Estudos sobre Religião - Biblioblog

sábado, 27 de abril de 2013

O Professor Fernando Bermejo Rubio, do Departamento de Filologia Grega e Linguística Indo Européia da Universidade Complutense de Madrid, acaba de publicar um artigo na Bible and Interpretation que promete causar bastante debate.

Jesus expulsa os vendilhões do Templo, de Giotto (sec. XIV), Capela Scrovegni, (via wikipedia)
Why is the Hypothesis that Jesus was an Anti-Roman Rebel Alive and Well? Theological Apologetics versus Historical Plausibility
 (Porque a hipótese de que Jesus foi um rebelde contra Roma continua firme e forte? Apologética Teologica versus Plausibilidade Histórica).

A proposta de Jesus como líder revolucionário, contrário a ordem romana estabelecida não é nova. Pelo contrário, na gênese dos estudos do Jesus Histórico está o trabalho de Herman Samuel Reimarius (1694-1758), que apresenta Jesus e seus discipulos como buscando o estabelecimento de um reino terreno, subvertendo a ordem estabelecida. Bermejo-Rubio lamenta que, apesar de sua antiguidade, a tese não recebe o reconhecimento que deveria.

A tese de Rubio: Rubio fundamenta sua tese em três pilares. O primeiro, e pelo que entendemos da exposição de Rubio, o principal, é que espalhados pelos evangelhos, em fontes, camadas e formas de tradição diferentes existe numerosos elementos, que Rubio lista de a) a z), que apontam para um Jesus em conflito com Roma e seus prepostos [1]. No processo de edição e redação final dos evangelhos esses elementos foram amenizados ou distorcidos, uma vez que seus autores buscavam demonstrar que Jesus não criou problemas para Roma e foi executado por seus conflitos com a cúpula religiosa judaica. No entanto, tais elementos, mesmo que varridos para debaixo do tapete, demonstram a existência de um padrão recorrentemente atestado de tensões entre Jesus e seus seguidores contra Roma. Rubio então utiliza o critério de atestação recorrente, proposto por Dale Allison, para identificar esse conflito político como proveniente da atividade do Jesus histórico. É o primeiro pilar de sua tese. Podemos apontar e classificar alguns desses elementos da seguinte forma:
a) A própria execução: Jesus foi crucificado sob uma acusação eminentemente politica, de pretender ser o Rei dos Judeus, entre dois rebeldes.
b) As circunstâncias de sua prisão: Rubio aponta os relatos evangélicos em que Jesus é preso por um destacamento militar fortemente armado, a noite, secretamente, e como uma cilada (Mt 26:47, Mc 14:41, Lc 22:47 e  João 18:12). Lucas relata que, antes, Jesus havia solicitado que seus discipulos estivessem armados (Lc 22:35-36), e alguns deles mantinham espadas em segredo, prontos para utiliza-las (Lc 22:38 e 49 e Mc 14:47). Todos os evangelhos reportam resistência oferecida inicialmente pelos discipulos durante a prisão.
c) Comportamento de Jesus e seus discipulos em Jerusalém, antes da prisão:  A expulsão dos vendilhões do Templo, a entrada triunfal de Jesus em Jerusalém, a disposição de vários  discipulos, declarada antes da prisão, de morrer com Jesus, e após a prisão, seus temores de serem presos e executados. Rubio alega também que o episódio de Jesus ensinando a dar a César o que é César (Mc 12:13-17), quando lido em conjunto com Lc 23:2, 5, e 14 indica uma disposição em não pagar tributos a Roma e subverter a nação judaica.
d) Pregação e Atividade Anterior de Jesus: Professor Bermejo-Rubio destaca o inequívoco caráter politico, concreto, implícito na pregação de Jesus nos evangelhos da vinda iminente do Reino de Deus. A promessa registrada na tradição de que os díscipulos sentariam em tronos para julgar e governar as doze tribos de Israel, seria conflitante com a manutenção do governo de Roma e seus representantes, e indica uma dimensão concreta, material e imediata desse Reino, com recompensas neste mundo. O antagonismo existente entre Jesus e Herodes Antipas, que governava a Galiléia em que Jesus exercia seu ministério. Em vários ditos na tradição, Jesus limita seu ministério a Israel, com contornos nacionalistas e até chauvinistas. Outro elemento citado por Rubio é que Marcos ( 15:7) e Lucas (23:19), fazem referência a uma revolta  ocorrida pouco antes da prisão de Jesus.
e) Outros elementos incidentais nas fontes: A narrativa de infância de Lucas (capítulos 1 e 2), apresenta traços de uma disposição nacionalista, de subjugar os gentios. Em Atos 5, o movimento de Jesus é comparado por Gamaliel com os de Teudas e Judas Galileu, ambos dos quais entraram em conflito com os romanos.
O conjunto de elementos apresentados por Bermejo Rubio é bastante significativo. Em minha opinião, a proposta é interessante (embora, mais adiante, direi porque, em minha opinião, necessita de algumas ressalvas e revisões) a nos fazer lembrar do fato que Jesus foi executado pelos romanos, justa ou injustamente, por uma acusação politica, e que esse fato deve ser explicado. Como já disse o Professor Bart Erhman, da Universidade da Carolina do Norte em Chapel Hill:
"The link between Jesus' message and his death is crucial, and historical studies of Jesus life can be evaluated according to how well they establish the link. This in fact is a common weakness in many portrayals of the historical Jesus: They often sound completely plausible in their reconstruction of what Jesus said and did, but they can't make sense of his death (tradução) A relação entre a mensagem de Jesus e sua morte é crucial, e os estudos sobre a vida de Jesus podem ser avaliados em quão firme fica estabelecida essa ligação. Na verdade, essa é uma vulnerabilidade comum nos estudos sobre o Jesus Histórico: Frequetemente soam perfeitamente plausíveis em reconstruir o que Jesus disse e fez, mas não conseguem explicar por que ele foi morto. [2].
Da mesma forma, Professora Paula Frederiksen, da Universidade de Boston, enfatiza que
The single most solid fact about Jesus life is his death; He was executed by the roman Prefect Pilate, on or around passover, in the manner Rome reserved particularly for political insurectionists, namely, crucifixion. Construction of Jesus primarily of Jewish religious figure, one who challenged the authority of Jerusalem's priests, thus fit umconfortably on his very political, Imperial death (Tradução) O fato mais solidamente estabelecido sobre a vida de Jesus é sua morte; Ele foi executado pelo Prefeito Romano Pilatos, nos dias da páscoa, ou próximo deles, da forma que os romanos reservavam especalmente para subversivos politicos, ou seja,  crucificação. Portanto, reconstruções de  Jesus  primariamente como uma figura religiosa judaica, que desafiou os sacerdotes de Jerusálem, ficam desconfortáveis com essa morte tão política, imperial [3]  

 Em vários momentos falamos desse elemento político na mensagem e execução de Jesus aqui no adcummulus, em posts meusoutros do Rodrigo (informadordeopinião), e ainda outro do Flávio,  e vamos entrelaçar essas observações com a analise dos argumentos de Rubio, nas linhas abaixo.
O Reino ou Reinado de Deus, na época de Jesus, implicava no momento em que o domínio de Yahweh, que governava o céu, mas cujo domínio um dia seria plenamente estabelecido sobre a terra (seja diretamente ou por seu Messias), expectativa que se reflete, por exemplo, no Pai Nosso "venha teu Reino, seja feita tua vontade, assim na terra como no Céu"  e no Kadish "(...) Que estabeleça Seu Reino, em nossa vida e em nossos dias e na vida de toda a Casa de Israel, pronta e brevemente (...)". A recorrência do tema do Reinado de Deus nos evangelhos, multiplamente atestado em fontes e formas, é apontada pelo Professor John P. Meier (Universidade de Notre Dame).

''Uma das razões pelas quais os críticos afirmam sem vacilar que Jesus de alguma forma realmente falou no Reino de Deus (ou Reino dos Céus) é que a frase aparece em Marcos, em Q, na tradição especial de Mateus, na tradição especial de Lucas e João, com ecos em Paulo, apesar do "Reino de Deus" não ser a forma preferida de expressão desse último. Ao mesmo tempo a frase é encontrada em diversos gêneros literários (beatitudes, preces, aforismos, história de milagres). Dada a grande quantidade de testemunhos em diferentes fontes e gêneros, vindo principalmente da primeira geração de cristãos, fica bastante díficil alegar que tal material é apenas uma criação da Igreja [4].

E anteriormente, já haviamos destacado que "Metade das parábolas fazem menção ao "Reino de Deus". Jesus foi crucificado entre dois "lestai", termo que embora seja traduzido comumente como "ladrão", leva uma conotação de "revolucionário" ou "guerrilheiro". Jesus teve Cristo (Messias) incorporado a seu nome, sendo que Messias, originalmente, é um conceito que possui amplas conotações políticas, envolvendo o estabelecimento de um Reino terreno, interpretado pelos judeus no I século como o fim do jugo romano [5].

A Captura de Cristo, de Fra Angelico, 1440 (via wikipedia)
Os cristãos, reiteradamente, reinterpretaram o conceito messiânico como o de um Reino Celestial, que seria estabelecido na terra apenas no fim dos tempos. Assim, por exemplo, Justino Martir, em sua 1ª Apologia (150 DC) busca refutar a gravíssima acusação de que os cristãos buscavam estabelecer um reino (e, portanto eram desleais a César, e traidores do Império):
E quando ouvis que buscamos um Reino, imaginais, sem procurar conhecer mais a fundo, que falamos de um reino humano; quando na verdade nos referimos daquele reino que é de Deus, como na confissão de fé feita por aqueles que são acusados por serem cristãos, embora saibam que a morte é a punição imposta aqueles que assim confessam. [6]
 Podemos citar também Atos 17:7, "Todos eles estão agindo contra os decretos de César, dizendo que existe um outro rei, chamado Jesus". Ainda que, como alguns estudiosos, o leitor do adcummulus opte por descartar a historicidade desse episódio específico, resta o fato de que a acusação existia, e era eventualmente levantada contra os cristãos. Se estes tivessem sorte (como Jasom e seus companheiros na narrativa de Atos) as autoridades ficariam corretamente alarmadas (v. 8), mas diante de pessoas insuspeitas e com recursos suficientes para pagar uma fiança (v. 9), poderiam relevar as acusações, principalmente se envolvesse um grupo que incluiria mulheres de alta posição (v.4). Contudo, se a acusação fosse considerada como verossímil, o destino seria a morte, como aqueles a qual Justino se refere.

