Estudos sobre Religião - Biblioblog

segunda-feira, 27 de julho de 2009

Um grupo de artistas australianos resolveu implementar a controversa e mirabolante idéia da representação dos eventos bíblicos através de imagens [fakes, obviamente] semelhantes às que encontramos no Google Earth.

Deixo aqui o link do artigo do blog obvious, onde encontrei a informação. E aqui vai o site do grupo australiano - Glue Society.


Como teria sido a Crucificação lá do alto:

quarta-feira, 22 de julho de 2009


É algo que nos ocorre e nos deixa estupefatos quando vamos tendo pensamentos, que vão se enlevando e se encaixando com diversos insights ao ponto de iniciarmos um quadro mental, e descobrimos que houveram outros desbravadores dessa mata escura, e que podemos aproveitar os rastros e clareiras por eles deixados. Com uma fina pontada de desapontamento por não sermos os 'descobridores da América', vem uma felicidade de não sermos exóticos estranhos no ninho.

Acontecera isso comigo recentemente, ao refletir sobre a perspectiva das mulheres na igreja cristã nascente. Elas costumam ser esquecidas, e dificilmente se encaixam nos esquemas gerais traçados. Algumas vezes, o olhar feminista sobre a bíblica recai num essencialismo ululante, desprovido de realismo, ou anacronismos, o que nos enfastia. Alguns conseguem ser mais centrados e escapam dessa armadilha. Eu os busco. Encontrei um neste livro de Bauckham, ‘Gospel Women: Studies of the Named Women in the Gospels’, que tive a felicidade de ler e compartilho, das resenhas com as quais me deparei na internet, a que de forma sucinta traduzira as minhas impressões fora a da professora Dra. Robin Gallaher Branch, doutora em Estudos Hebraicos da Universidade do Texas em Austin. Fora uma Fullbright Scholar e depois Professora Associada na Universidade de Potchefstroom, África do Sul. Atualmente é professora de Bíblia e Teologia na Faculdade Crichton, em Memphis, Tennessee. Deixo aqui disponível uma tradução livre (aberta a correções) de minha parte, para compartilhar e divulgar esse trabalho extremamente relevante para os leitores de língua portuguesa, esperando contribuir para que alguma editora possa publicar no Brasil.

O original está publicado na Review of Biblical Literature.

Bauckham, Richard
Gospel Women: Studies of the Named Women in the Gospels
Grand Rapids: Eerdmans, 2002. Pp. xxi + 343.


Richard Bauckham, professor de Estudos no Novo Testamento e Bispo Professor na Universidade de St. Andrews, na Escócia, escreveu um importante trabalho sobre algumas das mulheres nomeadas no Novo Testamento. Ao fazê-lo, ele olha entusiasticamente as histórias, fatos e sugestões no texto bíblico e em histórias na literatura extrabíblica sobre estas mulheres.

Seus temas incluem mulheres na genealogia de Jesus em Mt. 1; Elizabeth e Maria em Lucas 1; Ana da tribo de Aser em Lucas 2; as duas Salomés, uma, irmã de Jesus, e a segunda, sua xará e não referida no texto bíblico, uma discípula de Jesus (226), Joana (Lucas 8:3, 24:10), a qual, ele argumenta, é uma apóstola; Maria de Cléopas (João 19:25), e as mulheres nas histórias da ressurreição.

Ele começa por olhar para o livro de Rute, apontando que ele oferece uma chave ginocêntrica para uma leitura das Escrituras(1.16). À primeira vista isso parece pouco habitual, ainda que estabelece as bases para o seu argumento de que porções das Escrituras apresentam vozes das mulheres. Ele aponta que, embora não possamos conhecer a autoria de Rute, 'a voz com a qual o texto fala aos seus leitores é feminina' (3, ênfase original); esta voz feminina domina até os últimos versos, quando a voz masculina, sob a forma de genealogia de David retorna ao texto(4). Citando o trabalho de Carol Meyers, Bauckham observa em relance certos textos, como Rute, Cântico dos Cânticos, e possivelmente Ester, um mundo interior de mulheres, um lugar na sociedade em que suas vozes sejam ouvidas e apreciadas(9). Ele argumenta que os textos ginocêntricos não têm o papel de relativização dos textos androcêntricos, os textos predominantes em ambos os Testamentos, mas de contrabalançar ou corrigir precisamente isto: seu androcentrismo(15,16). Por conseguinte, ouvir e atentar para as vozes e perspectivas das mulheres no Novo Testamento são executados como um tema em todo o livro de Bauckham 'Gospel Women'.

Bauckham continua sua ênfase no Antigo Testamento ao olhar para as quatro mulheres citadas na genealogia de Jesus em Mateus: Tamar, Rahab, Rute, e a esposa de Urias o hitita...'Numa genealogia patriarcal deste tipo, as mulheres não têm lugar necessário', ele inicia, e então pergunta por que elas estão lá. Conduzindo seus leitores passo a passo, argumenta que genealogia de Mateus exprime o sentido universal do propósito de Deus, nomeadamente, que Jesus é o Messias judeu para os gentios(21). Que as quatro mulheres têm algum tipo de ligação por nascimento ou casamento fora de Israel 'estando de acordo com o objetivo global messiânico da genealogia'.(27).

Ele afirma que Tamar 'era, pelo menos, não mais gentia do que Sara, Rebeca, Lia, e Raquel foram'(31). Além disso, o fato de que Jesus tivera ancestrais gentios mostra o grau de abertura das pessoas de Deus para a inclusão dos gentios crentes, uma abertura que o Messias confirma e amplia(42).

A interação de Elizabete Maria em Lucas 1 apresenta uma vinheta textual proporcionando um olhar sobre o mundo das mulheres. Falta no seu capítulo sobre estas duas mulheres, no entanto, um profundo olhar para Elizabete; Bauckham concentra-se em Maria. Ele cita a prevalência do tema da mãe-filha em muitos das histórias precedentes do Antigo Testamento sobre mulheres. A seção Maria-Elizabete continua no modelo salvífico de mulheres como portadoras das pessoas de Deus. Anteriormente as mulheres portadoras que ele cita são Sifrá e Puá, as parteiras em Êxodo 1; Débora a juíza e Jael, que matou Sísera(Juizes 4-5); Ana (1 Sm. 1,2); e Ester. Juntamente com os homens, as mulheres atuam como agentes humanos da libertação de Deus para seu povo, dos seus inimigos(57). Maria e Isabel continuam esse padrão. Bauckham nota que comentadores costumam dizer que as canções de Maria e Ana celebram a salvação do Deus de Israel e permanecem separadas das próprias mulheres cantoras. Ele considera que estes comentadores tenham perdido o ponto.

Em vez disso, ele sustenta que as canções dessas alegres mulheres 'celebram a ação graciosa de Deus para a própria cantora em seu significado para todos aqueles que também estão em condições humilhantes de vários tipos e então para todos os fiéis de Deus em geral'.(6, ênfase original).

Bauckham nota que Ana da tribo de Aser é a única personagem judaica no Novo Testamento não pertencente à tribo de Levi, Judá, ou Benjamin (77). Ele sustenta convincentemente que a menção de Ana e da tribo de Aser garante que a comunidade representada na narrativa de Lucas representa Israel como um todo, tribos do norte, bem como do sul, exilados, bem como os habitantes da terra (98). A mensagem da salvação na pessoa de Jesus veio para todo Israel.

