes escritas foram moldadas pela transmissão oral das tradições que elas incorporam. Em segundo lugar, a transmissão oral da tradição continuou ao lado da escrita, remetendo para múltiplas performances de Jesus e as performances de várias testemunhas de Jesus, variações de desempenho na transmissão posterior da tradição, ou o desempenho dos escritores dos Evangelhos. Para Dunn, o modelo de variação de desempenhos orais prepondera sobre redação sobre a fonte (“J.R.” pgs 336 e 441 nota 42). [4]

O resultado é um Jesus que nunca está livre de interpretação, mas reconhece-se que essa interpretação começou com Jesus e com os seus seguidores antes do evento pascoal. Assim, o Jesus que emerge da investigação histórica como tal é sempre "o Jesus Recordado", que é o acessível para estudarmo-lo. Isso nos lembra que Jesus não é diretamente acessível mas só é conhecido através do impacto que ele fez sobre aqueles que viram-no e ouviram -no e na transmissão de suas memórias sobre ele. Estas memórias são interpretadas e não transmitidas de fatos nus; são múltiplas, envolvendo uma diversidade de interpretações.


Destaca-se daí que, para Dunn, as tradições sobre Jesus originam-se na memória da comunidade dos primeiros cristãos.  Pode-se supor com propriedade que o processo de tradição começou com a palavra inicial e/ou ato de Jesus (“A New Perspective on Jesus: What the Quest for the Historical Jesus Missed”, p. 239). Estas palavras e/ou atos foram então, memorizados na comunidade. A fé de seus discípulos foi, pelo menos indiretamente na sua forma básica, uma parte da personalidade de Jesus, assim temos acesso a Jesus Nazaré como é recordado e esta forma de percepção de sua herança derivou de uma parte de sua personalidade. Era um processo de recordação compartilhada e não devemos esquecer o papel contínuo das testemunhas transmissoras (“New Perspect on Jesus”,p. 242) [grifo meu].


A proposta

O caráter das fontes como a memória da comunidade também significa que o melhor método é procurar características e temáticas das tradições de Jesus ao invés de tomar episódios individuais isolados hermeticamente. Como por exemplo, os registros dos ensinamentos de Jesus no Evangelho estão saturados com referências ao Reino de Deus, e Dunn considera que é quase impossível explicar tais dados que não seja na suposição de que Jesus foi recordado como a falar muitas vezes sobre o assunto (“J.R.” p.384).

Assim, ele não procura basear a sua reconstrução no estabelecimento da autenticidade de ditos individuais ou em incidentes sem correlações contextuais mais amplas, mas pela coerência geral das fontes no pressuposto de que a tradição foi formada pelo impacto de Jesus durante seu ministério (pgs 332, 335). Ele descreve sua abordagem em termos do Realismo Crítico proposto por Bernard Lonergan e adotado por Ben F. Meyer e N. T. Wright ( “J.R.”, p. 110 nota 11 ).   [5] 

Emerge daí uma figura de Jesus com forte preocupação escatológica, com acentos apocalípticos para sua principal pregação, o “Reino de Deus”, em que na verdade chegara a passar por uma frustração por chegar a prever que sua vinda estava em iminência, mas que perseverara até o fim na coerência com sua missão para este Reino.

O futuro reino que Jesus anuncia estar próximo será uma das inversões escatológicas ( “J.R.” p.412, nota 17 ): haverá uma inversão de status, e os mais pobres herdarão o reino; o discipulado envolve força de vontade entre as dificuldades e um compromisso total; haverá um julgamento, sendo que é o juízo final que está explicitamente em vista ( “J.R.”, p.425).

As lembranças mais antigas nas quais Dunn se baseia com mais ênfase remetem a um círculo mais amplo de discípulos do que os Doze (pg. 239, nota 43). Ele considera que houve professores cristãos que serviram como o repositório de tradições congregadas por via oral (“J.R.” p. 176) [grifo meu], mas estes parecem terem sido referenciados como tais depois do ministério de Jesus. Dunn tem extrema cautela quanto a traçar os ensinamentos de volta para o grupo interno dos Doze e , em seguida, ao próprio Jesus, como se tivesse sido cuidadosamente controlada por meio de ensino memorização não parece explicar a divergências na tradição como tem chegado até nós.

