Estudos sobre Religião - Biblioblog

quinta-feira, 9 de julho de 2009

Calvino se encontrara a primeira vez com Miguel de Servet em Paris, 1534, época efevescente do trabalho intelectual do espanhol, e quando publicara suas obras contra a doutrina da Trindade. Na época Calvino estava a caminho de Estrasburgo. Em Estrasburgo os escritos de Servet tiveram sua venda proibida. Mantiveram secretamente trocas de cartas de 1541 a 1553, nas quais Calvino reprovava suas idéias antitrinitarianas. Em Estrasburg Calvino aceitara o convite de Martin Bucer e Wolfgang Capito para ser uma espécie de capelão dos refugiados franceses

Em junho de 1551 o Conselho Inquisitorial de Vienne, católico-romano, havia condenado Servet às chamas. Dentre outras questões, além da conhecida rejeição da doutrina da Trindade e da Divindade de Cristo, remetiam a asseverações de cunho panteísta. Em seguida fugira para Genebra buscando refúgio. Lá foi preso por ordem do o Petit Conseil, o Conselho de Genebra. Foi levado a julgamento, que agira respaldado por um parecer de Calvino que o declarara herege. O Conselho o sentenciou à fogueira, sentença então que contara com a desaprovação do reformador. Fora queimado em outubro de 1553, com suas obras amarradas em seu corpo, proferindo as últimas palavras:

_Jesus, Filho do Deus eterno, tende piedade de mim.

Calvino teve uma influência importante, mas sua participação direta na morte de Servet é vulgarmente sobre-estimada. Geralmente se atribui um poder a ele que nunca teve, e se mascara os conflitos e adversários que o mesmo tinha na cidade.

Calvino ficara em Genebra pela primeira vez depois de uma admoestação de
Guilherme Farel, quem inseriu Genebra no contexto da Reforma. Quando o Conselho de Berna convidou Farel para apresentar suas idéias sobre a Reforma, e Calvino foi convidado por esse para falar. Todos ficaram impressionados e em 1536, Calvino já tinha sido designado pastor de Genebra. Não fora admitido como cidadão pleno, antes tinha o status de “servidor público” e como tal, para viver na cidade sob licença. Era subordinado ao Conselho municipal, que tinha a última palavra em assuntos religiosos.

Com o crescimento de sua influência, se organizaram diversos grupos opositores, católicos e diversos outros, e ele e Farel foram banidos. A conspiração usava, dentre outros artifícios, acusações como a de que Calvino era ariano. Com a vitória da oposição em 1538, Calvino e Farel foram proibidos de pregar no Domingo da Ressurreição, e tendo desobedecido, foram destituídos do cargo e abandonaram a cidade sob risco de vida. A partir daí, começaram perseguições em Genebra aos seguidores de Calvino, e a cidade se viu a beira de um conflito interno, com os sucessores de Calvino tendo sido expulsos. Com o temor de conflito armado, a oposição, no poder, com a intervenção de Berna, aceitou o regresso de todos, incluindo o reformador. Farel novamente o convence a retornar, e então passa a ser o 'leitor da Santa Escritura na Igreja de Genebra', professor e apoiador da formação e consolidação da Igreja na cidade. Em termos de poder político, continuava deveras limitado e sob constante vigilância dos opositores a qualquer escorregão no sentido de buscar aumentá-lo.

Assim, quando do episódio de Servet, fora consultado no sentido de dar o parecer sobre as obras no sentido teológico e moral. Concordara que Miguel de Servet era digno da pena capital, por ser um 'perigo para a juventude' e para a estabilização da igreja e organização religiosa de Genebra.

Contudo, Calvino não concordou com a sua morte pelas chamas, e pleiteou pela mitigação da condenação que, em caso de morte, fosse pela espada. Mas, como explicitado, não podia influenciar a decisão num alcance maior, sob patrulha dos adversários.

Obteve ainda uma última reunião com Miguel de Servet através de Farel. Dois membros do Conselho acompanharam e vigiaram o teor da conversa. Registra-se que Servet se desculpara por ofensas pessoais ao reformador, que dissera não guardar ressentimento e lembrara-lhe as conversas entre os dois desde Paris buscava-lhe apontar os problemas teológicos e suas implicações.

Essa foi a grande mancha lúgubre na carreira de Calvino, sendo que, longe de representar a caricatura frívola que se faz para ilustrar uma pecha de implacável perseguidor mórbido, trás à luz uma responsabilidade moral partilhada pelo histórico dos cristãos, mas cujos fatos desmentem o discurso predominante entre os detratores de Calvino.

O que nos remete a refletir sobre quantas figuras históricas admiradas e até veneradas que, em situações semelhantes, não tomaram atitudes até mais extremas, em nome da vitória da 'causa' que iria trazer a paz e harmonia social? Contudo, os seguidores das idéias particulares de cada 'causa' possuem racionalizações para seus episódios, e imprecações para os mesmos referentes a 'o outro'...



