Estudos sobre Religião - Biblioblog

quarta-feira, 26 de agosto de 2026

 



1 INTRODUÇÃO: UMA HISTÓRIA DE CONFLITO POR TRÁS DA ORTODOXIA

A história do cristianismo primitivo costuma ser apresentada, sobretudo nas narrativas posteriores elaboradas pela tradição eclesiástica, como se a passagem do movimento de Jesus para uma religião predominantemente gentílica tivesse ocorrido de maneira relativamente contínua e orgânica. Nessa representação, Paulo aparece como o grande responsável pela abertura do cristianismo aos gentios, Pedro como a autoridade apostólica que gradualmente reconhece essa abertura e Tiago como o dirigente da comunidade de Jerusalém, cuja função teria sido preservar a tradição judaica sem necessariamente entrar em oposição fundamental ao projeto paulino. Essa imagem, entretanto, torna-se consideravelmente mais complexa quando se confrontam as diferentes tradições preservadas no próprio Novo Testamento e, sobretudo, quando se acompanha sua recepção posterior em ambientes judaico-cristãos. O que emerge não é simplesmente uma história de expansão missionária, mas uma disputa pela definição da própria identidade do movimento de Jesus: quem poderia ser chamado de cristão, qual relação deveria existir entre Jesus e a Lei de Moisés, que autoridade possuíam os apóstolos, qual missão deveria ser dirigida aos gentios e, finalmente, quem teria o direito de definir a verdadeira tradição de Jesus. É nesse campo de disputas que a relação entre Paulo, Pedro e Tiago adquire uma importância que ultrapassa a conhecida oposição entre "judaísmo" e "cristianismo". O problema parece ter sido, desde muito cedo, uma disputa intra-cristã pela legitimidade da interpretação da tradição judaica de Jesus.

O próprio Novo Testamento conserva sinais suficientemente fortes para impedir que imaginemos uma harmonia original entre todas as lideranças do movimento. Paulo afirma ter recebido sua missão por uma revelação independente e relata que somente posteriormente foi a Jerusalém para encontrar Cefas e Tiago (Gl 1,18-19). Mais significativa ainda é sua narrativa do incidente de Antioquia, quando afirma ter resistido publicamente a Pedro porque este, inicialmente, comia com os gentios, mas posteriormente se afastou deles por receio dos "da parte de Tiago" (Gl 2,11-14). Independentemente da interpretação que se dê à passagem, ela demonstra que, na memória preservada por Paulo, havia divergência concreta sobre a convivência entre judeus e gentios dentro das comunidades de Jesus. A questão não era meramente teórica. A mesa, a alimentação, a circuncisão e a observância da Lei constituíam mecanismos concretos de organização social, demarcação identitária e pertencimento. A presença de gentios dentro do movimento de Jesus obrigava seus dirigentes a responder a uma questão que possuía consequências muito mais profundas do que uma simples discussão ritual: seria possível pertencer ao povo messiânico sem incorporar integralmente as marcas sociais da identidade judaica?

É precisamente nesse ponto que Tiago se torna uma figura fundamental. O Tiago apresentado por Paulo não é um personagem periférico. Ele pertence ao núcleo de autoridades que Paulo procura encontrar quando vai a Jerusalém e aparece associado a Pedro e João como uma das "colunas" da comunidade (Gl 2,9). Em Atos dos Apóstolos, por sua vez, Tiago ocupa uma posição ainda mais elevada na comunidade de Jerusalém, sendo aquele que formula a decisão final no chamado Concílio de Jerusalém (At 15,13-21) e que posteriormente recebe Paulo quando este retorna à cidade (At 21,18-26). É necessário, evidentemente, reconhecer que Atos e Gálatas apresentam perspectivas diferentes e que a tentativa de harmonizar automaticamente ambas as narrativas pode ocultar justamente as tensões que interessam à investigação. A questão não é decidir simplesmente qual dos dois textos "está certo", mas perceber que a própria existência de versões distintas da relação entre Paulo e Jerusalém constitui um dado histórico relevante. Se Gálatas preserva a memória de uma disputa, Atos parece trabalhar literariamente no sentido de produzir uma narrativa de conciliação. A existência dessa dupla memória sugere que a relação entre Paulo e as autoridades de Jerusalém foi suficientemente problemática para exigir, posteriormente, diferentes formas de elaboração narrativa.

O problema torna-se ainda mais interessante quando deixamos de observar exclusivamente o século I e acompanhamos a maneira como determinadas tradições cristãs posteriores reconstruíram essas figuras apostólicas. É nesse segundo momento que entram em cena as comunidades judaico-cristãs, os grupos posteriormente classificados como ebionitas e a literatura pseudo-clementina. Não devemos simplesmente identificar todos esses fenômenos como se constituíssem uma única comunidade histórica contínua. A documentação não permite semelhante segurança. O que podemos observar, contudo, é a recorrência de determinados elementos: a autoridade de Pedro, a importância de Tiago, a permanência da Lei, a desconfiança diante de uma missão gentílica desvinculada da Lei e, em determinados textos, uma oposição explícita à autoridade de Paulo. O interesse histórico dessa recorrência é enorme. Ela sugere que a controvérsia registrada por Paulo não desapareceu com a geração apostólica. Ela foi reelaborada, reinterpretada e transformada em memória comunitária.

É nesse horizonte que as Kerygmata Petrou — as "Proclamações de Pedro" — adquirem importância extraordinária. Trata-se de um material pouco conhecido fora dos estudos especializados, mas particularmente revelador para compreender a formação de tradições cristãs alternativas àquela que posteriormente se tornaria normativa. Como observa Koester (2005, p. 224), as Kerygmata Petrou vão além de Mateus ao negar que Pedro possa ser utilizado como autoridade por aqueles que pretendem fazer dele o sucessor de Paulo em uma missão aos gentios desvinculada da Lei. A formulação é extremamente significativa: Pedro não é apresentado como aquele que legitima Paulo; ao contrário, sua autoridade é mobilizada para contestá-lo. Mais do que isso, Pedro aparece como defensor de uma missão aos gentios fiel à Lei, enquanto Tiago ocupa uma posição superior de autoridade sobre o ensinamento petrino. Nas Kerygmata, portanto, a hierarquia apostólica é reconstruída de tal maneira que Pedro e Tiago podem funcionar como instrumentos de uma crítica radical à interpretação paulina da missão.

O objetivo deste artigo não é sustentar uma genealogia simples segundo a qual Tiago teria fundado os ebionitas, os ebionitas teriam produzido as Kerygmata Petrou e a Igreja gentílica teria posteriormente eliminado essa tradição. Uma reconstrução desse tipo ultrapassaria aquilo que as fontes permitem afirmar. O objetivo é mais preciso: investigar como diferentes tradições cristãs disputaram a autoridade apostólica, a interpretação da Lei e a definição da identidade cristã, e como, nesse processo, determinadas comunidades judaico-cristãs passaram de participantes da disputa pela identidade cristã a objetos da classificação heresiológica. A hipótese central é que aquilo que posteriormente apareceu como "heresia judaica" pode ser compreendido, em perspectiva histórica, como o resultado de uma disputa assimétrica pela capacidade de definir a ortodoxia.