Tais fatos indicam fortemente que a mensagem de Jesus da vinda iminente do "Reino de Deus", bem como sua condenação como Reio dos Judeus foi interpretada pela autoridades como subversiva a ordem imperial e perturbadora da Pax Romana, seja qual fosse seu conteúdo ou propósito original, e que os cristãos, constrangidos e ameaçados por essa "má impressão", buscaram desfazer esse "mal entendido".
Aqui, podemos acrescentar que além do critério da atestação recorrente, Rubio utiliza também o do constrangimento, ele afirma que os elementos acima apontados:



"Christians would never have gratuitously concocted such material, which not only does not advance their kerygmatic interests, but directly runs counter them".
(Tradução) Os cristãos nunca teria inventado o material examinado acima gratuitamente, que não só não avança seus interesses querigmáticos, como os contraria diretamente.[7]
 e
A significant hint indicating that this kind of material was indeed deeply disturbing for early Christians, at least for those who wrote the Gospels or transmitted the underlying tradition, is that much of the potentially disconcerting material has been tampered with in the editing process.
Significantes indícios de que este material era, de fato, profundamente perturbador para os primeiros cristãos, pelo menos, para aqueles que escreveram os Evangelhos ou transmitido a tradição subjacente, é que grande parte do material potencialmente desconcertante foi alterado no processo de edição. [7]

Não chegariamos a ponto de dizer que seria impossível que os cristãos tivessem inventado esses elementos da tradição associada a Jesus, mas altamente improvável. Como observa Paul Winter:
 (...) As palavras da inscrição não fazem qualquer alusão ao Antigo Testamento, e portanto podem não ter sido ditados pelo desejo de regitrar as últimas horas de Jesus conforme a profecia divina. Em certo sentido, as palavras do Titulus de Pilatos eram mesmo ofensvas a apreciação que os cristãos faziam da pessoa de Jesus (...)[8]
e:
(...) os autores dos evangelhos remodelaram e adaptaram as tradições que compilaram de acordo com os pontos de vista de um público habituado a ler grego e impreganado das idéias que circulavam no Mediterrâneo - para eles, a importância de Jesus não estava no fato de ele ter sido βασιλεὺς τῶν Ἰουδαίων (O Rei dos Judeus) mas sim no fato de ele ter sido σωτήρας του κόσμου (O Salvador do Mundo). Portanto as palavras de Mc 15:26 não podem ser entendidas como ditadas pela teologia do segundo evangelista. [8] 
Como já afirmamos aqui, uma vez que  os evangelhos foram escritos entre 65-135 DC entre as duas guerras judaico-romanas. Nesse período, houveram inúmeras revoltas, provocadas por auto-proclamados "Reis dos Judeus" e "Messias", causaram a morte de (dezenas de) milhares de pessoas, dentre os quais milhares de bons soldados e cidadãos de Roma. No mesmo período, a igreja era perseguida e o cristianismo era uma seita ilegal, sendo que alguns oficiais e magistrados suspeitavam que o grupo era formado por agitadores, desleias a César e a Roma. De fato, Aristides, Quadrato, Justino Martir, Melito, Apolinario, e outros, escreveram ao Imperador da época buscando incessantemente provar que os cristãos eram leais, pacíficos e produtivos e perfeitos súditos do Império. Porque, nessas circunstâncias, os cristãos inventariam que seu líder tinha sido um Messias Crucificado, executado como um criminoso político, por magistrados romanos, sob a acusação de Alta Traição? Provavelmente, porque Jesus foi realmente crucificado, por ter sido acusado (justa ou injusta) de se auto-proclamar "Rei dos Judeus, e essas coisas eram fatos bem conhecidos (e problemáticos) que os cristãos tinham que explicar[9].

Bart Erhman, pondera na significância do fato de que tanto o critério da atestação múltipla, quando o de constrangimento apontam Jesus como tendo sido executado como Rei dos Judeus:
"Moreover, it is independent attested that the ground of execution, as found, for example, on the title placed over Jesus cross, was that Jesus called himself King of the Jews (Mark 15:26, John 19:19). Not only is this tradition multiply attested and contextually credible, it also passes the criterion of dissimilarity. For this is not a titlethat Christians themselves used of Jesus, insofar as we can tell from our surviving sources. If they didn't use this title for Jesus, why do the account claim that he was executed for using the title himself? Evidently because that's what come out at the trial.
"(tradução) Além disso, é independentemente atestado como razão da execução, como pode visto, no título colocado sobre a cruz de Jesus, que ele se auto proclamou Rei dos Jesus (Marcos 15:26 e João 19:19). Não somente é uma tradição multiplamente atestada e contextualmente crível, como também satisfaz o critério da dissimilaridade. Pois se este não era um título que os cristãos utilizavam para Jesus, porque os relatos afirmam que ele foi executado por reinvidicar esse título ? Evidentemente, este foi o resultado do julgamento
[10].
Rubio lança mão então do critério de plausibilidade histórica e adequação contextual, os elementos apontados acima correspondem a situação histórica existente na Palestina sob o domínio romano no 1° Século, principalmente naquilo que se refere ao surgimento da chamada quarta filosofia [11]. Aqui podemos utilizar a análise do Professor Steven H Rutledge, da Universidade de Maryland, que análise os relatos de prisão e crucificação de Jesus sob o ponto de vista de sua plausibilidade e verossimilha~ça em relação ao processo judicial romano do período. Routledge, inicialmente, considera tanto a possibilidade de que as narrativas podem ser resultado do que realmente ocorreu com Jesus no tempo de Pilatos ou, por outro lado, terem incorporado anacronismos resultantes do período de sua copmposição e edição das narrativas evangélicas, no período ou posteriormente a destruição de Jerusalém em 70 DC. Rutledge identifica vários elementos verossimilares encontrados nos evangelhos, capazes de perturbar Pôncio Pilatos e levar a prisão e execução de Jesus:
"There was considerable more to the charges than Jesus' followers who wrote de gospels  were inclined to report: from the Roman (as well as jewish) perspective there was real reason for Pilate to arrest and execute Jesus. If the gospel account is credible. Among other offenses were Jesus' receipt of the title of King, his blatant identification , in various ways, with the messianic movement. Moreover Herod Antipas attempt to destroy Jesus and his followers, even before he left Galilee, apperas to indicate that there was surely a movement , early on, which the authorities perceived as subversive in its intent. In addition, Mark's (2:13-17) and Luke (23:2-5, 23:14) gospels indicate Jesus' stand against payment of Roman Tribute" (traduçãoHavia bem mais no que se refere as acusações contra Jesus que seus seguidores que escreveram de evangelhos estavam inclinados a relatar: na perspectiva romana (e também como judia) havia razão real para Pilatos para prender e executar Jesus. Se os relatos evangelicos  são críveis, entre outros crimes, o fato de Jesus ter recebido o título Rei, e sua identificação flagrante, de váriadas maneiras, com o movimento messiânico. Além disso, a tentativa de Herodes Antipas  de destruir Jesus e seus seguidores, mesmo antes deles deixarem a Galiléia, indicar que houve certamente um movimento, que desde seu início, as autoridades perceberam como tendo intenções subversivas. Além disso, os evangelhos de Marcos (2:13-17) e Lucas (23:2-5, 23:14)  indicam a posição de Jesus contra o pagamento do tributo romano [12].
Além dos elementos de natureza eminentemente política, Routledge aponta outros detalhes, a príncipio associados com a atuação de jesus como líder religioso, que poderiam ter contado para sustentar uma condenação:
It is also tempting to append to these charges those of magic pratices, a serious offense always, but in particular if such practices were perceived as employed for seditious purposes (...) One more item that will have weighed in balance against Jesus was his role as prophet, something which, as Potter has noted (1994, 171-182), the roman authorities did not dismissed lightly (...) it worth remember, moreover, that Jesus had acted in a manner with potentially explosive implications  for both local jewish and the roman civil authorities - entering the city in a manner to assert his identity as the messiah, overtunning the tables of the money changers in the temple duting passover (possibly)threatening the destruction of the Temple, and arming his followers the night before the arrest (tradução) Também é tentador somar a essas acusações  a de prática de magia, sempre um crime grave, mas especialmente se tais práticas eram vistos como empregadas para fins sediciosos (...) Outro item a pesar na balança contra Jesus era seu papel como profeta, algo que, como observou Potter (1994, 171-182), as autoridades romanas não menosprezavam (...) Adicionalmente, não podemos esquecer algumas atividades de Jesus com implicações potencialmente explosivas, tanto para autoridades civis romanas e judaicas locais - entrando na cidade de uma forma de afirmar a sua identidade como o Messias, derrubando as mesas dos cambistas no templo durante a páscoa (e possivelmente) a ameaça de destruição do Templo, e armar seus seguidores a noite antes da prisão. [12]
A captura de Cristo e o Episódio de Malco, Gerard Douffet
1620, Museum of Fine Arts, Boston, via wikipedia. 
Mas e se parte, ou muitos, ou quase todos, ou mesmo todos os elementos apontados não poderiam ser resultado do processo de composição dos evangelhos, não tendo correspondência real com a execução de Jesus no ano 30? Rutledge responde a essa pergunta utilizando as implicações do critério de plausibilidade histórica:
"Yet, what if we choose to see most of the charges as anachronistic and to read them in light of all that had passed between the time of Jesus and the composition of the gospels? That may matter but little: even if we allow that just one of the charges against him was accepted, there will be a strong case. And dismissing the charges wholesale as anachronistic may be wrongheaded, considering that in a number of details of Jesus life the gospels are in general agreement (such as magic pratices, which need not to be anachronistic - there were plenty of magicians running about the empire and they were viewing with suspicion by the authorities). In a somewhat peculiar twist, hovewer, the very anachronisms that may have found their way into the gospels appear in legal (and roman) terms to construct an overwheelming case against Jesus" (tradução) Mas, e se optarmos por considerar a maior parte dessas acusações como anacrônicas e lê-las à luz de tudo o que se passou entre o tempo de Jesus e da composição dos evangelhos? Isto pode até ser relavante, mas pouco: se admitirmos que apenas um das acusações contra ele seja verdadeira, já seria suficiente para um caso consistente. E rejeitar inteiramente esses elementos acusatórios como anacrônicos é possivelmente equivocado, considerando que uma série de detalhes da vida de Jesus nos evangelhos estão em concordância entre si  (tais como práticas de magia, que não precisam ser anacrônicas- havia muitos mágicos que exerciam seu ofício no império, e que estavam sujeitos a desconfiança das autoridades). Em uma desdobramento um tanto peculiar, entretanto, os mesmos anacronismos que supostamente teriam sido incorporados aos evangelhos constituiriam em termos legais (e romanos) acusação arrasadora contra Jesus[12] 
Assim, foram apontados acima por Rubio e Rutledge uma série de detalhes nas narrativas evangélicas que indicariam atividades consideradas pelos romanos como subversivas ou, no mínimo, fonte de preocupação. É possível que parte tenha origem no ministério de Jesus, e é possivel que parte tenha se originado do desenvolvimento das narrativas evangélicas nas décadas seguintes, sendo extremamente complicado decidir entre as duas alternativas. No entanto, muitos desses elementos são recorrentemente e multiplamente atestados, ou seja, existem em várias correntes de tradição e devem ser anteriores a ela. Além disso, são plausíveis no contexto, ou seja, fazem sentido na Galiléia e Judéia dos anos 30 DC, sob domínio romano em uma atmosfera de tensão messiânica e apocaliptica, mais do que fariam em grandes centros urbanos, cosmopolitas e plenamente integrados ao Império, como Roma, Éfeso, Antioquia ou Alexandria. Por fim, existe um movimento claro nos Evangelhos em particular e no Novo Testamento em geral de evitar problemas como Roma, então porque inventar detalhes comprometedores sobre Jesus, que levariam a suspeita das autoridades?
Nesse sentido, é nítido nas narrativas evangélicas a tendência de "absolver" Pilatos e o poder romano "não acho culpa alguma nesse homem (Lucas 23:4)" e "(...) Pilatos respondeu: Levem-no vocês e crucifiquem-no. Quanto a mim, não encontro base para acusá-lo" (João 19:6) e culpar os líderes judeus: "Finalmente Pilatos o entregou a eles para ser crucificado" (João 19:16), e "Então Pilatos decidiu fazer a vontade deles. Libertou o homem que havia sido lançado na prisão por insurreição e assassinato, aquele que eles haviam pedido, e entregou Jesus à vontade deles" (Lucas 23:23), cujas razões seriam inteiramente religiosas. Paulo exorta os crentes de Roma (Romanos 13) a respeitarem e se submeterem aos magistrados e autoridades, ordenados por Deus, apesar deles saberem que os magistrados haviam crucificado Jesus (I Cor. 2:8) e prendido o próprio Paulo (Filipenses 1:7-13), explicando prontamente que essas coisas aconteceram porque as autoridades eram ignorantes dos propósitos de Deus em Jesus, pois se os tivessem conhecido jamais o teriam executado; assim como a prisão do apóstolo, em Cristo, tinha um propósito divino de contribuir para o progresso do evangelho, e permitindo-lhe testemunhar junto a guarda pretoriana.

