Estudos sobre Religião - Biblioblog

sábado, 4 de março de 2017

Imperador Cômodo, como Hércules,  Museu Capitolino, via wikicommons
Continuando nossa série com cristãos poderosos nos primeiros século do cristianismo, vamos abordar duas figuras que viveram em Roma no final do século II. 

Márcia, a amante do Imperador

Márcia Aurélia Ceionia Demétria, uma ex-escrava, liberta do Imperador Lúcio Vero, pode nos ser melhor apresentada por seu contemporâneo, Cássio Dio (155-235 DC), que exerceu as funções de governador de Esmirna, cônsul de Roma e procônsul da Africa e depois da Panônia (atual Hungria), e durante o governo de Comodo, atuava como Senador.

Havia uma certa Marcia, amante de Quadrato (um dos homens mortos naquele tempo) e Ecleto, seu mordomo. O último se tornou também mordomo de Cômodo. Enquanto a primeira  se tornou amante de Cômodo e depois a esposa de Ecleto  e os viu também perecer por violência. Conta-se que que ela favoreceu grandemente os cristãos e lhes rendeu muitas bondades, na medida em que ela poderia fazer qualquer coisa com Comodo. [1] 
Cômodo , filho do Imperador Marco Aurélio,  reinou entre 180-192 DC, sendo o último governante da dinastia Antonina. Seu reinado, conforme apresentado pelas fontes disponíveis, como Cassio Dio e o autor grego Herodiano (170-240 DC), entre outras foi catastrófico. Como resumem os professores Eric Cline e Mark Graham, "Cômodo foi o pior Imperador em mais de um século" [2]. Essa deficiência como governante, de certa forma, abriu caminho para que Márcia fosse muito mais que uma amante do Imperador, mas alguém que exerceu poder efetivo de várias maneiras.

Como observa a Professora Anise Strong, da Universidade de Western Michigan:

 Marcia was an imperial freedwoman and probably originally belonged to the household of the Emperor Lucius Verus, who served jointly as emperor with the more famous Marcus Aurelius. She was likely born in the late 150s or early 160s CE, although we have no direct evidence on this point. According to a dedicatory inscription from the Italian town of Anagnia, she was the daughter of an imperial freedman. She may have been raised in Rome by a wealthy eunuch named Hyacinthus, who was also the Christian presbyter of Pope Victor I (Tradução)  Márcia era uma escrava imperial liberta que pertencia provavelmente a casa do Imperador Lúcio Vero, que reinou conjuntamente com o mais famoso Marco Aurélio. Ela nasceu provavelmente no final dos anos 150 ou início dos anos 160, ainda que não tenhamos nenhuma evidência nesse ponto. De acordo com um inscrição dedicatória da cidade italiana de Anagnia, ela era filha de um liberto imperial. Ela pode ter sido criada em Roma por um eunuco rico chamado Hiacinto (Jacinto), que era também presbítero do Papa Vitor I [3]
A inscrição a qual a Professora Anise se refere, é trancrita abaixo;
A Márcia Aurélia Ceonia Demétria, a stolata femina, em honra da dedicação dos banhos termais os quais, após muito tempo, foram restaurados a sua condição original as expensas dela, o senado e o povo de Anagnia, decidiram que uma estátua seja erigida, em lembrança de sua dedicação, ela deu 5 denários aos decuriões, 2 denários para os sacerdotes de Augusto, e um denário para cada um do povo, além de um banquete para todos [4]
A moça de Anagnia, filha de um ex-escravo e educada por um eunuco cristão, auxiliar do Bispo de Roma, no alto de sua trajetória improvável, se torna a concubina favorita do Imperador. Herodiano nos conta que Márcia tratada, na prática,  como sua esposa, (...) com todas as honra imperiais, exceto o fogo sagrado (...)"  [5]. Poucas alpinistas sociais foram tão bem sucedidas. Para marcar sua chegada ao topo, a filha do escravo liberto concede a sua cidade natal favores, obras públicas e banquetes.  Professora Anise Strong  detalha como: 

Marcia’s first known sexual partner was the consul Marcus Ummidius Quadratus, who was executed on charges of attempted assassination in 182 CE. After Quadratus’ death, she became Commodus’ concubine from 182 until his death at the end of 192. At some point during this time period, she married Commodus’ cubicularius, or chamberlain, a man named Eclectus. However, this did not affect her ongoing sexual liaison with Commodus (Tradução) O primeiro amante conhecido de Márcia foi o cônsul Marcos Umidio Quadrado, que foi executado sob acusação de traição em 182 DC. Depois da morte de Quadrato, ela se tornou concubina de Comodo do ano 182 DC até sua morte no final do ano 192 DC. Em algum momento neste periodo, ela casou com o "Cubiculario", ou Mordomo de Comodo, um homem chamado Ecleto. Entretanto isso não afetou seu relacionamento sexual com Comodo.[6]


Desta forma, Márcia, após se tornar amante de um cônsul, não só não compartilha sua desgraça, mas consegue se tornar concubina do próprio Imperador, que executara seu antigo protetor. A conspiração resultou na execução do cônsul Marcus Umidio Quadrado, envolveu também até mesmo Lucilla, a irmã do Imperador. Lucilla foi exilada para ilha de Capri, e morta no ano seguinte (182 DC) por um centurião enviado por Cômodo. Por esta época a esposa de Comodo, a Imperatriz Brutia Crispina, começava a perder prestígio na corte. Assim, com o afastamento ou enfraquecimento das mulheres da família imperial, Márcia se torna, na prática, a Imperatriz de Roma, com grande influência sobre Cômodo. 

Em 190 DC, ela chegaria, talvez, ao auge de seu poder. Um dos ex-mordomos do Imperador, chamado Marco Aurélio Cleander, havia chegado ao posto de Comandante da Guarda Pretoriana (a guarda imperial, unidade de elite, sediada em Roma), e um dos mais importantes conselheiros do Imperador. Nada disso, como típico naqueles tempos, sem conspirar e tramar intrigas contra seus oponentes, enriquecer as custas da corrupção, vender favores e cargos públicos, bem como distribuir dinheiro ao Imperador, a cidade de Roma e outras províncias. Em junho de 190 DC, houve fome em Roma, e o povo culpou Cleander, e um grande tumulto ocorreu na cidade. Cleander enviou tropas para conter os manifestantes, mas isso só tornou o tumulto em uma quase rebelião. Márcia teve um papel fundamental em eliminar Cleander, aplacando a ira da população. Cassio Dio nos conta que:


Eles já se aproximavam de Cômodo, a quem ninguém manteve informado do que estava acontecendo, quando Márcia, a notória esposa de Quadrado, reportou as novas a ele. Cômodo ficou tão perturbado (ele sempre foi o maior dos covardes) que ele subitamente ordenou que Cleander fosse executado, assim como seu filho, que estava aos cuidados do Imperador [7]. 
No entanto, com o passar tempo, o comportamento do Imperador ia se tornando cada vez mais errático. Cômodo, que não só gostava das lutas de gladiadores, mas se considerava uma Gladiador, teve um ideia pitoresca: no dia da "posse" dos cônsules do ano de 193 DC, Cômodo pretendia iniciar o cortejo não do Palácio Imperial, mas do quartel dos gladiadores, acompanhado por eles. Conforme o relato de Herodiano:
Ele anunciou suas intenções a Márcia, a quem, de todas as suas amantes, ele tinha em maior afeto; Ele não ocultava nada daquela mulher, como se ela fosse sua esposa legítima, permitindo a ela as honras imperiais, com exceção do fogo sagrado. Quando ela foi informada de seu plano, tão desarrazoado e indigno de um Imperador, se jogou aos seus pés, advertindo, com lágrimas, que não trouxesse tal desgraça ao Império Romano, nem pusesse em risco sua vida expondo-se a gladiadores e homens desesperados. Após muito implorar, não conseguindo persuadir o imperador a abandonar seus planos, ela deixou sua presença, ainda em pranto. Cômodo então convocou Laeto, o prefeito pretoriano, e Ecleto, seu mordomo de quarto, ordenando que fizessem os arranjos para que passasse a noite no quartel dos gladiadores, lhes dizendo que deixaria os sacrifícios festivos de lá, e se apresentaria aos romanos sob armas. E estes homens também lhe imploraram para que nada fizesse que fosse indigno da posição de Imperador [8].
A reação de seus associados deixou Cômodo profundamente magoado, e assim, Continua Herodiano, o Imperador decidiu agir de forma drástica. Fez uma lista de pessoas que seriam executadas, começando por Márcia, Laeto, Ecleto, muitos senadores, e todos os seus auxiliares que tinham servido seu pai, confiscaria seus bens e entregaria aos soldados da Guarda Pretoriana. No entanto, a lista chegou as mãos de Márcia. Tanto Herodiano, como Cássio Dio, contam que ela se aliou a Ecleto e Laeto, entre outros, para conspirar contra Cômodo. Conforme Cássio Dio:
Por estas razões Laeto e Ecleto o atacaram, após terem feito Márcia sua confidente. Sendo assim, no último dia do ano, a noite, quando as pessoas estavam ocupadas com o feriado, eles fizeram Márcia administrar veneno em um pouco de carne. Mas o uso imoderado de vinho e banho, a qual se habituara, o impediram de sucumbir de uma vez, e ao invés vomitou parte dele; e suspeitando então da verdade, ele pronunciou algumas ameaças. Então eles mandaram Narciso, um atleta, contra ele, e fizeram que o estrangula-se enquanto se banhava. Este foi o fim de Cômodo, após ter reinado por doze anos, nove meses e quatorze dias. Ele viveu 31 anos e quatro meses, e com ele a linhagem dos Aurelios genuínos se extinguiu [9]
Laeto, Ecleto e Márcia agiram rapidamente e pediram a um dos mais respeitados generais romanos e que já havia governado várias províncias - a assumir o trono. Pertinax, o escolhido, foi aceito pelos senadores, o povo, e os oficiais e legionários romanos nas províncias. Contudo, a guarda pretoriana rapidamente passou a ve-lo com desconfiança, quando não lhes ofereceu o donativo (presente em dinheiro, dado pelo Imperador as tropas) que esperavam. Pertinax iniciou um programa de reforma e reestruturação do Império, e tentou restabelecer a hierarquia e disciplina no exército. Parte da Guarda Pretoriana se revoltou, e antes que Pertinax pudesse buscar auxílio do exército provincial, e assassinou o Imperador (após 87 dias de governo). [10]

No caos que se seguiu, o sogro de Pertinax, Flavio Sulpiciano, e o Senador Dídio Juliano passaram a disputar o apoio da Guarda Pretoriana de uma forma pitoresca, fizeram um leilão para quem oferecia o maior donativo aos soldados. Dídio Juliano, ganhou o trono, oferecendo 25 mil sestércios para cada pretoriano. Juliano reinou apenas dois meses, até ser destronado por Sétimo Severo (193-211 DC), que estabilizaria o Império e estabeleceria a dinastia severa, no trono até 235 DC. Dídio Juliano, no entanto, em dos poucos atos de seu breve governo, ordenou a execução de Márcia e seu novo marido, Ecleto.[10]


O dia em que Márcia, sem saber, mudou a história da Igreja


Pães e Peixes, afresco nas Catacumbas de São Calisto, via wikicommons
Mesmo com uma vida cristã pouco "ortodoxa", Márcia não esqueceu suas origens. Ela vivia em uma condição em que os princípios éticos cristãos certamente condenavam como pecaminosa. Cômodo ficou conhecido como um homem devasso, violento e louco, semelhante a Calígula ou Nero. Entretanto, sua companheira atuou decisivamente em favor do cristianismo. Márcia parece ter sido importante em influenciar as políticas do Império  de forma favorável aos cristãos.