Em seu capítulo mais longo e interessante (109,202), Bauckham postula que Joana, e seu marido Cuza, capataz de Herodes, são os ‘Andrônico e Junia’ mencionados tão carinhosamente por Paulo como seus parentes e companheiros presos em Rom 16:7. Ele observa que a referência ao marido de Joana é excepcional entre todas as referências dos Evangelhos às mulheres discípulas de Jesus (119).

Bauckham observa que Joana e Cuza, como membros da aristocracia herodiana de Tiberíades, moveram-se livremente no mundo romano(161). Joana, já como uma membra da aristocracia, escolhera ser uma seguidora de Jesus e por isso, tinha feito uma incrível travessia social para se tornar uma seguidora(145). Ela atravessara ainda mais, de acordo com os argumentos de Bauckham, as desigualdades sociais, quando ela se tornou, com o seu marido Andrônico/Cuza, uma missionária itinerante. Argumenta que o nome Junia é uma versão grega de Joana, provavelmente retomado por uma judia palestina que se tornou uma missionária cristã para o mundo grego(169).

Em um conto imaginário que deve ter sido divertido escrever, Bauckham, desenhando a partir da sua investigação, inclinações, e palpites, traça um esboço histórico desta intrigante mulher e seu marido (194-98). Paulo louva-os como 'distinguidos entre os apóstolos' e crentes em Cristo antes dele ter se tornado um crente (Rm 16:7).

Outro casal missionário jovem bastante provável era Maria de Cléopas e seu marido Cléopas(198). Em seu próximo capítulo, Bauckham argumenta que a frase 'Maria de Cléopas'(João 19:25) pode significar quer que Maria é uma solteira filha de Cléopas ou a esposa de Cléopas e ele opta por esta última(207-9). Rastrear tanto a união e linha de Maria e Cléopas prova-se fascinante, pois este estudo revela a importância dos papéis que desempenharam os parentes de Jesus na Igreja primitiva(203).

Bauckham diz que Cléopas foi o irmão do pai adotivo de Jesus, José(208). Maria e Cléopas tiveram um filho muito famoso, um homem chamado Simão ou Simeão, o mais importante líder cristão na Palestina por metade de um século(209). Certamente, de acordo com textos extrabíblicos, ele foi martirizado com 120 anos, uma idade que coloca-o na mesma categoria de importância como Moisés(209). Porque Simão/Simeão foi tão bem conhecido por toda sua reputação entre as igrejas, os primeiros leitores do Quarto Evangelho, João, não teriam tido qualquer dificuldade em identificar Maria de Cléopas como a sua mãe (209).

Bauckham, continuando a sua exploração de textos extrabíblicos e a luz que eles derramaram sobre as pessoas em torno de Jesus, cita uma tradição cristã pós-canônica nomeando Maria e Salomé como as duas irmãs de Jesus(p. 226). A História Copta de José menciona que Salomé seguiu Maria, José, e Jesus na fuga para o Egito(231).

Em seu capítulo concludente Bauckham aborda cada história de ressurreição nos Evangelhos separadamente e olha para as suas personagens mulheres. Quanto a Mateus, ele diz que o comando para as mulheres 'ir e contar'(Mt 28:10) manteve aplicação durante suas vidas. Porque é inconcebível que as mulheres teriam parado de contar a todos os que foram posteriormente dispostos a ouvir, o seu testemunho não é substituído pelo dos onze, como tem sido argumentado, mas inclui a sua própria validade contínua(279).

A narrativa da ressurreição de Lucas remete para os discípulos de tal forma a tornar claro que não só os onze, mas também um grupo maior está em mente; as mulheres pertencem a este grupo maior, diz Bauckham(82). Em João, a declaração de Maria Madalena 'Eu vi o Senhor'(João 20:18) vai depor sobre a realidade do Senhor ressuscitado e é tão persuasiva como um testemunho quanto o dos outros discípulos e Tomé(285).

Bauckham manipula bem o difícil problema da maneira como o Evangelho de Marcos termina. Ele argumenta que o silêncio das mulheres diz aos leitores que, embora as mulheres passam as notícias da ressurreição de Jesus para os discípulos do sexo masculino, a proclamação do evangelho ao mundo não começa neste momento. Na verdade ele não pode começar aqui, não porque as mulheres são mulheres, mas porque a proclamação deve começar a partir de que uma aparição do Jesus ressuscitado comissiona suas testemunhas(294) [Ele sustenta que os adendos seguiram um padrão convencional nas igrejas, retratado nos outros - Nota do Tradutor] .

Bauckham, claramente um refinado e metódico professor, escreve como um acadêmico para acadêmicos. Seu estudo 'Gospel Women' inclui interessantes suplementos da sua investigação, como uma refinada seção chamada 'Mulheres Judias como Donas de Propriedades'(121,35) e notas sobre as tribos do norte no exílio em 4 Esdras 13 e no livro de Tobias (101,7).

Seu livro teria sido melhor chamado ‘Gospel Women: Estudos de (algumas das) Mulheres Nomeadas dos Evangelhos’. Uma das esperanças é que ele aplique seus conhecimentos para uma sequência, algo como Gospel Women: Estudos de (mais) Mulheres Nomeadas no Novo Testamento.


Robin Gallaher Branch
Potchefstroom University for Christian Higher Education
Potchefstroom, South Africa

sexta-feira, 10 de julho de 2009

Em uma série de posts anteriores, sobre a visão de fontes não cristãs sobre Jesus como Mestre e Sábio, eu utilizei o chamado "Testemunho Flaviano", do escritor judeu do século I, Flávio Josefo, seguindo a posição dominante entre os historiadores e estudiosos bíblicos de que parte do relato é autêntica, particlarmente a referência a crucificação, e seu retrato de Jesus como "homem sábio" e "realizador de feitos extraordinários".

No entanto, toda a vez que eu exponho esse ponto de vista, a réplica é imediata: "Josefo não era fariseu? Então, como ele poderia escrever algo bom sobre Jesus?". A questão da afiliação sectária de Josefo é complexa. Mas, por hora, acho mais interessante analisar o relacionamento entre os fariseus e Jesus de Nazaré.

A opinião popular, largamente difundida, é de que os fariseus eram um bando de hipócritas e falsos que perseguiam Jesus, e eventualmente conseguiram mata-lo.

Mas isso é verdade?

1) Jesus, os cristãos e os fariseus no Novo Testamento

A principal fonte antiga para a controvérsia de Jesus e seus discípulos com os fariseus é o Novo Testamento. Contudo, uma leitura atenta ao texto bíblico junto com a evidência de outras fontes mostra também muitas concordâncias. Os fariseus e os primeiros cristãos protagonizaram uma relação complexa.

É certo que os evangelhos retratam Jesus criticando repetidamente os fariseus; que Saulo (um fariseu) perseguiu os cristãos. Contudo, Nicodemos e Jose de Arimáteia são apresentados como fariseus. As crenças dos cristãos, em anjos, ressureição, vida após a morte os aproximavam muito mais desse partido, do que de qualquer outro grupo judaico de então.