McGRATH, Alister. A vida de João Calvino. São Paulo: Cultura Cristã, 2004.
GOMES, Antonio Máspoli de Araújo. O Pensamento de João Calvino e a Ética Protestante de Max Weber, Aproximações e Contrastes. Fides Reformata VII.2 (2002)
LESSA,Vicente Themudo. Calvino (1509-1564), sua vida e sua obra. São Paulo, Casa Editora Presbiteriana, 1934.

quarta-feira, 24 de junho de 2009

O cristianismo se caracteriza por tecer de forma estreita uma relação com a obra de Jesus, a questão da morte do indivíduo e o destino pessoal eterno. Desenvolveu um pensamento que se manifesta por associar à crença cristã na ressurreição de Jesus com a purificação dos pecados e assim, a vida eterna, em oposição à condenação pós-morte sob o jugo do pecado.


Alguns estudiosos acusam neste fato uma clivagem com a provável mensagem e pregação histórica de Jesus e o senso de seu ministério. O apelo maior de temas-chave da religião judaica como a Aliança, a Promessa, a restauração social e espiritual da nação; e o quadro sócio-político de então, sob o domínio romano, a pesada carga suportada pela maioria da população, e as variadas expressões de insatisfação popular, os conflitos sociais entre grupos, como prismas para a leitura da memória histórica, são de um escopo tal que muitos não conseguem conceber que esse tema do destino individual ganharia espaço urgente nem poderia se relacionar com a questão messiânica.

Vêem então nisto uma 'espiritualização' crescente, mais grecisada do que judaica, alguns buscando apontar pontos específicos de bifurcação, geralmente no pensamento paulino. Um tempo atrás, mesmo pouco antes das publicações do gênero que se convencionou chamar 'Nova Perspectiva' nos estudos sobre Paulo, podíamos ouvir que Paulo teria 'criado o cristianismo'. É uma acusação presente em Ernest Renan e Nietzsche [os discursos sobre um suposto 'Paulo desjudaizado' só recentemente foram sepultados com os trabalhos de nomes como Ed Parish Sanders, Nichollas Thomas Wright, Heikki Raisanen, Francis B. Watson e Stephen Westerholm]. Algo que reforça isso é uma convenção vulgar de que o judaísmo antigo não se preocupava muito com esse destino individual, sobretudo em relação à condenação em contraste com a salvação. E também com uma impressão de que Paulo não lidou direito com o papel da Torá na Aliança e atribuíra aos seus contemporâneos um legalismo injusto.

Vamos expor aqui, em mais um texto da série sobre o contexto do neotestamentário e o discurso paulino, que esse dilema com a morte ocupa sim um espaço importante na cultura judaica deste período, e que no que o cristianismo se detém sobre o tema, está perfeitamente consoante com substratos religiosos judaicos.

A mais famosa imagem do destino pós-morte que encontramos no judaísmo é a do Sheol. Um lugar sombrio de semi-existência, desnorteada e errante. Mas parece que o termo era usado para abarcar uma complexidade de expressões dessemelhantes; dentre elas, também se inclui a de condenação.

Em Deuteronômio 32.21-23, tem-se o Sheol como lugar em que os que abandonaram Deus serão punidos por um fogo divino. Em Is.66.24, os revoltados contra Deus atingidos por um fogo que nunca se apaga, por vermes que nunca morrem (cujo eco sem encontra em Marcos 9.48). Na passagem do Salmo 9.17-18, tem-se apresentado o Sheol como lugar para os infiéis e os que esqueceram Deus.

Essas acepções soam estranhas quando encontramos vulgarmente falas categóricas que tomam por certo não existir essa concepção no judaísmo. É bom relembrar aqui a clássica passagem do livro de Daniel, 12.1-2, passagem esta proveniente da primeira metade do século II a.C., que evoca de forma bombástica a condenação eterna para os perdidos.

Mas vamos tomar um livro que trabalha sob categorias cristãs temas fortemente arraigados na apocalíptica judaica, o Apocalipse de João. Uma de suas figuras mais fortes evocadas sob esse tema é a do Livro da Vida. Não é algo novo em relação ao judaísmo. O tema do 'Livro vida'- ‘olam hazeh’, aparece por exemplo no Salmo 39.16, 69.27-29, no livro de Malaquias 3.16. Em muitos outros exemplos da literatura judaica encontramo-lo. Jubileu 30.22 menciona um livro de destruição dos nomes que foram arrancados do livro da vida. I Enoque 104.7; 108.3, 7; Baruc 24.1 também versam sobre o Livro da Vida; mesmo na Mishna, em Pirkey – Avot 2:1; 3.17.

