Estudos sobre Religião - Biblioblog

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009


Continuando, além da passagem em Sanhedin 43a, Professor Geza Vermes cita algumas outras que provavelmente aludem aos ensinos de Jesus, indiretamente, bem como em curas efetuadas em seu nome por um díscipulo Jacó (Tiago) de Kfar Secaniah:

"Uma máxima do Rabi Abbahu de Cesaréia, contemporâneo do século III de Orígenes, refere-se quase com certeza a Jesus: - Se um homem lhe diz "Eu sou Deus, ele esta mentindo. Eu sou o filho do Homem [um ser humanõ] , no final ele vai lamentar [pois como todo ser humano, vai morrer] . Eu vou subir aos céus, terá, mas não vai cumprir (yTaan 65 b). A segunda citação de Jesus aparece no Talmude Babilônico (b Abodah zara 16b-17a) atribuídas a rabis ou Taanaim da passagem do primeiro ao segundo século. O famoso R. Eliezer ben Hircano recorda que um cristão judeu, chamado Jacó de Kfar Seranaya, interpretou "Não trarás a casa de (...) teu Deus o salário de uma prostituta, no sentido de que tal dinheiro só seria adequado à construção de uma latrina para o Sumo-Sacerdote. Quando Eliezer confessou que era incapaz de compreender a explicação Jacó apresentou-lhe uma exegese atribuida a Jesus que aparentemente vinculou Miquéias 1:7 (já que elas [ todas as suas estátuas] foram ajuntadas com o salário da prostituição, tornar-se-ão de novo salário de prostituição", a Deuterônomio 23:19 para chegar a explicação: "De um lugar de corrupção elas vieram, e ao lugar de corrupção elas retornarão". Eliezer ficou impressionado com o talento interpretativo de Jesus, e, por causa disso, foi acusado de heresia e excomungado pelos outros rabis." [1]

Jacó de Quefar Secania (ou Quefar Sama) foi um carismático curandeiro judeu-cristão citado diversas vezes na literatura rabínica. As personalidades os quais ligado sugere que esse Jacó atuou na virada do século I para o século II DC. Jacó prometia realizar curas em nome de Jesus de Nazaré e transmitia seus ensinamentos. Uma história o liga ao Rabino Eleazar Ben Dama e seu tio Ismael ben Elisha. Jacó, em nome de Jesus, quis curar Eleazar, que tinha sido picado por uma cobra venenosa. O Rabi Ismael vetou a oferta. Eleazar, desejando ser curado, tentou argumentar com seu tio, mas morreu antes de conseguir faze-lo [2]

Além dessas prováveis referências a Jesus, existem algumas outras, mais incertas, citadas pelo Professor Craig Evans, Acadia University (Canadá) [3]:

"Rabi Meir costumava ensinar 'Qual o significado (do verso), "Aquele que for pendurado no madeiro é maldito de Deus" (Dt 21:23)? Havia dois irmaos gêmeos que eram parecidos. Um reinava sobre o mundo todo e outro se tornou um ladrão. Após um tempo, o que era bandido foi pego e então crucificado em um madeiro. Todos que passavam e viam, diziam "parece que o Rei foi crucificado" (bTalmude, Sinédrio 9:7).

Evans acredita, contra a opinião do célebre talmudista Morris Goldstein, que o texto acima possivelmente alude a Jesus, a cena da crucificação e o "Titulus Crucis" ("Jesus Nazareno Rei dos Judeus"). Evans cita Marcos 14:48 ("Disse-lhes Jesus: Saístes com espadas e varapaus para me prender, como a um salteador?), o termo utilizado para ladrão ou salteador nesta passagem do Talmude teria uma conotação de agitação politica e revolucionária ou rebeldia, semelhante a encontrada na descrição de Flavio Josefo "A Judéia estava infestada de salteadores ... qualquer um podia se proclamar Rei" (Antiquidades 17:285). Essa passagem, juntamente a referência de Jesus como próximo ao governo (ou realeza) em Sinédrio 43a, sugere Evans, seriam uma resposta sarcástica a alegada descendência davídica de Jesus [4]

Prof. Mahlon H Smith [5], da Universidade Rutgers (New Jersey State University), apresenta uma possível alusão a Jesus, encontrada no Talmude Babilônico, Tratado Sinédrio, 106 b. Aqui um minim (ou herege, termo frequentemente usado para designar os cristãos) pergunta ao Rabi Hanina Bar Hama (220-260 DC) qual era a idade de Balaão quando ele foi morto. Hanina diz que os registros não mencionavam essa informação, mas que, no entanto, ele achava que ele teria morrido com 33 ou 34 anos de idade pois "homens de sangue e de traição não viverão metade dos seus dias" (Salmos 55:23). O Minin responde que Hanina devia estar certo, pois no relato sobre Balaão estava escrito que "Balaão, o coxo, tinha 33 anos de idade quando foi morto por Finéias, o ladrão" (bTalmude, Sinédrio, 106b). O Professor Smith observa que Balaão, o falso profeta citado no livro de Números que levou Israel a pecar, seria um codinome utilizado por alguns rabis para se referir a Jesus (em virtude da censura exercida pela Igreja). Da mesma forma 33 anos, seria a idade de Jesus, somando os 30 anos que ele tinha quando iniciou seu ministério (Lc 3:23), com as três páscoas mencionadas no evangelho de João. Ainda segundo Smith, Finéias, o Ladrão, seria também o codinome para Pôncio Pilatos, porque ele se apropriou dos fundos do Templo, incidente mencionado por Josefo (Antiguidades 18:60-62).

Um pouco mais hesitante que Mahlon D Smith, Travis Herford acredita que o codinome Balaão se aplicava a Jesus. Evans é cético quando a essa identificação, assim como Bruce Chilton, Morris Goldstein e Joseph Klausner. Chilton observa que dificilmente os rabinos dariam um nome tão respeitável a alguém como Pôncio Pilatos [6] Entretanto, poderíamos objetar que independente da identificação com Pilatos, o Talmude já usa o termo Finéias, o Ladrão, que é no mínimo estranho se o objetivo era se referir ao venerável sacerdote Finéias, neto de Arão.

Por fim, Jonh.P. Meier cita Klausner, e o julgamento deste quanto as tradições encontradas no Talmude:

Klausner (Jesus of Nazareth, 46) faz o seguinte resumo das afirmações confiáveis na tradição rabínica (1) Yeshu de Nazaré praticava a feitiçaria, istoé, fazia milagres e desencaminhava Israel; (2) Ele zombou das palavras dos sábios (istoé, dos mestres reverenciados de Israel). (3) Interpretava as escrituras da mesma forma que os fariseus (4) Tinha cinco discípulos (5) Dizia que não viera para tirar nada da Lei ou acrescentar algo (6) Foi enforcado (ou seja, crucificado) como falso mestre. Como é facil de ver temos aqui apenas uma imagem invertida e polêmica de várias afirmações dos quatro evangelhos [7]

Assim, o Talmude conteria tradições que compartilhariam a perspectivas básicas das atividades de Jesus, milagres, crítica a religião tradicional, o compartilhamento das crenças básicas dos fariseus, como anjos e ressureição dos mortos, seu relacionamento com Lei, ter discípulos e sua morte violenta. Geza Vermes [8] observa que, provavelmente, os rabinos reinterpretaram antigas tradições populares de Jesus como homem sábio e realizador de milagres, correntes na Palestina, atribuindo esses feitos a prática de feitiçaria. Assim, a imagem popular de Jesus retratada nos evangelhos e reavaliada sob um prisma negativo.

"Quando essas duas acusações são examinadas, elas se tornam uma representação pejorativa do retrato Josefano de Jesus. Pois desencaminhador/falso profeta e "feitiçeiro" são equivalentes deturpados de "homem sábio" e "milagreiro" [8]

O ponto levantado por Vermes, da reinterpretação de antigas tradições sobre Jesus é relevante, principalmente quando comparamos a parte reputada autêntica do polêmico "Testimonium Flavianum", escrita por Flavio Josefo no século I. Josefo diz que Jesus fazia feitos paradoxais ou incríveis, sendo a palavra paradoxa ambigua, isto pode significar tanto maravilhoso quanto controverso. O Talmude (e Celso) diz que Yeshu praticava feitiçaria (o que torna implícito que praticava feitos "controversos", explicados pela suposta prática de magia). Josefo diz que Jesus "era mestre de homens que recebem a verdade com prazer. Ele atraiu muitos judeus e muitos gentios". Os rabis dizem que Yeshu era uma ameaça, pois "levou Israel a pecar" e "o fez apóstata", dando a entender uma popularidade razoável , aliciando e desencaminhando um grande número de díscipulos. Dizem também que um processo foi iniciado, e um arauto saiu a covocar as testemunhas de defesa. Josefo afirma que "os principais homens entre nós o denunciaram". Por fim, no Talmude Jesus é executado e "levantado" (no madeiro), talvez por ordem de "Fineias, o Ladrão" (codinome para Pôncio Pilatos), enquanto Josefo diz que Pilatos o crucificou. É ainda possível que haja uma recordação dos motivos que levaram a execução (algo que Josefo não declara abertamente), de que Jesus foi acusado de ser um insurgente que ameaçava a ordem estabelecida, "O Rei dos Judeus".

Graham Stanton também compatilha da percepção de Geza Vermes ao observar que as acusações imputadas a Jesus nessa passagem do Talmude - que ele praticou feitiçaria e levou Israel a pecar - também são encontradas em Dialogo com Trifo, de Justino, já mencionado.Para Stanton essa tradição rabínica é de dificil interpretação, e mais complicado ainda é data-la com segurança. No entanto, acrescenta que não fora a grande correspondência com a acusação que circulava em circulos judaicos, na metade do século II, de que "Jesus era um mágico e enganador do povo" (Dialogo com Trifo 69:7), seria tentador descartar essa passagem do Talmude como resultado de polêmicas do terceiro século, ou mesmo posteriores, entre judeus e cristãos.Entranto, a terminologia semi-técnica encontrada no grego de Dialogo com Trifo é muito próxima do hebreu das tradições rabínicas. Assim, conclui Stanton, essas tradições teriam raízes profundas.[9]

Em resumo, quais são as informações que podemos obter do Talmude (se é que alguma informação pode ser obtida)?