Alguns fariseus avisaram Jesus que Herodes Antipas queria mata-lo (Lucas 13:31-35). Lucas também recorda pelo menos três ocasiões em que Jesus foi convidado a almoçar em casas de fariseus (Lucas 7:36; 11:37 e 14:1) . Na Igreja de Jerusalém existiam alguns fariseus "que haviam crido" (Atos15:5) e estavam, provavelmente, associados ao partido judaizante, ou os da circunsição (Atos 15:1; Galatás 2) que eram numerosos o suficiente para se fazer ouvir. Pedem explicações de Pedro por ele ter batizado o gentio Cornélio (Atos 9), e protagonizam a controvérsia com Paulo que parece ter sido a maior do período (Atos 15), visto que entendiam que os díscipulos gentios deveriam se circuncidar (Galatas 5:2-3), sendo necessário a intervenção de Pedro, Tiago e os demais apostolos para resolve-la. A decisão tomada (Galatas 2:1-9; Atos 15:22-31), enquanto recomendava, para os cristãos gentios, abstenção das "coisas sacrificadas aos ídolos, e do sangue, e da carne sufocada, e da prostituição" (Atos 15:29) e o "cuidado constante dos pobres" (Gl 2:10), não isentou os crentes judeus de continuar observando a lei e os costumes ancestrais.

Mesmo depois do Concílio, pelos menos alguns crentes judeus continuaram insistindo na necessidade da circunsição e obediência a lei mosaica por parte dos gentios, o que levou Paulo a escrever Galatás. E certo também que o fiador do acordo firmado no Concílio - Tiago, irmão de Jesus -, reconhecendo o status diferenciado da missão gentia, continuou conduzindo a Igreja de Jerusalém de forma alinhada com os costumes e leis judaicas (Atos 23:18-25).

Mesmo assim, Atos nos diz que, quando ouvido pelo Sinédrio em Jerusalém, Paulo não se sentiu inibido em dizer "Sou fariseu, filho de fariseus, e por causa da ressureição dos mortos estou sendo julgado". A simples menção de "ressurreição dos mortos", um ponto de profunda controvérsia entre fariseus e saduceus, levou o Sinédrio a se dividir. Se mesmo Paulo, pivô da controvérsia sobre a lei e os gentios, pode ser "adotado" pelos líderes fariseus, os seus oponentes judaizantes dentro do movimento de Jesus deveriam se sentir "em casa".

Prof. David Flusser(1917-2000), da Universidade Hebraica, aprofunda essa constatação:
"Não seria incorreto descrever Jesus como um fariseu, num sentido mais amplo. Todavia, ainda que sua crítica deles não fosse tão hostil quanto a dos essênios (...) Jesus os considerava forâneos e não se identificava com eles.(...). Temos ainda que analisar a tensão inevitável entre o Jesus carismático e o judaismo institucional. Tampouco ousemos nos esqueçer que o elemento revolucionário em sua pregação aumentou a tensão. Não obstante devemos ter em mente que esta tensão nunca implicou em negação, e as concepções de Jesus e dos fariseus não eram opostas, nem tampouco se degeneraram em inimizade (...) é obvio que havia entre os fariseus algumas pessoas de mente tacanha (...) que suspeitavam desse fazedor de milagres. Com satisfação, teriam-no flagado numa ação proibida para que pudessem arrasta-lo para uma corte rabínica (...). [1].

Professor Flusser em seguida relaciona situações em que membros do partido fariseu agiram em benefícios dos cristãos.
"Se lembrarmos o papel que os fariseus desempenharam nas primeiras décadas da Igreja Cristã, fica mais claro o motivo pelo qual não só os relatos originais como também os três primeiros evangelhos, evitam mencionar os fariseus na história do julgamento de Jesus. Quando os apóstolos foram perseguidos pelo sumo-sacerdote saduceu, Rabban Gamaliel tomou o seu partido e os salvou (Atos 5:17-42). Quando Paulo foi levado a comparecer perante o Sinédrio em Jerusalém, encontrou solidariedade entre seus ouvintes ao apelar para os fariseus (Atos 22:30 e 23:10). Quando Tiago, o irmão do Senhor, e aparentemente outros cristãos, foram condenados ilegalmente a morte em 62 DC, pelo sumo-sacerdote saduceu, os fariseus apelaram ao rei e o sumo-sacerdote foi destituído" [1]

Bem como o Professor Geza Vermes, de Oxford
"Nos Atos dos Apóstolos, os líderes judeus de Jerusalém não são descritos como cegamente hostis aos seguidores de Jesus. Pedro atribuiu a ignorância ou falta de compreensão em vez de má-fé aos chefes dos sacerdotes (Atos 3:17). O celebre fariseu rabi Gamaliel invocou a imparcialidade para com os apóstolos diante da alta corte (Atos 5:34-39) e mesmo durante o conturbado encontro no Sinédrio a propósito de Paulo, acusado de pregar contra a lei, os membros fariseus do conselho o apoiam abertamente: "Nenhum mal encontramos nesse homem. E se lhe tivesse falado um espírito ou anjo (Atos 23:9) [2]

2) Os fariseus provocaram a morte de Jesus?

Possivelmente, alguns leitores tenham ficado "chocados" com o que foi dito acima.
"Como?! Isso é absurdo, os fariseus não eram inimigos mortais de Jesus e seus seguidores?!!!"

Um ponto primordial a ser enfatizado é que Jesus de Nazaré foi crucificado (uma punição romana), sob ordem de Pôncio Pilatos (que representava o poder de Roma), acusado de (pretender) ser "O Rei dos Judeus"(um crime contra Roma). Todos os evangelhos dizem isso claramente, sendo certo que isso jamais poderia ter sido inventado [3]. O papel das autoridades judaicas, sejam fariseus, saduceus, herodianas... foi de apresentar a denúncia, ou formular a acusação.

Utilizaremos aqui um esquema adaptado de Dr. Paul Winter [4], de seu clássico livro "Sobre o Processo de Jesus" ("On The Trial of Jesus"), sobre os interlocutores, adversários e oponentes de Jesus por passagem do evangelhos.

Por questão de espaço, vamos analisar detalhadamente apenas o Evangelho de Marcos, situando também dois evento marcantes do Ministério de Jesus, a purificação do Templo em Jerusalém e a Crucificação. As ocasiões em que os fariseus aparecem serão realçadas em vermelho

Jesus e seus oponentes
Mc 2:6: alguns dos escribas;
Mc 2.16: escribas dos fariseus
Mc 2:18: discípulos de João e os fariseus;
Mc 2:23-24: fariseus;
Mc 3:6: fariseus;
Mc 3:22: escribas de Jerusalém
Mc 7:1: Os fariseus e alguns escribas de Jerusalém
Mc 8:11: Os fariseus
Mc: 8:15: fariseus e Herodes
Mc 8:31: Os anciãos, os Chefes dos Sacerdotes, e os escribas
Mc 9:14: Escribas
Mc 10:2: fariseus
Mc 10:33: Os chefes dos sacerdotes e os escribas
Mc 11:15: Jesus expulsa os cambistas do Templo
Mc 11:18: Chefes dos Sacerdotes e escribas
Mc 11:27: Chefes dos Sacerdotes, escribas e anciãos
Mc 12:13: alguns dos fariseus e os herodianos
Mc 12:18: Saduceus
Mc 12:38: um dos escribas
Mc 14: Inicio da Narrativa da Paixão
Mc 14:1: Chefes dos Sacerdotes, escribas e anciãos;
Mc 14:10: Chefes dos Sacerdotes
Mc 14:43: Uma multidão da parte do Chefes dos Sacerdotes, escribas e anciãos
Mc 14:53: Chefes dos Sacerdotes, escribas e anciãos
Mc 14:55: Chefes dos Sacerdotes
Mc 15:1: Chefes dos Sacerdotes, escribas e anciãos e todo o Conselho
Mc 15:3: Chefes dos Sacerdotes
Mc 15:20-24: Jesus é crucificado
Mc 15:31: Chefes dos Sacerdotes