Há também os âmbitos exotéricos. Dentre os manuscritos de Qumran, na 1QRegra da Comunidade (1Qs), Col. III: 9-13, fala-se sobre a ação de anjos da vingança, que destroem nações que prestam lealdade a Belial [em referência aos ‘Kittim’], exclamando que a chegada deles será para abundância de castigos por mãos de todos os anjos de destruição, para condenação eterna pela ira abrasadora do Deus da vingança, para erro perpétuo e vergonha sem fim com a ignomínia da destruição pelo fogo das regiões tenebrosas.

No Enoch Etíope [cerca de primeira metade do séc.I a.C.] tem-se [10.8]: Nesse dia, eles serão atirados ao abismo de fogo, na reclusão, no tormento, onde ficarão encerrados para todo o sempre. E todo aquele que for sentenciado à condenação eterna seja juntado a eles, e seja com eles mantido em correntes, até o fim de todas as gerações. Também: Esperai com paciente esperança; não renuncieis de vossa confiança; pois grande alegria será a vossa, como aquela dos anjos no céu. Conduze-vos como podeis, não estareis escondidos no dia do grande julgamento. Não sereis como os pecadores; e a eterna condenação estará longe de vós, enquanto o mundo existir.[104.3]

Também temos as imagens de visões beatíficas, das bem-aventuranças eternas. A expressão seio [que poderia ser tomada como 'círculo de', 'ambiente de', 'acolhimento junto a'] de Abraão apresentada na parábola em Lucas 16.22 ecoa 4 Macabeus: Após esse sofrimento, nosso Abraão, Isaque e Jacó nos receberão e todos nossos ancestrais nos celebrarão.

Mas no pensamento paulino, se destacam os temas da expiação dos pecados, prestação de contas no juízo, a segurança da vida eterna com Deus na Nova Criação, após o julgamento. De Tessalonicenses, dos primeiros escritos, destacando a carta aos Romanos. Seria esse então o ponto em que Paulo vai além de tudo antes, para tecer seu 'evangelho aos gentios'? De onde ele chegara a expressar o juízo divino que era tomado como 'Dia de YHWH' como 'Dia do Messias Jesus' (Filipenses 1.6; 1.10;2.16)?

Vejo que por detrás de tal julgamento, se esconde uma ingenuidade: a de que alguém, com posse de valiosos materiais que proporcionam hoje um fabuloso subsídio para o estudo do pensamento do judaísmo do segundo templo, e dos grupos religiosos, possa ainda assim estar mais a parte da mentalidade, sobretudo farisaica, e de círculos de pensamentos próximos (histórica, cultural e geograficamente), do que alguém que viveu diretamente imerso, não só tomando parte mas estudando e vivendo nas escolas importantes de então, existencialmente comprometido por inteiro, e que por assim dizer, perfeitamente traduz e expressa preocupações e temáticas de então que ninguém atualmente estaria tão habilitado em expressar.

Não se teria como apresentar de forma mais enfatizada como esses temas faziam sim parte das preocupações religiosas, mesmo em períodos de convulsões sociais como a das grandes agitações que culminaram com a revolta judaica seu desbaratamento e a assolação de Jerusalém, do que o lamento altissonante atribuído ao Rabbi Yochanan Bem-Zakkai, maior nome do Conselho de Jamnia, que estabeleceu o judaísmo oficial após a destruição do Templo pelas forças romanas, no topo das maiores autoridades do judaísmo de seu tempo e ligado à Gamaliel, eminente rabino educador de Paulo:
Agora eu estou sendo levado diante do supremo Rei dos reis, o Santo, bendito seja, que vive e permanece para todo o sempre. Se ele está zangado comigo, permanecerá zangado para sempre. Se me aprisionar, me aprisionará para sempre. Se me envia para a morte, permanecerei morto para sempre. Não posso persuadi-lo com palavras ou suborna-lo com dinheiro. Além disso, há dois caminhos à minha frente: um conduz ao Gan-Eden (paraíso) e o outro ao Gehena, e eu não sei a qual deles serei levado. O que mais posso fazer além de chorar?
(B’rahakhot 28b).

Importante observar que aí, além do tema do Gehena, relativo à condenação, temos o Gan-Éden, que é transliterado como Paraíso, apresentado em Lucas 23.43 no diálogo de Jesus com o criminoso na cruz.

De um povo devotado a um deus concebido como eminentemente moral e justo, com uma noção arraigada de pecado e deste como algo abominado por este deus, e que tinha convicção de esperar por um julgamento futuro, por mais que tivessem suas cerimônias de relembrar da aliança, confirmar sua participação na eleição selada pela Torá, e a cerimônia do Dia do Perdão, é natural ainda assim esperarmos essa preocupação, sobretudo nos mais conscienciosos quanto ao dever de ser fiel aos mandamentos. Em períodos em que se confrontavam com uma realidade que não parecia se retratar como recompensadora de tais esforços, isso poderia se acentuar.

