Estudos sobre Religião - Biblioblog

sexta-feira, 27 de março de 2009

Esta surpreendente matéria nos mostra a descoberta de megalitos de 12 mil anos de idade em pleno local onde supostamente estaria o Éden, contendo desenhos e esculturas delicadas de variados animais e criaturas. É de longe a estrutura mais antiga construída por mãos humanas que nós conhecemos. Para se ter uma idéia, os megalitos de Stonehenge na Inglaterra datam de 5 mil anos atrás.

Nunca me satisfez a hipótese de que estruturas arquitetônicas mais sofisticadas neste planeta teriam começado a existir há 6 mil anos atrás. Sempre me pareceu um período por demasiado curto. Ademais, vários indícios, normalmente apresentados por fontes não tão confiáveis, nos mostrava a possibilidade da existência de civilizações anteriores. Desta vez, temos um sítio arqueológico que pode ser considerado como uma das maiores descobertas do século. Que civilização poderia ter feito isso há tanto tempo atrás? Seriam estes os portais de um Templo no Éden?

quinta-feira, 26 de março de 2009

Pois bem! Eu já estava cansado do visual anterior deste blog. Na verdade, nunca me dei bem com ela. Sempre tentei tirar o melhor do template, mas ele era fraco. O tempo, no entanto, sempre me impedia de alterar as coisas por aqui. Ontem, acabei por me render à atávica vontade de mudar. E eis que temos o AD CUMMULUS de cara nova.

O nome deste blog possui três sentidos. O primeiro se refere a um tipo especial de nuvens. Nisso, há uma referência metafórica ao céu. AD CUMMULUS seria algo mais ou menos como "até as nuvens"! Já o segundo sentido se refere à palavra "cúmulo" quando se refere ao ponto ou grau mais alto atingido. AD CUMMULUS seria então "o ponto mais alto atingido". Por fim, há também uma brincadeira com a exclamação "isso é o cúmulo da..."

Como tratamos aqui principalmente de judaismo e cristianismo antigo e temos essa referência ao céu, resolvi colocar como banner definitivo essa foto que tirei das muralhas antigas de Sagunto na Espanha. É uma espécie de convite ao transcender!

E este é o nosso convite! Sempre...

quarta-feira, 11 de março de 2009

Todas as pessoas que se dedicam a um estudo mais aprofundado do texto bíblico sabem que o texto do Pentateuco (Torah), foi escrito por pelo menos quatro diferentes indivíduos em diferentes períodos da história dos reinos de Israel e de Judá. Além destes 4 principais, teríamos pelos menos outros 2 redatores (ou equipes de redatores) que fizeram o trabalho de "colar" e "costurar" determinadas partes dos grandes textos básicos. O relato, pois, dos cinco primeiros livros da bíblia é o resultado de uma composição que durou pelo menos uns 5 séculos até tomar a sua forma final, parecida com a que temos hoje.

Um dos maiores problemas, no entanto, para aquelas pessoas, tais como eu, que sabem destas divisões do texto, sempre foi o de localizar detalhadamente a autoria das variadas partes do texto. Alguns trechos são relativamente fáceis de identificar. Já outros, possuem sutilezas que estão acima de um nível intermediário de conhecimento, demandando a ajuda de especialistas no hebraico e no estudo profundo da tessitura bíblica. Humildemente, reconheço estar ainda vários e vários degraus aquém deste nível.

No entanto, no ano passado, tive a felicidade de adquirir um espetacular livro neste campo. Trata-se de The Bible with Sources Revealed: new view into the five books of Moses, publicado por Richard Elliot Friedman. Este livro é uma verdadeira pérola para os nossos oceanos de ignorância. Ele traça minuciosamente, e em cores, as variadas fontes do Pentateuco. Ou seja, ele nos mostra, de forma, nítida, as partes escritas pelos variados autores, cada um com uma cor diferente. Com ele, podemos saber agora, de forma clara como foi costurado estas variadas composições ao longo dos séculos. Trata-se de um livro único e especial, sem pares conhecidos, por enquanto.