Além de Johannes Maier, Edgard Leite é bastante cético em relação ao Talmude, "que não parece conter referências claras ao Jesus histórico" [10]

Por outro lado, Professor R. T. France, de Oxford, conclui que, pelo menos a partir do início do segundo século, Jesus era conhecido e abominado como alguém que realizava feitos incríveis e que tinha conquistado tão grande número de seguidores que foi devidamente executado como "aquele que levou Israel a pecar". Embora depreciativo, pelo menos é, de uma maneira distorcida, evidência para o impacto razoável dos milagres de Jesus e de seus ensinos. A conclusão de que isto é inteiramente dependente da pregação cristã, e que "judeus do segundo século adotaram de forma acrítica o pressuposto de que ele realmente existiu " é certamente resultado do ceticismo dogmático. Tal polêmica, frequentemente utilizando "fatos" completamente distintos do que os cristãos acreditavam, muito dificilmente teria surgido em menos de um século em torno de uma figura inexistente." [11]

Também Geza Vermes, observa que histórias como a de Jacó de Kfar Secaniah "indicam que um judeu cristão palestino no final do século I DC estava se dedicando, como os apóstolos e seus seguidores imediatos nos Atos dos Apostolos, a curar e pregar em nome de Jesus. Ainda, os textos rabínicos mostram que o mundo oficial rejeitava essas práticas, mas que judeus e até mesmo rabinos não necessariamente se opunham a elas na sociedade judaica palestina do fim do século I" [12]

Da mesma forma, Max Wilcox, Professor da Universidade de North Wales, avalia que o Talmude e outros escritos da literatura rabínica embora mencionem Jesus de forma muito esporádica, e devam ser utilizados pelo historiador de forma muito cautelosa e criteriosa, acabam por endossar as afirmações evangélicas de que Jesus curava e operava milagres, ainda que atribuindo esses feitos a feitiçaria. Além disso, preservam uma memória de que ele era um mestre, tinha discipulos, e de que pelo menos no início do período rabínico nem todos os rabinos tinham se convencido totalmente de que ele era um herege e enganador. [13]

Assim, em vista do exposto, podemos dizer que passagens sobre Jesus no Talmude devem ser avaliadas com cautela, reconhecendo que mais provavelmente trazem um "eco" de informações e tradições antigas, frequentemente de forma âmbigua, não devendo ser tomadas ao "pé-da-letra". Analisando em conjunto com o Dialogo com Trifo (69:7), e Celso, podemos dizer que o Talmude reforça a percepção de alguns fatos da vida de Jesus, encontrados nessas e em outras fontes, sua execução violenta em conflito com as autoridades, sua fama de realizador de milagres e feitos extraordinários (atribuidos por alguns rabinos a atos de feitiçaria), de que ele conseguiu alcançar um grupo razoavel de discipulos ("pois levou Israel a pecar e fez apóstata"), ainda que, por vezes, apareçam alguns sinais de que a hostilidade não é completa, de que, como já disse Geza Vermes, judeus e até mesmo rabinos não necessariamente se opunham a elas na sociedade judaica palestina do fim do século I .

Desta Forma, em vista das observações de Klausner, Vermes e Wilcox, acima, concluimos que as tradições populares sobre Jesus na Palestina, (provavelmente) teriam sido conservadas pelos rabinos por várias gerações, e não eram necessariamente hostis. Com o tempo, a medida que os caminhos de cristãos e judeus foram se afastando, essa memória foi sendo reinterpretada de forma cada vez mais polêmica e hostil.

Referências bibliograficas:

[1] Geza Vermes, O Autêntico Evangelho de Jesus , fl.19, nota 33
[2] Geza Vermes, Quem é quem na época de Jesus, fls. 152-153
[3] Craig Evans; Jesus in Non Christians Sources in Bruce Chilton & Craig Evans; Studying the Historical Jesus, fl. 447
[4]Craig Evans; Jesus in Non Christians Sources in Bruce Chilton & Craig Evans; Studying the Historical Jesus, fl. 449
[5] Mahlon H. Smith, Into His Own, Jesus and Christians in non Christians sources, 191
http://virtualreligion.net/iho/jesus.html, acessado em 23.12.2009
[6] Craig Evans; Jesus in Non Christians Sources in Bruce Chilton & Craig Evans; Studying the Historical Jesus, fl. 449, nota 16
[7] John P. Meier, Um Judeu Marginal, Vol. I fl. 115, nota 62
[8] Geza Vermes, Jesus in His Jewish Context fl. 98
[9] Graham Stanton, Gospel Thuth?New Light on Jesus and the Gospels, fl. 157
[10] Edgard Leite, Yeshu Ha Notzri e sua viagem ao Egito: Uma Parábola Talmudica in Chevitarese, Corneli & Selvatici; Jesus de Nazaré, Uma outra História, fl. 291.
[11] R T France The Evidence for Jesus, fl. 39
[12] Geza Vermes, Quem é quem na época de Jesus, fls. 154
[13] Edwin Yamaguchi, Jesus Outside the New Testament: What is the Evidence, in Wilkins & Moreland; Jesus Under Fire, fls. 214)

domingo, 20 de dezembro de 2009

Continuamos nossa analise da imagem popular de Jesus com base nas fontes polêmicas judaicas e apologéticas cristãs da antiguidade. Na parte 1, avaliamos fontes do sec. II, Celso (que afirma estar repetindo informações que circulavam em fontes judaicas), e os escritos de Justino e Tertuliano (que buscavam rebater percepções negativas que também existentes entre os judeus). Verificamos que sua origem, seus feitos extraordinários, e sua morte violenta foram atribuidos a uma união ilícita de seus pais, de seu aprendizado de magia, e da impossibilidade das reinvidicações messianicas. Concluimos, seguindo a tese do Prof. Geza Vermes, que essa é uma reinterpretação polêmica de uma visão popular anterior - atestada em Josefo, de que Jesus de Nazaré era percebido entre os judeus do sec .I como um mestre sábio, hasside e realizador de feitos extraordinários - e se torna cada vez mais incisiva como reação as reinvidicações cristãs da origem dávidica de Jesus, de seus milagres como prova de sua messianidade, e de sua morte (e ressureição) como cumprimento das escrituras.

Analisaremos agora o Talmude, que considero uma das fontes mais difíceis no que se refere ao Jesus Histórico, em virtude de ser tardia, e das eventuais alusões serem objeto de intensa polêmica entre os estudiosos, primeiro no que diz respeito a se realmente uma dada passagem faz uma menção a Jesus de Nazaré, segundo se traz uma tradição histórica antiga, com um núcleo que remonte ao 1° século DC, ou é apenas uma reação dos rabinos do sec. V ou VI, ou até mesmo de meados da Idade Média, a pregação do evangelho pelos cristãos.

Introdução

Professor Edgard Leite, da Universidade Estadual do Rio de Janeiro, descreve o desenvolvimento e formação do Talmude:

Os fariseus se consideravam detentores de uma tradição espacífica, a assim chamada Mishnah, literalmente "Ensinamento". Tratava-se de um conjunto complexo de disposições legais e filosóficas, conhecida também como a Torah oral. Aceitava-se que se constituia em material complementar à Torah escrita e instrumental para sua correta compreensão. Tal tradição não tinha uma aceitação ampla no período anterior ao levante. Para os fariseus, no entanto, era a espinha dorsal de uma particular visão de mundo. A sua origem, do ponto de vista mítico, era entendida como associada à revelação a Moisés, tendo sido transmitida por ele a Josué, depois aos anciãos, aos profetas, aos homens da Grande Assembléia (zoferim, os escribas), e finalmente aos líderes dos fariseus. A tradição atribui as academias dos mestres Hilel e Shamai o início do processo de organização deste vasto material , ainda em períodos anteriores ao primeiro levante. Após a guerra, depois de 73, vários sábios estiveram envolvidos no processo de consolidação da Mishnah (...) os sábios que contribuiram para essa versão final da Mishnah, cerca de 150, passaram a ser tradicionalmente conhecidos como tannaim, isto é, os professores. (...)
A partir do século III, a discussão sobre os conteúdos da Mishnah foi conduzida pelos amoraim, os expositores. Foram eles que começaram a elaborar o Talmude, ou Gemara, isto é o comentário, no caso sobre a Mishnah
. (...) Um texto mais ou menos consolidado foi fixado por Ashi, diretor de Sura por 52 anos, em torno de 427, e consolidado por Rabina, em torno de 499. Aos capítulos da Mishnah , assim, foram acrescentados os comentários dos amoraim. Estes constituem a Gemara, de fato atas de reuniões ou coletâneas de opiniões, que envolvem não apenas afirmações amoraitas, mas tanaíticas e de fontes diversas. Não se trata, portanto, de um livro de história. O seu objetivo é a exegese da Torah, a reflexão sobre os infinitos sentidos da revelação do Sinai, a discussão ampla sobre a natureza da condição humana segundo a perspectiva judaica
[1]

Desta forma, o Talmude não é propriamente um livro de história, e as alusões (ou supostas alusões a Jesus), são, em sua maioria, indiretas ou ambiguas.Em alguns casos a (suposta) alusão é feita em forma de parabola ou lenda, referindo-se a tradições correntes sobre Jesus ou dos cristãos.

Um motivos adicional para que as alusões fossem veladas, e que como as passagens atribuem imputações de nascimento ilegitimo e pratica de feitiçaria a Jesus, o Talmude esteve sujeito a desconfiança e vigilância da Igreja e autoridades cristãs durante a Idade Média. Em 1264, a Igreja ordenou a exclusão dessas passagens, consideradas ofensivas, e, eventualmente, o Talmude foi incluido no Index Librorum Prohibitorum em 1554, pelo papa Paulo IV.

Avaliação da Fonte. É mesmo Jesus?

Desta forma, o que se discute é se determinada passagem realmente se refere a Jesus, e se há e qual seria o núcleo histórico daquela afirmação. Alguns estudiosos entendem que o valor histórico das referências do Talmude é nulo, ou quase nulo. Enquanto outros acreditam que podem obter valiosas informações com base nas tradições dos rabis, independentes ou complementares aos evangelhos.

No lado "cético", temos como principal referência o Professor Johann Maier:
"Johann Maier representa uma posição radical ao sustentar que não apenas a Mishná, como também ambos os Talmudes, não contém qualquer menção direta e autêntica a Jesus de Nazaré (...) Sua conclusão é que mesmo os textos originais dos dois Talmudes nunca falaram de Jesus: tais referências seriam, todas, interpolações posteriores, inseridas na idade média" [2]

"Ele [Maier] antes afirma que o nome de Jesus foi inserido no processo secular de formação do Talmud apenas secundariamente em contextos existentes, a saber, como reação a provocações cristãs" [3]

Já entre aqueles que acreditam que o Talmude apresenta algumas (poucas) tradições historicamente independentes sobre Jesus, provenientes do periodo tanaitico, temos como "campeão" e representante o Professor Joseph Klausner (1874-1958), da Universidade Hebraica
Klausner (Jesus of Nazareth, 23) menciona vários baraitas do tempo do Rabi Eliezer Ben Hircano e do Rabi Ismael (final do século I e início do século II d.C). Baraitas são doutrinas rabínicas antigas que não foram incluidas no Mishná, porém foram preservadas nos documentos posteriores (Tosefta, dois Talmudes). [4]

Em contraposição a isso, outros autores, como por exemplo, J. Klausner, acreditam poder encontrar pelo menos algumas tradições antigas e historicamente confiáveis no Talmud [5].

Entre essas posições "extremas", existem várias opiniões intermediárias que parecem acomodar a maior parte dos críticos, e que, nesse primeiro momento, buscaremos seguir.

Jesus e sua execução no Talmude

Thiessen e Merz [6] apontam Sanhedrin 43a, abaixo, como representante de muitos textos possíveis, por se referir a execução de Jesus e seus (cinco?!) díscipulos e a uma tradição que provavelmente procede do periodo tanaítico.

