Estudos sobre Religião - Biblioblog

sexta-feira, 7 de agosto de 2009




Cadeira de Moisés, da Sinagoga de Corazim, sec I DC
(Biblical Archeology Review, Sept/Oct 1993)




Continuando nosso estudo sobre a relação entre Jesus e os fariseus, é possivel que alguns leitores possam ter lembrado a essa altura do "sermão dos Ais", o duríssimo discurso de Jesus em Mateus 23, em que ele afirma "Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas!". Contudo, Jesus também disse "Na cadeira de Moisés se assentam os escribas e fariseus.Portanto, tudo o que vos disserem, isso fazei e observai"; acrescentando "mas não façais conforme as suas obras; porque dizem e não praticam" (Mt 23:2-3). Na verdade, o centro da crítica de Jesus não foi a doutrina farisaíca, mas a forma como seus seguidores a praticavam.

Mas tanto o Talmude Babilônico (bSota 22), quanto o de Jerusalém (yBerachot 9:5:I 2) trazem, com algumas pequenas variações, uma passagem muito interessante, em que os rabinos (sucessores dos fariseus), "lavam a roupa suja", por assim dizer. O Professor e rabino Jacob Neusner, do Bard College, uma das maiores autoridades do mundo no estudo acadêmico do judaismo talmudico, faz uma parafrase da passagem do Talmude de Jerusalém.

Permita que o amor motive tuas ações. E se começares a desprezar os mandamentos ou a Torá, lembra-te que tu amas a Deus, e aquele que o ama não despreza seus mandamentos. Deixe que o temor também motive tuas ações. E quando começares a se rebelar contra os mandamentos de Deus ou Torá, lembra-te que aquele que teme não se rebela.
Existem sete tipos de fariseus [perushim]: O fariseu "exibido", o fariseu "contador", o fariseu "parcimônioso", o fariseu que "compensa", o fariseu "temente", e o fariseu que "ama".
O Fariseu "exibido", leva suas boas obras sobre seus ombros, para mostra-las a todos.
O Fariseu "presunçoso" diz "espere por mim. Eu estou ocupado usando meu tempo para cumprir os mandamentos! Eu não tenho tempo para você"
O Fariseu "contador" paga cada dívida, istoé, pecado, realizando uma boa obra correspondente.
O Fariseu "parcimonioso" diz "do pouco que eu tenho, o que eu posso deixar de lado para cumprir os mandamentos?"
O Fariseu que "compensa" diz "conte-me que pecado eu cometi, e eu cumprirei um mandamento para ofusca-lo".
Estes cinco tipos de fariseu são negativos, pomposos e dados a ostentação"[
1]

Jesus atacou os fariseus hipócritas que faziam "suas obras a fim de serem vistos pelos homens" (Mateus 23:5). No Talmude há uma critica a certos fariseus exibidos "que levavam suas boas obras sobre seus ombros para mostra-las a todos". Jesus fala de fariseus que gostavam de ser chamados de Rabi, de serem saudados nas praças, de sentarem nos primeiros lugares nos banquetes e nas sinagogas. Os rabinos do Talmude criticam fariseus presunçosos, pomposos e ostentadores. A passagem Talmudica chegou a essa forma no século II ou III DC, mas reflete uma tradição anterior, transmitida oralmente. Em suma, a crítica de Jesus não era isolada, outros rabinos contemporâneos também tinham essa percepção. E existe uma longa e antiga tradição, que data dos profetas bíblicos de ataques duros contra práticas erradas.

Prof. Paul Winter observa:
"As mesmas críticas que Jesus nos evangelhos sinóticos faz aos fariseus em geral são feitas no Talmude por vários rábinos contra certos tipos de fariseus. Em ambos os casos, o cenário é palestino. Os evangelhos e o talmude manifestão desaprovação a práticas que os líderes religiosos consideram incorretas: Jesus poderia expressar tais críticas sem se excluir da "Escola Farisáica", desde que elas se restringissem a casos concretos e específicos. Ao criticar certos indivíduos, Jesus pode ter desagradado ou ofendido algumas pessoas de seu meio, mas a animosidade dai resultante não teria constituido uma base para que o acussassem de crime político. Havia uma certa relutância entre os círculos judaicos a levar questões internas a julgamento por um magistrado não judeu" [2]

Prof. Geza Vermes, acrescenta:
"Nos Atos dos Apóstolos, os líderes judeus de Jerusalém não são descritos como cegamente hostis aos seguidores de Jesus. Pedro atribuiu a ignorância ou falta de compreensão em vez de má-fé aos chefes dos sacerdotes (Atos 3:17). O celebre fariseu rabi Gamaliel invocou a imparcialidade para com os apóstolos diante da alta corte (Atos 5:34-39) e mesmo durante o conturbado encontro no Sinédrio a propósito de Paulo, acusado de pregar contra a lei, os membros fariseus do conselho o apoiam abertamente: "Nenhum mal encontramos nesse homem. E se lhe tivesse falado um espírito ou anjo (Atos 23:9) [3]

Ou seja, embora parte do partido farisaico possa ter sido hostil a Jesus e aos os primeiros cristãos (alguns de seus membros cooperaram na prisão e crucificação de Jesus), a iniciativa das ações contra a igreja partia geralmente do partido saduceu. E em várias ocasiões, foram fariseus (como Gamaliel) que protegeram os cristãos.