Winter então observa:
"Duas questões saltam os olhos numa análise dessa Tabela. A primeira refere-se a diferença entre as designações dos inimigos de Jesus adotadas por Marcos nos capítulos 2 a 12, de um lado, e 14 e 15, de outro. Outra é a diferença entre as designações marquense e ao adotados nas passagens paralelas de evangelhos mais recentes. Relativamente a primeira questão, exceto por referências isoladas em Mc 11 (e é claro pela predição da paixão em Mc 8:31 e Mc 10:33) os chefes dos sacerdotes e os anciãos não são apontados como adversários de Jesus nos primeiros capítulos de Marcos, enquanto que em Marcos 14 e 15 somente eles e os escribas aparecem em tal posição" [4]

Considerando os pontos levantados por Winter, podemos observar que antes do episódio da purificação do Templo, os principais oponentes de Jesus são os fariseus. Contudo, se formos aos textos veremos que em grande parte são polêmicas a respeito de regras de pureza, como comer com publicanos e pecadores (Mc 2:16), jejum (2:18), lavar as mãos (Mc 7:1) e o divórcio (Mc 10:2). Questões essas que também eram motivo de polêmica entre os fariseus.

Por exemplo, a possibilidade de divórcio dividia as duas grandes escolas farisáicas a de Hillel (a favor), e a de Shammai (contra). Embora alguns desses debates tenham sido ríspidos e acalorados, provavelmente não foram causadores da morte de Jesus.

Como observam o Professor Gerd Thiessen, Universidade de Heildelberg e Annete Merz, Universidade Utrecht
"a maior proximidade existe, sem dúvida, entre Jesus e os fariseus. Sua crítica de Jesus mostram que eles o avaliam com critérios especiais - como se ele fosse um mestre próximo a eles. K. Berger (Jesus*) resume a oposição e a proximidade da seguinte forma: os fariseus representam uma noção defensiva de pureza. Desse modo, eles estão empenhados em evitar contaminação pela impureza. Jesus, ao contrário, defende uma noção ofensiva de pureza: não é a impureza, mas a pureza que contamina. Mas o motivo fundamental é o mesmo: ambos querem santificar o cotidiano a luz de Deus."
"A relação de Jesus com os fariseus é ambivalente: ao lado de uma grande afinidade nas convicções, encontramos um conflito básico; sinais de relações positivas estão ao lado de indícios de inimizade."[5]

Mas quando Jesus prevê sua morte, ele diz: "Eis que subimos a Jerusalém, e o Filho do homem será entregue aos principais sacerdotes e aos escribas; e eles o condenarão à morte, e o entregarão aos gentios (Marcos 10:33 e também Marcos 8:31). São as únicas menções aos principais sacerdotes antes do episódio da purificação do Templo (Mc 11:15). E, interessante, em nenhum dos dois versículos, os fariseus são citados. E após a expulsão dos vendilhões do Templo, os fariseus praticamente desaparecem da história (surgem apenas na questão do "dar a César o que é de César"), e partir do capítulo 14 eles somem de vez.

O impacto é ainda maior, se analisarmos as narrativas da paixão em Mateus e Lucas. Utilizando ainda o esquema elaborado por Paul Winter [6]

Narrativas da Paixão
Mateus : Chefes dos Sacerdotes e Anciãos (26:3); Chefes dos Sacerdotes (26:14) multidão da parte dos Chefes dos Sacerdotes (26:47), escribas e anciãos (26:57), Chefes dos Sacerdotes e todo o Conselho (26:59) Chefes dos Sacerdotes e anciãos (27:1, 27:12, 27:20), Chefes dos Sacerdotes, escribas e anciãos (27:41), Chefes dos Sacerdotes e fariseus (27:62)

Lucas: Chefes dos Sacerdotes e escribas (22:1), Chefes dos Sacerdotes e Capitães (22:4), Multidão dirigida pelos Chefes dos Sacerdotes, capitães da guarda do templo e anciãos (22:47-52), Chefes dos Sacerdotes e escribas (22:66), Chefes dos Sacerdotes e multidão (23:4), Chefes dos Sacerdotes, dirigentes e o povo (23:13), dirigentes (23:35).

Também em Lucas e Mateus, até no episódio do Templo, e da chegada de Jesus a Jerusalém, ou seja, na fase galiléia do ministério de Jesus, os fariseus são rotineiramente mencionados como seus oponentes.Mas tanto em Lucas como em Mateus, após a expulsão dos vendedores do Templo, as menções aos fariseus se tornam rarefeitas. E quando atingimos as narrativas da prisão, interrogatório, julgamento, prisão e crucificação, os fariseus desaparecem. É o mesmo padrão observado em Marcos.

Nos evangelhos sinóticos (Mateus, Marcos e Lucas) [6], embora as narrativas da paixão mencionem os oponentes de Jesus 28 vezes, os fariseus são citados uma única vez. Enquanto isso, antes da expulsão dos cambistas do Templo, Mateus, Marcos e Lucas referem-se a 37 disputas de Jesus com vários grupos do judaismo, das quais 24 mencionam os fariseus. Dessas 13 vezes em que os fariseus não são citados, 5 se referem a passagem paralela em que Jesus diz aos seus discípulos que, em Jerusalém, os principais sacerdotes matariam o Filho do Homem.

Assim, a expulsão dos cambistas e vendilhões do Templo, representam um ponto de inflexão das narrativas evangélicas. Como observam Theissen & Merz [7], esse fato é revelador, pois os fariseus são os oponentes típicos de Jesus em toda a tradição sinótica, mas estão ausentes nas narrativas da paixão - não só em Marcos, mas em Mateus e Lucas -mesmo estando representados na elite judaica e no Sinédrio. Pelo contrário, os sinóticos chegar "a dar testemunho de uma simpatia de certos fariseus para com Jesus". Esse fato pode ser explicado, ainda segundo Theissen & Merz, se os verdadeiros inimigos mortais de Jesus fossem os saduceus, que devem ter se sentido atingidos pelo ataque de Jesus ao Templo, a qual seus interesses estavam extremamente associados.

Depois do episódio do Templo, os inimigos passa a ser o grupo ligado aos Principais Sacerdotes, associados ao Templo de Jerusalém, a qual, provavelmente, eram Saduceus. São os principais sacerdotes que buscam um modo de mata-lo, prendendo-o a traição (Mc 11:18; Mc 14:1), dão dinheiro a Judas (Mc 14:10), ajuntam uma multidão com espadas e varapaus para prender Jesus (Mc. 14:43), levando-o ao Sumo Sacerdote (Mc. 14:53) e a Pilatos (Mc. 15:1). Ao atacar os vendilhões do Templo, Jesus desencadeou uma série de eventos que levariam a sua crucificação.