Isso com certeza foi dito: Na véspera da páscoa Yeshu [de Nazaré] foi pendurado (ou enforcado); Pelos quarenta dias que antecederam sua execução, um arauto saiu e anunciou: ‘Ele será apedrejado porque praticou feitiçaria e induziu Israel à apostasia: "Jesus de Nazaré será apedrejado porque praticou feitiçaria e induziu Israel a pecar". Qualquer um que saiba algo em seu favor deixo-o vir adiante e o defenda. Porém, uma vez que nada foi alegado em seu favor, ele foi pendurado a véspera da páscoa.
Rabi Ulla pergunta: “Você supõe que ele era alguém de quem alguma defesa pudesse serfeita?“Ele não era um instigador, a respeito de quem as Escrituras dizem: ‘tu não o pouparás, nem o ocultarás’?” Com Yeshu (Jesus), contudo, foi diferente porque ele tinha conexões com o governo (ou a realeza).
Os rabinos ensinaram: Yeshu tinha cinco díscipulos: Mathai, Naqai, Neçer, Buni e Thoda. Quando apresentaram Mathai, este lhes disse: deve Mathai ser executado: pois foi dito: quando [Mathai] virei eu e aparecerei diante do rosto de Deus!? [ Sl. 42,3]. Eles lhes responderam: pois bem, Mathai deve ser executado, pois foi dito: quando [Mathai] ele morrerá e seu nome perecerá? [Sl. 41,6]
(semelhantes jogos de palavras seguem-se também para os outros quatro díscipulos de Jesus) [7]

Segundo o Professor Edgard Leite [8], apenas 1 dos quatro manuscritos mais antigos (todos da Idade Média) do Talmud, trazem a expressão Ha Nozri, (Nazareno ou de Nazaré). Nos outros manuscritos é simplesmente Yeshu. Leite lista como possíveis explicações a auto censura da maioria dos copistas, ou de que algum deles teve acesso a alguma tradição especial, ou então pela simples decisão de acentuar uma identificação/justaposição. Uma vez que uma identificação ainda mais explícita de Yeshu com Jesus de Nazaré seria altamente problemática para copistas judeus em um ambiente majoritariamente cristão, é bem possivel que a omissão do termo "de Nazaré" nos outros manuscritos esteja relacionado ao receio de possíveis reações da Igreja. O Prof. David Flusser, acredita que Yeshu seria a pronuncia galiléia do nome Yeshua [9].

Tanto Maier como Klausner aceitam que na passagem, na forma como está hoje, Yeshu se refere a Jesus de Nazaré. No entanto, Thiessen e Merz [10], esclarecem que a posição de Maier é a de que o nome de Jesus foi incluido secundariamente no relato da execução de algum mago ou aliciador, que fora casualmente morto na véspera da páscoa. Desta forma, observa Thiessen, se Maier estiver certo, "fica impossibilitada qualquer conclusão histórica".

Thiessen e Merz comentam as informações trazidas pelo Baraita :

"Uma vez que se trata de explicar um processo legal rabínico, os acusadores e executores da punição são, exclusivamente autoridades judaicas, o que com certeza não é historicamente exato.
De modo correspondente, Jesus deve ser apedrejado e depois o cadaver deve ser suspenso. O "deixar suspenso na véspera da Páscoa" é fortemente destacado em relação ao apedrejamento, talvez para ajustar a narrativa ao conhecido fato de Jesus foi crucificado (pelos romanos). (...)
Jesus praticou feitiçaria, uma acusação que estava circulando desde muito cedo, uma vez que já aparece na pericope de Belzebu (Mc. 3.22). Ela naturalmente interpreta os milagres de Jesus como feitiçaria e magia satânica quando não se via neles a ação de Deus. Mas é muito improvável que esta acusação esteja relacionada a execução de Jesus".
"Jesus desencaminhou Israel e o tornou apóstata. Esta acusação absolutamente não reproduz a postura dos acusadores de Jesus.; Aqui um processo histórico posterior é retroprojetado na vida de Jesus. Somente retrospectivamente - depois que os cristãos se separam do judaísmo como grupo religiosos, aboliram a observância da Lei (principalmente, a circunsição, o sábado, e as regras alimentares) e cultuavam Jesus como Kyrios e Deus - os judeus poderiam apresentar Jesus como alguém que desencaminhou Israel, levando-o a idolatria"
[11]

A forte ênfase sobre o "deixar suspenso no madeiro", apontada por Thiessen e Merz parece também ser uma forma de enfatizar o destino vergonhoso de Yeshu-Jesus, pois esta escrito em Deuteronômio: "Se um homem tiver cometido um pecado digno de morte, e for morto, e o tiveres pendurado num madeiro, o seu cadáver não permanecerá toda a noite no madeiro, mas certamente o enterrarás no mesmo dia; porquanto aquele que é pendurado é maldito de Deus. Assim não contaminarás a tua terra, que o Senhor teu Deus te dá em herança.(Deuteronômio 21:22-23)". A idéia dos cristãos, de um Messias Crucificado (logo, pendurado no madeiro) foi considerada absurda por seus contemporâneos. Em o Dialogo com Trifo, Justino alude as profecias de Daniel 7:9-27, e Trifo prontamente responde "Estas mesmas escrituras, meu caro, nos ordenam esperar aquele que, como Filho do Homem, receberá do Ancião de Dias o Reino Eterno. Mas este que vocês chamam de Cristo não teve honra ou glória, tanto assim que a maldição contida na Lei de Deus caiu sobre ele, porque foi crucificado [11].

CONTINUA

REFERÊNCIAS BIBLIOGRAFICAS

[1]Edgard Leite, Yeshu Ha Notzri e sua viagem ao Egito: Uma Parábola Talmudica in Chevitarese, Corneli & Selvatici; Jesus de Nazaré, Uma outra História. fl. 280-281
[2] John P. Meier, Um Judeu Marginal, Vol. I, fl. 101
[3] Gerd Thiessen e Annete Merz, O Jesus Histórico, Um Manual, fl. 94
[4 John P. Meier, Um Judeu Marginal, Vol. I, fl. 112, nota 47.
[5] Gerd Thiessen e Annete Merz, O Jesus Histórico, Um Manual, fl. 95
[6] Talmude Babilônico, Tratado Sinédrio (bSahedrin) 43a
[7] Edgard Leite, Yeshu Ha Notzri e sua viagem ao Egito: Uma Parábola Talmudica in Chevitarese, Corneli & Selvatici; Jesus de Nazaré, Uma outra História, fl. 286.
[8] David Flusser, Jesus, fl.16
[9] Gerd Thiessen e Annete Merz, O Jesus Histórico, Um Manual, fl. 95, nota 38
[10] Gerd Thiessen e Annete Merz, O Jesus Histórico, Um Manual, fl. 95-96
[11] Justino Martir, Dialogo com Trifo, Capítulo 32


sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Há um texto chave no Evangelho de João a partir do qual podemos refletir sobre a pluralidade do movimento cristão nascente entre segmentos religiosos da região de onde emergiu. Ele ganha maiores cores quando o examinamos à luz de outras importantes passagens sobre o nascimento da igreja cristã.


João 4.1-42. A passagem por Samaria, o diálogo com a Samaritana e a imagem da colheita.
Antes, gostaria de expor uma questão embaraçosa por parte de alguns eruditos. Costuma-se apontar que nesta época do ano tal poço ( cujo termo empregado, pegé, também designa “nascente”) - que se alega ter sido objeto de descoberta arqueológica [1] - deveria estar transbordando, o que seria um sinal inequívoco, senão cômico, da não-historicidade do relato. J.P. Méier é um que, infelizmente, comete tal temeridade [2].

Como engenheiro agrônomo, sei que para um poço transbordar não basta haver chuva em uma determinada época. Condições agroecológicas determinantes da capacidade de infiltração de água, retenção de água no solo, capilaridade do solo, profundidade do solo, que estão interligados com a fitofisionomia do local; isso sem contar que variações no índice pluviométrico ocorrem, pode haver anos em que determinado índice de determinado mês sofra grandes variações, ainda mais extrapolando vários séculos. Por isso considero no mínimo irresponsavelmente precipitado alguém querer ser tão seguro numa afirmação como essa. [ Nota de acréscimo: segundo o professor D.A.Carson, o poço teria pelo menos 30 metros de profundidade, e Jesus teria se encontrado lá à hora sexta, ou meio-dia [3]].

Esta passagem de João nos remete a diversas alusões para com o Antigo Testamento e expectativas messiânicas, com implicações para grupos e povos como os Samaritanos, vizinhos mas repudiados pelos judeus, em que se estabelece a importância da tradição ser guardada, memorizada e relatada pela sua significação por um ambiente de grupos oriundos, ou compostos significativamente por pessoas ligadas a eles. A começar pela passagem da Judéia para a Galiléia por Samaria; habitualmente seguia-se o vale do Jordão. Poderia remeter à profecia de Isaías 11.12:, em que O Espírito de Deus “reagrupará os banidos de Israel e reunirá os dispersos de Judá”. Confira Os. 2.2; Ez.37.16-24. A referência aos maridos da samaritana remete a II Reis 17.24-41 [4], a respeito das divindades das 5 tribos babilônicas que se estabeleceram em Samaria após a conquista do Reino do Norte. Josefo, em Antiguidades Judaicas, IX, 14,3, dedica uma menção e reflexão a respeito. Nesta passagem de Reis, de forma mais aproximada, implica na verdade que teriam sido 7 divindades, pois duas das tribos levaram duas divindades, passando a adorar YHWH igualmente.

A perspectiva "messiânica" samaritana tinha ênfase no papel deste como profeta e sacerdote, como o prometido em Dt.18.15, o profeta semelhante a Moisés. Não advogamos aí as injunções forçadas quanto ao “Messias Filho de José” para com o evangelho. Embora possamos refletir paralelamente uma figura remetida por muitos judeus cristãos a Jesus, à qual a comunidade de Samaria iria se opor- o ‘Filho de Davi”, que seria a vindicação dos judeus ante os gentios e samaritanos, inclusive em questões territoriais. Jesus parece ter tido uma relação quase ambivalente com essa perspectiva, assumindo partes dela e também negando outros aspectos. Quando no encontro com a mulher siro-fenícia [Mt. 15.21-28], Jesus ironiza-a clamando por ele como “Filho de Davi”, pois pela lógica ela teria era medo e/ou ojeriza com essa figura, que seria perigosa para ela e seu povo. Como muitas outras vezes, Jesus não é condescendente com quem pode se aproximar dele com dubiedade, dissimulação. Tal figura seria um adversário para ela, alguém que poderia lhes ( i.e., ela e seu povo) expulsar da terra...estaria ela sendo dissimulada apenas para obter o que queria, ou manifestava uma fé sincera? O restante da história mostra que não era o caso, que para ela a aflição de sua filha era mais importante do que os conflitos.


Podemos visualizar a imagem da "água viva", e a referência antecedente a “dom de Deus”, na ótica da esperança do "messias" sacerdotal. À luz da passagem da leitura messiânica de Dt. 18.18, o "messias" seria o Profeta à semelhança de Moisés, um libertador; João retrata que alguns dos discípulos mais chegados de Jesus compartilhavam de tal expectativa, vide a menção a “aquele que Moisés escreveu na Lei” (1,45), no convite de André para Natanael em João 1.45. Raymond Brown [5] assevera sobre a fala da personagem da mulher samaritana: “Em nenhuma parte mais Jesus é chamado ‘Salvador’ durante o ministério público. Contudo, o mais que se pode provar de Jo 4,4-42 é que os samaritanos usam um título que não é tradicionalmente messiânico – não há nenhuma alusão à preexistência”.

Samaritanos esperavam o “Taeb” [6],
uma figura "messiânica" de menos vulto (tanto que não se vê de forma comum referências a ela como Messias), de caráter sacerdotal. Aqueles que buscam afirmar que o evangelho joanino apregoaria que Jesus se identificara como o enviado divino da perspectiva samaritana necessitam crer que as diversas partes em que se recusa a se auto-identificar tanto com as reivindicações samaritanas quanto as dos judeus, foram uma inserção posterior corretiva...pois invocando a imagem do Ruah – em pneumati kai aletheia – transpassaria-se as conotações de disputas políticas e territoriais em seu messianato... Estaria significando “não sou o messias da política de aspiração de poder judaica nem a samaritana”, transcendendo os dois ideários. Nesse ponto, podemos entender o que, no ponto de vista de seus opositores, teria sido um insulto a Jesus ao lhe dirigirem a pergunta retórica “Você é um samaritano?”(Jo.8.48). O autor do evangelho, na passagem que temos referente ao versículo 22 neste mesmo capítulo 4, deixa claro que não estava usando Jesus para uma apologia do movimento samaritano contra o judaico.