Para exemplificar o poder deste livro, resolvi expor para os leitores o caso do dilúvio bíblico. Se alguém ainda não sabe, nós temos dois relatos diversos sobre o dilúvio na bíblia. A primeira narrativa é do javista [entre 922 e 722 a.C]. Já a segunda narrativa foi elaborada pelo chamado autor sacerdotal [reinado de Ezequias 715-687 a.C.] . O fato é que os textos estão de tal forma entrelaçados que normalmente os lemos como se fosse um único relato, dado o efeito hipnótico da leitura sequencial. Tomando como base a separação elaborada por Elliot, resolvi separar os dois. O que vocês irão perceber é fantástico. Após a separação, temos em mãos dois relatos plenamente inteligíveis. Percebam:


1º Relato do Dilúvio (Autor Javista):

Depois disse o SENHOR a Noé: Entra tu e toda a tua casa na arca, porque tenho visto que és justo diante de mim nesta geração. 2 De todos os animais limpos tomarás para ti sete e sete, o macho e sua fêmea; mas dos animais que não são limpos, dois, o macho e sua fêmea. 3 Também das aves dos céus sete e sete, macho e fêmea, para conservar em vida sua espécie sobre a face de toda a terra. 4 Porque, passados ainda sete dias, farei chover sobre a terra quarenta dias e quarenta noites; e desfarei de sobre a face da terra toda a substância que fiz. 5 E fez Noé conforme a tudo o que o SENHOR lhe ordenara. 7 Noé entrou na arca, e com ele seus filhos, sua mulher e as mulheres de seus filhos, por causa das águas do dilúvio. 10 E aconteceu que passados sete dias, vieram sobre a terra as águas do dilúvio. 12 E houve chuva sobre a terra quarenta dias e quarenta noites. e o SENHOR o fechou dentro. 17 E durou o dilúvio quarenta dias sobre a terra, e cresceram as águas e levantaram a arca, e ela se elevou sobre a terra. 18 E prevaleceram as águas e cresceram grandemente sobre a terra; e a arca andava sobre as águas. 19 E as águas prevaleceram excessivamente sobre a terra; e todos os altos montes que havia debaixo de todo o céu, foram cobertos. 20 Quinze côvados acima prevaleceram as águas; e os montes foram cobertos. 22 Tudo o que tinha fôlego de espírito de vida em suas narinas, tudo o que havia em terra seca, morreu. 23 Assim foi destruído todo o ser vivente que havia sobre a face da terra, desde o homem até ao animal, até ao réptil, e até à ave dos céus; e foram extintos da terra; e ficou somente Noé, e os que com ele estavam na arca.

e a chuva dos céus deteve-se. 3 E as águas iam-se escoando continuamente de sobre a terra, 6 E aconteceu que ao cabo de quarenta dias, abriu Noé a janela da arca que tinha feito. 8 Depois soltou uma pomba, para ver se as águas tinham minguado de sobre a face da terra. 9 A pomba, porém, não achou repouso para a planta do seu pé, e voltou a ele para a arca; porque as águas estavam sobre a face de toda a terra; e ele estendeu a sua mão, e tomou-a, e recolheu-a consigo na arca. 10 E esperou ainda outros sete dias, e tornou a enviar a pomba fora da arca. 11 E a pomba voltou a ele à tarde; e eis, arrancada, uma folha de oliveira no seu bico; e conheceu Noé que as águas tinham minguado de sobre a terra. 12 Então esperou ainda outros sete dias, e enviou fora a pomba; mas não tornou mais a ele. Então Noé tirou a cobertura da arca, e olhou, e eis que a face da terra estava enxuta. 20 E edificou Noé um altar ao SENHOR; e tomou de todo o animal limpo e de toda a ave limpa, e ofereceu holocausto sobre o altar. 21 E o SENHOR sentiu o suave cheiro, e o SENHOR disse em seu coração: Não tornarei mais a amaldiçoar a terra por causa do homem; porque a imaginação do coração do homem é má desde a sua meninice, nem tornarei mais a ferir todo o vivente, como fiz. 22 Enquanto a terra durar, sementeira e sega, e frio e calor, e verão e inverno, e dia e noite, não cessarão.