Neste sentido, enfocando o auto-exame, o rabbi Yehoshua ben Levi declamara:
Qual é o sentido do versículo: É esta a torá que Moisés propôs aos filhos de Israel (Dt. 4:44)? Significa que se uma pessoa for merecedora, ela se torna para ela um remédio que dá vida; mas se não for, ele se torna um veneno mortal. Foi a isso que Raba se referiu quando disse: ‘Se a pessoa a usa da maneira correta, ela é um remédio de vida, mas para aquele que não usa da maneira correta, ela é um veneno mortal’. (Yoma 72b)
Tal declaração está consoante com o apresentado em obras da literatura judaica, como no Apocalipse de Baruc 17.72, 3,42; 23.4.

Ainda para frisar como esta temática é arraigada no pano de fundo da religião judaica, temos o comentário na Torá Oral do Rabbi Y’hudah Há Nasi:
(...) Dê atenção a três coisas, e não ficarás sob o poder da transgressão: saiba o que está acima de você – um olho que tudo vê, um ouvido que tudo ouve, e todas suas obras registradas em um livro.
(Avot 2:1).

É deveras difícil sobre-estimar o impacto que poderia sobrevir através do quadro retratado em 4 Esdras 7.32-37:
A terra restaurará os que repousam nela, e o pó restaurará os que repousam nele. O Altíssimo será revelado no trono do julgamento, e então vem o fim. A compaixão desaparecerá, a misericórdia estará distante, a longanimidade, abandonada; apenas o julgamento permanecerá, a verdade perseverará, a fidelidade prevalecerá. A isso seguirá a recompensa, ela se manifestará. Os atos de justiça despertarão, e os atos de iniqüidade não repousarão. Então surgirá o Abismo de Tormentas, e, em contraste com ele, um lugar de refrigério; a fornalha de Ge-Hinnom se manifestará, e em contraste com ela, um paraíso de delícias.
E também mais à frente em 7.46-48:
Quem dos que entraram no mundo não pecou? Ou quem dentre os nascentes na terra não transgrediu Tua aliança? Vejo, agora, que a era vindoura a poucos trará alegria, mas tormenta para muitos. Pois cresceu em nós o coração mau que nos afastou do Altíssimo, levou-nos à destruição, fez-nos conhecer os caminhos para longe da vida! E isso não se aplica somente a alguns, mas praticamente a todos os que foram criados!

Dessa forma, oferecemos subsídios para visualizarmos como esse tema, desenvolvido no cristianismo nascente sobretudo em Paulo mas não exclusivo dele (vide João 3.16, por exemplo) que vincula, juntamente com outras temáticas, as crenças quanto ao ministério de Jesus como decisivo para o destino pessoal após a morte. Não seriam algo dissimilar do substrato judaico, nem algo que necessariamente deveria ser desenvolvido de modo tardio, com um eclipsar judaico por temas indisiocráticos gregos. Está perfeitamente arraigado, dentro é claro de uma multiplicidade de expressões que é característica do contexto, no imaginário em que surgira. A um existencialista moderno que pudesse voltar ao tempo e perguntar aos cristãos 'o que tudo isso tem a ver com a morte', poderiam responder: 'tudo isso'.

sábado, 20 de junho de 2009


Paulo reserva um lugar acentuado em sua exposição teológica para a asseveração da universalidade da pecaminosidade humana. Especialmente na carta aos Romanos, destacando o capítulo 5. Diversos viezes e mesmo sistemas teológicos foram arquitetados ao longo da história, em graus variados de acentuação a respeito da ênfase quanto a condição humana e o pecado, e a liberdade moral humana. Decerto, é comum hoje dizer que por vezes a visão de Paulo é ambivalente. Por exemplo, em Rm. 9.19, o homem não é capaz de se opor à compulsão divina; em Rm. 9.22, ele é.

Vamos buscar algumas considerações a respeito deste tema, em algumas passagens importantes da literatura judaica do Segundo Templo.

Não digas: ‘Foi Deus que me fez cair’,pois não deves fazer o que ele detesta. Não digas: ‘Foi Ele que me fez desviar’, pois Ele não precisa do pecador. O Senhor odeia toda abominação, e os que o temem não devem amá-la também. No princípio Ele criou o ser humano e o entregou às mãos de seu arbítrio. Se quiseres, tu podes observar os mandamentos e agir com fidelidade é uma questão de intenção.
Diante de ti, Ele colocou o fogo e a água: estende a mão para o que quiseres. Diante do homem estão a vida e a morte, e ele receberá aquilo que preferir.

Sirácida 15.11-17.

