Estudos sobre Religião - Biblioblog

quinta-feira, 9 de abril de 2009


Em março de 2007, foi ao ar um documentário chamado The Lost Tomb of Jesus. O documentário foi produzido por James Cameron e Simcha Jacobovici. O foco central dessa produção, que também foi apresentada na forma de livro, era tentar demonstrar que a família de Jesus havia sido descoberta em uma tumba em Talpiot.

O documentário sofreu diversas críticas e gerou uma enorme controvérsia. Não nos interessa aqui entrar neste mérito além do que já o fizeram anteriormente. No entanto, acho relevante divulgar aqui um novo documentário chamado The Jesus Tomb Unmasked. De forma curiosa, este documentário nos apresenta a participação da maioria dos especialistas entrevistados no documentário anterior de Jacobovici. Mas com um detalhe, no entanto: eles negam peremptoriamente as ilações traçadas no primeiro filme. E mais: afirmam ter sido manipulados pelos produtores, através de cortes de edição e distorção de informações.

Recomendo profundamente a análise deste novo documentário.

No entanto, o que me deixou sempre perplexo não é a negação das ilações feitas em "The Lost Tomb of Jesus". Elas são realmente forçadas e demonstram uma falta de seriedade com o trabalho arqueológico e de pesquisa. O que sempre me intrigou foi numa encontrar uma satisfatória e séria pesquisa sobre as possíveis ligações entre este material encontrado e o cristianismo. Tudo o que vejo é uma necessidade premente em negar. Um ultra-ceticismo que sempre fez suspeitar do inverso - da falta de seriedade científica em se levar tais possibilidades realmente a sério.

O trabalho de Simcha Jacobovici e James Cameron não convence. Além disso, é realmente lastimável como manipularam os especialistas envolvidos, através das edições do material filmado. No entanto, eles tiveram o mérito de colocar a questão em debate. E as sucessivas negações peremptórias às evidências apresentadas [inclusive com relação às concretas evidências não-manipuladas] só me leva a suspeitar de que existe uma falta de seriedade científica na pesquisa sobre tais dados e evidências.

O novo documentário faz parte do projeto "Expedition Bible". A proposta deste projeto de programas, segundo o próprio site, é a de: "defender e estabelecer a confiabilidade e autoridade da Bíblia."

Uma proposta apologética como esta não pode ser cientificamente tratada com seriedade.

A despeito de algumas contradições nos Manuscritos de Qumran, sobre a seita das cavernas e algumas descrições dos essênios nas fontes clássicas – Philo de Alexandria, Josefo e Plínio, o Velho [há que levar-se em consideração que, especialmente Philo e Plínio, eles obtiveram suas fontes sobre os essênios longe de ser em primeira mão] – Geza Vermes apontou três considerações principais que associam-nos:

1 – Não existe outro local, a não ser Qumran, que corresponda ao assentamento essênio descrito por Plínio entre Jericó e Engendi.
2 – Cronologicamente falando, as atividades essênias descritas por Josefo como tendo lugar no período de Jônatas Macabeus (c.150 a.C.) e a primeira guerra dos judeus (66-70 d.C.) coincidem perfeitamente com a ocupação sectária em Qumran.
3 – As semelhanças da vida em comunidade, a organização e os costumes são fundamentais para confirmar a identificação das duas entidades como algo extremamente provável, na medida em que algumas óbvias diferenças entre elas possam ser explicadas [como, p.ex., no movimento essênio nas cidades, não havia a distribuição comunal-igualitária dos bens obrigatória; a que se considerar o isolamento no deserto, e o convívio público e institucional no meio urbano; no isolamento, as exigências para com pureza e total e integral dedicação de bens, tempo, comportamento, era mais rígida].

Considera também que na seita de Qumram, dois movimentos distintos estavam incorporados, contemplando dois séculos de desenvolvimento, havendo também certa maleabilidade na compilação e transmissão literária. Particularmente, considero apenas que se deve ter a ressalva de não os considerar como representativo geral dos essênios.


Sabemos que com os manuscritos do Mar Morto, desabaram algumas vinculações mais estreitas dentre Jesus e os apóstolos com os essênios, que se especulavam antes desde Renan, p.ex., a partir dos estudos dos textos de Josefo.Tal é muito bem apontado por Joseph Fitzmyer. Mas ainda assim, há muitos paralelos e questões importantes para compreendermos o surgimento, do movimento de João Batista, e do movimento de Jesus, e do próprio cristianismo.

Com as cartas Pseudo-Clementinas, tornou-se evidente que à época de Jesus haviam segmentos de gnosticismo judaico; ou seja, precedendo em muito o gnosticismo dissidente do cristianismo.