2 PAULO E JERUSALÉM: A CONTROVÉRSIA DENTRO DO PRÓPRIO MOVIMENTO DE JESUS

Uma leitura histórica de Gálatas impede que se trate o conflito entre Paulo e Jerusalém como mera construção de intérpretes modernos. Paulo afirma explicitamente que sua autoridade apostólica não deriva de uma transmissão humana ordinária. Seu evangelho teria sido recebido "por revelação de Jesus Cristo" (Gl 1,12), e sua primeira viagem a Jerusalém teria ocorrido apenas posteriormente. Quando chega à cidade, encontra Cefas e Tiago. O detalhe é importante porque mostra que, para o próprio Paulo, Jerusalém possuía uma autoridade que não podia simplesmente ser ignorada. Ao mesmo tempo, Paulo insiste na independência de sua missão. Ele não parece querer apresentar-se como subordinado a Jerusalém, mas também não pode ignorar o peso simbólico e comunitário das autoridades ali estabelecidas.

A situação torna-se mais clara em Gálatas 2. Paulo afirma que Tiago, Cefas e João eram reconhecidos como "colunas", mas logo em seguida relata o conflito de Antioquia. Pedro inicialmente comia com os gentios; depois, quando chegaram algumas pessoas "da parte de Tiago", afastou-se. Paulo interpreta o comportamento como incoerente com "a verdade do evangelho". A expressão revela o núcleo do problema: para Paulo, a integração entre judeus e gentios sem a plena incorporação destes últimos à identidade judaica fazia parte da verdade de seu evangelho. Para seus adversários, contudo, a questão poderia ser exatamente inversa. Se a identidade do povo de Deus continuava estruturada pela Lei, a mesa compartilhada sem as correspondentes fronteiras alimentares e sociais poderia representar uma ruptura com a própria tradição de Israel.

A historiografia especializada há muito reconhece que a controvérsia paulina sobre a Lei não pode ser reduzida a uma oposição simplista entre "religião da graça" e "religião das obras". O problema envolve identidade, etnicidade, pertencimento e organização comunitária. Dunn (1990) mostrou a importância das chamadas "obras da Lei" como marcadores identitários judaicos, enquanto Sanders (1977) demonstrou a inadequação de representar o judaísmo do Segundo Templo como uma religião baseada em uma espécie de "salvação pelas obras". O debate posterior tornou evidente que Paulo não estava simplesmente combatendo uma religião judaica supostamente legalista. Ele estava participando de uma disputa muito mais específica sobre como os gentios poderiam participar do povo messiânico.

Essa questão explica por que a controvérsia poderia assumir tamanha intensidade. Se os gentios podiam entrar no movimento de Jesus sem circuncisão, sem assumir integralmente as práticas alimentares judaicas e sem submeter-se à totalidade das prescrições da Lei, então a missão paulina alterava profundamente os mecanismos tradicionais de definição do pertencimento. A novidade não era apenas teológica. Era sociológica. Ela permitia a constituição de comunidades nas quais judeus e não judeus poderiam compartilhar uma identidade religiosa comum sem que os segundos precisassem transformar-se integralmente em judeus.

É justamente nesse ponto que podemos compreender por que determinados grupos judaico-cristãos poderiam considerar Paulo não apenas equivocado, mas perigoso. Se a Lei funcionava como estrutura de identidade, sua relativização alterava as fronteiras da comunidade. Paulo não estava simplesmente propondo uma nova interpretação de determinados mandamentos; sua missão produzia um novo modelo de comunidade. A controvérsia, portanto, não dizia respeito somente à doutrina. Tratava-se de uma disputa sobre a forma social do novo movimento.



3 TIAGO E A AUTORIDADE DE JERUSALÉM

Tiago ocupa posição particularmente interessante porque sua figura atravessa diferentes camadas da tradição. Paulo o apresenta como uma das principais autoridades de Jerusalém. Atos o transforma praticamente em árbitro da comunidade. A tradição posterior, por sua vez, faria dele uma das principais referências de um cristianismo profundamente vinculado às raízes judaicas.

Essa centralidade ajuda a explicar por que Tiago poderia tornar-se, posteriormente, uma autoridade particularmente útil para tradições anti-paulinas. Se Paulo podia reivindicar uma revelação direta de Cristo e uma missão independente, seus adversários poderiam responder utilizando uma autoridade de natureza diferente: a proximidade com Jerusalém, com os primeiros discípulos e com a própria família de Jesus. A questão deixa de ser "Paulo recebeu uma revelação?" e passa a ser "quem tem legitimidade para interpretar aquilo que Jesus realmente ensinou?"

É importante não transformar essa reconstrução posterior em descrição direta do Tiago histórico. Não possuímos documentação suficiente para afirmar que Tiago tenha desenvolvido exatamente a teologia que encontramos séculos depois nos textos pseudo-clementinos. O que podemos afirmar é que a memória de Tiago podia ser mobilizada para representar uma forma de cristianismo em que a continuidade com Israel, a Lei e a tradição apostólica de Jerusalém ocupavam posição central.

Essa distinção é essencial. A história das ideias não precisa pressupor uma cadeia institucional contínua para reconhecer uma continuidade de problemas. Pode haver continuidade temática sem continuidade institucional. O Tiago histórico do século I e o Tiago literário dos textos pseudo-clementinos pertencem a momentos diferentes; o segundo, porém, demonstra que a autoridade atribuída ao primeiro continuava sendo disputada séculos depois.

O mesmo fenômeno ocorre com Pedro. No cristianismo que se tornou majoritário, Pedro poderia ser apresentado como fundamento da Igreja e como autoridade apostólica universal. Nas Kerygmata Petrou, entretanto, sua autoridade é mobilizada de maneira diferente. Pedro aparece como alguém que preserva uma tradição fiel à Lei e que rejeita a ideia de ter pregado sua abolição. A autoridade petrina, em vez de legitimar a expansão paulina, é colocada contra ela.

É aqui que a disputa pela memória apostólica se torna decisiva. Não bastava afirmar que Paulo estava errado. Era necessário mostrar que uma autoridade apostólica maior apoiava a interpretação oposta. Pedro e Tiago ofereciam exatamente esse recurso simbólico.



4 AS KERYGMATA PETROU: PEDRO CONTRA PAULO

As Kerygmata Petrou representam provavelmente uma das manifestações mais contundentes dessa disputa. Koester (2005, p. 224) observa que Pedro está constantemente presente como defensor de uma missão aos gentios fiel à Lei, superior à missão atribuída a Paulo. As Kerygmata rejeitam explicitamente a ideia de que Pedro pudesse ter pregado a abolição da Lei. Seu ensinamento verdadeiro encontra-se registrado em suas palestras e é submetido à autoridade de Tiago de Jerusalém; na Contestatio, esse ensinamento é formalmente aprovado por Tiago. Tiago aparece, assim, como a autoridade inequívoca de um cristianismo fiel à Lei.

A construção literária é extraordinariamente reveladora. O problema não é apenas que a comunidade preserve a Lei. O problema é que ela reivindica para essa posição a autoridade dos próprios apóstolos. A tradição não se apresenta como inovação judaizante posterior. Ela procura mostrar que sua posição é justamente a forma original do ensinamento apostólico. Paulo, ao contrário, é representado como aquele que introduziu uma novidade ilegítima.

