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sábado, 24 de novembro de 2012

Continuando, (após longo tempo), nossa série sobre os doze apóstolos de Jesus, vamos ao segundo post sobre  a possível descoberta do Túmulo do Apóstolo Filipe na cidade Hierápolis (ou Pamukale, atual Turquia), pela equipe do Professor Francesco D'Andria, da Universidade de Salento, e Diretor da Missão Arqueológica Italiana em Hierápolis. A missão excava o local desde 1957, e reune pesquisadores de 14 universidades e centros de pesquisa.


Ruínas do periodo romano em Hierápolis (Pamukale), foto via wikipedia



Como dito anteriomente, o caso de Filipe é muito interessante para avaliar a possibilidade de análise histórica das tradições associadas aos doze apóstolos após a crucificação de Jesus, a despeito do forte conteudo lendário e da sua aparição relativamente tardia no registro histórico, exemplificando muito bem o tipo de material  disponível para a maior parte dos apóstolos. Como já dissemos antes, boas análises do assunto estão disponiveis nos livros dos professores  John P Meier (Um Judeu Marginal, Volume 3, Livro I, fls. 210-296, Ed. Imago) e Geza Vermes (Quem é Quem na Época de Jesus, Editora Record).


Fontes Arqueológicas e Textuais e Tradições sobre Filipe e Hierápolis:

Como já visto no post anterior, o mais extenso relato sobre a possível atuação de Filipe, e seu martírio, é o livro de Atos de Filipe. No entanto, uma série de dificuldades cercam o texto: i) Foi composto por volta do século IV-V DC (embora  conserve tradições anteriores) ii) Atos de Filipe, como vários outros Atos apócrifos, pertence ao gênero de novela histórica, cujo o principal objetivo é edificar e entreter, não relatar a história.

No entanto, vimos também que: i) Embora o texto seja tardio, estudiosos como o Professor François Bovon [1] tem apontado que foi construído a partir de vários cíclos narrativos, alguns muito anteriores a compilação do texto no século IV ou V. ii) Como observa o Professor James McGrath em relação aos Atos de Tomé, ainda que seja um relato altamente romanceado e tardio, existe uma possibilidade razoável que se baseie em um núcleo autêntico, a atuação do apóstolo do Tomé na India em meados do sec .I, existindo a possibilidade de avaliar a historicidade de certos elementos após cuidadosa e meticulosa análise. Tal processo, entendemos, pode ser usado para os Atos de Filipe,  em face a existência de elementos conexos as notícias mais antigas da tradição, dos autores do século II, dos evangelhos e de Atos (final do século I), candidatos a possibilidade de historicidade.      

De forma "arqueológica", vamos começar das camadas mais recentes em direção as mais antigas:

Inscrição do Arquidiácono Eugênio (sec V): Professor William Tabernee, do Phillips Theological Seminary (Oklahoma), apresenta a inscrição funerária publicada por Charles R. Cockerell, no inicio do século XIX, em Hierápolis

Eugênio, o menor, arquidiácono, e responsável pelo [martirium?] do santo e glorioso apostolo e teólogo Filipe" [3]
O testemunho de Eugênio demonstra que, mais ou menos na época em que os Atos de Filipe foram concluidos, existia a crença, consolidada, de que o apóstolo e teólogo havia sido enterrado ali. Eugênio havia dedicado sua vida como Guardião do Sepulcro do apóstolo. Obviamente, é uma atestação extremamente tardia, mais de 300 anos após a morte de Filipe, do que as pessoas acreditavam. É util apenas para confirmar que, no mínimo, a associação de Filipe com Hierapolis já estava firmemente estabelecida anteriormente ao advento dos Atos de Filipe.

(Pseudo?) Hipólito (200 -400 DC):  O tratado dos "Doze Apóstolos de Cristo", são apresentadas tradições relativas ao destino dos doze após a morte e ressureição de Jesus.  Sobre Filipe o texto nos informa:
"Filipe pregou na Frígia, e foi crucificado, de cabeça para baixo em Hierápolis, no tempo de Domiciano, e foi enterrado lá". (Pseudo Hipolito, Dos Doze Apóstolos, v 6)
O livro é algumas vezes atribuido ao mestre cristão romano e bispo Hipolito de Roma (170-235 DC), o que, se verdadeiro, seria relevante, pois consolidaria tradições correntes a cerca de três a cinco gerações das figuras envolvidas. No entanto, a autoria de Hipolito é geralmente descartada pelo fato de Jerônimo (347-420 DC), ao listar os livros escritos por Hipolito não o mencionar o tratado, assim como uma inscrição contemporânea encontrada junto a uma estátua dedicada aquele mestre, excavada em 1551 [4]. No entanto, como também observa o Professor James R Edward, da Whitworth University, Jerônimo indica estar a par da existência do livro, pois o título exato do trabalho (De duodecim apostolis) é mencionado em conexão ao apóstolo Bartolomeu (Viris Illustribus 36:2), assim como a tradição de que aquele apóstolo pregou na India, e levou aquele país o Evangelho de Mateus  [4]. Se Edwards estiver correto, independente da autoria de Hipolito, estabeleceria uma datação entre o inicio do século III (quando Hipólito viveu) e o final do século IV (quando Jerônimo escreve). Em todo caso, "os doze apóstolos"   já é comumente datado nos séculos III e IV [5]. Desta forma, o tratado é forte evidência de que a crença na execução de Filipe em Hierápolis, bem como seu sepultamento já estava estabelecida no século IV ou antes.
  
Eusébio de Cesaréia (século IV): Eusébio Pamphili (263-339 DC), Bispo de Cesaréia, foi imortalizado pelos livros que escreveu, a biografia do Imperador Constantino "Vita Constatine", suas Crônicas (Historia Universal), bem como textos de conteudo apologético, como "Contra Hierocles", "Preparação Evangélica" e "Teofânia".



Mas, sem dúvida, seu mais relevante escrito é a História Eclesiastica, ou História da Igreja, e conta a história do cristianismo de seu surgimento até o ano 305. Seu trabalho teve repercussão monumental nas gerações seguintes, tendo sido traduzido já na Antiguidade para o Latim por Rufino de Aquiléia, que também extendeu o texto até a morte de Teodósio I (395 DC).  A obra de Eusébio foi também continuada por outras Histórias da Igreja, como a de  Socrátes de Constantinopla (ou Socrates Escolástico), que cobriu o período de 305 ao ano 439 DC, e a de Salminius Sozomenus (Sozomen), referente aos anos de 312 a 425 DC. Estes por sua vez, tiveram sucessores em narrativas locais como a Historia ecclesiastica gentis Anglorum, escrita pelo Venerável Beda no ano 731, para o cristianismo nas ilhas britânicas, ou a História Eclesiástica de Evagrio Escolástico, para o Império Bizantino, no período do Concílio de Éfeso (431 DC) até o ano 593.

Entre os aspectos mais importantes do trabalho de Eusébio, está a citação e referência a muitos outros documentos cristãos que não chegaram até nós, e que só são conhecidos por que ele os mencionou, dentre os quais algumas das fontes para Filipe e suas filhas.

No entanto, por não termos acesso direto a essas fontes, mas apenas as citações de Eusébio, cabe fazer algumas considerações sobre a confiabilidade e vieses do Bispo de Cesáreia. Como observa, Alice Whealey, alguns críticos chegaram a acusar Eusébio de fabricar uma história falsificada e  forjar documentos e editos imperiais [6], acusação que se demonstrou prejudicada quando uma cópia de um documento transcrito na "Vida de Constantino" II:24-42 foi encontrada em um papiro egípcio do início do século IV, assim como a autenticidade de um documento oficial citado por Eusébio em História Eclesiástica IX: 7:3-14 foi provada por uma inscrição contemporânea encontrada na Ásia Menor [6]. Como observa a Professora Averil Cameron, da Universidade de Oxford, em sua tradução da Vida de Constantino (VC) [7]:


"While interpreters from Burckhardt onwards who denied that Constantine was a religious Christian regarded many of the documents as inauthentic, it is now more usual to accept the letters as mostly or entirely genuine (Baynes, Lietzmann, Jones, Barnes). (...) Finally, the authenticity of one of the most hotly contested documents, the letter at II. 24-42, has been remarkably confirmed by the discovery of part of the text in an official papyrus contemporary with or earlier than the writing of the VC"                     (traduçãoAinda que desde Burckhardt, estudiosos tenham negado que Constantino era um cristão fervoroso, e considerado muitos dos documentos como falsificados, hoje é mais comum aceitar as cartas como basicamente ou inteiramente genuinas (Baynes, Lietzmann, Jones, Barnes). (...) Finalmente, a autenticidade de um dos documentos mais intensamente contestados foi demostrada de forma dramatica na descoberta de partes do texto em um papiro oficial datado anteriormente ou da mesma época da VC.    [7]

Assim, caros leitores do adcummulus, a prova incontestável da autenticidade de um dos documentos  mais polêmicos citados por Eusébio em relação a Constantino deve nos prevenir quanto a acusações encontradas em alguns estudiosos mais antigos e na internet de que Eusébio era um falsário sem escrúpulos. Tal abordagem está claramente "fora de moda". No entanto, Eusébio tem vieses, é seletivo, e seus intenções são claras, e, portanto, seu trabalho deve ser lido com espírito crítico. Como afirma o Professor Timothy D Barnes, da Universidade de Edinburgo, História Ecesiástica será sempre uma fonte indispensável para historiadores do cristianismo primitivo e do Império Romano, no entanto suas limitações e interesses como autor também devem ser considerados [8]. Barnes observa que, quando possível, a comparação de Historia com os documentos e autores citados revela graves deficiências, Eusébio frequentemente parafraseia, reescreve, omite, expande, altera a ênfase do original, relata incorretamente ao parafrasear de memória [8]. Em suma, pode não ser prudente aceitar Eusêbio como relatando precisamente o teor de uma fonte perdida, "existe o perigo, assim, de que o evidente cuidado e honestidade de sua erudição sejam assumidos como garantia da acurácia de seus resultados"[8].


Desta forma, talvez seja prudente aplicar para Eusébio um princípio, assemelhado ao critério do constrangimento, utilizado pelo Professor Martin Goodman, de Oxford, para as obras de Flávio Josefo: "Aceitar as avaliações frequentemente tendenciosas de Josefo sobre os motivos e caráter dos judeus e romanos cujas ações são descritas em sua narrativa seria imprudente, mas aceitar os detalhes de sua narrativa, particularmente quando eles contradizem sua própria explicação dos eventos, e assim foram incorporados a seu relato simplesmente porque realmente aconteceram, é razoavel [9]". Trocando Josefo por Eusébio, adaptamos um excelente princípio de trabalho.