2º Relato do Dilúvio
(autor sacerdotal)

Noé era homem justo e perfeito em suas gerações; Noé andava com Deus. 10 E gerou Noé três filhos: Sem, Cão e Jafé. 11 A terra, porém, estava corrompida diante da face de Deus; e encheu-se a terra de violência. 12 E viu Deus a terra, e eis que estava corrompida; porque toda a carne havia corrompido o seu caminho sobre a terra. 13 Então disse Deus a Noé: O fim de toda a carne é vindo perante a minha face; porque a terra está cheia de violência; e eis que os desfarei com a terra. 14 Faze para ti uma arca da madeira de gofer; farás compartimentos na arca e a betumarás por dentro e por fora com betume. 15 E desta maneira a farás: De trezentos côvados o comprimento da arca, e de cinqüenta côvados a sua largura, e de trinta côvados a sua altura. 16 Farás na arca uma janela, e de um côvado a acabarás em cima; e a porta da arca porás ao seu lado; far-lhe-ás andares, baixo, segundo e terceiro. 17 Porque eis que eu trago um dilúvio de águas sobre a terra, para desfazer toda a carne em que há espírito de vida debaixo dos céus; tudo o que há na terra expirará. 18 Mas contigo estabelecerei a minha aliança; e entrarás na arca, tu e os teus filhos, tua mulher e as mulheres de teus filhos contigo.

19 E de tudo o que vive, de toda a carne, dois de cada espécie, farás entrar na arca, para os conservar vivos contigo; macho e fêmea serão. 20 Das aves conforme a sua espécie, e dos animais conforme a sua espécie, de todo o réptil da terra conforme a sua espécie, dois de cada espécie virão a ti, para os conservar em vida.21 E leva contigo de toda a comida que se come e ajunta-a para ti; e te será para mantimento, a ti e a eles. 22 Assim fez Noé; conforme a tudo o que Deus lhe mandou, assim o fez. 8 Dos animais limpos e dos animais que não são limpos, e das aves, e de todo o réptil sobre a terra, 9 Entraram de dois em dois para junto de Noé na arca, macho e fêmea, como Deus ordenara a Noé. 11 No ano seiscentos da vida de Noé, no mês segundo, aos dezessete dias do mês, naquele mesmo dia se romperam todas as fontes do grande abismo, e as janelas dos céus se abriram, 13 E no mesmo dia entraram na arca Noé, seus filhos Sem, Cão e Jafé, sua mulher e as mulheres de seus filhos. 14 Eles, e todo o animal conforme a sua espécie, e todo o gado conforme a sua espécie, e todo o réptil que se arrasta sobre a terra conforme a sua espécie, e toda a ave conforme a sua espécie, pássaros de toda qualidade. 15 E de toda a carne, em que havia espírito de vida, entraram de dois em dois para junto de Noé na arca. 16 E os que entraram eram macho e fêmea de toda a carne, como Deus lhe tinha ordenado; 21 E expirou toda a carne que se movia sobre a terra, tanto de ave como de gado e de feras, e de todo o réptil que se arrasta sobre a terra, e todo o homem. 24 E prevaleceram as águas sobre a terra cento e cinqüenta dias.

E lembrou-se Deus de Noé, e de todos os seres viventes, e de todo o gado que estavam com ele na arca; e Deus fez passar um vento sobre a terra, e aquietaram-se as águas. 2 Cerraram-se também as fontes do abismo e as janelas dos céus, e ao fim de cento e cinqüenta dias minguaram. 4 E a arca repousou no sétimo mês, no dia dezessete do mês, sobre os montes de Ararate. 5 E foram as águas indo e minguando até ao décimo mês; no décimo mês, no primeiro dia do mês, apareceram os cumes dos montes. 7 E soltou um corvo, que saiu, indo e voltando, até que as águas se secaram de sobre a terra. 13 E aconteceu que no ano seiscentos e um, no mês primeiro, no primeiro dia do mês, as águas se secaram de sobre a terra. 14 E no segundo mês, aos vinte e sete dias do mês, a terra estava seca. 15 Então falou Deus a Noé dizendo: 16 Sai da arca, tu com tua mulher, e teus filhos e as mulheres de teus filhos. 17 Todo o animal que está contigo, de toda a carne, de ave, e de gado, e de todo o réptil que se arrasta sobre a terra, traze fora contigo; e povoem abundantemente a terra e frutifiquem, e se multipliquem sobre a terra. 18 Então saiu Noé, e seus filhos, e sua mulher, e as mulheres de seus filhos com ele. 19 Todo o animal, todo o réptil, e toda a ave, e tudo o que se move sobre a terra, conforme as suas famílias, saiu para fora da arca.