Então porque inventar elementos que apontariam para um juízo político? Provavelmente, porque, em sua maioria, detalhes como os apontados por Rubio e Rutledge acima, referem-se aos fatos do julgamento de Jesus, que eram conhecidos e deveriam ser explicados. É sempre possível imaginar elementos da narrativa inventados com o objetivo de dissipar suspeitas de subversão, mas que tenham tido o efeito contrário, em que a "emenda tenha saído pior que o soneto", mas é muito improvável que isso seja aplicável para todos os casos, e mesmo para a maioria desses elementos.  Ou seja, tais elementos vão na contramão das tendências editoriais, e são em muito casos perigosos para os primeiros cristãos, que volta e meia tinham de se explicar perante as autoridades (É verdade que o líder de vocês foi executado por alta traição por um governador romano, por ter se proclamado Rei? E lá na Judéia, aquele lugar que vive se revoltando? Sabe, meu irmão morreu lá lutando contra um tal de "Messias". E o que é esse Reino que vocês tanto falam?). Assim, tal padrão é talvez o caso mais cristalino de aplicação do critério do constrangimento.    
Os outros dois pilares da tese de Rubio são o poder explanatório da hipótese e a falta de alternativas concorrentes [13]. O segundo ponto é basicamente uma expansão dos argumentos utilizados no primeiro pilar, uma vez que os elementos de tensão com Roma não teriam sido inventados, e são tão recorrentemente atestados, e dada sua plausibilidade e adequação ao contexto, ele se tornam a melhor explicação para a crucificação de Jesus como Rei dos Judeus, o fato mais sólido de sua vida. Em consequência, se Jesus foi executado como um rebelde político, e a análise histórica demonstra feitos e palavras que se encaixam no padrão de ação de um rebelde político, a melhor explicação para os fatos é de Jesus foi um rebelde político. O terceiro ponto de Rubio é de que nenhum outro perfil de Jesus explica tanto os fatos como o de um rebelde contra Roma [13].
Subversivos ontem e hoje: Será que existem paralelos no tempo de Jesus e do passado recente pode nos auxiliar a entender sua execução por motivos políticos? O que os messianistas e apocalipticos judeus do século I, e os comunistas brasileiros do século XX tem a ver com isso? Veremos isso no próximo post.
Referências Bibliograficas:

[1] Fernando Bermejo Rubio (2013): Why is the Hypothesis that Jesus was an Anti-Roman Rebel Alive and Well? Theological Apologetics versus Historical Plausibility, em Bible and Interpretation (http://www.bibleinterp.com/articles/2013/ber378008.shtml), abril de 2013, acessado em 13.04.2013.
[2]  Bart Erhman (2001), Jesus Apocalyptic Prophet of the New Millenium, fl. 208
[3]  Paula Frederiksen (2000), Jesus the King of the Jews, A Jewish Life in the Emergenge of Christianity, fl. 8.
[4] John P Meier (1991), Um Judeu Marginal, Repensando o Jesus Histórico. Volume 1 , fl. 177
[5] maiores detalhes no post "A Significância de Jesus e a Escala Richter de Impacto Histórico: O Rei dos Judeus entre os Revolucionários".  http://adcummulus.blogspot.com.br/2011/06/significancia-de-jesus-e-escala-richter.html
[6] Justino Martir (150-160 DC), 1ª Apologia, capítulo 11 (parafráse própria da tradução em inglês de Robert-Doneldson), disponivel em http://www.earlychristianwritings.com/justin.html, acessado em 24.04.2013
[7] Fernando Bermejo Rubio (2013): Why is the Hypothesis that Jesus was an Anti-Roman Rebel Alive and Well? ..., Bible and Interpretation
[8] Paul Winter (1974)Sobre o Processo de Jesus, fl. 217-219
[9] maiores detalhes no post "Jesus e os Fariseus, Inimigos Mortais? Você Precisa Rever os seus Conceitos", nota 3, http://adcummulus.blogspot.com.br/2009/07/jesus-e-os-fariseus-inimigos-mortais.html
[10] Bart Ehrman (2001), Jesus Apocalyptic Prophet of the New Millenium, fl. 222-223
[11] Fernando Bermejo Rubio (2013): Why is the Hypothesis that Jesus was an Anti-Roman Rebel Alive and Well? ..., Bible and Interpretation
[12]  Steven Rutledge (2001), Imperial Inquisitions Prosecutors and Informants from Tiberius to Domitian, fl. 74-75
[13] Fernando Bermejo Rubio (2013): Why is the Hypothesis that Jesus was an Anti-Roman Rebel Alive and Well? ..., Bible and Interpretation.
  


quarta-feira, 24 de abril de 2013

Pais em luto: escultura de Kathe Kollwitz, em memória de seu filho Peter,
morto em 1914, em Vladslo, Bélgica ( via wikipedia)
Hoje, li no G1, e no Daily Mail, a notícia que dois combatentes ingleses, desaparecidos desde a I
Guerra Mundial, foram enterrados com honras militares no Cemitério de  Ecoust St Mein, perto de Arras, no norte da França. O reconhecimento do Tenente John Harold Pritchard e do Soldado Christopher Douglas Elphick foi possível graças a descoberta do fazendeiro Didier Guerle de um bracelete e um anel pertencentes ao oficial e ao soldado, em 2009. Localizadas as famílias, foi realizado o enterro. Pritchard morreu com 31 anos. Elphick tinha 28, quando sua unidade enfrentou as tropas alemãs perto da cidade de Bullecourt, em 1917.

O mais tocante, para mim, é a foto do Daily Mail de um cartão de natal enviado pelo soldado Elphick em 1916 para sua família. Ele escreveu" (...) que o ano que se aproxima nos reuna a todos, mais uma vez". Lamentavelmente, 1917 trouxe aquela esposa e filho recém nascido a morte de seu marido e pai. Além disso, ao procurar uma foto para esse post, encontrei essa escultura de Kathe Kollwitz, mãe que perdeu seu filho Peter naquela guerra, em 1914. Peter Kollwitz, Chistopher Elphick e john Pritchard seriam, entretanto, apenas alguns das dezenas de milhões de franceses, ingleses, alemães, russos, canadenses, americanos, australianos, italianos, austríacos, japoneses, e de várias outras nacionalidades (muitos brasileiros inclusive), a maioria jovens, que morreriam naquela e na II Guerra Mundial que se seguiu (com seu legado de campos de concentração e extermínio, bombas atômicas e massacres e atrocidades de todo o tipo). Podemos lembrar de Fernando Pessoa "(...) quantas mães choraram, quantos filhos em vão rezaram, quantas noivas ficaram por casar (...)", mas de forma alguma podemos dizer que valeu a pena, pois ao contrário das navegações portugueses, a dor de tantos não encontra tal consolo.

Talvez, possa ter valido a pena o fato de que tais tragédias tenham levado países como França, Alemanha, Inglaterra e Itália a abdicar da guerra entre si. Seus horreres tenham refreado EUA e União Sovietica de se confrontar. Embora guerras continuem acontecendo em várias partes do mundo, nunca mais tivemos algo como as guerras mundais, e inimigos históricos, hereditários, como França e Alemanha, parecem reconciliados.  Como em um vislumbre temos, em parte, a visão do profeta Isaías:
"Ele julgará entre as nações e resolverá contendas de muitos povos. Eles farão de suas espadas arados, e de suas lanças foices. Uma nação não mais pegará em aramas para atacar outra nação, elas jamais tornarão a preparar-se para a guerra (Isaias 2:4).
AMÉM.

sábado, 2 de fevereiro de 2013

MITO COMO HISTÓRIA

Seria interessante refletir sobre alguns pressuspostos, que nos parecem equivocados, que encontramos com frequência, (mas, felizmente não na grande maioria das análises acadêmicas) de que os textos cristãos primitivos são imprestáveis para a análise histórica, que por representarem narrativas religiosas, devem ser "jogados para escanteio". Toda fonte histórica, seja na forma de texto ou artefato, foi produzida por alguém ou por um grupo, com um determinado propósito. Ou seja, possui um viés, em maior ou menor grau. Logo, uma vez que todas as fontes são enviezadas, parciais, não se pode "confiar" totalmente, para efeito de análise histórica, em nenhuma delas. Mas, pela mesma razão, não se pode desprezar nenhuma fonte existente, todas têm, a príncipio, pelo menos o potencial contribuir com algo.

Assim, uma proposta interessante é analisar Jesus e os evangelhos a luz de outras narrativas e figuras da antiguidade, no que se refere a objeção muito comum de que folclore e mito, excluem fato histórico. Como veremos mais adiante, muitas vezes é o contrário, quanto mais "histórico" é o individuo mais elementos "míticos" sua biografia atrairá.

Gilgamesh subjuga um Leão. Alto Relevo Assírio do sec VIII AC (Sargão II) no  Museu do Louvre, Paris
Como um exercício, vamos analisar, nesse e em um próximo post, os evangelhos a luz de duas narrativas que estão indissociávelmente associadas a mitologia, a dos semideuses Gilgamesh, Rei de Uruk e Hércules. Embora nossa opinião seja de que os evangelhos NÃO pertencem a este gênero literário, entendemos que a comparação é instrutiva. (A partir do 3° post, vamos comparar com escritos claramente históricos ou biograficos)

Um caso bastante interessante em que uma narrativa essencialmente mítica se desenvolve em torno de um figura provavelmente histórica.  no Épico de Gilgamesh. Gilgamesh (em acadiano), ou Bilgames (em sumério), é mencionado na lista dos Reis Sumérios, do final do III milênio AC, como tendo sido o quinto Rei da primeira dinastia da cidade de Uruk (a bíblica Ereque, e a moderna Warak, no atual Iraque), por volta 2500-2700 AC [1].  Bilgames é o personagem principal de cinco textos sumerianos, que teriam surgido a partir do final do III milênio AC, de forma independente. Posteriormente, no Primeiro (ou Antigo) Império Babilônico  (2000 a 1600 AC), os textos sumerianos foram compiladas e expandidas, em lingua acadiana, originando a primeira versão dos épicos feitos do Rei de Uruk, agora com o nome acadiano de  Gilgamesh . O desenvolvendo da obra continuou por mais um milênio, chegando a versão "padrão", ou tardia, do Épico, elaborada entre 1300-1100 AC [1]

O épico relata como Gilgamesh, filho de Lugalbanda (ou de um fantasma ou demônio, na lista dos Reis Sumérios), e da deusa Ninsun, duas partes divino e uma parte humano, era Rei de Uruk e oprimia seus súditos. O povo de Uruk pediu o auxílio dos deuses, que atenderam criando Enkidu, o homem selvagem, cuja missão era acabar com a arrogância de Gilgamesh. Através de sonhos, e depois por um aviso de um caçador, Gilgamesh é informado da vinda de Enkidu. Engenhosamente, o Rei de Uruk envia a cortesã Shamhat para atrair o homem selvagem e traze-lo a civilização. Shamhat se relaciona fisicamente com Enkidu, por seis dias e sete noites, e o persuade a acompanha-la a Uruk.[2][3]