Proclus e Caio (Início do III Século) citados por Eusébio: Caio, presbitero da Igreja Roma, escreveu uma refutação da heresia montanista, dirigida a um certo Proclus, que era um de seus líderes. O texto tem o título "Diálogo ou Disputa contra Proclus", e foi escrito quando Zeferino era Bispo de Roma (199-217 DC). Eusébio introduz o Diálogo da seguinte forma:

Isto [o mártirio de Pedro e Paulo em Roma] é confirmado por Caio, um membro da Igreja, nos tempos de Zeferino, Bispo de Roma. Ele, ao publicar uma disputa com Proclus, o líder da heresia frígia, afirma o seguinte em relação aos lugares em corpos dos santos apóstolos já referidos descansam:

7. “Posso mostrar-te os troféus dos apóstolos [Pedro e Paulo]. Se quiseres dirigir-te ao Vaticano ou à Via de Óstia, encontrarás os troféus daqueles que fundaram esta Igreja". (HE II:25]
Caio utiliza a tradição, já consolidada no século II (e provavelmente correta),  de que Pedro e Paulo pregaram em Roma e foram martirizados lá, para fundamentar sua autoridade e correção de ensino.


Eusébio. porém, relata que Proclus também reinvindicava o aúxilio dos apóstolos:
(...)E, nos Diálogos de Caio que mencionamos pouco acima, Proclus, contra quem ele direcionou seu argumento, em concordância do que já citamos, assim fala no que concerne a morte de Filipe e suas filhas: Após isso, haviam quatro profetizas, as filhas de Filipe, em Hierapólis da Asia. Seus sepulcros estão lá, assim como o de seu Pai [HE III:28]

Por volta de 170 DC,  em Ardabau, na Frígia,  um ex-sacerdote pagão recem convertido a fé cristã, chamado Montano, e as profetizas  Maximila e Priscila, iniciaram um movimento  chamado "Nova Profecia",  ou Montanismo, que enfatizam a renovação da fé cristã por meio de revelações recebidas do Espirito Santo, bem como por práticas como ascetismo, celibato, penitência e martírio, além de crerem na iminente vinda do Reino dos Céus, com estabelecimento da Nova Jerusalém na cidade de Pepuza, também na Frigia [8]. Em pouco tempo, o montanismo se espalhou por toda Frígia e Asia Menor, chegando a Roma, Cartago, Alexandria e todo o Império. Um dos grandes desafios trazidos pelo Montanismo, foi como  reagir a ele. 

O Montanismo não implicava em questionamento dos principios fundamentais do cristianismo, e seu rigor e fervor atraiam a muitos. Logo, conseguiram um aliado de peso, Tertuliano de Cartago. Em sua obra, Contra Praxeas, Tertuliano elogia o Bispo de Roma por ter reconhecido os dons proféticos de Montano, Priscila e Maximila, e até mesmo enviado saudações as igrejas da Asia e Frígia, lamentando, porém, que, sob supostas falsas acusações, a sé romana tenha mudado de idéia (Tertuliano, Contra Praxeas, capitulo 10). A grande popularidade do movimento montanistas entre os cristãos na Frígia e Asia Menor, e em cidades como Hierápolis, é atestada por um razoável número de inscrições dos séculos III ao V [10]. Embora o Montanismo tenha sido condenado como herético pela Igreja, perdurou até o século VI, pelo menos.     

A Tumba de Filipe e suas filhas profetizas em Hierápolis, fortalecia as pretensões montanistas. Como observa William Tabernee, os sepulcros de tão veneráveis figuras naquele centro montanista foram utilizados para reinvidicar uma "linhagem profética" em que os profetas montanistas são sucessores das filhas  de Filipe, e do próprio apóstolo, legitimando o movimento. Resta a Caio apelar aos sepulcros de Pedro e Paulo em Roma, em um movimento "os nossos troféus são melhores do que o seu", como ironiza Tabernee [10]. Mesmo assim, os montanistas ainda podiam reinvindicar suporte da doutrina de sucessão apostólica, muito cara aos proto-ortodoxos. O fato de não haver contestação da presença do apóstolo e de suas filhas em Hierápolis, que fortalecia os montanistas em uma época em que ainda eram uma ameaça, indica que tanto Eusébio, quanto Caio, e o restante da Igreja, reconhecia o local como sepuclo de Filipe e sua família desde, pelo menos, o final do sec. II.


Filipe Apóstolo, Icône da Russia Central, sec. XIX, Wikipedia 

Policrates de Éfeso (final do século II):
Por  volta do ano 196 DC, o Bispo Policrates de Eféso, liderando um sínodo de bispos da Asia Menor e adjacências escreveu uma carta ao Bispo de Roma, Vitor, em uma controvérsia sobre a data em que devia ser observada a Páscoa. Na Asia, o costume era observar o 14° dia do mês de Nisã (dai, quartodecimianismo), retendo a tradição judaica, implicando que a Pascoa não teria um dia da semana fixo. Em Roma, porém, a Páscoa era celebrada sempre no domingo, uma vez que este fora o dia em que Jesus ressuscitou. A discussão foi ferrenha e quase levou a um cisma,e só foi resolvida no Concílio de Nicéia. A intensidade da disputa é evidenciada pela carta de Policrates.

  Nós observamos o dia exato, sem adicionar ou retirar. Pois na Asia grandes luminares descansam, e que ressuscitaram no dia do Senhor, quando  vier de sua glória no Céu para buscar os seus santos. Entre eles esta Filipe, um dos doze apóstolos, que descansa em Hierápolis, e duas de suas filhas  virgens e idosas, e outra filha, que viveu no Espírito Santo e que agora repousa em Éfeso.; e, mais ainda, João, que foi testemunha e mestre, e que se reclinou no peito do Senhor, e, sendo sacerdote, vestiu o manto. Ele repousa em Efeso. E Policarpo de Esmirna, bispo e martir; e Traséas, bispo e mártir de Eumênia, que dorme no Senhor em Esmirna. Porque deveria mencionar o Bispo Sagaris, que repousa em Laodicéia, ou abençoado Papirio, ou Melito de Sardes, que também viviam no Santo Espírito, e que repousam em Sardes, esperando o episcopado celestial, quando se levantarão dos mortos? Todos eles observaram a páscoa no décimo quarto dia conforme o evangelho, sem desviar em nada, mas seguindo a fé. E eu também, Policrates, o menor de todos, faço segundo a tradição que recebi de meus parentes, alguns dos quais alguns dos quais eu segui muito de perto. Pois sete deles foram bispos e eu sou o oitavo. E meus parentes sempre observaram o dia que as pessoas separavam o fermento. Eu, portanto, irmãos, que vivi sessenta e cinco anos no Senhor e encontrei com irmãos em todo o mundo, e que já li todas as escrituras, não me assusto facilmente com palavras terríveis. Pois os que são maiores que eu disseram 'Nós devemos obedecer a Deus ao invés dos homens...' Eu poderia mencionar bispos que estavam presentes, que eu mesmo convoquei a seu pedido, cujos nomes eu deveria escrever e que certamente seriam uma multidão. E eles, admirando minha pequeneza, consentiram com esta carta, sabendo que eu não porto esses cabelos brancos em vão e sempre governei minha vida pelo Senhor Jesus.
A controvérsia quartodeciminianista teve um caráter diferenciado de outras a qual a Igreja estava acostumada por se tratar de uma divergência em que ambos os lados contavam com excelentes credenciais do ponto de vista proto-ortodoxo. 

Como observa o Professor Michel Ives Perrin, da Universidade de Rouen (França), a estrutura episcopal e a crença na sucessão apóstolica logo se tornaram elementos basilares na identidade da Igreja nascente:


"(...)Essa nova constituição episcopal permitiu dar uma visibilidade maior ao caráter apostólico que as comunidades da "Grande Igreja" reinvindicavam (tanto quanto seus adversários, alías). De fato, desde Paulo, e de maneira cada vez mais acentuada no correr das décadas, a investidura apostólica direta ou indireta, aparece como requisito sine quae non de toda a autoridade das igrejas.
Perrin, discorre sobre o desenvolvimento da doutrina da sucessão apóstolica, ao longo do século II
Na virada do século I, a Carta da Igreja de Roma á Igreja de Corinto (42:1-4 e 44:2) orquestra todos os harmônicos desse tema "Os apóstolos receberam por nós a Boa Nova pelo Senhor Jesus Cristo: Jesus, o Cristo, foi enviado por Deus. Logo, Cristo vêm de Deus, os Apóstolos vêm de Cristo: as duas coisas saíram em boa ordem da vontade de Deus. Eles receberam instruções e, cheios de certeza pela ressureição de Nosso Senhor, fortalecidos pela Palavra de Deus, com a plena certeza do Espírito santo, partiram para anunciar a boa nova do Reino de Deus iria vir [...] tendo recebido um conhecido perfeito do futuro, eles instituiram [bispos e diáconos] e estabeleceram então como regra que, depois da morte desses últimos, outros homens provados os sucederiam em seu ofício". Os bispos da "Grande Igreja" reinvindicavam ser depositários e interpretes legitimos e exclusivos, ante todos os dissidentes, dessa tradição confiada aos apóstolos e seus sucessores: desde o terceiro quartel do século II "sucessões de verdade" são elaboradas por Roma e Corinto e opostos as "sucessões do erro dos mestres gnósticos. È assim que nascem as listas episcopais , que projetam de modo anacrônico, no passado mais remoto das comunidades, a organização monoespiscopal . Na virada do século II, Tertuliano pode exclamar: "Mostrem as origens das suas Igrejas, exibam a séris de seus ispos, sucedendo-se desde a origem, de tal modo que o primeiro bispo tenha como avalista e predecessor um dos apóstolos ou um dos homens apostólicos que ficaram até o fim em comunhão com os apóstolos. Porque assim que as igrejas apostólicas apresentam seus frutos (das Prescrições dos Heréticos, 36:1). A ausência de uma estrutura episcopal dos grupos dissidentes podia constituir desse ponto de vista uma fraqueza nas controvérsias entre os cristãos. [ 11]

 Levando, em conta as considerações de Perrin, e a carta do Bispo  Policrates, podemos ter idéia da seriedade da crise causada pela controvérsia. Em Éfeso, o apóstolo Paulo pregara, e João, o díscipulo amado, havia passado seus últimos dias. Obviamente, advertimos os leitores do adcummulus de que as igrejas tendiam a ser "muito criativas" com as tradições relativas  aos apóstolos e seus associados, para fundamentar reinvindicações de autoridade. Por outro lado, existem indicações de que pelo menos alguns apóstolos empreenderam ampla atividade missionária, em inúmeras localidades, como atestado em escritos da segunda metade do século I,  como as cartas paulinas e os Atos dos Apóstolos, então tais reinvindicações, quando tem o suporte das fontes mais antigas e atestadas em múltiplas fontes, devem ser analisadas com seriedade.