Como é possível perceber, temos dois relatos bíblicos perfeitamente inteligíveis, através de uma leitura linear. As duas estórias são perfeitamente coerentes. E estando agora separadas, podemos analisar facilmente as suas diferenças, dentre várias possibilidades.

1 - A primeira e clara diferença se refere à forma pela qual os dois relatos se dirigem a Deus. O primeiro e mais antigo relato, elaborado pelo autor javista, se refere à Deus como SENHOR (este SENHOR é, na verdade, no texto em Hebraico o tetragrama YHWH ou YAHWEH). O autor sacerdotal não se utiliza deste termo, se dirigindo ao mesmo através de DEUS [El ou Elohim]. Este é um dado extremamente interessante. O autor javista, desde o início de sua narrativa, opta por afirmar que o nome de YHWH era conhecido desde os primeiros tempos, logo após a expulsão do Éden (Gen 4:26). No entanto, o autor sacerdotal, bem como o autor eloísta optam por afirmar que o nome de YHWH só se tornou conhecido a partir de Moisés (Êxodo 6:2-3). No relato do autor sacerdotal, YHWH se apresenta a Abraão como EL SHADDAY (Gen 17:1). Desta forma, o que diferencia o relato destes escritores quanto ao nome de Deus é a época na qual YHWH se apresenta aos homens.


2 - O autor Javista coloca 7 pares de animais limpos na Arca . Porém, dos animais que não são limpos, um par apenas (Gen 7:2-3). Já o autor sacerdotal coloca estritamente apenas um casal de cada espécie (Gen 6:19-20).


3 - O dilúvio do autor javista dura 40 dias e 40 noites (Gen 7:17). Já a contrapartida do autor sacerdotal faz com que o dilúvio transcorra por um período de 150 dias (Gen 8:2).


4 - O relato do autor javista nos mostra que Noé pode sair da arca após 47 dias (40 de chuva + uma semana navegando). Já o relato do autor sacerdotal nos oferece um relato bem mais complexo. Gen 8:4 nos fala que a arca repousou no Monte Ararat no décimo sétimo dia do sétimo mês. Se tomarmos o calendário lunar como base (29 a 30 dias intercalados)teríamos 177 + 17 = 194 dias. Sendo assim, Noé teria ficado 44 dias navegando após o dilúvio (194 - 150), até chegar ao monte Ararat.
O relato prossegue, nos dizendo, no entanto, que as águas só secaram por sobre a terra depois de um ano (Gen 8:13). Desta forma, tomando como base o calendário lunar, teríamos 354 dias.
A terra, no entanto só secaria definitivamente no vigésimo sétimo dia do segundo mês (Gen 8:14). Sendo assim, teríamos mais 56 dias. O cálculo final, nos fornece então um período de 410 dias (150 dias de tempestade e 260 dias até a terra secar definitivamente).


5 - Quando as águas vão se acalmando, Noé solta uma pomba no relato do autor javista (Gen 8:8). Já o autor sacerdotal opta por narrar um corvo no lugar da pomba (Gen 8:7). Interessantes anotarmos que no relato de Gilgamesh, do qual estes dois textos são dependentes, Uta-Napshtim (o herói da epopéia) solta respectivamente uma pomba, uma andorinha e um corvo. Vejamos:

"Ao chegar ao sétimo dia eu trouxe uma pomba e libertei-a.
A pomba voou e [então] retornou;
Como não tinha lugar para pousar, ela voltou.
Eu trouxe uma andorinha e libertei-a.
A andorinha voou e [então] voltou;
Como não tinha lugar para ela pousar, ela voltou.
Eu trouxe um corvo e libertei-o.
O corvo voou, viu as águas que baixavam.
Comeu, andou por sobre as águas (?), levantou-se (?)
e não voltou."