Essa inversão é fundamental. Na tradição que acabou prevalecendo, Paulo poderia ser celebrado como aquele que levou o evangelho aos gentios. Nas Kerygmata, a mesma missão pode ser apresentada como corrupção da tradição apostólica. A disputa, portanto, não se limita ao conteúdo doutrinal. Ela envolve a propriedade simbólica do passado cristão. Quem controla a memória de Pedro controla uma parte fundamental da legitimidade apostólica.

As Kerygmata vão ainda mais longe. Segundo Koester (2005, p. 224-225), a Lei não é apresentada simplesmente como conjunto de prescrições rituais. Ela funciona como princípio crítico mediante o qual a revelação pode ser compreendida. Isso significa que a discussão sobre a Lei é, simultaneamente, uma discussão sobre hermenêutica. A questão fundamental passa a ser: como distinguir a revelação verdadeira das alterações posteriores introduzidas na tradição?

A resposta oferecida pelo texto é particularmente interessante. Existem "perícopes falsas" que foram interpoladas nas Escrituras de Israel. A tradição judaica, por sua vez, não teria sido inteiramente confiável na transmissão desses materiais. O verdadeiro profeta, manifestado em Jesus, permitiria distinguir o que é verdadeiro do que é falso. A Lei, portanto, não é simplesmente descartada; ela é submetida a um processo de discernimento.

A consequência é importante para nossa investigação. A oposição entre cristianismo paulino e cristianismo judaico-cristão não pode ser descrita adequadamente como uma oposição entre "Lei" e "não-Lei". Trata-se, antes, de duas formas diferentes de reivindicar a verdadeira interpretação da revelação. A questão passa da prática para a epistemologia religiosa.

Paulo teria "insanamente" rejeitado o direito de apelar à Lei ou aos ensinamentos de Jesus, segundo a caracterização preservada por Koester (2005, p. 224-225). O vocabulário é obviamente polêmico e pertence à construção literária posterior. Seu valor histórico está justamente na intensidade da acusação. Paulo não aparece simplesmente como um intérprete alternativo; ele é apresentado como alguém que rompeu com a própria tradição de Jesus.



5 A "NOVIDADE" DE PAULO E A MEMÓRIA DA TRADIÇÃO

Moreschini e Norelli (1996, p. 274) observam que a obra parece assumir como valor positivo a censura de "novidade" frequentemente dirigida contra o cristianismo. Esse elemento é decisivo para compreender o funcionamento da polêmica.

"Novidade" é uma categoria particularmente poderosa em sociedades nas quais a antiguidade constitui fonte de autoridade. Se a verdade está associada à tradição recebida, o inovador pode ser acusado de falsificação. O problema é que o cristianismo, desde sua origem, apresentava uma situação paradoxal: proclamava a novidade escatológica de Jesus e, simultaneamente, precisava demonstrar continuidade com Israel e com as Escrituras.

As Kerygmata Petrou resolvem essa tensão deslocando a acusação de novidade para Paulo. A novidade não está na tradição judaico-cristã; está precisamente na interpretação paulina. A comunidade que guarda a Lei pode apresentar-se como conservadora, enquanto Paulo aparece como o inovador.

Esse mecanismo é sociologicamente relevante. Em uma disputa entre grupos religiosos, a acusação de inovação funciona como estratégia de deslegitimação porque transforma a reivindicação do adversário em ruptura com a tradição. Ao mesmo tempo, permite que o próprio grupo se apresente como guardião da continuidade.

Assim, encontramos uma inversão completa da narrativa que posteriormente se tornaria dominante. O cristianismo paulino poderia dizer: "Paulo libertou o evangelho das restrições da Lei". A tradição das Kerygmata poderia responder: "Paulo libertou-se da própria tradição de Jesus".

A controvérsia não poderia ser mais profunda.



6 OS EBIONITAS E O PROBLEMA DAS FONTES HERESIOLÓGICAS

É nesse ambiente que aparecem os chamados ebionitas. O primeiro cuidado metodológico é não tratá-los como se constituíssem uma comunidade perfeitamente homogênea, claramente identificável e diretamente descendente da comunidade de Jerusalém. O termo "ebionita" chega até nós principalmente por meio de autores cristãos que classificaram diferentes grupos como heréticos. Isso significa que nossa principal documentação sobre eles é, em grande medida, documentação produzida por seus adversários.

Ireneu de Lião já apresenta, no final do século II, grupos que reconhece como ebionitas e que mantêm forte vínculo com a Lei. Mais tarde, Epifânio de Salamina, no Panarion, oferece uma descrição muito mais detalhada. Segundo seu relato, aqueles que ele identifica como ebionitas estavam associados às regiões da Transjordânia, incluindo Gilead e Bashan. Eram apresentados como descendentes de Israel, circuncidados e observantes do sábado. O quadro descrito por Epifânio inclui ainda práticas alimentares particulares e uma relação muito peculiar com o Pentateuco.

É necessário, contudo, evitar uma formulação simplista segundo a qual "os ebionitas rejeitavam a Lei". O material atribuído a eles por Epifânio parece envolver uma distinção entre uma Lei verdadeira e uma tradição mosaica textual considerada posteriormente corrompida. O ponto fundamental, novamente, não é a simples negação da Lei, mas a disputa pela autenticidade da Lei.

Essa distinção aproxima estruturalmente o material ebionita das Kerygmata Petrou. Não porque possamos demonstrar que ambos pertenciam à mesma comunidade ou constituíssem uma única tradição histórica contínua, mas porque ambos participam de um universo no qual a autoridade da Lei continua sendo fundamental e a transmissão posterior da revelação pode ser questionada.

A utilização de Epifânio exige, entretanto, cautela adicional. O bispo de Salamina escreve em um contexto muito posterior aos acontecimentos do século I e possui uma finalidade explicitamente heresiológica. Sua descrição não deve ser tratada como fotografia sociológica dos grupos que identifica. Ela é, antes, uma representação construída do adversário.

Esse aspecto é decisivo para a nossa investigação porque a história dos grupos judaico-cristãos precisa ser escrita simultaneamente em dois níveis: de um lado, aquilo que conseguimos reconstruir sobre suas crenças e práticas; de outro, aquilo que seus adversários precisavam dizer sobre eles para classificá-los como desviantes.






7 DA DIVERGÊNCIA À HERESIA: A TRANSFORMAÇÃO DO ADVERSÁRIO

A história da marginalização do cristianismo judaico pode ser compreendida, portanto, como um processo gradual de transformação da posição do adversário. Enquanto diferentes grupos disputavam a definição do movimento cristão, a existência de posições divergentes não significava necessariamente que uma delas estivesse fora do cristianismo. A questão decisiva surge quando uma determinada configuração institucional e teológica adquire capacidade suficiente para transformar sua própria posição em norma e a posição concorrente em desvio.

Essa perspectiva ajuda a compreender a literatura heresiológica. O heresiólogo não apenas descreve uma comunidade. Ele produz uma classificação. Ao chamar determinado grupo de ebionita, judaizante ou herege, ele estabelece fronteiras. A classificação possui uma dimensão social: define quem pertence e quem não pertence; quem preserva a tradição e quem a corrompe; quem pode falar em nome dos apóstolos e quem perdeu esse direito.

É precisamente aqui que a história das Kerygmata Petrou se torna particularmente reveladora. O texto preserva uma forma de cristianismo na qual Pedro e Tiago podem ser mobilizados contra Paulo. Se posteriormente a tradição cristã dominante passou a apresentar Paulo como autoridade apostólica fundamental para a missão gentílica, a tradição pseudo-clementina demonstra que essa interpretação não era inevitável.