Alguns exegetas ingenuamente acabam partilhando do ponto de vista dos interlocutores e concluem que de fato Jesus se identificara com o partido Samaritano. Lamentamos tamanha ingenuidade. Pois com pouco esforço de raciocínio nos lembramos que um grupo extremista, que se afirma pelo contraste com outro grupo, tende a pensar das posições não-alinhadas como tomar partido com os outros. Recentemente, não o vimos tais declarações por parte de autoridades estadunidenses em sua guerra unilateral contra o “Terror”? Não eram assim também ambos os lados da Guerra Fria? Novamente lembramos que não basta buscarmos apenas lançar mão de dados para ter erudição, senão caímos na falácia estatística das “imagens semi-aderentes”; é importante antes o bom concatenar lógico das proposições. Coerentemente, teriam que especular se Jesus teria mesmo parte com o demônio...

O cenário didático da colheita é corrente em Jesus. Por exemplo, confira-se Mt. 9.37. A semeadura ocorria em outubro/novembro e a colheita-março/abril. Se estabelece aí um contraste entre os campos literais verdes, ainda longe do tempo da colheita. “Levantai e vede”: grupos samaritanos vindo de Sicar. Os campos da missão dão os sinais de que estão no ponto de colheita. Então, já haviam sido semeados anteriormente! Era para os discípulos participarem da alegria dos trabalhadores anteriores, e não serem recalcitrantes por não terem sido eles– vs. 36-37. Afinal, como a fala no evangelho de Marcos, “Aquele que não está contra nós é a nosso favor” - Tradução Bíblica Ecumênica


Quem semeara? Terá sido por isso que Jesus “necessitou passar por Samaria?” Vs. 38 – o trabalho dos cultivadores será proveitoso para a comunidade cristã, para a Igreja. Interessante essa imagem. Se o Cristo é o semeador, e os apóstolos os colhedores, os outros então cultivaram a partir do trabalho de Cristo, e não por conta própria.

Podemos perceber que neste evangelho poderia estar contido[7], de forma embutida ou mais clara para aqueles do seu contexto, uma resposta a questionamentos sobre o papel de samaritanos e grupos ligados a eles na igreja cristã; os que supostamente promoviam este questionamento podiam se apegar a Mateus 10.5, considerando, como no apontado por Bauckham [8] , que é um erro considerar os evangelhos como destinados apenas às comunidades locais, e sim que a partir delas eles tinham a perspectiva da difusão entre as igrejas e delas para a evangelização. Especificamente quanto ao ambiente da comunidade joanina, acompanhamos Raymond Brown [9]: “longe de ser um cristianismo de isolamento, ele foi um confronto em plena corrente com as sinagogas e outras igrejas, e que apesar de tendências sectárias, ele orava pela unidade com os outros cristãos. Mas era um cristianismo desafiadoramente diferente e volátil – tão volátil que estava destinado a ser absorvido nos movimentos cristãos mais amplos (de direita e de esquerda) que surgiam no primeiro século".

Esse motivo no evangelho, de buscar apontar a legitimidade das missões a partir de Samaria, pode mostrar as ligações precoces logo no início da atividade missionária da igreja, dentre os conversos samaritanos e helenistas, e que estaria também ligado também à polêmicas cristológicas, envolvendo a alta cristologia da perspectiva do evangelho joanino. Por exemplo, aponta-se João Batista como precursor, se considerarmos que Enon, próximo a Salim (João 3.23) fora situada em Samaria.
 Assim, desconstruiria-se os argumentos de que encontrar indícios de pensamento helenista, ou de âmbitos culturais além de estritamente judaicos, em textos neotestamentários - especialmente evangelhos - é certeza de que seja desenvolvimento tardio. Não adoto aqui a perspectiva radical de que o evangelho joanino é uma costura de diversas tradições independentes e criadas em épocas diferentes, sendo o “discípulo amado” narrador uma figura simbólica ou um “rosto coletivo”, a personificação do grupo [10].

Podemos saltar para, bem mais à frente, um episódio crucial para a expansão do movimento cristão. Em Atos, o discurso de Estevão parece trabalhar em cima da Torá Samaritana. Vemos isso analisando-se à luaz de temas quanto à idade de Terach implicada como 145, não 205 anos. Abraão sepultado em Sh'kem. Filo de Alexandria, em “De Migratione Abrahami”[11], coloca que Abraão deixou Haran depois da morte de Terach. Também no seu discurso há influência do livro de “Jubileus”, no enterro dos ossos dos irmãos de José em Heron – Jb 1.27-29; 2.1. 

O caráter indissiocrático das idéias de Estêvão, comparadas com o evangelho lucano e com Atos – destacando os demais discursos onde se apresenta ideias coerentes com o que se mostra ser a do compilador do livro- atesta para a fonte independente do discurso [12], sem dúvida de origem dos “helenistas” cristãos [13], ou como especulamos mais aqui, dos conversos samaritanos, acrescentando a importância dada ao patriarca José característica do imaginário efraimita. O livro o apresenta como “denunciado” pelos judeus da dispersão que eram ex-escravos (At 6.9).

O
s helenistas foram a Samaria com a perseguição. Não acredito que apenas a oposição ao culto do Templo serviria como elo tão forte. Importante: eles não tinham comprometimento apologético nem com o Templo, tampouco, tal como Jesus, com o Monte Gerazim. Para o evangelista, eles tinham contemplado a Shekinah, ou seja, Jesus era lócus do culto. Ele “habitou entre nós”, retoma a idéia do Tabernáculo, ou da resposta de Deus a Davi-Salomão, de que ia de tenda em tenda.

Os Sete, incluindo Felipe que era dotado de desenvoltura para pregar entre gentios e samaritanos (At 8.4-13 e 26-40) – terão sido um grupo-referência, não contando com o status dos Doze mas sendo também um referencial alternativo? Os helenistas encontraram acolhida em Samaria porque ali poderia já existir um grupo coeso, importante? Então, tal grupo já vinha dos tempos da atividade de Jesus. Isso possibilitou a missão saída da perseguição desencadeada após o martírio de Estêvão, sendo que daí Pedro e João foram enviados lá a partir das notícias – Atos 8.14, expressando o quadro desenhado em João 4.38.  Serviram então como uma ponte, um referencial maior entre os dois grupos, o mais identitariamente judaico e o... nem tanto. Tiago passara a ser o líder em Jerusalém, no lugar de Pedro... este, é encostado na parede por Paulo por se intimidar pelo “partido judaizante”, tendo passado por uma saia justa em um momento que tinha que tomar uma posição(Gl. 2.11-14). E João (além da grande probabilidade de fundar/ dirigir comunidades na Ásia Menor, especialmente Éfeso)?.. 

Referências

[1] BROWN, Raymond E.
The Gospel According to John I-XII
[2] MEIER, J.P. Um Judeu Marginal.
[3] CARSON, D.A. The Gospel According to John.
[4] CULLMAN, Oscar.
Das origens do Evangelho à formação da teologia cristã.
 [5] BROWN, Raymond E.
A comunidade do discípulo amado
[6] SCARDELAI, D. Movimentos Messiânicos no tempo de Jesus: Jesus e outros messias.
[7] CULLMAN, Oscar. Early Christian Worship
[8] BAUCKHAM, Richard. The Gospels for All Christians: Rethinking the Gospel Audiences
[9] BROWN, Raymond E. A comunidade do discípulo amado
[10] - BAUCKHAM, Richard. Testimony of the Beloved Disciple, The: Narrative, History, and Theology in the Gospel of John
     - HENGEL, Martin. Johannine Question
     - MOLONEY, Francis J., HARRINGTON, Daniel J., The Gospel of John
[11] ALEXANDRIA, Philon. De Migratione Abrahami.
[12] BLOMBERG, Craig. From Pentecost to Patmos: An Introduction to Acts Through Revelation
 [13] HENGEL, Martin.
Acts and the History of Earliest Christianity

quinta-feira, 12 de novembro de 2009



Este post, ou melhor, esta série de posts, tem como objetivo desenvolver uma questão que sempre me intrigou. Gerd Thiessen e Annete Merz, em seu monumental "O Jesus Histórico, Um Manual", fazem a seguinte observação:

"Segundo G. Vermes, a descrição de Jesus como "homem sábio" e "realizador de feitos maravilhosos (milagrosos) (...) espelha a imagem de Jesus que circulava na Palestina como uma tradição popular.O fariseu Josefo recebeu-a sem uma apreciação, enquanto os rabinos interpretam a mesma tradição como testemunho sobre um mago e enaganador" [1].

Thiessen se refere aqui, em especial, ao importante trabalho do Prof. Geza Vermes, de Oxford, em em seu artigo "The Jesus Notice of Josephus Re-Examined" (1987).

Fatos e Versões: A proposta do Prof. Vermes abre uma "avenida", uma verdadeira auto-pista para os estudos do cristianismo primitivo.

Teriamos alguns fatos: O povo comum, contemporâneo de Jesus, tinha dele uma memória e lembrança como alguém capaz de realizar sinais e prodígios, feitos tidos como milagrosos e espetaculares. Um mestre cujos ensinos atrairam multidões. Sua atuação, porém, gerava controvérsia, que logo se transformou em conflito com as autoridades judaicas e romanas, levando a crucificação.

Para estes fatos teríamos uma interpretação dada por aqueles que, dentre o povo, seguiam a Jesus de Nazaré (os cristãos). O sinais e prodígios realizados por Jesus e seus ensinos provam que ele é "profeta poderoso em Palavras e Atos, diante de Deus e de todo o povo" (Lc. 24:24; Atos 2:22), que estas e outras coisas, bem como sua morte, aparentemente desonrosa, aconteceram para que se cumprisse a escritura (At. 2:23). "Ele nos apareceu vivo, pois Deus o ressuscitou dos mortos, em cumprimento da Escritura" (At. 2:24-32), testemunhavam os apóstolos. Tais fatos, interpretados a luz da escritura comprovariam uma reinvidicação ambiciosa: Jesus é o Cristo, em cumprimento das escrituras.

Outros, porém davam aos referidos fatos, interpretação diversa. Jesus foi preso e crucificado pelos próprios opressores do povo de Deus, a qual, supostamente, o Cristo deveria derrotar. Portanto, seu fracasso em impor seu reino e sua morte desonrosa, reservada a salteadores e agitafores, provariam que ele não podia ser quem dizia ser. Era então um falso profeta, magico e charlatão, e maldito, pois foi pendurado no madeiro. A medida que o cristianismo como movimento se tornou uma religião em separada, predominantemente gentia, essa visão se torna mais comum. Embora, possivelmente, alguns contemporâneos de Jesus pensassem assim, a predominância de tal visão seria resultado de uma reinterpretação tardia e deturpada da memória popular, que se intensifica com o passar do tempo, a medida que cristãos e judeus se distanciam.

No entanto, na visão de Geza Vermes, muitos dos contemporâneos de Jesus, provavelmente a maioria, interpretavam os fatos de uma maneira menos categórica. Acreditavam que Jesus tinha sido um homem santo, um hasside galileu, assim como Onias e Hanina Ben Dosa. Um sábio, realizador de feitos extraordinários, com muitos seguidores (como, parece, escreveu Josefo). Contudo, não o tinham como Messias. Outros ainda tinham dificuldade de distinguir Jesus de outros líderes carismáticos como Teudas ou Judas Galileu e pensavam que, se fosse de Deus, o legado de Jesus perduraria, ao contrário do que acontecera com Teudas ou Judas. O parecer atribuido a Gamaliel (Atos 5:33-42) pode ter sido uma opinião bem comum.