Eusébio de Cesareia (263-339 DC)  afirma que, sob Cômodo, os cristão viveram em tempos relativamente tranquilos [11]. Como observou o Professor Thomas Oden (1931-2016), da Drew University, "(...)aparentemente, através dos esforços de sua companheira (concubina ou amante) Márcia, Comodo foi conduzido a uma visão mais conciliatória em relação ao cristianismo, ao contrário de seus predecessores (...)" [12], ou, nas palavras de Anise Strong "(...) Há uma notável falta de relatos de mártires cristãos durante o Reinado de Comodo (...)" [13].

Um autor cristão,  também contemporâneo, chamado Hipólito de Roma, em sua Refutação de Todas as Heresias, do início do século III, nos apresenta uma situação específica em que Márcia favoreceu os cristãos, e que teria consequências tão profundas, quanto inesperadas, para o futuro da Igreja. 

Márcia, uma concubina de Cômodo, que era uma mulher que amava a Deus, e desejosa de realizar alguma boa obra, convidou em sua presença o bendito Victor, que naquela época era bispo da Igreja, e perguntou-lhe quais eram os mártires que estavam na Sardenha. E ele entregou-lhe os nomes de todos, mas não deu o nome de Calisto, sabendo os atos vilanescos que ele tinha arriscado. Márcia, obtendo seu pedido de Cômodo, entregou uma carta de emancipação a um certo eunuco chamado Hiacinto (Jacinto), já avançado em dias. E ele, ao recebê-la, navegou para a Sardenha, e tendo entregue a carta aquele que na época era governador do território, conseguiu que os mártires fossem libertados, com exceção de Calisto. O próprio Calisto, caindo de joelhos e chorando, suplicou que ele também pudesse ser libertado. Hiacinto, portanto, constrangido pela importunação do cativo, solicitou ao governador que concedesse a sua libertação, alegando que Márcia também lhe dera permissão para liberar Calisto e que faria arranjos para que não houvesse quaisquer riscos. Desta forma, o governador foi persuadido e libertou Calisto também. [14]
Jacinto, que havia criado Márcia, é a provável ligação entre ela e o Bispo Victor, para obter a libertação de vários cristãos que estavam condenados a sofrer nas minas. Jacinto, na condição de "pai de criação" de Márcia, e presbítero do Bispo Vitor, tinha as conexões necessárias tanto na corte como na liderança cristã. O fato de Jacinto, Marcia, e vários escravos e libertos imperais, como Carpóforo (que apresentaremos abaixo) e outros que serão mencionados nos posts futuros, indicam que o cristianismo conseguiu avançar significativamente na própria casa imperial.

Mas quem era Calisto?

Involuntariamente, Marcia seria decisiva em um conflito no seio da Igreja de Roma e, em última análise, para toda a cristandade. Calisto, a qual Hipólito menciona, era um jovem escravo de um liberto imperial chamado Carpóforo, que era cristão e muito rico. Carpóforo encarregou, (ou apenas permitiu) Calisto de captar depósitos do público, no bairro Aventino, em Roma. Muitos judeus e cristãos (e dentre estes, muitas víuvas) faziam parte de sua clientela. A atuação de Calisto como banqueiro, nos é apresentada por Hipolito como uma mistura de gestão temerária com gestão fraudulenta, ou seja, escolhas ruins em termos de empréstimos, combinadas com uso dos recursos em seu próprio proveito. O Professor de Economia da Universidade Rei Juan Carlos de Madri, Jesus Huerta de Soto acrescenta que o ambiente economico não era favorável "(...) depois de um período de forte expansão inflacionária seguido de uma grave crise de confiança, perda do poder de compra do dinheiro e falência de várias empresas comerciais e financeiras, que teve lugar sob a governação do Imperador Cômodo de 185 a 190 de nossa era (...)" [15]. 


Túmulo de Santa Cecília (sec III DC). Escultura de Stefano Moderno, 1599. Inicialmente na Catacumba de São Calisto depois transferido para Igreja de Santa Cecília de Trastevere, via wikicommons












O Banco faliu, e Calisto tentou fugir de Roma, indo para Porto, na margens do Tibre com a intenção de entrar no primeiro navio disponivel. Carpóforo foi atrás de Calisto e o interceptou na saída do porto. Calisto se jogou na água para tentar escapar, mas mesmo assim foi capturado. Carpóforo rebaixou Calisto a serviços braçais e penosos, tendo que mover uma pesada pedra de moinho, dia após dia, continuamente. Os depositantes do Banco, contudo, foram até Carpóforo e pediram que libertasse Calisto, na esperança que ele pudesse, de alguma forma, recuperar parte dos recursos. Carpóforo atendeu o pedido deles. Calisto, em sua nova missão de recuperação de créditos, buscou alguns de seus clientes judeus, de uma forma inusitada. Causou tumultos, no sabádo, em sinagogas, tentando constranger os devedores. Novo fracasso. A comunidade judaica, enfurecida com tal sacrilégio, levou o caso ao Prefeito Fusciano, que acoitou Calisto e o enviou as minas da Sardenha [14], praticamente uma sentença de morte. Como observa Thomas Craugwell, mesmo o homem mais forte não sobreviveria mais que um ano aos duros trabalhos, ar sufocante e pouco comida [17]. 

Ao conseguir comover Jacinto, Calisto escapou da morte certa. O Bispo Vitor, temendo as consequências da volta de Calisto a Roma, o manteve distante da cidade. Muitos anos depois, Calisto voltaria a Roma como assistente de um certo Zeferino. Vitor morreu em 199 DC, e a Igreja de Roma elegeu Zeferino como seu Bispo. Zeferino nomeou Calisto diácono e o encarregou de organizar um Cemitério, o que ele fez bem, pois as Catacumbas de São Calisto existem até hoje. Zeferino morreu no ano de 217 DC e o impensável aconteceu, Calisto, o escravo desonesto, banqueiro falido, e prisioneiro medroso, foi eleito Papa [14]. Papa Calisto. Para muitos membros da Igreja de Roma e de outras partes do Império, a eleição de Calisto deve ter sido como a vitória de Donald Trump, muitos séculos depois.

Um dos abismados foi Hipólito de Roma. O governo do Bispo Vitor já havia sido um tempo de controvérsias, em que a Igreja  de Roma entrou em conflito com as Igrejas da Asia Menor, como já falamos aqui no Adcummulus, em um post sobre o Apóstolo Filipe, por conta da data da Pascoa. O mandato de Zeferino também foi tumultuado, com o reinicio da perseguição, e  movimentos como o Montanismo e Sabelianismo, inicialmente bem recebidos em Roma e posteriormente considerados heréticos, ganhando terreno. 

Os temores de Hipolito se tornaram em rebelião aberta quando Calisto elaborou um Édito permitindo que cristãos batizados que haviam cometido pecados considerados graves, como adultério ou mesmo assassinato, pudessem ser readmitidos a comunhão se demonstrassem arrependimento e confessassem seus pecados. Bispos, presbiteros e diaconos em segundo ou terceiro casamento, poderiam manter seu ministério. Mulheres, principalmente de posição social mais elevada, que não conseguiam um casamento com homens cristãos do mesmo nível social, poderiam se unir a seus servos e escravos. Tertuliano, em Cartago, também não gostou da proposta, que também foi seguida pelo Bispo local, e escreveu um tratado "De Pudicitia" em que crítica o referido Édito. Hipolito entende tais concessões uma ameaça ao caráter santo da Igreja. Repreende Calisto por seu ensino de que a Igreja era como uma Arca de Noé, "(...) que foi feita como um símbolo da Igreja, em que os cães, lobos, corvos, e todos os seres limpos e imundos, e assim ele alega que seja o caso de ocorrer que a Igreja seja assim (...)" .[14]

A história, nesse caso, foi escrita pelos inimigos do Bispo Calisto. Nós temos praticamente uma fonte histórica, e a fonte é enviesada (como a grande maioria das fontes históricas), então devemos reconhecer os limites do conhecimento históricos. Os leitores do adcummulus são deixados entre duas opções: entender que Calisto foi um homem impio que conseguiu enganar a todos, e ser reconhecido como Bispo e depois Santo, e que sua trajetória foi uma afronta a natureza da verdadeira Igreja, que deve ser pura; ou, como este blogueiro, podemos também chegar a conclusão, tentativamente, que Calisto, por suas muitas falhas, seus sofrimentos, e sua vida pecaminosa, tenha realmente mudado e concluído que a natureza humana é decaida, dependente da misericordia de Deus, e portanto, antes de tudo, a Igreja deve acolher. Seja como for, as visões de Hipolito e Calisto, sempre conviveram na Igreja, e não só se antagonizaram, mas se complementaram muitas vezes. O cristianismo sempre enfatizou o recomeço, a renovação. Assim, Pedro que negou a Jesus, pode virar "pescador de homens", e os discipulos que fugiram na crucificação, puderam virar apóstolos da ressureição. para trazer os Zaqueus e as Madalenas do mundo. No entanto, o evangelho também prega o tomar a cruz e se afastar de tudo que há no "mundo" - "a cobiça da carne,, a cobiça dos olhos, e a ostentação de bens". A tensão entre exigir um padrão ético elevado e acolher os que caem, foi um elemento fundamental na vitalidade do cristianismo, e na sua capacidade de renovação, sendo parte original do evangelho. "O Espírito, na verdade, esta pronto, mas a carne é fraca", foi uma limitação presente para Igreja em toda sua história. 