Walter Bauer (1971) tornou-se especialmente importante para esse problema ao questionar o modelo segundo o qual ortodoxia e heresia teriam existido desde o princípio como entidades claramente separadas, com a ortodoxia simplesmente preservando a tradição original enquanto a heresia dela se afastava. Sua investigação chamou atenção para a possibilidade de que aquilo que posteriormente foi chamado de "heresia" pudesse, em determinados contextos regionais, representar uma das formas mais antigas ou influentes do cristianismo.

Isso não significa aceitar sem reservas todas as reconstruções de Bauer. A historiografia posterior demonstrou que sua oposição entre ortodoxia e heresia precisa ser qualificada. Mas seu insight fundamental continua metodologicamente fecundo: a categoria de heresia é também resultado de uma história de disputas pelo poder de definir a ortodoxia.

No caso das tradições judaico-cristãs, esse processo produz uma situação particularmente paradoxal. Esses grupos reivindicavam continuidade com Israel, com a Lei, com Jesus e com os primeiros apóstolos. No entanto, precisamente porque sua interpretação dessas autoridades entrava em conflito com a forma de cristianismo que progressivamente se tornou dominante, sua reivindicação de continuidade passou a ser apresentada como sinal de desvio.

O que se modifica, portanto, não é apenas a doutrina. Modifica-se a posição social da doutrina.

Uma posição que anteriormente podia participar da disputa pela identidade do movimento passa, posteriormente, a ser descrita como resíduo. Uma comunidade que reivindicava ser guardiã da tradição passa a ser caracterizada como judaizante. Um cristianismo que afirmava seguir Pedro e Tiago passa a ser descrito como uma aberração que não compreendeu o verdadeiro evangelho.

A expressão "cristãos de segunda categoria", portanto, deve ser entendida aqui como uma categoria analítica, não como designação utilizada literalmente pelas fontes. Ela descreve a posição progressivamente subordinada que determinados grupos judaico-cristãos passaram a ocupar dentro da memória cristã dominante.



8 CONCLUSÃO: OS VENCEDORES ESCREVEM A HISTÓRIA DA ORTODOXIA

Quando observamos em conjunto Gálatas, Atos, as tradições sobre Tiago e Pedro, as Kerygmata Petrou e os testemunhos patrísticos sobre grupos judaico-cristãos, surge uma imagem muito diferente daquela de uma passagem tranquila do judaísmo para o cristianismo gentílico. O que encontramos é uma longa disputa pela definição da tradição de Jesus. No centro dessa disputa estavam questões aparentemente distintas — a Lei, a circuncisão, a alimentação, a missão aos gentios, a autoridade apostólica —, mas que, observadas sociologicamente, convergem para um único problema: quem possui o direito de definir as fronteiras da comunidade cristã?

Paulo ofereceu uma resposta radicalmente nova para esse problema. Sua missão permitia integrar gentios ao movimento messiânico sem exigir deles a incorporação plena à identidade judaica. Essa solução possuía extraordinário potencial expansivo. Ela tornava possível uma comunidade transétnica na qual judeus e gentios poderiam compartilhar uma identidade religiosa sem que os últimos precisassem converter-se ao judaísmo. Mas exatamente por isso ela ameaçava formas de organização comunitária nas quais a Lei permanecia como princípio estruturante da identidade.

As tensões preservadas em Gálatas mostram que essa questão não foi uma invenção dos séculos II ou III. Havia conflitos reais no interior do movimento. A relação de Paulo com Jerusalém era suficientemente complexa para produzir memórias divergentes. Pedro aparece, em Gálatas, envolvido diretamente na controvérsia; Tiago aparece como autoridade de Jerusalém; e, posteriormente, ambos poderiam ser transformados em figuras de autoridade utilizadas contra Paulo.

As Kerygmata Petrou são particularmente importantes porque tornam explícita uma possibilidade que a tradição posterior dominante tornou progressivamente difícil de perceber: Pedro poderia ser lembrado não como aquele que confirmou a missão paulina, mas como aquele que a contradisse. Mais ainda, sua autoridade poderia ser subordinada à de Tiago, cuja memória servia para legitimar um cristianismo fiel à Lei. Nesse universo, Paulo aparece não como o grande intérprete da universalidade cristã, mas como o responsável por uma ruptura com a tradição de Jesus.

A importância histórica dessa literatura não reside, portanto, em provar que as Kerygmata Petrou registram literalmente o pensamento de Tiago ou Pedro. Elas não o fazem. Sua importância reside em mostrar que, em determinado ambiente cristão posterior, era possível construir uma memória apostólica inteiramente diferente daquela que acabaria prevalecendo.

Os ebionitas devem ser compreendidos dentro desse problema, embora não seja possível simplesmente identificá-los com a comunidade das Kerygmata. O material preservado por Ireneu e, sobretudo, por Epifânio mostra que existiam grupos cristãos que continuavam a interpretar sua identidade em estreita relação com Israel, com a circuncisão, com o sábado e com a Lei. Seus adversários os classificaram progressivamente como desviantes. A partir daí, aquilo que para esses grupos podia representar fidelidade à tradição tornou-se, na literatura heresiológica, sinal de heresia.

A história produzida posteriormente pela cristandade majoritária tende, assim, a esconder uma característica essencial do cristianismo primitivo: a ortodoxia não existiu desde o início como uma realidade absolutamente definida contra a qual as demais comunidades simplesmente se rebelaram. Ela foi construída através de disputas, negociações, exclusões, apropriações e redefinições de autoridade. O triunfo de uma forma de cristianismo transformou outras formas de cristianismo em "heresia".

Isso explica o caráter paradoxal da sobrevivência das tradições judaico-cristãs. Elas não desapareceram simplesmente porque eram intelectualmente incapazes de competir com Paulo. Em muitos casos, conservaram uma reivindicação extremamente poderosa: nós somos os verdadeiros herdeiros de Jesus, de Pedro, de Tiago e de Israel. O problema é que essa reivindicação se tornou progressivamente incompatível com a estrutura religiosa, social e institucional de um cristianismo cada vez mais gentílico.

É nesse sentido que a história do cristianismo judaico pode ser lida como uma espécie de história oculta da construção da ortodoxia. Não uma história oculta porque tenha sido deliberadamente apagada por uma conspiração, mas porque a vitória de uma tradição possui precisamente o efeito de tornar as tradições derrotadas menos visíveis. O vencedor não apenas ocupa o espaço institucional; ele também passa a controlar as categorias através das quais o passado será lembrado.

Paulo tornou-se, para a tradição cristã dominante, o grande apóstolo dos gentios. Pedro tornou-se fundamento da Igreja. Tiago permaneceu como figura venerável da Jerusalém apostólica. Mas as Kerygmata Petrou preservaram outra possibilidade: Pedro contra Paulo e Tiago acima de Pedro, em defesa de um cristianismo fiel à Lei. Os testemunhos sobre os ebionitas preservaram outra: comunidades que continuavam a reivindicar a continuidade entre Jesus e Israel. A literatura patrística, por sua vez, transformou progressivamente essas posições em objeto de classificação e refutação.