Assim, Policrates, de Éfeso, menciona várias figuras, como Policarpo de Esmirna e Melito de Sardes, que assim como o apóstolo João são atestadas em outras fontes muito antigas como vinculados a Asia Menor [12], o que dá certa credibilidade a suas afirmações. Policrates é cuidadoso também em afirmar que Filipe, e duas de suas filhas, tinham sido sepultados em Hierapólis. Concordando, nesse ponto, com o que sabemos através do herege Proclus. Ele acrescenta, porém, que outra filha de Filipe morreu em Éfeso.  Uma vez que parte da família estava em Éfeso, ele poderia ter dito que o apóstolo também, se houvesse a intenção de iludir.

Eusébio relata que Roma respondeu de forma agressiva. O Bispo Vitor determinou a excomunhão de Policrates, dos demais bispos da Ásia, e de suas congregações. A decisão caiu como uma bomba no seio da Igreja. Muitos bispos pediram a Vitor que reconsiderasse, e outros o repreenderam violentamente. Até mesmo Irineu de Lion teve que fazer uma intervenção, que foi decisiva [13]. Eusébio acrescenta que a crise amainou com o restabelecimento das relações entre as igrejas da Ásia e de Roma, e também com atuação dos Bispos de Tiro e Ptolemaica, que escreveram um tratado sobre a observância da páscoa, que concordava com sínodos anteriores realizados na Palestina (sob a presidência dos bispos de Jerusalém e Cesaréia), em Roma, (liderado pelo Bispo Vitor), Ponto (presidido pelo bispo mais antigo daquela região, de nome Palmas), Gália (sob o comando de Irineu), e Edessa (Osroene), bem como uma carta pessoal do Bispo de Corinto, todas elas discordantes da posição dos bispos da Asia [13].

O quadro relatado por Eusébio é edificante. No entanto, há razões para duvidar de que a controvérsia se resolveu de forma tão tranquila. Em "Vida de Constantino", Eusébio relata que a questão ainda  foi discutida, e resolvida, no Concílio de Nicéia, realizado quase 150 anos depois, em 325 DC [14]. De tudo isso, uma interpretação que consideramos plausível é que o costume da Asia Menor era realmente minoritário, e que Vitor utilizou o fato de ser parte da visão majoritária, para "enquadrar" os bispos da Asia, e aumentar sua autoridade. Infelizmente, para Roma, o tiro saiu pela culatra, e seriam necessários mais de 100 anos para a questão ser resolvida. Talvez tenha faltado a Vitor a habilidade  e sensibilidade de seu predecessor Aniceto (150-161 DC), que recebendo o bispo Policarpo de Esmirna, manteve um debate firme, mas não tendo nenhum dos lados convencido o outro, evitaram fomentar controvérsias. Aniceto, inclusive, pediu que Policarpo celebrasse a Eucaristia durante a sua visita [15].

A controvérsia da Páscoa foi constrangedora para Eusébio e outros cronistas, principalmente pela dificuldade em explica-la em vista da Doutrina da Sucessão Apostólica. Como alguém que teria sido ouvinte do Apóstolo João, como Policarpo, poderia discordar de algo como a data da páscoa do Bispo Aniceto, que reinvindicava a sucessão de Pedro e Paulo? Outra História Eclesiastica, a de Sozomen, discutindo a mesma questão, afirma que, já que não era possível chegar a um acordo, o melhor era manter a unidade e  os costumes recebidos dos apóstolos por cada Igreja [15]. A única forma de resolver tal constrangimento seria negar as tradições, o que não parece possível para esses autores antigos. Alguém como Policrates, pode reinvindicar a presença dos túmulos de João em seu "quintal", assim como o de Filipe e suas filhas, na vizinha Hierápolis, e isso parece ser incontroverso. O montanista Proclus pode reinvidicar a autoridade de Filipe e suas filhas, e seu oponente ortodoxo não contesta o fato.

Desta forma, a existência de uma de Tumba de Filipe e suas filhas era um fato estabelecido no final do século II, e provavelmente bem antes, em face do testemunho de Policrates (já com 65 anos e oitavo em sua família a ser bispo). Além disso, como observam tanto pelo Professor Martin Hengel, da Universidade de Tubingen [16] como Dennis MacDonald, da Claremont School of Theology [17], o fato de uma das filhas de Filipe viver em Éfeso, indica que era casada, ao contrário de suas duas irmãs de Hierapólis.  Como observa o Professor MacDonald, Clemente de Alexandria (150 - 215 DC) recorda a tradição que pelo menos duas das irmãs eram casadas pois "(...) Pedro e Filipe tiveram filhos, e Filipe deu suas filhas em casamento" (Stromata. Livro 3, VI, §52), o que pode ser reconciliado com Policrates e com Atos dos Apóstolos, já que Filipe tinha quatro filhas, das quais duas morreram solteiras, e foram sepultadas com o pai, indicando que as outras duas eram casadas, uma das quais foi sepultada em Éfeso [17]. MacDonald observa também que esses testemunhos sobre as filhas de Filipe, embora sejam discordantes em alguns pontos, concordam entre si que elas foram viver na Ásia, em Hierápolis e Efeso em particular, e que pelo menos duas não se casaram [17]. Essas fontes indicam também (quando não afirmam diretamente) que Filipe em questão era um dos doze [17]

Papias de Hierápolis (100-135 DC):

Martirium de Hierápolis, imagem via wikipedia
       Papias, era o bispo da cidade de Hierápolis, e segundo Irineu de Lion, foi amigo de Policarpo de Esmirna e díscipulo de João [18]. No ínicio do seculo II, em algum momento entre os reinados de Trajano (98-117 DC) e Adriano (117-138 DC), ele escreveu um livro chamado "Exposição dos Oráculos do Senhor", composto em cinco volumes. A obra de Papias não sobreviveu, mas temos acesso a alguns fragmentos, citados em autores posteriores como o próprio Irineu, Eusébio de Cesaréia, Jerônimo, Apolinário de Laodicéia, e Filipe de Side. Uma coleção desses fragmentos pode ser consultada no excelente site Text Excavation, de Ben C. Smith.

"Essas coisas Papias, o díscipulo de João, que foi companheiro de Policarpo, um homem dos tempos antigos, testificou ao ter escrito o quarto de seus livros, pois cinco livros foram escritos por ele" [19]


"Não hesitarei em acrescentar às minhas explicações aquilo que outrora ouvi muito bem dos presbíteros, cuja lembrança guardei muito bem, estando seguro de sua verdade. Realmente, não me comprazia - como faz a maioria - com os que falam muito, mas com os que ensinam a verdade. Também não me comprazia com os que recordam mandamentos alheios, mas com os que recordam os mandamentos dados pelos Senhor à fé, nascidos da própria verdade. Se, por acaso, acontecia de chegar algum dos que tinham seguido os presbíteros, eu me informava sobre a palavra dos presbíteros, isto é, o que tinham dito André, Pedro, Filipe, Tomé, Tiago, João, Mateus ou outro discípulo do Senhor. E também o que falam Aristão e João, o presbítero, discípulos do Senhor. Eu não achava que as coisas conhecidas pelos livros pudessem me auxiliar tanto quanto as coisas ouvidas através da palavra viva e permanente" [19]

A preferência pela tradição oral, pela "palavra viva e permanente" remete a um tempo intermediário, ligando a era dos apóstolos e seus associados diretos (alguns dos quais podem ter vivido até o final do século I), com os pais da igreja e apologistas, como Irineu, Melito de Sardes e Justino, que se tornam proeminentes em meados do século II. Uma ligação com o tempo apostólico, que tanto Papias, quanto Policarpo, tinham em comum, é que teriam sido ouvintes de João, o Presbítero. Desde a antiguidade se discute se essa figura era o Apóstolo João (que, nesse caso, teria  vivido até os 90 anos, e morrido em Éfeso por volta do ano 100), ou um outro João, o Ancião (que seria o autor das cartas de 2ª e 3ª João, no Novo Testamento).  Tanto Eusébio, como Jerônimo, observam o fato de que duas tumbas dedicadas a João existiam em Éfeso, a qual alguns diziam ser uma de João, o Presbitero, outra do Apóstolo, e outros que ambas eram do Apóstolo, ainda que Eusébio, relate também "que Irineu e vários outros afirmam que João, Téologo e Apóstolo, viveu até os tempos de Trajano" [20].

O outro link com os tempos apostólicos é justamente a relação de Papias com Filipe e suas filhas. Eusébio relata:


Que Filipe o Apóstolo habitou em Hierápolis com suas filhas, já foi dito. Mas deve ser observado que Papias, afirma ter ouvido uma estória maravilhosa das filhas de Filipe. Porque ele relata que em seu tempo alguém ressuscitou dos mortos, e contra outra estória sensacional, a respeito de Justo, chamado Barsabas, que bebeu uma poção venonosa, e pela graça de Deus, nada sofreu.  [21]
  A mesmo episódio é de conhecimento de Filipe de Side (que escreve entre 434-439 DC):

"O já mencionado Papias afirma baseado na autoridade das filhas de Filipe, que Barsabas, que é chamado Justo, quando desafiado por descrentes, bebeu o veneno de uma serpente em nome do Senhor, e foi protegido de todo o mal. Ele afirma ainda outras coisas maravilhosas, em particular que a mãe de Manaim foi ressuscitada dos mortos. Para aqueles que foram ressucitados por Cristo, [ele afirma], que sobreviveram até o tempo de Adriano"[22]
O fragmento nos coloca diante uma narrativa pitoresca, fantástica.  Devemos observar, que Eusébio, apesar de citar Papias com certa frenquência em seus escritos, não é simpático ao velho Bispo.  Eusébio cita parábolas e ensinos estranhos do Senhor mencionados por Papias (como o relato de Justo Barsabás), e  parece profundamente incomodado com a crença do Pré-Milenarismo, principalmente porque, segundo Eusébio, a posição favorável do velho bispo influenciou decisivamente Irineu e vários outros pais da Igreja. Eusébio afirma que a crença de que o Reino do Senhor se materializaria na terra se devia auma compreensão equivocada do ensino apostólico, tomando literalmente coisas que eram simbólicas. Eusébio, imediatamente depois, afirma que Papias parece ter sido uma pessoa com capacidade intelectual limitada (Historia Eclesiastica, 3:39.