Os planos do Rei de Uruk, contudo, não conseguem impedir o que fora estabelecido pelos deuses. Gilgamesh e Enkidu se confrontam tão logo se encontram, mas Gilgamesh é vitorioso. No entanto, surpreendentemente, eles se tornam amigos inseparáveis.[2][3] Acompanhado de Eikidu, Gilgamesh deixa o seu reino e parte para grandes aventuras, encontrando ogros, semi deuses e outros monstros mitologicos como o demônio Humbaba na floresta dos cedros. A deusa Inana tenta seduzir Gilgamesh, e como suas investidas são rejeitadas, ela envia Gugalana, o Touro Celeste, marido da deusa Ereshkigal, contra Gilgamesh, mas ele, com ajuda de Eikidu, derrota e mata o Grande Touro. Por ter interferido, Enkidu é amaldiçoado pelos deuses e morre. Gilgamesh cai em profunda tristeza e chora sobre o corpo de seu amigo dias e dias. Gilgamesh perde a alegria de viver. Os feitos heróicos não o motivam mais.[2][3]


descrevendo o Díluvio, em Acadiano.
(Wikipedia)
Ele então resolve buscar o segredo da imortalidade, que seria conhecido pelo sobrevivente do Dilúvio Utnapishtim. Para chegar até lá, Gilgamesh vai até as montanhas Mâshu para passar pela porta do Sol. A porta é guardada por dois homens-escorpião, "cuja visão é suficiente para causar a morte". O Rei de Uruk fica paralisado de medo e se prostra. No entanto, as feras reconhecem a condição divina de Gilgamesh, e o deixam passar. Gilgamesh cruza então as àguas da morte, com auxílio de Urshanabi, barqueiro de Utnapisthtim. Ao encontrar Utnapishtim, ele conta ao Rei de Uruk tudo o que passou no díluvio e como os deuses lhe deram a imortalidade. Utnapishtim propõe uma prova a Gilgamesh, que deve ficar seis dias e sete noites sem dormir. O herói fracassa retumbantemente, e adormece por seis dias e sete noites. Ao ver a tristeza e arrependimento de Gilgamesh por ter fracassado, Utnapishtim se compadece, e lhe diz aonde encontrar a planta da imortalidade. Gilgamesh vai até o fundo do mar, e obtêm a planta. Logo depois, porém, ele se descuida, e uma serpente, sorrateiramente, rouba a planta. Todo esforço de Gilgamesh para obter a vida eterna havia fracassado. Sua busca  se mostrou infrutífera.[2][3]

No entanto, caros leitores do adcummulus, apesar do Épico ser basicamente um mito, a historicidade de Gilgamesh é geralmente aceita pelos estudiosos.
Como observa Maureen Kovacs [4]:

"There is no doubt that Gilgamesh was a real historical figure who ruled the city of Uruk at the end of the Early Dinastyc II Period (ca 2500-2700 BC). Through no royal inscription are known that would directly estabilish his existence, one person he is associated with in epic is actually attested by contemporary inscription. The Sumerian Epic "Gilgamesh and Agga"mentioned earlier, refer to a war fought between Gilgamesh of Uruk e Agga of the city of Kish, son of Enmebaragessi. This Enmebaragessi is a historically authenticated figure, with two contemporary inscriptions."[5]
(tradução) "Não há dúvida que Gilgamesh foi uma figura histórica que reinou sobre a cidade de Uruk no final do Segundo Período Dinastico Primitivo (2500-2700 AC). Embora não haja nenhuma inscrição real conhecida que estabeleça de forma direta sua historicidade, uma pessoa a qual ele está associado no Épico tem sua existência atestada por uma inscrição contemporânea. O Épico sumeriano "Gilgamesh e Agga" mencionado anteriormente, faz referência a uma guerra entre Gilgamesh de Uruk e Agga da cidade de Kish, filho de Enmebaragessi. Este Enmebaragessi é uma figura histórica atestada em duas inscrições contemporâneas"[4]
Assim não há um texto ou artefato contemporâneo ou semi-contemporâneo que mencione Gilgamesh. No entanto, a historicidade do Rei de Uruk, é geralmente aceita com base em um conjunto de elementos um tanto circunstâncias, o mais importante é fato de que  um dos cinco textos sumerianos anteriores ao épico,  "Gilgamesh e Aga",  relata a guerra entre Gilgamesh de Uruk  e o Rei Aga, filho de Enmebaragesi, de Kish. Tanto Aga, quanto Enmebaragesi, são mencionados  no Épico de Gilgamesh.   O Rei Enmebaragesi é mencionado em duas inscrições contemporâneas.

A Professora Susan Ackerman, do Darthmouth College, nos apresenta alguns detalhes adicionais: 

"Gilgamesh's rule sometime during the second phase of the Early Dinastic Era (ED II) of Sumerian history, which lasted from ca 2700-2500 BCE. . Unfortunately, there are no historical texts confirming the existence of a King Gilgamesh of Uruk that date from this ED II period. although we do have an Early Dinastic votive inscription that bears the name of a King Enmebaragesi of the city state of Kish. This same King Enmebaragesi is also refered to in the later sumerian texts in conjuction with Gilgamesh: in late third-millenium BCE hymn composed in praise of Gilgamesh, for example, and in the epic text, probably of same date, that tells the story a battle between Gilgamesh and Enmebaragesi's son and sucessor Agga (ou Akka). Most scholars suppose that since the King Enmebaragesi of these late third millenium BCE hymns and epics is a known historical figure, so too must be his hymnic and epic counterpart Gilgamesh" [5]
(tradução) "Gilgamesh reinou em algum ponto durante a segunda fase do início da era Dinastica (ED II) da história suméria, entre 2700-2500 AC. Infelizmente, não há textos históricos que confirmam a existência do rei Gilgamesh de Uruk, datando deste período (ED II), embora nós temos uma inscrição votiva dinastica que leva o nome de um certo Enmebaragesi, Rei da cidade-estado de Kish. Este mesmo rei Enmebaragesi também é referido nos textos sumerianos posteriores juntamente com Gilgamesh: no final do terceiro milênio AC, em um hino composto em louvor de Gilgamesh, por exemplo, e no texto épico, provavelmente, de mesma data, que conta a história de uma batalha entre Gilgamesh e o filho e sucessor de Enmebaragesi Agga (OU Akka). A maioria dos estudiosos acreditam que, uma vez que o Rei Enmebaragesi desses hinos e epicos do final do terceiro milênio AC é uma figura de historicidade comprovada, assim também sua contraparte Gilgamesh "[5]

Assim como o Professor Jeffrey Tigay, da Universidade da Pensilvânia
"Although Gilgamesh existence is not confirmed directly by any contemporary inscription of his own which mention him, the likehood that there was a King of this name has been enhanced by the discovery of inscriptions of contemporaneus rulers of Kish and Ur with whom Gilgamesh is associated in epic and historical tradition (...) this is the extent of the historical and biographical information about Gilgamesh available outside the epic and its sumerian forerunners. It tend to support his existence, his date, and therefore his association with certain historical figures, his reconstruction of a shine, and the epic's statement that he built the wall of Uruk (GE I,i, 9-10). It may be that other details in the sumerian and akkadian narratives have a historical basis, but on these we can only speculate [6]
(Tradução) Embora a existência de Gilgamesh não seja confirmada diretamente por nenhuma inscrição contemporâmea de sua autoria que o mencione, a probabilidade que tenha havido um rei como esse nome foi aumentada pela descoberta de inscrições de governantes contemporâneos de Ur e Kish a quem Gilgamesh foi associado no épico e na tradição histórica (...) assim, os elementos históricos e biográficos disponíveis fora do Épico de Gilgamesh e seus antecessores  tendem a dar suporte  a sua existência, periodo em que viveu, , em consequência de sua associação com certas figuras históricas, que reconstruiu um santuário, e a afirmação contida no épico de que ele construiu os muros de Uruk (Épico de Gilgamesh I, i, 9-10). Pode ser que outros detalhes nas narrativas sumeriana e acadiana tenham base histórica, mas sobre eles podemos apenas especular.[6]

Busto em Calcário, possivelmente Lugalkisalsi, Rei de Uruk
Museu do Louvre, via Wikipedia
Recentemente, um outro texto, reforçou a associação de Gilgamesh com outros governantes das cidades estado da Mesotopâmia, cuja a existência é atestada em inscrições contemporâneas. A Inscrição de Tummal, datada do reino de Ishbi Erra (1953-1921 AC), ou cerca de 600 anos após Gilgamesh, é uma crônica do santuário homônimo situado na cidade de Nippur, onde a deusa Ninlil, e seu divino esposo Enlil, eram adorados. A inscrição associa o épico Rei de Uruk com outros governantes contemporâneos, que também teriam contribuido para edificação e restauração do santuário.  Nippur tinha o status de cidade santa na tradição mesotopâmica antiga. Os reis das cidades estados mais poderosas, como Kish, Uruk e Ur, buscavam controlar Nippur (e edifica-la) como forma de demonstrar sua condição politica hegemônica sobre os outros.  Assim o santuário teria recebido benfeitorias por vários governantes, conforme as várias cidades estados se sucediam no domínio da Mesotopâmia. 
Enmebaragesi, o Rei desta cidade (que é Nippur), edificou a Casa de Enlil. Agga, o filho de Enmebaragesi, fez o Tummal proeminente.
Pela primeira vez o Tummal caiu em ruina.
Mesanepada, o Rei, construiu o 'Bursusua' do Templo de Enlil

Meskiagnuma, o Filho de Mesanepada, fez o Tummal esplêndido e introduziu Ninlin lá.
Pela Segunda vez, o Tummal caiu em ruína.
Gilgamesh construiu o Dunumunbura, nos dias de Enlil,
Ur-lugal, o filho de Gilgamesh, fez o Tummal esplndido e introduziu Ninlil lá. [7]

Como observa o Professor Andrew R George, da Universidade de Londres, embora distante do tempo de Gilgamesh em vários séculos, a inscrição de Tummal, em conjunto com as outras inscrições contemporâneas de pessoas mencionadas no ciclo narrativo de Gilgamesh, ainda que evidências indireta, constituem, em conjunto, forte indicativo da historicidade do Rei de Uruk.

"The tummal text is important, neverthelles, because it places Gilgamesh in the company of Enmebaragesi, Mesannepadda, Meskognunna e, talvez, Aannepadda, men who are attested as historical figures by their own inscriptions  (...) On the evidence presented above it seems likely that there was once a King Bilgames in Uruk, just as there may have been in Britain a real King Arthur. But the Gilgamesh of the epic traditions is a literary character, to whom any number of originally disparate traditions have accrued. Its a vain hope to find in history such a hero of legend [7]
(Tradução): A inscrição de Tummal é importante, no entanto, pois coloca Gilgamesh em companhia de Enmebaragesi, Mesannepadda, Meskognunna e, talvez, Aannepadda, homens que são atestados como figuras históricas por suas próprias inscrições (...) A partir da evidência apresentada acima, parece provável que existiu um dia um Rei Bilgames em Uruk, assim como deve ter havido na Inglaterra um Rei Arthur histórico. Mas o Gilgamesh das tradições épicas é um personagem literário, a qual um grande número de tradições disparatadas se acumularam. É uma esperança vã tentar encontrar a história do herói lendário.[7]
Alguns leitores podem ter ficado surpresos, perguntando " Ora, tudo o que sabemos sobre Gilgamesh vem de um relato mitológico, o peíodo que viveu é incerto (2700-2500 AC), os únicos registros externos de sua existência são inscrições do pai de um Rei contra o qual ele teria lutado, inscrições em que Gilgamesh não é sequer mencionado, ou então um texto escrito séculos depois em que Gilgamesh é citado junto com outros reis que teriam existido, então como a sua historicidade pode ser aceita?