O resultado foi uma assimetria histórica extraordinária. A tradição que venceu pôde apresentar-se como "ortodoxia"; as tradições que perderam passaram a ser lembradas principalmente através das descrições produzidas por seus adversários. É justamente por isso que a investigação histórica precisa voltar a essas fontes não para simplesmente substituir uma ortodoxia por outra, nem para transformar os grupos judaico-cristãos em heróis retrospectivos, mas para reconstruir a disputa social pela autoridade de definir o cristianismo.

A questão fundamental, portanto, não é simplesmente saber se Paulo estava certo ou se Tiago estava certo. A questão historicamente mais produtiva é perguntar por que determinada interpretação da tradição apostólica conseguiu sobreviver, expandir-se e tornar-se normativa, enquanto outras interpretações — algumas delas igualmente antigas e igualmente capazes de reivindicar Pedro, Tiago, Jesus e as Escrituras de Israel — foram progressivamente empurradas para as margens da história cristã.

É nessa passagem — da divergência à marginalização, da marginalização à heresiologia e da heresiologia ao esquecimento — que se encontra uma das histórias mais fascinantes do cristianismo primitivo.



REFERÊNCIAS

BAUER, Walter. Orthodoxy and heresy in earliest Christianity. Philadelphia: Fortress Press, 1971.

DUNN, James D. G. Jesus, Paul and the Law: studies in Mark and Galatians. Louisville: Westminster/John Knox Press, 1990.

EPIFÂNIO DE SALAMINA. Panarion: against the Ebionites. In: WILLIAMS, Frank (trad.). The Panarion of Epiphanius of Salamis. Leiden: Brill, 1987.

IRENEU DE LIÃO. Contra as heresias. São Paulo: Paulus, 1995.

KOESTER, Helmut. Introduction to the New Testament: history and literature of early Christianity. 2. ed. Berlin: de Gruyter, 2005. v. 2.

MORESCHINI, Claudio; NORELLI, Enrico. História da literatura cristã antiga grega e latina. São Paulo: Loyola, 1996.

SANDERS, E. P. Paul and Palestinian Judaism: a comparison of patterns of religion. Philadelphia: Fortress Press, 1977.

THE HOLY BIBLE. Bíblia de Jerusalém. São Paulo: Paulus, 2002.




APÊNDICE ANALÍTICO

Paulo, Tiago, Pedro e a construção das fronteiras do cristianismo

Nota metodológica: as tabelas e diagramas abaixo não pretendem representar uma genealogia institucional linear entre as comunidades do século I, as Kerygmata Petrou e os grupos posteriormente classificados como ebionitas. Eles organizam comparativamente tradições, testemunhos e problemas historiográficos que apresentam afinidades temáticas. As linhas de continuidade devem ser entendidas como hipóteses de reconstrução, não como sucessões institucionais demonstradas.



TABELA 1 — AS PRINCIPAIS AUTORIDADES EM DISPUTA

AutoridadeFonte principalFunção na tradiçãoRelação com a LeiRelação com a missão aos gentiosProblema historiográfico
PauloGálatas; 1 Coríntios; RomanosApóstolo dos gentiosReinterpretação da função da Lei diante da fé em CristoUniversalização da comunidade sem necessidade de circuncisãoAté que ponto sua posição representa uma ruptura ou uma reconfiguração do judaísmo?
Pedro/CefasGálatas; Atos; tradição posteriorPrincipal autoridade apostólicaRelação ambígua nas fontesParticipa da controvérsia sobre a mesa com gentiosA tradição petrina foi posteriormente apropriada por correntes diferentes
TiagoGálatas; Atos; tradição posteriorAutoridade de JerusalémForte associação com a continuidade judaicaAtua no problema da incorporação dos gentiosA imagem posterior de Tiago deve ser distinguida do Tiago histórico
JesusEvangelhos canônicos; tradições judaico-cristãsFonte última da autoridadeLei reinterpretada dentro do movimento messiânicoOrigem da questão sobre Israel e os gentiosDiferentes comunidades reivindicam sua autoridade para posições incompatíveis
Moisés/LeiEscrituras de Israel; tradições cristãsFundamento da revelaçãoPrincípio normativo ou objeto de releituraDefine originalmente as fronteiras de IsraelA disputa passa a envolver também a autenticidade da própria tradição textual

Leitura analítica

A tabela torna visível uma questão central do artigo: o conflito não era simplesmente Paulo contra a Lei. Tratava-se de uma disputa entre diferentes formas de reivindicar autoridade sobre a interpretação da Lei, de Jesus e da tradição apostólica.



TABELA 2 — O CONFLITO PAULO–JERUSALÉM NO NOVO TESTAMENTO

QuestãoPaulo em GálatasJerusalém/Tiago em AtosSignificado histórico
Origem da missão de PauloRevelação de Jesus CristoMissão reconhecida no contexto apostólicoTensão entre autonomia e reconhecimento institucional
Relação com JerusalémPaulo insiste em sua independênciaJerusalém aparece como centro decisórioDiferentes modelos de autoridade
TiagoUma das "colunas"Principal figura na assembleia de JerusalémForte autoridade de Jerusalém
PedroCefas, autoridade apostólicaFigura central da comunidadeAutoridade compartilhada e disputada
GentiosPodem integrar-se sem tornar-se judeusProblema central do debateQuestão de identidade comunitária
Mesa comumPaulo defende coerência entre judeus e gentiosQuestão disciplinar e comunitáriaA controvérsia possui dimensão social
LeiReinterpretada em função de CristoMantém papel importante na comunidade judaicaDiferentes modelos de pertencimento
AntioquiaConfronto público com PedroNão aparece da mesma forma em AtosMemórias divergentes sobre o conflito

Observação: esta tabela deve ser lida comparativamente. Não se deve pressupor que Atos simplesmente "corrija" Gálatas ou que Gálatas seja uma transcrição neutra dos acontecimentos. Os dois textos são fontes situadas e possuem estratégias narrativas próprias.



TABELA 3 — A EVOLUÇÃO DO PROBLEMA DA LEI

EtapaProblemaPergunta central
Movimento de JesusRelação entre Jesus e a tradição judaicaJesus rompeu com a Lei ou a reinterpretou?
Primeiras comunidadesEntrada de gentiosO gentio precisa tornar-se judeu?
PauloFé em Cristo e pertençaCircuncisão e observância da Lei são necessárias para os gentios?
JerusalémOrganização comunitáriaComo judeus e gentios podem coexistir?
Tradições judaico-cristãsContinuidade com IsraelComo preservar Jesus sem abandonar a identidade judaica?
Kerygmata PetrouAutoridade apostólicaPedro e Tiago podem ser utilizados contra Paulo?
Ebionitas segundo os heresiólogosLei e identidadeQuem possui a verdadeira interpretação da tradição mosaica?
PatrísticaOrtodoxia e heresiaQuando a divergência passa a ser classificada como heresia?

Essa sequência é particularmente importante porque impede uma leitura anacrônica. A questão inicial não era "cristianismo versus judaísmo". Era uma disputa ocorrida dentro de um movimento originariamente judaico acerca de como sua mensagem messiânica deveria relacionar-se com Israel e com os gentios.