A hipótese é atrente, mas deve ser testada com as fontes disponíveis. Nossa análise será das fontes do II século e o Talmude.

Polêmica do II Século: O Professor Maurice Goguel (1880-1955), da Sorbonne (Universidade de Paris) observou certa vez que desde seus primórdios o cristianismo foi objeto de oposição tanto gentia quanto judaica, em Jerusalém, Judéia e todo o mundo romano. Por meio de Luciano, Celso, das várias apologias do século II (Justino, Taciano, Aristides) e pelo Dialogo entre Justino e o judeu Trifo, diz Goguel, podemos ter uma visão bem detalhada dos críticos do cristianismo no Segundo Século. Da mesma forma que há uma tradição apologética existe um outra polêmica, a qual a primeira tentava refutar [2]

Os mais importantes exemplos entre a polêmica a respeito de Jesus de Nazaré, no século II, são encontrados na obra do autor pagão Celso, e nos escritos dos apologistas Justino Martir e Tertuliano.

Sobre Celso, John Dominic Crossan escreve:

Em algum momento entre 177 e 180 E.C, com o Imperador Marco Aurélio já perseguindo os cristãos, o filósofo pagão Celso escreveu sua doutrina verdadeira, um ataque intelectual a religião dos cristãos [3]

A obra de Celso não sobreviveu. Mas várias partes de a Doutrina Verdadeira são conservadas na resposta de Origenes, "Contra Celso", escrita por volta de 230 a 240 DC. O mais interessante é que Celso afirma que sua fonte de detalhes supostamente biograficos de Jesus seriam relatos que circulavam entre os judeus. O que é relevante pois suas afirmações podem ser comparado com as apologias de São Justino Martir (140-160 DC), notadamente seu livro "Dialogo com Trifo" (150 DC), e com os escritos de Tertuliano de Cartago, por volta do ano 200, que também buscaram responder acusações feitas a Jesus por seus conterrâneos.

Entre as informações que Celso, Justino e Tertuliano apresentam estão:

1) Jesus é acusado de ter nascido de uma união ilegítima, da noiva de um carpinteiro e um soldado romano (Celso).

2) Os feitos extraordinários atribuidos a Jesus seriam resultado de seu conhecimento de magia (Celso, Justino e Tertuliano).

3) Os cristãos seguiam a Jesus, auto-proclamado Filho de Deus, por conta de seus feitos incríveis (Justino, Tertuliano e especificamente em Celso, resultado de seu aprendizado de magia no Egito), mas ele seria na verdade um aliciador e mago.

4) Se Jesus era o Messias e o Filho de Deus, não poderia ter sido crucificado, morte vergonhosa reservada aos mais baixos criminosos (Justino e Celso).

I) Origens e Acusação de Ilegitimidade:

"[Jesus] nasceu em uma certa vila judia, filho de uma pobre mulher do campo, que ganhava sua subsistência como fiandeira, e que foi expulsa de casa por seu marido, que exercia o ofício de carpinteiro, porque foi acusada de adultério; após ter sido abandonada por seu marido, e vagando por algum tempo, ela desgraçadamente deu a luz a Jesus, seu filho ilegitimo. Porque [Jesus] era pobre, empregou-se como operário no Egito e lá testou habilidades em certos poderes mágicos dos quais os egípcios se vangloriam, ele voltou cheio de presunção por causa desses poderes e por conta deles, deu a si mesmo o título de Filho de Deus."
Durante a sua gravidez foi expulsa de casa de casa pelo carpinteiro a qual estava prometida, como sendo culpada de adultério, e deu a luz a uma filho de um soldado chamado Pantera
[4]

No que se refere a questão de Ben Pandera e a suposta ilegitimidade de Jesus, Geza Vermes observa:

"Curiosamente, o nome Pantera/Pandera encontra confirmação no período, como nome de soldados romanos, e provas epígraficas, datando do ano 9, falam de um certo Tiberius Julius Abdes Pantera, um arqueiro sidoniano de uma legião estacionada na distante Germânia (...) A possibilidade de Pantera ser o Pai de Jesus foi retomada por James Tabor, em The Jesus Dynasty" [5]

Vermes acredita que a associação a Pandera surgiu de uma corruptela do grego "partenos" ou virgem, seria uma reação portanto as narrativas do evangelho de Mateus. J.P Meier, Notre Dame University, concorda, e aponta as dificuldades com essa tese:

"Como Celso relata o que um judeu lhe havia contado um pouco antes de 178, é de presumir que essa história já vinha circulando entre alguns judeus helenistas na Diaspora, em meados do século II. Com muita probabilidade, ela não data de época anterior, pois Justino, o Martir, trava um debate bastante detalhado co m Trifo, o judeu, sobre a concepção virginal, sem que este último seja apresentado como tendo respondido a acusação de ilegitimidade. Contudo, o fato da história ser primeiro atestada entre os judeus da diaspora, e não na Palestina, e só em meados do século II, evoca a apossibilidade de ela ser uma polêmica parodia judaica do relato cristão de concepção virginal, especialmente como apresentada no Evangelho de Mateus. (...) A origem da paródia na Diaspora e não na Palestina , torna improvável que tenhamos nessa passagem um fragmento de informação histórica preservado intacto "secretamente" pelos judeus ao longo de um século e meio [6].

O Novo Testamento registra pelo menos uma insinuaçãodos adversários de Jesus, de que ele teria sido concebido em uma relação ilícita, em João 8:40-41. Então a acusação aberta de ilegitimidade pode remontar aos contemporâneos de Jesus, o mesmo, no entanto, é duvidoso em relação a Pantera. Professor André Chevitarese, da Universidade Federal do Rio de Janeiro , apresenta outra motivos para uma dependência entre a tradição de Pantera relatada pela fonte de Celso e o evangelho de Mateus [7], além das trazidas por Vermes e Meier:

i) uma ênfase na concepção virginal;
ii) uma possivel insinuação à consternação de José, quando ele descobre que Maria está gravida, e seu plano para divorciar-se dela (Mateus 1:18-20),
iii) a fuga para o Egito (Mateus 2:13-15)
iv) a referência a José como carpinteiro, que só ocorre no Novo Testamento em Mateus 13:55

b) Feitos milagrosos e magia:

A respeito do extenso debate entre Justino Martir e Trifo (140-150 DC), já referido por Meier, o Prof. Graham Stanton, de Cambridge [8], observa que o primeiro afirma que as curas milagrosas de Jesus foram o cumprimento das profecias messiânicas de Isaias 35:1-7. Os milagres de Jesus seriam então um reconhecimento de sua condição de Messias, entretanto, muitos que os viram chegaram a conclusão oposta:

"Eles atribuiram [os milagres] a utilização de poderes mágicos, porque eles se atreveram a dizer que Jesus era um mágico e enganador do povo" [9].

Ainda segundo Stanton, do contexto, não há dúvida que o termo "enganador" esta sendo usado em comparação com Deuterônomio 13:5, com enfase no falso profeta que leva o povo de Deus a pecar.

Acusação semelhante é registrada e respondida por volta de 200 DC - uma geração após Celso e duas de Justino e Trifo - por Tertuliano, em seu livro Apologeticum:

"Assim, então, sob a força de sua rejeição convenceram a si próprios desse seu baixo procedimento: que Cristo não foi mais do que um homem, seguindo-se, como conseqüência necessária, que tivessem Cristo na conta de mágico, devido aos poderes que demonstrou"[10].
A acusação de Celso de que os judeus diziam que Jesus era na verdade um mágico e enganador do povo, foi também registrada e respondida, 30 anos antes, por Justino, em Diálogo com Trifo, e cerca de 20 anos depois na apologia de Tertuliano. Da mesma forma, é encontrada em passagens do Talmude, que será discutida em seguida, de um certo Yeshu que foi pendurado no madeiro (crucificado) na vespera da Páscoa, por praticar mágica e desencaminhar Israel.

A respeito, Geza Vermes observa:

"A familiaridade de Jesus com as ciências da magia, a representação negativa de sua atividade como realizador de milagres são atribuidos a seu contato com feiticeiros egípcios. O Celso de Origenes faz essas acusações no fim do século II." [11]

Orígenes (...) cita Celso, o crítico pagão de Jesus no século II, dizendo que ele afirmou que Jesus fazia seus "paradoxa" por mágica (Contra Celsum 1:6.17-18). A mesma acusação é levantada contra ele por detratores judeus posteriores (BSahedrin 43b) [12]

Nessa linha, Stanton afirma [13] que a acusação encontrada em Trifo (Jesus era um mágico enganador do povo) é uma tradição com raízes profundas. Durante seu ministério, diz Stanton, foi acusado de ser um mágico possuido pelo demônio. É provavel, ainda que não totalmente certo, que tenha acusado também de ser um falso profeta possuído pelo demônio. As alegações dos oponentes contemporâneos de Jesus confirmam que ele foi visto pior muitos como uma ameaça a ordem social e religiosa. A afirmar que agia e falava com base de um relacionamento especial com Deus foram corretamente percebidas como radicais. Para alguns eram tão radicais que tiveram que ser atacadas com base de uma explicação alternativa de sua fonte: Jesus era um mágico possuido pelo demônio e falso profeta. Avaliação semelhante pode ser feita em relação aos ataques respondidos por Tertuliano.

Na mesma linha, Celso centra seu linha de ataque na comparação entre os feitos de Jesus com os "realizados pelos mágicos egípcios que no meio das praças e feiras, por alguns trocados, demonstram conhecimento nas mais venerandas artes, expulsam demônios, curam enfermidades, e invocam a almas de heróis", e pergunta, "Visto, então, que essas pessoas podem realizar tais feitos, teremos que concluir que são "filhos de Deus" ou que procedem de homens iníquos sob a influência de espiritos malignos?[14]".

Em outras palavras, Celso esta ridicularizando os cristãos, dizendo, em outras palavras, : "vcs falam que esses milagres cumprem as profecias e demostram que Jesus é o Messias; Mas no Egito, os mágicos fazem feitos semelhantes, sem que possam ser chamados Filhos de Deus; Então, Jesus também deve ter sido um mágico possuido pelo demônio" É inevitavel a lembrança das acusações dos escribas no evangelho,
"Ele está possesso de Belzebu; e: É pelo príncipe dos demônios que expulsa os demônios" (Mc 3:22).

Morte:

Celso também ridiculariza a crença dos cristãos em um homem que foi crucificado como criminoso:

"Se, após inventar defesas que são absurdas, e pelas quais vocês são ridiculamente enganados, ainda que imaginando que vocês realmente fizeram uma boa defesa, porque vocês não consideram aqueles outros individuos que também foram condenados, e sofreram uma morte miserável, como maiores e mais divinos mensageiros dos céus (que Jesus) ?"
"e da mesma forma outros de seus companheiros seria capaz de afirmar, até mesmo de um assaltante e assassino cujo o castigo tenha sido aplicado, que tal não era um bandido, mas um deus, porque previu para seus companheiros de roubo que ele seria punido, como realmente foi" [15] .