Referências Bibliográficas
[1] Cassio Dio, História Romana, Livro 73:4), acessado em 02.03.2017, disponível em 
http://penelope.uchicago.edu/Thayer/E/Roman/Texts/Cassius_Dio/73*.html,   
[2] Eric H Cline e Mark W Graham (2011), Impérios Antigos, da Mesopotâmia a Origem do Islã, Editora Madras, fl. 329
[3] Anise K Strong (2014) A Christian Concubine in Commodus Court? EuGesta (Journal of Gender Studies), n° 4 2014, 238-259, fls. 242-243, acessado em 25.02.2017.
[4] Laura Van Abenna (2008), The Autonomy and Influence of Roman Women in the Late First/early Second, fl. 50. Universidade de Wisconsin-Madison, tese de doutorado. Inscrição catalogada no Corpus Inscriptum Latinarum (CIL) 10.5918.
[5] Herodiano, Historia Romana, 1;16.4http://www.livius.org/sources/content/herodian-s-roman-history/herodian-1.16/, acessado em 02.03.2017
[6]  Anise K Strong (2014) A Christian Concubine in Commodus Court? EuGesta (Journal of Gender Studies), n° 4 2014, 238-259, fls. 242-243, acessado em 25.02.2017
[7] Cassio Dio, História Romana, Livro 73:13, acessado em 02.03.2017, disponível em 
http://penelope.uchicago.edu/Thayer/E/Roman/Texts/Cassius_Dio/73*.html
[8] Herodiano, Historia Romana, 1:16-17http://www.livius.org/sources/content/herodian-s-roman-history/herodian-1.16/, acessado em 02.03.2017
[9]  Cassio Dio, História Romana 73:22.4, acessado em 01.03.2017,  disponível em 
http://penelope.uchicago.edu/Thayer/E/Roman/Texts/Cassius_Dio/73*.html
[10] cf Cassio Dio, História Romana 74, acessado em 01.03.2017,  disponível em http://penelope.uchicago.edu/Thayer/E/Roman/Texts/Cassius_Dio/74*.html e Herodiano, Historia Romana 2:1-8http://www.livius.org/sources/content/herodian-s-roman-history/herodian-2.1/ 
[11] Eusébio de Cesaréia, História Eclesiastica 5.21.1, acessado em 27.02.2017, disponível em http://www.newadvent.org/fathers/250105.htm
[12] Thomas C Oden (2011), Early Libian Christianity, fl. 113
[13] Anise K Strong (2016), Prostitutes and Matrons in the Roman world, fl, 90
[14] Hipólito de Roma, Refutação de todas as Heresias Livro 9, capitulo 7,  http://www.newadvent.org/fathers/050109.htm, o relato que se segue a respeito de Calisto segue, em linhas gerais, a descrição de Hipolito.
[15] Jesus Huerta de Soto (2012), Moeda, Crédito Bancário e Ciclos Economicos, fls. 78-79
[16] Thomas Craugwell (2006), Saints Behaving Badly, fl. 13

sábado, 4 de fevereiro de 2017

Faz uns dez anos, li uma coluna do jornalista Mauro Santyanna que falava de como o Pompeu, o Grande, subjugou os piratas da Cílicia, e como a combinação de uma ação repressiva resoluta do estado e a presença de liderança com sensibilidade social resolveu um dos maiores problemas de "criminalidade" da história antiga por séculos.Não acho mais o artigo do Mauro Santyanna em lugar nenhum, mas a idéia vai render um post.


A situação reflete um paralelo interessante com o estado da segurança pública no Brasil. Conforme dados referentes a 2015, constantes no Anuário Brasileiro da Segurança Pública de 2016, publicação do Forum Brasileiro de Segurança Pública. Segundo os dados apresentados pelo anuário 58.467 pessoas sofreram morte violenta - por homicídio doloso, latrocínio, lesão corporal seguida de morte ou em  decorrência de intervenções policiais. A cada 9 minutos, uma pessoa morreu assassinada no Brasil em 2015 [1]. A publicação compara o número de mortes por assassinato no Brasil entre 2011 a 2015, estimadas em 279.567, com os 259.124 mortes verificadas na Guerra Civil da Síria em período equivalente [1]. Mais da metade dos cidadãos assassinados (54 %), tem entre 15-24 anos, e 73 % são negros e pardos. Além disso, se somam 45.460 estupros (um cada 12 minutos), cerca de um milhão de carros roubados ou furtados nos anos de 2014-2015[1]. O Brasil, em suas três esferas de governo, gasta R$ 76,3 bilhões com os custos da violência, ou 1,38 % do PIB. Disto resulta, que um país com cerca de 552 mil policiais, tenha quase o mesmo número de vigilantes ativos (519.014). A população, amedrontada, faz o que pode, e 76 % tem medo de morrer assassinado, o que resulta em profundo ressentimento em relação garantias e direitos fundamentais dos criminosos, 57 % acreditam que "bandido bom, é bandido morto"[1].

Mosaico de um Trieme romano, Tunísia. via wikipedia commons
Conforme Plutarco de Quironea, (45-120 DC), por volta do ano 75 A.C, o mediterrâneo estava infestado por piratas, que tinham sua base na região da Cilícia, sul da atual Turquia. Em face da lenta decadência do Império Seleucida, a partir do ano 150 DC, e da queda de Cartago após sua derrota nas  guerras punica, as condições se tornaram propícias para as atividades de pilhagem. Posteriormente, as duas primeiras guerras entre os romanos e Rei Mitridades VI do Ponto, nos anos 80 AC, contribuíram ainda mais para desestabilizar a região. 


Os dois principais relatos em relação a atividade dos piratas são o de Plutarco (Vidas Paralelas, Pompeu, 24-28), escrito por volta do ano 100 DC, e Apiano de Alexandria (95-165 DC), no livro 12, §91-96, de sua Historia Romana, escrito entre 120 a 160 DC [2]. Em face de não serem fontes contemporâneas dos eventos, são extremamente relevantes as alusões aos eventos e personagens contidos no Discurso de Marcos Tulio Cícero, Pro Lege Manilia, proferido em 66 AC [3]. Todos esses relatos concordam entre si nos seus fatos fundamentais, e sua historicidade será presumida à grosso modo nos seus elementos básicos. Abaixo serão transcritos e comentados partes do relato de Plutarco, sendo os demais relatos mencionados ocasionalmente, junto com as analogias a situação brasileira. Nos diz Plutarco:
(...) O poder dos corsários do mar, que começou nas costas da Sicília, do qual no começo não fizeram caso porque não se aperceberam, veio a tomar corpo e aumentar no tempo da guerra contra o rei Mitridates, quando se alugaram aos serviços desse rei. E os romanos, impedidos com suas guerras civis e combatendo entre si às portas da cidade de Roma, deixando o mar sem guarda, isto levou os corsários adiante em seus propósitos e deu-lhes coragem para ir além do que já haviam feito, de sorte que não somente destruíam os navegantes, indo e vindo pelo mar como forçavam também as ilhas e cidades marítimas, pelo que já havia até homens opulentos e de antiga nobreza, e que eram tidos como pessoas conceituadas, que embarcavam em navios dos corsários e se uniam a eles, como se a pirataria se tivesse tornado louvável e honesta,[2]

Neste interim, os piratas da Cílicia se tornaram extremamente organizados e apresentavam um desafio para os governos do Mediterrâneo Oriental, nenhum dos quais com condições navais de opor-se a eles. As comunidades tiveram que firmar acordos e fazer concessões aos piratas. Além disso, como observa o Professor Jona Lendering, "desesperados de todos os países afluiram para aquelas regiões, e começaram nova vida como piratas"[4] , uma vez que as constantes guerras deixaram regiões inteiras em ruína econômica, como a ilha de Creta. Por fim, além da pilhagem de navios e cidades costeiras, os piratas passaram a ter como sua principal atividade o tráfico de escravos, e seus cativos eram vendidos em mercados como Delos. Nesta época, Roma demandava grande e crescente quantidade de escravos, já que, na Italia, as grandes fazendas dos senadores e cavaleiros precisavam de mão de obra intensiva (com o inconveniente adicional dos escravos retirarem as oportunidades de trabalho dos romanos livres). Sendo assim, Roma evitou o quanto pode confrontar os piratas. Semelhantemente, no Brasil do sec. XXI, o crime organizado se beneficia das fraquezas dos governos estaduais, (a maioria não capacitada para enfrenta-lo), da falta de perspectivas econômicas, (após várias décadas perdidas), de populações empobrecidas e com pouca chance de absorção no mercado de trabalho, e das conveniências do sistema politico e econômico que frequentemente se beneficia do crime organizado, na forma de suborno ou apoios políticos, e estabelece alianças tácitas ou explicitas.

Levantaram os piratas, em vários lugares, arsenais, portos e torres de vigia para fazer sinais com fogo ao longe, das praias fortificadas, e além disso, formaram-se frotas de navios, compostas não somente de bons e fortes galeões para o remo, com pilotos astutos e marinheiros espertos, com navios ligeiros para servir na ocasião precisa, mas também enfeitados profusamente, o que os tornava odiados mais ainda pela sua superfluidade, não temendo o perigo de suas forças; pois tinham as popas de suas galeras todas douradas, os tapetes e cobertores de púrpura, os remos prateados,’ como se tivessem prazer em fazer demonstração de sua pilhagem. Não se viam nem se ouviam por todos os lados das costas senão sons de instrumentos de música, canções, banquetes e festins, prisões de capitães e de pessoas de qualidades, resgates de mil prisioneiros, todas aquelas coisas se faziam, para a desonra e vergonha do povo romano. Possuíam já uns mil navios e já haviam tomado umas quatrocentas cidades, onde destruíram e roubaram vários templos, que até então jamais haviam sido poluídos nem pilhados, como o dos Gêmeos na ilha de Claros, o de Samotrá-cia (23), o de Ceres na cidade de Hermíona, de Esculápio em Epidauro, os de Netuno em Istmo, em Tanara, e na Calábria, os de Apoio em Actium, na ilha de Leucá-dia, os de Juno em Samos, em Argos e na Leucânia.

Além de organizados, bem armados e insolentes, os piratas se tornavam cada vez mais ousados. Possuiam uma frota poderosa, tripulações capacitadas e seus cofres eram irrigados com crescente fluxo de recursos de suas atividades. Possuiam 1000 navios e exerciam domínio sobre 500 cidades. Neste ponto, pode ser estabelecida outra analogia com a criminalidade brasileira. O domínio efetivo de amplas porções de território urbano, principalmente nas periferias e comunidades pobres, em geral desprovidas de serviços públicos e atuação do estado. Em Porto Alegre, por exemplo, facções criminosas dominam 38 dos 83 bairros, segundo reportagem do G1. como nos relata Plutarco:

 Além das insolências e injúrias que esses piratas faziam aos romanos sobre o mar, ainda desembarcavam em terra e iam espreitar os caminhos, arruinando e destruindo suas casas de campo, que se encontravam ao longo das praias e capturaram uma vez dois pretores romanos, Sextílio e Belino, vestidos com seus longos trajes de púrpura e acompanhados de seus sargentos e oficiais. Também foi assaltada por eles a filha de Antônio, personagem que havia recebido as honras do triunfo, quando ela ia para os campos, tendo sido resgatada por uma grande quantia de dinheiro; mas onde demonstravam mais desdém e sarcasmo, era quando aprisionavam alguém que se punha a reclamar, dizendo ser cidadão romano e dava seu nome; então eles fingiam estar admirados e ter grande medo; batiam as mãos sobre as coxas dos prisioneiros e se punham de joelhos diante dele, suplicando que os perdoasse. O pobre prisioneiro, pensando que essa comédia era sincera, vendo-os humildes e disfarçando tão bem assim, vinham alguns que lhe punham sapatos nos pés e outros que o vestiam com um traje longo à moda romana, para que, diziam eles, não fosse outra vez estranhado; depois, quando haviam zombado bastante dele, no que sentiam grande prazer, finalmente, em alto mar, atiravam fora do navio uma escada e mandavam que o prisioneiro descesse e fosse em boa hora; e se não quisesse descer por si mesmo, eles o atiravam à forca no mar e o faziam assim afogar. Com o seu poder, os ladrões ocupavam e tomavam inteiramente o mar Mediterrâneo em sua sujeição, de tal forma que não havia mercador que pudesse por ali navegar [2].
Denário com efigie de Gneu Pompeu , via wikicommons
A situação, porém, só começou a assustar Roma realmente, no momento em que suas elites começaram a se sentir ameaçadas. Primeiro o risco físico, Plutarco relata como dois Pretores foram capturados. Para tornar a situação mais humilhante, os magistrados estavam acompanhados de seus oficiais (lictores). Destruiam as casas de campo dos ricos, e sequestravam seus familiares. Solicitavam vultosos resgates. Matavam cruelmente cidadãos romanos. Tais fatos forçaram as elites romanas a uma reação, os riscos agora se tornavam palpáveis. Além disso, o comércio marítimo se tornou inviável  e os preços do trigo e outros cereais - dos quais a Itália não produzia em quantidade suficiente, dependendo de importações do Norte da África - disparou, desestabilizando os fundamentos econômicos da República (Apio é mais explicito, e diz que alguns romanos já passavam fome). É possível uma analogia com a situação atual do Brasil, traficantes queimam ônibus com frequência, e, as vezes, com seus passageiros, Os custos da criminalidade impactam pesadamente os cidadãos e o setor produtivo. Dados recentes, indicam que no Rio de Janeiro transportadoras empregam até 20% do orçamento em segurança.