TABELA 4 — AS KERYGMATA PETROU COMO CONTRAMEMÓRIA

ElementoTradição paulina dominanteKerygmata Petrou
PauloApóstolo dos gentiosFigura submetida à crítica
PedroAutoridade apostólica fundamentalDefensor de uma missão fiel à Lei
TiagoAutoridade de JerusalémAutoridade superior que confirma Pedro
GentiosIncorporados sem circuncisãoMissão aos gentios permanece vinculada à Lei
LeiReinterpretada em CristoPrincípio crítico da revelação
JesusFundamento do evangelho paulinoVerdadeiro profeta que permite discernir a tradição
EscriturasBase da interpretação cristãAlgumas passagens podem ser consideradas falsas/interpoladas
"Novidade"Pode representar expansão do evangelhoPode ser argumento contra Paulo
AutoridadeRevelação apostólica de PauloTradição de Pedro e Tiago
ResultadoUniversalização gentílicaDefesa de um cristianismo fiel à Lei

Ponto fundamental

A coluna da direita não deve ser entendida como "o pensamento histórico de Pedro e Tiago". Ela representa a construção literária de uma memória de Pedro e Tiago. É justamente isso que torna as Kerygmata historicamente importantes.



TABELA 5 — DO CONFLITO À HERESIOLOGIA

Momento históricoSituaçãoCategoria predominante
Século IDiversidade dentro do movimento de JesusDivergência
Final do século I / início do IIConsolidação de diferentes tradições cristãsCompetição
Século IIDisputas sobre apostolicidade e doutrinaControvérsia
Séculos II–IIIFormação mais definida de fronteiras comunitáriasSeparação
Literatura heresiológicaClassificação dos adversáriosHeresia
Cristianismo majoritárioConsolidação institucional e doutrinalOrtodoxia
Memória posteriorTradições derrotadas passam a ser conhecidas sobretudo por seus adversáriosMarginalização

Esta tabela representa uma das teses sociológicas centrais do artigo:

divergência → competição → delimitação → classificação → marginalização.

Não significa que todas as comunidades tenham passado exatamente pelas mesmas etapas ou na mesma cronologia. Trata-se de um modelo analítico.



TABELA 6 — FONTES E GRAUS DE PROXIMIDADE COM O FENÔMENO ESTUDADO

FonteData aproximadaNaturezaO que permite investigarPrincipal cautela
Gálatasdécada de 50Carta paulinaConflito Paulo–Pedro–TiagoÉ a perspectiva do próprio Paulo
1 Coríntiosdécada de 50Carta paulinaAutoridade, divisões e identidade comunitáriaContexto específico de Corinto
Atosfinal do séc. I / início do IINarrativa historiográfica-teológicaJerusalém, Tiago, Pedro e PauloTendência a construir unidade apostólica
Evangelhos canônicosséc. INarrativas de JesusLei, identidade judaica e gentiosDistância temporal e elaboração teológica
Kerygmata Petroudatação discutidaLiteratura pseudo-clementinaContramemória petrina e crítica a PauloTradição literária complexa e estratificada
Ireneufinal do séc. IIHeresiologiaPrimeiros testemunhos sobre ebionitasFonte adversária
Epifânioséc. IVHeresiologiaDescrição detalhada dos ebionitasGrande distância temporal e finalidade polêmica
Bauerséc. XXHistoriografia modernaModelo ortodoxia/heresiaTese posteriormente bastante debatida
Koesterséc. XXIHistória do cristianismo primitivoRelação entre Kerygmata, Pedro, Tiago e PauloReconstrução historiográfica



DIAGRAMA 1 — O NÚCLEO DA CONTROVÉRSIA

                         JESUS
                           │
                           ▼
                  ┌─────────────────┐
                  │  Tradição judaica│
                  └────────┬────────┘
                           │
                           ▼
                    MOVIMENTO MESSIÂNICO
                           │
             ┌─────────────┴─────────────┐
             │                           │
             ▼                           ▼
      JERUSALÉM                      PAULO
             │                           │
       Tiago + Pedro              Missão aos gentios
             │                           │
             │                     sem plena
             │                  incorporação judaica
             │                           │
             └─────────────┬─────────────┘
                           ▼
                    CONFLITO SOBRE
                    A IDENTIDADE
                    DA COMUNIDADE
                           │
                           ▼
              ┌─────────────────────────┐
              │ Quem define a verdadeira│
              │ tradição de Jesus?      │
              └─────────────────────────┘

Este é provavelmente o diagrama central do artigo.



DIAGRAMA 2 — A DISPUTA PELA AUTORIDADE APOSTÓLICA

                    AUTORIDADE DE JESUS
                           │
                           ▼
                 ┌──────────────────┐
                 │   APOSTOLICIDADE │
                 └────────┬─────────┘
                          │
             ┌────────────┼────────────┐
             │            │            │
             ▼            ▼            ▼
           PAULO         PEDRO        TIAGO
             │            │            │
             │            │            │
             ▼            ▼            ▼
        Revelação      Tradição      Jerusalém
        e missão      apostólica    e tradição
        aos gentios
             │            │            │
             │            └─────┬──────┘
             │                  │
             ▼                  ▼
       Interpretação      Fidelidade à Lei
       da missão          e tradição judaica
             │                  │
             └────────┬─────────┘
                      ▼
               DISPUTA PELA
               LEGITIMIDADE

A função deste diagrama é mostrar que a controvérsia não era simplesmente doutrinária. Cada lado precisava construir uma genealogia de autoridade.



DIAGRAMA 3 — A CONTRAMEMÓRIA DAS KERYGMATA PETROU

              TRADIÇÃO APOSTÓLICA
                       │
                       ▼
                  PEDRO
                       │
             fiel à Lei de Deus
                       │
                       ▼
                    TIAGO
                       │
              autoridade superior
                       │
                       ▼
             VERDADEIRO ENSINAMENTO
                       │
                       ▼
             MISSÃO AOS GENTIOS
                  FIEL À LEI
                       │
                       ✕
                       │
                 PAULO
                       │
                       ▼
              "NOVIDADE" / RUPTURA
                       │
                       ▼
          REJEIÇÃO DA LEI E DA
          AUTORIDADE DOS ENSINAMENTOS
                  DE JESUS

Nota: este diagrama reproduz a lógica argumentativa atribuída às Kerygmata na reconstrução de Koester, não uma descrição historiográfica do pensamento real de Pedro ou Tiago.



DIAGRAMA 4 — DA DIVERSIDADE À MARGINALIZAÇÃO

Este talvez seja o diagrama mais importante sociologicamente para a conclusão do artigo:

                 MOVIMENTO DE JESUS
                         │
                         ▼
              DIVERSIDADE INTERNA
                         │
          ┌──────────────┴──────────────┐
          │                             │
          ▼                             ▼
     TRADIÇÕES DE                    TRADIÇÕES
     JERUSALÉM                       PAULINAS
          │                             │
          │                             │
          ▼                             ▼
     Tiago / Pedro                 Missão gentílica
     Lei / Israel                  universal
          │                             │
          └──────────────┬──────────────┘
                         ▼
                    CONTROVÉRSIA
                         │
                         ▼
              COMPETIÇÃO POR AUTORIDADE
                         │
                         ▼
                DIFERENCIAÇÃO DOS GRUPOS
                         │
                         ▼
              CONSOLIDAÇÃO DE FRONTEIRAS
                         │
                         ▼
                 HERESIOLOGIA
                         │
                         ▼
                    "HEREGES"
                         │
                         ▼
                 MARGINALIZAÇÃO
                         │
                         ▼
               ESQUECIMENTO HISTÓRICO
                         │
                         ▼
       SOBREVIVÊNCIA DA MEMÓRIA ATRAVÉS
             DOS TEXTOS DOS ADVERSÁRIOS

Aqui aparece com clareza a tese mais ambiciosa do artigo: a história da ortodoxia é também a história da produção de uma periferia cristã.