Tais questionamentos também são levantados por estudiosos. Por exemplo, Eleanor Robson, Professora do Departamento de Historia e Filosofia da Ciência da Universidade de Cambridge, em uma resenha do livro do Professor Andrew R George, publicada no Bryn Mawr Classical Review (BMCR):




 On the other hand, he is curiously willing to accept the historicity of an original Gilgamesh, king of Uruk some time in the early to mid-third millennium BCE. In fact, the only relevant pieces of evidence are two brief royal inscriptions of (En)-mebarage-si, king of Kish, who according to one Sumerian poem was the father of Gilgamesh's adversary Akka or Aga. This convinces me of nothing historical but suggests instead that a well-known king (En-mebarage-si) was adduced to add pseudo-historicity to this one Sumerian composition
(Tradução) Por outro lado, ele curiosamente tende a aceitar a historicidade de Gilgamesh, Rei de Uruk, em algum momento entre o ínicio e meados do terceiro milênio antes de Cristo. Na verdade, as únicas peças de evidência relevantes são duas breves inscrições reais de (En)-mebarage-si, Rei de Kish, que de acordo com um poema sumeriano foi pai de Akka ou Aga, adversário  de Gilgamesh. Isso não me convence da historicidade de nada, mas apenas sugere que um Rei conhecido foi inserido para conferir pseudo historicidade a aquela composição Suméria. [8]

Ainda assim, como já apontado acima, a posição dominante entre os estudiosos ainda é que o Rei Gilgamesh de Uruk provavelmente existiu.  Tal conclusão se baseia no balanço da evidência disponível, que ainda que não seja suficiente para, conclusivamente, estabelecer a historicidade de  Gilgamesh,  apresenta elementos que, mesmo que insuficientes isoladamente, tomados em conjunto apresentam força consideravel. 
A Lista dos Reis Sumérios, já mencionada, é estruturada de forma a identificar as dinastias das cidades-estados dominantes na antiga Sumer. Assim, a lista, relata que, após o dilúvio, o reinado cabia a dinastia de Kish. Aga, filho de Enmebaragesi, é o último rei listado, pois em seus dias, a hegemonia teria passado para Uruk, posteriormente para Ur. Como adverte o Professor Nicholas Postgate, de Cambridge, o ínicio da lista narra as fantásticas cidades de Eridu, Batbira, Sippar, Larak e Surupak, com seus governantes legendários, que reinaram por milhares de anos [9]. Mesmo para o periodo pós-diluviano, há omissões e vieses extremamente significativos, parte pela limitações das fontes disponíveis ao criadores da lista, em parte pelas motivações políticas que levaram sua elaboração [9]. No entanto, apesar de todas estas dificuldades, Postgate adverte que os estudiosos resistem em abandonar a Lista dos Reis Sumérios como fonte histórica, em parte, por que artefatos contemporâneos corroboram seu conteúdo em alguns pontos, demonstrando que tradições historicas genuínas foram incorporadas (e em parte porque os historiadores, conscientemente ou não, ainda são influenciados por uma peça de propagando de 4000 anos atrás!!!!)  [9].  Assim, Postgate, observa que quando a Lista fala que nações estrangeiras como Mari, Awan e Hamazi exerceram hegemonia, por exemplo, não se pode descartar isso como meras lendas, mas conceder, a princípio, o benefício da dúvida, mesmo quando não há registros contemporâneos de tal domínio [9]. A menção a Gilgamesh na lista, em face do período em que é mencionado, é uma evidência de historicidade, embora pouco significativa.


Mesopotâmia Segundo Milênio AC (via wikipedia)
O texto Gilgamesh e Aga, narra como o Rei de Kish cercou Uruk pois percebeu sua hegemonia sendo contestada por Gilgamesh, e acabou sendo derrotado,  capturado, ainda que poupado. O poema, que, salvo em alguns elementos específicos (como a menção do confronto entre Aga e Gilgamesh) não foi incorporado ao Épico, apresenta estrutura diferenciada dos demais textos relativos ao Rei de Uruk. Einkidu, por exemplo, é agora apenas um valente servo do Rei. A narrativa é centrada em torno de questões internas e externas de cidades-estados da antiga Mesotopâmia, e utiliza, como observa Dina Katz [10], "material tomado da realidade histórica e cria uma impressão de autenticidade pela figura de Gilgamesh apresentada" e tem levado os estudiosos  a utilzarem a narrativa como fonte histórica para alguns aspectos, ainda que haja dúvidas quanto se esse procedimento é recomendável [10].    A inscrição de Tummal também apresenta a posse do santuário de Nippur, que variava conforme a cidade-estado hegêmonicas, e passou entre vários reis sabidamente históricos, e menciona também Gilgamesh.

Assim, temos a menção na Lista dos Reis Sumérios, em um período em que existe comprovação contemporânea da historicidade de outros governantes contemporâneos, como Enmebaragesi, da vizinha Kish. Enmebaragesi, e seu filho Aga são mencionados no Épico. Além disso, o texto Aga e Gilgamesh relata um conflito entre as cidades de Kish e Uruk, de forma plausivel em relação ao que se esperaria naquele contexto e  período. Adicionalmente, Gilgamesh é citado na inscrição de Tummal, que mesmo que escrita séculos depois, o coloca em um contexto claramente histórico, em companhia de governantes atestados por fontes contemporâneas junto com outros reis cuja existência é atestada. Isoladamente, nenhuma dessas evidências é significicativa, e são de natureza circunstâncial, tomadas em conjunto, porém, tem levado a maioria dos estudiosos a concluir que  a menção incidental do Rei Enmebaragesi, e de seu sucessor Aga, é melhor explicada por uma memória histórica de interações deles com Gilgamesh de Uruk.. Assim, por meios indiretos, entendem que é mais provável que Gilgamesh tenha existido, mesmo que não se possa dizer quase nada sobre ele além de que tenha reinado sob Uruk em meados do terceiro milênio antes de Cristo.

Ou seja, leitores do adcummulus, o fato de podermos associar (parte) da narrativa de Gilgamesh, mesmo que de foram mínima, a um contexto histórico específico, é forte elemento na aceitação de sua historicidadea mesma forma, utilizando critérios semelhantes, uma das razões pelo qual a maioria esmagadora dos historiadores especializados no período considera que Jesus muito provavelmente existiu, e que os evangelhos contém um núcleo de informação histórica, é que se contextualizam claramente no período do Segundo Templo do Judaísmo, em uma Judéia e Galiléia cuja a estrutura e organização social é consistente com o que sabemos de outras fontes, que interage com figuras de historicidade bem determinada como Pilatos, Caifas, Anás, Herodes Antipas, e João Batista. Ou seja, os evangelhos contém um número significativo de elementos e detalhes plausíveis e no contexto e verossimilares. Além disso, no caso de Gilgamesh as primeiras fontes e informações biográficas datam de alguns séculos após sua suposta existência, enquanto que para Jesus temos menos de duas décadas para as cartas de Paulo e cerca de 50 anos para os evangelhos, além dos testemunhos, ainda que breves, de Josefo (provavelmente), Tacito, Luciano, Celso, entre outros. Assim a evidência relativa a historicidade de Jesus é muitas mais próxima a sua existência, do que de Gilgamesh. Finalmente, pelo menos parte de seus discipulos é atestada em documentos contemporâneos (Pedro, João e Tiago, irmão de Jesus, em Galátas, por exemplo).
Obviamente, uma melhor comparação poderia ser feita entre Jesus e figuras mais ou menos contemporâneas cujas primeiras fontes remontam de cerca de 50-100 anos após sua existência, tais como lideres religiosos como o Mestre de Justiça (de Quram); Honi, o fazedor de Chuva; Hanina Ben Dosa, ou revolucionários como Simão de Peréia e Judas Galileu, ou filósofos como Apolônio de Tiana. Todos esses são considerados históricos. É por isso que geralmente se aceita a historicidade de Jesus e até mesmo de Gilgamesh.

Detalhe da Porta de Ishtar, Museu Pergamo, Berlin
via Wikipedia.
Outro elemento importante, é que o Épico de Gilgamesh é uma narrativa contínua e complexa, elaborada a partir de vários textos anteriores, por sua vez (em parte) derivados da tradição oral. Existiram então textos de natureza distinta, que sofreram profundo processo de adaptação e transformação literária. Como os textos são distintos, cada um deve ser analisado historicamente de forma independente. Pelo menos uma das narrativas, Gilgamesh e Aga, apresenta características plausíveis em relação ao contexto histórico, sendo possivel que tenha sido baseada em alguns fatos reais. Da mesma forma,  quando falamos em "Novo Testamento", estamos nos referindo a um conjunto de textos, inicialmente independentes, que foram agrupados para uso das comunidades cristãs, começando com o herege Marcion (em 130-140DC) e São Irineu (180 DC). Então, cada texto deve ser avaliado independentemente e nas suas interações com os outros e com o contexto. E mesmo os textos atuais foram, provavelmente, elaborados a partir de outros mais antigos, como os Evangelhos de Mateus e Lucas, que são derivados de Marcos e Q. Assim, um estudioso pode considerar Marcos (e portanto, partes de Lucas e Mateus) pouco confiáveis historicamente, e ao mesmo tempo entender que Q nos remete em substância ao Jesus Histórico. 
Como já dissemos aqui no adcummulus, discutindo sobre o trabalho do Professor John Roberts, apontando muitos "elementos dos evangelhos "inerentemente plausíveis com o que se esperaria de um líder religioso judeu da período", ou seja, são altamente plausíveis no contexto. Podemos acrescentar como já visto naquele post, que há muitas evidências de uma tradição oral vibrante anterior aos evangelhos (L Michael White), que tem seu valor reconhecido como fonte histórica, junto com Josefo, para o mundo judaico do periodo anterior a destruição de Jerusalém (Fergus Millar), que várias tradições individuais (e complexos de tradição) contém tanto "colorido local" e tantos "indicios de familiaridade" que devem ter surgido na Palestina, no periodo em que Jesus exerceu seu ministério (Gerd Thiessen), os evangelistas apresentam Jesus consistentemente pregando nas pequenas vilas e aldeias da Galiléia, um mundo distinto dos cristãos primitivos nos grandes centros urbanos da civilização greco-romana, ainda que fosse interessante para esse cristãos ver Jesus discutindo filosofia com os filósofos em Séforis ou Tiberiades, indicando fortemente que nesse aspecto os evangelistas reproduziram o que encontraram em suas fontes (Geofrey M de Ste Croix). (...) já refletimos sobre como os evangelhos sinóticos apresentam um contorno geral de Jesus poderoso em palavras e atos, nas pequenas vilas e aldeias da Galíleia, em dissonância com a pregação do Cristo querigmático posterior; proto-ortodoxos, ebionitas, marcionitas, gnosticos docéticos e separacionistas conservam o esqueleto básico dessa narrativa, quase como um ancestral comum, mesmo que não o enfatizem (David Flusser e Geza Vermes).

A identificação de elementos que plausivelmente podem ser organizados em uma narrativa comum coerente com o contexto histórico em que teriam se originado, e que são mantidos em várias tradições cristãs concorrentes e rivais, em alguns casos indo contra as tendências de desenvolvimento dessas tradições, formam a base do critério de plausibilidade histórica. Como observa um colega e contemporâneo de John M Roberts, Louis Gottschalk, que foi Professor da Universidade de Chicago, em seu Manual, "Understanding History", na análise de um documento, o historiador deve se ater mais a cada parte relevante do documento, do que ao documento como um todo. Em relação a cada um desses elementos relevantes e particulares, ele deve se perguntar: "Isso é crível ? Por crível não se entende "o que realmente ocorreu", mas sim o "que é mais proximo do que realmente pode ter acontecido com base no exame crítico das melhores fontes disponíveis"[16]. Ou seja, os elementos com alto grau de verossemelhança, o que, enfatiza Gottschalk, é bem mais do que não ser falso, e ainda acima do que meramente plausível[16]. Em outras palavras, o historiador tem condições de estabelecer verossemelhança, ao invés de verdade objetiva[16]. Foi justamente isso que os estudiosos já citados fizeram com os evagelhos. A partir da analise dos elementos relevantes das fontes, estabeleceram a partir de vários elementos plausíveis, um retrato verossimilar de Jesus, tendo em vista o contexto em que viveu, e o impacto que causou. É semelhante a montagem de um quebra-cabeça, onde as peças são arranjadas de forma a formarem um figura, reconhecendo que muitas peças podem estar faltando, e as vezes seja possivel apenas esboçar, ou nem isso, a figura original".

