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quarta-feira, 26 de agosto de 2026

 

Estátuas de deuses

Quando pensamos nos deuses do antigo Oriente Próximo, quase sempre imaginamos suas imagens. E isso não é apenas uma projeção moderna: os deuses realmente eram representados. El, Baal, Astarte e Anat aparecem na cultura material do antigo Levante em estátuas, relevos, figuras de terracota e outros objetos associados ao universo religioso da região. Uma imagem divina não era necessariamente um “retrato” no sentido moderno, mas uma representação material relacionada à divindade, ao seu culto e à sua presença. O problema começa quando olhamos para Israel. Afinal, se os deuses ao redor de Israel tinham imagens, por que o Deus de Israel aparentemente não tinha?




A primeira coisa que precisamos fazer é olhar para El. A figura apresentada acima é tradicionalmente identificada como uma representação de El, proveniente de Ugarit, antiga cidade-estado situada na costa da atual Síria. Os textos encontrados em Ugarit apresentam El como uma das grandes divindades do antigo Levante, associado à autoridade suprema e ao conselho divino. A iconografia atribuída a El também é discutida pela pesquisa especializada: há estudos que examinam suas possíveis representações como figura entronizada e outras formas de representação divina. Theodore J. Lewis, “Art and Iconography: Representing Yahwistic Divinity” O ponto que nos interessa, porém, é mais simples: El fazia parte de um mundo religioso no qual uma divindade podia possuir uma representação visual.

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E aqui aparece algo que aproxima El muito mais da Bíblia do que poderia parecer à primeira vista. El — אֵל — é uma antiga palavra semítica para “deus” e aparece também no hebraico bíblico. Está presente em expressões como El Elyon, El Shaddai, El Olam e El Roi, além de aparecer incorporada a numerosos nomes próprios hebraicos. Isso não significa que devamos simplesmente identificar o El de Ugarit com Yahweh. A formação da religião israelita foi um processo histórico muito mais complexo. Significa, entretanto, que a linguagem religiosa de Israel se desenvolveu dentro do mesmo universo cultural semítico no qual El era uma divindade conhecida e cultuada.

E então surge a pergunta inevitável: e Yahweh?

Se El possuía uma imagem, se Baal possuía uma imagem e se as divindades femininas do antigo Levante também podiam ser representadas, seria possível que Yahweh tivesse tido alguma representação visual? Durante muito tempo, a resposta pareceu evidente: não. Afinal, a tradição bíblica condena explicitamente a fabricação de imagens de Deus. O segundo mandamento afirma: “Não farás para ti imagem esculpida”. Mas existe uma dificuldade histórica nessa resposta aparentemente simples: a própria Bíblia descreve Yahweh de maneira profundamente corporal. Yahweh possui olhos, ouvidos, boca, mãos, braços, pés e rosto; ele caminha, desce, sobe, senta-se, fala e vê. Theodore J. Lewis chama atenção justamente para esse paradoxo e observa que a frequência das representações antropomórficas de Yahweh na Bíblia torna perfeitamente legítima a investigação de sua possível iconografia. Theodore J. Lewis — “Art and Iconography: Representing Yahwistic Divinity”

Não temos, entretanto, uma estátua arqueológica que possamos apresentar ao leitor e dizer: “Este é Yahweh.” O que temos são objetos que alguns pesquisadores propuseram relacionar à iconografia de Yahweh — e justamente aí começa uma das partes mais interessantes da história.