Pois, embora Adão tenha pecado primeiro e trazido sobre todos a morte fora de tempo, contudo, daqueles que nasceram dele, cada um preparou para si mesmo o tormento futuro; também cada um deles escolheu para si mesmo glórias futuras... Adão não é, portanto, a causa, exceto para sua própria alma, mas cada um de nós foi o Adão de sua própria alma.
II Baruc 54.14-15,19.

Pois o primeiro Adão, vestindo-se de um coração mau, transgrediu e foi vencido; e igualmente também todos os que nasceram dele. Portanto, a enfermidade tornou-se crônica; a Torá, na verdade, estava no coração do povo, mas junto com a semente do mal; então, o que era bom se foi e o mal permaneceu
.
4 Esdras 3.19-22

E eu respondi: ‘Esta é minha primeira e última palavra: Teria sido melhor se a terra não tivesse produzido Adão, ou, por outro lado, antes o tivesse produzido para que tu o tivesses produzido para que tu o tivesses impedido de pecar.Pois que proveito há para qualquer um de nós no fato de que, na era presente, devemos viver em aflição e, após a morte, esperar o castigo? Adão, o que fizeste! Pois embora foste tu que pecaste, a queda não foi somente tua, mas também nossa, seus descendentes! Que proveito há em recebermos a promessa da era eterna, quando temos feito as obras que trazem a morte?
4 Esdras 7.116-119

O quadro que temos dessa passagem também nos proporciona uma imagem de ambigüidade.

Pode-se elencar bons exemplos de ambigüidades no pensamento teológico de Paulo. Na carta aos Colossenses 2:12, temos a seguinte passagem:

Fostes sepultados com ele no batismo, também com ele ressussitastes, pela fé no poder de Deus, que o ressussitou dos mortos.


Tudo bem que uma leitura permitiria aí enquadrar os termos no simbolismo do batismo.

Em II a Timóteo- temos um porém. Essa epístola poderia ser paulina a considerar uma possibilidade: a prisão em Roma descrita no final de Atos não fora a definitiva que culminara em sua morte. Independente disso, outro cenário é de que alguém muito próximo a Paulo ou que se julgasse familiarizado a teria escrito buscando estar sob seu prisma, expressamente para alguém muito próximo ao apóstolo:

2:16-18: Eles se desviaram da verdade, dizendo que a ressurreição já se realizou, estão pervertendo a fé de vários.

Em I Co. 15, o capítulo expressa que a ressurreição foi inaugurada por Jesus e todos a experimentarão no futuro escatológico.

Outras ambigüidades mais claras:

A 'Justificação' se dá no futuro ou passado? – cf. Rm. 2.13, 8.33. Gl. 5.4,5.
A 'Santificação' é um evento/fenômeno passado? ICo.6.11; futuro? ITs.5.23
A 'Salvação' já se efetuou? Rm.8.24; I Co.15.2 ; está se efetuando? I Co.1.18; ICo10.11; é algo para o futuro? Rm.5.9-10.

Essas ambigüidades ou mesmo paradoxos permeam diversos pontos importantes e cruciais do Novo Testamento. A grande questão do Reinado de Deus.
Ele estava próximo: Mc.1.15
Já chegara: Mt.12.28
Vem no futuro: Mt.6.10
No porvir? Mc.14.25.

Penso que um das grandes problemas em lidarmos com essas dificuldades é a falta de cuidado em buscar compreender a linha de pensamento daquele ambiente cultural; aplicamos anacronicamente categorias analíticas ocidentais abstratas e dedutivas a uma forma de pensar dotada de outras nuances. C.H. Dodd, no livro 'Segundo as Escrituras. Estrutura fundamental do Novo Testamento' [ 1979, Ed. Paulinas, 144p.], já advertia-nos para levarmos em conta a linguagem do povo daquele contexto. Afirma ele que não veriam nada demais em justapor duas frases que apresentam aparentes contradições diretas, pois as inseriam numa perspectiva de um plano maior. Sendo assim, não estavam ignorando 'o terceiro excluído'.

De fato,cada sistema de linguagem em seu contexto histórico-social oferece a estrutura lingüística necessária para descrições e expressões que não necessariamente se enquadram em outros esquemas de pensamento.

O psicólogo Erich Fromm, no livro 'Meu Encontro com Marx e Freud' coloca e ilustra isso de forma perfeita: Em hebraico o princípio básico da conjugação é determinar se uma atividade é completa (perfeita) ou incompleta (imperfeita), ao passo que o tempo em que ocorre - passado, presente, futuro – é expresso de forma secundária. Em latim, os dois princípios (tempo e dimensão-perfeição) são empregados simultaneamente, enquanto no inglês predomina o sentido do tempo. Quando o texto hebraico do Velho Testamento emprega o tempo perfeito para uma experiência emocional, como p.ex. amar, com o sentido 'eu amo plenamente', o tradutor se equivoca e diz 'eu amei'.