Não só o núcleo estável, mas também a diversidade de performances pode voltar para múltiplas performances de Jesus ou das várias testemunhas no início (“J.R.” pg. 532, nota 34 , nota 42 , 660). O processo da tradição “precisa ser distinto da memória individual, ainda que pudesse ser descrita como uma memória corporativa que proporciona identidade ao grupo que assim recorda”. (“J.R.” p. 173). “Ao concentrar atenção particular sobre o caráter comunal do processo de transmissão primitivo, não deveríamos descartar a ênfase mais tradicional sobre a figura da autoridade individual, respeitada pela própria associação dele ou dela com Jesus durante os dias de sua missão”. (“J.R.”, p 243). “Onde mais os evangelistas encontraram a tradição? Armazenada, ociosa, em uma velha caixa, no fundo da casa de algum mestre? Armazenada, não recitada, na memória falha de um velho apóstolo?! Dificilmente.” (“J.R.” pg 250) [6] 

Assim, James D.G. Dunn acredita que "os primeiros transmissores dentro das igrejas cristãs [eram] preservadores mais inovadores... procurando transmitir, recontar, explicar, interpretar, elaborar, mas não criar de novo... Com o corpo principal da tradição sinóptica, creio eu, temos na maioria dos casos o acesso direto ao ensino e ministério de Jesus como foi lembrado [grifo meu] desde o início do processo de transmissão (que muitas vezes antecede a Páscoa) e de acesso de modo bastante direto ao ministério e ensino de Jesus através dos olhos e ouvidos daqueles que andavam com ele" (em "Messianic Ideas and Their Influence on the Jesus of History", in The Messiah, ed. James H. Charlesworth. pp. 371-372, citado em “J.R.” pg 653)

A transmissão da memória sobre Jesus fora marcada pelo dilema dos primeiros cristãos, sendo que à medida que ia se ficando mais amplamente nítido que se constituíam um grupo religioso à parte, “quase certamente teriam exigido uma história (ou histórias) fundacionais para explicar, a si mesmos tanto quanto a outros, porque haviam formado grupos sociais distintos” (“J.R.” p. 175). Isto reflete para ele, principalmente, nas passagens sobre atritos com os grupos judaicos. Ele aprofunda mais a respeito desta questão em "Jews and Christians: The Parting of the Ways, A. D. 70 to 135".



Dale C. Allison Jr. - " Este não é apenas um livro mais sobre Jesus, mas sim uma ampla apresentação, por parte de um estudioso renomado, das conclusões a que chegou durante a vida de reflexão e crítica bem informada. É cheio de bom senso e de muito aprendizado. Como sempre, o trabalho de James Dunn é caracterizado não só por uma familiaridade com o mundo judaico real de Jesus do primeiro século, mas também por um conhecimento sem igual da vasta literatura secundária. Especialmente sugestivo é o apelo consistente em continuar a tradição oral, o qual frequentemente parece justificado."

John P. Meier - " Durante décadas, James D.G. Dunn tem sido um líder no estudo sério e equilibrado de ambos: cristologia e história da pesquisa sobre Jesus. Tenho aproveitado muito de seus muitos livros e artigos e tenho o prazer de ler esta destilação maciça de seus muitos anos de reflexão e publicação sobre o Jesus histórico. Eu recomendo altamente “Jesus Remembered” para todos aqueles interessados ​​em uma abordagem séria e metodologicamente sofisticada para as grandes questões que atormentam e estimulam a pesquisa do Jesus histórico hoje."

Jonathan L. Reed - " 'Jesus Remembered' fornece um olhar fresco e completo das origens cristãs que é provocante e ao mesmo tempo criterioso em suas avaliações. James Dunn está igualmente em casa na história da pesquisa, nos detalhes dos Evangelhos, na matriz de fontes não bíblicas e na arqueologia do mundo de Jesus; e ele tece-os em um relato coerente e credível das tradições de Jesus."


NOTAS:

[ 1] para aprofundar mais, de forma acessível a iniciantes, indico “Literary Forms in the New Testament”, de James L Bailey e Lyle D. Vandeer Broek.


[2] Por Bailey: As narrativas históricas importantes para a vida do indivíduo da aldeia também se enquadram neste segundo nível de flexibilidade que prevê a continuidade e liberdade para a interpretação individual da tradição. Mais uma vez um exemplo ajudará a esclarecer esse aspecto do nosso tema. Há vinte e cinco anos atrás Makhiel Pai da aldeia de Dayr Abu Hennis contou-me sobre fundação da sua aldeia. Os romanos chegaram no século II e construiram a cidade de Antinopolis. 

Mais tarde, monges cristãos construíram um mosteiro na periferia da cidade para o fim específico de testemunhar sua fé na cidade pagã. Para sustentar-se eles fizeram cestas de folhas de palmeira para trabalhadores, mas ao invés de conferir às cestas as funcionais duas alças , os monges colocaram uma terceira alça ao lado. Como eles vendiam as cestas no mercado da cidade , os clientes foram atraídos pela qualidade e preço, mas ficavam surpresos com as três alças. 