Vindo à tona os textos mandeos, na década de 20 do século passado, conheceu-se um movimento batista judaico, pré-cristão. Espalhado na Palestina e Síria.

Também temos conhecimentos de mestres itinerantes que se atribuíam poderes excepcionais, tal como nos informa Atos 5 e Josefo; nomes como Judas e Teudas.

A seita dos se auto-atribuía o nome de Nova Aliança, similar à Kainê Diathekê – Novo Testamento. Veneravam o Mestre da Justiça. James Vanderkam apresenta que eles possuiam um banquete comunitário, e há fragmentos aludindo à presença do Messias durante tal, embora em Qumran menciona-se, no Preceito do Messianismo, que tal refeição era presidida por dois Messias.

Se identificavam como a voz que proclamava no deserto para o arrependimento de Israel e a vinda do Messias e a vitória sobre as forças pagãs e vindicação de Israel [4QpSalmo 3.1; 1QSamuel 8.1216; 11.16-12.24]. Lembra-se que em Ezequiel – 47.1,2,12- e Zacarias – 14.8 haviam profecias que associavam os sinais escatológicos emanando através do último Templo para o Deserto e ao Mar Morto, tornando as águas deste potáveis.

Havia um banho batismal para admissão, contudo, eram repetidos, e não uma única vez. Havia a repartição do bem comum, contudo esta era obrigatória, e administrada, havendo um ofício de administrador para tal. Na comunidade cristã primitiva era livre e espontânea, considerada fruto do impulso do Espírito. No episódio de Ananias e Safira, registra-se que não eram obrigados a levar, podiam guardá-los, embora não tentar ludibriar afirmando terem levado tudo, retendo partes secretamente, para angariar prestígio.

O Evangelho de João é o que apresenta mais paralelos. Há uma passagem da Regra que remonta à inteligência divina como mediadora da criação, embora o que se tem é que ambos remetam à reflexões sapienciais, como registrado em alguns Salmos, Provérbios, Sirácida e Sabedoria.

No Evangelho também, parece haver uma dupla sugestividade, entre a Palavra de Deus no judaísmo, com o conceito helênico do Logos, que adentrara no judaísmo helenizado.

Algumas questões chamam a atenção, seriam atitudes de Jesus que provocariam repúdio na seita. Quando ele comentando da Lei, acrescentando eu porém vos digo, isto seria inadmissível para os essênios e sua concepção legalista. Tais antíteses destoam do mestre da justiça, e a questão do sábado oferece uma clivagem bem pronunciada, vide as regras sabáticas dos manuscritos de Damasco. Eles eram especialmente legalistas em relação ao Sabbath, muito rigorosos a este respeito.

O texto joanino apresenta uma polêmica aberta contra o Templo, sendo um de seus motivos. Josefo declara que os essênios enviavam ofertas ao Templo, sem participar do culto nele. Nos manuscritos não se tem nada claro quanto ao relacionamento deles com o Templo. Pode-se indicar que suas preocupações, antes do que com o Templo, eram de não se misturar às outras formas de judaísmo no culto.

O ascetismo deles também não admitiria a postura de Jesus, que era chamado de comilão e beberrão. Nem com sua postura de mandar os discípulos proclamarem sua missão até sobre os telhados.

Um ponto de contato.

Um ponto de contato que poderia ter se dado, seria através do movimento de João Batista.

Houveram primeiros discípulos de Jesus que antes foram de João Batista. Em boa parte da literatura cristã primitiva, como nas Pseudo-Clementinas, podemos ver que nos primórdios da constituição das igrejas cristãs, o grupo de João Batista foi rival da igreja. O Evangelho de João ressalta que João não era o Messias, nem se assumia ou reinvidicava como tal, antes, aguardava a vinda e a vitória definitiva do Messias.*

André – João 1.40, e o discípulo anônimo a quem o evangelho constantemente remete, adviera do círculo de João Batista. Em Mateus 11.10, Eis aí eu envio diante da tua face o meu mensageiro, o qual preparará o teu caminho diante de ti, pode sugerir que Jesus iniciou seu ministério depois de ter se iniciado no círculo de João. Oscar Cullmann, deveras, escreve que Mateus 11.11 é frequentemente traduzido de maneira equivocada, em que corrigindo seria assim Jesus declara: _Aquele que é o menor (isto é, Jesus enquanto discípulo) é maior do que ele (João Batista), no reino dos Céus.

Pelo evangelho de Lucas, somos informados que João, antes de começar também seu ministério e vivera nos desertos de Judá, local onde se encontrava cavernas e o convento dos essênios. Destarte, é plausível constatar seus contatos, de fato quase impossível negar; sendo precipitado afirmar que ele chegara a ser essênio, todavia retiraria dali influências, reflexões, que ele levara para seu movimento e pregação.