O leitor pode ter desses relatos de Papias, por razões diversas, uma impressão semelhante a de Eusébio. Principalmente em face dessas narrativas pitorescas. Nesse caso, o que poderíamos aproveitar?

Pelo caráter dos escritos de Papias, ele prefere o relato oral de pessoas que conheceram os apóstolos, do que as coisas que estavam escritas nos livros. Desta forma, podemos inferir que Papias recebeu o relato das filhas de Filipe pessoalmente, o que é consistente com o fato de que teriam vivido nas redondezas, possivelmente na própria Hierápolis. O relato pode até ter sido inventado por Papias, mas se ele utilizou a autoridade delas, para a invenção ser crível, deveriam haver filhas de Filipe vivendo nas proximidades de Hierápolis, o que é consistente com os testemunhos posteriores.

Devemos, antes, observar que a afirmação de que os ressuscitados em Cristo viveram até o tempo de Trajano" é associada por Eusébio ao apologista Quadrado de Atenas, então pode muito bem ser que Filipe de Side tenha atribuido a Papias uma afirmação de Quadrado. Temos ainda que trazer aos leitores do adcummulus, as observações do Professor Dennis MacDonald:

"Ancients were aware that snake venom was harmless when ingested; in fact, people were known to have drunk venom for medicinal purposes. it would appear that Eusebius, aware of the fact, altered Papias's account to read instead "a fatal poison" " (TraduçãoOs antigos estavam a par que veneno de serpente era inofensivo quando apenas ingerido. Na verdade, alguns foram conhecidos por beber veneno com propósitos medicinais. Parece que Eusébio, ciente desse fato, alterou o relato de Papias para uma "poção fatal"[23]
O episódio, como resumido por Filipe de Side, é que Justo bebeu veneno de cobra, e que teria sido após ter sido desafiado, o que soa um tanto imprudente (Justo não bebeu veneno por causa de uma execução, como Sócrates, ou por envenenamento a traição, como Buda). Esses elementos tornam sua versão mais crível, refletindo melhor o que Papias teria escrito.

Em relação ao ingestão de veneno por Justo, observa o Professor Steve A Johnson, do Departamento de Ecologia da Vida Selvagem e Conservação da Universidade da Flórida,

Venoms are generally not toxic if swallowed, and must be injected under the skin (by snakes, spiders, etc.) into the tissues that are normally protected by skin in order to be toxic. However, we do NOT recommend drinking venom! (Tradução) Venenos, geralmente, não são tóxicos se engolidos, e devem ser injetados subcutâneamente (por cobras, aranhas, etc...), em tecidos normalmente protegidos pela pele para terem efeito tóxico. Entretanto, nos NÃO RECOMENDAMOS beber veneno![24]
Esse é um exemplo, como já comentado aqui, de casos em que muitos episódios considerados como milagres não excluem uma explicação científica. Que Justo Barsabas tomou veveno em uma disputa com incrédulos, e nada lhe aconteceu, pode ou não ter acontecido, mas, como visto acima, a versão de Filipe de Side da narrativa escrita por Papias soa bastante plausível.

Do exposto, podemos concluir que a presença de Filipe e suas filhas em Hierápolis segue um padrão e uma linha de testemunhos bastante consistente, sendo provável que tenham sido sepultados lá.
Referências Bibliográficas
[1] François Bovon, "Women Priestesses in the Apocryphal Acts of Phillip" In Francois Bovon, Glenn E. Snyder (2009) New Testament and Christian apocrypha: collected studies II, fls. 246-247
[2] James McGrath (2008) History and Fiction in the Acts of Thomas: The State of the Question Journal for the Study of the Pseudepigrapha June 2008 17: 297-311.
[3] William Tabernee ( ) "Montanist inscriptions and Testimonia, fl. 53
[4]  James R Edward (2009) The Hebrew Gospel and the Development of the Synoptic Tradition, fls 15-16
[5] Dalle C Allison (1992) Peter and Cephas, One and the Same, Journal of Biblical Literature, Vol. 111, No. 3 (Autumn, 1992), pp. 489 citando Bart Erhman.
[6] Alice Whealey (2005), "Josephus, Eusebius the Ceasarea, and the Testimonium Flavianum" in Christfried Bottrich, Jens Herzer, Torsten Reiprich eds. (2007), Josephus und das neue Testament, Wechselseitige Wahrnehmungen II, fls. 106.
[7] Averill Cameron & Stuart G Hall (1999) Eusebius Life of Constantine, Translation with Introduction and Commentary, Introduction, fls 16-19.
[8] Martin Goodman (2007), Rome and Jerusalem: The Clash of Ancient Civilizations, fl. 6
[9] Timothy D Barnes (198 ) Constantine and Eusebius fls.140-141
[10] G.W Boversock, Peter Robert Lamont Brown, Oleg Grabar (2000) Late Antiquity: A Guide to the Postclassical World Montanists, fl. 189
[11] Tabbernee, William, 2007 Fake Prophecy and Polluted Sacraments: Ecclesiastical and Imperial Reactions to Montanism,  fls. 139/140
[12] Michel Yves Perrin (2009) Edificar Estruturas Cristãs: Estruturar as Igrejas In Alain Corbin, Nicole Lemaitre, Françoise Telaimon e Catherine Vincent (2009) História do Cristianismo, fls. 78-79
[13] Eusébio, História Eclesiastica, Livro V, Capítulo 24,
[14] Eusébio, Vida de Constantino, Livro III, Capítulo 18
[15] Eusébio, História Eclesiastica, Livro V, capítulo 24, versos 16 e 17 e Sozomen, História Eclesiástica, Livro VII, caiptulo 19
[16] Martin Hengel & Thomas Trapp (2010) Saint Peter: The Underestimated Apostle, fl.119
[17] Dennis MacDonald (2012):  Two Shipwrecked Gospels: The Logoi of Jesus and Papias’s Exposition of Logia about the Lord, fl. 40.
[18] São Irineu de Lion, Contra as Heresias, 5:33-34
[19] Eusébio de Cesaréia, História Eclesiástica Livro 3, Capítulo 39, tradução de Ivo Storniolo e Euclides M. Balancin, em Coleção Patrística nº 1,  Padres Apostólicos: Clemente Romano, Inácio de Antioquia, Policarpo de Esmirna, Pastor de Hermas, Carta de Barnabé, Papias e Didaque, Paulus, 1995
[20] Jerônimo, Dos Homens Ilustres, Capitulo 18; Eusébio, Crônicas, 220ª Olimpíada/Ano 100[21] Eusébio de Cesaréia, História Eclesiastica, Livro 3, Capítulo 39
[22]
[23]Dennis MacDonald (2012): Two Shipwrecked Gospels: The Logoi of Jesus and Papias’s Exposition of Logia about the Lord, fl. 40.
[24] Steve A Johnson (2012) Frequently Asked Questions about Venenous Snakes, questão: If you drink venom, will it kill you  http://ufwildlife.ifas.ufl.edu/venomous_snake_faqs.shtml. última modificação, maio de 2012. Acessado em 23.11.2012

 



quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Tenho muito prazer em compartilhar no AD CUMMULUS este projeto desenvolvido pelo grande camarada David Pessoa de Lira, uma corajosa pesquisa seminal no Brasil, em um tema de interesse primoroso para os fins do biblioblog. De fato o hermetismo é uma névoa insondada pelos estudos em português, e assim, pode estar sujeita a conjecturas sem firme embasamento. David descortina importantes nuances, perspectivas e contribuições para a compreensão do ideário religioso. Abaixo, a notícia de divulgação da Escola Superior de Teologia e uma apresentação do trabalho, oferecida com muita cordialidade pelo próprio David e que aqui socializamos com os leitores.


Doutorando do PPG/EST realiza pesquisa inédita no país 

O título provisório de sua tese é “Ὁ Κρατήρ: Uma Análise do Corpus Hermeticum IV. 3-6a.” O objeto da pesquisa é "O Tratado Hermético Ὁ Κρατήρ na História das Antigas Religiões do Mediterrâneo Egípcio-Helenístico – Uma Análise Exegética do Corpus Hermeticum IV. 3-6a."

De forma variada, seus objetivos são:


  • Analisar a concepção de βαπτίζω [baptizō] no Tratado Ὁ Κρατήρ (C.H. IV.3-6a) e estabelecer sua relação com os textos de Timæus 41 D (de Platão), De somniis II. 183, 190, 249 (Filo de Alexandria) e de Provérbios 9.1-6 (LXX).
  • Apresentar um panorama da Literatura Hermética, inclusive do texto em questão, C.H. IV. 3-6a, no original grego. Buscar-se-á identificar assim as formas de exposição do tema Hermetismo e Literatura Hermética na História das Antigas Religiões Mediterrâneas, principalmente, na História do Mundo Contemporâneo do Novo Testamento e da Igreja Primitiva, Contexto e Substrato do Novo Testamento, a fim de proporcionar ao tema seu devido lugar na disciplina; 

No Projeto, David salienta:

Portanto, a presente pesquisa do Corpus Hermeticum se justifica por se tratar de um objeto de pesquisa da História do Mundo Contemporâneo do Novo Testamento e da Igreja Primitiva, Contexto e Substrato do Novo Testamento, da História das Antigas Religiões Mediterrâneas, da História da Filosofia, além de ser objeto mesmo do estudo da Filologia e da Linguagem e Interpretação. Vários são os estudiosos que fizeram pesquisas acerca do Corpus Hermeticum, os filólogos Richard August Reitzenstein, Arthur Darby Nock, André-Jean Festugière; o semioticista Humberto Eco; os filósofos Giovanni Reale, Garth Fowden; o historiador das religiões Mircea Eliade; o cientista da religião Giovanni Filoramo; os exegetas do NT e Teólogos John Horman, Thomas McAllister Scott; o historiador Charles Flowers; a doutora em língua inglesa Cassandra Cherie Amundson; a pesquisadora Willis Barnstone; entre muitos outros e outras.

