Estudos sobre Religião - Biblioblog

domingo, 2 de novembro de 2008






Uma passagem particularmente interessante dos Atos dos Apóstolos é aquela na qual Paulo, segundo Lucas, pronuncia um discurso diante dos gregos no Areópago de Atenas (At 17,22-34). A passagem merece atenção não apenas por seu conteúdo teológico, mas sobretudo porque nos coloca diante de uma questão metodológica fundamental para a leitura histórica do Novo Testamento: até que ponto o discurso colocado por Lucas na boca de Paulo corresponde efetivamente à pregação histórica de Paulo e até que ponto constitui uma elaboração literária do próprio Lucas? A pergunta não é secundária. Ela nos obriga a distinguir entre aquilo que podemos reconstruir a respeito do Paulo histórico a partir de suas cartas autênticas e aquilo que o autor de Atos deseja apresentar como sendo o pensamento e a prática missionária do apóstolo. A crítica moderna reconhece que os discursos de Atos devem ser lidos dentro das convenções literárias da historiografia antiga, nas quais a reprodução literal de uma fala não constituía necessariamente o objetivo do historiador. Como observam Cláudio Moreschini e Enrico Norelli, os discursos atribuídos aos personagens históricos tinham uma função interpretativa e podiam ser compostos pelo autor para iluminar o significado de determinada situação:

“Os discursos dos Atos são importantes para o estudo do pensamento do autor; as convenções historiográficas antigas permitiam por na boca dos personagens históricos discursos que eles não tinha realmente pronunciado, mas que serviam para iluminar o significado da situação.”

(MORESCHINI; NORELLI, 1995, p. 98).

A observação de Moreschini e Norelli permite compreender o problema de maneira muito mais sofisticada do que a simples oposição entre “discurso verdadeiro” e “discurso inventado”. A historiografia antiga não trabalhava necessariamente com o mesmo conceito moderno de transcrição documental e, por isso, um discurso poderia ser historicamente significativo mesmo quando não fosse possível demonstrar que cada uma de suas palavras tivesse sido pronunciada pelo personagem ao qual era atribuído. Helmut Koester chama atenção para o mesmo fenômeno ao observar que os discursos colocados na boca de personagens históricos pertenciam a uma técnica literária conhecida no mundo antigo e utilizada não apenas pela historiografia, mas também por outros gêneros literários, inclusive romances e epopeias. O objetivo era conferir inteligibilidade ao acontecimento e explicitar seu significado para o leitor (KOESTER, 2005, v. 2, p. 340). O problema, portanto, não consiste em afirmar que Lucas simplesmente inventou Paulo, mas em reconhecer que existe um Paulo literariamente construído por Lucas, cuja função narrativa e teológica precisa ser analisada. O discurso do Areópago é, nesse sentido, muito mais revelador do que poderia parecer à primeira vista: mesmo que não possamos provar que Paulo pronunciou aquelas palavras exatamente daquela maneira, podemos investigar por que Lucas considerou que aquelas eram as palavras que Paulo deveria pronunciar diante dos gregos. E essa distinção é fundamental, porque o Paulo que emerge de Atos 17 apresenta características que não aparecem da mesma maneira nas cartas paulinas autênticas.

Nas cartas reconhecidas como autenticamente paulinas, encontramos uma concepção da condição humana fortemente marcada pela universalidade do pecado e pela necessidade da intervenção salvífica de Deus. A formulação de Romanos 3,23 — “todos pecaram e estão privados da glória de Deus” — constitui uma das expressões mais conhecidas dessa antropologia. O homem paulino é frequentemente apresentado dentro de uma condição de ruptura, submetido ao pecado e incapaz de alcançar por seus próprios meios a justiça que somente Deus pode conceder. A linguagem da carne, do pecado, da Lei, da morte, da cruz e da justificação ocupa papel central nesse universo conceitual. O Paulo das cartas pode argumentar a partir de Abraão, Adão, Moisés, da promessa feita a Israel e da crucificação de Jesus. O Paulo apresentado por Lucas diante do Areópago, entretanto, começa em outro lugar. Ele encontra diante de si homens que não compartilham previamente a tradição judaica, não reconhecem a autoridade das Escrituras de Israel e não possuem necessariamente as categorias teológicas que permitiriam compreender de imediato uma argumentação fundada na Lei, na aliança ou na história de Israel. Lucas precisa, portanto, construir uma outra porta de entrada. O homem que aparece no Areópago não é apresentado inicialmente como aquele que fracassou diante da Lei, mas como aquele que procura Deus; não é simplesmente o homem condenado pelo pecado, mas o homem religioso que, mesmo em sua ignorância, manifesta uma disposição para buscar o divino. Não devemos transformar essa diferença em uma oposição absoluta entre Paulo e Lucas, como se o autor de Atos tivesse deliberadamente contradito toda a antropologia das cartas; é mais adequado compreendê-la como resultado de uma mudança radical de situação retórica. O Paulo das cartas fala a comunidades cristãs ou a grupos em processo de formação; o Paulo de Lucas fala a um auditório pagão. O que muda, portanto, não é necessariamente o núcleo inteiro da teologia, mas a estratégia discursiva através da qual essa teologia é comunicada.

Essa mudança aparece imediatamente na maneira como Paulo aborda a religiosidade ateniense. Lucas não começa o discurso com uma acusação frontal de idolatria. Ao contrário, começa reconhecendo a intensidade da religiosidade de seus interlocutores e utiliza um objeto pertencente ao próprio ambiente cultual de Atenas como ponto de partida para sua argumentação. Paulo observa um altar dedicado ao “Deus desconhecido” e declara: “Aquele que adorais sem conhecer, esse é o que vos anuncio” (At 17,23). A estratégia é de enorme sofisticação retórica porque aquilo que poderia ser interpretado simplesmente como ignorância religiosa é convertido em ponto de contato. Lucas apresenta Paulo como alguém capaz de reconhecer no discurso religioso do outro um elemento que pode ser reinterpretado a partir da fé cristã. O apóstolo não começa destruindo a linguagem de seu interlocutor; ele começa utilizando-a. O procedimento é particularmente importante para compreender a natureza apologética de Atos. Lucas precisa mostrar que o cristianismo não é uma superstição oriental irracional, nem uma ameaça desprovida de qualquer relação com a tradição intelectual do Mediterrâneo. Ao contrário, o cristianismo pode dialogar com a cultura grega utilizando seus próprios instrumentos discursivos. O Deus que Paulo anuncia é apresentado como criador do universo, aquele que não habita em templos feitos por mãos humanas e que não depende de sacrifícios humanos para existir. Ao mesmo tempo, Lucas faz com que Paulo estabeleça uma relação entre a humanidade e Deus através de uma expressão que não provém originalmente da tradição cristã, mas da literatura grega.

É justamente aqui que encontramos um dos elementos mais importantes do discurso. Atos 17,28 afirma:

“Por que somos também da sua raça.”

A formulação possui um paralelo extremamente significativo nos Fenômenos, de Arato de Soli. O texto grego de Arato, preservado na tradução inglesa utilizada no texto embrionário, apresenta a seguinte passagem:

“From Zeus let us begin; him do we mortals never leave unnamed; full of Zeus are all the streets and all the market-places of men; full is the sea and the havens thereof; always we all have need of Zeus. For we are also his offspring; and he in his kindness unto men giveth favourable signs and wakeneth the people to work, reminding them of livelihood.”