" Por que você colocou três alças nestas cestas ? eles perguntavam . 

"Vejam bem", os monges respondiam” isso tem a ver com o que cremos". 

“Que interessante. Em que é que você crê?” vinham os questionamentos. 

 "Bem, nós sabemos que Deus é três em um , assim como esta cesta é uma cesta e ainda tem três alças", os monges poderiam responder. ("Informal Controlled” p. 8) 

Para Bailey, após a Queda de Jerusalém, houvera um colapso em estruturas de reprodução social de diversos povoados na Palestina, de forma se sentira necessidade de impetrar um maior controle formal sobre a tradição.


[3] tradição acadêmica fundamentada nos clássicos trabalhos de John Kloppenborg 


[4] Ver também Samuel Byrsokog “Jesus the Only Teacher”. Stockholm: Almqvist anda Wiksell, 1994.


[5]A reflexão de Lonergan quanto ao realismo crítico se dá no âmbito de um inquérito filosófico-teológico; ele afirma que o Realismo Crítico reconhece a distinção entre o mundo da experiência sensorial imediata e do mundo como mediado pelo significado (que é o mundo real), procurando conhecer o mundo sabendo que este conhecimento é mediado pelo significado.

Lonergan observa que "a mesma operação não só intenta um objeto, mas também revela um pretendido assunto", em que atentando para com o conhecimento, o conhecedor pode, de acordo com a própria estrutura do atentar, decidir "operar de acordo com as normas imanentes no relacionamento espontâneo do que foi vivido, compreendido, afirmado experimentar , compreender, julgar e decidir " ( Method in Theology, p. 15).


"É admitido que, uma vez que a verdade seja alcançada, é intencionalmente independente do sujeito que a alcançou: que é a auto-transcendente e meta da investigação. Mas o lar ontológico da verdade é o assunto. O objetivo não é alcançado à parte de um processo exigente, como a busca da verdade revela-se no indagar, transforma-se de indagação em indagação e de questionamento em resposta-questionamento, solicita reflexão sobre as respostas, e chega ao clímax no ato de julgar-se ser com certeza ou provavelmente verdadeira ou falsa. Todas estas são atividades do sujeito e não há objetividade sem todas elas. Verdade, decerto, amadurece na árvore do assunto, e a objetividade é o fruto da subjetividade na sua forma mais intensa e persistente" - Ben F. Meyer, ( Critical realism and the New Testament , pgs.139-140)

Esta [ i.e., o Realismo Crítico] é uma maneira de descrever o processo de "saber" que reconhece a realidade da coisa conhecida, como algo diferente do que é o conhecedor (daí o ‘realismo’), enquanto também reconhecendo plenamente que o único acesso que temos a esta realidade encontra-se ao longo do trajeto em espiral de diálogo adequado ou uma conversa entre o conhecedor e a coisa conhecida (daí o 'crítico’). Este caminho leva à reflexão crítica sobre os produtos do nosso inquérito sobre a ‘realidade’, para que nossas afirmações sobre ela reconheçam a sua própria provisoriedade. O conhecimento, em outras palavras, embora em princípio concebe a realidade independente da mediação do conhecedor, nunca é em si mesmo independente do conhecedor. - N.T.Wright, (The New Testament and the People of God, p. 35)


[6] O famoso erudito neotestamentário Charles H. Dodd realizou uma consistente arguição de que Atos 10, 34-43 constitui um quadro geral da pitoresca tradição narrativa oral de Pedro, em “Apostolic Preachings and it’s Developmens” (1944), abrindo um campo fecundo de pesquisa que ainda perdura entre os estudiosos, ainda que com variações de conclusões. Dentre este labor de identificar fontes de narrativas, quadros e tradições entre discípulos de Jesus, possuímos exemplos prolíficos e amplos, variando desde fontes entre mulheres, como Carla Ricci em “Mary Magdalene and Many Others: Women Who Followed Jesus”, 1994, em que, dentre outros postulados instigantes, vemos Joana (Lucas 8,3) como provável fonte, no material lucano (Atos e “L” em Lucas – além das complementações em materiais marcanos e em “Q” ou “Mateus” dependendo da teoria de fontes), no que se refere à corte e membros da corte herodiana; outros materiais derivariam de Tiago, como postulado por Bruce Chilton e Jacob Neusner em “The Brother of Jesus: James the Just and His Mission”, 2001. 


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