O movimento de Jesus, tendo guardado elementos do movimento de João Batista, contudo reelaborou-os e de certa forma, promoveu assim contrastes e até oposições mais nítidas para com a linha essênica. O mestre da justiça era um sacerdote legalista, tendo morrido e depois venerado como profeta. Foi considerado um mártir de sua mensagem. Jesus, entretanto, assumia na sua morte um papel de acordo com os planos de Deus; dizia que dava sua vida voluntariamente para o papel que assumia . O profeta não assumira um papel de redenção. O evangelho de João não só assume uma postura crítica ao Templo, como expõe Jesus assumindo o papel que o Templo deveria assumir, de encontro do Céu com a Terra, da presença de Deus com os homens. Assim, como Oscar Cullmann pondera, não é improvável que homens como o mestre da justiça sejam os que o evangelho tem presente no capítulo 10 [de João] _Todos os que vieram antes de mim são salteadores....

Um importante ponto a notar a respeito, se dá atentando a resposta que Jesus dera aos discípulos de João quando indagado se era quem estavam aguardando, apresentando os sinais do Reino dos Céus:

Ide contar a João o que estais ouvindo e vendo: os cegos recuperam a vista, os coxos andam, os leprosos são purificados e os surdos ouvem, os mortos ressuscitam e aos pobres são proclamadas as boas novas. Lucas 7.22.

Geza Vermes aponta que no fragmento da Ressurreição dos manuscritos do Mar Morto, esses eram apresentados como sinais do advento do cumprimento escatológico. As curas também eram proclamadas assim no Preceito da Comunidade 4:6.

Uma outra questão, é que o movimento essênio não é intrinsecamente indissociável do mestre da justiça. Josefo, Filo de Alexandria, e Plínio, esmiuçando a seita, não comentaram sobre ele. Antes dos Rolos do Mar Morto, mal se tinha o que dizer a respeito de tal personagem. Diametralmente oposto o que ocorre na igreja cristã.

Há um outro importante ponto de contato: o círculo que se integrou ao movimento de Jesus, conhecido como os judeus helenistas, que contava com personagens importantíssimos como Estevão. Posteriormente, comentaremos a respeito.


*Nesse ponto, me afasto de uma opinião de Dominic Crossan, que sustenta que João aguardava a intervenção direta de Deus para consumar a história e inaugurar seu Reino em imediato. Para mim fica claro, até mesmo pelas próprias passagens que Crossan expõe para sustentar sua posição, que João, sim, esperava a iminência escatológica, mas vinda de Deus por parte do Messias. A esse cabia instaurar de vez o Reino de Deus. Quando ele dizia Eu batizo com água; mas, no meio de vós, está quem vós não conheceis, o qual vem após mim, do qual não sou digno de desatar-lhe as correias das sandálias – João 1.26 - ele contrapunha à sua pessoa; ele – quem vinha após ele, ou seja, punha no mesmo plano. Não se imagina que se referiria a Deus nesses termos, antes usaria algumas das alusões convencionais referentes. Por mais que pensemos no antropomorfismo comum para com YHWH, é muito forçado que João remeteria a Deus em termos de desatar as sandálias, antes do que alguém como o Messias, que embora no mesmo plano, fosse de categoria superior. Assim também quando ele envia discípulos a perguntar a Jesus És tu aquele que há de vir, ou devemos esperar outro?, em Lucas 7.19, se deixa claro que não esperava YHWH vindo de imediato, mas antes seu Messias.

Crossan, Jean Dominic. O Jesus Histórico. Imago Editora, Rio de Janeiro, 1994.

Cullman, Oscar. A significação dos textos de Qumran para o estudo das origens cristãs, in : Das Origens do Evangelho à Formação da Teologia Cristã Ed. Novo Século. São Paulo, 2000.

Fitzmyer, Joseph A. 101 Perguntas Sobre os Manuscritos do Mar Morto. Ed. Loyola, São Paulo, 1997.

Josefo, Flávio. História dos Hebreus: Antiguidades Judaicas, XVIII, 1,5. CPAD. São Paulo, 2006.

Vanderkam, James C. Os manuscritos do Mar Morto hoje. Ed. Objetiva. Rio de Janeiro, 1995.

Vermes, Geza. Os Manuscritos do Mar Morto. Ed.Mercuryo. São Paulo. 2ªed.,2004.

Wright, Nichollas Thomas. Jesus and the Victory of God, Christian Origins and the Question of God, Vl. 2. Augsburg Fortress, 1996.

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