Em tradução:

“Comecemos por Zeus; nós, mortais, jamais deixamos de pronunciá-lo; cheias de Zeus estão todas as ruas e todas as praças dos homens; cheio dele está o mar e seus portos; todos nós temos sempre necessidade de Zeus. Pois também somos sua descendência; e ele, em sua benevolência para com os homens, concede sinais favoráveis e desperta o povo para o trabalho, lembrando-o de seus meios de subsistência.”

(ARATO, Fenômenos, tradução nossa).

A relação entre as duas formulações é evidente e constitui um dos casos mais conhecidos de apropriação de literatura grega no Novo Testamento. Lucas não está simplesmente ornamentando o discurso de Paulo com uma citação erudita. A operação é teologicamente mais complexa. Arato está falando de Zeus; Lucas faz Paulo utilizar a mesma linguagem para falar do Deus criador. A frase “somos também sua descendência” é retirada de seu contexto original e colocada dentro de uma argumentação monoteísta que pretende demonstrar a inadequação da idolatria. Se somos descendência de Deus, argumenta o Paulo lucano, então é absurdo imaginar que a divindade possa ser semelhante a uma imagem fabricada pelos homens em ouro, prata ou pedra. O poeta grego é, portanto, utilizado contra uma determinada concepção religiosa grega. A operação não consiste em afirmar que Arato era cristão ou que Zeus era simplesmente uma designação equivocada do Deus bíblico. Trata-se de algo muito mais interessante: Lucas encontra dentro da própria cultura que pretende evangelizar uma linguagem que pode ser deslocada e reinterpretada para servir à proclamação cristã. O mundo grego fornece o vocabulário; Lucas modifica seu horizonte teológico.

A mesma questão pode ser observada quando examinamos a tradição estoica. Uma passagem de conteúdo semelhante encontra-se no Hino a Zeus, tradicionalmente atribuído a Cleantes:

“On earth's broad ways that wander to and fro,
Bearing your image wheresoever we go.”

Em tradução:

“Pelos largos caminhos da terra, que percorremos de um lado para outro,
levando conosco, onde quer que vamos, a tua imagem.”

(CLEANTES, Hino a Zeus, tradução nossa).

Aqui, contudo, precisamos introduzir uma cautela metodológica que não estava suficientemente desenvolvida no texto original. A presença de uma formulação semelhante não permite afirmar automaticamente que Lucas tenha utilizado diretamente Cleantes como fonte. A questão da dependência literária deve ser distinguida da questão da proximidade cultural e conceitual. O que podemos afirmar com maior segurança é que Atos 17 participa de um ambiente intelectual no qual eram correntes determinadas concepções sobre a relação entre Deus, cosmos e humanidade. A investigação acadêmica contemporânea tem inclusive ampliado a discussão para além de Arato e do estoicismo, examinando possíveis relações do discurso com tradições platônicas e com a linguagem filosófica relativa a Deus como criador e pai. Estudos especializados sobre Atos 17 chamam atenção para a presença de tradições exegéticas relacionadas ao Timeu de Platão e para a maneira como Lucas caracteriza Paulo como um pensador capaz de operar dentro de categorias intelectuais reconhecíveis pelo público grego. Assim, a importância de Arato e Cleantes não está necessariamente em provar que Lucas possuía diante de si os dois textos e os copiou. Sua importância está em demonstrar que o discurso do Areópago foi construído em diálogo com o universo intelectual grego.

De fato, se observarmos essas obras, encontraremos elementos que ajudam a compreender a maneira pela qual Lucas elabora o discurso de Paulo. A estrutura do argumento não é simplesmente uma sequência de afirmações teológicas desconectadas. Existe uma progressão: primeiro, Lucas apresenta a religiosidade dos atenienses; depois, encontra nela uma abertura para falar do Deus desconhecido; em seguida, apresenta Deus como criador do universo; posteriormente, estabelece a relação entre Deus e a humanidade; então utiliza uma autoridade poética grega para formular essa relação; a partir daí, transforma a própria afirmação grega em argumento contra a idolatria; finalmente, conduz o auditório ao anúncio do julgamento e da ressurreição. Temos, portanto, um movimento que pode ser resumido da seguinte maneira:

RELIGIOSIDADE ATENIENSE → DEUS DESCONHECIDO → DEUS CRIADOR → HUMANIDADE COMO DESCENDÊNCIA → ARATO → CRÍTICA À IDOLATRIA → ARREPENDIMENTO → JULGAMENTO → RESSURREIÇÃO.

O ponto decisivo é que Lucas não apresenta o cristianismo simplesmente como uma religião que destrói tudo aquilo que encontra diante de si. Ele o apresenta como uma religião capaz de reconhecer, selecionar e reinterpretar elementos da cultura circundante. Essa característica é fundamental para o projeto literário de Atos. A narrativa começa em Jerusalém e progressivamente se desloca para fora do espaço judaico, atravessando Samaria, Ásia Menor, Macedônia, Grécia e finalmente chegando a Roma. A expansão geográfica da Igreja é simultaneamente uma expansão cultural. O episódio do Areópago representa um dos momentos mais sofisticados dessa expansão porque Atenas funciona, dentro da imaginação cultural greco-romana, como símbolo de filosofia, poesia, religião e investigação racional. Colocar Paulo diante de Atenas significa colocá-lo diante de uma representação do mundo intelectual grego. E colocar Arato na boca de Paulo significa demonstrar que o cristianismo possui condições de falar dentro da linguagem intelectual desse mundo sem simplesmente tornar-se idêntico a ele.

É importante, entretanto, não exagerar a aproximação. O Paulo do Areópago não é um estoico disfarçado, tampouco um platônico cristianizado. Lucas apropria-se de determinadas categorias, mas conduz o discurso para uma conclusão que rompe com o horizonte religioso do auditório: a ressurreição de Jesus. O procedimento é quase dialético. Primeiro, o discurso estabelece uma área de reconhecimento; depois, utiliza aquilo que o interlocutor reconhece para deslocar seu sistema de compreensão; finalmente, introduz uma afirmação que exige uma resposta. A cultura grega oferece o ponto de partida, mas não determina o ponto de chegada. É justamente nesse limite que se encontra a força apologética do discurso. Lucas não precisa afirmar que os gregos já eram cristãos sem saber. Precisa demonstrar que o universo intelectual grego não é impermeável à mensagem cristã.

Esse aspecto torna particularmente interessante a diferença entre o Paulo das cartas e o Paulo apresentado por Lucas. O Paulo das cartas pode partir da cruz. O Paulo de Lucas parte de um altar. O Paulo das cartas pode recorrer às Escrituras de Israel. O Paulo de Lucas recorre a Arato. O Paulo das cartas argumenta frequentemente a partir do pecado, da Lei e da justificação. O Paulo do Areópago argumenta a partir da criação, da religiosidade humana e da busca por Deus. Não estamos necessariamente diante de dois Paulos históricos incompatíveis, mas diante de duas construções discursivas de Paulo adaptadas a situações diferentes. Lucas parece compreender que uma mensagem universal exige alguma forma de tradução cultural. O mesmo apóstolo que pode falar aos judeus utilizando as Escrituras precisa ser capaz de falar aos gregos utilizando categorias que eles reconheçam.

É precisamente nesse sentido que a expressão “o Paulo de Lucas” se torna intelectualmente produtiva. Ela nos permite escapar tanto da ingenuidade de considerar o discurso uma transcrição literal quanto do ceticismo excessivo que o descartaria como pura invenção. O discurso pode conservar ecos de tradições antigas da missão cristã, mas sua forma atual é inseparável da teologia e da estratégia literária de Lucas. O autor transforma Paulo em mediador cultural. Paulo é aquele que consegue entrar em diferentes universos sem perder a identidade da mensagem que anuncia. No Areópago, essa função é levada ao extremo: o apóstolo fala a partir do interior do mundo grego, utiliza sua poesia e sua linguagem filosófica, mas conduz tudo isso para uma proclamação cristológica.