No ano 67 AC, o povo, desesperado, recorreu ao Senado. Surgiu a proposta de dar poderes extraordinários ao  general mais habilidoso de Roma, a época, Gneu Pompeu, o Grande (106-48 AC):

Isto foi a principal causa de agitação dos romanos, temendo a necessidade de víveres e augurando carestia e fome. fazendo-os enviar Pompeu para tomar o domínio do mar a esses corsários; e quem primeiro levou avante o propósito, foi Gabínio, um de seus familiares» que não lhe queria dar por edital somente a autoridade de um almirante ou comandante da marinha, mas o poder de uma monarquia soberana sobre todas as espécies de pessoas, sem estar sujeito a prestar contas, nem depois sindicado pelo que teria feito no cargo; pois o teor do edital lhe dava plenos poderes para comandar soberanamente em todos os mares, desde as colunas de Hércules e em toda a terra firme nos arredores, até vinte e cinco léguas atrás do mar (Havia então poucos países sob o domínio romano, que ficavam mais afastados, mas estavam compreendidos ali grandes nações e príncipes poderosos). Com vantagem deu-lhe também o direito de escolher de entre os do Senado, quinze tenentes para dar a cada um os cargos que bem quisesse e receber dinheiro do tesouro ou das mãos dos coletores, para manter a frota de duzentas velas, e com todo o poder de levar quantos guerreiros e quantos galeões e remadores lhe aprouvesse. Esta proposição, tendo sido lida publicamente, o povo aprovou e autorizou-a com prazer; mas aos principais do Senado, pareceu que aquilo lhe dava um poder que não suplantava somente todo o desejo mas lhe infundia grande temor, em dar assim a um particular uma autoridade tão absoluta e tão pouco limitada [2];

Os poderes que seriam concedidos a Pompeu, segundo a proposta inicial, do Tribuno do Povo Aulo Gabínio, eram superiores até mesmo ao dos ditadores na República Romana, ainda que com escopo mais específico. Como já observamos aqui no AD Cummulus, na República Romana, em situações de grave crise ou iminente perigo para o estado, um ditador poderia ser eleito. Era um magistrado com poderes amplos e excepcionais, com ascendência sobre os consules, o senado e demais oficiais. Para que não fosse tentado a se perpertuar no poder e/ou tornar-se um tirano, seu mandato era limitado a seis meses, devendo prestar contas de seus atos quando deixasse o poder. A proposta de Gabinio era de transformar Pompeu em uma espécie de ditador maritimo, com domínio sobre o Mediterrâneo e áreas costeiras, até cerca de 50 km do mar, só que, diferentemente de outros magistrados que exerciam a figura de Ditador, Pompeu não teria de prestar contas de seus atos posteriormente. Tal proposta constituía um risco muito grande para a República e as garantias dos cidadãos romanos. No entanto, conforme Plutarco, o povo aprovou eloquentemente, tal o desespero que a situação provocava. Da mesma forma, no Brasil, é crescente a pressão por medidas de força na área criminal, independente de sua efetividade. 
    
 por esta razão todos se opuseram, exceto César, o qual favoreceu o projeto, não que se preocupasse em dar prazer a Pompeu, mas porque então já procurava insinuar-se nas boas graças do povo; mas houve outros que apertaram e repreenderam gravemente Pompeu, chegando um dos cônsules a censurá-lo por querer seguir os passos de Rômulo, e advertindo-o a que não procurasse o mesmo fim que ele. O povo desejou até espancar esse cônsul por isto. Catulo apresentou-se em seguida para falar contra; o povo, de início, deu-lhe pacífica audiência, porque era uma pessoa venerável; começou ele por deduzir, sem nenhuma demonstração de inveja, muitas e belas coisas em louvor de Pompeu, e por fim, aconselhou o povo a poupá-lo e não expô-lo ao perigo de tantas guerras, umas sobre as outras, a um personagem como êle, que lhes devia ser tão querido: — "Pois se vós vindes a perdê-lo, disse êle, a quem podeis em seu lugar?" O povo então exclamou bem alto: —"Tu mesmo". Vendo então que perdia seu trabalho procurando desviar o povo desse propósito, saiu. Róscio apresentou-se depois procurando falar também, mas não pôde nem conseguir audiência; e vendo que não queriam ouvi-lo de outra forma, mostrou por sinais com os dedos que não deviam entregar esta responsabilidade a Pompeu só, mas também a um outro com êle. O povo, não gostando, pôs-se a gritar tão forte, que um corvo, voando na ocasião por cima, caiu entre a multidão; por onde se pode compreender que os pássaros caem do ar na terra, não porque o ar, agitado por alguma veemente concussão se rompa e venha a fender-se; mas porque o golpe da voz, quando é tão forte e tão violento, produz como que uma tormenta no ar, os atinge e abate [2].

A oposição entre o anseio do povo por mais segurança e o desejo dos políticos pela manutenção do status quo chega ao auge. Não nos referimos ao Brasil, por óbvio, mas ao relato de Plutarco sobre as medidas a serem adotadas para conter os criminosos. Júlio César é o único dos principais  senadores a apoiar a medida, não pelo interesse público, mas para cortejar o povo e Pompeu. No entanto, apesar das motivações apontadas por Plutarco, César, cerca de 10 anos antes, já havia tido uma experiência com aqueles mesmos piratas. Foi sequestrado quando seu navio passava pela Ilha de Rodes, e ficou em poder dos piratas por cerca de 40 dias. Seus companheiros de viagem foram enviados para recolher 50 talentos, para seu resgate. César manteve um relacionamento amistoso com seus captores, e "brincava" que seria misericordioso com eles quando os derrotasse. Libertado, César contratou um frota, prendeu aqueles piratas e os mandou crucificar, mas para cumprir sua promessa, cortou suas gargantas antes [5]. Seja como for, o apoio de César foi bem vindo, uma vez que os lideres do Senado, tais como os poderosos Quinto Lucácio Catulo e o tribuno Lúcio Roscio Oto se recusaram a apoiar a proposta.

Nesse dia a assembléia foi dissolvida sem ficar nada concluído e na data prefixada para passar o decreto pelas vozes e sufrágios do povo, Pompeu foi para os campos, onde recebeu a comunicação de que havia sido autorizado, voltou e entrou de noite na cidade para evitar manifestações de inveja contra ele, devido a multidão que acorreu de todas as partes da cidade à sua frente e que o acompanhou até sua casa. No dia seguinte, cedo, saindo em público, sacrificou aos deuses, e sendo-lhe dada audiência em plena assembléia, fez que ajuntassem ainda muitas coisas ao seu poder, o dobro quase do que lhe havia sido concedido no primeiro decreto; pois obteve que o público lhe armasse quinhentos navios e levasse cento e vinte mil combatentes a pé e cinco mil a cavalo; escolheu mais, dentro do Senado, vinte e quatro personagens, os quais haviam sido todos governadores e com encargos de armas e também dois tesoureiros gerais.   Nesse ínterim,  os vivedores de aventuras se encolheram, pelo que o povo ficou à vontade, tendo ocasião de dizer que só o nome de Pompeu havia amortecido aquela guerra [2]. 

Na República Romana, as leis eram, tecnicamente, aprovadas pela Assembléias, formadas pelos cidadãos romanos, Cabia ao Senado a análise prévia das leis  a serem submetidas a aprovação e orientar os magistrados quanto a sua aplicação. No caso, a assembléia "atropelou" as reservas e oposição do Senado. Enquanto os senadores se questionavam quanto a conveniência de uma ação decisiva contra os piratas, com o inconveniente de prejudicar o tráfico de escravos e concentrar poderes sobre Pompeu, o povo levou em conta o risco palpável de morrer de fome em face da escassez e aumento do preço do trigo pela ação dos piratas. Os ricos tinham opções, os pobres não. Semelhantemente, no Brasil do século XXI, os ricos contratam seguranças, vivem em condomínios fechados e blindam carros. Como observa Alon Feuwerker "(...) Os pobres são, ao contrário, quem mais precisa do aumento da capacidade de dissuasão do Estado contra o crime. O pobre não mora em condomínio fechado, não tem segurança particular, não usa carro blindado. Nem o pobre nem a classe média. O pobre, aliás, volta para casa muitas vezes a pé em ruas sem iluminação. Quem está mais sujeita a ser estuprada e morta na volta da escola ou do trabalho? A filha do rico ou a filha do pobre? Quem tem mais probabilidade de morrer num assalto ao ônibus em que viaja? O filho do rico ou o filho do pobre? [6]

Foi aprovada a Lei Gabinia,  que deu o dobro dos recursos que o Senado hesitara em conceder. A mobilização do estado seria integral, como típico de Roma em momentos em que a sobrevivência do estado era ameaçada. Plenos poderes foram concedidos a Pompeu (por três anos, no relato de Apiano), o marco legal da República foi alterado, para compatibilizar com os poderes extraordinários concedidos. recursos do Tesouro Romano foram disponibilizados. Pompeu tinha agora um exército de 120 mil de infantaria, 5 mil cavaleiros, e 500 navios (segundo Apiano, 4 mil cavaleiros e 270 navios, mas tanto é possivel que tanto a esquadra de Pompeu, qunato a dos piratas tenha sido exagerada). Sabiamente, Pompeu escolheu 24 senadores experientes, que já haviam governado provincias,  para dividir as responsabilidades e auxília-lo, além de sinalizar seu respeito pela ordem estabelecida e que não tentaria subverter a República. Alguns desses oficiais são mencionados por Apiano.


Assim, dividiu o mar entre terras, em treze regiões em cada uma das quais ordenou um certo número de navios com um de seus tenentes; e, tendo espalhado suas forças, envolveu dentro de suas redes todos os navios dos corsários que se achavam juntos, aprisionou-os e os fez vir para terra; mas aqueles que em boa hora debandaram ou que puderam escapar dessa caçada geral, foram todos se esconder na Cilícia, nem mais, nem menos como as abelhas na colméia, contra os quais quis ir ele mesmo pessoalmente com sessenta dos melhores navios; todavia, não se preparou para ir sem que primeiramente tivesse limpo todo o mar da Toscana, as costas da Líbia, da Sardenha, da Sicília e da Córsega, de todos esses ladrões, que anteriormente aí costumavam pilhar, o que foi feito no espaço de quarenta dias, mediante o trabalho que teve e a boa diligência que tiveram também seus tenentes [2].
Ulisses e as sereias, mosaico no Museu Nacional do Bardo, Túnis, Tunisia,
século II DC, via wikicommons
Os piratas atuavam em quase todo Mediterrâneo, de forma descentralizada. Pompeu então dividiu seus navios em 13 distritos, que passaram a atacar localmente o criminosos, que não tiveram tempo de se reagrupar, sendo assim cercados e derrotados. Primeiro as regiões mais próximas de Roma, depois  as grandes ilhas vizinhas da Itália, Sicília, Córsega e Sardenha, e em seguida as costas da Líbia, no outro lado do mar. Em quarenta dias, Pompeu havia desarticulado os piratas que ameacavam as rotas vitais de cereais provenientes do Norte da Africa até Roma.