É verdade que no Evangelho de João, que é menos simpático aos fariseus que seus antecessores sinóticos, menciona o envolvimento dos fariseus, que junto com os Chefes dos Sacerdotes, convocam o Sinédrio e deliberam sobre Jesus (11:47 e 57), e o prendem (18:2 e35). No entanto, ao relatar o interrogatório, julgamento, condenação e crucificação (19:6, 19:15, 19:21), João menciona apenas os Chefes dos Sacerdotes, juntando-se a companhia dos evangelhos sinóticos. Mais ainda, em João 9:15-16 os fariseus discutem entre si sobre Jesus, "e havia dissensão no meio deles" . Ou seja, também em João, a iniciativa do processo que leva a execução de Jesus é do grupo dos "Chefes dos Sacerdotes", ainda que o durante seu ministério seus oponentes mais recorrentes tivessem sido os fariseus.

Professor David Flusser observa:
"As palavras e as ações de Jesus em Jerusalém, precipitaram a catastrofe. O sacerdócio saduceu, desprezado por todos, encontrou seu único apoio no Templo. Este profeta da Galiléia, diante da multidão reunida para a festa, havia não só previsto a destruição do Santuário, como o término da casta sacerdotal. Ademais explorando os sentimentos amargos sobre o comércio que ali tinha lugar, desferiu um golpe doloroso contra as autoridades. As mesmas, trinta anos mais tarde, entregarão aos romanos Josué, filho de Ananias, por também profetizar a ruína do Templo. Os romanos protegiam com diligência todos os santuários religiosos do Império. Assumiam igualmente a tarefa de proteger os sumos sacerdotes de agotadores oportunos."[8]

As principais figuras envolvidas na crucificação de Jesus, Anás e Caifas, eram, provavelmente, membros do partido saduceu. Os saduceus controlavam não só o sumo-sacerdócio e o templo, mas também o Sinédrio. Em Atos 4, os sacerdotes e os capitães do templo prendem Pedro e João, "doendo-se muito que eles ensinassem o povo e anunciassem em Jesus a ressureição dentre os mortos" (verso 2), sob ordem dos saduceus (que não criam em ressureição). Em Atos 5:17, lemos que "Levantando-se o sumo sacerdote e todos os que estavam com ele (isto é, a seita dos saduceus), encheram-se de inveja, deitaram mão nos apóstolos, e os puseram na prisão pública."

Analisando os Evangelhos e Atos dos Apóstolos junto com as evidências de outras fontes, a exclusão dos fariseus não é mera coincidência. Se estes chegaram a sua redação final entre 70 e 110 DC, quando a Igreja já era majoritariamente gentia, o Templo e sua elite dirigente já não mais existiam, e o cristianismo já estava se transformando em uma religião distinta, não haveria motivo para os evangelistas pouparem os fariseus. Seria muito fácil para Marcos, Lucas, Mateus e João descreverem os fariseus como buscando a execução de Jesus, enfatizando sua participação, afinal, como eles mesmos nos dizem, os fariseus são os oponentes e adversários recorrentes de Cristo em seu ministério na Galiléia. A explicação mais provavel, portanto, é que as fontes e relatos mais antigos, a qual estes evangelhos foram baseados, descreviam os Chefes dos Sacerdotes, ligados ao Templo e aos Saduceus, como os responsáveis pela denúncia e entrega de Jesus a Pôncio Pilatos. Isto faz sentido, porque cabia aos Chefes dos Sacerdotes, como a elite dominante dos países ocupados por Roma, colaborar com seus oficiais, identificando possíveis ameaças a ordem estabelecida e a pax romana".

CONTINUA

Bibliografia e Referências:

[1] David Flusser (1998), Jesus, fls. 48-49.

[2] Geza Vermes (2003), Geza Vermes, A Paixão, fl.114.
[3] Os evangelhos foram escritos, provavelmente, entre a 1ª Guerra Judaica (66-73 DC) e 2ª Guerra Judaica (132-135 DC). No primeiro século DC e início do secundo, houveram inúmeras revoltas, provocadas por auto-proclamados "Reis dos Judeus" e "Messias", que causaram a morte de (dezenas de) milhares de pessoas, dentre os quais milhares de bons soldados e cidadãos de Roma. No mesmo período, a igreja era perseguida e o cristianismo era uma seita ilegal, sendo que alguns oficiais e magistrados suspeitavam que o grupo era formado por agitadores, desleias a Cesar e a Roma. De fato, Aristides, Quadrato, Justino Martir, Melito, Apolinario, e outros, escreveram ao Imperador da época buscando incessantemente provar que os cristãos eram leais, pacíficos e produtivos e perfeitos súditos do Império. Porque, nessas circunstâncias, os cristãos inventariam que seu líder tinha sido um Messias Crucificado, executado como um criminoso político, por magistrados romanos, sob a acusação de Alta Traição? Certamente porque Jesus foi realmente crucificado, por ter sido acusado (justa ou injusta) de se auto-proclamar "Rei dos Judeus, e essas coisas eram fatos bem conhecidos (e problemáticos) que os cristãos tinham que explicar.
[4] Paul Winter, Sobre o Processo de Jesus, fl. 236-240
[5] Gerd Thiessen e Annete Merz (1996), O Jesus Histórico; Um Manual, fl. 162 e 252
[6] Paul Winter (1961), Sobre o Processo de Jesus, fl. 122
[7] Gerd Thiessen e Annete Merz(1996), O Jesus Histórico; Um Manual, fl. 254
[8] David Flusser (1998), Jesus, fl. 113

Links úteis:

Livius (por Jona Van der Lendering) http://www.livius.org/ e Early Christians Writings (por Peter Kirby) http://www.earlychristianwritings.com/index.html

Atualizado em 14.07.2009 (links adicionados, e algumas pequenas alterações no texto)

quinta-feira, 9 de julho de 2009

Calvino se encontrara a primeira vez com Miguel de Servet em Paris, 1534, época efevescente do trabalho intelectual do espanhol, e quando publicara suas obras contra a doutrina da Trindade. Na época Calvino estava a caminho de Estrasburgo. Em Estrasburgo os escritos de Servet tiveram sua venda proibida. Mantiveram secretamente trocas de cartas de 1541 a 1553, nas quais Calvino reprovava suas idéias antitrinitarianas. Em Estrasburg Calvino aceitara o convite de Martin Bucer e Wolfgang Capito para ser uma espécie de capelão dos refugiados franceses

Em junho de 1551 o Conselho Inquisitorial de Vienne, católico-romano, havia condenado Servet às chamas. Dentre outras questões, além da conhecida rejeição da doutrina da Trindade e da Divindade de Cristo, remetiam a asseverações de cunho panteísta. Em seguida fugira para Genebra buscando refúgio. Lá foi preso por ordem do o Petit Conseil, o Conselho de Genebra. Foi levado a julgamento, que agira respaldado por um parecer de Calvino que o declarara herege. O Conselho o sentenciou à fogueira, sentença então que contara com a desaprovação do reformador. Fora queimado em outubro de 1553, com suas obras amarradas em seu corpo, proferindo as últimas palavras:

_Jesus, Filho do Deus eterno, tende piedade de mim.

Calvino teve uma influência importante, mas sua participação direta na morte de Servet é vulgarmente sobre-estimada. Geralmente se atribui um poder a ele que nunca teve, e se mascara os conflitos e adversários que o mesmo tinha na cidade.