QUADRO-SÍNTESE — O ARGUMENTO CENTRAL DO ARTIGO

DimensãoPerguntaResposta construída pelo artigo
HistóricaHouve conflito entre Paulo e Jerusalém?Gálatas preserva evidências importantes de conflito e divergência
ApostólicaQuem possuía autoridade?Paulo, Pedro e Tiago representam diferentes formas de autoridade
SociológicaO que estava em jogo?A definição das fronteiras de pertencimento
TeológicaQual era o problema da Lei?Não apenas observância, mas interpretação da revelação
MissionáriaQuem poderia integrar-se ao movimento?Principalmente a questão da incorporação dos gentios
MemorialQuem controlava o passado?Diferentes grupos reivindicavam Jesus e os apóstolos
LiteráriaO que fazem as Kerygmata?Constroem uma contramemória petrina anti-paulina
HeresiológicaO que ocorre posteriormente?Divergências são progressivamente classificadas como heresias
SociopolíticaQuem ganha?A tradição capaz de estabelecer suas categorias como normativas
HistoriográficaO que resta dos derrotados?Frequentemente, sua própria voz é preservada de maneira fragmentária ou através dos adversários



UMA ÚLTIMA FIGURA CONCEITUAL

Eu acrescentaria ainda, ao final do apêndice, uma pequena figura que resume todo o artigo:

             JESUS E O JUDAÍSMO DO SÉCULO I
                         │
                         ▼
                MOVIMENTO MESSIÂNICO
                         │
                         ▼
                 DIVERSIDADE INTERNA
                         │
          ┌──────────────┴──────────────┐
          │                             │
          ▼                             ▼
      JERUSALÉM                       PAULO
    Tiago / Pedro                  Gentios / fé
          │                             │
          └──────────────┬──────────────┘
                         ▼
                 DISPUTA APOSTÓLICA
                         │
                         ▼
                  DISPUTA PELA LEI
                         │
                         ▼
              DISPUTA PELA IDENTIDADE
                         │
                         ▼
              DISPUTA PELA MEMÓRIA
                         │
                         ▼
                DISPUTA PELO PODER
                         │
                         ▼
              ┌─────────────────────┐
              │ CONSOLIDAÇÃO DE UMA │
              │ TRADIÇÃO DOMINANTE  │
              └──────────┬──────────┘
                         │
              ┌──────────┴──────────┐
              ▼                     ▼
         "ORTODOXIA"             "HERESIA"
              │                     │
              ▼                     ▼
       memória dominante      memória marginal
                                    │
                                    ▼
                          JUDEU-CRISTIANISMO
                                    │
                                    ▼
                          EBIONITAS / TRADIÇÕES
                           JUDAICO-CRISTÃS

 

Estátuas de deuses

Quando pensamos nos deuses do antigo Oriente Próximo, quase sempre imaginamos suas imagens. E isso não é apenas uma projeção moderna: os deuses realmente eram representados. El, Baal, Astarte e Anat aparecem na cultura material do antigo Levante em estátuas, relevos, figuras de terracota e outros objetos associados ao universo religioso da região. Uma imagem divina não era necessariamente um “retrato” no sentido moderno, mas uma representação material relacionada à divindade, ao seu culto e à sua presença. O problema começa quando olhamos para Israel. Afinal, se os deuses ao redor de Israel tinham imagens, por que o Deus de Israel aparentemente não tinha?




A primeira coisa que precisamos fazer é olhar para El. A figura apresentada acima é tradicionalmente identificada como uma representação de El, proveniente de Ugarit, antiga cidade-estado situada na costa da atual Síria. Os textos encontrados em Ugarit apresentam El como uma das grandes divindades do antigo Levante, associado à autoridade suprema e ao conselho divino. A iconografia atribuída a El também é discutida pela pesquisa especializada: há estudos que examinam suas possíveis representações como figura entronizada e outras formas de representação divina. Theodore J. Lewis, “Art and Iconography: Representing Yahwistic Divinity” O ponto que nos interessa, porém, é mais simples: El fazia parte de um mundo religioso no qual uma divindade podia possuir uma representação visual.

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E aqui aparece algo que aproxima El muito mais da Bíblia do que poderia parecer à primeira vista. El — אֵל — é uma antiga palavra semítica para “deus” e aparece também no hebraico bíblico. Está presente em expressões como El Elyon, El Shaddai, El Olam e El Roi, além de aparecer incorporada a numerosos nomes próprios hebraicos. Isso não significa que devamos simplesmente identificar o El de Ugarit com Yahweh. A formação da religião israelita foi um processo histórico muito mais complexo. Significa, entretanto, que a linguagem religiosa de Israel se desenvolveu dentro do mesmo universo cultural semítico no qual El era uma divindade conhecida e cultuada.

E então surge a pergunta inevitável: e Yahweh?

Se El possuía uma imagem, se Baal possuía uma imagem e se as divindades femininas do antigo Levante também podiam ser representadas, seria possível que Yahweh tivesse tido alguma representação visual? Durante muito tempo, a resposta pareceu evidente: não. Afinal, a tradição bíblica condena explicitamente a fabricação de imagens de Deus. O segundo mandamento afirma: “Não farás para ti imagem esculpida”. Mas existe uma dificuldade histórica nessa resposta aparentemente simples: a própria Bíblia descreve Yahweh de maneira profundamente corporal. Yahweh possui olhos, ouvidos, boca, mãos, braços, pés e rosto; ele caminha, desce, sobe, senta-se, fala e vê. Theodore J. Lewis chama atenção justamente para esse paradoxo e observa que a frequência das representações antropomórficas de Yahweh na Bíblia torna perfeitamente legítima a investigação de sua possível iconografia. Theodore J. Lewis — “Art and Iconography: Representing Yahwistic Divinity”

Não temos, entretanto, uma estátua arqueológica que possamos apresentar ao leitor e dizer: “Este é Yahweh.” O que temos são objetos que alguns pesquisadores propuseram relacionar à iconografia de Yahweh — e justamente aí começa uma das partes mais interessantes da história.

Kuntillet ʿAjrud




No sítio arqueológico de Kuntillet ʿAjrud, no nordeste do Sinai, foram encontrados objetos do século VIII a.C. contendo inscrições que mencionam Yahweh. Uma delas contém a famosa expressão geralmente traduzida como “Yahweh e sua Asherah”. A inscrição provocou uma enorme discussão entre os estudiosos porque parece testemunhar uma forma de religião yahwista bastante diferente daquela que conhecemos das formulações bíblicas posteriores. A expressão, entretanto, também é controversa: alguns estudiosos entendem asherah como referência à deusa Asherah; outros defendem que se trata de um objeto ou símbolo cultual associado ao culto de Yahweh. Estudo sobre “Yahweh e sua Asherah” — Korean Journal of Old Testament Studies Estudo sobre Kuntillet ʿAjrud e Asherah — Korean Journal of Old Testament Studies

Mas o que torna Kuntillet ʿAjrud especialmente fascinante para o nosso assunto são os desenhos que aparecem nos mesmos objetos. Durante décadas, alguns pesquisadores interpretaram determinadas figuras como representações de Yahweh e Asherah. A hipótese parecia extraordinária: teríamos, afinal, uma imagem associada ao próprio nome de Yahweh. Desenho de Kuntillet ʿAjrud — Biblical Archaeology Society

Só que existe um problema.