Prof. David Flusser:
Realmente, quando fazemos uma leitura crítica dos evangelhos, tornamo-nos cientes de que os fariseus não desempenharam nenhum papel decisivo no aprisionamento, no interrogatório e na crucificação de Jesus. Eles sequer são mencionados por seus nomes no contexto do julgamento, conforme relatado ns três primeiros evangelhos, à excessão da história sobre a guarda do Túmulo de Jesus (Mateus 27:62). (...) Os fariseus, é obvio, discordavam da ação levada a cabo pelos sumos-sacerdotes contra Jesus porque, segundo sua Halakhá, a entrega de um judeu a uma autoridade estrangeira era um pecado imperdoável [4]

e Winter:
É aos discipulos de João Batista e dos fariseus que se refere a apologética e a polêmica. Não se trata de mero acaso. Durante sua vida, Jesus manteve relações estreitas com esses dois grupos, e depois de sua morte foram eles os grupos que se mostraram mais próximos de seus seguidores, que após a crucificação formaram uma comunidade independente (...) Parte dos seguidores de João Batista convergiu para o movimento messianista, unindo-se aos discípulos primitivos numa comunidade apostólica. Da mesma forma, alguns fariseus - e não somemte Paulo - aderiram a irmandade messiânica dos apóstolos (...) Gradualmente, a medida que o cristianismo se desenvolvia, as relações entre seus adeptos e os judeus deterioraram. A frustração dos pregadore cristãos ao abordarem os fariseus, na esperança de converte-los a nova fé, afinal se transformou em hostilidade [5]

Isto indica que judeus que pertenciam ao grupo que Josefo fazia parte - farisaico, sem dúvida - ainda não tinham aplicado a Jesus uma reputação de herético, ou o denunciado como rebelde. Que vários circulos farisáicos mantiveram relacões amistosas com judeus-cristãos ainda por um longo tempo após a crucificação é demonstrado, não só pelo relato do ressentimento causado pelo apedrejamento do irmão de Jesus por ordem do sumo-sacerdote saduceu, mas também pelo fato significativo de certas tradições comunais de proveniência palestina (parte da assim chamada "fonte especial" de Lucas) descrevem vários fariseus e outros judeus não membros do grupo de discipulos de Jesus como expressando sentimentos e intenções de amizade com Jesus e mantendo contato social com ele [6].

É claro que os séculos seguintes testemunharam uma triste escalada de ódio entre judeus e cristãos. Mas no final do século I, quando Josefo escreveu, os grupos cristãos palestinos, como nazarenos e ebionitas, eram bastante atuantes, e ainda tinham boas conexões com o partido farisaico. De fato, as tensões entre cristãos e judeus foram crescendo lentamente, mas se degenaram em hostilidade aberta apenas pelo IV ou V século, no período pós constantiniano.

Como observa o Professor Louis Feldman, Yeshiva University:

"Dr. Heinz Schreckberg ressaltou a tremenda influencia de Josefo na igreja cristã primitiva e, em particular, o desenvolvimento do ponto de vista cristão de que a destruição do Templo de Jerusalém e as tragédias sofridas pelos judeus é a punição divina imposta a eles por seus terriveis pecados. Nos podemos notar, nessa conexão,que nos primeiros três séculos da Era Cristã, precisamente no periodo quando a influência de Josefo era mínima, que a Igreja foi muito menos virulenta em seu anti-semitismo. Assim, por exemplo, no Secundo Século, o Dialogo entre Trifo e São Justino Martir, é marcado por uma relação de cordialidade e mútua cortesia entre os debatedores judeu e cristão. Podemos acrescentar, ainda, que os primeiros textos ortodoxos contém menos hostilidade frente aos judeus que os posteriores, e que os escritos extracanônicos não incitam ódio particular contra eles.
Na verdade, há evidências de que judeus e cristãos, nos aspectos cotidianos da vida, mantiveram uma convivência relativamente pacífica. Foi somente na medida em que a polêmica cristã contra os judeus se tornou cada vez mais estridente, no IV e V século. periodo em que o cristianismo se tornou a religião oficial do Império, e que a relação entre os dois grupos se degenerou em ódio mútuo."
[7]

Bibliografia e Referências

[1] Talmude de Jerusalém yBerachot 9:5:I:2, parafraseado por Jacob Neusner em "The Comparative hermeneutics of rabbinic judaism", fl. 81
[2] Paul Winter, Sobre o Processo de Jesus, fl. 253, nota 39
[3] Geza Vermes, A Paixão, fl.114.
[4] David Flusser, "Para Enterrar Caifas, Não para Louva-lo" in Jesus, fl. 167
[5] Paul Winter, "Sobre o Processo de Jesus", fl. 244
[6] Paul Winter "Excursus II -Josephus on Jesus and James," em E. Schurer, The History of the Jewish People in the Age of Jesus Christ, rev. and ed. by G. Vermes and F. Millar, fl 441
[7] Louis Feldman, "Introduction" In Louis Feldman & Gohei Hata (eds) Josephus, Judaism and Christianity, fl. 53

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Arqueólogos encontram 'tesouro budista' na Mongólia

http://www.uai.com.br/UAI/html/sessao_8/2009/08/03/em_noticia_interna,id_sessao=8&id_noticia=121361/em_noticia_interna.shtml

Realmente uma notícia fabulosa lida à luz da história dela e do ato providencial do monge Tudev.

Esse contexto novamente me remete a uma reflexão que sempre faço, para relativizar nosso tempo (eu costumo dizer que não sou um "pré", "pós" nem modernista, mas um amodernista) e podermos nos distanciar um pouco para conseguir ter uma melhor panorama para a ação futura.

Nunca em toda a história se produziu tanta informação em espaços de tempo tão curtos. Mas nunca também se perdeu tanta informação, tanto legado, num espaço de tempo tão curto. Nossa vassoura modernista varreu para lugares ermos importantes legados da epopéia humana, que poderiam propiciar uma geração futura mais sábia, se tivesse sobriedade e sabedoria necessária para refletir a fundo na sua condição e como chegou a ela. Isso, às vezes o estudo histórico mesmo agrava ao abusar do método da analogia (talvez agora as discussões em torno das ciências da complexidade, não linearidade e tempo-irreversível possa nos ajudar).