O resultado é uma operação de tradução cultural que pode ser representada assim:

CULTURA GREGA

RECONHECIMENTO

APROPRIAÇÃO

REINTERPRETAÇÃO

CRÍTICA DA IDOLATRIA

PROCLAMAÇÃO CRISTÃ

O ponto fundamental é que a apropriação não implica submissão. Lucas não abandona o monoteísmo judaico para tornar Paulo intelectualmente aceitável aos gregos. Ao contrário, utiliza categorias gregas para reafirmar uma concepção radicalmente não pagã de Deus: Deus não está contido em templos; não necessita das mãos humanas; não é produzido por artesãos; não pode ser reduzido a imagens; é criador de todas as coisas e juiz da humanidade. O recurso à literatura grega serve, paradoxalmente, para construir uma crítica da religião grega. Arato fornece a linguagem que permite estabelecer a relação entre Deus e humanidade; Lucas utiliza essa relação para destruir a lógica da representação idolátrica. A cultura do outro é, portanto, simultaneamente ponte e objeto de crítica.

Talvez seja exatamente aí que esteja a sofisticação do texto lucano. O autor não constrói uma oposição simplista entre revelação judaico-cristã e ignorância pagã. Ele reconhece que os gregos possuem linguagem capaz de expressar determinadas intuições sobre Deus. O problema não é a inexistência absoluta de conhecimento, mas sua insuficiência. O “Deus desconhecido” torna-se, assim, uma imagem perfeita da estratégia lucana: existe alguma coisa que os atenienses já procuram, mas que ainda não conhecem adequadamente. Paulo não precisa começar do zero. Precisa reordenar o conhecimento existente. É uma estratégia missionária que será extraordinariamente importante na história posterior do cristianismo, sobretudo à medida que comunidades cristãs ingressarem cada vez mais profundamente no universo intelectual greco-romano.

O Areópago, nesse sentido, não deve ser compreendido apenas como uma cena de pregação. Ele funciona como uma espécie de ensaio literário sobre a possibilidade do diálogo entre cristianismo e cultura helênica. Lucas coloca Paulo no centro de Atenas e faz com que o apóstolo demonstre que a mensagem cristã pode utilizar o vocabulário de seus interlocutores sem dissolver-se nele. A presença de Arato é particularmente significativa porque demonstra que o cristianismo pode apropriar-se de uma autoridade poética pagã e utilizá-la para construir uma afirmação teológica cristã. A presença possível de categorias estoicas reforça a mesma impressão. A relação com tradições platônicas, discutida pela pesquisa contemporânea, amplia ainda mais o quadro. Não estamos diante de uma simples citação ocasional; estamos diante de um personagem cristão apresentado como intelectualmente capaz de habitar a fronteira entre diferentes tradições culturais.

E talvez seja precisamente por isso que o discurso tenha sido colocado na boca de Paulo. Lucas precisa apresentar o cristianismo como uma religião capaz de atravessar fronteiras. Jerusalém não pode permanecer seu limite. A Igreja precisa alcançar Roma. Mas, para chegar a Roma, precisa atravessar o mundo grego. E, para atravessar o mundo grego, precisa demonstrar que sua mensagem pode ser formulada em uma linguagem que os gregos reconheçam. O Paulo do Areópago é, portanto, uma figura literária fundamental para o projeto de Lucas: ele é o Paulo tradutor, o Paulo capaz de transformar categorias culturais sem simplesmente aceitá-las integralmente, o Paulo que encontra no próprio repertório do outro instrumentos para anunciar uma mensagem que permanece distinta.

É nesse ponto que a frase de Arato ganha uma importância que ultrapassa sua dimensão filológica. “Somos também sua descendência” era originalmente uma afirmação pertencente ao universo religioso grego. Na boca do Paulo lucano, ela passa a funcionar como argumento contra a fabricação de imagens de Deus. A mesma frase muda de significado porque mudou de sistema teológico. Esse fenômeno é talvez uma das características mais importantes do cristianismo antigo: a capacidade de reutilizar formas culturais existentes e preenchê-las com novos significados. O cristianismo não nasce em um vazio cultural. Ele nasce no interior do judaísmo do Segundo Templo, encontra o mundo helenístico, utiliza a língua grega, dialoga com filosofias, incorpora formas literárias e gradualmente desenvolve um vocabulário próprio. Atos 17 oferece uma espécie de miniatura desse processo.

Por isso, a questão inicial pode finalmente ser retomada. Quem é o Paulo que fala no Areópago? Não podemos demonstrar que Paulo tenha pronunciado literalmente cada uma das palavras registradas por Lucas. Mas podemos afirmar algo historicamente muito relevante: é assim que Lucas deseja que Paulo seja ouvido diante do mundo grego. E essa conclusão é talvez mais interessante do que a tentativa de reconstruir uma hipotética gravação do discurso. O problema histórico passa da reconstrução impossível da fala original para a análise da representação literária. O que Lucas está nos dizendo sobre Paulo? Está nos dizendo que o apóstolo é capaz de compreender o outro, falar sua linguagem, utilizar seus poetas, reconhecer suas categorias filosóficas e, a partir delas, anunciar o Deus cristão. O Paulo do Areópago é, portanto, uma construção literária que responde a uma necessidade histórica real: como uma religião nascida no interior do judaísmo poderia apresentar-se ao mundo greco-romano sem abandonar sua identidade?

A resposta de Lucas é extraordinariamente elegante: entrando na linguagem do outro, mas não terminando nela.

Paulo começa em Atenas.

Começa com um altar.

Passa por Arato.

Passa pela linguagem da descendência divina.

Passa pela crítica às imagens.

E chega à ressurreição.

O caminho é todo o argumento.

E talvez seja justamente por isso que o Paulo do Areópago seja tão diferente — e ao mesmo tempo tão importante — em relação ao Paulo das cartas. O Paulo das cartas nos permite aproximar-nos do pensamento do missionário histórico. O Paulo de Lucas nos mostra algo diferente: como uma geração cristã posterior imaginou a tarefa de levar esse pensamento para além das fronteiras culturais nas quais ele havia nascido.

O Areópago é, portanto, menos uma fotografia da pregação de Paulo do que uma fotografia da própria estratégia de Lucas.

E nessa fotografia, curiosamente, o poeta pagão Arato aparece falando pela boca do apóstolo cristão.

Essa é talvez a imagem mais poderosa de todo o episódio.




Referências

ARATO. Fenômenos. Século III a.C.

BÍBLIA DE JERUSALÉM. São Paulo: Paulus, 2002.

CLEANTES. Hino a Zeus. Século III a.C.

KOESTER, Helmut. Introdução ao Novo Testamento. São Paulo: Paulus, 2005. v. 2.

MORESCHINI, Cláudio; NORELLI, Enrico. História da literatura cristã antiga grega e latina. São Paulo: Paulus, 1995.