No Dialogo entre Justino e Trifo, também encontramos uma amostra de como a idéia de um Cristo Crucificado soava escandalosa para seus contêmporâneos. Justino alude as profecias de Daniel 7:9-27, e Trifo prontamente responde:

"Estas mesmas escrituras, meu caro, nos ordenam esperar aquele que, como Filho do Homem, receberá do Ancião de Dias o Reino Eterno. Mas este que vocês chamam de Cristo não teve honra ou glória, tanto assim que a maldição contida na Lei de Deus caiu sobre ele, porque foi crucificado " [16]

É um eco perfeito, ainda que mais polido, as críticas de Celso. Jesus não pode ser o Messias, pois Messias não são crucificados como bandidos e salteadores comuns.

Conclusão:

É interessante que Celso, ou as fontes judaicas utilizadas por ele, ao invés de negar os milagres de Jesus, opta, primeiro, por desacreditar a fonte de seus poderes, atribuindo a magia e o conluio com forças demoniacas, e em seguida, sua significância, ao dizer que qualquer mágico de esquina poderia realiza-los. É sugestivo também o fato de que as acusações levantadas pelo filósofo judeu anônimo citado por Celso, apresentarem certa similaridade com as encontradas em Dialogo com Trifo, das críticas registradas em Tertuliano, e o Talmude.

Da mesma forma, Josefo fala de Jesus como "realizador de feitos incríveis/controversos". Isso tudo indica que Jesus tinha fama de "milagreiro" (ou feiticeiro) em circulos judaicos. Essa crença é atestada também em circulos pagãos. Ao responder Celso, Orígenes cita Flegon de Trales, cujos escritos datam entre 120-150 DC "Flegon, no décimo terceiro ou décimo quarto livro, se não me engano, de suas cronicas, não apenas atribui a Cristo o conhecimento de eventos futuros, ainda que confundindo alguns coisas referentes a Pedro como se refererissem a Jesus, também afirma que o resultado correspondia as suas previsões [17]". Tudo isso atesta que em meados do século II, Jesus era conhecido como alguém com poderes premonitórios e miraculosos.

E como observa o [18] Professor Robert Van Voorst, Western Theological Seminary, além das acusações de nascimento ilegítimo e prática de feitiçaria, Celso lança um violento ataque sobre vários outros aspectos da vida terrena de Jesus - ancestralidade, concepção, nascimento, infância, ministério, morte, ressureição e influência posterior. Van Voorst escreve

"De acordo com Celso, os pais de Jesus eram de uma aldeia judia (Contra Celso 1.28), e sua mãe era uma pobre mulher que obtinha seu sustento como fiandeira (1.28). Ele realizou seus milagres através de feitiçaria (1.28; 2.32; 2.49; 8.41). Sua aparência física era de um homem feio e pequeno (6.75). Para seu descrédito, Jesus manteve todos os costumes judaicos, inclusive o sacrifício no Templo (2.6). Ele reuniu apenas dez seguidores e ensinou a eles seus piores hábitos, como mendigar e furtar (1.62; 2.44). Seus discipulos, que contavam só "dez marinheiros e coletores de impostos" foram os únicos a qual ele convenceu de sua divindade, mas agora seus seguidores convertem multidões (2.46). Os relatos de sua ressureição vieram de uma mulher histérica, e a crença na ressureição foi o resultado da mágica de Jesus, os desejos de seus seguidores, ou alucinação coletiva, tudo com o propósito de impressionar outros e aumentar as chances de outros tornaram-se mendigos (2.55).” [18]

A críticas acimas são tardias, escrita 100 a 150 anos depois da morte de Jesus. Contudo, Celso é a única fonte não-cristã até então que escreve especificamente sobre o movimento de Jesus. Josefo, Tácito, Plínio, Suetônio, Luciano, Mara, fazem menções incidentais em relação a Jesus. E Justino e Tertuliano se esforçam para defender o cristianismo de acusações semelhantes, que circulavam entre alguns círculos judaícos hostis ao cristianismo.

Tácito e Suetônio estavam interessados nos reinados de Claúdio e Nero; Josefo no governo de Pilatos e na destituição do Sumo-Sacerdote Ananias, nas duas menções que faz a Jesus; Luciano escrevia sobre o Filósofo Proteus, e Mara instruia seu filho nas virtudes da sabedoria apesar do ataque dos poderosos, citando Jesus como exemplo. Mas Celso critica sistemática e detalhadamente os cristãos. Apresenta argumentos filosóficos, aponta supostas inconsistências nas narrativas evangélicas, faz comparações com outros cultos e seitas existentes à época, apresenta alguma familiaridade com os vários grupos cristãos existentes. No que se refere a vida de Jesus, apresenta "fatos" não existentes em qualquer escrito cristão, e derivados de tradições que circulavam entre os judeus em meados, talvez no início do II século. Tais tradições são atestadas também, no mesmo período, pelas defesas de Justino e Tertuliano.

É razoavel inferir que critícos como Celso utilizaram o que havia de melhor à época para atacar o cristianismo. O mesmo pode ser dito dos oponentes de Tertuliano e Justino, que se esforçam por rebater críticas incisivas contra seu Mestre. O que indica fortemente mesmo os mais ferrenhos inimigos do cristianismo, não tinham motivo para questionar a historicidade de Jesus, seus ensinamentos como centrais no cristianismo, e que ele realizou pelos menos alguns feitos considerados milagrosos.

CONTINUA
Referências:
[1] Gerd Thiessen & Annete Merz (1996), "O Jesus Histórico, Um Manual, fl 94
[2] Maurice Goguel, Jesus the Nazarene, Myth or History? fls. 69-71
[3] John Dominic Crossan, Jesus, uma biografia revolucionária, fl. 43
[4] Origenes, Contra Celso Livro 1, Capítulos 28 e 32
[5] Geza Vermes, Natividade, fl. 178, nota 16
[6] John P. Meier, Um Judeu Marginal, Vol. I, fls. 223-224
[7] André Chevitarese, Menino Jesus e a Ilegitimidade Física do Fiho de Deus. O Uso do Modelo Iconográfico de Tipo Universal (Mãe/Filho) pelos cristãos, In Chevitarese, Corneli & Selvatici, Jesus de Nazaré, Uma Outra História, fl. 51
[8] Graham Stanton, Gospel Thuth?New Light on Jesus and the Gospels, fl. 156
[9] Justino, Dialogo com Trifo, Capítulo 69, verso 5
[10] Tertuliano, Apologetica 21:17
[11] Geza Vermes, Natividade, fl. 134
[12] Geza Vermes, As Varias Faces de Jesus, fl. 306, nota
[13] Graham Stanton, Gospel Thuth?New Light on Jesus and the Gospels, fl. 163
[14] Orígenes, Contra Celso, Livro 1, Capitulo 68
[15] Orígenes, Contra Celso, Livro 2, Capítulo 44
[16] Justino Martir, Dialogo com Trifo, Capítulo 32
[17] Orígenes, Contra Celso, Livro 2, Capítulo 14
[18] Robert Van Voorst, Jesus Outside of New Testament, fl. 66

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Na Biblical Archaeology Review podemos acompanhar uma sequência de materiais relativos à polêmica do texto secreto de Marcos. Morton Smith foi o autor da descoberta, na década de 50, que ele alegara estar presente numa carta até então desconhecida de Clemente de Alexandria. O tom polêmico foi ampliado pois nesta carta Clemente reconhece que existem elementos verdadeiros neste evangelho, antigos, que Marcos não teria publicado no livro que mais tarde foi canonizado, que seriam aptos a serem lidos apenas pelos "iniciados" nas verdades mais espirituais. Clemente diz que o evangelista escrevera verão mais espiritual para iniciados e considerava a versão carpocraciana uma falsificação desta. Cita uma perícope de um ritual de inciação com um jovem, nu, que lembra João 11 sobre Lázaro, uma variante de tradição independente.

Segundo ele,os "Carpocracianos" estavam usando estes textos de forma desvirtuada, imoral, para pregar uma fé falsa, e misturando com mentira, e Clemente diz que mesmo verdades podem ser usadas para pregar contra a verdade. Nisto, o crucial é que se admitiria tradições ocultas, arcanas, antigas e censuradas...

Mas a polêmica que se acendeu depois foi de mesmo tom. Com o tempo, grande parte dos pesquisadores consideraram uma fraude, falsificação, e muitos desde então têm tentado reabilitar Smith.


“Secret Mark”—A Modern Forgery?


“Secret Mark”: An Amazing Discovery
By Charles Hedrick

“Secret Mark”: Morton Smith—Forger

By Hershel Shanks

“Secret Mark”: Was Morton Smith a Great Thespian and I a Complete Fool?
By Helmut Koester

“Secret Mark”: Restoring a Dead Scholar’s Reputation
By Hershel Shanks

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Já faz um bom tempo que não posto por aqui. Tempos difíceis e tempos em que lutamos contra o tempo. Espero poder retornar aos poucos a este espaço pelo qual tenho tanto carinho e apreço.

Gostaria hoje de partilhar uma ótima descoberta. Eu sou um apreciador da boa fotografia. E também um apreciador da religiosidade humana. O nome importante é o deste senhor chamado Matthieu Ricard.




Mattieu é doutor em genética molecular pelo Instituto Pasteur na França. Em 1972, logo após ter completado este Phd, ele resolveu largar a vida acadêmica e se dedicar à prática do budismo tibetano. Ele passou anos estudando no Himalaia e se tornou discípulo de Dilgo Khyentse.




Nesta vivência no universo budista, Mattieu se tornou um fotógrafo de primeira, realizando belíssimos trabalhos visuais tais como os vistos nessa página, bem como os que encontramos em seu site oficial. Não deixem de conferir sua galeria. Suas fotos possuem uma beleza estremamente profusa em cores e leveza. Não deixem também de conferir os seus trabalhos impressos: Motionless Journey: From a Hermitage in the Himalayas e Bhutan: The Land of Serenity. É uma viagem garantida por estes universos exóticos e tão belos do budismo tibetano.

terça-feira, 18 de agosto de 2009

Retomemos nossa reflexão anterior, a respeito da relação epistemológica e metodológica entre 'estudos religiosos' e 'teologia', continuando com o gancho no fragmento do comentário de Max Weber.

Weber, advogando sua clássica posição da neutralidade axiológica e valorativa no fazer ciência social, nos deixa algo como uma confissão contrita: não há por onde escapar de se fazer escolhas... Uma adoção automática, nos remeteria próximo ao postulado de Douglas e Knoll’s. Os 'estudos religiosos' não seriam adequados à busca de uma posição teológica, cabendo às disciplinas teológicas, desvelarem a 'estrutura última' das avaliações, buscando seu significado no comprometimento religioso...

Agora, essa escolha, feita na hora de se tomar uma decisão na esfera de ação, não retroage e retro-alimenta, na prática, o próprio labor investigativo, mesmo o do acadêmico de 'estudos religiosos'? Essa postura em si, de advogar a neutralidade, não se imiscuiria numa visão filosófica particular do empreendimento societal? Aonde alguém, engajado no cotidiano de universidades e grupos de pesquisa sob orientadores, conseguiu ver tal neutralidade?

Em relação ao que falamos sobre o realismo crítico...os pesquisadores e estudiosos não assumem preferências por determinados modelos conceituais em detrimento de outros, não deixam sobressair determinadas ferramentas preterindo outras, e não interagem nisso com conhecimentos prévios selecionados, ou em escala diferente de pesos? Ao se depararem com anomalias, não existem aqueles que dão mais peso (quantitativo ou qualitativo) a determinadas anomalias para derrubarem uma teoria, outros a determinadas injunções ou descobertas para construírem uma teoria, entre si?