Referências Bibliográficas
[1] Susan Ackerman (2005), When heroes love: the ambiguity of eros in the stories of Gilgamesh and David, fls. 33-36, Columbia University Press
[2] Mircea Eliade (1976) História das Crenças e das Idéias Religiosas, Volume I (Da Idade da Pedra aos Mistérios de Eleusís), fls. 83/86 , Jorge Zahar Editora.
[3] JR Porter (1993) O Oriente Médio In Roy Willis: "Mitologias: deuses, heróis, e xamãs nos tradições e lendas de todo o mundo", fls. 61, Publifolha.
[4]  Maureen G Kovacs (1989), The Epic of Gilgamesh, fl. xxvii, Stanford University Press  
[5] Susan Ackerman (2005), When heroes love: the ambiguity of eros in the stories of Gilgamesh and David, fls. 36-38, Columbia University Press.
[6] Jeffrey Tigay (1982), Evolution of the Gilgamesh Epic, fls. 14-15, Bolchazy-Carducci Publishers
[7]  Andrew R George (2003) The Babylonian Gilgamesh Epic: Introduction, Critical Edition and Commentary, vol I, fls. 105-106, Oxford University Press
[8] Eleanor Robson (2004) (review) 2004.04.21Bryn Mahr Calssical Reviews (BMCR): A.R. George, The Babylonian Gilgamesh Epic: Introduction, Critical Edition and Cuneiform Texts, 2 vols. Oxford: 2003. Pp. xxxvi, 986; 
[9] J. Nicholas Postgate (1994) Early Mesopotamia: Society and Economy at the Dawn of History, fl. 27-30, Routledge.
[10] Dina Katz (1993) Gilgamesh and Akka, fl. 11, Styx (Brill)



sábado, 24 de novembro de 2012

Continuando, (após longo tempo), nossa série sobre os doze apóstolos de Jesus, vamos ao segundo post sobre  a possível descoberta do Túmulo do Apóstolo Filipe na cidade Hierápolis (ou Pamukale, atual Turquia), pela equipe do Professor Francesco D'Andria, da Universidade de Salento, e Diretor da Missão Arqueológica Italiana em Hierápolis. A missão excava o local desde 1957, e reune pesquisadores de 14 universidades e centros de pesquisa.


Ruínas do periodo romano em Hierápolis (Pamukale), foto via wikipedia



Como dito anteriomente, o caso de Filipe é muito interessante para avaliar a possibilidade de análise histórica das tradições associadas aos doze apóstolos após a crucificação de Jesus, a despeito do forte conteudo lendário e da sua aparição relativamente tardia no registro histórico, exemplificando muito bem o tipo de material  disponível para a maior parte dos apóstolos. Como já dissemos antes, boas análises do assunto estão disponiveis nos livros dos professores  John P Meier (Um Judeu Marginal, Volume 3, Livro I, fls. 210-296, Ed. Imago) e Geza Vermes (Quem é Quem na Época de Jesus, Editora Record).


Fontes Arqueológicas e Textuais e Tradições sobre Filipe e Hierápolis:

Como já visto no post anterior, o mais extenso relato sobre a possível atuação de Filipe, e seu martírio, é o livro de Atos de Filipe. No entanto, uma série de dificuldades cercam o texto: i) Foi composto por volta do século IV-V DC (embora  conserve tradições anteriores) ii) Atos de Filipe, como vários outros Atos apócrifos, pertence ao gênero de novela histórica, cujo o principal objetivo é edificar e entreter, não relatar a história.

No entanto, vimos também que: i) Embora o texto seja tardio, estudiosos como o Professor François Bovon [1] tem apontado que foi construído a partir de vários cíclos narrativos, alguns muito anteriores a compilação do texto no século IV ou V. ii) Como observa o Professor James McGrath em relação aos Atos de Tomé, ainda que seja um relato altamente romanceado e tardio, existe uma possibilidade razoável que se baseie em um núcleo autêntico, a atuação do apóstolo do Tomé na India em meados do sec .I, existindo a possibilidade de avaliar a historicidade de certos elementos após cuidadosa e meticulosa análise. Tal processo, entendemos, pode ser usado para os Atos de Filipe,  em face a existência de elementos conexos as notícias mais antigas da tradição, dos autores do século II, dos evangelhos e de Atos (final do século I), candidatos a possibilidade de historicidade.      

De forma "arqueológica", vamos começar das camadas mais recentes em direção as mais antigas:

Inscrição do Arquidiácono Eugênio (sec V): Professor William Tabernee, do Phillips Theological Seminary (Oklahoma), apresenta a inscrição funerária publicada por Charles R. Cockerell, no inicio do século XIX, em Hierápolis

Eugênio, o menor, arquidiácono, e responsável pelo [martirium?] do santo e glorioso apostolo e teólogo Filipe" [3]
O testemunho de Eugênio demonstra que, mais ou menos na época em que os Atos de Filipe foram concluidos, existia a crença, consolidada, de que o apóstolo e teólogo havia sido enterrado ali. Eugênio havia dedicado sua vida como Guardião do Sepulcro do apóstolo. Obviamente, é uma atestação extremamente tardia, mais de 300 anos após a morte de Filipe, do que as pessoas acreditavam. É util apenas para confirmar que, no mínimo, a associação de Filipe com Hierapolis já estava firmemente estabelecida anteriormente ao advento dos Atos de Filipe.

(Pseudo?) Hipólito (200 -400 DC):  O tratado dos "Doze Apóstolos de Cristo", são apresentadas tradições relativas ao destino dos doze após a morte e ressureição de Jesus.  Sobre Filipe o texto nos informa:
"Filipe pregou na Frígia, e foi crucificado, de cabeça para baixo em Hierápolis, no tempo de Domiciano, e foi enterrado lá". (Pseudo Hipolito, Dos Doze Apóstolos, v 6)
O livro é algumas vezes atribuido ao mestre cristão romano e bispo Hipolito de Roma (170-235 DC), o que, se verdadeiro, seria relevante, pois consolidaria tradições correntes a cerca de três a cinco gerações das figuras envolvidas. No entanto, a autoria de Hipolito é geralmente descartada pelo fato de Jerônimo (347-420 DC), ao listar os livros escritos por Hipolito não o mencionar o tratado, assim como uma inscrição contemporânea encontrada junto a uma estátua dedicada aquele mestre, excavada em 1551 [4]. No entanto, como também observa o Professor James R Edward, da Whitworth University, Jerônimo indica estar a par da existência do livro, pois o título exato do trabalho (De duodecim apostolis) é mencionado em conexão ao apóstolo Bartolomeu (Viris Illustribus 36:2), assim como a tradição de que aquele apóstolo pregou na India, e levou aquele país o Evangelho de Mateus  [4]. Se Edwards estiver correto, independente da autoria de Hipolito, estabeleceria uma datação entre o inicio do século III (quando Hipólito viveu) e o final do século IV (quando Jerônimo escreve). Em todo caso, "os doze apóstolos"   já é comumente datado nos séculos III e IV [5]. Desta forma, o tratado é forte evidência de que a crença na execução de Filipe em Hierápolis, bem como seu sepultamento já estava estabelecida no século IV ou antes.
  
Eusébio de Cesaréia (século IV): Eusébio Pamphili (263-339 DC), Bispo de Cesaréia, foi imortalizado pelos livros que escreveu, a biografia do Imperador Constantino "Vita Constatine", suas Crônicas (Historia Universal), bem como textos de conteudo apologético, como "Contra Hierocles", "Preparação Evangélica" e "Teofânia".



Mas, sem dúvida, seu mais relevante escrito é a História Eclesiastica, ou História da Igreja, e conta a história do cristianismo de seu surgimento até o ano 305. Seu trabalho teve repercussão monumental nas gerações seguintes, tendo sido traduzido já na Antiguidade para o Latim por Rufino de Aquiléia, que também extendeu o texto até a morte de Teodósio I (395 DC).  A obra de Eusébio foi também continuada por outras Histórias da Igreja, como a de  Socrátes de Constantinopla (ou Socrates Escolástico), que cobriu o período de 305 ao ano 439 DC, e a de Salminius Sozomenus (Sozomen), referente aos anos de 312 a 425 DC. Estes por sua vez, tiveram sucessores em narrativas locais como a Historia ecclesiastica gentis Anglorum, escrita pelo Venerável Beda no ano 731, para o cristianismo nas ilhas britânicas, ou a História Eclesiástica de Evagrio Escolástico, para o Império Bizantino, no período do Concílio de Éfeso (431 DC) até o ano 593.

Entre os aspectos mais importantes do trabalho de Eusébio, está a citação e referência a muitos outros documentos cristãos que não chegaram até nós, e que só são conhecidos por que ele os mencionou, dentre os quais algumas das fontes para Filipe e suas filhas.

No entanto, por não termos acesso direto a essas fontes, mas apenas as citações de Eusébio, cabe fazer algumas considerações sobre a confiabilidade e vieses do Bispo de Cesáreia. Como observa, Alice Whealey, alguns críticos chegaram a acusar Eusébio de fabricar uma história falsificada e  forjar documentos e editos imperiais [6], acusação que se demonstrou prejudicada quando uma cópia de um documento transcrito na "Vida de Constantino" II:24-42 foi encontrada em um papiro egípcio do início do século IV, assim como a autenticidade de um documento oficial citado por Eusébio em História Eclesiástica IX: 7:3-14 foi provada por uma inscrição contemporânea encontrada na Ásia Menor [6]. Como observa a Professora Averil Cameron, da Universidade de Oxford, em sua tradução da Vida de Constantino (VC) [7]:


"While interpreters from Burckhardt onwards who denied that Constantine was a religious Christian regarded many of the documents as inauthentic, it is now more usual to accept the letters as mostly or entirely genuine (Baynes, Lietzmann, Jones, Barnes). (...) Finally, the authenticity of one of the most hotly contested documents, the letter at II. 24-42, has been remarkably confirmed by the discovery of part of the text in an official papyrus contemporary with or earlier than the writing of the VC"                     (traduçãoAinda que desde Burckhardt, estudiosos tenham negado que Constantino era um cristão fervoroso, e considerado muitos dos documentos como falsificados, hoje é mais comum aceitar as cartas como basicamente ou inteiramente genuinas (Baynes, Lietzmann, Jones, Barnes). (...) Finalmente, a autenticidade de um dos documentos mais intensamente contestados foi demostrada de forma dramatica na descoberta de partes do texto em um papiro oficial datado anteriormente ou da mesma época da VC.    [7]

Assim, caros leitores do adcummulus, a prova incontestável da autenticidade de um dos documentos  mais polêmicos citados por Eusébio em relação a Constantino deve nos prevenir quanto a acusações encontradas em alguns estudiosos mais antigos e na internet de que Eusébio era um falsário sem escrúpulos. Tal abordagem está claramente "fora de moda". No entanto, Eusébio tem vieses, é seletivo, e seus intenções são claras, e, portanto, seu trabalho deve ser lido com espírito crítico. Como afirma o Professor Timothy D Barnes, da Universidade de Edinburgo, História Ecesiástica será sempre uma fonte indispensável para historiadores do cristianismo primitivo e do Império Romano, no entanto suas limitações e interesses como autor também devem ser considerados [8]. Barnes observa que, quando possível, a comparação de Historia com os documentos e autores citados revela graves deficiências, Eusébio frequentemente parafraseia, reescreve, omite, expande, altera a ênfase do original, relata incorretamente ao parafrasear de memória [8]. Em suma, pode não ser prudente aceitar Eusêbio como relatando precisamente o teor de uma fonte perdida, "existe o perigo, assim, de que o evidente cuidado e honestidade de sua erudição sejam assumidos como garantia da acurácia de seus resultados"[8].