PLATÃO. Timeu. In: PLATÃO. Diálogos. São Paulo: Abril Cultural, 1972.

sábado, 1 de novembro de 2008


Resumo

A expressão “Filho de Deus” ocupa posição central na linguagem cristológica do Novo Testamento, mas sua compreensão histórica exige que ela seja retirada, inicialmente, do universo conceitual exclusivamente cristão no qual posteriormente foi incorporada. O objetivo deste ensaio é investigar o campo semântico da filiação divina no judaísmo antigo, particularmente suas relações com a ideologia régia, o messianismo, a escatologia e a angelologia do período do Segundo Templo. Partindo da tradição de entronização real presente sobretudo nos Salmos 2 e 110, examinam-se as possibilidades de compreensão da filiação divina como linguagem de eleição e realeza. Em seguida, a investigação se desloca para 4Q246, o chamado “Apocalipse Aramaico” ou “Texto do Filho de Deus”, cuja personagem é descrita mediante as expressões “Filho de Deus” e “Filho do Altíssimo”. A comparação com Lucas 1,32-35 é realizada sem pressupor dependência literária direta, distinguindo-se paralelismo lexical, afinidade conceitual e relação de fonte. Finalmente, 11QMelquisedec e a tradição sacerdotal de Melquisedec são utilizados para demonstrar que, no judaísmo do Segundo Templo, as categorias régia, sacerdotal, celestial e escatológica podiam ser articuladas de maneiras distintas. Sustenta-se, assim, que o cristianismo não criou ex nihilo a linguagem da filiação divina, mas concentrou e reconfigurou repertórios semânticos judaicos preexistentes na figura de Jesus.

Palavras-chave: Filho de Deus; messianismo; judaísmo do Segundo Templo; Qumran; 4Q246; Melquisedec; cristologia.




1. O problema da expressão “Filho de Deus”

Há determinadas expressões religiosas cuja familiaridade posterior constitui, paradoxalmente, um dos maiores obstáculos à sua compreensão histórica. “Filho de Deus” é uma delas. A força adquirida pela expressão dentro da tradição cristã fez com que ela passasse a ser compreendida, sobretudo no cristianismo posterior, como uma categoria praticamente autoevidente: Jesus é o Filho de Deus e, portanto, a expressão pareceria carregar desde sua origem exatamente o conteúdo cristológico que lhe foi atribuído posteriormente. Historicamente, entretanto, a questão é muito mais complexa. A expressão não surgiu no interior do cristianismo, tampouco pode ser compreendida adequadamente sem referência às tradições israelitas de eleição, realeza, filiação coletiva, angelologia e expectativa escatológica. A investigação contemporânea sobre divine sonship tem justamente insistido nessa pluralidade. A coletânea Son of God: Divine Sonship in Jewish and Christian Antiquity, por exemplo, reúne estudos especificamente dedicados às ocorrências da linguagem de filiação divina na literatura judaica antiga, incluindo 4Q246, os Manuscritos do Mar Morto, literatura apocalíptica, cristianismo primitivo e tradições posteriores. O próprio desenho da obra é significativo: “Filho de Deus” não constitui uma categoria unívoca, mas um campo semântico cuja utilização depende do corpus, do gênero literário e do contexto teológico em que aparece (ALLEN; AKAGI; SLOAN; NEVADER, 2019).

É precisamente nesse ponto que se encontra a questão central deste ensaio. O que significava chamar alguém de “Filho de Deus” no ambiente judaico anterior e contemporâneo ao surgimento do cristianismo? A pergunta parece simples, mas exige que se evite uma das armadilhas mais frequentes da investigação histórica do cristianismo primitivo: projetar retrospectivamente sobre textos judaicos categorias cristológicas posteriores. Não devemos partir de Jesus para interpretar todas as ocorrências anteriores de “Filho de Deus”; devemos fazer o movimento inverso. É necessário reconstruir, tanto quanto possível, o repertório semântico disponível no judaísmo do Segundo Templo e, somente depois, observar como determinados textos cristãos reutilizam, deslocam ou concentram essas tradições. A hipótese que orientará nossa análise é, portanto, que a linguagem da filiação divina possuía uma matriz régia particularmente importante, mas não se restringia à realeza. Ao longo do período do Segundo Templo, essa linguagem podia ser mobilizada para falar de Israel, do rei, dos justos, de personagens escatológicos e de seres pertencentes à esfera celestial. A questão decisiva, portanto, não é encontrar uma única “origem” da expressão, mas reconstruir o processo pelo qual diferentes tradições foram articuladas e, posteriormente, concentradas na cristologia de Jesus.

Essa perspectiva também exige uma distinção metodológica fundamental. Ao compararmos textos como 4Q246 e Lucas 1,32-35, por exemplo, encontraremos paralelos lexicais impressionantes. Isso, entretanto, não significa automaticamente que Lucas tenha utilizado 4Q246 como fonte. Da mesma forma, quando encontramos uma determinada concepção em Qumran e outra semelhante no Novo Testamento, não podemos imediatamente falar em “influência”. Devemos distinguir continuidade lexical, continuidade conceitual e dependência literária. A primeira ocorre quando expressões semelhantes aparecem em textos distintos; a segunda, quando textos compartilham uma determinada estrutura teológica ou imaginário; somente a terceira permite falar propriamente em utilização de uma fonte ou tradição literária específica. Essa distinção será fundamental para o argumento que segue.



2. A matriz régia: o rei como “filho” de Deus

Uma das matrizes mais antigas e importantes para compreender a linguagem da filiação divina encontra-se na ideologia régia de Israel. O problema não começa com o cristianismo nem sequer com o judaísmo do Segundo Templo. Ele remonta à concepção segundo a qual o rei davídico podia ser apresentado como filho de Deus em sentido político-teológico. O texto fundamental é o Salmo 2, particularmente o versículo 7:

“Vou proclamar o decreto de Iahweh: Ele me disse: ‘Tu és meu filho, eu hoje te gerei.’”

A leitura desse versículo dentro do contexto do salmo é decisiva. Não se trata simplesmente de uma afirmação sobre a natureza metafísica do rei. O salmo descreve a entronização de um soberano escolhido por YHWH, cuja autoridade política passa a ser apresentada como decorrência da eleição divina. A filiação, nesse contexto, funciona como linguagem de legitimação régia. O rei é “filho” porque foi escolhido por Deus, investido de autoridade e incorporado simbolicamente à esfera da soberania divina. A expressão não precisa significar que o monarca seja literalmente uma divindade; significa que sua autoridade é definida pela relação especial estabelecida entre ele e Deus. Essa matriz é particularmente importante porque permite compreender por que, posteriormente, a expressão “Filho de Deus” poderia adquirir conotações messiânicas sem necessariamente significar, em seu primeiro nível semântico, uma ontologia divina plenamente desenvolvida.

A mesma problemática aparece na discussão da tradição de coroação israelita. Em seu texto original, Flávio Souza Cruz havia destacado uma formulação de Mark Smith a respeito da reconstrução proposta por Bernhard Lang:

“Lang (2002) propõe que, no ritual de coroação judaica, considerava-se que o rei ascendia ritualmente ao céu, onde, depois do seu nascimento como filho de Deus, ele se reunia na companhia de outros “filhos de Deus”, colocados à direita de Deus, e recebia poder divino. Assim o rei é convidado pelo oráculo divino, cujo sacerdote talvez dissesse: “Senta-te à minha direita” (Salmos 110,1)”

SMITH, Mark. O memorial de Deus: história, memória e a experiência do divino no Antigo Israel. São Paulo: Paulus, 2006, p. 96. A referência é ao livro The Hebrew God: Portrait of an Ancient Deity, de Bernhard Lang.