6 - No final do relato do autor javista, encontramos a passagem na qual Noé oferece um holocausto a Iahweh sob a forma do sacrifício dos animais e aves limpos (Gen 8:20). Ora, tal fato poderia se apresentar como uma contradição procriativa [dado que assim Noé estaria matando a possibilidade de reprodução daquela espécie]. No entanto, o paradoxo se desfaz justamente pelo fato de que na narrativa javista, entraram 7 pares de animais puros, em contraste com a narrativa sacerdotal.

terça-feira, 10 de março de 2009

Existem certas coisas gozadas na vida. Eu possuo uma grande e muito bem pesquisada e guardada biblioteca de links sobre sites ligados à religião, os quais eu fui colecionando ao longo dos anos. No entanto, muitas vezes nós passamos completamente desapercebidos de algumas pérolas que existem pelo caminho. Ontem eu encontrei uma destas e eu não sei exatamente quais foram as razões dos pecados cometidos que não me fizeram ter achado isso antes. Trata-se da The Encyclopedia of New Testament Textual Criticism, concebida por Rich Elliott
da Simon Greenleaf University. O trabalho virtual é baseado na versão em papel desta mesma enciclopédia. O fato é que este site é uma verdadeira mão-na-roda para quem quer se embrenhar pelos caminhos labirínticos dos antigos manuscritos bíblicos. Uma maravilha, diria!

terça-feira, 3 de março de 2009


Entrei sem o querer em uma controvérsia acerca do documento "Consilium quorundam episcoporum Bononiæ congregatorum quod de ratione stabiliendæ Romanæ ecclesiæ" elaborado no século XVI e supostamente atribuído a 3 bispos da Igreja Católica. Eu particularmente não sou católico, mas fico profundamente indignado quando determinadas coisas são manipuladas de forma desonesta e sem escrúpulos. Vários sites de apologética evangélica costumam divulgar este documento como uma prova histórica de que a igreja católica sugeria que seus fiéis não lessem o texto bíblico.

Aqui temos alguns exemplos desta utilização, dentre outros:

1 - Centro Apologético Cristão de Pesquisas CACP
2 - Jesus Site
3 - Sola Scriptura

Em seguida, o texto em tela:

5) O Papa Júlio III, preocupado com os rumos que sua Igreja estava tomando, ou seja, perdendo prestígio e poder diante do número cada vez maior de "irmãos separados" ou "'cristãos novos" ou "protestantes" (apesar dos massacres), convocou três bispos, dos mais sábios, e lhes confiou a missão de estudarem com cuidado o problema e apresentarem as sugestões cabíveis. Ao final dos estudos, aqueles bispos apresentaram ao papa um documento intitulado "DIREÇÕES CONCERNENTES AOS MÉTODOS ADEQUADOS A FORTIFICAR A IGREJA DE ROMA". Tal documento está arquivado na Biblioteca Imperial de Paris, fólio B, número 1088, vol. 2, págs 641 a 650. O trecho final desse ofício é o seguinte:

"Finalmente (de todos os conselhos que bem nos pareceu dar a Vossa Santidade, deixamos para o fim o mais necessário), nisto Vossa Santidade deve pôr toda a atenção e cuidado de permitir o menos que seja possível a leitura do Evangelho, especialmente na língua vulgar, em todos os países sob vossa jurisdição. O pouco dele que se costuma ler na Missa, deve ser o suficiente; mais do que isso não devia ser permitido a ninguém. Enquanto os homens estiverem satisfeitos com esse pouco, os interesses de Vossa Santidade prosperarão, mas quando eles desejarem mais, tais interesses declinarão. Em suma, aquele livro (a Bíblia) mais do que qualquer outro tem levantado contra nós esses torvelinhos e tempestades, dos quais meramente escapamos de ser totalmente destruídos. De fato, se alguém o examinar cuidadosamente, logo descobrirá o desacordo, e verá que a nossa doutrina é muitas vezes diferente da doutrina dele, e em outras até contrária a ele; o que se o povo souber, não deixará de clamar contra nós, e seremos objetos de escárnio e ódio geral. Portanto, é necessário tirar esse livro das vistas do povo, mas com grande cuidado, para não provocar tumultos" - Assinam Bolonie, 20 Octobis 1553 - Vicentius De Durtantibus, Egidus Falceta, Gerardus Busdragus."



Qualquer pessoa que tenha um mínimo de senso crítico, ao ler tais passagens, notará que há algo de errado. Imaginem 3 bispos católicos, dos mais sábios, em pleno século XVI sugerindo dessa forma ao Papa — permitir o mínimo a leitura do evangelho e dizendo que "aquele livro", mais do que qualquer outro, tem levantado contra a ICAR uma séria de tempestades!"? É o cúmulo do patético tal situação. Mas... não bastasse a óbvia sátira presente em tal texto, algumas pessoas conseguiram fazer a proeza de levar isso a sério.