Eu sugiro um bom livro, de leitura agradável e profundidade de reflexão, que me enriqueceu muito como ser humano, ponderando sobre essas preocupações:

'A destruição do Passado', de Alexander Style.

sábado, 1 de agosto de 2009

Encontrada uma inscrição em Aramaico em Jerusalém:

http://www.jpost.com/servlet/Satellite?pagename=JPost/JPArticle/ShowFull&cid=1248277923672

'It is like digging out grandparents' hand-written letters,' he quipped.

segunda-feira, 27 de julho de 2009

Um grupo de artistas australianos resolveu implementar a controversa e mirabolante idéia da representação dos eventos bíblicos através de imagens [fakes, obviamente] semelhantes às que encontramos no Google Earth.

Deixo aqui o link do artigo do blog obvious, onde encontrei a informação. E aqui vai o site do grupo australiano - Glue Society.


Como teria sido a Crucificação lá do alto:

quarta-feira, 22 de julho de 2009


É algo que nos ocorre e nos deixa estupefatos quando vamos tendo pensamentos, que vão se enlevando e se encaixando com diversos insights ao ponto de iniciarmos um quadro mental, e descobrimos que houveram outros desbravadores dessa mata escura, e que podemos aproveitar os rastros e clareiras por eles deixados. Com uma fina pontada de desapontamento por não sermos os 'descobridores da América', vem uma felicidade de não sermos exóticos estranhos no ninho.

Acontecera isso comigo recentemente, ao refletir sobre a perspectiva das mulheres na igreja cristã nascente. Elas costumam ser esquecidas, e dificilmente se encaixam nos esquemas gerais traçados. Algumas vezes, o olhar feminista sobre a bíblica recai num essencialismo ululante, desprovido de realismo, ou anacronismos, o que nos enfastia. Alguns conseguem ser mais centrados e escapam dessa armadilha. Eu os busco. Encontrei um neste livro de Bauckham, ‘Gospel Women: Studies of the Named Women in the Gospels’, que tive a felicidade de ler e compartilho, das resenhas com as quais me deparei na internet, a que de forma sucinta traduzira as minhas impressões fora a da professora Dra. Robin Gallaher Branch, doutora em Estudos Hebraicos da Universidade do Texas em Austin. Fora uma Fullbright Scholar e depois Professora Associada na Universidade de Potchefstroom, África do Sul. Atualmente é professora de Bíblia e Teologia na Faculdade Crichton, em Memphis, Tennessee. Deixo aqui disponível uma tradução livre (aberta a correções) de minha parte, para compartilhar e divulgar esse trabalho extremamente relevante para os leitores de língua portuguesa, esperando contribuir para que alguma editora possa publicar no Brasil.

O original está publicado na Review of Biblical Literature.

Bauckham, Richard
Gospel Women: Studies of the Named Women in the Gospels
Grand Rapids: Eerdmans, 2002. Pp. xxi + 343.


Richard Bauckham, professor de Estudos no Novo Testamento e Bispo Professor na Universidade de St. Andrews, na Escócia, escreveu um importante trabalho sobre algumas das mulheres nomeadas no Novo Testamento. Ao fazê-lo, ele olha entusiasticamente as histórias, fatos e sugestões no texto bíblico e em histórias na literatura extrabíblica sobre estas mulheres.

Seus temas incluem mulheres na genealogia de Jesus em Mt. 1; Elizabeth e Maria em Lucas 1; Ana da tribo de Aser em Lucas 2; as duas Salomés, uma, irmã de Jesus, e a segunda, sua xará e não referida no texto bíblico, uma discípula de Jesus (226), Joana (Lucas 8:3, 24:10), a qual, ele argumenta, é uma apóstola; Maria de Cléopas (João 19:25), e as mulheres nas histórias da ressurreição.

Ele começa por olhar para o livro de Rute, apontando que ele oferece uma chave ginocêntrica para uma leitura das Escrituras(1.16). À primeira vista isso parece pouco habitual, ainda que estabelece as bases para o seu argumento de que porções das Escrituras apresentam vozes das mulheres. Ele aponta que, embora não possamos conhecer a autoria de Rute, 'a voz com a qual o texto fala aos seus leitores é feminina' (3, ênfase original); esta voz feminina domina até os últimos versos, quando a voz masculina, sob a forma de genealogia de David retorna ao texto(4). Citando o trabalho de Carol Meyers, Bauckham observa em relance certos textos, como Rute, Cântico dos Cânticos, e possivelmente Ester, um mundo interior de mulheres, um lugar na sociedade em que suas vozes sejam ouvidas e apreciadas(9). Ele argumenta que os textos ginocêntricos não têm o papel de relativização dos textos androcêntricos, os textos predominantes em ambos os Testamentos, mas de contrabalançar ou corrigir precisamente isto: seu androcentrismo(15,16). Por conseguinte, ouvir e atentar para as vozes e perspectivas das mulheres no Novo Testamento são executados como um tema em todo o livro de Bauckham 'Gospel Women'.

Bauckham continua sua ênfase no Antigo Testamento ao olhar para as quatro mulheres citadas na genealogia de Jesus em Mateus: Tamar, Rahab, Rute, e a esposa de Urias o hitita...'Numa genealogia patriarcal deste tipo, as mulheres não têm lugar necessário', ele inicia, e então pergunta por que elas estão lá. Conduzindo seus leitores passo a passo, argumenta que genealogia de Mateus exprime o sentido universal do propósito de Deus, nomeadamente, que Jesus é o Messias judeu para os gentios(21). Que as quatro mulheres têm algum tipo de ligação por nascimento ou casamento fora de Israel 'estando de acordo com o objetivo global messiânico da genealogia'.(27).

Ele afirma que Tamar 'era, pelo menos, não mais gentia do que Sara, Rebeca, Lia, e Raquel foram'(31). Além disso, o fato de que Jesus tivera ancestrais gentios mostra o grau de abertura das pessoas de Deus para a inclusão dos gentios crentes, uma abertura que o Messias confirma e amplia(42).