A citação deve ser mantida, mas sua função argumentativa precisa ser precisamente delimitada. Trata-se de uma reconstrução acadêmica do ritual e da ideologia régia, não de uma descrição documental cuja totalidade possa ser demonstrada diretamente. O ponto relevante para nosso argumento é menos provar a existência de cada detalhe do ritual reconstruído por Lang do que reconhecer a existência de um imaginário no qual a entronização real podia ser descrita mediante linguagem de filiação, ascensão, proximidade divina e recebimento de autoridade. Essa cautela é importante porque a investigação histórica da monarquia israelita não permite simplesmente transportar para uma cerimônia historicamente reconstruída todos os elementos presentes em textos poéticos e teológicos posteriores.

O Salmo 110 acrescenta outra dimensão importante:

“Oráculo de Iahweh ao meu senhor: ‘Senta-te à minha direita, até que eu ponha teus inimigos como escabelo de teus pés.’”

A linguagem é extraordinariamente significativa porque articula entronização, proximidade divina e vitória sobre os inimigos. O personagem régio é colocado à direita de Deus, numa posição que excede a simples administração política ordinária. A realeza aparece, assim, situada numa espécie de interface entre o mundo humano e a soberania divina. É justamente esse tipo de linguagem que posteriormente permitirá que categorias régias sejam reutilizadas por tradições messiânicas e escatológicas.

É nesse contexto que devemos compreender a afirmação preservada no texto original a partir de Elaine Pagels:

“Nas antigas cerimônias de coroação de Israel, o rei era ungido para mostrar o favor de Deus, enquanto um coral, entoando um dos salmos rituais, proclamava que, ao ser coroado, o rei se tornava representante de Deus, seu ‘filho’ humano. Portanto, ao iniciar seu evangelho dizendo que ‘este é o evangelho de Jesus, o messias, o filho de Deus, Marcos está anunciando que Deus escolheu Jesus para ser o futuro rei de Israel.”

PAGELS, Elaine. Além de toda crença: o evangelho desconhecido de Tomé. Rio de Janeiro: Objetiva, 2004, p. 50-51.

A formulação de Pagels é particularmente útil como hipótese interpretativa, mas não deve ser convertida numa regra universal segundo a qual “Filho de Deus” significaria sempre “rei”. A pesquisa contemporânea mostra que o campo é mais amplo. George Brooke, por exemplo, chama atenção para a relação entre “son of God”, “sons of God” e eleição nos Manuscritos do Mar Morto, examinando particularmente a combinação de 2 Samuel 7 e Salmo 2 em 4Q174. O problema deixa de ser, portanto, “qual é a tradução de Filho de Deus?” e passa a ser “quais relações de eleição, autoridade e pertencimento essa linguagem estabelece em cada texto?” (BROOKE, 2019).

Assim, podemos estabelecer a primeira proposição do nosso argumento: a filiação divina possui uma matriz régia fundamental, mas não exclusivamente régia. O rei pode ser “filho” de Deus porque é o eleito e representante da soberania divina; entretanto, o desenvolvimento posterior da tradição judaica permitirá que o vocabulário de filiação seja deslocado para outros campos semânticos.



3. Da realeza à pluralização da filiação divina

A passagem do universo régio para o ambiente do Segundo Templo não deve ser entendida como uma substituição de um significado por outro. Não ocorre simplesmente uma transformação em que “filho do rei” se torna “ser celestial”. O que ocorre é uma pluralização do campo semântico. A linguagem de filiação divina passa a poder operar em diferentes registros simultaneamente: coletivo, régio, ético, escatológico e celestial. Essa constatação é particularmente importante porque impede que se construa uma história linear da expressão. A literatura judaica antiga não apresenta uma evolução homogênea rumo ao cristianismo; apresenta, ao contrário, múltiplas experimentações com categorias tradicionais.

A pesquisa contemporânea é bastante clara nesse ponto. A obra Son of God: Divine Sonship in Jewish and Christian Antiquity dedica estudos independentes à utilização da expressão na literatura judaica antiga, aos “sons of God” nos Manuscritos do Mar Morto, à literatura sapiencial, à literatura apocalíptica e ao messianismo. O próprio índice da obra demonstra que não se trata de uma categoria semanticamente estabilizada. A expressão pode assumir diferentes funções dependendo do texto e de sua tradição interpretativa (ALLEN; AKAGI; SLOAN; NEVADER, 2019).

Essa pluralidade torna particularmente importante o estudo da literatura qumrânica. Nos Manuscritos do Mar Morto encontramos, lado a lado, linguagem de eleição, expectativa messiânica, seres celestiais, “filhos de Deus”, figuras angelicais e personagens escatológicos. Não devemos, entretanto, simplesmente reunir todas essas ocorrências e transformá-las numa única teologia. O corpus de Qumran é internamente diversificado e abrange diferentes períodos, gêneros e tradições. A questão relevante é justamente observar como categorias que hoje tendemos a separar rigidamente — humano e celestial, régio e sacerdotal, presente e futuro — podiam ser articuladas pelos autores antigos.

Esse aspecto é particularmente importante para compreender a passagem do título régio para uma eventual utilização escatológica. Se o rei é “filho” porque recebe autoridade divina, uma figura escatológica poderia receber linguagem semelhante para indicar que sua autoridade provém de Deus. Se os seres celestiais são chamados “filhos de Deus”, a expressão pode também indicar pertencimento à corte celestial. O mesmo vocabulário, portanto, pode funcionar em diferentes níveis. É justamente essa plasticidade semântica que torna possível a posterior cristologia neotestamentária.

O ponto não é afirmar que “Filho de Deus” já significava Jesus antes de Jesus. Isso seria uma tautologia retrospectiva. O ponto é muito mais interessante: o mundo judaico no qual surgiu o movimento de Jesus já possuía um repertório suficientemente amplo para tornar inteligível a associação entre filiação divina, eleição, realeza, messianismo e esfera celestial. O cristianismo nascente não precisou criar esse vocabulário; precisou reinterpretá-lo.

Essa distinção também permite compreender por que a expressão “Filho de Deus” pode assumir tamanha importância em diferentes tradições cristãs. A categoria já possuía uma longa história de utilização metafórica e teológica. O que acontece no cristianismo é sua concentração progressiva numa personagem específica. A novidade não está simplesmente no vocabulário, mas na reconfiguração do campo semântico em torno de Jesus.



4. 4Q246 e o problema do “Filho de Deus”

É nesse ponto que 4Q246 se torna fundamental. O manuscrito, conhecido como Apocalipse Aramaico de Daniel e popularmente denominado “Texto do Filho de Deus”, apresenta uma figura cuja identidade permanece controversa. O texto preservado por Hershel Shanks contém uma formulação extraordinariamente próxima de algumas passagens do Novo Testamento:

“[x]será grande sobre a terra. [Oh Rei, todos (povos) haverão de]fazer[paz], e todos haverão de servi-[lo. Ele será chamado o filho] do [G]rande [Deus], e por este nome será aclamado (como) o Filho de Deus, e o chamarão Filho do Altíssimo.”

Texto segundo SHANKS, Hershel. “Um texto inédito dos manuscritos do Mar Morto paralelo à narrativa de infância, de Lucas”. In: SHANKS, Hershel (org.). Para compreender os manuscritos do Mar Morto. Rio de Janeiro: Imago, 1993, p. 213.

O problema reside justamente na identidade da personagem. O estado fragmentário do manuscrito não permite uma solução consensual. Edward Cook, por exemplo, propôs uma interpretação negativa, associando a personagem a uma figura política do período selêucida e especialmente ao contexto de Antíoco IV Epífanes. Cook argumenta que a estrutura poética do fragmento e sua relação com as profecias acadianas favorecem essa leitura (COOK, 1995).