Calvino ficara em Genebra pela primeira vez depois de uma admoestação de
Guilherme Farel, quem inseriu Genebra no contexto da Reforma. Quando o Conselho de Berna convidou Farel para apresentar suas idéias sobre a Reforma, e Calvino foi convidado por esse para falar. Todos ficaram impressionados e em 1536, Calvino já tinha sido designado pastor de Genebra. Não fora admitido como cidadão pleno, antes tinha o status de “servidor público” e como tal, para viver na cidade sob licença. Era subordinado ao Conselho municipal, que tinha a última palavra em assuntos religiosos.

Com o crescimento de sua influência, se organizaram diversos grupos opositores, católicos e diversos outros, e ele e Farel foram banidos. A conspiração usava, dentre outros artifícios, acusações como a de que Calvino era ariano. Com a vitória da oposição em 1538, Calvino e Farel foram proibidos de pregar no Domingo da Ressurreição, e tendo desobedecido, foram destituídos do cargo e abandonaram a cidade sob risco de vida. A partir daí, começaram perseguições em Genebra aos seguidores de Calvino, e a cidade se viu a beira de um conflito interno, com os sucessores de Calvino tendo sido expulsos. Com o temor de conflito armado, a oposição, no poder, com a intervenção de Berna, aceitou o regresso de todos, incluindo o reformador. Farel novamente o convence a retornar, e então passa a ser o 'leitor da Santa Escritura na Igreja de Genebra', professor e apoiador da formação e consolidação da Igreja na cidade. Em termos de poder político, continuava deveras limitado e sob constante vigilância dos opositores a qualquer escorregão no sentido de buscar aumentá-lo.

Assim, quando do episódio de Servet, fora consultado no sentido de dar o parecer sobre as obras no sentido teológico e moral. Concordara que Miguel de Servet era digno da pena capital, por ser um 'perigo para a juventude' e para a estabilização da igreja e organização religiosa de Genebra.

Contudo, Calvino não concordou com a sua morte pelas chamas, e pleiteou pela mitigação da condenação que, em caso de morte, fosse pela espada. Mas, como explicitado, não podia influenciar a decisão num alcance maior, sob patrulha dos adversários.

Obteve ainda uma última reunião com Miguel de Servet através de Farel. Dois membros do Conselho acompanharam e vigiaram o teor da conversa. Registra-se que Servet se desculpara por ofensas pessoais ao reformador, que dissera não guardar ressentimento e lembrara-lhe as conversas entre os dois desde Paris buscava-lhe apontar os problemas teológicos e suas implicações.

Essa foi a grande mancha lúgubre na carreira de Calvino, sendo que, longe de representar a caricatura frívola que se faz para ilustrar uma pecha de implacável perseguidor mórbido, trás à luz uma responsabilidade moral partilhada pelo histórico dos cristãos, mas cujos fatos desmentem o discurso predominante entre os detratores de Calvino.

O que nos remete a refletir sobre quantas figuras históricas admiradas e até veneradas que, em situações semelhantes, não tomaram atitudes até mais extremas, em nome da vitória da 'causa' que iria trazer a paz e harmonia social? Contudo, os seguidores das idéias particulares de cada 'causa' possuem racionalizações para seus episódios, e imprecações para os mesmos referentes a 'o outro'...



McGRATH, Alister. A vida de João Calvino. São Paulo: Cultura Cristã, 2004.
GOMES, Antonio Máspoli de Araújo. O Pensamento de João Calvino e a Ética Protestante de Max Weber, Aproximações e Contrastes. Fides Reformata VII.2 (2002)
LESSA,Vicente Themudo. Calvino (1509-1564), sua vida e sua obra. São Paulo, Casa Editora Presbiteriana, 1934.

quarta-feira, 24 de junho de 2009

O cristianismo se caracteriza por tecer de forma estreita uma relação com a obra de Jesus, a questão da morte do indivíduo e o destino pessoal eterno. Desenvolveu um pensamento que se manifesta por associar à crença cristã na ressurreição de Jesus com a purificação dos pecados e assim, a vida eterna, em oposição à condenação pós-morte sob o jugo do pecado.


Alguns estudiosos acusam neste fato uma clivagem com a provável mensagem e pregação histórica de Jesus e o senso de seu ministério. O apelo maior de temas-chave da religião judaica como a Aliança, a Promessa, a restauração social e espiritual da nação; e o quadro sócio-político de então, sob o domínio romano, a pesada carga suportada pela maioria da população, e as variadas expressões de insatisfação popular, os conflitos sociais entre grupos, como prismas para a leitura da memória histórica, são de um escopo tal que muitos não conseguem conceber que esse tema do destino individual ganharia espaço urgente nem poderia se relacionar com a questão messiânica.

Vêem então nisto uma 'espiritualização' crescente, mais grecisada do que judaica, alguns buscando apontar pontos específicos de bifurcação, geralmente no pensamento paulino. Um tempo atrás, mesmo pouco antes das publicações do gênero que se convencionou chamar 'Nova Perspectiva' nos estudos sobre Paulo, podíamos ouvir que Paulo teria 'criado o cristianismo'. É uma acusação presente em Ernest Renan e Nietzsche [os discursos sobre um suposto 'Paulo desjudaizado' só recentemente foram sepultados com os trabalhos de nomes como Ed Parish Sanders, Nichollas Thomas Wright, Heikki Raisanen, Francis B. Watson e Stephen Westerholm]. Algo que reforça isso é uma convenção vulgar de que o judaísmo antigo não se preocupava muito com esse destino individual, sobretudo em relação à condenação em contraste com a salvação. E também com uma impressão de que Paulo não lidou direito com o papel da Torá na Aliança e atribuíra aos seus contemporâneos um legalismo injusto.

Vamos expor aqui, em mais um texto da série sobre o contexto do neotestamentário e o discurso paulino, que esse dilema com a morte ocupa sim um espaço importante na cultura judaica deste período, e que no que o cristianismo se detém sobre o tema, está perfeitamente consoante com substratos religiosos judaicos.

A mais famosa imagem do destino pós-morte que encontramos no judaísmo é a do Sheol. Um lugar sombrio de semi-existência, desnorteada e errante. Mas parece que o termo era usado para abarcar uma complexidade de expressões dessemelhantes; dentre elas, também se inclui a de condenação.

Em Deuteronômio 32.21-23, tem-se o Sheol como lugar em que os que abandonaram Deus serão punidos por um fogo divino. Em Is.66.24, os revoltados contra Deus atingidos por um fogo que nunca se apaga, por vermes que nunca morrem (cujo eco sem encontra em Marcos 9.48). Na passagem do Salmo 9.17-18, tem-se apresentado o Sheol como lugar para os infiéis e os que esqueceram Deus.

Essas acepções soam estranhas quando encontramos vulgarmente falas categóricas que tomam por certo não existir essa concepção no judaísmo. É bom relembrar aqui a clássica passagem do livro de Daniel, 12.1-2, passagem esta proveniente da primeira metade do século II a.C., que evoca de forma bombástica a condenação eterna para os perdidos.

Mas vamos tomar um livro que trabalha sob categorias cristãs temas fortemente arraigados na apocalíptica judaica, o Apocalipse de João. Uma de suas figuras mais fortes evocadas sob esse tema é a do Livro da Vida. Não é algo novo em relação ao judaísmo. O tema do 'Livro vida'- ‘olam hazeh’, aparece por exemplo no Salmo 39.16, 69.27-29, no livro de Malaquias 3.16. Em muitos outros exemplos da literatura judaica encontramo-lo. Jubileu 30.22 menciona um livro de destruição dos nomes que foram arrancados do livro da vida. I Enoque 104.7; 108.3, 7; Baruc 24.1 também versam sobre o Livro da Vida; mesmo na Mishna, em Pirkey – Avot 2:1; 3.17.