A interação de Elizabete Maria em Lucas 1 apresenta uma vinheta textual proporcionando um olhar sobre o mundo das mulheres. Falta no seu capítulo sobre estas duas mulheres, no entanto, um profundo olhar para Elizabete; Bauckham concentra-se em Maria. Ele cita a prevalência do tema da mãe-filha em muitos das histórias precedentes do Antigo Testamento sobre mulheres. A seção Maria-Elizabete continua no modelo salvífico de mulheres como portadoras das pessoas de Deus. Anteriormente as mulheres portadoras que ele cita são Sifrá e Puá, as parteiras em Êxodo 1; Débora a juíza e Jael, que matou Sísera(Juizes 4-5); Ana (1 Sm. 1,2); e Ester. Juntamente com os homens, as mulheres atuam como agentes humanos da libertação de Deus para seu povo, dos seus inimigos(57). Maria e Isabel continuam esse padrão. Bauckham nota que comentadores costumam dizer que as canções de Maria e Ana celebram a salvação do Deus de Israel e permanecem separadas das próprias mulheres cantoras. Ele considera que estes comentadores tenham perdido o ponto.

Em vez disso, ele sustenta que as canções dessas alegres mulheres 'celebram a ação graciosa de Deus para a própria cantora em seu significado para todos aqueles que também estão em condições humilhantes de vários tipos e então para todos os fiéis de Deus em geral'.(6, ênfase original).

Bauckham nota que Ana da tribo de Aser é a única personagem judaica no Novo Testamento não pertencente à tribo de Levi, Judá, ou Benjamin (77). Ele sustenta convincentemente que a menção de Ana e da tribo de Aser garante que a comunidade representada na narrativa de Lucas representa Israel como um todo, tribos do norte, bem como do sul, exilados, bem como os habitantes da terra (98). A mensagem da salvação na pessoa de Jesus veio para todo Israel.

Em seu capítulo mais longo e interessante (109,202), Bauckham postula que Joana, e seu marido Cuza, capataz de Herodes, são os ‘Andrônico e Junia’ mencionados tão carinhosamente por Paulo como seus parentes e companheiros presos em Rom 16:7. Ele observa que a referência ao marido de Joana é excepcional entre todas as referências dos Evangelhos às mulheres discípulas de Jesus (119).

Bauckham observa que Joana e Cuza, como membros da aristocracia herodiana de Tiberíades, moveram-se livremente no mundo romano(161). Joana, já como uma membra da aristocracia, escolhera ser uma seguidora de Jesus e por isso, tinha feito uma incrível travessia social para se tornar uma seguidora(145). Ela atravessara ainda mais, de acordo com os argumentos de Bauckham, as desigualdades sociais, quando ela se tornou, com o seu marido Andrônico/Cuza, uma missionária itinerante. Argumenta que o nome Junia é uma versão grega de Joana, provavelmente retomado por uma judia palestina que se tornou uma missionária cristã para o mundo grego(169).

Em um conto imaginário que deve ter sido divertido escrever, Bauckham, desenhando a partir da sua investigação, inclinações, e palpites, traça um esboço histórico desta intrigante mulher e seu marido (194-98). Paulo louva-os como 'distinguidos entre os apóstolos' e crentes em Cristo antes dele ter se tornado um crente (Rm 16:7).

Outro casal missionário jovem bastante provável era Maria de Cléopas e seu marido Cléopas(198). Em seu próximo capítulo, Bauckham argumenta que a frase 'Maria de Cléopas'(João 19:25) pode significar quer que Maria é uma solteira filha de Cléopas ou a esposa de Cléopas e ele opta por esta última(207-9). Rastrear tanto a união e linha de Maria e Cléopas prova-se fascinante, pois este estudo revela a importância dos papéis que desempenharam os parentes de Jesus na Igreja primitiva(203).

Bauckham diz que Cléopas foi o irmão do pai adotivo de Jesus, José(208). Maria e Cléopas tiveram um filho muito famoso, um homem chamado Simão ou Simeão, o mais importante líder cristão na Palestina por metade de um século(209). Certamente, de acordo com textos extrabíblicos, ele foi martirizado com 120 anos, uma idade que coloca-o na mesma categoria de importância como Moisés(209). Porque Simão/Simeão foi tão bem conhecido por toda sua reputação entre as igrejas, os primeiros leitores do Quarto Evangelho, João, não teriam tido qualquer dificuldade em identificar Maria de Cléopas como a sua mãe (209).

Bauckham, continuando a sua exploração de textos extrabíblicos e a luz que eles derramaram sobre as pessoas em torno de Jesus, cita uma tradição cristã pós-canônica nomeando Maria e Salomé como as duas irmãs de Jesus(p. 226). A História Copta de José menciona que Salomé seguiu Maria, José, e Jesus na fuga para o Egito(231).

Em seu capítulo concludente Bauckham aborda cada história de ressurreição nos Evangelhos separadamente e olha para as suas personagens mulheres. Quanto a Mateus, ele diz que o comando para as mulheres 'ir e contar'(Mt 28:10) manteve aplicação durante suas vidas. Porque é inconcebível que as mulheres teriam parado de contar a todos os que foram posteriormente dispostos a ouvir, o seu testemunho não é substituído pelo dos onze, como tem sido argumentado, mas inclui a sua própria validade contínua(279).

A narrativa da ressurreição de Lucas remete para os discípulos de tal forma a tornar claro que não só os onze, mas também um grupo maior está em mente; as mulheres pertencem a este grupo maior, diz Bauckham(82). Em João, a declaração de Maria Madalena 'Eu vi o Senhor'(João 20:18) vai depor sobre a realidade do Senhor ressuscitado e é tão persuasiva como um testemunho quanto o dos outros discípulos e Tomé(285).