Outras interpretações caminham em direção diferente. A pesquisa de Michael Segal propõe compreender a figura como representante celestial do penúltimo reino de Daniel 7, a partir da identificação de uma relação entre 4Q246, Daniel 7 e Salmo 82. Essa interpretação é particularmente importante para nossa discussão porque demonstra que “Filho de Deus” em 4Q246 não precisa ser compreendido exclusivamente como designação de um indivíduo humano nem como título messiânico no sentido cristão posterior. A expressão pode participar de uma construção apocalíptica na qual autoridade política, representação celestial e interpretação das Escrituras se entrelaçam (SEGAL, 2014).

A controvérsia acadêmica é, portanto, parte da importância de 4Q246. Reinhard Kratz defende uma leitura negativa da personagem, enquanto George Brooke sustenta uma interpretação positiva e escatológica, aproximando-a do imaginário dos “filhos de Deus” celestiais. A própria literatura especializada reconhece que essas posições permanecem em tensão (KRATZ, 2019; BROOKE, 2019). Tucker Ferda, por sua vez, propôs uma leitura positiva baseada especialmente na retórica do “nomear” a personagem como “Filho de Deus”, enfatizando paralelos com tradições bíblicas de nomeação régia.

Essa multiplicidade interpretativa possui uma consequência metodológica decisiva para nosso artigo. Não precisamos resolver a identidade do personagem de 4Q246 para que o texto seja relevante. Seu valor histórico está justamente em demonstrar que, em um texto judaico do período do Segundo Templo, as expressões “Filho de Deus” e “Filho do Altíssimo” podiam aparecer associadas a uma figura de grandeza excepcional, num contexto de poder, realeza e expectativa escatológica. A questão não é provar que 4Q246 fala de Jesus; é demonstrar que o vocabulário utilizado posteriormente pela tradição cristã já possuía uma história judaica anterior.

A comparação com Lucas é inevitável:

Lucas 1,32-35 [Bíblia de Jerusalém]:

“Ele será grande, será chamado Filho do Altíssimo, e o Senhor Deus lhe dará o trono de Davi, seu pai; ele reinará na casa de Jacó para sempre, e o seu reinado não terá fim. [...] Por isso o Santo que nascer será chamado Filho de Deus.”

A proximidade é evidente: grandeza, “Filho do Altíssimo”, “Filho de Deus” e, sobretudo, trono de Davi aparecem articulados em Lucas. Isso constitui um paralelo lexical e conceitual extremamente relevante. Entretanto, não devemos transformar esse paralelo automaticamente numa demonstração de que Lucas conhecia ou utilizou diretamente 4Q246. O que podemos afirmar com segurança é que as duas tradições operam dentro de um repertório judaico no qual filiação divina, grandeza, autoridade régia e horizonte escatológico podiam ser associados.

Essa distinção é especialmente importante porque 4Q246 é anterior ao cristianismo, enquanto a forma final de Lucas pertence a um período posterior. O manuscrito, portanto, demonstra a disponibilidade de determinadas fórmulas e estruturas conceituais no ambiente judaico anterior ou contemporâneo ao cristianismo. A pesquisa especializada reconhece justamente que as semelhanças entre 4Q246 e Lucas 1 são reais, embora a interpretação de sua relação permaneça aberta.

Dessa maneira, a hipótese mais rigorosa não é:

4Q246 → Lucas 1.

Mas:

tradições bíblicas + tradições judaicas do Segundo Templo → repertório semântico compartilhado → diferentes reconfigurações em 4Q246 e Lucas.

Esse modelo explica melhor a evidência disponível.



5. Melquisedec e a abertura da categoria para a esfera celestial

A discussão torna-se ainda mais complexa quando introduzimos Melquisedec. O texto original já chamava atenção para o núcleo de 11QMelquisedec (11Q13), e essa passagem deve permanecer central:

(...) 6 (...)E isto suce[derá] 7 na semana primeira do jubileu que segue os no[ve] jubileus. E o dia [das expiaçõ]es é o final do jubileu décimo 8 no qual se expiará por todos os filhos de [Deus] e pelos homens do lote de Melquisedec. [E nas alturas] ele se pronun[ciará a seu] favor segundo os seus lotes; pois 9 é o tempo do “ano de graça” para Melquisedec, para exal[tar no pro]cesso os santos de Deus pelo domínio do juízo, como está escrito 10 sobre ele nos cânticos de Davi que diz: “Elohim se ergue na assem[bléia de Deus], em meio aos deuses julga”. E sobre ele diz: “Sobre ela 11 retorna às alturas, Deus julgará os povos”. E o que di[z: “Até quando jul]gareis injustamente e guardareis consideração aos malvados? Selah.”

12 Sua interpretação concerne a Belial e aos espíritos de seu lote, que foram rebeldes [todos eles] apartando-se dos mandamentos de Deus [para cometer o mal]. 13 Porém Melquisedec executará a vingança dos juízos de Deus [nesse dia, e eles serão libertados das mãos] de Belial e das mãos de todos os es[píritos de seu lote]. 14 **Em sua ajuda (virão) todos “os deuses de [justiça”; ele] é que[m prevalecerá nesse dia sobre] todos os filhos de Deus, e ele pre[sidirá a assembléia] ** esta. Este é o dia d[a paz, do qual] falou...

A importância de 11Q13 para nossa discussão não reside em provar que Melquisedec é simplesmente “um anjo”. Essa identificação é objeto de debate. Há uma tradição interpretativa que aproxima Melquisedec de uma figura angelológica, inclusive de Miguel; mas existem também interpretações que o compreendem como figura messiânica ou sacerdotal escatológica. Paul Rainbow, por exemplo, argumentou explicitamente contra a identificação angelológica e defendeu uma leitura messiânica, possivelmente davídica. Estudos mais recentes sobre Melquisedec na literatura apocalíptica também demonstram que sua caracterização precisa ser examinada dentro de um conjunto mais amplo de tradições judaicas sobre personagens celestiais e sacerdotais (STUCKENBRUCK, 2018).

O ponto fundamental, portanto, não é decidir antecipadamente entre “anjo” e “messias”. É perceber que 11Q13 demonstra a extraordinária plasticidade das categorias de autoridade no judaísmo do Segundo Templo. Melquisedec aparece relacionado à expiação, julgamento, libertação, paz, assembleia celestial e derrota de Belial. Uma personagem associada a uma tradição sacerdotal do Gênesis pode ser reinterpretada dentro de uma estrutura escatológica na qual assume funções que ultrapassam aquilo que esperaríamos de uma figura sacerdotal humana ordinária.

Essa característica nos permite compreender melhor a transformação do campo semântico da filiação divina. O universo judaico do Segundo Templo não opera necessariamente com fronteiras rígidas entre rei, sacerdote, anjo, representante celestial e agente escatológico. As distinções existem, mas podem ser reorganizadas conforme o texto e sua interpretação das Escrituras. A literatura de Qumran é particularmente importante porque oferece uma documentação concreta desse processo.

É aqui que a comparação com Hebreus se torna significativa. No Novo Testamento, Jesus não é identificado simplesmente com Melquisedec; ao contrário, ele é apresentado como sacerdote “segundo a ordem de Melquisedec”. Isso é importante porque mostra uma forma de apropriação diferente daquela que poderíamos esperar. A tradição de Melquisedec funciona como modelo sacerdotal e escatológico para compreender Jesus. O objetivo não é simplesmente identificar as duas personagens, mas utilizar uma tradição anterior para explicar a singularidade sacerdotal de Jesus.

Portanto, a formulação mais rigorosa é aquela que preserva a observação original:

“Em Hebreus, Jesus pertence à Ordem de Melquisedec, mas não é o próprio.”