Kuntillet ʿAjrud




No sítio arqueológico de Kuntillet ʿAjrud, no nordeste do Sinai, foram encontrados objetos do século VIII a.C. contendo inscrições que mencionam Yahweh. Uma delas contém a famosa expressão geralmente traduzida como “Yahweh e sua Asherah”. A inscrição provocou uma enorme discussão entre os estudiosos porque parece testemunhar uma forma de religião yahwista bastante diferente daquela que conhecemos das formulações bíblicas posteriores. A expressão, entretanto, também é controversa: alguns estudiosos entendem asherah como referência à deusa Asherah; outros defendem que se trata de um objeto ou símbolo cultual associado ao culto de Yahweh. Estudo sobre “Yahweh e sua Asherah” — Korean Journal of Old Testament Studies Estudo sobre Kuntillet ʿAjrud e Asherah — Korean Journal of Old Testament Studies

Mas o que torna Kuntillet ʿAjrud especialmente fascinante para o nosso assunto são os desenhos que aparecem nos mesmos objetos. Durante décadas, alguns pesquisadores interpretaram determinadas figuras como representações de Yahweh e Asherah. A hipótese parecia extraordinária: teríamos, afinal, uma imagem associada ao próprio nome de Yahweh. Desenho de Kuntillet ʿAjrud — Biblical Archaeology Society

Só que existe um problema.

As figuras podem não ser Yahweh.

A interpretação atualmente muito difundida identifica as duas figuras de pé como representações do deus egípcio Bes, enquanto a figura sentada seria simplesmente um músico. Outros pesquisadores continuam discordando dessa identificação e defendem que os personagens podem estar relacionados a Yahweh e Asherah. A discussão continua aberta na literatura especializada.

Portanto, seria exagerado colocar uma legenda sobre a imagem dizendo simplesmente “Yahweh”. O mais correto — e, para o nosso ensaio, muito mais interessante — seria escrever algo como:

Kuntillet ʿAjrud, século VIII a.C. Figuras tradicionalmente propostas por alguns pesquisadores como possíveis representações de Yahweh e Asherah; atualmente, muitos estudiosos identificam as figuras como o deus egípcio Bes e um músico.

A dúvida faz parte da história.

E talvez seja justamente essa dúvida que torne a imagem tão fascinante.

Yahweh e o touro

Existe ainda outra possibilidade iconográfica: o touro.

Alguns estudiosos propuseram que determinadas imagens bovinas encontradas no contexto da religião israelita antiga poderiam estar relacionadas a Yahweh. A hipótese ganha força pelo fato de que a própria Bíblia preserva a memória dos famosos bezerros de ouro de Betel e Dã. A interpretação tradicional é que esses objetos representavam uma apostasia: Israel teria abandonado Yahweh para adorar outro deus. Mas alguns pesquisadores perguntaram se o touro poderia, em determinados contextos, ter funcionado não como representação de um deus estrangeiro, mas como símbolo ou representação do próprio Yahweh.

É uma hipótese que não podemos transformar em certeza arqueológica. Não existe uma inscrição dizendo “este touro é Yahweh”. Mas ela pertence a um debate mais amplo sobre a possibilidade de Yahweh ter recebido representações teriomórficas, isto é, sob formas animais. Thomas Römer, em estudo publicado em 2023, defende precisamente que não deveríamos falar de um “aniconismo original” do culto de Yahweh: segundo sua reconstrução, Yahweh teria sido representado de formas antropomórficas e teriomórficas em fases antigas da religião israelita. Thomas Römer — “Biblical Aniconism? Representing the Gods of Ancient Israel and Judah”

Essa é uma hipótese importante porque muda a pergunta. Em vez de perguntar simplesmente “por que Israel não tinha imagens?”, começamos a perguntar: quando Israel deixou de aceitar imagens de Yahweh — e por quê?

Quando Yahweh perdeu sua imagem?