Bauckham manipula bem o difícil problema da maneira como o Evangelho de Marcos termina. Ele argumenta que o silêncio das mulheres diz aos leitores que, embora as mulheres passam as notícias da ressurreição de Jesus para os discípulos do sexo masculino, a proclamação do evangelho ao mundo não começa neste momento. Na verdade ele não pode começar aqui, não porque as mulheres são mulheres, mas porque a proclamação deve começar a partir de que uma aparição do Jesus ressuscitado comissiona suas testemunhas(294) [Ele sustenta que os adendos seguiram um padrão convencional nas igrejas, retratado nos outros - Nota do Tradutor] .

Bauckham, claramente um refinado e metódico professor, escreve como um acadêmico para acadêmicos. Seu estudo 'Gospel Women' inclui interessantes suplementos da sua investigação, como uma refinada seção chamada 'Mulheres Judias como Donas de Propriedades'(121,35) e notas sobre as tribos do norte no exílio em 4 Esdras 13 e no livro de Tobias (101,7).

Seu livro teria sido melhor chamado ‘Gospel Women: Estudos de (algumas das) Mulheres Nomeadas dos Evangelhos’. Uma das esperanças é que ele aplique seus conhecimentos para uma sequência, algo como Gospel Women: Estudos de (mais) Mulheres Nomeadas no Novo Testamento.


Robin Gallaher Branch
Potchefstroom University for Christian Higher Education
Potchefstroom, South Africa

sexta-feira, 10 de julho de 2009

Em uma série de posts anteriores, sobre a visão de fontes não cristãs sobre Jesus como Mestre e Sábio, eu utilizei o chamado "Testemunho Flaviano", do escritor judeu do século I, Flávio Josefo, seguindo a posição dominante entre os historiadores e estudiosos bíblicos de que parte do relato é autêntica, particlarmente a referência a crucificação, e seu retrato de Jesus como "homem sábio" e "realizador de feitos extraordinários".

No entanto, toda a vez que eu exponho esse ponto de vista, a réplica é imediata: "Josefo não era fariseu? Então, como ele poderia escrever algo bom sobre Jesus?". A questão da afiliação sectária de Josefo é complexa. Mas, por hora, acho mais interessante analisar o relacionamento entre os fariseus e Jesus de Nazaré.

A opinião popular, largamente difundida, é de que os fariseus eram um bando de hipócritas e falsos que perseguiam Jesus, e eventualmente conseguiram mata-lo.

Mas isso é verdade?

1) Jesus, os cristãos e os fariseus no Novo Testamento

A principal fonte antiga para a controvérsia de Jesus e seus discípulos com os fariseus é o Novo Testamento. Contudo, uma leitura atenta ao texto bíblico junto com a evidência de outras fontes mostra também muitas concordâncias. Os fariseus e os primeiros cristãos protagonizaram uma relação complexa.

É certo que os evangelhos retratam Jesus criticando repetidamente os fariseus; que Saulo (um fariseu) perseguiu os cristãos. Contudo, Nicodemos e Jose de Arimáteia são apresentados como fariseus. As crenças dos cristãos, em anjos, ressureição, vida após a morte os aproximavam muito mais desse partido, do que de qualquer outro grupo judaico de então.

Alguns fariseus avisaram Jesus que Herodes Antipas queria mata-lo (Lucas 13:31-35). Lucas também recorda pelo menos três ocasiões em que Jesus foi convidado a almoçar em casas de fariseus (Lucas 7:36; 11:37 e 14:1) . Na Igreja de Jerusalém existiam alguns fariseus "que haviam crido" (Atos15:5) e estavam, provavelmente, associados ao partido judaizante, ou os da circunsição (Atos 15:1; Galatás 2) que eram numerosos o suficiente para se fazer ouvir. Pedem explicações de Pedro por ele ter batizado o gentio Cornélio (Atos 9), e protagonizam a controvérsia com Paulo que parece ter sido a maior do período (Atos 15), visto que entendiam que os díscipulos gentios deveriam se circuncidar (Galatas 5:2-3), sendo necessário a intervenção de Pedro, Tiago e os demais apostolos para resolve-la. A decisão tomada (Galatas 2:1-9; Atos 15:22-31), enquanto recomendava, para os cristãos gentios, abstenção das "coisas sacrificadas aos ídolos, e do sangue, e da carne sufocada, e da prostituição" (Atos 15:29) e o "cuidado constante dos pobres" (Gl 2:10), não isentou os crentes judeus de continuar observando a lei e os costumes ancestrais.

Mesmo depois do Concílio, pelos menos alguns crentes judeus continuaram insistindo na necessidade da circunsição e obediência a lei mosaica por parte dos gentios, o que levou Paulo a escrever Galatás. E certo também que o fiador do acordo firmado no Concílio - Tiago, irmão de Jesus -, reconhecendo o status diferenciado da missão gentia, continuou conduzindo a Igreja de Jerusalém de forma alinhada com os costumes e leis judaicas (Atos 23:18-25).

Mesmo assim, Atos nos diz que, quando ouvido pelo Sinédrio em Jerusalém, Paulo não se sentiu inibido em dizer "Sou fariseu, filho de fariseus, e por causa da ressureição dos mortos estou sendo julgado". A simples menção de "ressurreição dos mortos", um ponto de profunda controvérsia entre fariseus e saduceus, levou o Sinédrio a se dividir. Se mesmo Paulo, pivô da controvérsia sobre a lei e os gentios, pode ser "adotado" pelos líderes fariseus, os seus oponentes judaizantes dentro do movimento de Jesus deveriam se sentir "em casa".

Prof. David Flusser(1917-2000), da Universidade Hebraica, aprofunda essa constatação:
"Não seria incorreto descrever Jesus como um fariseu, num sentido mais amplo. Todavia, ainda que sua crítica deles não fosse tão hostil quanto a dos essênios (...) Jesus os considerava forâneos e não se identificava com eles.(...). Temos ainda que analisar a tensão inevitável entre o Jesus carismático e o judaismo institucional. Tampouco ousemos nos esqueçer que o elemento revolucionário em sua pregação aumentou a tensão. Não obstante devemos ter em mente que esta tensão nunca implicou em negação, e as concepções de Jesus e dos fariseus não eram opostas, nem tampouco se degeneraram em inimizade (...) é obvio que havia entre os fariseus algumas pessoas de mente tacanha (...) que suspeitavam desse fazedor de milagres. Com satisfação, teriam-no flagado numa ação proibida para que pudessem arrasta-lo para uma corte rabínica (...). [1].