A realização desta pesquisa na Área de Bíblia – Especialidade Novo Testamento – torna-se de suma importância pelo fato de que, desde Wilhelm Franz Bousset and Richard August Reitzenstein até os nossos dias, os Escritos Herméticos têm sido estudados no âmbito maior na História das Religiões e da Filosofia e relacionados com Fenômeno Gnóstico. A Escola da História das Religiões (Religionsgeschichtliche Schule) empregou, entre várias fontes, o Corpus Hermeticum para evidenciar a existência das antecedências gnósticas sobre o Cristianismo. Reitzenstein considerava o Corpus como produto final de um movimento que tinha se desenvolvido por um longo período de tempo, cujo início se deu antes da Era Cristã. Neste sentido, ele acreditava que os Escritos Herméticos poderiam ser uma fonte aplicável e confiável para interpretar e aclarar muitos elementos característicos das doutrinas cristãs e sua teologia com certa segurança. Não é raro ver que muitos acadêmicos têm seguido essa teoria. Eles têm colocado ou situado o Hermetismo como uma seção ou capítulo dentro do assunto Gnosticismo para explicar as origens do Gnosticismo, mesmo quando eles estão tratando daquilo que é rotulado como Gnosticismo Cristão. Foi justamente com essa Escola, na metade do século XIX ao início do século XX, que começou um criterioso estudo e uma acurada pesquisa histórico-religiosa na área de Novo Testamento. Os pesquisadores tinham como objetivo situar o NT no ambiente das antigas religiões, estabelecendo comparações histórico-religiosas, com a finalidade de identificar as possíveis relações de dependência entre o cristianismo e as outras religiões de seu mundo assim como conhecer melhor os sentidos próprios dos conceitos e ideias no Novo Testamento.

Sendo assim a pesquisa sobre o Corpus Hermeticum e o Hermetismo tem sua relevância não só na área de uma Teologia Cristã (Novo Testamento), mas também na área da Filosofia, Ciências da Religião (inclusive História das Religiões e Fenomenologia da Religião), Psicologia, Antropologia, Filologia e História. Sendo assim, ela contribui para uma boa compreensão do Movimento Hermético na História das Antigas Religiões Mediterrâneas, e principalmente quando se fala do Mundo Contemporâneo do Novo Testamento.


Esmiúça a seguinte hipótese:

Visto que aparece a palavra baptizo no texto em que procedo a análise e ao mesmo tempo ali, semanticamente, se trata de um texto de banquete, eu digo que baptizo não quer dizer necessariamente imersão, mas mistura, misturar, significa que ali há possibilidade do texto ter sido empregado na festa de Tekh que acontecia no ano novo, no período da cheia do Nilo, quando havia um ritual de beberagem e comensalidade. Então ali não se trata nem de imersão nem de qualquer compreensão cristã.

Quando o texto fala βάπτισον σεαυτὴν ἡ δυναμένη εἰς τοῦτον τὸν ϰρατῆρα no C.H. IV.3-6a ele não quer dizer “batiza-te a ti mesmo na cratera que tu podes”, mas algo para significar “mistura na cratera tu que podes”. O redator/autor deve ter empregado uma alegoria antiga da cratera e deve ter adaptado as palavras ao contexto egípcio, visto que ϰεράννυμι [kerannȳmi] e μίγνυμι [mignȳmi] não poderiam traduzir a palabra “Tekh”, mas encher, mergulhar, transbordar, era o ritual de "Thoth”.

David assinala as implicações, em que segundo ele batismo não significa apenas “imergir, mergulhar”, nem só “embebedar”, mas também misturar. Desafia frontalmente as teorias de muitos que diziam que aqui estava vinculado com a prática ritualística grega ou a mistura de dois sacramentos; os herméticos não tinham sacramentos. A “gnose” para os herméticos é comer e beber do conhecimento. Logo, "não se deve fazer a confusão do Hermetismo com qualquer movimento gnóstico-cristão.”



Sobre o autor: 


David hoje estuda na EST, mas seu contato com o assunto "Literatura Hermética" surgiu quando lera “A Interpretação do Quarto Evangelho”, de C.H. Dodd na Biblioteca do SAET (Seminário Anglicano de Estudos Teológicos do Recife). Daí, percebera que não havia muitos materiais em português e quase nada se produzia sobre isso no Brasil, de onde partiu seu interesse em pesquisar sobre a Literatura Hermética e Hermetismo, sendo hoje o pioneiro dessa pesquisa.

sábado, 28 de julho de 2012

A Vida de Mitras
O deus persa Mitra e a religião de mistério  Mitraismo são citados frequentemente, e na internet principalmente, como inspiração para a vida de Cristo. Contudo, na grande maioria das vezes não são citadas as fontes dessas afirmações, e quando são, consistem em textos exóticos, teorias da conspiração ou muito antigas (século XVIII ou XIX). Mas, existe algum fundamento nessas afirmações?  Continuando nossa série: vamos tentar responder a pergunta: Mas, afinal, o que sabemos sobre o mito de Mitras? 


Cenas do mito de Mitras, e sacrifício do touro, Neuenheim, Alemanha

Como já dito anteriormente não existem escritos mitraistas, todas as informações derivam das evidências arqueológicas disponíveis nas cenas retratadas nos mitrários, inscrições e menções esporádicas nos escritos clássicos.

Jaime Alvar Ezquerra, Professor Catedrático de História Antiga da Universidade Carlos III de Madri,  aponta as limitações que o estado da evidência nos impõe nas reconstruções acadêmicas do ritual, mitologia e doutrina dos Mistérios de Mitras.


"We are thus obliged to reconstruct the narrative mainly from the iconographic sources, supplemented by one or two isolated references in Classical Sources. As a result, we can hardly hope to do more than gain a rough outline of the story, accepting that we have lost the subtleties, conscious and unconscious, that figure in the literary documentation, such as it is. This is one of the reasons why the cult is often considered somewhat different from the other oriental cults. (Tradução) Desta forma, nos somos obrigados a reconstruir a narrativa com base nas fontes iconográficas, suplementadas por uma ou outra referência nas fontes literárias classicas. Assim, é muito difícil obter algo mais do que um esboço da estória, aceitando o fato de que perdemos as sutilizas, conscientes e inconscientes, que se apresentam nas fontes documentais literárias tal como se apresentam. Essa é uma das razões porque o culto é considerado diferenciado de outros cultos orientais. [1]

Desta forma, a primeira coisa a se ter em mente é que temos imagens em certa abundância, mas os textos, que explicam essas imagens, são escassos. E cada vez mais escassos a medida que nos aproximamos dos momentos iniciais do desenvolvimento do Mitraismo. Tendo isso em mente, o Professor Ezquerra sugere como analogia o caso do franciscano belga Pedro de Gante (1479-1572), que elaborou um Catecismo, composto basicamente de figuras, com os quais ele ensinou os fundamentos da fé cristã as crianças astecas na Escola São José de Belém, na atual Cidade do México [1], As imagens do culto mitraista apresentam alto grau de uniformidade, e, assim, devem ter tido também finalidade pedagógica, podendo servir como ponto de partida para o pesquisador [1]. 

(E aqui, caros leitores do adcummulus,  por isso, podemos observar que a cautela dos pesquisadores contrasta com a confiança, por vezes arrogância, dos textos sobre Mitra que circulam na internet.)


A Cena Principal: Tauctonia ou o Sacrifício do Touro Sagrado
Professora Alison Griffith, da Universidade de Canterbury (Nova Zelândia) descreve as cenas mais comuns:



Mithraic monuments have a rich and relatively coherent iconography, chronologically and geographically speaking. In each mithraic temple there was a central scene showing Mithras sacrificing a bull (often called a tauroctony). Mithras is clad in a tunic, trousers, cloak, and a pointed cap usually called a Phrygian cap. He faces the viewer while half-straddling the back of a bull, yanks the bull's head back by its nostrils with his left hand, and plunges a dagger into the bull's thoat with his right. Various figures surround this dramatic event. Under the bull a dog laps at the blood dripping from the wound and a scorpion attacks the bull's testicles. Often the bull's tail ends in wheat ears and a raven is perched on the bull's back. On the viewer's left stands a diminutive male figure named Cautes, wearing the same garb as Mithras and holding an upraised and burning torch. Above him, in the upper left corner, is the sun god, Sol, in his chariot. On the viewer's left there is another diminutive male figure, Cautopates, who is also clad as Mithras is and holds a torch that points downards and is sometimes, but not always, burning. Above Cautopates in the upper right corner is the moon, Luna. This group of figures is almost always present, but there are variations, of which the most common is an added line of the signs of the zodiac over the top of the bull-sacrificing scene. (...)
(Tradução) Monumentos mitraísiticos apresentam uma rica e relativamente coerente iconografia, cronologica e geograficamente falando. Em cada mitrário, há uma cena central de Mitras sacrificando um Touro (frequentemente chamada Taurotctonia). Mitras esta vestido em tunica, calças, casaco e um chapéu pontudo, usualmente chamado chapéu frígio. Ele encara o observador enquanto posiciona uma das pernas nas costas do Touro, e puxa a cabeça do animal para trás pelas narinas com sua mão esquerda, enquanto enfia um punhal em seu pescoço com sua mão direita. Vários personagens  cercam este dramático evento. Embaixo do Touro um cão lambe o sangue que escorre da ferida e um escorpião fere os testículos do Touro. Frequentemente a cauda do Touro termina com um feixe de trigo e um corvo  esta sob as costas do Touro. A esquerda do observador está uma figura em miniatura chamada Cautes  vestido com as mesmas roupas que Mithras e segurando uma tocha acesa, apontando para cima. Acima dele, no canto superior esquerdo esta Sol, o deus solar, em sua carruagem. A esquerda do observador há uma outra figura pequena, Cautopates, também vestido como Mitras e que segura uma tocha apontando para baixo, e as vezes, mas não sempre, acesa. Acima de Cautopates, no canto superior direito esta a Lua, Luna. Este grupo de figuras esta quase sempre presente, mas existem variações, das quais a mais comum é uma linha com os signos do zodiaco logo acima da cena do sacrifício do Touro. (...) [2]

Então, Griffith ressalta a cena da Tauroctonia, onde Mitras mata o Grande Touro. É a cena central de Mitrários, e com certeza representava o mais relevante aspecto do Culto. Em sua luta, Mitras é ajudado por algumas figuras, como o Cão, o Escorpião e o Corvo, e observada por outras como Cautes e Cautopates, a deusa lua, Luna, e o deus solar, Helios (Sol)
Mitras Tauroctonous: de Roma, II século, foto de Mike Young, escultura no Museu Britânico, (via wikipedia)
Outro representação de Tauroctonia
Mitras sacrificando o Touro Sagrado: Relevo em mármore dedicado pelo escravo Apronianus, tesoureiro da cidade Nersae, Mitrário de Nersae, 172 DC, Provincia de Rieti, Itália

Roger Beck, Professor da Universidade de Toronto, em um artigo da Encyclopaedia Iranica,   mantida pela Columbia University (publicação especializada sobre história, cultura e religião da Antiga Persia, a qual recomendamos aos interessados no assunto), complementa a descrição da Prof. Griffith sobre o que se pode deduzir sobre o mito a partir da evidência arqueológica.