Plutarco continua seu relato, contando um pouco da política em Roma, Cornélio Piso, um dos cónsules, tentou minar a posição de Pompeu, mas foi contido por Auleo Gabínio. Pompeu voltou brevemente a Roma, onde foi aclamado pelo povo, para organizar a fase final da campanha, atacando os piratas em sua base na Cilícia.

Tendo aprisionado alguns corsários daqueles que se achavam ainda juntos, pilhando o mar aqui e acolá, tratou-os humanamente quando pediram perdão, e tendo seus navios e suas pessoas em seu poder, não lhe fez mal algum, pelo que seus companheiros, com esperança, fugiram aos outros capitães, assim como seus tenentes e foram entregar-se a ele com suas mulheres e filhos. Pompeu perdoou a todos os que se entregaram voluntariamente, e assim veio a descobrir e a seguir o rasto dos outros, que aprisionou afinal, os quais se sentindo culpados de casos irredimíveis, esconderam-se; todavia, o maior número desses, os mais ricos e mais poderosos, haviam retirado suas mulheres, seus filhos, seus bens e todo o seu povo inútil para a guerra, para dentro dos castelos e pequenas fortalezas do monte Tauro, e aqueles que eram aptos para defesa, embarcaram em seus navios diante da cidade de Coracésio onde esperaram Pompeu e lhe deram combate, no qual foram derrotados primeiramente no mar, depois sitiados em terra; mas pouco depois pediram que os tomasse a seu favor e se entregaram com suas cidades, suas ilhas fortificadas, de sorte que estas eram bem difíceis não somente de serem não só forçadas, como também abordadas. Assim, esta guerra foi terminada e todos os corsários, em qualquer parte ou lugar em que estivessem, foram expulsos fora do mar no espaço de três meses, não mais. Aí ganhou ele grande número de navios, além de noventa galeras armadas (...);[2]

Segundo Plutarco, Pompeu mostrou-se clemente com os piratas que se entregavam. Isso acabou incentivando a deserção entre eles, que cada vez mais se reduziam em número de combatentes. Os que se entregavam traziam informações importantes sobre o inimigo. Em algum tempo, os remanescentes foram derrotados no mar e em terra.  A abordagem de Pompeu foi tão engenhosa como atípica para os comandantes romanos, que na repressão a movimentos de rebelião costumavam ser extremamente cruéis.  Pouco anos antes, em 71 AC, Marcus Licínio Crassus havia derrotado os escravos rebeldes comandados por Espartaco, e mandado crucificar 6 mil dos insurgentes as margens da Via Appia, entre Roma e Cápua  (uma das mais importantes estradas romanas), para que seus restos fossem vistos por meses e anos [7], no relato de Apiano [8]. Cerca de 60 anos depois, Flávio Josefo narra que Quintilio Varo crucificaria, praticamente sem critério, 2 mil judeus na revolta após a morte de Herodes [9]. Tipicamente, os romanos buscavam expor o máximo possível os individuos condenados por pertubarem a ordem pública. A exibição das mortes cruéis dos criminosos era um mecanismo de disuasão. Como observa o Professor Bart Erhman, da Universidade da Carolina do Norte, em relação a crucificação, se o Central Park (Nova Iorque) fosse território romano, e houvesse problemas com roubos de carro, as autoridades romanos crucificariam um punhado de ladrões de carro nas imediações, para que todos vissem, e aí veríamos quantos ousariam roubar uma BMW depois disso [10]. A estratégia de Pompeu, embora possa ter parecido estranha para os líderes romanos, uma ruptura com a abordagem anterior e posterior, foi eficiente e inteligente. Em três meses, os piratas haviam sido totalmente subjugados.

Os altos níveis de violência no Brasil, tem facilitado a proliferação de idéias que visam negar qualquer tipo de direito humano básico aos criminosos. Adicionalmente, tal percepção é muito forte no aparelho repressivo do estado. No entanto, do que adiantou? Em suas abordagens, as forças políciais brasileiras matam 5 pessoas a cada dia, cinco vezes mais que nos EUA, ainda que os indíces de criminalidade nos Estados Unidos sejam muito inferiores. A vida dos policiais também não é segura. No Estado do Rio de Janeiro, 3 mil policiais morreram em serviço entre 1994 e 2016, ou 3,59% do efetivo empregado, maior que a chance de ser morto entre os soldados do Exército Americano nas duas guerras mundiais. No mesmo período, mais de 14 mil policiais foram feridos. É 765 vezes mais fácil você ser ferido servindo na polícia do rio do que estando em guerras".

e, quanto às pessoas, que eram mais de vinte mil, não pôs somente em deliberação se as devia fazer morrer, mas deixou-as ir e afastar-se à vontade, ou então se reunirem, visto serem em tão grande número, acossados pela pobreza e todos guerreiros, que não lhe pareceu que condená-las fosse sabiamente feito. Ainda mais, discorrendo consigo mesmo, que o homem por sua natureza não é indomável nem feroz, mas ao contrário, que sai fora de seu eu e de seu natural, quando se dá ao vício e que se habitua pouco a pouco, com a mudança de lugar e maneiras de viver; atendendo que os animais mesmo que por sua natureza são selvagens e ferozes, se suavizam bem e se despojam de sua altivez natural, quando habituados, pouco a pouco a uma vida mais suave, resolveu transportar esses corsários do mar para a terra e fazê-los ter a vida justa e inocente dos moradores das cidades e lavradores da terra. Alojou alguns dentro de algumas pequenas cidades dos cilicianos, que eram meio desertas, e que por esta causa os receberam voluntariamente, dando-lhes terras para os alimentar. Também a cidade dos solianos havia antes sido destruída e despovoada por Tigranes, rei dos armênios; querendo levantá-la, aí deixou um grande número desses homens e logrou igualmente colocar diversos na cidade de Dima no país de Acaia, que então tinha falta de habitantes e possuía grande quantidade de belas e boas terras[2]

Pompeu, tenho subjugado totalmente os piratas, tem que decidir o que fazer com eles. Sua primeira observação é de que são seres humanos, semelhantes a ele e aos romanos. É fácil esquecer a humanidade de nosso inimigos, e de criminosos mais ainda. A natureza humana faz pessoas serem capazes de matar, roubar e impor sofrimento por lucro, mas em muito maior proporção a constituir famílias, criarem filhos, viverem em sociedade, trabalhar e seguir leis, e que as circunstâncias passadas e o ambiente presente são determinantes. Entende também que, ainda que, seus inimigos fossem feras e não humanos, poderiam ser domesticados. Sendo assim, Pompeu arrisca em transformar esses criminosos, e suas famílias, em colonos.  No Brasil, com todos os problemas do sistema carcerário, algumas experiencias, como as APACs (Associação de Proteção e Assistência aos Condenados) tem conseguido - pela combinação de trabalho, estudo, religião, projetos sociais - recuperar a maioria dos presos, a custos significativamente menores. Na experiência internacional, a Noruega chega a recuperar 80 % dos presos.

A aposta de Pompeu rendeu frutos e a pirataria seria reduzida drasticamente no Mediterrâneo por séculos, as rotas marítimas floresceram e o comércio internacional prosperou. A combinação entre políticas repressivas, com total mobilização dos recursos do Estado, com o entendimento da realidade social e da natureza humana dos agressores e políticas sociais adequadas foi o segredo do sucesso.  Os ex-piratas recebem terras em áreas desertas da Cilícia  e fundaram os assentamentos de Malo, Pompeiopolis (em homenagem a Pompeu), Epifanéia (atual Hama) e Adana, cidade vizinha a Tarso, onde algumas décadas depois nasceria um judeu romano chamado Saulo, ou Paulo de Tarso, que, um século depois, aproveitaria o Mediterrâneo livre de pirataria para fazer suas viagens missionárias e levar a semente do cristianismo  da Judéia a Espanha. Talvez tenha pensado nos mares em que se circulava  livres de pirataria, protegido pela ordem romana,  como parte da "plenitude dos tempos", preparada por Deus, para enviar seu filho ao mundo (Gl. 4:4). Os piratas seriam relevantes nos séculos seguintes pois, segundo Plutarco, "(...) ofereciam estranhos sacríficios sobre o Monte Olimpo, e realizavam certos ritos secretos, dentre os quais os mistérios de Mitras foram preservados até os hoje, tendo sido instituidos previamento por eles (...). [2] Mas essa, é outra história, que os leitores podem conferir aqui mesmo no Adcummulus, em nossa série sobre Mitras.

Referências
[1] Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2016, fls 6-7. Fórum Brasileiro de Segurança Pública. São Paulo http://www.forumseguranca.org.br/storage/10_anuario_site_18-11-2016-retificado.pdf, acessado em 17.01.2017.
[2] Plutarco de Quironeia, Vidas ParalelasPompeu, 24-28, tradução em português em http://www.consciencia.org/roma-antiga-pompeu-vidas-paralelas-plutarco/4, e Apiano de Alexandria,  Historia Romana, livro 12, §91-96, http://www.livius.org/articles/person/appian-of-alexandria/?, acessados em 03.02.2017
[3] Marco Túlio Cicero, Pro Lege Manilia, http://www.perseus.tufts.edu/hopper/text?doc=Perseus%3Atext%3A1999.02.0019%3Atext%3DMan.%3Achapter%3D1%3Asection%3D1 , acessado em 02.02.2017
[4] Jona Lendering (2015) Cilician Pirates, http://www.livius.org/articles/people/cilician-pirates/?,  artigo de 2001, revisado em 2015, acessado em 30.01.2017
[5] Suetônio, Vidas dos Césares, Julio César 4.1 e 74.2, acessado em 01.02.2017
[6] Alon Feuwerker (2007) Falsa defesa dos pobres, de 14,2.2007  http://www.blogdoalon.com.br/2007/02/ricos-e-pobres-1402.html, acessado em 02.02.2007.
[7] Jona Lendering (2016) Spartacus, http://www.livius.org/articles/person/spartacus/, artigo de 2002, revisado em maio de 2016, acessado em 02.02.2017
[8] Apiano de Alexandria, Guerras Civis, 1:120 http://www.livius.org/sources/content/appian/appian-spartacus/, acessado em 02.02.2017
[9] Flávio Josefo, Antiguidades Judaicas 17.286 http://www.perseus.tufts.edu/hopper/text?doc=Perseus%3Atext%3A1999.01.0146%3Abook%3D17%3Asection%3D286, acessado em 02.02.2017.
[10] Bart Erhman (2000) Jesus, Apocaliptic Prophet of the New Millenium, fl. 223, via googlebooks