Professor Flusser em seguida relaciona situações em que membros do partido fariseu agiram em benefícios dos cristãos.
"Se lembrarmos o papel que os fariseus desempenharam nas primeiras décadas da Igreja Cristã, fica mais claro o motivo pelo qual não só os relatos originais como também os três primeiros evangelhos, evitam mencionar os fariseus na história do julgamento de Jesus. Quando os apóstolos foram perseguidos pelo sumo-sacerdote saduceu, Rabban Gamaliel tomou o seu partido e os salvou (Atos 5:17-42). Quando Paulo foi levado a comparecer perante o Sinédrio em Jerusalém, encontrou solidariedade entre seus ouvintes ao apelar para os fariseus (Atos 22:30 e 23:10). Quando Tiago, o irmão do Senhor, e aparentemente outros cristãos, foram condenados ilegalmente a morte em 62 DC, pelo sumo-sacerdote saduceu, os fariseus apelaram ao rei e o sumo-sacerdote foi destituído" [1]

Bem como o Professor Geza Vermes, de Oxford
"Nos Atos dos Apóstolos, os líderes judeus de Jerusalém não são descritos como cegamente hostis aos seguidores de Jesus. Pedro atribuiu a ignorância ou falta de compreensão em vez de má-fé aos chefes dos sacerdotes (Atos 3:17). O celebre fariseu rabi Gamaliel invocou a imparcialidade para com os apóstolos diante da alta corte (Atos 5:34-39) e mesmo durante o conturbado encontro no Sinédrio a propósito de Paulo, acusado de pregar contra a lei, os membros fariseus do conselho o apoiam abertamente: "Nenhum mal encontramos nesse homem. E se lhe tivesse falado um espírito ou anjo (Atos 23:9) [2]

2) Os fariseus provocaram a morte de Jesus?

Possivelmente, alguns leitores tenham ficado "chocados" com o que foi dito acima.
"Como?! Isso é absurdo, os fariseus não eram inimigos mortais de Jesus e seus seguidores?!!!"

Um ponto primordial a ser enfatizado é que Jesus de Nazaré foi crucificado (uma punição romana), sob ordem de Pôncio Pilatos (que representava o poder de Roma), acusado de (pretender) ser "O Rei dos Judeus"(um crime contra Roma). Todos os evangelhos dizem isso claramente, sendo certo que isso jamais poderia ter sido inventado [3]. O papel das autoridades judaicas, sejam fariseus, saduceus, herodianas... foi de apresentar a denúncia, ou formular a acusação.

Utilizaremos aqui um esquema adaptado de Dr. Paul Winter [4], de seu clássico livro "Sobre o Processo de Jesus" ("On The Trial of Jesus"), sobre os interlocutores, adversários e oponentes de Jesus por passagem do evangelhos.

Por questão de espaço, vamos analisar detalhadamente apenas o Evangelho de Marcos, situando também dois evento marcantes do Ministério de Jesus, a purificação do Templo em Jerusalém e a Crucificação. As ocasiões em que os fariseus aparecem serão realçadas em vermelho

Jesus e seus oponentes
Mc 2:6: alguns dos escribas;
Mc 2.16: escribas dos fariseus
Mc 2:18: discípulos de João e os fariseus;
Mc 2:23-24: fariseus;
Mc 3:6: fariseus;
Mc 3:22: escribas de Jerusalém
Mc 7:1: Os fariseus e alguns escribas de Jerusalém
Mc 8:11: Os fariseus
Mc: 8:15: fariseus e Herodes
Mc 8:31: Os anciãos, os Chefes dos Sacerdotes, e os escribas
Mc 9:14: Escribas
Mc 10:2: fariseus
Mc 10:33: Os chefes dos sacerdotes e os escribas
Mc 11:15: Jesus expulsa os cambistas do Templo
Mc 11:18: Chefes dos Sacerdotes e escribas
Mc 11:27: Chefes dos Sacerdotes, escribas e anciãos
Mc 12:13: alguns dos fariseus e os herodianos
Mc 12:18: Saduceus
Mc 12:38: um dos escribas
Mc 14: Inicio da Narrativa da Paixão
Mc 14:1: Chefes dos Sacerdotes, escribas e anciãos;
Mc 14:10: Chefes dos Sacerdotes
Mc 14:43: Uma multidão da parte do Chefes dos Sacerdotes, escribas e anciãos
Mc 14:53: Chefes dos Sacerdotes, escribas e anciãos
Mc 14:55: Chefes dos Sacerdotes
Mc 15:1: Chefes dos Sacerdotes, escribas e anciãos e todo o Conselho
Mc 15:3: Chefes dos Sacerdotes
Mc 15:20-24: Jesus é crucificado
Mc 15:31: Chefes dos Sacerdotes

Winter então observa:
"Duas questões saltam os olhos numa análise dessa Tabela. A primeira refere-se a diferença entre as designações dos inimigos de Jesus adotadas por Marcos nos capítulos 2 a 12, de um lado, e 14 e 15, de outro. Outra é a diferença entre as designações marquense e ao adotados nas passagens paralelas de evangelhos mais recentes. Relativamente a primeira questão, exceto por referências isoladas em Mc 11 (e é claro pela predição da paixão em Mc 8:31 e Mc 10:33) os chefes dos sacerdotes e os anciãos não são apontados como adversários de Jesus nos primeiros capítulos de Marcos, enquanto que em Marcos 14 e 15 somente eles e os escribas aparecem em tal posição" [4]

Considerando os pontos levantados por Winter, podemos observar que antes do episódio da purificação do Templo, os principais oponentes de Jesus são os fariseus. Contudo, se formos aos textos veremos que em grande parte são polêmicas a respeito de regras de pureza, como comer com publicanos e pecadores (Mc 2:16), jejum (2:18), lavar as mãos (Mc 7:1) e o divórcio (Mc 10:2). Questões essas que também eram motivo de polêmica entre os fariseus.