Assim, temos que considerar os diferentes sentidos dos termos no contexto maior que aquele que os emprega os situa, para podemos assim não eliminarmos as tensões inerentes apresentada no pensamento examinado, mesmo que no caso não fosse a nossa própria maneira de expor as idéias, se estivessem a nosso encargo.

terça-feira, 9 de junho de 2009


Em mais da metade da carta de Paulo aos Colossenses [ achei mister acrescentar que considero-a uma carta paulina, da segunda metade da década de 50], ele tem em mente advertir os cristãos daquela comunidade quanto a deturpações do evangelho que ele anuncia, ou concorrência com outras propostas religiosas ou filosóficas aos quais os fiéis estavam expostos, e que poderiam seduzi-los. Seu argumento é que Jesus tal como apresentado no evangelho que ele prega seria o cumprimento das verdades que haveriam em outras doutrinas, e as verdades e as maiores expressões nelas apontariam para ele, sendo que ele seria o firmamento para a salvação deles, não os demais conceitos.

No meio da retórica, uma passagem chama a atenção. Em 1.19, ele emprega o termo pleroma, para falar da plenitude do Ser que está em Cristo. No gnosticismo, [ já mencionamos antes as correntes gnósticas que assimilaram o judaísmo, antes das que o fizeram com os cristãos - RUDOLPH, Kurt. Gnosis: The Nature and History of Gnosticism. NY: Harper and Row -, melhor conhecidas nas cartas Pseudo-Clementinas], é um termo especialmente importante, indicaria o além-do-Ser, algo como a fonte de todos os seres superiores, a abrangência holística de todos os níveis espirituais de onde provinham os aeons.

Ele utiliza um método que consiste em reapresentar e/ou confrontar termos e formulações de doutrinas ou pensamentos alternativos e/ou divergentes de maneira a usa-los como apoio ao seu evangelho, como instrumento de demonstração do papel de Jesus num quadro de pensamento mais amplo numa atividade fagocitária. Em Efésios (considero-a como uma carta adaptada de Colossenses, para uma audiência mais ampla na Ásia Menor, com a ciência de Paulo ou posterior à sua morte), num contexto retórico e polêmico semelhante ao de Colossenses, o autor se vale de tal estratégia também e o termo pleroma também é utilizado semelhantemente.

Não se teria como enxergar de forma mais clara como Paulo teria em mente tal ferramenta ao examinar sua retórica em II Co. 10.4-5, ao falar dos 'raciocínios pretensiosos e todo poder altivo que se ergue contra o conhecimento de Deus. Nós cativamos todo o pensamento para o levar a obedecer a Cristo (...)' – Bíblia de Tradução Ecumênica – TEB.

Não caberia aqui um exame exaustivo das retóricas de Paulo em situações polemizadoras semelhantes, contudo rapidamente se pode apresentar que esta seria uma ferramenta com aplicação sistemática por parte do pensador. À parte da polêmica ainda aberta se o discurso no Aerópago em Atos remete a um discurso real do discípulo, o significativo é que ele fora retratado agindo assim em relação ao pensamento grego, agora não só como ferramenta apologética, mas como estratégia de evangelização por pontos de contato. Em Atos 17.28 temos uma citação de Epimênedes [ a quem se atribui a polêmica do famoso 'paradoxo do mentiroso'], em 'Cretica'.

E Arato, em 'Fenômenos' - numa passagem também encontrada em Cleanto no Hino a Zeus.

É algo coerente com a práxis paulina. Em I Co. 15.33, ele faz o mesmo com Menandro, com um trecho da comédia Thais; em Tito 1.12, novamente com Epimênedes de Creta com a Cretica.

Uma questão intrigante seria se tal fora um procedimento indissiocrático de Paulo, de sua habilidade natural, ou se seria algo fruto de um aprendizado em alguma escola; se seria mesmo algo que se ensinasse nas escolas dos 'doutores da lei'.

Qual seria o cenário propício a visualisarmos a segunda hipótese? Somente se houvessem ocasiões de discussões de mestres da lei judaica com gentios; como apologética, ou mesmo proselitismo. Este último assustaria alguns hoje que têm como certo o caráter não proselitista ou missionário do judaísmo. Mas não necessariamente isso se aplicaria ao judaísmo do século 1 a.C e I d.C, antes da insurreição e destruição do Templo. 'Os prosélitos' são mencionados e ocupam um lugar importante no quadro da disseminação do cristianismo nascente, em destaque vide Atos 6.5. Em Mateus 23.15 se faz menção a uma atividade missionária ativa por parte dos fariseus. Não se pode, com propriedade, considerar que estes esforços eram generalizados e amplamente compartilhados na pluralidade do judaísmo de então; sem sombra de dúvida muitos grupos não concordariam com ele. Mas se dava em escala dispersa o suficiente para chamar a atenção dos gentios:

"Os costumes dessa raça maldita ganharam tanta influência que agora são aceitos por toda parte no mundo. Os vencidos deram sua lei aos vencedores." Sêneca, De superstitione.