A ideia de que Israel sempre teria sido uma religião absolutamente anicônica — isto é, uma religião que recusava desde sua origem qualquer representação visual de Yahweh — tornou-se mais difícil de sustentar em parte da pesquisa contemporânea. Thomas Römer argumenta que não devemos falar de um “aniconismo original” de Yahweh. Em sua reconstrução, representações antropomórficas e teriomórficas teriam existido no Reino do Norte e no período do Primeiro Templo; a proibição explícita das imagens teria adquirido sua forma mais característica posteriormente, especialmente no contexto das transformações religiosas posteriores ao exílio babilônico e do desenvolvimento do monoteísmo. Thomas Römer — texto completo

Isso não significa que todos os pesquisadores concordem com essa reconstrução. E tampouco significa que possamos simplesmente afirmar que “os israelitas adoravam estátuas de Yahweh”. A questão é muito mais delicada. O que a documentação parece mostrar é que iconismo e aniconismo podiam coexistir no antigo Oriente Próximo e que a relação entre uma imagem e a divindade representada não era necessariamente entendida pelos antigos da mesma maneira que hoje imaginamos. Römer chama atenção precisamente para essa coexistência entre representações materiais e tendências anicônicas.

Talvez, portanto, a história não seja a história de uma religião que nasceu sem imagens e permaneceu assim. Talvez seja a história de uma religião que progressivamente redefiniu o lugar da imagem na relação entre Deus e o mundo.

E é nesse momento que Gênesis nos oferece uma frase extraordinária.

“Façamos o homem à nossa imagem, como nossa semelhança.”
Gênesis 1,26

E logo depois:

“Deus criou o homem à sua imagem; à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou.”
Gênesis 1,27.

A palavra hebraica utilizada para “imagem” é ṣelem — צלם. E é difícil não perceber a força dessa formulação dentro de um mundo antigo no qual as divindades possuíam imagens materiais. Não precisamos afirmar que o autor de Gênesis estava conscientemente respondendo a uma determinada estátua de El ou de Yahweh. Não temos evidência para uma afirmação tão específica. Mas podemos perceber que o texto utiliza uma linguagem de imagem e representação para falar da humanidade.

E aqui ocorre uma inversão extraordinária.

Durante toda a nossa investigação procuramos a imagem de Deus.

Procuramos em Ugarit.

Encontramos El.

Procuramos em Israel.

Encontramos objetos e figuras cuja identificação continua discutida.

Procuramos Yahweh.

Não encontramos uma estátua que possamos identificar com segurança.

E então Gênesis parece responder de uma maneira inesperada:

a imagem de Deus é o ser humano.

A questão deixa de ser simplesmente saber se existiu uma estátua de Yahweh. O que importa é perceber que, no desenvolvimento da tradição bíblica, a ideia de representação divina sofre uma transformação profunda. A imagem que antes procurávamos numa estátua passa a ser encontrada na própria humanidade. A imagem de Deus deixa de ser necessariamente um objeto colocado diante do homem e passa a ser o homem diante do mundo.

Não sabemos qual era o rosto de Yahweh.

Talvez algumas das imagens que foram propostas como representações dele estejam realmente relacionadas ao antigo culto yahwista. Talvez não. A figura de Kuntillet ʿAjrud pode ser Yahweh — mas pode também ser Bes. O touro pode ter participado de uma antiga iconografia yahwista — mas essa interpretação permanece uma hipótese. A pesquisa continua discutindo essas possibilidades. E justamente por isso não precisamos transformar uma conjectura em certeza para perceber a importância do problema.

O que podemos dizer com muito mais segurança é que a religião de Israel nasceu dentro de um mundo no qual os deuses tinham imagens, que El possuía uma longa tradição iconográfica, que Yahweh é descrito de maneira profundamente antropomórfica na Bíblia e que existem evidências arqueológicas que alimentaram uma discussão séria sobre sua possível representação visual. A questão histórica não é mais simplesmente “Israel tinha ou não tinha imagens?”, mas como e quando a representação de Yahweh foi sendo rejeitada e substituída por uma concepção cada vez mais transcendente e anicônica de Deus.

E então voltamos à frase do Gênesis. Talvez Deus não tenha simplesmente perdido a imagem. Talvez a imagem tenha mudado de lugar. Saiu da pedra. Saiu da estátua. Saiu do templo. E, na linguagem de Gênesis, ganhou pernas. Começou a andar. “Deus criou o homem à sua imagem.” Pois é isso.“Deus” tem cara.

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