Por exemplo, a possibilidade de divórcio dividia as duas grandes escolas farisáicas a de Hillel (a favor), e a de Shammai (contra). Embora alguns desses debates tenham sido ríspidos e acalorados, provavelmente não foram causadores da morte de Jesus.

Como observam o Professor Gerd Thiessen, Universidade de Heildelberg e Annete Merz, Universidade Utrecht
"a maior proximidade existe, sem dúvida, entre Jesus e os fariseus. Sua crítica de Jesus mostram que eles o avaliam com critérios especiais - como se ele fosse um mestre próximo a eles. K. Berger (Jesus*) resume a oposição e a proximidade da seguinte forma: os fariseus representam uma noção defensiva de pureza. Desse modo, eles estão empenhados em evitar contaminação pela impureza. Jesus, ao contrário, defende uma noção ofensiva de pureza: não é a impureza, mas a pureza que contamina. Mas o motivo fundamental é o mesmo: ambos querem santificar o cotidiano a luz de Deus."
"A relação de Jesus com os fariseus é ambivalente: ao lado de uma grande afinidade nas convicções, encontramos um conflito básico; sinais de relações positivas estão ao lado de indícios de inimizade."[5]

Mas quando Jesus prevê sua morte, ele diz: "Eis que subimos a Jerusalém, e o Filho do homem será entregue aos principais sacerdotes e aos escribas; e eles o condenarão à morte, e o entregarão aos gentios (Marcos 10:33 e também Marcos 8:31). São as únicas menções aos principais sacerdotes antes do episódio da purificação do Templo (Mc 11:15). E, interessante, em nenhum dos dois versículos, os fariseus são citados. E após a expulsão dos vendilhões do Templo, os fariseus praticamente desaparecem da história (surgem apenas na questão do "dar a César o que é de César"), e partir do capítulo 14 eles somem de vez.

O impacto é ainda maior, se analisarmos as narrativas da paixão em Mateus e Lucas. Utilizando ainda o esquema elaborado por Paul Winter [6]

Narrativas da Paixão
Mateus : Chefes dos Sacerdotes e Anciãos (26:3); Chefes dos Sacerdotes (26:14) multidão da parte dos Chefes dos Sacerdotes (26:47), escribas e anciãos (26:57), Chefes dos Sacerdotes e todo o Conselho (26:59) Chefes dos Sacerdotes e anciãos (27:1, 27:12, 27:20), Chefes dos Sacerdotes, escribas e anciãos (27:41), Chefes dos Sacerdotes e fariseus (27:62)

Lucas: Chefes dos Sacerdotes e escribas (22:1), Chefes dos Sacerdotes e Capitães (22:4), Multidão dirigida pelos Chefes dos Sacerdotes, capitães da guarda do templo e anciãos (22:47-52), Chefes dos Sacerdotes e escribas (22:66), Chefes dos Sacerdotes e multidão (23:4), Chefes dos Sacerdotes, dirigentes e o povo (23:13), dirigentes (23:35).

Também em Lucas e Mateus, até no episódio do Templo, e da chegada de Jesus a Jerusalém, ou seja, na fase galiléia do ministério de Jesus, os fariseus são rotineiramente mencionados como seus oponentes.Mas tanto em Lucas como em Mateus, após a expulsão dos vendedores do Templo, as menções aos fariseus se tornam rarefeitas. E quando atingimos as narrativas da prisão, interrogatório, julgamento, prisão e crucificação, os fariseus desaparecem. É o mesmo padrão observado em Marcos.

Nos evangelhos sinóticos (Mateus, Marcos e Lucas) [6], embora as narrativas da paixão mencionem os oponentes de Jesus 28 vezes, os fariseus são citados uma única vez. Enquanto isso, antes da expulsão dos cambistas do Templo, Mateus, Marcos e Lucas referem-se a 37 disputas de Jesus com vários grupos do judaismo, das quais 24 mencionam os fariseus. Dessas 13 vezes em que os fariseus não são citados, 5 se referem a passagem paralela em que Jesus diz aos seus discípulos que, em Jerusalém, os principais sacerdotes matariam o Filho do Homem.

Assim, a expulsão dos cambistas e vendilhões do Templo, representam um ponto de inflexão das narrativas evangélicas. Como observam Theissen & Merz [7], esse fato é revelador, pois os fariseus são os oponentes típicos de Jesus em toda a tradição sinótica, mas estão ausentes nas narrativas da paixão - não só em Marcos, mas em Mateus e Lucas -mesmo estando representados na elite judaica e no Sinédrio. Pelo contrário, os sinóticos chegar "a dar testemunho de uma simpatia de certos fariseus para com Jesus". Esse fato pode ser explicado, ainda segundo Theissen & Merz, se os verdadeiros inimigos mortais de Jesus fossem os saduceus, que devem ter se sentido atingidos pelo ataque de Jesus ao Templo, a qual seus interesses estavam extremamente associados.

Depois do episódio do Templo, os inimigos passa a ser o grupo ligado aos Principais Sacerdotes, associados ao Templo de Jerusalém, a qual, provavelmente, eram Saduceus. São os principais sacerdotes que buscam um modo de mata-lo, prendendo-o a traição (Mc 11:18; Mc 14:1), dão dinheiro a Judas (Mc 14:10), ajuntam uma multidão com espadas e varapaus para prender Jesus (Mc. 14:43), levando-o ao Sumo Sacerdote (Mc. 14:53) e a Pilatos (Mc. 15:1). Ao atacar os vendilhões do Templo, Jesus desencadeou uma série de eventos que levariam a sua crucificação.