sábado, 30 de abril de 2016


Batismo. Pintura cristã primitiva (III seculo DC), via Wikipedia Commons
"Todos os santos lhes enviam saudações, especialmente os que estão no palácio de César (Filipenses 4:22).
Um dos maiores desafios para os historiadores da antiguidade é entender a ascensão do cristianismo. Como uma pequena seita do judaísmo,  em pouco mais de 300 anos, conseguiu não só converter parte significativa da população, como se tornar a  religião dominante do Império Romano. Ainda que seja decisiva a influência da conversão do Imperador Constantino I (306-337 DC) no ano 312, o fato é que o cristianismo já dispunha naquele momento de milhões de adeptos espalhados pelos quatro cantos do Império. Deve restar claro que a simples vontade de um governante, pois mais absoluta e determinada que seja, não é condição suficiente para estabelecer uma religião, como já observado aqui no adcummulus, por meu colega blogueiro Informador de Opinião. Assim, as reformas religiosas de Akenaton, no século XIV AC, impondo a adoração do deus supremo Aton, foram logo revertidas após a morte daquele Faraó. Os Imperadores romanos  Héliogabalo (218-222 DC) e Aureliano (270-275 DC) tentaram estabelecer cultos solares sincréticos, tal como o do o Sol Invicto, com algum sucesso, sem contudo um impacto duradouro. Depois de Constantino, porém, o cristianismo foi pouco a pouco se incorporando na estrutura imperial, de tal forma que a tentativa do Imperador Juliano de reverter o declínio do paganismo foi mal sucedida.  Aliás, é significativo que, quase paralelamente a  conversão de Constantino, governantes de países vizinhos ao Império se declaram cristãos, tais como Tiridades III, da Armênia, no ano 301 DC, Ezana de Axum (Etiópia), por volta de 325 DC, bem como Miriam III da Iberia (atual Georgia), antes de 334 DC. É possível que haja elementos de oportunismo em algumas dessas conversões, uma vez que ao adotar o cristianismo, tais reinos podem ter tido a perspectiva de se beneficiar da recente conversão do Império - no entanto, pelo menos a conversão da casa real da Armênia, ocorreu dez anos de Constantino anunciar sua  adesão ao Cristianismo, e vinte anos antes dele derrotar Licínio, e se tornar senhor também do leste do Império - e Abgar IX de Edessa (177-212 DC) já favorecia os cristãos 100 anos antes do Edito de Milão [1] ][2].

Então, propomos que uma forma de tentar entender o processo de cristianização do Império é buscar rastrear suas rotas de expansão dentro da sociedade imperial. No entanto, a grande maioria dos cristãos fazia parte das classes mais humildes ou extratos médios da sociedade, cuja a vida raramente era de interesse dos historiadores antigos, e cuja obscuridade só é iluminada eventualmente com o achado de uma ou outra inscrição ou artefato. Adicionalmente, como já abordado aqui no Adcummulus dado o status do cristianismo como superstição "nova e depravada", como nos diz Suetônio, "mortal", nas palavras de Tácito, e sujeita a julgamentos e punições, já que se organizam numa associação secreta e ilegal, como explicado por Plínio, a identificação pública como cristão poderia causar sérios problemas a um súdito do Império, e, assim, aqueles que o fazem frequentemente utilizam discrição e eufemismos. Desta forma, vamos nos concentrar neste e em outros posts em indivíduos possivelmente identificados por historiadores antigos como cristãos, tentando, mesmo que de forma imperfeita, ilustrar a vida daqueles primeiros cristãos.

1) Pompônia Grecina (20 DC? - 83 DC?)

Cornélio Tácito, nos apresenta Pompônia
Pomponia Grecina, uma dama de distinção, esposa de Pláucio, que retornara da Britânia com uma ovação, foi acusada de aderir a uma superstição estrangeira e entregue ao juízo de seu marido. Seguindo uma antiga tradição, ele ouviu a defesa de sua esposa na presença de seus familiares, envolvendo, , seu status legal e caráter, e concluiu que ela era inocente. Assim, Pompônia teve uma longa vida de continua melancolia. [3]
Pompônia Grecina, esposa de Aulo Pláucio, que conquistou as ilhas britânicas e foi o primeiro governador daquela província, era integrante do gens Pomponia, uma das mais tradicionais, "quatrocentonas", famílias romanas. Começando por seu ancestral Marcus Pompônio, que havia sido Tribuno Consular em 399 AC, seus integrantes ocuparam cargos importantes, atuando como Pretores, Legados e Consules, por mais de 700 anos na República e Império Romano.

O contexto imediato da menção de Pompônia por Tácito é a execução de Júlia Lívia, sobrinha do Imperador Cláudio, por uma acusação falsa de incesto e imoralidade trazida pela Imperatriz Valéria Messalina, em 43 DC. Pompônia era parente distante de Julia e teria ficado profundamente abalada com a execução, ficando em estado de luto, por 40 anos. Tácito acrescenta que esse comportamento poderia ter sido entendido pelo Imperador Cláudio como um desafio a sua pessoa mas, surpreendentemente, ele nada fez contra ela (talvez por sua condição ilustre, talvez pelo fato de Messalina ter caído em desgraça já em 48 DC). O julgamento familiar contudo, ocorreu em 57 DC, já durante o reinado de Nero (54-68 DC). Por essa época, Agripina, mãe de Nero, daria a Pompônia ainda mais motivos para prantear pois - conforme Suetônio - o jovem Aulo Pláucio (filho de Pompônia e Pláucio) teria se tornado amante de Agripina e, supostamente, tentou conspirar com ela pelo trono. Nero brutalizou e executou o jovem Plaúcio, dizendo "(...) que minha mãe venha agora e beije meu sucessor (...)"[4].

Peter Lampe, Professor da Universidade de Heidelberg, faz um sumário dos argumentos favoráveis a vinculação de Pompônia com o cristianismo.

In Tacitus, Ann. 15.44, Christianity is actually classified as a "superstitio". This is likewise seen, for example, in Suetonius, Nero 16 and Pliny, Ep. 10.96.8. Moreover, the suggestion has been made to interpret the 40 years (!) in "morning clothes" and "sorrow" not as result of Iulia's death but as a characteristc of this "supertitio externa.". Actually, the praxis of Christian faith would appear to outsiders as mourning. When someone as a Christian no longer partakes in the amusements and invitations of upper society (...) The gossip of "society" explins Pomponia's behavior by the death of Iulia. But could it last 40 years? Iulia was not even her sister. (Tradução) Tácito, Anais 15:44, realmente classifica o cristianismo como uma "superstitio". Este termo também é encontrado, por exemplo, em Suetônio, Nero 16, e Plínio, Cartas 10.96.8. Além disso, foi proposto que os 40 anos (!) de luto ou tristeza, não deveriam ser interpretados como resultado da morte de Iulia, mas como uma característica desta superstição estrangeira. Na verdade a "praxis" da fé cristã pareceria a estranhos como um luto. Quando alguém, por ser cristão, não participa dos divertimentos e convites dos altos círculos (...) a fofoca que circularia entre a alta sociedade explicaria o comportamento de Pompônia como resultado da morte de Iulia. No entanto, poderia ter durado 40 anos? Iulia sequer era sua irmã. [5]

Sendo assim, Lampe avalia que se a superstição estrangeira e o luto por Julia fossem ligados de algum modo, seria uma forma utilizada por Pompônia para esconder a superstição do meio aristocrático em que vivia, com o pretexto de luto por Julia. A identificação é incerta, uma vez que Tácito é vago em relação a superstição estrangeira, e não resta claro se o cristianismo tinha penetração suficiente naquele momento para atingir uma das famílias mais importantes de Roma. No entanto, o termo superstição não se aplicaria as religiões reconhecidas no Império, que englobam não só o panteão greco-romano e seus cultos, como as divindades nativas dos povos ditos civilizados, muitas vezes convertidas em religiões de mistério (Cibele e Atis, Isis, Mitra), além do judaísmo com sua milenar devoção ao Deus único Iahweh.  Além disso, como observa o Professor Vasily Rudich (Universidade de Yale), se Pompônia tivesse sido acusada de ter se convertido a uma religião oriental mais conhecida como a devoção a Isis ou o Judaísmo, seria de se esperar que Tácito citasse a tal superstição estrangeira pelo nome, e, associando esse fato ao comportamento de Pompônia se assemelhar ao de mulheres cristãs do quarto século, a sugestão de que o cristianismo estaria envolvido se torna ainda mais tentadora [6] 

Professor  Markus Bockmuehl, da Universidade de Oxford, observa outro fato
Several other external sources suggest a Christian presence prior persecution under Nero. One remarkable first century pagan is Pomponia Graecina, a distinguished aristocratic lady whom Tacitus describes as having engaged in an extraordinary habit of grief that lasted forty years. In AD 57 she was accused of a "foreign supertition" (Tacitus, Ann 13.2), which several recent scholars have seen as a secret adherence to Christianity. Later inscriptions of the catacomb of San Callisto in Rome support that members of the family may have been christians(Tradução) Varias outras fontes externas sugerem uma presença cristã anterior a perseguição neroniana. Uma notável pagã do primeiro século é Pompônia Graecina, um distinta dama da aristocracia a qual Tácito descreve como tendo permanecido no hábito de luto por extraordinários 40 anos. No ano 57 ela foi acusada de "superstição estrangeira" (tácito 13,2), que vários estudiosos recentes consideraram como uma adesão secreta ao Cristianismo. Inscrições posteriores na catacumba de São Calisto em Roma indicam que membros da família podem ter sido cristãos. [7]

Professor Bockmuehl se refere a membros do gens pomponia falecidos no início do século III e enterrados na catacumba de São Calisto em Roma, conforme inscrições dedicadas a Pomponius Bassus e Pomponius Graecinus. [6][7].

Assim, a possibilidade uma convertida ao cristianismo na alta sociedade romana já em meados do século I é atraente e bastante plausível, ainda que não haja evidência conclusiva em seu favor.

2) Erasto de Corinto (58 DC)

  Erasto, administrador da cidade, e nosso irmão Quarto enviam-lhes saudações.(Romanos 16:23)
 Erasto permaneceu em Corinto, mas deixei Trófimo doente em Mileto.(II Timóteo 4:20)
 Então enviou à Macedônia dois dos seus auxiliares, Timóteo e Erasto, e permaneceu mais um pouco na província da Ásia (Atos 19:22).

Uma inscrição encontrada na cidade de Corinto, tem o seguinte conteúdo:
 ERASTVS-PRO-AEDILIT[at]E S-P-Stravi (Erastus pro aedilitate sua pecunia stravit). (Erasto, comissário de obras públicas, fez esse calçamento as suas expensas).
Professor FF Bruce, a mais  de 50 anos atrás, ponderou a possibilidade de identificação entre o Erasto da inscrição e o mencionado no Novo Testamento:

"(...) O calçamento pertence ao primeiro século AD e bem pode ter sido  construído pelo amigo de Paulo. Contudo, os ofícios públicos não são os mesmos. Em grego, o comissário de obras públicas, ou aedil, é chamado de agoranomos, ao passo  que o tesoureiro da cidade (como nesta passagem) é oikonomos tes poleos. Se lidamos com o mesmo Erasto, é de se supor que fora promovido do ofício inferior de "aedile" ao de tesoureiro da cidade no tempo em que Paulo escreveu a epístola. (Se, ao contrário, alguém preferir supor que foi rebaixado do ofício superior ao inferior por haver professado a fé cristã, não há nenhuma prova contra esta suposição!) (...)".