Como Griffith, Beck destaca inicialmente a relevância da Tauroctonia para o Culto Mitraista:
The story of Mithras survives not in written form derived from an oral narrative — if such there ever was, it has disappeared without trace — but as scenes preserved on what are collectively termed “the monuments,” for the most part as relief sculpture on icons, altars, etcetera, but also as statuary and in fresco on the walls of mithraea. In the frescos and on the great complex reliefs (the latter mostly from the Rhine and Danube frontier provinces) a selection of side-scenes representing various episodes surrounds the central scene, the god’s sacrificial killing of a bull. More often this “tauroctony” is a self-contained icon, and from its privileged location at the head of the central aisle we know that it was the cult’s principal icon; consequently, that the bull-killing was the main event in the Mithras myth. (The fundamental illustrated catalogue of Mithraic monuments is Vermaseren 1956-60. Merkelback 1984 and Clauss 2000 are also exceptionally well illustrated. On the iconography of Mithras, see Vollkommer 1992. On the myth of Mithras as inferred from the iconography, see Cumont 1903: pp. 104-49; Vermaseren 1960: pp. 56-88; Clauss 2000: pp. 62-101.) (Tradução) A estória de Mitras sobrevive não em forma escrita derivada de uma narrativa oral - se ela algum dia existiu, desapareceu sem deixar traço - mas em cenas preservadas no que são coletivamente chamdos "monumentos", em sua maioria esculpidas em relevos em icônes, altares etc... Mas também em estátuas e afrescos nas paredes dos mitrários. Nos afrescos e nos grandes relevos (os últimos mais comuns nas províncias fronteirças do Danubio e Reno) uma certo número de cenas representando episódios secundários que cercam a figura central, o sacríficio realizado pelo deus matando o touro. Mas frequentemente esta Tauroctonia é uma figura independente, e da posição privilegiada, central, que ocupa no ponto mais bem localizado, sabemos que é o principal icone do culto; dessa forma, o ato de matar o Touro é o principal evento do mito de Mitras (O mais importante catálogo de monumentos Mitraisticos é Vermaseren 1956-60. Merkelback 1984 e Clauss 2000 são também excepcionalmente bem ilustrados. Para a Iconografia de Mitras, ver Vollkommer 1992. Do mito de Mitras inferido a partir da iconografia, ver Cumont 1903: pp. 104-49; Vermaseren 1960: pp. 56-88; Clauss 2000: pp. 62-101.) [3]
As outras cenas

Professora Alison Griffith continua sua descrição, fazendo menção agora as outras cenas:


In addition to this central scene there can be numerous smaller scenes which seem to represent episodes from Mithras' life. The most common scenes show Mithras being born from a rock, Mithras dragging the bull to a cave, plants springing from the blood and semen of the sacrificed bull, Mithras and the sun god, Sol, banqueting on the flesh of the bull while sitting on its skin, Sol investing Mithras with the power of the sun, and Mithras and Sol shaking hands over a burning altar,  These scenes are the basis for knowledge of mithraic cosmology. There is no supporting textual evidence. (Tradução) Além dessa cena central, há numerosas outras, menores, a qual parecem representar episódios da vida de Mitras. As mais comuns mostram Mitras nascendo de uma rocha. Mitras arrastando o Touro para uma Caverna, plantas brotando do sangue e sêmen do Touro sacrificado, Mitras e o deus solar, Sol, banqueteando da carne do touro enquanto assenta-se em sua pele, Sol investindo Mitras com seu poder, Mitras e Sol apertando as mãos sobre o altar em chamas, estas cenas são a base de nosso conhecimento da cosmologia mitraica. Não há evidência textual disponível [4]
 
Assim, além da cena central, outros episódios da vida de Mitra são comumente representados, seus nascimento de um rocha, Mitras capturando e arrastando o Grande Touro para a caverna, a morte do Touro como elemento de renovação da natureza, com plantas brotando de seu corpo, e a comemoração do triunfo, com o grande banquete cósmico entre o deus solar Helios  e Mitras. 


Já a descrição do Professor Beck, acrescenta mais alguns detalhes:

The gods' banquet, then, is the outcome of the sacrifice, and since it is replicated in the cult meal of the initiates,  it must be supposed that the mythic sacrifice performed by Mithras is the salvafic cause of whatever benefits accrue to his mortal initiates in replicating the banquet of the two gods. (…)The side-scenes are numerous, and they represent many different episodes in the myth, e.g. the pursuit and capture of the bull, the ascent of Mithras in the Sun's chariot, as well as occasional episodes which, (…), do not include or concern Mithras at all. (…). In addition to the bull-killing and the banquet, the scene of Mithras' birth is manifestly important. He is shown rising upright from a rock, not as a baby but in the prime of youth, with extended arms holding torch and sword. (…). It would be wrong to say that he has no mother, for the rock itself, identified explicitly as Petra Genetrix ("the rock that gives birth") is his mother.. Since the bull-killing was so obviously the god’s principal act, (...) the scene as regularly represented (with remarkably few variations from the norm) must be described. At the mouth of a cave, Mithras straddles the bull, plunging a dagger into its heart. A dog and a snake dart up at the blood flowing from the wound. A scorpion fastens on the bull's genitals, and a raven perches on the god's billowing mantle. Miraculously, the tail of the dying bull has metamorphosed into an ear of wheat. (Tradução) O banquete oferecido pelo deus, é, então, o resultado do sacríficio, e visto que era reencenado em uma refeição ritual pelos iniciados, por certa devemos supor que o sacrifício mítico realizado por Mitras é a causa salvífica de quaisquer benefícios extendidos aos iniciados ao reencenarem o banquete entre os dois deuses  (...) as cenas secundárias são numerosas e representam vários episódios do mito, por exemplo, a perseguição e captura do Touro, a ascensão de Mitras na carruagem solar, assim como episódios ocasionais que não se referem diretamente a Mitras (...) Além do sacríficio do Touro e o Banquete, a cena do nascimento de Mitras é muito importante. Ele aparece emergindo de uma pedra, não como um bebê, mas no auge da juventude com tocha e espada em punho (...) seria equivocado dizer que ele não tem mãe, a rocha é a sua mãe, sendo identificada como Petra Genetrix (a rocha que gera vida). Visto que o sacríficio do Touro é obviamente o principal feito do deus, (...) a cena como geralmente representada (como raríssimas variações da norma) deve ser descrita. Na entrada de uma caverna, Mitras se engalfinha com o touro, mergulhando um punhal em seu coração. Um cão e uma serpente sugam o sangue que verte da ferida. Um escorpião se prende aos genitais do Touro, e um corvo se empoleira na capa do deus. Miraculosamente, a cauda do touro de morte se transforma em trigo. [5]
Assim, Beck  realça a cena do nascimento de Mitras, que emerge de uma pedra como um homem feito, pronto para realizar grandes façanhas,  e o episódio da perseguição e captura do grande Touro. Fala também da ascensão de Mitras ao céu na carruagem do Sol, e o banquete entre os dois deuses, que era reencenado pelos iniciados.


Nascimento de Mitras
Pela sua relevância para o assunto em discussão, a imagem do nascimento de MItras pode ser destacado. Esse evento é representado nos Mitrários de forma muito comum, na cena conhecida como Mitras Petragenetrix (ou Mitras nascendo da Rocha)

Mitras Petragenetrix (Mitras nascendo da rocha), Roma, estátua dedicada por Aurelius Bassinus, aedil, principia castrorum peregrini,  da Guarda dos Cavaleiros Imperiais, Reinado de Cômodo (180-192 DC)
Então sob um certo sentido podemos dizer que Mitras teve um nascimento "virginal", ainda que a virgem em questão seja uma pedra (talvez nascimento "mineral" seja mais apropriado). A evidência de Mitras como o deus nascido da pedra é a mais frequente nos mitrários, (depois da Tauroctonia) e corresponde a evidência mais antiga do ponto de vista arqueológico. O Professor Jaime Alvar aprofunda essas constatações:


"Both literary accounts and iconography tell us that Mithras was miraculously born from a rock. The young hero, as a boy or even a baby, emerges from the rock already dressed in his Phrygian cap, to connote his 'oriental" origin and carrying in one hand a lighted torch and in the other a sword or dagger . The flame of the torch stamps him as a solar deity, and as giver of light, the swords the instrument by means of which he bestows life through the death of the bull.
(Tradução) Tanto os relatos literários quanto os iconograficos testificam que Mitras nasceu miraculosamente de uma rocha. O jovem herói, como um garoto ou mesmo um bebê, emrge de uma rocha já vestido com seu barrete frígio, conotando sua origem oriental e segurando com uma mão uma tocha e na outra uma espada ou adaga. O brilho da tocha o aponta como divindade solar, e a luz como seu dom, a espada o instrumento pelo qual ele sacrifica o touro e concede vida [6].
 Ainda,
The birth of Mithras from the rock is the commonest of all Mithraic scenes after the bull-killing. The fact that his birth brings light seems to fit with the hypothesis of a MIthraic cosmogonic narrative.
(Tradução) O cena do nascimento de Mitras da pedra é a mais comum  nos mitrários depois da Tauroctonia. A fato de que o nascimento traz luz parece se encaixar na hipótese de uma narrativa Mitraíca cosmogonica [6].
A ubiquidade da cena petra genetrix permite inferir algumas posturas sociais do culto. Não só seus artefatos se concentravam nas fronteiras ocidentais do Império e na cidade do Roma, dedicados por soldados engajados  e membros da burocracia imperial, como também as mulheres não podiam participar. Na verdade não há uma figura feminina marcante como Isis nos cultos egícios, ou Cibele no Culto da Grande Mãe, ou mesmo Maria (ainda que numa fase posterior do desenvolvimento do cristianismo), até mesmo a deusa lunar é uma espectadora dos feitos de Mitras. Como observa o Professor Wolf Liebeschuetz, da Universidade de Nottingham, a Petra Genetrix, indicando que Mitras nem mesmo teve uma  mãe humana, sugere que o elemento feminino foi praticamente "ignorado":

Then Mithraism was an association for men. Not only was an association for men. Not only were women excluded from membership, but the iconography of the cult, above all the image of Mithras' birth from a rock, suggests that it simply ignored the female element of the world. (Tradução) Então o Mitraismo era um culto voltado para homens. Não apenas era uma associação masculina. Não só porque as mulheres foram excluidas de sua mebresia, mas também na iconografia do Culto, acima de tudo a imagem de Mitras nascendo da rocha, que sugere que o elemento feminino do mundo foi simplesmente ignorado [7].