Em alguns, determinado paradigma é mais recalcitrante, em outros, menos? E o Zeitgest – ambiente cultural delimitado - não entra nisso? Ou existem aqueles desprovidos ou imunes a tal? Lembro de Albert Camus apontando no livro 'O Homem Revoltado' que mesmo uma fotografia não era algo neutro e objetivo, pois o fotógrafo decide enquadrar, delimitar espaço-temporalmente e focar algo da realidade – que é algo muito mais amplo e menos estático do que o mundo exterior onde está o fotografado - que não coincidem, evidentemente, com as molduras intrínsecas (quais seriam?) da própria.

Também, não necessariamente um artigo, texto ou trabalho, desprovido de tom militante, e mais circunspecto, implica que seja mais imparcial. Perfeitamente vemos nesse campo, ironias sutis, sarcasmos velados, 'tapas de luva', termos escolhidos meticulosamente para que, evitando perder o ar puramente acadêmico, sirvam para provocar um seguimento, ou entusiasmar adeptos de idéias.

Isso significa que o campo então deve ser aberto e entregue a manifestações panfletárias, ou que somente podemos ver guerras de trincheiras sem arbítrio entre si? Não. De forma alguma.

Na minha formação acadêmica em agronomia pude estudar estatística básica e estatística aplicada. Envolvem instrumentais de controle e rigor para as ciências. Confere a elas um caráter mais democrático. É claro que um pesquisador renomado, uma sociedade científica, possui um peso considerável num debate a respeito de um tema, e para fortalecer um paradigma ante anomalias. Contudo, o teste estatístico, que averigua a variância, margem de erro, amplitude, etc., é objetivo, e qualquer um pode desbancar uma tese se mostrar que há erro num cálculo simples no 'Teste de Tukey'. Nos campos de estudo compreendidos na presente temática, lidamos com variáveis, elementos e 'objetos' de estudo muito menos passivos de controle, sujeitos e mesmo requerentes de uma maior extrapolação. Com isso, o elemento de controle correspondente deve ser a lógica e análise retórica.

Eruditos elencam dados. Um leigo pode analisar seu escrito e dizer 'tal dado, com aquele outro, não levam necessariamente a tal conclusão', ou 'tal conclusão não corresponde a uma seqüência lógica a partir disso', ou 'aqui há mais retórica e menos concisão'; diversos escritos imensos, com um escopo de notas de rodapé maior do que o corpo de texto (algumas vezes nos deixando intrigados do por que elas não estão inseridas no corpo do texto, pois perfeitamente seguem sua seqüência), podem padecer de problemas como 'imagens semi-aderentes', 'médias unidimensionais', etc. Isso serve como um imperativo do qual os pesquisadores nesse campo não podem se escusar, o cuidado retórico, auto-crítica e o apreço pela boa disposição silogística dos argumentos.

Voltemos ao texto de Weber. Ele escrevera: As disciplinas filosóficas podem ir mais longe e revelar o ‘significado’ das avaliações, isto é, sua estrutura última e suas conseqüências significativas.

Poderíamos estabelecer, daí, com cuidado, uma relação então entre a 'teologia', ocupando o lugar aí das 'disciplinas filosóficas', e os 'estudos religiosos', ocupando o lugar das 'avaliações'? Seria enfim questão da separação entre 'ciências básicas' e 'ciências aplicadas', com a 'teologia' ocupando o lugar da segunda?
Eu sugiro que, em termos, e sem fronteiras rígidas, isso pode ser aproveitado na tarefa de se indicar um caminho menos míope.

Isso tem sim a ver, mas não pode ser delimitado assim com tal clivagem. Debrucemo-nos sobre a interface 'biblistas/teólogos'. Um biblista, por exemplo, fornece grandes materiais para um teólogo, sem precisar de ser um. Assim também um lingüista, etc. Mas, por outro lado, um conhecimento de trabalhos teológicos pode ser indispensável para análises lingüísticas de materiais religiosos.

Podemos dar um exemplo. Bart Ehrman, no meu ponto de vista, é primeiramente um grande biblista, que faz também teologia acadêmica. N.T.Wright, vejo-o primeiramente como um teólogo, que também é um grande acadêmico biblista. Ambos produzem pesquisas de qualidade, de alcance amplo e acessível para o ambiente dos pesquisadores. Mas podemos pegar a tônica geral dos seus trabalhos e ver que predomina um compromisso em ambos, em Bart, com o agnosticismo, em Tom, com o cristianismo.

E, afinal, 'quem decide' o que vai ser básico e o que vai ser aplicado? Frequentemente, aquele que propriamente produz o material é o que tem o menor poder de decisão. As pessoas podem pegar recortes de pesquisas dos biblistas dando-as orientações aplicadas, sem passar pelo trabalho de um 'teólogo', e podem encostar um trabalho teológico de lado sem aplicá-lo a nada, ou apenas decorando-o sem enxergar uma aplicação, ou podem mesmo usar um trabalho teológico para subsidiar ou suscitar uma investigação de cunho biblista.

Eu diria que, mais apropriadamente, mas com cuidado, podemos enxergar no papel dos 'estudos religiosos' uma tônica, preponderantemente (mas não exclusivamente) analítica, e no trabalho de 'teologia', uma tônica preponderantemente (mas não exclusivamente) sistematizadora. ‘Estudos religiosos’ primariam pela decomposição em partes para esmiúçá-las em cada elemento que se apresentar, ela parte do mais composto para o mais simples, investiga através de uma divisão em partes menores para que possam por seu instrumental, serem observadas e compreendidas, busca mais a ‘análise’. ‘Teologia’ teria como procedimento norteador a preocupação inversa, combinar os elementos num produto global de conhecimento, busca mais a ‘síntese’. A teologia tentaria elucidar também o sentido ou o significado que estas investigações, inclusive quanto às experiências das comunidades e tradições que vivenciam o fenômeno religioso, poderiam proporcionar. Isso, enfatizando o termo 'preponderantemente', para indicar que não implica que alguém de um campo ou outro se atenha somente à análise ou síntese.

sábado, 15 de agosto de 2009


Douglas Mangum, no seu formidável e agradável blog Bíblia Hebraica, veio desenvolvendo e fez um apanhado de algumas discussões a respeito das diferenças do trabalho de 'teologia' para com 'estudos religiosos'. Ele se diz contemplado com alguns apontamentos feitos pela crônica de K.L. Noll’s.

De fato, é um assunto que teve algum tempo me debrucei a respeito. Na verdade, eu nutro grande interesse a respeito de discussões de gnosiologia, epistemologia e metodologia em geral, e já desenvolvi trabalhos a respeito em minha área profissional como agroecólogo, intitulados Perspectivas epistemológicas para a agroecologia, promovendo um diálogo entre as ciências da agroecologia, as ciências da complexidade e as discussões da filosofia e história da ciência. Também já me debrucei sobre temas de epistemologia e direitos humanos, focando a ontologia de Paul Tillich e os Direitos Humanos à Alimentação Adequada (DHAA). Como alguém que investiga e xereta diversos assuntos nos escritos sobre religião, esse tema não ficaria de fora, e de fato já venho resolvendo empreender algo neste sentido, o que levaria alguns meses.

A provocação da discussão é deveras pertinente. Podemos observar um fenômeno crescente, e bivalente, onde os cursos e faculdades de teologia cada vez se vêem mais restritos a seminários e faculdades de direito privado ligadas a instituições de cunho religioso, enquanto, por outro lado, cresce nas instituições públicas cursos e faculdades de 'estudos religiosos', ou 'ciências da religião', multidisciplinares e com diversas interfaces com outras áreas.

Aqui, tentarei levantar algumas modestas reflexões a respeito dos pontos levantados por Douglas e por Noll’s. Uma advertência preliminar. Douglas nota bem a lamentável participação meio que sectária dos comentários a respeito do artigo de Noll’s. Contudo, versarei sobre alguns pontos que elas levantam. Pois o fato é que não é porque alguém levanta um assunto com uma postura e tônica sofrível que o conteúdo essencial do levantamento em si se invalida.

Os eixos-chave do raciocínio da crônica são o seguinte: a teologia está imbuída de um compromisso teleológico que lhe retira a objetividade, em relação ao maior distanciamento de alguém que se declara empreendedor de trabalhos em 'estudos religiosos'. E o teólogo está imerso e comprometido, necessariamente, com uma tradição religiosa, e faz seus trabalhos na ótica da sua comunidade de tradição, e em prol dela. Há um maior controle dos resultados de pesquisa em quem faz 'estudos religiosos' do que quem trabalha com 'teologia'.

Quero argumentar aqui que, na linguagem teen de hoje, isso tudo é 'muito relativo'.

Um teólogo se debruça sobre uma tradição religiosa, pois seu material de estudo está imerso nela. Não significa que ele está comprometido com essa tradição, necessariamente. Alguém pode estudar teologia de uma tradição sem pertencer a ela;pode estudar a teologia de uma tradição religiosa diferente da sua. Ou alguém que não se declara pertencente a nenhuma pode estudar várias ou uma. Ele estudaria as representações das divindades, como elas retroagem com os que crêem, o material primário da tradição, qual a natureza da linguagem que se fala dela, como se relaciona com outras tradições, com a cultura em geral. No caso, esses temas se sobressairiam ante o foco mais enfatizado na história em si, ou na sociologia, ou estética, embora ele possa usar tais como ferramentas. Mas pode perfeitamente não crer no conteúdo da alegação e reivindicação dessa tradição.

Por outro lado, alguém que foca no estudo antropológico das comunidades e/ou instituições de uma tradição religiosa, ou relações econômicas, no campo filológico ou idiográfico, sobressaindo o foco nas ciências sociais, p. ex., não seria um teólogo, mas trabalharia com “estudos religiosos”, e poderiam muito bem pertencer a tradição estudada ou a outra, e ser em dado grau, comprometido com ela no trabalho. E a teologia, propriamente dita, estará presente em um grau muito pequeno. O teólogo pode se valer de aportes destes estudos para empreender seu trabalho enquanto tal.

Todos eles estão inseridos numa comunidade, numa comunidade de pesquisadores, em sua comunidade acadêmica cotidiana, às quais submetem, reportam os trabalhos e levam em conta o consenso ou a posição majoritária, avançando dentre os paradigmas que os colegas da comunidade acadêmica perfilham e os problemas detectados; sobre todos poderíamos dizer que, no âmbito acadêmico, seriam os 'cientistas normais' dos postulados de Thomas Kuhn, partilhando dos seus jogos de linguagem. E com o tempo, no contexto social, historicamente se constituem corpos de tradições, ainda que não monolíticas.

Quanto à questão de objetividade do pesquisador, este é um assunto muito mais extenso e complexo do que muitos crêem, e daria para escrever vários artigos. No campo filosófico este debate é um balaio de gato. Sobre a natureza da relação entre o observador, o material estudado e a linguagem, representação e ontologia, mesmo no campo das ciências como física, química, astronomia, etc., temos ainda vivo um grande debate entre realistas, instrumentalistas, e mais recente algo que veio contribuir muito (uma perspectiva à qual me alinho), o realismo crítico.

Os realistas críticos atentam que um conhecimento da realidade é auferido pelas ferramentas, mas em aspectos limitados e parciais, em interação com quem conhece. Apregoam que as ferramentas científicas não podem mesmo expressar crua e perfeitamente a realidade tal como é em si, tampouco se restringem a construções intelectuais úteis e internamente consistentes. Dentro de limites, podem apresentar a realidade, mediada por atos de imaginação criativa, nos quais analogias e modelos conceituais têm frequentemente um papel. Os modelos conceituais nos ajudam a imaginar o que não é diretamente observável, especialmente no domínio do muito grande e do muito pequeno. - extraído de Quando a ciência encontra a religião, Pg. 41-42.