Todo esse tempo se passou, é ainda não há uma resposta definitiva quando a identificação do Erasto da inscrição com o do Novo Testamento, devendo ser respondidas, basicamente, as mesmas perguntas.

"São Paulo escrevendo uma epístola", Atribuido a Valentin de Boulogne
1618-1620, Museum of Fine Arts, Houston, via wikipedia commons
A opinião majoritária entre os estudiosos é que Paulo escreveu a carta de Romanos por volta do ano 55 DC, em Corinto. Sendo assim, o apóstolo traz a saudação de um cristão chamado Erasto, que ocupava um importante cargo público em Corinto, por volta de 50-60 DC. A inscrição faz menção a um oficial público de nome Erasto, residente em Corinto, sendo datada em meados do século I DC. Aparentemente, é muita coincidência. No entanto, os cargos são compatíveis? o nome Erasto é comum? as datas são realmente coincidentes?  

Uma interessante discussão sobre a inscrição é apresentada pelo Professor David W. J. Gill, da University Campus Suffolk. Em um artigo escrito em 1989, ele observa que Corinto era uma colônia romana, estabelecida por Julio César em 44 AC, e conservava uma estrutura política assemelhada as cidades italianas. Os cidadãos eram divididos conforme suas tribos, e elegiam magistrados anualmente. O Erasto da inscrição apresenta prenome e nome (ilegíveis) e cognome (Erasto), mas não é indicada a tribo ancestral, sugerindo que era um liberto, um ex-escravo (sabemos que outros libertos naquele período, chegaram a acumular grande riqueza e conseguiram ser nomeados a cargos importantes como o governador da província da Judeia, Antonio Felix). Erasto de Corinto era um Edil, oficial responsável pela manutenção dos edifícios públicos, e como observa Gill, citando outros exemplos, devia ser um homem muito rico, pois frequentemente financiavam a construção de parte da infraestrutura pública. Professor Gill, relata ainda que Erasto, amigo de Paulo, era um oikonomos, que alguns estudiosos acreditam ser o equivalente, na forma ampla, de um edil, mas outros tem entendido como um  Questor, que embora fosse um cargo eminente, poderia ser ocupado por servidores públicos imperiais "de carreira", até mesmo por escravos.

Professor David Gill, conclui da seguinte maneira.

The evidence does not allow us to be certain  about the link between the two Erasti, but at the very least it is  clear that Paul is here reminding Christians to take an active role in the running of the city just like Erastus the oikonomos (tradução) A  evidência não permite ter certeza que os dois Erastos sejam a mesma pessoa, no mínimo, porém, é claro que que Paulo estava incentivando os cristãos a atuarem de forma mais ativa na vida cívica da cidade [9].
Professor Larry L Welborn, da Fordham University, oferece uma análise recente do estado do debate, apresentando os argumentos de estudiosos como Steven J Friesen, da Universidade do Texas em Austin, e Justin Meggit, de Cambridge, que rejeitam a identificação entre o Erasto bíblico e o Erasto da inscrição, questionando a datação da inscrição no primeiro século, a improbabilidade de um quadro politico como um Edil, um dos quatro magistrados eleitos de Corinto, pudesse ser cristão, bem como a dificuldade de compatibilizar a fé cristã com juramentos e festividades públicas que invocavam deuses pagãos [10]. A discussão como um tudo, porém, deve ser colocada numa perspectiva mais ampla, uma vez que tanto Meggit quanto Friesen se insurgem contra o chamado "New Consensus"  (novo consenso) dos estudos paulinos, que surgiu a partir dos trabalhos publicados nos anos de 1970/1980 de Gerd Theissen, da Universidade de Heidelberg e Wayne Meeks, de Yale. Os estudiosos do novo consenso acreditam que os cristãos paulinos eram representativos da diversidade e mobilidade sociais, e argumentam que Erasto um exemplo perfeito de alguém que ascendeu de escravo, a liberto, e então as classes privilegiadas, ocupando um cargo público importante. Friesen e Meggit por sua vez, contrapõem que os cristãos, assim como a esmagadora maioria dos cidadãos do Império, viviam pouco acima da linha de subsistência, e Erasto seria, no máximo, um escravo exercendo uma função pública subalterna [11].

De modo geral, e o proprio Friesen admite, -  assumindo o papel de insurgente - o consenso, se existe, se inclina na direção de que o Erasto paulino e da inscrição de Corinto são a mesma pessoa, como proposto por Theissen  [12] Em resumo, é razoavel a avaliação do Professor Timothy A Brookins, da Azusa Pacific University, de que entre a publicação do trabalho de Theissen em 1974 até o desafio de Friesen, em 2010, a maioria tem identificado o Erasto da inscrição com o Paulino, devendo ser observado se haverá a reversão do consenso nos próximos anos. O próprio Brookins contribui com o estudo sobre a frequência do nome Erasto nas fontes literárias e epigráficas do período, concluindo que o nome não era comum, e que portanto os dois Erastos devem ser a mesma pessoa [13]. Concordamos com essa conclusão.
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Referencias Bibliográficas
[1] Francoise Thelamon (2007) Povos Cristãos às margens do Império Romano in Alain Corbin (ed.) "Historia do Cristianismo: para compreender melhor nosso tempo", fls. 131/135.
[2] Eric H Cline e Mark W Graham (2012) Impérios Antigos: da Mesopotâmia a Origem do Islã. fls. 379-381.
[3] Tácito, Anais 13:32
[4] Suetônio, Vita Nero, 35
[5] Peter Lampe (2003) Christians at Rome in the First Two Centuries: From Paul to Valentinus, fls. 196-197
[6]  Vasily Rudich (1993) Political Dissidence under Nero: The price of Dissimulation, fl. 266
[7]  Marcus Bockmuehl (2012) Simon Peter in Scripture and memory, fl. 100
[8]  Frederik F Bruce (1963) Comentário a Romanos, fl. 226.
[9]  David W.J Gill, Erastus the Aedile, Tyndale Bulletin 40.2 (1989), 293-301.
[10] L L Welborn (2011) An End of Enmity: Paul and the Wrongdoer of Second Corinthians, fls. 269-279.
[11] Cavan W Concamon (2013) The Archeology of Pauline Mission In Mark Harding e Alanna Nobs (2013)  All Thing to All Cultures: Paul Among Jews, Greeks and Romans, fls. 80-81.
[12] "(...) Most recent commentators of the topic have accepted Theissen's proposal (...)" ver  Steve Friesen (2010) The Wrong Erastus: Ideology, Archeology, and Exegesis In Steve Friesen, Daniel N Schowalter, James Walters (2010) Corinth in Context: Comparative Studies on Religion and Society, fl. 233-234.
[13] Timothy A Brookins (2014) Corinthian Wisdom, Stoic Philosophy, and the Ancient Economy, fl. 109-118.
   



      

sábado, 24 de outubro de 2015


Matthias Grünewald: Isenheim Altar - opened, 1
Altar de Isenheim - Matthias Grünewald

As famosas narrativas de episódios que cercam a anunciação e o nascimento de Jesus movimentam o imaginário de gerações até os dias de hoje. Na arte e literatura, na academia, igrejas, mídias, festas populares, se escreveu, tratados, muito se poetizou, cantou, encenou e pesquisou.

Historiadores e outros estudiosos especializados produziram miríades de volumes abrangendo vários aspectos. Dentre estes, algo que sempre gerou profusas controvérsias é a discrepância geral das narrativas produzidas dentro da mesma geração. Nota-se variações desde o começo e a apresentação, passando pelas genealogias, circunstâncias históricas imediatas, e outras de caráter geográfico e político.

Sobretudo, para a possibilidade de um mínimo fio sincronizado, forçoso é considerar que boa parte das cenas do evangelho da tradição de Mateus se passa em cerca de dois anos após o nascimento narrado em Lucas. Muitas outras dificuldades, tanto em particular de cada um, quanto mais ainda tomadas em conjunto, surgem, mesmo considerando variados graus de liberdade para imaginação literária e emprego de simbologia. O que suscitou outro grande debate relacionado às hipóteses de composições dos evangelhos... o escritor do evangelho segundo Mateus conhecia o material de Lucas? O de Lucas conhecia o de Mateus? Se uma resposta é positiva, porque produziu outro relato, e com tantas diferenças? Ou não conheciam um ao outro? Sendo assim, havia várias versões circulando ou se contavam muitos relatos e cada um dos escritores trabalhou com alguns - para uma deliberada ênfase no plano geral de seu propósito para todo o evangelho escrito?

Por outro lado, temos também elementos centrais para a tradição que se dão em comum com as duas narrativas, sugerindo fortemente que compartilhavam de tradições amplas e antigas dentre os cristãos de então.

Como também ponderou John.P. Méier [1]:
(...)Quaisquer concordâncias entre os dois [Mateus e Lucas] nessas narrativas se tornam historicamente significativas, em especial quando o critério da múltipla confirmação é invocado. Essas concordâncias em duas narrativas independentes e profundamente contrastantes representariam, no mínimo, um recurso a uma tradição mais antiga, e não a criação dos evangelistas.

Pelo menos doze pontos nos chamam muito a atenção:

1 – O nascimento de Jesus é contextualizado ainda durante o governo de Herodes Magno (Mt. 2.1; Lc. 1.27-34).
2 – Maria não se relacionara sexualmente com José antes de se engravidar (Mt.1.18; Lc 1.27-34)
3 – José não participa da concepção de Jesus (Mt. 1.18-25; Lc. 1.34)
4 – José é da linhagem de Davi (Mt. 1.16-20; Lc. 1.27; 2.4).
5 – A concepção e nascimento de Jesus é anunciada por um anjo ( Mt. 1.20-21; Lc. 1.28-30)
6 – Mesmo assim põe em relevo que Jesus é descendente de Davi (Mt.1.1; Lc.1.32)
7 – O nome “Jesus” é designado antes do seu nascimento (Mt. 1.21; Lc. 1.31)
8 - Jesus veio ao mundo concebido por ação miraculosa do Espírito Santo (Mt. 1.18- 20; Lc 1.35)
9 – Jesus é vocacionado pelo Deus de Israel como o ‘Salvador’ ( Mt.1.24-25; Lc. 2.11)
10 – José e Maria se casam antes do nascimento de Jesus (Mt. 1.24-25; Lc. 2. 4-7)
11 – O nascimento de Jesus se dá em Belém (Mt. 2.1; Lc. 2.4-7)
12 – Nazaré passa ser a residência da família de Jesus e onde ele cresce (Mt. 2.22-23; Lc. 2.39-51)

Mas o interesse histórico está longe de encerrar em exames quanto a factualidade de eventos particulares, apesar de ser o que mais concentra o interesse dos leigos. Há vários campos que a investigação trabalha. Aqui nos propomos num breve esboço, nos debruçar sobre o que este material nos pode desvelar sobre as matérias-primas e estruturas da formação da fé das primeiras gerações de cristãos.

Um exemplo propício a se começar é com as genealogias; enquanto muito se discutiu acerca de diferenças, particularidades e artifícios simbólicos nas genealogias mateanas e lucanas, muitas vezes se deixou escapar a indagação relativa a terem apresentado a pessoa de Jesus com genealogias. Mas, na Bíblia Hebraica, genealogias costumam funcionar elos de unificação entre figuras principais da história do povo de Israel, como Abraão-Noé-Adão. Logo, ambos evangelistas trabalham por encaixar a figura de Jesus num horizonte histórico maior no qual se opera a ação divina de acordo com seu plano, Jesus fazendo parte do mesmo em um ápice juntamente com figuras especiais para a memória devocional do povo.