A conclusão que podemos extrair é que Hebreus concentra em Jesus uma função sacerdotal de caráter excepcional, utilizando Melquisedec como figura interpretativa. A dimensão sacerdotal recebe, nesse texto, uma elaboração particularmente extensa, embora isso não elimine as dimensões régia e escatológica presentes na cristologia mais ampla do Novo Testamento.

O paralelo entre 11Q13 e Hebreus, portanto, deve ser tratado como comparação entre diferentes apropriações de uma tradição de Melquisedec, e não como prova de que Hebreus tenha necessariamente derivado sua concepção diretamente de Qumran. A pesquisa especializada sobre Melquisedec no judaísmo apocalíptico justamente coloca 11Q13, Hebreus e outras tradições judaicas dentro de um campo comparativo mais amplo.



6. De “Filho de Deus” a uma cristologia de concentração

Chegamos, finalmente, ao ponto em que os diferentes fios da investigação podem ser reunidos. A evidência examinada permite reconhecer que “Filho de Deus” não é uma invenção terminológica do cristianismo. A expressão pertence a um universo judaico anterior, no qual pode designar Israel, o rei, indivíduos eleitos, seres celestiais e, em determinados textos, personagens inseridos em expectativas escatológicas. A realeza fornece uma das matrizes mais importantes dessa linguagem, especialmente por meio do Salmo 2 e de sua tradição de entronização; a literatura do Segundo Templo amplia o repertório; Qumran fornece exemplos particularmente significativos de sua utilização em contextos apocalípticos; e o Novo Testamento reconfigura esse patrimônio ao concentrá-lo progressivamente em Jesus. A pesquisa contemporânea confirma precisamente essa pluralidade: a linguagem da filiação divina não possui um único significado fixo, e 4Q246 permanece um dos exemplos mais importantes da dificuldade de estabelecer uma equivalência simples entre “Filho de Deus”, “Messias” e “ser celestial” (ALLEN; AKAGI; SLOAN; NEVADER, 2019; SEGAL, 2014).

A tabela abaixo sintetiza o quadro interpretativo que emerge da análise:


Corpus / textoFigura ou grupoFunção principal da filiaçãoDimensão predominanteObservação
Salmo 2Rei davídicoEleição e legitimaçãoRégiaMatriz fundamental da linguagem
Salmo 110Rei / “meu senhor”Entrega de autoridadeRégia e celestialEntro­nização e proximidade divina
4Q174Figura davídicaEleição / restauraçãoMessiânicaRelação entre 2Sm 7 e Sl 2
4Q246Figura controversaGrandeza e autoridadeRégia, escatológica e/ou celestialIdentidade altamente debatida
“Filhos de Deus” em tradições judaicasSeres celestiais / eleitosPertencimento a DeusCelestial / comunitáriaCampo semântico plural
11Q13MelquisedecAutoridade escatológicaSacerdotal e celestialIdentidade angelológica ou messiânica debatida
Lucas 1,32-35JesusEleição, filiação e realezaMessiânica e régiaFilho do Altíssimo + trono de Davi
HebreusJesusFiliação e sacerdócioSacerdotal, escatológica e celestialMelquisedec como matriz sacerdotal


O que emerge desse quadro não é uma linha evolutiva simples, mas uma estrutura de convergência e concentração. O cristianismo primitivo herda diferentes tradições: a linguagem régia dos salmos; a expectativa davídica; a linguagem da eleição; o imaginário dos seres celestiais; as tradições sacerdotais; as expectativas escatológicas; e as interpretações apocalípticas das Escrituras. O que ocorre com Jesus é que esses diferentes campos passam a ser articulados numa única personagem. O rei é “filho”; o messias é descendente de Davi; o agente escatológico recebe autoridade divina; o sacerdote participa da ordem de Melquisedec; a figura celestial exerce funções que transcendem a condição humana ordinária. A cristologia não inventa necessariamente cada um desses elementos isoladamente; sua operação inovadora consiste em reuni-los e reinterpretá-los em torno de uma única história de vida, morte, ressurreição e exaltação.

Essa hipótese também permite compreender por que a expressão “Filho de Deus” assume tamanha importância nos evangelhos. Se isolarmos a expressão, corremos o risco de interpretá-la como uma declaração metafísica abstrata. Se, entretanto, a colocarmos dentro da história semântica reconstruída neste ensaio, percebemos que ela pode funcionar simultaneamente em vários registros. No contexto messiânico, ela remete à eleição régia; no contexto escatológico, pode indicar a posição excepcional do personagem diante de Deus; no contexto apocalíptico, aproxima-se de um universo no qual seres celestiais e representantes divinos participam do governo escatológico; no contexto cristológico, finalmente, todas essas dimensões são reorganizadas em torno de Jesus.

É precisamente nesse sentido que a expressão deve ser compreendida como categoria relacional, e não simplesmente ontológica. Dizer “Filho de Deus” é dizer algo sobre a relação do personagem com Deus, sobre sua eleição, autoridade, representação ou pertencimento. A posterior teologia cristã desenvolverá essa relação em categorias ontológicas cada vez mais precisas, especialmente nos debates trinitários dos séculos seguintes. Historicamente, porém, o ponto de partida é anterior e mais fluido. A linguagem funciona primeiro dentro de um repertório judaico de eleição e representação divina.

A questão pode ser representada de maneira sintética pelo seguinte diagrama:


TRADIÇÕES BÍBLICAS
┌─────────────────┼─────────────────┐
│ │ │
SALMO 2 SALMO 110 DANIEL 7
│ │ │
▼ ▼ ▼
FILIAÇÃO RÉGIA AUTORIDADE REAL AGENTE CELESTIAL
│ │ │
└────────────┬────┴───────┬─────────┘
│ │
▼ ▼
MESSIANISMO ESCATOLOGIA
│ │
└─────┬──────┘
JUDAÍSMO DO SEGUNDO
TEMPLO
┌────────────────┼────────────────┐
│ │ │
4Q246 11Q13 OUTRAS
│ MELQUISEDEC TRADIÇÕES
│ │ │
└────────────────┼────────────────┘
NOVO TESTAMENTO
┌────────────┴────────────┐
│ │
LUCAS HEBREUS
│ │
FILHO DO ALTÍSSIMO FILHO + SACERDÓCIO
+ TRONO DE DAVI + MELQUISEDEC
│ │
└────────────┬────────────┘
CRISTOLOGIA
CONCENTRAÇÃO E RECONFIGURAÇÃO
DE TRADIÇÕES PREEXISTENTES


A importância desse modelo está precisamente em evitar duas conclusões igualmente problemáticas. A primeira seria afirmar que “Filho de Deus” é simplesmente uma invenção cristã. A evidência judaica anterior ao cristianismo impede essa conclusão. A segunda seria afirmar que Jesus é apenas mais uma ocorrência de uma categoria judaica já completamente pronta. Isso também não corresponde ao desenvolvimento da cristologia. O fenômeno historicamente mais interessante está entre essas duas posições: existe continuidade de repertório, mas existe também transformação radical de função.

O problema de 4Q246 torna essa conclusão particularmente clara. Não precisamos saber definitivamente se seu personagem é Antíoco IV, um rei humano, um messias, um ser celestial ou uma representação coletiva para perceber que a expressão “Filho de Deus” já podia ser mobilizada em torno de uma personagem extraordinária situada no horizonte da história e da escatologia. A controvérsia acadêmica sobre sua identidade, longe de destruir o argumento, demonstra a complexidade do campo semântico. Kratz e Cook sustentam interpretações negativas; Brooke e Ferda desenvolvem leituras positivas; Segal propõe uma solução ligada à representação celestial do reino de Daniel. O fato de diferentes interpretações serem possíveis significa que o título não pode ser reduzido a uma definição única e automática.