Josefo também atesta as conversões de gentios. Aqui, em Guerras Judaicas 7.45, ele se refere ao proselitismo de judeus da Diáspora, em Antioquia: " A quantidade dos muitos gregos que eles atraíam a suas cerimônias religiosas não parava de aumentar, e eles o tinham tornado de alguma forma parte de sua comunidade".

Tal atitude não seria sui generis em toda história do judaísmo. Mesmo no período feudal europeu, o filósofo judaico Maimônedes escrevia na obra Sefer HaMizvot:

'Os sábios dizem que esse mandamento [ i.e. amar ao Senhor teu Deus de todo o coração, de toda a alma e de toda a mente] também inclui a obrigação de chamar toda a humanidade a servir a Ele e a ter fé nEle. Pois da mesma forma é que você louva e exalta alguém que você ama e chama os outros a amá-lo, se você ama o Senhor na amplitude da concepção da verdadeira natureza dEle você conseguiu alcançar, sem dúvida chamará o insensato e o ignorante a reconhecer a verdade que adquirira.' The Commandments of Maimonides, por Charles B. Chavel.

Em Assim viviam os contemporâneos de Jesus: cotidiano e religiosidade no judaismo antigo Michael Tilly expõe que 'até mesmo os escribas mais ortodoxos, que desprezam todas essas práticas [i.e.ambientes culturais, intelectuais, lúdicos, desportivos, etc. helênicos] empenhavam-se muitas vezes em realçar, bem no espírito do estoicismo, os aspectos racional, sensato e lógico das leis da Torá. Na sua interpretação das escrituras, recorriam também a métodos assimilados dos intérpretes romanos de Homero, dos estóicos e dos juristas'. pg.19.

Houveram diversos judeus cultos no campo literário com grande apropriação de estruturas de pensamento helênicas, em maior ou menor grau, que poderiam ser conhecidos das classes mais cultas e mesmo empregados em práxis didáticas; visto que, apesar de muitas vezes, ao invés de usar um suporte na cultura grega para a fé judaica, acabassem enquadrando a fé judaica em estruturas gregas, demonstravam clara preocupação de reverência pela Torá e respeito à fé e história da nação judaica. Poderíamos citar DemétrioEupólemoo Samaritano anônimo, Artápano, Fílon de Alexandria , Aristóbulo.

Se constata em muitas obras a preocupação em apresentar que a Torá reunia os pontos mais altos dos ensinamentos éticos e sabedoria de vida do pensamento grego; ou o usufruto de ferramentas intelectuais que ele proporciona. Em graus variados eram conhecidos, e influenciaram pensamentos mesmo que de certa forma para contraporem-se a discordâncias.

Jesus era notório por ter se envolvido com 'publicanos' e outros segmentos da classe 'média' e 'média-alta' menosprezados pelos mestres religiosos judeus, apresentando disposição em se relacionar com eles. A posição financeira de forma alguma poderia ser tomada como sinônimo de serem cultos, porém, sem dúvida os coletores de impostos ou outros poderiam ter uma formação que os possibilitasse ler obras literárias; considero pouco provável que a maioria fosse analfabeta, como afirmam alguns, pois um posto desses de relativo progresso financeiro seria muito cobiçado num contexto de muita pobreza, a despeito dos tabus, e a leitura e escrita, sem dúvida, seria um diferencial para ocupá-lo. Não seria anacronismo mentalizarmos o passatempo de leitura em pessoas de classes correlatas à 'média-alta'. Outrossim também podemos imaginar que dentre os conversos samaritanos, judeus da diáspora, judeus chamados 'helenistas', e prosélitos também tivessem contato com escritos deste nível de interface entre pensamento grego, ou outros até, e o judaísmo, embora conversos com tal nível de cultura devessem sem dúvida ser minoria, temos exemplos de um Paulo, Lucas, Apolo, Priscila, o autor de Hebreus...

Além disso, tal prática apologética/didática/missionária poderia ser igualmente usada diante de próprios pontos controversos oriundos do judaísmo. Perspectivas, crenças e expectativas judaicas que eram polêmicas para com o cristianismo poderiam ser sujeitas do mesmo recurso tal como mencionamos em relação às outras linhas de pensamento ou visões de mundo. O livro de Hebreus ilustraria isso através das diversas drashs - 'interpretação; descobrir o significado através da midrash, por comparação palavras e formas e também por ocorrências semelhantes noutros locais'- desenvolvidas envolvendo a figura de Melquisedeque, Moisés, os serviços rituais do Templo...