Albrecht Dürer: Seven Sorrows: The Flight into Egypt
A Fuga para o Egito - Albrecht Dürer

Em Mateus, o quadro maior da saga da família de Jesus e sua emigração – sim, refugiados políticos – e retorno para a terra é algo muito mais íntimo do que uma mera alusão evocativa à tradição do chamado do povo para fora do Egito, tal como consta em tradições proféticas como em Oseias 11,1.

Os judeus reavivavam estas tradições em formatos devocionais, e um deles que temos registro hoje é o chamado Hagadah da Páscoa, de cerca dos finais do século I a.C. [2].

Jerome Murphy O'Connor [3] nos produziu uma valiosa tabela em que lhes coloca em paralelo:

História da Fuga e Regresso
Agadah da Páscoa
1) Perigo (v. 13d) “Herodes procura a criança para destruí-la
1) Perigo (I,1) “O arameu procurou destruir o meu pai”
2) Mandamento divino (v.13b) “Toma a criança de sua mãe e foge para o Egito”
2) Mandamento divino (II,1) “Desceu ao Egito impelido pela palavra do Senhor”
3) Estadia temporária (v. 13c) “Permanece lá até que eu te avise”
3) Estadia temporária (II,2) “Não desceu ao Egito para lá se instalar, mas apenas para ficar algum tempo
4) Regresso (v.20) “Toma a criança e vá para a terra de Israel”
4) Regresso (VII,1) “O Senhor trouxe-nos do Egito, não por meio de um anjo, nem por meio de um mensageiro, mas pelo próprio Altíssimo, que Ele seja louvado”


Já vimos aí que da parte de um evangelista, a apresentação de Jesus coloca-lhe invocando importantíssimas rememorações e anelos da fé judaica.

No material do evangelista lucano, temos uma fartura tão grande de recortes que aqui poderemos tratar de um dos mais de mais forte apelo: sua coleção de poemas presentes nos dois primeiros capítulos. Estes foram cantados e declamados ao longo dos séculos e são presença altissonante em liturgias de várias igrejas e comunidades religiosas. Podemos somente imaginar a força simbólica e apelativa que teriam ao serem lidas ou entoadas pelos cristãos antigos.

Sugiro aos leitores que, se possível, leiam cada um mas afastando um pouco a ligação com todos os evangelhos, como se fossem salmos independentes dos livros em que foram inseridos.

Com essa sugestão, fica mais fácil compreender aquilo que James D.G.Dunn [4] enunciou algo que foi pontuado com destaque na academia em períodos recentes:
Qualquer que seja a sua origem e derivação final, Lucas possivelmente as extraiu da adoração das congregações primitivas (antes que das memórias retrospectivas de oitenta anos atrás). Em outras palavras, são os salmos das comunidades palestinenses antigas, que atingiram sua forma atual em um período quando não havia quaisquer cristãos, somente judeus que acreditavam que o Messias havia chegado (p. 230).

Teria o célebre pesquisador ido muito longe com esta colocação?

Comecemos com o mais aclamado e presente dos hinos, o amplamente conhecido como “Magnificat” de Maria, devido à tradução latina da abertura do mesmo.

Na Bíblia Hebraica, uma mulher ter um filho anunciado por Deus numa situação inusitada sempre indicava um plano especial para o povo na história, como com Isaque, Sansão e Samuel – Gn 18,11; Jz 13,2-5; ISm 1-2.

Os termos do anúncio do anjo a Maria “grande aos olhos do Senhor”, o reino sobre a casa de Israel, que “não terá fim” faz eco a movimentos nacionalistas contemporâneos que produziram literatura que também expressava estes termos, como os “Salmos de Salomão 1-2”. Novamente, materiais culturais judaicos que aspiravam uma libertação nacional, reconfigurados para se centrarem em Jesus.

O Magnificat está estruturado na forma da canção de Ana em I Sm 2,1-10. Alude a diversas passagens da Bíblia Hebraica relacionadas à libertação nacional e figura régia:

Verso 48: I Sm 1,11
Vs 49: Sl 111,9
Vs 50: Sl 103,13-17
Vs51: Sl 89,10; 2Sm 22,28
Vs52: Jó 12,19; 5,11;
Vs 53: I Sm 2,5; Sl 107,9
Vs 54: Is 41,8
Vs55: Mq 7,20;Gn 17,7; 22,17;2Sm 22,51

Dunn assinala ainda que “É notável que não haja nenhuma ideia especificamente cristã nele; é tipicamente hebraico no caráter e no conteúdo. Mas igualmente notável que nos primeiros dias da nova fé, cristãos fossem capazes de tomá-lo como expressão de seu próprio louvor” (p.299)

Assim também se passa com o “Benedictus”, segundo Darrel L. Bock [5], um louvor do sacerdote Zacarias em que profetiza acerca do seu filho João que vai nascer com uma missão especial; segundo o pesquisador mencionado, o hino tem ecos principalmente do agradecimento de Salomão (notar especialmente o vs 69), em 1Reis 8,15, por ter sido agente do cumprimento da promessa de Deus de lhe construir um Templo. Também é articulado numa linguagem que lembra salmos como 89,24; 106,10, 45-46; 105,8-9. A descrição do “Chifre da Salvação” ecoa a descrição de Davi em ICr 17,4.

A sublime menção ao “profeta do Altíssimo” atribuída ao menino no vs. 76 faz lembrar a passagem do livro de Isaías 40,35 ( posteriormente, a menção ao “mensageiro” em Malaquias 3,1) com acentuada conotação de esperança de redenção coletiva; o evangelista vai retomar essa linguagem em 3,4-6. Ainda na bênção de Zacarias, a importante ênfase no termo “redimiu” faz alusão à libertação do cativeiro egípcio, onde se amarra à evocação de Deus visitando seu povo para redenção.

Dunn também ponderou sobre este hino: 
Uma das figuras ou dos títulos da esperança messiânica judaica era 'o profeta' (Dt 18,18s; Is61,1ss; Ml.4,5; Testamento de Levi 8,15;Testamento de Benjamin 9,2 [?]; IQS9,11; 4Qtest. 5-8); e a palavra grega usada no v. 78 para nascente (anatolë) pode ser uma alusão à LXX de Jeremias 23,5; Zacarias 3,8; 6,12) onde ela traduz a metáfora messiânica 'ramo'.

Outra bela peça exposta na narrativa lucana é o hino tradicionalmente conhecido como “Gloria in Excelsius” (Lc.2,14), que já foi matéria-prima para belíssimas composições de Bach e Vivaldi; Dunn ainda foi mais enfático sobre o mesmo: “Não contém nada especificamente cristã em si, isto é, fora de seu contexto”.

O hino conta com uma expressão importante, “povo de quem ele se agrada” que apresenta paralelos de aspirações de libertação nacional em um trecho dos rolos da comunidade de Qumrã, 1QH 4,32-33 e no texto protorrabínico Shemoneh Esrei, benção de gratidão 17, a “Avodah”. 

Ainda outras referências importantes embutidas no segundo capítulo de Lucas são auspiciosas: em 2,13-14 ele joga com uma contraposição entre as anunciações de arautos imperiais sobre a “pax augusta”, a “paz universal” reivindicada pelo imperador romano Augusto. Prepara o terreno para mais à frente (Lc 2,25-26) fazer menção à “Consolação”, expressão da intervenção de Deus a favor de Israel (Is. 49,13; 51,3; 52,9; 66,13).

Há ainda algo notável relacionado ao Magnificat que deixamos para o final destas nossas constações. O cântico anuncia um título real atribuído ao Jesus que estaria para vir ao mundo, o “Filho do Altíssimo” [6]. Coisa de poucas décadas atrás importantes estudiosos consideravam que esta expressão fora tomada de empréstimo do meio cultural helenístico, não fazendo parte dos primórdios da tradição cristã e assim sendo, uma atribuição que fora incorporada mais tarde através de um processo evolutivo gradual.

Mas após um trabalho com um fragmento dos Manuscritos do Mar Morto, constatou-se o uso desta expressão por parte do imaginário messiânico e escatológico. Mais do que isso, este fragmento de Qunram inteiro tem fortes ecos em comum com a linguagem do Magnificat. Na tradução e reconstrução de Hershell Shanks, “[X]será grande sobre a terra. [Oh Rei, todos (povos) haverão de] fazer [paz], e todos haverão de servi-[lo. Ele será chamado o filho] do [G]rande [Deus], e por este nome será aclamado (como) o Filho de Deus, e o chamarão Filho do Altíssimo” [7].


Combinando este mosaico temos uma tela em que se retrata algo que bate de frente com algumas inferências vulgarmente encontradas, que dizem que a fé cristã despontou em uma clivagem aguda com uma expressão do judaísmo com fortes preocupações messiânicas de cunho político e comunal, aspirando a uma subversão das estruturas de poder do Império e uma libertação nacional. Estas falas que lemos ou ouvimos contrapõem com isso uma fé cristã que nasceu com um caráter mais “espiritual” (sic), intimista e individualista, cuja aspiração seria o gozo da libertação da alma para as regiões celestes despregando-se das preocupações com o destino do povo como um todo e do mundo.

O quadro apresentado vai em um sentido em que esta clivagem alegada é significativamente nuançada. A matéria-prima e os materiais que engendravam a fé cristã nascente compartilhavam, mesmo bebiam das fontes de aspirações coletivas judaicas, com acentos de anelos para subversão das estruturas de poder pela ação de Deus na história, partindo desse mesmo Deus das tradições de Israel, reconfiguradas de forma em que a figura do messias Jesus fosse central e o sujeito consumador vital, com as ênfases próprias de seus ethos comunitário e com uma força propulsora centrífuga.

Ficamos aqui por esta vez, brindando com a belíssima abertura da composição do “Magnificat” por Johann Sebastian Bach. 




[ 1] MÉIER, J.P. Um Judeu Marginal. Repensando o Jesus Histórico. Volume Um: As Raízes do Problema e da Pessoa. Rio de Janeiro: Imago, 1993, pp. 213-214.

[ 2 ] FILKENSTEIN, L. The Oldest Midrash, Pré-Rabbinic Ideals and Teaching in the Passover Haggadah. Harvard Theological Review,Vl; 31. 1938, pp 291-317

[ 3 ] MURPHY O'CONNOR, J. Jesus e Paulo: Vidas Paralelas. São Paulo: Paulinas. 2008. pp.22

[ 4 ] DUNN, J. Unidade e Diversidade no Novo Testamento. Santo André: Editora Academia Cristã, 2009.

[ 5 ]. BOCK, D.L. Jesus segundo as escrituras. São Paulo: Shedd Publicações, 2006, pp.56-57.

[ 6 ] FITZMYER, J. A. 4Q246 The "Son of God" Document from Qumran. Biblica: 1993, pp.153-174

[ 7 ] SHANKS, H. (org). Para Compreender os Manuscritos do Mar Morto; uma coletânea de ensaios da Biblical Archaeology Review. Rio de Janeiro: Imago, 1993, pp. 212-214



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