Desta forma, talvez seja prudente aplicar para Eusébio um princípio, assemelhado ao critério do constrangimento, utilizado pelo Professor Martin Goodman, de Oxford, para as obras de Flávio Josefo: "Aceitar as avaliações frequentemente tendenciosas de Josefo sobre os motivos e caráter dos judeus e romanos cujas ações são descritas em sua narrativa seria imprudente, mas aceitar os detalhes de sua narrativa, particularmente quando eles contradizem sua própria explicação dos eventos, e assim foram incorporados a seu relato simplesmente porque realmente aconteceram, é razoavel [9]". Trocando Josefo por Eusébio, adaptamos um excelente princípio de trabalho.



Proclus e Caio (Início do III Século) citados por Eusébio: Caio, presbitero da Igreja Roma, escreveu uma refutação da heresia montanista, dirigida a um certo Proclus, que era um de seus líderes. O texto tem o título "Diálogo ou Disputa contra Proclus", e foi escrito quando Zeferino era Bispo de Roma (199-217 DC). Eusébio introduz o Diálogo da seguinte forma:

Isto [o mártirio de Pedro e Paulo em Roma] é confirmado por Caio, um membro da Igreja, nos tempos de Zeferino, Bispo de Roma. Ele, ao publicar uma disputa com Proclus, o líder da heresia frígia, afirma o seguinte em relação aos lugares em corpos dos santos apóstolos já referidos descansam:

7. “Posso mostrar-te os troféus dos apóstolos [Pedro e Paulo]. Se quiseres dirigir-te ao Vaticano ou à Via de Óstia, encontrarás os troféus daqueles que fundaram esta Igreja". (HE II:25]
Caio utiliza a tradição, já consolidada no século II (e provavelmente correta),  de que Pedro e Paulo pregaram em Roma e foram martirizados lá, para fundamentar sua autoridade e correção de ensino.


Eusébio. porém, relata que Proclus também reinvindicava o aúxilio dos apóstolos:
(...)E, nos Diálogos de Caio que mencionamos pouco acima, Proclus, contra quem ele direcionou seu argumento, em concordância do que já citamos, assim fala no que concerne a morte de Filipe e suas filhas: Após isso, haviam quatro profetizas, as filhas de Filipe, em Hierapólis da Asia. Seus sepulcros estão lá, assim como o de seu Pai [HE III:28]

Por volta de 170 DC,  em Ardabau, na Frígia,  um ex-sacerdote pagão recem convertido a fé cristã, chamado Montano, e as profetizas  Maximila e Priscila, iniciaram um movimento  chamado "Nova Profecia",  ou Montanismo, que enfatizam a renovação da fé cristã por meio de revelações recebidas do Espirito Santo, bem como por práticas como ascetismo, celibato, penitência e martírio, além de crerem na iminente vinda do Reino dos Céus, com estabelecimento da Nova Jerusalém na cidade de Pepuza, também na Frigia [8]. Em pouco tempo, o montanismo se espalhou por toda Frígia e Asia Menor, chegando a Roma, Cartago, Alexandria e todo o Império. Um dos grandes desafios trazidos pelo Montanismo, foi como  reagir a ele. 

O Montanismo não implicava em questionamento dos principios fundamentais do cristianismo, e seu rigor e fervor atraiam a muitos. Logo, conseguiram um aliado de peso, Tertuliano de Cartago. Em sua obra, Contra Praxeas, Tertuliano elogia o Bispo de Roma por ter reconhecido os dons proféticos de Montano, Priscila e Maximila, e até mesmo enviado saudações as igrejas da Asia e Frígia, lamentando, porém, que, sob supostas falsas acusações, a sé romana tenha mudado de idéia (Tertuliano, Contra Praxeas, capitulo 10). A grande popularidade do movimento montanistas entre os cristãos na Frígia e Asia Menor, e em cidades como Hierápolis, é atestada por um razoável número de inscrições dos séculos III ao V [10]. Embora o Montanismo tenha sido condenado como herético pela Igreja, perdurou até o século VI, pelo menos.     

A Tumba de Filipe e suas filhas profetizas em Hierápolis, fortalecia as pretensões montanistas. Como observa William Tabernee, os sepulcros de tão veneráveis figuras naquele centro montanista foram utilizados para reinvidicar uma "linhagem profética" em que os profetas montanistas são sucessores das filhas  de Filipe, e do próprio apóstolo, legitimando o movimento. Resta a Caio apelar aos sepulcros de Pedro e Paulo em Roma, em um movimento "os nossos troféus são melhores do que o seu", como ironiza Tabernee [10]. Mesmo assim, os montanistas ainda podiam reinvindicar suporte da doutrina de sucessão apostólica, muito cara aos proto-ortodoxos. O fato de não haver contestação da presença do apóstolo e de suas filhas em Hierápolis, que fortalecia os montanistas em uma época em que ainda eram uma ameaça, indica que tanto Eusébio, quanto Caio, e o restante da Igreja, reconhecia o local como sepuclo de Filipe e sua família desde, pelo menos, o final do sec. II.


Filipe Apóstolo, Icône da Russia Central, sec. XIX, Wikipedia 

Policrates de Éfeso (final do século II):
Por  volta do ano 196 DC, o Bispo Policrates de Eféso, liderando um sínodo de bispos da Asia Menor e adjacências escreveu uma carta ao Bispo de Roma, Vitor, em uma controvérsia sobre a data em que devia ser observada a Páscoa. Na Asia, o costume era observar o 14° dia do mês de Nisã (dai, quartodecimianismo), retendo a tradição judaica, implicando que a Pascoa não teria um dia da semana fixo. Em Roma, porém, a Páscoa era celebrada sempre no domingo, uma vez que este fora o dia em que Jesus ressuscitou. A discussão foi ferrenha e quase levou a um cisma,e só foi resolvida no Concílio de Nicéia. A intensidade da disputa é evidenciada pela carta de Policrates.

  Nós observamos o dia exato, sem adicionar ou retirar. Pois na Asia grandes luminares descansam, e que ressuscitaram no dia do Senhor, quando  vier de sua glória no Céu para buscar os seus santos. Entre eles esta Filipe, um dos doze apóstolos, que descansa em Hierápolis, e duas de suas filhas  virgens e idosas, e outra filha, que viveu no Espírito Santo e que agora repousa em Éfeso.; e, mais ainda, João, que foi testemunha e mestre, e que se reclinou no peito do Senhor, e, sendo sacerdote, vestiu o manto. Ele repousa em Efeso. E Policarpo de Esmirna, bispo e martir; e Traséas, bispo e mártir de Eumênia, que dorme no Senhor em Esmirna. Porque deveria mencionar o Bispo Sagaris, que repousa em Laodicéia, ou abençoado Papirio, ou Melito de Sardes, que também viviam no Santo Espírito, e que repousam em Sardes, esperando o episcopado celestial, quando se levantarão dos mortos? Todos eles observaram a páscoa no décimo quarto dia conforme o evangelho, sem desviar em nada, mas seguindo a fé. E eu também, Policrates, o menor de todos, faço segundo a tradição que recebi de meus parentes, alguns dos quais alguns dos quais eu segui muito de perto. Pois sete deles foram bispos e eu sou o oitavo. E meus parentes sempre observaram o dia que as pessoas separavam o fermento. Eu, portanto, irmãos, que vivi sessenta e cinco anos no Senhor e encontrei com irmãos em todo o mundo, e que já li todas as escrituras, não me assusto facilmente com palavras terríveis. Pois os que são maiores que eu disseram 'Nós devemos obedecer a Deus ao invés dos homens...' Eu poderia mencionar bispos que estavam presentes, que eu mesmo convoquei a seu pedido, cujos nomes eu deveria escrever e que certamente seriam uma multidão. E eles, admirando minha pequeneza, consentiram com esta carta, sabendo que eu não porto esses cabelos brancos em vão e sempre governei minha vida pelo Senhor Jesus.
A controvérsia quartodeciminianista teve um caráter diferenciado de outras a qual a Igreja estava acostumada por se tratar de uma divergência em que ambos os lados contavam com excelentes credenciais do ponto de vista proto-ortodoxo. 

Como observa o Professor Michel Ives Perrin, da Universidade de Rouen (França), a estrutura episcopal e a crença na sucessão apóstolica logo se tornaram elementos basilares na identidade da Igreja nascente:


"(...)Essa nova constituição episcopal permitiu dar uma visibilidade maior ao caráter apostólico que as comunidades da "Grande Igreja" reinvindicavam (tanto quanto seus adversários, alías). De fato, desde Paulo, e de maneira cada vez mais acentuada no correr das décadas, a investidura apostólica direta ou indireta, aparece como requisito sine quae non de toda a autoridade das igrejas.
Perrin, discorre sobre o desenvolvimento da doutrina da sucessão apóstolica, ao longo do século II
Na virada do século I, a Carta da Igreja de Roma á Igreja de Corinto (42:1-4 e 44:2) orquestra todos os harmônicos desse tema "Os apóstolos receberam por nós a Boa Nova pelo Senhor Jesus Cristo: Jesus, o Cristo, foi enviado por Deus. Logo, Cristo vêm de Deus, os Apóstolos vêm de Cristo: as duas coisas saíram em boa ordem da vontade de Deus. Eles receberam instruções e, cheios de certeza pela ressureição de Nosso Senhor, fortalecidos pela Palavra de Deus, com a plena certeza do Espírito santo, partiram para anunciar a boa nova do Reino de Deus iria vir [...] tendo recebido um conhecido perfeito do futuro, eles instituiram [bispos e diáconos] e estabeleceram então como regra que, depois da morte desses últimos, outros homens provados os sucederiam em seu ofício". Os bispos da "Grande Igreja" reinvindicavam ser depositários e interpretes legitimos e exclusivos, ante todos os dissidentes, dessa tradição confiada aos apóstolos e seus sucessores: desde o terceiro quartel do século II "sucessões de verdade" são elaboradas por Roma e Corinto e opostos as "sucessões do erro dos mestres gnósticos. È assim que nascem as listas episcopais , que projetam de modo anacrônico, no passado mais remoto das comunidades, a organização monoespiscopal . Na virada do século II, Tertuliano pode exclamar: "Mostrem as origens das suas Igrejas, exibam a séris de seus ispos, sucedendo-se desde a origem, de tal modo que o primeiro bispo tenha como avalista e predecessor um dos apóstolos ou um dos homens apostólicos que ficaram até o fim em comunhão com os apóstolos. Porque assim que as igrejas apostólicas apresentam seus frutos (das Prescrições dos Heréticos, 36:1). A ausência de uma estrutura episcopal dos grupos dissidentes podia constituir desse ponto de vista uma fraqueza nas controvérsias entre os cristãos. [ 11]

 Levando, em conta as considerações de Perrin, e a carta do Bispo  Policrates, podemos ter idéia da seriedade da crise causada pela controvérsia. Em Éfeso, o apóstolo Paulo pregara, e João, o díscipulo amado, havia passado seus últimos dias. Obviamente, advertimos os leitores do adcummulus de que as igrejas tendiam a ser "muito criativas" com as tradições relativas  aos apóstolos e seus associados, para fundamentar reinvindicações de autoridade. Por outro lado, existem indicações de que pelo menos alguns apóstolos empreenderam ampla atividade missionária, em inúmeras localidades, como atestado em escritos da segunda metade do século I,  como as cartas paulinas e os Atos dos Apóstolos, então tais reinvindicações, quando tem o suporte das fontes mais antigas e atestadas em múltiplas fontes, devem ser analisadas com seriedade.