Um exemplo bem concreto. Podemos ver que Jesus é retratado nos evangelhos, sobretudo em Mateus, participando de polêmicas em relação da interpretação do sentido da Lei evocando sua própria autoridade. Através do emprego do 'Amén, amén' (nas traduções portuguesas se emprega normalmente 'em verdade, em verdade'), ou quando dizia, de forma ainda mais enfática, em referência ao que a audiência conhecia do que foi ensinado aos antepassados, mas, 'porém', o que era para ser – 'eu vos digo' – era x, y... não podemos nunca deixar de considerar que o que se concebia era que esse ensinamento repassado provinha do que Moisés recebera de Deus diretamente. Isso é algo escandaloso e uma reivindicação que soaria megalomaníaca. Por isso ele é retratado no diálogo com um jovem rico de outra maneira igualmente escandalosa. Não havia na riqueza dele nada tradicionalmente condenável, como esbanjamento, opulência, fruto de opressão, roubo, etc.; muito pelo contrário, era algo que a literatura sapiencial ressaltava como fruto da vida virtuosa sobre observância da lei, e os evangelistas ressaltam isso destacando que tal se dara 'desde a juventude'. E no relato Jesus o confrontara o chamando a abrir mão de tudo, num quadro em que é nitidamente destacado que segui-lo incondicionalmente é mais essencial para entrar no Reino do que a Torá.

Ed Parish Sanders
acentuava que 'embora ele não se opusesse à lei, ele indicava, sim, que o mais importante era aceita-lo e segui-lo' e mais adiante (...)'considerava ter total autoridade para falar e agir em nome de Deus'. Historical Figure of Jesus, pgs. 236 e 238.

Assim, na perspectiva das reflexões que levantamos, poderíamos enxergar o emprego de imagens de status semi-divinizado que às vezes era dado à Torá e à Moisés, à Jesus. Quanto a Moisés, pode ter-se em mente à tradição da vinda do profeta semelhante a ele, de Deuteronômio 18:15-16. E talvez no plano em que Moisés, Abraão, Melkisedeque, figuram em certas tradições com o papel mediador até investido de autoridade paralela a Deus, como vice-regentes no juízo divino, os cristãos tenham trabalhado de forma a apresentar, argumentar e defender a idéia de que era em Jesus que se dera o cumprimento do que seria a verdade que estaria presente em tais crenças; uma ponte e artifício apologético/didático/missionário. Algo que extrapola as próprias altas reivindicações das figuras investidas do nome divino, algo que em figura messiânica alguma que se tem notícia no judaísmo do segundo templo veríamos tal reivindicação, com um ponto alto que expressaria a perspetiva da encarnação do próprio Deus, na passagem de Paulo em Colossenses 2.9, com o jogo de idéias entre a ênfase em 'habita corporalmente' – ou seja, não apenas moralmente, espiritualmente, etc. – novamente o termo pleroma, e theotês – a Divindade. Ou seja, poderiam ser aportes que apontariam para uma evolução lingüística-expressiva na cristologia, em cima de crenças prestabelecidas ou tidas já como presentes, mesmo num ideário com outros termos, nos cristãos, servindo também como portas de acesso à evangelização e para disseminar ou defender conhecimentos e/ou noções que concebiam como derivados de suas experiências.

Esses são aspectos provocados que necessitariam de um verdadeiro programa de pesquisa. Buscamos aqui levantar pontos que reforçariam a pensar que seja o caso de tais suspeitas serem procedentes, com possibilidades de pesquisas a partir de elementos interligados coerentemente. Conforme o andamento, poderia trazer apontamentos com pouco impacto, ou que virariam literalmente de cabeça para baixo diversas noções sobre a evolução das crenças do cristianismo nascente, se procedente a sugestão sobre pontes para expressão de idéias já presentes ainda que menos elaboradas.

sexta-feira, 5 de junho de 2009

Saiu a última versão do Biblical Studies Carnival, que traça um paralelo de ótimas postagens no universo dos biblioblogs. E o nosso AD CUMMULUS aparece lá mais uma vez! Desta feita, a menção se fez através dos textos do Neemias sobre os testemunhos não-cristãos à Jesus no primeiro século.

Parabéns pelo texto, meu amigo Neemias! Queremos mais!


Ps - Recomendo a série de textos "Creating Jesus" da professora April DeConick em seu blog "The Forbididden Gospels". Nesta série de textos, a pesquisadora procura traçar uma linha explicativa que supostamente levaria à transformação do rabi Yeshua bar Yosef em Jesus Cristo - Deus. Eu estava pensando em elaborar um texto sobre o assunto. E eis que me deparo com esta coletânea. Vale a pena conferir. E penso que poderíamos elaborar por aqui as nossas versões.


No ano passado, eu havia dito que eu passei a acreditar realmente em Deus, quando assisti a série COSMOS do Carl Sagan!

E olha que essa imagem captada pelo telescópio Chandra ainda nem tinha aparecido! Intrigado com a beleza da imagem? Confira mais aqui!

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