Walter Shandruk, hoje doutorando do departamento de estudos clássicos da Universidade de Chicago, manteve durante alguns anos um site muito interessante dedicado ao Mitraismo Romano (hoje aparentemente abandonado). Ele observa, seguindo o Professor Manfred Clauss (Universidade de Frankfurt) , que, ainda que as imagens da petragenia sigam em geral um padrão, com o jovem Mitras surgindo da pedra nu e com os braços levantados, os detalhes variam bastante. No Primus Mithraeum, em Roma, Mitras aparece com uma tocha na mão esquerda e uma adaga na direita. No Mitrário II da Colonia Agripina a tocha é substituida por um feixe de trigo. Na fronteira do Reno, em Augusta Treverorum (atual Tréveris, Alemanha), Mitras faz girar o zodiáco.  Em algumas cenas, Mitras emerge da pedra com ajuda de Cautes e Cautopates, em outros a cobra, o cão e o corvo assistem o nascimento, em outras ainda, a pedra é envolta por um cobra [8] 

Iconográfia, Inscrições e Expectativas dos seguidores de Mitra
Shandruk também observa que outra sequência de cenas marcante é a da caçada ao Touro [9]. Em geral,  a primeira retrata o Touro repousando, ou pastando. Em seguida,  Mitras aborda o Touro, seja puxando seus chifres, seja arrastando-o. A terceira cena, que varia pouco entre os mitrários, mostra o Touro tentando escapar, com MItras o segurando fortemente. Por fim, Mitras subjuga o Grande Touro e o carrega com duas de suas patas em seus ombros. Esta última cena parece ser a transição para a Tauroctonia, sendo muito popular nos mitrários situados na fronteira do Danubio, que concentra três quartos dessas representações [9]. A foto abaixo mostra uma escultura de Ptuj (antiga Pietovio) na atual Eslovênia. 
Mitras arrastando o Touro, escultura, segunda metade do II século, Mitrário de Poetovio (Ptuj), Eslovênia, Museu de Ptuj

A idéia de um ser que é capaz de subjugar um touro, e não um touro comum, mas o grande touro sagrado, deve ter sido um dos motivos para explicar a grande popularidade de Mitras entre os soldados alistados. Nas inscrições, é comum o padrão "Ao invencivel Mitras (ou sol invicto Mitras), fulano de tal, de livre vontade, merecidamente, cumpre seu voto". Por exemplo, no norte da Inglaterra, nas proximidades do Muro de Adriano, exitiram nos séculos III e IV os mitrários dos fortes de Carrawburgh, Rudchester e Housesteads, onde são encontradas inscrições votivas como essa:
(nota adcummulus: as inscrições estão nas fontes do artigo em latim, com tradução para o inglês. Do inglês foram traduzidas para o português) 
DEO INV M L ANTONIVS PROCVLVS PRAEF COH I BAT ANTONIANAE VSLM
(Ao invencível deus Mitras, Lucio Antônio Próculo, prefeito da Primeira Corte Bataviana Antonina, de boa vontade e merecidamente cumpre seu voto), datada de 213-222 DC. (Carrawburgh) [10] ( RIB 1544)
DEO SOLI INVICTO MITRAE SAECVLARI PVBL PROCVLI NVS PRO SE ET PROCVLO FIL SVO VSLM D N GALLO ET VOLVSINO COS 
(Ao deus Sol Invicto Mitras, Senhor Eterno, o centurião Publio Procolino, de boa-vontade e merecidamente cumpre seu voto, em seu favor e de seu filho Procúlo, quando nossos senhores Galo e Volosino eram consúles) , datada de 252 DC (Housesteads).[11] (RIB 1599)
Na fronteira do Danúbio, o Mitrário de Fertorákos, localizado na atual Hungria, e datado do início do III século DC, encontramos um altar com a seguinte inscrição votiva
D(eo) S(oli) I(invicto) M(ithrae) / L(ucius) AVIT(us) MA/TURUS D(e)C(urio) / COL(oniae) KARN(unti) / V(otum) S(olvit) L(ibens) M(erito).
Ao deus Sol Invicto Mitras, Lucio Avito Maturo, decúrio da colônia de Carnuntum, de boa vontade, merecida e alegremente cumpre seu voto. [12] (CINRM N° 1637)
Mas o que essas inscrições podem indicar sobre as expectativas dos adoradores de Mitra? Na antiguidade os deuses muitas vezes tinham funções específicas, ligadas a proteção de uma localidade, uma corporação profissional, um grupo social, ou dádivas especificas. O fato de soldados em serviço agradecerem ao deus invicto ou invéncivel pode indicar que eles buscaram partilhar dessas caracteristicas em combate e foram atendidos. São inscrições de agradecimento, não de prece, ou seja, Mitra os havia tornado invencíveis e por isso agradecem.
Professor Wolf Liebeschuetz observa que as inscrições mitráicas das províncias de Roma, como as apresentadas acima, são majoritariamente do tipo VSLM (Votum Solvit Libens Merito), ou seja, o fiel faz uma oferta em retribuição a divindidade por uma graça concedida, a qual ele havia pedido [13] (o equivalente no mundo romano a "pagar uma promessa" ou um voto). Liebeschuetz observa, porém, que já na cidade de Roma e vizinhanças, a maioria das inscrições de Mitras não segue esse padrão, sendo muitas vezes dedicatórias ao deus por membros do culto, civis em sua maioria. Ou seja, Mitras não era só uma espécie de deus da guerra, devia existir alguns outros motivos pelos quais as pessoas buscavam seu auxílio. 
Utilizando esse exemplo da diferença entre as inscrições mitraícas na capital e provincias Liebeschuetz introduz a importante questão das expectativas dos seguidores de Mitra sobre a vida após a morte. Esperavam seus seguidores que Mitras os ajudasse quando deixassem esse mundo? A maioria dos estudiosos, observa Liebeschuetz, consideram como fato que os rituais de iniciação e a própria estrutura dos sete níveis, associadas a planetas especificos, tem alguma relação com descida e subida das almas, e frequentemente se tem concluido a partir disso que o ritual implicava na imortilidade da alma após a morte, no entanto:

"The fact - or at least what most scholars take to be a fact - tha Mithraic iniciation was believed to involve the descent and ascent of the soul is often taken to mean that Mithraic iniciation was a ritual for ensuring the survival of the soul after death. The conclusion is natural, given the analogy of Christian. It therefore may come as a surprise that scarcely any of the very large number of surviving dedications are in the least corcened with death (...)  
(TraduçãoO fato - ou pelo menos o que maioria dos estudiosos assumem com fato - de que a iniciação mitraíca envolvia descida e ascensão das alma é frequentemente usado como evidência de que a iniciação era um ritual que assegurava a sobrevivência da alma depois da morte. A conclusão é natural, em face de uma analogia com o cristianismo. Pode parecer surpreendente porém, que raramente no grande número de inscrições remanescentes se encontra alguma minimamente preocupada com a morte (...)[13]
 Ou  seja, aparentemente, as pessoas buscavam Mitras para benefícios nessa vida. Não era uma divindade que tinha a vida após a morte como sua especialidade.  Liebeschuetz continua :
The phrase votum solvit libens merito occurs again and again, in other words the god had perfomed what he had been asked to do. On the face of it Mithraists expected from their god the same kind of assistance as other Romans: health, and sucess for themselves and their colleagues and - diplomatically - for their superiors, not least the emperor. If Mithraic religion was coherent at all, the initiaites must have hoped that  the ceremony would  improve their qualifications for receiving support from the god in the problems of life on earth (....) To assume that the principal object must have been to ensure the survival after death is to apply Christian preconceptions. (Tradução) A frase votum solvit libens merito ocorre repetidamente, em outras palavras o deus  realizou aquilo que lhe foi solicitado. Do exposto, os mitraistas esperavam de seu deus o mesmo tipo de assistência que os outros romanos: saúde, sucesso para eles mesmos e seus colegas e - diplomaticamente - para seus superiores, sem esquecer do imperador.Se o culto mitráico tinha alguma coerência, os iniciados certamente esperavam que a cerimônia melhoraria suas condições para receber ajuda divina nos problemas da vida presente. (...) assumir que o objetivo principal era assegurar a vida após a morte é projetar conceitos cristãos.[13]
Liebeschuetz continua disparando, analisando as inscrições funerárias:


 "In the case of Mithraic dedications none, as far as I known, refers to hopes of continued existence after death. Mithraic imagery does not appear on funerary monuments - unlike that of Cybele and Attis which has frequently been found in tombs in the Rhineland (R Turcan 1975, p. 67) not to mention the imagery of Dionysus, which is found on sarcophagi all over the empire (see for example R. Turcan 1966). There are relatively few tombstones which record that the deceased was a follower of Mithras (CIMRM 511, 623-4). Mithraists do not seem to have had separate cemeteries. They were evidently much less concerned that their religous allegiance was recorded on their tombstone than worshippers of Isis (M.Malaise 1972, e.g from Ostia nos. 3, 4, 6, 7, 13 etc.) (Tradução) No caso das dedicatórias mitraistas, nenhuma, até onde sei, refere-se a esperança de existência após a morte. As imagens mitraistas não aparecem em monumentos funerários - totalmente diferente daquela de Cibele e Atis que é encontrada frequentemente em tumbas da região do Reno (R Turcan 1975, p. 67) assim como as imagens de Dionisio, encontradas em sarcofagos por todos os cantos do Império (veja por exemplo R Turcan 1966). Há relativamente poucas sepulturas que recordam que o falecido era seguidor de Mitras (CIMRM 511, 623-4). Aparentemente, os mitraístas não tinham cemitérios exclusivos. É evidente que eles estavam bem menos preocupados de registrar sua filiação religiosa que os adoradores de Isis (M. Malaise 1972, ex. Ostia números 3, 4, 6, 7 e 13 etc.)[13]
e conclui:
The conclusion is unavoidable: the benefits of Mithraic initiation were expected in this life. With the god's help the initiate would achieve help and sucess. In a more spiritual sense the initiate would have become a purer and freer person, liberated from tyranny of fate to which the body is subject. (Tradução) A conclusão inevitável é que os benefícios da iniciação mitráica eram esperados na vida presente. Com o auxílio divino o iniciado teria socorro e sucesso. Em senso mais espiritual, o inciado se tornaria uma pessoa mais livre e pura, liberta da tirania do destino a qual o corpo esta sujeito [13]
Entre os estudiosos a conclusão de Liebeschuetz é consensual no que se refere a escasez de inscrições, imagens e monumentos, bem como fontes literárias relativos ao mitraismo e a vida após a morte, contudo existe divisão quanto a inexistência de expectativa dos adeptos do culto quanto a atuação de Mitras nesse aspecto [14].


Paralelos, existe algum?


Assim, caros leitores, aonde foram parar todos aqueles paralelos entre o cristianismo e o mitraismo? Ou melhor quais elementos da estória de Mitras possuem alguma relação com o texto bíblico, e se existem, qual a significância?


Nós iremos analisar essa questão aqui no adcummulus mais aprofundamente nos próximos posts da série, mas, seria incorreto dizer que não há paralelo nenhum entre o cristianismo e mitraismo. Já mencionamos a refeição entre Sol e Mitras, que era reencenada pelos iniciados, uma situação que traz lembrança da Eucaristia ou Ceia do Senhor. Podemos estabelecer um paralelo com a páscoa judaica, bem como com Genesis 14:18 onde Melquisedeque, Rei de Salém e Sacerdote do Altíssimo veio a Abrãao e seus seguidores, trazendo pão e vinho, e os abençou. Em todo o caso, devemos nos ater não só no rito, mas em seu significado, a indicação do paralelo é apenas o ponto inicial para verificar possíveis influênciais. Cenas para os próximos capítulos. 

Adicionalmente, Professor  Roger Beck alude a um vaso de porcelana, descoberto a cerca de 30 anos, onde a se vê A figura de um "Pater" encenando o "milagre da água"[15]. Nessa cena, encontrada em alguns mitrários, Mitras acerta uma flecha em uma rocha, e dela flue água. Beck observa que o elemento da água faz lembrar o batismo cristão [15]. Há aqui também um paralelo, talvez mais claro, com Moisés, "Então Moisés levantou a mão, e feriu a rocha duas vezes com a sua vara, e saiu água copiosamente, e a congregação bebeu, e os seus animais" (Num. 20:11).  

Beck considera o milagre da água e o banquete entre Mitras e Sol como os dois paralelos mais relevantes com o cristianismo [15]. A opinião é compartilhada também pelo Professor Manfred Clauss [16]. Ambos consideram, porém, como improváveis hipóteses de influência de um culto sobre o outro. Mas para discutir sobre isso pedimos aos leitores do adcummulus um pouco mais de paciência, pois abordaremos essas questões em posts futuros.

A Vida do Invencivel Mitras em um parágrafo:

pesquisador leigo e ativista neo-pagão Ceisiwr Serith (David Fickett Wilbar) faz um esboço biografico de Mitras, baseado na evidência arqueológica.
From the images we can chart out something of the life of Mithras. He is born from a rock, already equipped to perform great deeds. He shoots an arrow into a rock, producing water. He hunts, whether for the bull or something else we don’t know. He carries a bull back to a cave, where he sacrifices it. The sun communicates with him; whether to command the sacrifice or to invite Mithras to heaven afterwards we don’t know. After the sacrifice, the sun raises Mithras to heaven, greets him with a handshake, crowns him, and eats a feast with him. This is what we know of the mythical biography of Mithras. (Tradução) Das imagens podemos traçar um esboço da vida de Mitras. Ele nasce da rocha, já equipado para realizar grandes feitos. Ele atira uma flecha em rocha, produzindo água. Ele caça, se um touro ou outra coisa não se sabe. Ele puxa um Touro para uma caverna, e o sacrifica. O Sol se comunica com ele, se para o ordenar o sacrifício ou convidar Mitras ao céu, é incerto. Após o sacrifício, o Sol eleva Mitras ao céu, o comprimenta com um aperto de mão, coroa-o, e celebra um baquete com ele. É o que se sabe da biografia mítica de Mitras[17]

Referências Bibliograficas

[1] Jaime Alvar Ezquerra (2008) Romanising Oriental Gods: Myth, Salvation, and Ethics in the Cults of Cybele, Isis and Mithras, Brill, fl. 76.
[2] Alison Griffith (1996) Mithraism, Exploring Ancient World Cultures: Essays on Ancient Rome, http://eawc.evansville.edu/essays/mithraism.htm  acessado em 16.07.2012
[3] Roger Beck (2002) Mithraism, Encyclopaedia Iranica, edição online, artigo de 20 de julho de 2002, disponivel em http://www.iranicaonline.org/articles/mithraism  acessado em 19.07.2002
[4] Alison Griffith (1996) Mithraism, Exploring Ancient World Cultures: Essays on Ancient Rome, http://eawc.evansville.edu/essays/mithraism.htm  acessado em 16.07.2012
[5] Roger Beck (2002) Mithraism, Encyclopaedia Iranica, edição online, artigo de 20 de julho de 2002, disponivel em http://www.iranicaonline.org/articles/mithraism , acessado em 19.07.2002
[6] Jaime Alvar Ezquerra (2008) Romanising Oriental Gods: Myth, Salvation, and Ethics in the Cults of Cybele, Isis and Mithras, Brill, fls. 81-82
[7] JHWG Liebeschuetz (1994) The expansion of Mithraism among the religious cults of the second century republicado em JHWG Liebeschuetz (2006) Decline and Change in Late Antiquity: Religion, Barbarians and their Historiography, fl. 451 (fl. 195).
[8] Walter M Shandruk (2002) Descriptions of Mithraea and Iconography - 3:The Rock Birth, Mithraism in History and Archeology, website acessado via webarchive em 23.07.2012 http://web.archive.org/web/20110722023421/http://www.mithraism.org/cgi-bin/display.cgi?file=mithraeum.txt&part=3&total=8 , ver também Manfred Clauss (2001), The Roman Cult of MIthras, fls. 64-69.
[9] Walter M Shandruk (2002) Descriptions of Mithraea and Iconography - 4:The Hunt, Mithraism in History and Archeology, website acessado via webarchive em 23.07.2012
http://web.archive.org/web/20110722024803/http://www.mithraism.org/cgi-bin/display.cgi?file=mithraeum.txt&part=4&total=8 ver também Manfred Clauss (2001), The Roman Cult of Mithras, fls. 75-77.
[10] http://www.roman-britain.org/places/brocolitia.htm#rib1544  (2011) Roman Britain Organization, Brocolitia (Carrawburgh), Hadrian Wall Forts and Temples. (RIB 1544). RIB é a sigla para The Roman Inscription of Britain, catálogo das inscrições romanas na Grã-Bretanha, elaborado por R.G Collingwood e R.P Wright (1965), vol I, Oxford, Clarendon Press.
[11] http://www.roman-britain.org/places/vercovicium.htm  (2011) Roman Britain Organization, Vercovicium (Housesteads), Hadrian Wall Forts and Temples. (RIB 1600) RIB é a sigla para The Roman Inscription of Britain, catálogo das inscrições romanas na Grã-Bretanha, elaborado por R.G Collingwood e R.P Wright (1965), vol I, Oxford, Clarendon Press.
[12] Fertőrákos Mithraeum, Wikipedia, http://en.wikipedia.org/wiki/Fertorakos_Mithraeum , versão de 30.05.2012, acessada em 23.07.2012. (CIMRM n° 1637). CIMRM é a sigla para Corpus Inscriptionum et Monumentorum Religionis Mithriacae, catálogo de inscrições e monumentos associados ao culto de Mitras no Império Romano, editado pelo Professor Marteen J Vermaseren (1960).
[13] JHWG Liebeschuetz (1994) The expansion of Mithraism among the religious cults of the second century republicado em JHWG Liebeschuetz (2006) Decline and Change in Late Antiquity: Religion, Barbarians and their Historiography, fl. 469-470 (fls. 214-215).
[14] Jaime Alvar Ezquerra (2008) Romanising Oriental Gods: Myth, Salvation, and Ethics in the Cults of Cybele, Isis and Mithras, Brill, fls. 125-136. Assim como Liebeschuetz, Ezquerra pondera a inexistência de inscrições (com uma possível excessão), tumbas, sarcófagos ou imagens funerárias ligadas ao culto de Mithras (fls 135-136), critica o ceticismo de Robert Turcan, que vê tais expectativas como meros relatos de neo platonistas, não iniciados, que projetavam suas crenças no culto mitráico (fls. 125-126). Ezquerra rejeita o ponto de Turcan, acredita que o mitraistas associavam beneficíos na vida após a morte com sua iniciação, ainda que hesite se era uma concepção apenas dos mitraístas neoplatonistas, ou generalizada dentro do culto (fl. 126).
[15] Roger Beck (2006) The Pagan Shadow of Christ?, acessado em 23.07.2012 http://www.bbc.co.uk/history/ancient/romans/paganshadowchrist_article_04.shtml
[16] Manfred Clauss (2001) The Roman Cult of Mithras, fl.72
[17] Ceisiwr Serith (David Fickett Wilbar) (2003) What is Mithraism? acessado em 24.07.2012  http://www.ceisiwrserith.com/mith/whatismith.htm



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