Há também os âmbitos exotéricos. Dentre os manuscritos de Qumran, na 1QRegra da Comunidade (1Qs), Col. III: 9-13, fala-se sobre a ação de anjos da vingança, que destroem nações que prestam lealdade a Belial [em referência aos ‘Kittim’], exclamando que a chegada deles será para abundância de castigos por mãos de todos os anjos de destruição, para condenação eterna pela ira abrasadora do Deus da vingança, para erro perpétuo e vergonha sem fim com a ignomínia da destruição pelo fogo das regiões tenebrosas.

No Enoch Etíope [cerca de primeira metade do séc.I a.C.] tem-se [10.8]: Nesse dia, eles serão atirados ao abismo de fogo, na reclusão, no tormento, onde ficarão encerrados para todo o sempre. E todo aquele que for sentenciado à condenação eterna seja juntado a eles, e seja com eles mantido em correntes, até o fim de todas as gerações. Também: Esperai com paciente esperança; não renuncieis de vossa confiança; pois grande alegria será a vossa, como aquela dos anjos no céu. Conduze-vos como podeis, não estareis escondidos no dia do grande julgamento. Não sereis como os pecadores; e a eterna condenação estará longe de vós, enquanto o mundo existir.[104.3]

Também temos as imagens de visões beatíficas, das bem-aventuranças eternas. A expressão seio [que poderia ser tomada como 'círculo de', 'ambiente de', 'acolhimento junto a'] de Abraão apresentada na parábola em Lucas 16.22 ecoa 4 Macabeus: Após esse sofrimento, nosso Abraão, Isaque e Jacó nos receberão e todos nossos ancestrais nos celebrarão.

Mas no pensamento paulino, se destacam os temas da expiação dos pecados, prestação de contas no juízo, a segurança da vida eterna com Deus na Nova Criação, após o julgamento. De Tessalonicenses, dos primeiros escritos, destacando a carta aos Romanos. Seria esse então o ponto em que Paulo vai além de tudo antes, para tecer seu 'evangelho aos gentios'? De onde ele chegara a expressar o juízo divino que era tomado como 'Dia de YHWH' como 'Dia do Messias Jesus' (Filipenses 1.6; 1.10;2.16)?

Vejo que por detrás de tal julgamento, se esconde uma ingenuidade: a de que alguém, com posse de valiosos materiais que proporcionam hoje um fabuloso subsídio para o estudo do pensamento do judaísmo do segundo templo, e dos grupos religiosos, possa ainda assim estar mais a parte da mentalidade, sobretudo farisaica, e de círculos de pensamentos próximos (histórica, cultural e geograficamente), do que alguém que viveu diretamente imerso, não só tomando parte mas estudando e vivendo nas escolas importantes de então, existencialmente comprometido por inteiro, e que por assim dizer, perfeitamente traduz e expressa preocupações e temáticas de então que ninguém atualmente estaria tão habilitado em expressar.

Não se teria como apresentar de forma mais enfatizada como esses temas faziam sim parte das preocupações religiosas, mesmo em períodos de convulsões sociais como a das grandes agitações que culminaram com a revolta judaica seu desbaratamento e a assolação de Jerusalém, do que o lamento altissonante atribuído ao Rabbi Yochanan Bem-Zakkai, maior nome do Conselho de Jamnia, que estabeleceu o judaísmo oficial após a destruição do Templo pelas forças romanas, no topo das maiores autoridades do judaísmo de seu tempo e ligado à Gamaliel, eminente rabino educador de Paulo:
Agora eu estou sendo levado diante do supremo Rei dos reis, o Santo, bendito seja, que vive e permanece para todo o sempre. Se ele está zangado comigo, permanecerá zangado para sempre. Se me aprisionar, me aprisionará para sempre. Se me envia para a morte, permanecerei morto para sempre. Não posso persuadi-lo com palavras ou suborna-lo com dinheiro. Além disso, há dois caminhos à minha frente: um conduz ao Gan-Eden (paraíso) e o outro ao Gehena, e eu não sei a qual deles serei levado. O que mais posso fazer além de chorar?
(B’rahakhot 28b).

Importante observar que aí, além do tema do Gehena, relativo à condenação, temos o Gan-Éden, que é transliterado como Paraíso, apresentado em Lucas 23.43 no diálogo de Jesus com o criminoso na cruz.

De um povo devotado a um deus concebido como eminentemente moral e justo, com uma noção arraigada de pecado e deste como algo abominado por este deus, e que tinha convicção de esperar por um julgamento futuro, por mais que tivessem suas cerimônias de relembrar da aliança, confirmar sua participação na eleição selada pela Torá, e a cerimônia do Dia do Perdão, é natural ainda assim esperarmos essa preocupação, sobretudo nos mais conscienciosos quanto ao dever de ser fiel aos mandamentos. Em períodos em que se confrontavam com uma realidade que não parecia se retratar como recompensadora de tais esforços, isso poderia se acentuar.

Neste sentido, enfocando o auto-exame, o rabbi Yehoshua ben Levi declamara:
Qual é o sentido do versículo: É esta a torá que Moisés propôs aos filhos de Israel (Dt. 4:44)? Significa que se uma pessoa for merecedora, ela se torna para ela um remédio que dá vida; mas se não for, ele se torna um veneno mortal. Foi a isso que Raba se referiu quando disse: ‘Se a pessoa a usa da maneira correta, ela é um remédio de vida, mas para aquele que não usa da maneira correta, ela é um veneno mortal’. (Yoma 72b)
Tal declaração está consoante com o apresentado em obras da literatura judaica, como no Apocalipse de Baruc 17.72, 3,42; 23.4.

Ainda para frisar como esta temática é arraigada no pano de fundo da religião judaica, temos o comentário na Torá Oral do Rabbi Y’hudah Há Nasi:
(...) Dê atenção a três coisas, e não ficarás sob o poder da transgressão: saiba o que está acima de você – um olho que tudo vê, um ouvido que tudo ouve, e todas suas obras registradas em um livro.
(Avot 2:1).

É deveras difícil sobre-estimar o impacto que poderia sobrevir através do quadro retratado em 4 Esdras 7.32-37:
A terra restaurará os que repousam nela, e o pó restaurará os que repousam nele. O Altíssimo será revelado no trono do julgamento, e então vem o fim. A compaixão desaparecerá, a misericórdia estará distante, a longanimidade, abandonada; apenas o julgamento permanecerá, a verdade perseverará, a fidelidade prevalecerá. A isso seguirá a recompensa, ela se manifestará. Os atos de justiça despertarão, e os atos de iniqüidade não repousarão. Então surgirá o Abismo de Tormentas, e, em contraste com ele, um lugar de refrigério; a fornalha de Ge-Hinnom se manifestará, e em contraste com ela, um paraíso de delícias.
E também mais à frente em 7.46-48:
Quem dos que entraram no mundo não pecou? Ou quem dentre os nascentes na terra não transgrediu Tua aliança? Vejo, agora, que a era vindoura a poucos trará alegria, mas tormenta para muitos. Pois cresceu em nós o coração mau que nos afastou do Altíssimo, levou-nos à destruição, fez-nos conhecer os caminhos para longe da vida! E isso não se aplica somente a alguns, mas praticamente a todos os que foram criados!