Este meu post então é dedicado a elas. Em bom termo, para que fique claro - NUNCA HOUVE CONSELHO ALGUM DADO POR 3 BISPOS CATÓLICOS AO PAPA ESCRITO DESTA FORMA! Este texto em questão foi produzido por um ex-bispo católico e então pastor reformado Pietro Paolo Vergerio. O documento minuciosamente detalhado como estando na "Biblioteca Imperial de Paris, fólio B, número 1088, vol. 2, págs 641 a 650" pode ser encontrado na atual Biblioteca Nacional da França. Ele se encontra neste endereço aqui. É possível fazer o download do texto em francês. Ele pode ser baixado no seguinte ftp.

Ao final do texto principal, podemos encontrar o seguinte comentário em francês:


"Quoique n´étant que partiellement consacré à La lecture de la Bible, Le texte de Vergerio a été fréquemment utilisé dans lês polemiques entre protestants et catholiques sur CE sujet, même après que La critique avait été faite par de nombreux théologiens (Consulter La thèse de théologie protestante de A. Ch. Siegfried. – La Vie et lês travaux de P. P. Vergerio Strasbourg, 1857. In-8º, 39 p.).

Il ressort de ces études que P. P. Vergerio est véritablement l´autor Du “Consilium quorundam episcoporum” . dont Le texte figure dans sés ouvres completes publiées em 1563.

CE texte fait partie de sés nombreux opuscules publiés anonymement lors de as violence polemique avec La papauté. Il est donc impossible d´admettre que Le “Consilium quorundam episcoporum”... emane d´une quelconque autorité de l´Eglise catholique."



Eu o traduzi para o português da seguinte forma:

"Embora apenas parcialmente concernente à leitura da bíblia, o texto de Vergerio foi freqüentemente utilizado na polêmica entre protestantes e católicos sobre este assunto, mesmo após as críticas apresentadas por vários teólogos (Veja tese Teologia Protestante de A. Ch. Siegfried. - a vida e a obra do PP Vergerio Strasburgo, em 1857. In-8 º, p. 39).

Esses estudos revelaram que P. P. Vergerio é realmente o autor de "Consilium quorundam episcoporum.
O texto que aparece na sua obra completa publicada em 1563.

Este texto faz parte de suas numerosas brochuras publicadas anonimamente dada a violenta polêmica com o papado. É impossível admitir que o "Consilium quorundam episcoporum" ... emana de uma autoridade da Igreja Católica."


Como é possível perceber, a Biblioteca Nacional da França afirma que a verdadeira autoria do documento se refere ao protestante Pietro Paolo Vergerio, que o teria escrito em 1563. Para qualquer pessoa de bom senso, bastaria tal assertiva. Mas que tal checarmos mais? Será que este manuscrito, de fato, poderia ter sido atribuído aos supostos 3 bispos católicos em alguma outra biblioteca? Existiria somente este documento?

A resposta é não! O texto pode sim ser encontrado em outras bibliotecas ao longo do mundo (inclusive para download)! Vamos a elas:


1 - National Library of Australia - Austrália

2 - Cambridge University Library - Inglaterra.

3 - Newberry Library (Chicago) - EUA

4 - Biblioteca da Universidade Pablo d´Olavide (Sevilha) - Espanha

Nesta última biblioteca, podemos baixar o texto em Latim




Em suma, como pode ser devidamente averiguado - EM TODAS AS BIBLIOTECAS CONHECIDAS onde o texto "Consilium quorundam episcoporum Bononiæ congregatorum quod de ratione stabiliendæ Romanæ ecclesiæ" se encontra,

a autoria é atribuída ao ex-bispo e então reformador protestante:

PIETRO PAOLO VERGERIO,


o qual FORJOU E FRAUDOU um documento atribuindo-o a 3 bispos da Igreja Católica! É uma vergonha que tal fraude continue ainda hoje sendo utilizada para manipular a cabeça dos menos avisados.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

Estava eu andando pelo multivariado mundo do wikipedia e descobri esta sensacional página contendo links para as antigas cidades do oriente próximo. Trata-se de uma mão na roda para quem busca links rápidos para aquelas antigas cidades e seus sítios arqueológicos.

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