Da mesma maneira, 11Q13 mostra que a literatura judaica podia construir uma personagem escatológica cuja autoridade incluía julgamento, expiação, libertação e vitória sobre as forças do mal. A identificação de Melquisedec permanece controversa, mas justamente essa controvérsia revela a plasticidade das categorias. A figura pode ser interpretada como messiânica ou celestial; em qualquer dos casos, ela demonstra que o judaísmo do Segundo Templo podia imaginar agentes divinos ou representantes escatológicos ocupando posições extraordinariamente elevadas dentro da economia da salvação.

O resultado final pode ser sintetizado numa segunda tabela:


QuestãoFormulação historicamente mais segura
“Filho de Deus” surgiu com o cristianismo?Não. A expressão possui antecedentes judaicos diversos.
O rei é uma matriz importante da expressão?Sim, especialmente em Salmo 2 e na tradição davídica.
“Filho de Deus” significa sempre “Messias”?Não. O campo semântico é mais amplo.
4Q246 fala necessariamente de um Messias?Não. Sua personagem permanece controversa.
4Q246 prova que Lucas dependeu de Qumran?Não. Demonstra, porém, um importante paralelo lexical e conceitual.
“Filho do Altíssimo” em Lucas possui matriz judaica?Sim, e a combinação com o trono davídico reforça sua dimensão régia e messiânica.
Melquisedec é necessariamente um anjo?Não. A identificação é debatida.
11Q13 e Hebreus são idênticos em sua concepção de Melquisedec?Não. São apropriações distintas de uma tradição compartilhada.
O cristianismo simplesmente reproduz a tradição judaica?Não. Ele a reconfigura em torno de Jesus.
Qual é a principal novidade cristológica?A concentração de múltiplas tradições de filiação, realeza, messianismo, sacerdócio e escatologia numa única personagem.


Essa última formulação talvez seja a mais importante de todo o ensaio. A novidade cristológica não precisa ser procurada na invenção do vocabulário, mas na concentração das funções. O problema histórico não é descobrir de onde surgiu isoladamente a expressão “Filho de Deus”, como se fosse possível encontrar um momento inaugural único. O problema é compreender como um repertório semântico preexistente — fortemente associado à eleição e à realeza, mas posteriormente articulado também com messianismo, escatologia e esfera celestial — foi concentrado e radicalmente reconfigurado na figura de Jesus.

É nesse sentido que o título “Filho de Deus” pode ser historicamente mais interessante do que parece. Ele não representa simplesmente uma ruptura com o judaísmo, mas tampouco constitui uma continuidade passiva. Ele pertence a um processo de transformação interna do imaginário judaico, processo no qual categorias antigas são reutilizadas para interpretar acontecimentos e personagens novos. O cristianismo nasce justamente nesse espaço: não fora do universo semântico judaico, mas em seu interior, disputando a interpretação de suas categorias fundamentais.



Referências

ALLEN, Garrick V.; AKAGI, Kai; SLOAN, Paul; NEVADER, Madhavi (ed.). Son of God: Divine Sonship in Jewish and Christian Antiquity. University Park: Eisenbrauns, 2019. A obra reúne estudos sobre filiação divina na literatura judaica antiga, nos Manuscritos do Mar Morto, na literatura apocalíptica e no cristianismo primitivo.

BROOKE, George J. Son of God, sons of God, and election in the Dead Sea Scrolls. In: ALLEN, Garrick V.; AKAGI, Kai; SLOAN, Paul; NEVADER, Madhavi (ed.). Son of God: Divine Sonship in Jewish and Christian Antiquity. University Park: Eisenbrauns, 2019, p. 28-40.

COOK, Edward M. 4Q246. Bulletin for Biblical Research, v. 5, n. 1, p. 43-66, 1995. DOI: 10.2307/26422126.

FERDA, Tucker S. Naming the Messiah: a contribution to the 4Q246 “Son of God” debate. Dead Sea Discoveries, v. 21, n. 2, p. 150-175, 2014. DOI: 10.1163/15685179-12341313.

PAGELS, Elaine. Além de toda crença: o evangelho desconhecido de Tomé. Rio de Janeiro: Objetiva, 2004.

RAINBOW, Paul. Melchizedek as a Messiah at Qumran. Bulletin for Biblical Research, v. 7, p. 179-194, 1997.

SEGAL, Michael. Who is the “Son of God” in 4Q246? An overlooked example of early biblical interpretation. Dead Sea Discoveries, v. 21, n. 3, p. 289-312, 2014. DOI: 10.1163/15685179-12341328.

SHANKS, Hershel. Um texto inédito dos manuscritos do Mar Morto paralelo à narrativa de infância, de Lucas. In: SHANKS, Hershel (org.). Para compreender os manuscritos do Mar Morto. Rio de Janeiro: Imago, 1993. p. 213.

SMITH, Mark. O memorial de Deus: história, memória e a experiência do divino no Antigo Israel. São Paulo: Paulus, 2006.

STUCKENBRUCK, Loren T. Melchizedek in Jewish apocalyptic literature. Journal for the Study of the New Testament, v. 41, n. 1, p. 124-138, 2018. DOI: 10.1177/0142064X18788983. 

sexta-feira, 31 de outubro de 2008

Confiram esta divertida animação a qual nos conta, de fato, como é que tudo começou.




Technorati Profile

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

O Blog NT Wrong fez uma lista de blogs ativos e de certa forma similares ao AD CUMMULUS. A lista de blogs pode ser vista aqui. Achei muito interessante a iniciativa, ainda que entramos também nesta lista e classificação. Achei divertidíssimo que fui classificado como "very liberal", sabe-se lá o porquê. Eu propriamente me colocaria como "conservative liberal". Mas anyways... Confiram a lista!

terça-feira, 28 de outubro de 2008


Um interessante texto sobre divindades matadoras de Dragões pode ser encontrado no blog Religion Think. O texto escrito por A.D. Wayman faz uma comparação entre as estórias de Indra, Marduk, Iahweh e Baal. Eu iniciei uma pesquisa sobre estes dragões uns dois anos atrás. Vou ver se recupero o material. No caso bíblico, devemos atentar principalmente para as semelhanças entre Baal e Iahweh!
Pois é! Quem mandou eu ficar fuçando os blogs alheios, ainda mais um blog sobre softwares bíblicos? Quer coisa mais nerd do que fuçar um blog como o Bible Software Review? O pior de tudo é que fucei, fucei e fucei... até encontrar a análise dessa maravilha aqui - Logos Bible Software! Enfim... encontrei a melhor empresa desenvolvedora de softwares bíblicos - a Logos.

Enfim mais uma vez... entrei lá para conferir! Putz! Fui olhando, olhando, olhando... igual consumidor compulsivo em vitrine de shopping center. Daí, obviamente fui buscar o melhor, claro - a pérola da casa chamada - Scholar's Library: Gold (ND) que custa a bagatela de 1379.95 dólares!

Não vou ficar aqui falando das maravilhas que este software oferece para o pesquisador nerd de plantão. Quem se interessar, que entre no site e fique lá babando...

Mas se você não quiser pagar quase 1400 dólares pela Logos, pode tentar a PC Study Bible 5 por 629,95! Quem sabe!?

Mas aviso aos bucaneiros de plantão! Desistam!

Por Baco! Maldita sociedade de consumo!

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