Vamos nos debruçar sob o prisma do que Max Weber escrevera aqui:

Pode-se afirmar que, quando se procura retirar orientações concretas de avaliações práticas políticas (particularmente econômicas e sóciopolíticas), 91) os meios indispensáveis, (2) as repercussões inevitáveis, (3) a competição condicionada das inúmeras avaliações possíveis nas suas conseqüências práticas são tudo o que uma disciplina empírica pode demonstrar com os meios ao seu dispor. As disciplinas filosóficas podem ir mais longe e revelar o ‘significado’ das avaliações, isto é, sua estrutura última e suas conseqüências significativas. (...) As ciências sociais, estritamente empíricas, são as menos adequadas para ter a presunção de nos poupar a dificuldade de fazer uma escolha, e não devem portanto difundir a impressão de que podem fazê-lo.
WEBER, Max. The Meaning of ‘Ethical Neutrality’ in Sociology and Economics. In:The Methodology of the Social Sciences (Nova York:Free Press,1949), p.18-19.

Este texto iluminará nossa reflexão, buscando somar e transpor o 'político', que é o que ele aborda, com o 'religioso', nossa preocupação maior aqui.


CONTINUA...


IMAGEM: Max Weber.

sexta-feira, 7 de agosto de 2009




Cadeira de Moisés, da Sinagoga de Corazim, sec I DC
(Biblical Archeology Review, Sept/Oct 1993)




Continuando nosso estudo sobre a relação entre Jesus e os fariseus, é possivel que alguns leitores possam ter lembrado a essa altura do "sermão dos Ais", o duríssimo discurso de Jesus em Mateus 23, em que ele afirma "Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas!". Contudo, Jesus também disse "Na cadeira de Moisés se assentam os escribas e fariseus.Portanto, tudo o que vos disserem, isso fazei e observai"; acrescentando "mas não façais conforme as suas obras; porque dizem e não praticam" (Mt 23:2-3). Na verdade, o centro da crítica de Jesus não foi a doutrina farisaíca, mas a forma como seus seguidores a praticavam.

Mas tanto o Talmude Babilônico (bSota 22), quanto o de Jerusalém (yBerachot 9:5:I 2) trazem, com algumas pequenas variações, uma passagem muito interessante, em que os rabinos (sucessores dos fariseus), "lavam a roupa suja", por assim dizer. O Professor e rabino Jacob Neusner, do Bard College, uma das maiores autoridades do mundo no estudo acadêmico do judaismo talmudico, faz uma parafrase da passagem do Talmude de Jerusalém.

Permita que o amor motive tuas ações. E se começares a desprezar os mandamentos ou a Torá, lembra-te que tu amas a Deus, e aquele que o ama não despreza seus mandamentos. Deixe que o temor também motive tuas ações. E quando começares a se rebelar contra os mandamentos de Deus ou Torá, lembra-te que aquele que teme não se rebela.
Existem sete tipos de fariseus [perushim]: O fariseu "exibido", o fariseu "contador", o fariseu "parcimônioso", o fariseu que "compensa", o fariseu "temente", e o fariseu que "ama".
O Fariseu "exibido", leva suas boas obras sobre seus ombros, para mostra-las a todos.
O Fariseu "presunçoso" diz "espere por mim. Eu estou ocupado usando meu tempo para cumprir os mandamentos! Eu não tenho tempo para você"
O Fariseu "contador" paga cada dívida, istoé, pecado, realizando uma boa obra correspondente.
O Fariseu "parcimonioso" diz "do pouco que eu tenho, o que eu posso deixar de lado para cumprir os mandamentos?"
O Fariseu que "compensa" diz "conte-me que pecado eu cometi, e eu cumprirei um mandamento para ofusca-lo".
Estes cinco tipos de fariseu são negativos, pomposos e dados a ostentação"[
1]

Jesus atacou os fariseus hipócritas que faziam "suas obras a fim de serem vistos pelos homens" (Mateus 23:5). No Talmude há uma critica a certos fariseus exibidos "que levavam suas boas obras sobre seus ombros para mostra-las a todos". Jesus fala de fariseus que gostavam de ser chamados de Rabi, de serem saudados nas praças, de sentarem nos primeiros lugares nos banquetes e nas sinagogas. Os rabinos do Talmude criticam fariseus presunçosos, pomposos e ostentadores. A passagem Talmudica chegou a essa forma no século II ou III DC, mas reflete uma tradição anterior, transmitida oralmente. Em suma, a crítica de Jesus não era isolada, outros rabinos contemporâneos também tinham essa percepção. E existe uma longa e antiga tradição, que data dos profetas bíblicos de ataques duros contra práticas erradas.

Prof. Paul Winter observa:
"As mesmas críticas que Jesus nos evangelhos sinóticos faz aos fariseus em geral são feitas no Talmude por vários rábinos contra certos tipos de fariseus. Em ambos os casos, o cenário é palestino. Os evangelhos e o talmude manifestão desaprovação a práticas que os líderes religiosos consideram incorretas: Jesus poderia expressar tais críticas sem se excluir da "Escola Farisáica", desde que elas se restringissem a casos concretos e específicos. Ao criticar certos indivíduos, Jesus pode ter desagradado ou ofendido algumas pessoas de seu meio, mas a animosidade dai resultante não teria constituido uma base para que o acussassem de crime político. Havia uma certa relutância entre os círculos judaicos a levar questões internas a julgamento por um magistrado não judeu" [2]

Prof. Geza Vermes, acrescenta:
"Nos Atos dos Apóstolos, os líderes judeus de Jerusalém não são descritos como cegamente hostis aos seguidores de Jesus. Pedro atribuiu a ignorância ou falta de compreensão em vez de má-fé aos chefes dos sacerdotes (Atos 3:17). O celebre fariseu rabi Gamaliel invocou a imparcialidade para com os apóstolos diante da alta corte (Atos 5:34-39) e mesmo durante o conturbado encontro no Sinédrio a propósito de Paulo, acusado de pregar contra a lei, os membros fariseus do conselho o apoiam abertamente: "Nenhum mal encontramos nesse homem. E se lhe tivesse falado um espírito ou anjo (Atos 23:9) [3]

Ou seja, embora parte do partido farisaico possa ter sido hostil a Jesus e aos os primeiros cristãos (alguns de seus membros cooperaram na prisão e crucificação de Jesus), a iniciativa das ações contra a igreja partia geralmente do partido saduceu. E em várias ocasiões, foram fariseus (como Gamaliel) que protegeram os cristãos.

Prof. David Flusser:
Realmente, quando fazemos uma leitura crítica dos evangelhos, tornamo-nos cientes de que os fariseus não desempenharam nenhum papel decisivo no aprisionamento, no interrogatório e na crucificação de Jesus. Eles sequer são mencionados por seus nomes no contexto do julgamento, conforme relatado ns três primeiros evangelhos, à excessão da história sobre a guarda do Túmulo de Jesus (Mateus 27:62). (...) Os fariseus, é obvio, discordavam da ação levada a cabo pelos sumos-sacerdotes contra Jesus porque, segundo sua Halakhá, a entrega de um judeu a uma autoridade estrangeira era um pecado imperdoável [4]

e Winter:
É aos discipulos de João Batista e dos fariseus que se refere a apologética e a polêmica. Não se trata de mero acaso. Durante sua vida, Jesus manteve relações estreitas com esses dois grupos, e depois de sua morte foram eles os grupos que se mostraram mais próximos de seus seguidores, que após a crucificação formaram uma comunidade independente (...) Parte dos seguidores de João Batista convergiu para o movimento messianista, unindo-se aos discípulos primitivos numa comunidade apostólica. Da mesma forma, alguns fariseus - e não somemte Paulo - aderiram a irmandade messiânica dos apóstolos (...) Gradualmente, a medida que o cristianismo se desenvolvia, as relações entre seus adeptos e os judeus deterioraram. A frustração dos pregadore cristãos ao abordarem os fariseus, na esperança de converte-los a nova fé, afinal se transformou em hostilidade [5]

Isto indica que judeus que pertenciam ao grupo que Josefo fazia parte - farisaico, sem dúvida - ainda não tinham aplicado a Jesus uma reputação de herético, ou o denunciado como rebelde. Que vários circulos farisáicos mantiveram relacões amistosas com judeus-cristãos ainda por um longo tempo após a crucificação é demonstrado, não só pelo relato do ressentimento causado pelo apedrejamento do irmão de Jesus por ordem do sumo-sacerdote saduceu, mas também pelo fato significativo de certas tradições comunais de proveniência palestina (parte da assim chamada "fonte especial" de Lucas) descrevem vários fariseus e outros judeus não membros do grupo de discipulos de Jesus como expressando sentimentos e intenções de amizade com Jesus e mantendo contato social com ele [6].

É claro que os séculos seguintes testemunharam uma triste escalada de ódio entre judeus e cristãos. Mas no final do século I, quando Josefo escreveu, os grupos cristãos palestinos, como nazarenos e ebionitas, eram bastante atuantes, e ainda tinham boas conexões com o partido farisaico. De fato, as tensões entre cristãos e judeus foram crescendo lentamente, mas se degenaram em hostilidade aberta apenas pelo IV ou V século, no período pós constantiniano.

Como observa o Professor Louis Feldman, Yeshiva University:

"Dr. Heinz Schreckberg ressaltou a tremenda influencia de Josefo na igreja cristã primitiva e, em particular, o desenvolvimento do ponto de vista cristão de que a destruição do Templo de Jerusalém e as tragédias sofridas pelos judeus é a punição divina imposta a eles por seus terriveis pecados. Nos podemos notar, nessa conexão,que nos primeiros três séculos da Era Cristã, precisamente no periodo quando a influência de Josefo era mínima, que a Igreja foi muito menos virulenta em seu anti-semitismo. Assim, por exemplo, no Secundo Século, o Dialogo entre Trifo e São Justino Martir, é marcado por uma relação de cordialidade e mútua cortesia entre os debatedores judeu e cristão. Podemos acrescentar, ainda, que os primeiros textos ortodoxos contém menos hostilidade frente aos judeus que os posteriores, e que os escritos extracanônicos não incitam ódio particular contra eles.
Na verdade, há evidências de que judeus e cristãos, nos aspectos cotidianos da vida, mantiveram uma convivência relativamente pacífica. Foi somente na medida em que a polêmica cristã contra os judeus se tornou cada vez mais estridente, no IV e V século. periodo em que o cristianismo se tornou a religião oficial do Império, e que a relação entre os dois grupos se degenerou em ódio mútuo."
[7]

Bibliografia e Referências

[1] Talmude de Jerusalém yBerachot 9:5:I:2, parafraseado por Jacob Neusner em "The Comparative hermeneutics of rabbinic judaism", fl. 81
[2] Paul Winter, Sobre o Processo de Jesus, fl. 253, nota 39
[3] Geza Vermes, A Paixão, fl.114.
[4] David Flusser, "Para Enterrar Caifas, Não para Louva-lo" in Jesus, fl. 167
[5] Paul Winter, "Sobre o Processo de Jesus", fl. 244
[6] Paul Winter "Excursus II -Josephus on Jesus and James," em E. Schurer, The History of the Jewish People in the Age of Jesus Christ, rev. and ed. by G. Vermes and F. Millar, fl 441
[7] Louis Feldman, "Introduction" In Louis Feldman & Gohei Hata (eds) Josephus, Judaism and Christianity, fl. 53

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