As figuras podem não ser Yahweh.

A interpretação atualmente muito difundida identifica as duas figuras de pé como representações do deus egípcio Bes, enquanto a figura sentada seria simplesmente um músico. Outros pesquisadores continuam discordando dessa identificação e defendem que os personagens podem estar relacionados a Yahweh e Asherah. A discussão continua aberta na literatura especializada.

Portanto, seria exagerado colocar uma legenda sobre a imagem dizendo simplesmente “Yahweh”. O mais correto — e, para o nosso ensaio, muito mais interessante — seria escrever algo como:

Kuntillet ʿAjrud, século VIII a.C. Figuras tradicionalmente propostas por alguns pesquisadores como possíveis representações de Yahweh e Asherah; atualmente, muitos estudiosos identificam as figuras como o deus egípcio Bes e um músico.

A dúvida faz parte da história.

E talvez seja justamente essa dúvida que torne a imagem tão fascinante.

Yahweh e o touro

Existe ainda outra possibilidade iconográfica: o touro.

Alguns estudiosos propuseram que determinadas imagens bovinas encontradas no contexto da religião israelita antiga poderiam estar relacionadas a Yahweh. A hipótese ganha força pelo fato de que a própria Bíblia preserva a memória dos famosos bezerros de ouro de Betel e Dã. A interpretação tradicional é que esses objetos representavam uma apostasia: Israel teria abandonado Yahweh para adorar outro deus. Mas alguns pesquisadores perguntaram se o touro poderia, em determinados contextos, ter funcionado não como representação de um deus estrangeiro, mas como símbolo ou representação do próprio Yahweh.

É uma hipótese que não podemos transformar em certeza arqueológica. Não existe uma inscrição dizendo “este touro é Yahweh”. Mas ela pertence a um debate mais amplo sobre a possibilidade de Yahweh ter recebido representações teriomórficas, isto é, sob formas animais. Thomas Römer, em estudo publicado em 2023, defende precisamente que não deveríamos falar de um “aniconismo original” do culto de Yahweh: segundo sua reconstrução, Yahweh teria sido representado de formas antropomórficas e teriomórficas em fases antigas da religião israelita. Thomas Römer — “Biblical Aniconism? Representing the Gods of Ancient Israel and Judah”

Essa é uma hipótese importante porque muda a pergunta. Em vez de perguntar simplesmente “por que Israel não tinha imagens?”, começamos a perguntar: quando Israel deixou de aceitar imagens de Yahweh — e por quê?

Quando Yahweh perdeu sua imagem?

A ideia de que Israel sempre teria sido uma religião absolutamente anicônica — isto é, uma religião que recusava desde sua origem qualquer representação visual de Yahweh — tornou-se mais difícil de sustentar em parte da pesquisa contemporânea. Thomas Römer argumenta que não devemos falar de um “aniconismo original” de Yahweh. Em sua reconstrução, representações antropomórficas e teriomórficas teriam existido no Reino do Norte e no período do Primeiro Templo; a proibição explícita das imagens teria adquirido sua forma mais característica posteriormente, especialmente no contexto das transformações religiosas posteriores ao exílio babilônico e do desenvolvimento do monoteísmo. Thomas Römer — texto completo

Isso não significa que todos os pesquisadores concordem com essa reconstrução. E tampouco significa que possamos simplesmente afirmar que “os israelitas adoravam estátuas de Yahweh”. A questão é muito mais delicada. O que a documentação parece mostrar é que iconismo e aniconismo podiam coexistir no antigo Oriente Próximo e que a relação entre uma imagem e a divindade representada não era necessariamente entendida pelos antigos da mesma maneira que hoje imaginamos. Römer chama atenção precisamente para essa coexistência entre representações materiais e tendências anicônicas.

Talvez, portanto, a história não seja a história de uma religião que nasceu sem imagens e permaneceu assim. Talvez seja a história de uma religião que progressivamente redefiniu o lugar da imagem na relação entre Deus e o mundo.

E é nesse momento que Gênesis nos oferece uma frase extraordinária.

“Façamos o homem à nossa imagem, como nossa semelhança.”
Gênesis 1,26

E logo depois:

“Deus criou o homem à sua imagem; à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou.”
Gênesis 1,27.

A palavra hebraica utilizada para “imagem” é ṣelem — צלם. E é difícil não perceber a força dessa formulação dentro de um mundo antigo no qual as divindades possuíam imagens materiais. Não precisamos afirmar que o autor de Gênesis estava conscientemente respondendo a uma determinada estátua de El ou de Yahweh. Não temos evidência para uma afirmação tão específica. Mas podemos perceber que o texto utiliza uma linguagem de imagem e representação para falar da humanidade.

E aqui ocorre uma inversão extraordinária.

Durante toda a nossa investigação procuramos a imagem de Deus.

Procuramos em Ugarit.

Encontramos El.

Procuramos em Israel.

Encontramos objetos e figuras cuja identificação continua discutida.

Procuramos Yahweh.

Não encontramos uma estátua que possamos identificar com segurança.

E então Gênesis parece responder de uma maneira inesperada:

a imagem de Deus é o ser humano.

A questão deixa de ser simplesmente saber se existiu uma estátua de Yahweh. O que importa é perceber que, no desenvolvimento da tradição bíblica, a ideia de representação divina sofre uma transformação profunda. A imagem que antes procurávamos numa estátua passa a ser encontrada na própria humanidade. A imagem de Deus deixa de ser necessariamente um objeto colocado diante do homem e passa a ser o homem diante do mundo.

Não sabemos qual era o rosto de Yahweh.

Talvez algumas das imagens que foram propostas como representações dele estejam realmente relacionadas ao antigo culto yahwista. Talvez não. A figura de Kuntillet ʿAjrud pode ser Yahweh — mas pode também ser Bes. O touro pode ter participado de uma antiga iconografia yahwista — mas essa interpretação permanece uma hipótese. A pesquisa continua discutindo essas possibilidades. E justamente por isso não precisamos transformar uma conjectura em certeza para perceber a importância do problema.

O que podemos dizer com muito mais segurança é que a religião de Israel nasceu dentro de um mundo no qual os deuses tinham imagens, que El possuía uma longa tradição iconográfica, que Yahweh é descrito de maneira profundamente antropomórfica na Bíblia e que existem evidências arqueológicas que alimentaram uma discussão séria sobre sua possível representação visual. A questão histórica não é mais simplesmente “Israel tinha ou não tinha imagens?”, mas como e quando a representação de Yahweh foi sendo rejeitada e substituída por uma concepção cada vez mais transcendente e anicônica de Deus.

E então voltamos à frase do Gênesis. Talvez Deus não tenha simplesmente perdido a imagem. Talvez a imagem tenha mudado de lugar. Saiu da pedra. Saiu da estátua. Saiu do templo. E, na linguagem de Gênesis, ganhou pernas. Começou a andar. “Deus criou o homem à sua imagem.” Pois é isso.“Deus” tem cara.

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