Dessa forma, oferecemos subsídios para visualizarmos como esse tema, desenvolvido no cristianismo nascente sobretudo em Paulo mas não exclusivo dele (vide João 3.16, por exemplo) que vincula, juntamente com outras temáticas, as crenças quanto ao ministério de Jesus como decisivo para o destino pessoal após a morte. Não seriam algo dissimilar do substrato judaico, nem algo que necessariamente deveria ser desenvolvido de modo tardio, com um eclipsar judaico por temas indisiocráticos gregos. Está perfeitamente arraigado, dentro é claro de uma multiplicidade de expressões que é característica do contexto, no imaginário em que surgira. A um existencialista moderno que pudesse voltar ao tempo e perguntar aos cristãos 'o que tudo isso tem a ver com a morte', poderiam responder: 'tudo isso'.

sábado, 20 de junho de 2009


Paulo reserva um lugar acentuado em sua exposição teológica para a asseveração da universalidade da pecaminosidade humana. Especialmente na carta aos Romanos, destacando o capítulo 5. Diversos viezes e mesmo sistemas teológicos foram arquitetados ao longo da história, em graus variados de acentuação a respeito da ênfase quanto a condição humana e o pecado, e a liberdade moral humana. Decerto, é comum hoje dizer que por vezes a visão de Paulo é ambivalente. Por exemplo, em Rm. 9.19, o homem não é capaz de se opor à compulsão divina; em Rm. 9.22, ele é.

Vamos buscar algumas considerações a respeito deste tema, em algumas passagens importantes da literatura judaica do Segundo Templo.

Não digas: ‘Foi Deus que me fez cair’,pois não deves fazer o que ele detesta. Não digas: ‘Foi Ele que me fez desviar’, pois Ele não precisa do pecador. O Senhor odeia toda abominação, e os que o temem não devem amá-la também. No princípio Ele criou o ser humano e o entregou às mãos de seu arbítrio. Se quiseres, tu podes observar os mandamentos e agir com fidelidade é uma questão de intenção.
Diante de ti, Ele colocou o fogo e a água: estende a mão para o que quiseres. Diante do homem estão a vida e a morte, e ele receberá aquilo que preferir.

Sirácida 15.11-17.

Pois, embora Adão tenha pecado primeiro e trazido sobre todos a morte fora de tempo, contudo, daqueles que nasceram dele, cada um preparou para si mesmo o tormento futuro; também cada um deles escolheu para si mesmo glórias futuras... Adão não é, portanto, a causa, exceto para sua própria alma, mas cada um de nós foi o Adão de sua própria alma.
II Baruc 54.14-15,19.

Pois o primeiro Adão, vestindo-se de um coração mau, transgrediu e foi vencido; e igualmente também todos os que nasceram dele. Portanto, a enfermidade tornou-se crônica; a Torá, na verdade, estava no coração do povo, mas junto com a semente do mal; então, o que era bom se foi e o mal permaneceu
.
4 Esdras 3.19-22

E eu respondi: ‘Esta é minha primeira e última palavra: Teria sido melhor se a terra não tivesse produzido Adão, ou, por outro lado, antes o tivesse produzido para que tu o tivesses produzido para que tu o tivesses impedido de pecar.Pois que proveito há para qualquer um de nós no fato de que, na era presente, devemos viver em aflição e, após a morte, esperar o castigo? Adão, o que fizeste! Pois embora foste tu que pecaste, a queda não foi somente tua, mas também nossa, seus descendentes! Que proveito há em recebermos a promessa da era eterna, quando temos feito as obras que trazem a morte?
4 Esdras 7.116-119

O quadro que temos dessa passagem também nos proporciona uma imagem de ambigüidade.

Pode-se elencar bons exemplos de ambigüidades no pensamento teológico de Paulo. Na carta aos Colossenses 2:12, temos a seguinte passagem:

Fostes sepultados com ele no batismo, também com ele ressussitastes, pela fé no poder de Deus, que o ressussitou dos mortos.


Tudo bem que uma leitura permitiria aí enquadrar os termos no simbolismo do batismo.

Em II a Timóteo- temos um porém. Essa epístola poderia ser paulina a considerar uma possibilidade: a prisão em Roma descrita no final de Atos não fora a definitiva que culminara em sua morte. Independente disso, outro cenário é de que alguém muito próximo a Paulo ou que se julgasse familiarizado a teria escrito buscando estar sob seu prisma, expressamente para alguém muito próximo ao apóstolo:

2:16-18: Eles se desviaram da verdade, dizendo que a ressurreição já se realizou, estão pervertendo a fé de vários.

Em I Co. 15, o capítulo expressa que a ressurreição foi inaugurada por Jesus e todos a experimentarão no futuro escatológico.

Outras ambigüidades mais claras:

A 'Justificação' se dá no futuro ou passado? – cf. Rm. 2.13, 8.33. Gl. 5.4,5.
A 'Santificação' é um evento/fenômeno passado? ICo.6.11; futuro? ITs.5.23
A 'Salvação' já se efetuou? Rm.8.24; I Co.15.2 ; está se efetuando? I Co.1.18; ICo10.11; é algo para o futuro? Rm.5.9-10.

Essas ambigüidades ou mesmo paradoxos permeam diversos pontos importantes e cruciais do Novo Testamento. A grande questão do Reinado de Deus.
Ele estava próximo: Mc.1.15
Já chegara: Mt.12.28
Vem no futuro: Mt.6.10
No porvir? Mc.14.25.

Penso que um das grandes problemas em lidarmos com essas dificuldades é a falta de cuidado em buscar compreender a linha de pensamento daquele ambiente cultural; aplicamos anacronicamente categorias analíticas ocidentais abstratas e dedutivas a uma forma de pensar dotada de outras nuances. C.H. Dodd, no livro 'Segundo as Escrituras. Estrutura fundamental do Novo Testamento' [ 1979, Ed. Paulinas, 144p.], já advertia-nos para levarmos em conta a linguagem do povo daquele contexto. Afirma ele que não veriam nada demais em justapor duas frases que apresentam aparentes contradições diretas, pois as inseriam numa perspectiva de um plano maior. Sendo assim, não estavam ignorando 'o terceiro excluído'.

De fato,cada sistema de linguagem em seu contexto histórico-social oferece a estrutura lingüística necessária para descrições e expressões que não necessariamente se enquadram em outros esquemas de pensamento.

O psicólogo Erich Fromm, no livro 'Meu Encontro com Marx e Freud' coloca e ilustra isso de forma perfeita: Em hebraico o princípio básico da conjugação é determinar se uma atividade é completa (perfeita) ou incompleta (imperfeita), ao passo que o tempo em que ocorre - passado, presente, futuro – é expresso de forma secundária. Em latim, os dois princípios (tempo e dimensão-perfeição) são empregados simultaneamente, enquanto no inglês predomina o sentido do tempo. Quando o texto hebraico do Velho Testamento emprega o tempo perfeito para uma experiência emocional, como p.ex. amar, com o sentido 'eu amo plenamente', o tradutor se equivoca e diz 'eu amei'.

Assim, temos que considerar os diferentes sentidos dos termos no contexto maior que aquele que os emprega os situa, para podemos assim não eliminarmos as tensões inerentes apresentada no pensamento examinado, mesmo que no caso não fosse a nossa própria maneira de expor as idéias, se estivessem a nosso encargo.

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