É verdade que no Evangelho de João, que é menos simpático aos fariseus que seus antecessores sinóticos, menciona o envolvimento dos fariseus, que junto com os Chefes dos Sacerdotes, convocam o Sinédrio e deliberam sobre Jesus (11:47 e 57), e o prendem (18:2 e35). No entanto, ao relatar o interrogatório, julgamento, condenação e crucificação (19:6, 19:15, 19:21), João menciona apenas os Chefes dos Sacerdotes, juntando-se a companhia dos evangelhos sinóticos. Mais ainda, em João 9:15-16 os fariseus discutem entre si sobre Jesus, "e havia dissensão no meio deles" . Ou seja, também em João, a iniciativa do processo que leva a execução de Jesus é do grupo dos "Chefes dos Sacerdotes", ainda que o durante seu ministério seus oponentes mais recorrentes tivessem sido os fariseus.

Professor David Flusser observa:
"As palavras e as ações de Jesus em Jerusalém, precipitaram a catastrofe. O sacerdócio saduceu, desprezado por todos, encontrou seu único apoio no Templo. Este profeta da Galiléia, diante da multidão reunida para a festa, havia não só previsto a destruição do Santuário, como o término da casta sacerdotal. Ademais explorando os sentimentos amargos sobre o comércio que ali tinha lugar, desferiu um golpe doloroso contra as autoridades. As mesmas, trinta anos mais tarde, entregarão aos romanos Josué, filho de Ananias, por também profetizar a ruína do Templo. Os romanos protegiam com diligência todos os santuários religiosos do Império. Assumiam igualmente a tarefa de proteger os sumos sacerdotes de agotadores oportunos."[8]

As principais figuras envolvidas na crucificação de Jesus, Anás e Caifas, eram, provavelmente, membros do partido saduceu. Os saduceus controlavam não só o sumo-sacerdócio e o templo, mas também o Sinédrio. Em Atos 4, os sacerdotes e os capitães do templo prendem Pedro e João, "doendo-se muito que eles ensinassem o povo e anunciassem em Jesus a ressureição dentre os mortos" (verso 2), sob ordem dos saduceus (que não criam em ressureição). Em Atos 5:17, lemos que "Levantando-se o sumo sacerdote e todos os que estavam com ele (isto é, a seita dos saduceus), encheram-se de inveja, deitaram mão nos apóstolos, e os puseram na prisão pública."

Analisando os Evangelhos e Atos dos Apóstolos junto com as evidências de outras fontes, a exclusão dos fariseus não é mera coincidência. Se estes chegaram a sua redação final entre 70 e 110 DC, quando a Igreja já era majoritariamente gentia, o Templo e sua elite dirigente já não mais existiam, e o cristianismo já estava se transformando em uma religião distinta, não haveria motivo para os evangelistas pouparem os fariseus. Seria muito fácil para Marcos, Lucas, Mateus e João descreverem os fariseus como buscando a execução de Jesus, enfatizando sua participação, afinal, como eles mesmos nos dizem, os fariseus são os oponentes e adversários recorrentes de Cristo em seu ministério na Galiléia. A explicação mais provavel, portanto, é que as fontes e relatos mais antigos, a qual estes evangelhos foram baseados, descreviam os Chefes dos Sacerdotes, ligados ao Templo e aos Saduceus, como os responsáveis pela denúncia e entrega de Jesus a Pôncio Pilatos. Isto faz sentido, porque cabia aos Chefes dos Sacerdotes, como a elite dominante dos países ocupados por Roma, colaborar com seus oficiais, identificando possíveis ameaças a ordem estabelecida e a pax romana".

CONTINUA

Bibliografia e Referências:

[1] David Flusser (1998), Jesus, fls. 48-49.

[2] Geza Vermes (2003), Geza Vermes, A Paixão, fl.114.
[3] Os evangelhos foram escritos, provavelmente, entre a 1ª Guerra Judaica (66-73 DC) e 2ª Guerra Judaica (132-135 DC). No primeiro século DC e início do secundo, houveram inúmeras revoltas, provocadas por auto-proclamados "Reis dos Judeus" e "Messias", que causaram a morte de (dezenas de) milhares de pessoas, dentre os quais milhares de bons soldados e cidadãos de Roma. No mesmo período, a igreja era perseguida e o cristianismo era uma seita ilegal, sendo que alguns oficiais e magistrados suspeitavam que o grupo era formado por agitadores, desleias a Cesar e a Roma. De fato, Aristides, Quadrato, Justino Martir, Melito, Apolinario, e outros, escreveram ao Imperador da época buscando incessantemente provar que os cristãos eram leais, pacíficos e produtivos e perfeitos súditos do Império. Porque, nessas circunstâncias, os cristãos inventariam que seu líder tinha sido um Messias Crucificado, executado como um criminoso político, por magistrados romanos, sob a acusação de Alta Traição? Certamente porque Jesus foi realmente crucificado, por ter sido acusado (justa ou injusta) de se auto-proclamar "Rei dos Judeus, e essas coisas eram fatos bem conhecidos (e problemáticos) que os cristãos tinham que explicar.
[4] Paul Winter, Sobre o Processo de Jesus, fl. 236-240
[5] Gerd Thiessen e Annete Merz (1996), O Jesus Histórico; Um Manual, fl. 162 e 252
[6] Paul Winter (1961), Sobre o Processo de Jesus, fl. 122
[7] Gerd Thiessen e Annete Merz(1996), O Jesus Histórico; Um Manual, fl. 254
[8] David Flusser (1998), Jesus, fl. 113

Links úteis:

Livius (por Jona Van der Lendering) http://www.livius.org/ e Early Christians Writings (por Peter Kirby) http://www.earlychristianwritings.com/index.html

Atualizado em 14.07.2009 (links adicionados, e algumas pequenas alterações no texto)

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