Assim, Policrates, de Éfeso, menciona várias figuras, como Policarpo de Esmirna e Melito de Sardes, que assim como o apóstolo João são atestadas em outras fontes muito antigas como vinculados a Asia Menor [12], o que dá certa credibilidade a suas afirmações. Policrates é cuidadoso também em afirmar que Filipe, e duas de suas filhas, tinham sido sepultados em Hierapólis. Concordando, nesse ponto, com o que sabemos através do herege Proclus. Ele acrescenta, porém, que outra filha de Filipe morreu em Éfeso.  Uma vez que parte da família estava em Éfeso, ele poderia ter dito que o apóstolo também, se houvesse a intenção de iludir.

Eusébio relata que Roma respondeu de forma agressiva. O Bispo Vitor determinou a excomunhão de Policrates, dos demais bispos da Ásia, e de suas congregações. A decisão caiu como uma bomba no seio da Igreja. Muitos bispos pediram a Vitor que reconsiderasse, e outros o repreenderam violentamente. Até mesmo Irineu de Lion teve que fazer uma intervenção, que foi decisiva [13]. Eusébio acrescenta que a crise amainou com o restabelecimento das relações entre as igrejas da Ásia e de Roma, e também com atuação dos Bispos de Tiro e Ptolemaica, que escreveram um tratado sobre a observância da páscoa, que concordava com sínodos anteriores realizados na Palestina (sob a presidência dos bispos de Jerusalém e Cesaréia), em Roma, (liderado pelo Bispo Vitor), Ponto (presidido pelo bispo mais antigo daquela região, de nome Palmas), Gália (sob o comando de Irineu), e Edessa (Osroene), bem como uma carta pessoal do Bispo de Corinto, todas elas discordantes da posição dos bispos da Asia [13].

O quadro relatado por Eusébio é edificante. No entanto, há razões para duvidar de que a controvérsia se resolveu de forma tão tranquila. Em "Vida de Constantino", Eusébio relata que a questão ainda  foi discutida, e resolvida, no Concílio de Nicéia, realizado quase 150 anos depois, em 325 DC [14]. De tudo isso, uma interpretação que consideramos plausível é que o costume da Asia Menor era realmente minoritário, e que Vitor utilizou o fato de ser parte da visão majoritária, para "enquadrar" os bispos da Asia, e aumentar sua autoridade. Infelizmente, para Roma, o tiro saiu pela culatra, e seriam necessários mais de 100 anos para a questão ser resolvida. Talvez tenha faltado a Vitor a habilidade  e sensibilidade de seu predecessor Aniceto (150-161 DC), que recebendo o bispo Policarpo de Esmirna, manteve um debate firme, mas não tendo nenhum dos lados convencido o outro, evitaram fomentar controvérsias. Aniceto, inclusive, pediu que Policarpo celebrasse a Eucaristia durante a sua visita [15].

A controvérsia da Páscoa foi constrangedora para Eusébio e outros cronistas, principalmente pela dificuldade em explica-la em vista da Doutrina da Sucessão Apostólica. Como alguém que teria sido ouvinte do Apóstolo João, como Policarpo, poderia discordar de algo como a data da páscoa do Bispo Aniceto, que reinvindicava a sucessão de Pedro e Paulo? Outra História Eclesiastica, a de Sozomen, discutindo a mesma questão, afirma que, já que não era possível chegar a um acordo, o melhor era manter a unidade e  os costumes recebidos dos apóstolos por cada Igreja [15]. A única forma de resolver tal constrangimento seria negar as tradições, o que não parece possível para esses autores antigos. Alguém como Policrates, pode reinvindicar a presença dos túmulos de João em seu "quintal", assim como o de Filipe e suas filhas, na vizinha Hierápolis, e isso parece ser incontroverso. O montanista Proclus pode reinvidicar a autoridade de Filipe e suas filhas, e seu oponente ortodoxo não contesta o fato.

Desta forma, a existência de uma de Tumba de Filipe e suas filhas era um fato estabelecido no final do século II, e provavelmente bem antes, em face do testemunho de Policrates (já com 65 anos e oitavo em sua família a ser bispo). Além disso, como observam tanto pelo Professor Martin Hengel, da Universidade de Tubingen [16] como Dennis MacDonald, da Claremont School of Theology [17], o fato de uma das filhas de Filipe viver em Éfeso, indica que era casada, ao contrário de suas duas irmãs de Hierapólis.  Como observa o Professor MacDonald, Clemente de Alexandria (150 - 215 DC) recorda a tradição que pelo menos duas das irmãs eram casadas pois "(...) Pedro e Filipe tiveram filhos, e Filipe deu suas filhas em casamento" (Stromata. Livro 3, VI, §52), o que pode ser reconciliado com Policrates e com Atos dos Apóstolos, já que Filipe tinha quatro filhas, das quais duas morreram solteiras, e foram sepultadas com o pai, indicando que as outras duas eram casadas, uma das quais foi sepultada em Éfeso [17]. MacDonald observa também que esses testemunhos sobre as filhas de Filipe, embora sejam discordantes em alguns pontos, concordam entre si que elas foram viver na Ásia, em Hierápolis e Efeso em particular, e que pelo menos duas não se casaram [17]. Essas fontes indicam também (quando não afirmam diretamente) que Filipe em questão era um dos doze [17]

Papias de Hierápolis (100-135 DC):

Martirium de Hierápolis, imagem via wikipedia
       Papias, era o bispo da cidade de Hierápolis, e segundo Irineu de Lion, foi amigo de Policarpo de Esmirna e díscipulo de João [18]. No ínicio do seculo II, em algum momento entre os reinados de Trajano (98-117 DC) e Adriano (117-138 DC), ele escreveu um livro chamado "Exposição dos Oráculos do Senhor", composto em cinco volumes. A obra de Papias não sobreviveu, mas temos acesso a alguns fragmentos, citados em autores posteriores como o próprio Irineu, Eusébio de Cesaréia, Jerônimo, Apolinário de Laodicéia, e Filipe de Side. Uma coleção desses fragmentos pode ser consultada no excelente site Text Excavation, de Ben C. Smith.

"Essas coisas Papias, o díscipulo de João, que foi companheiro de Policarpo, um homem dos tempos antigos, testificou ao ter escrito o quarto de seus livros, pois cinco livros foram escritos por ele" [19]


"Não hesitarei em acrescentar às minhas explicações aquilo que outrora ouvi muito bem dos presbíteros, cuja lembrança guardei muito bem, estando seguro de sua verdade. Realmente, não me comprazia - como faz a maioria - com os que falam muito, mas com os que ensinam a verdade. Também não me comprazia com os que recordam mandamentos alheios, mas com os que recordam os mandamentos dados pelos Senhor à fé, nascidos da própria verdade. Se, por acaso, acontecia de chegar algum dos que tinham seguido os presbíteros, eu me informava sobre a palavra dos presbíteros, isto é, o que tinham dito André, Pedro, Filipe, Tomé, Tiago, João, Mateus ou outro discípulo do Senhor. E também o que falam Aristão e João, o presbítero, discípulos do Senhor. Eu não achava que as coisas conhecidas pelos livros pudessem me auxiliar tanto quanto as coisas ouvidas através da palavra viva e permanente" [19]

A preferência pela tradição oral, pela "palavra viva e permanente" remete a um tempo intermediário, ligando a era dos apóstolos e seus associados diretos (alguns dos quais podem ter vivido até o final do século I), com os pais da igreja e apologistas, como Irineu, Melito de Sardes e Justino, que se tornam proeminentes em meados do século II. Uma ligação com o tempo apostólico, que tanto Papias, quanto Policarpo, tinham em comum, é que teriam sido ouvintes de João, o Presbítero. Desde a antiguidade se discute se essa figura era o Apóstolo João (que, nesse caso, teria  vivido até os 90 anos, e morrido em Éfeso por volta do ano 100), ou um outro João, o Ancião (que seria o autor das cartas de 2ª e 3ª João, no Novo Testamento).  Tanto Eusébio, como Jerônimo, observam o fato de que duas tumbas dedicadas a João existiam em Éfeso, a qual alguns diziam ser uma de João, o Presbitero, outra do Apóstolo, e outros que ambas eram do Apóstolo, ainda que Eusébio, relate também "que Irineu e vários outros afirmam que João, Téologo e Apóstolo, viveu até os tempos de Trajano" [20].

O outro link com os tempos apostólicos é justamente a relação de Papias com Filipe e suas filhas. Eusébio relata:


Que Filipe o Apóstolo habitou em Hierápolis com suas filhas, já foi dito. Mas deve ser observado que Papias, afirma ter ouvido uma estória maravilhosa das filhas de Filipe. Porque ele relata que em seu tempo alguém ressuscitou dos mortos, e contra outra estória sensacional, a respeito de Justo, chamado Barsabas, que bebeu uma poção venonosa, e pela graça de Deus, nada sofreu.  [21]
  A mesmo episódio é de conhecimento de Filipe de Side (que escreve entre 434-439 DC):

"O já mencionado Papias afirma baseado na autoridade das filhas de Filipe, que Barsabas, que é chamado Justo, quando desafiado por descrentes, bebeu o veneno de uma serpente em nome do Senhor, e foi protegido de todo o mal. Ele afirma ainda outras coisas maravilhosas, em particular que a mãe de Manaim foi ressuscitada dos mortos. Para aqueles que foram ressucitados por Cristo, [ele afirma], que sobreviveram até o tempo de Adriano"[22]
O fragmento nos coloca diante uma narrativa pitoresca, fantástica.  Devemos observar, que Eusébio, apesar de citar Papias com certa frenquência em seus escritos, não é simpático ao velho Bispo.  Eusébio cita parábolas e ensinos estranhos do Senhor mencionados por Papias (como o relato de Justo Barsabás), e  parece profundamente incomodado com a crença do Pré-Milenarismo, principalmente porque, segundo Eusébio, a posição favorável do velho bispo influenciou decisivamente Irineu e vários outros pais da Igreja. Eusébio afirma que a crença de que o Reino do Senhor se materializaria na terra se devia auma compreensão equivocada do ensino apostólico, tomando literalmente coisas que eram simbólicas. Eusébio, imediatamente depois, afirma que Papias parece ter sido uma pessoa com capacidade intelectual limitada (Historia Eclesiastica, 3:39.

O leitor pode ter desses relatos de Papias, por razões diversas, uma impressão semelhante a de Eusébio. Principalmente em face dessas narrativas pitorescas. Nesse caso, o que poderíamos aproveitar?

Pelo caráter dos escritos de Papias, ele prefere o relato oral de pessoas que conheceram os apóstolos, do que as coisas que estavam escritas nos livros. Desta forma, podemos inferir que Papias recebeu o relato das filhas de Filipe pessoalmente, o que é consistente com o fato de que teriam vivido nas redondezas, possivelmente na própria Hierápolis. O relato pode até ter sido inventado por Papias, mas se ele utilizou a autoridade delas, para a invenção ser crível, deveriam haver filhas de Filipe vivendo nas proximidades de Hierápolis, o que é consistente com os testemunhos posteriores.

Devemos, antes, observar que a afirmação de que os ressuscitados em Cristo viveram até o tempo de Trajano" é associada por Eusébio ao apologista Quadrado de Atenas, então pode muito bem ser que Filipe de Side tenha atribuido a Papias uma afirmação de Quadrado. Temos ainda que trazer aos leitores do adcummulus, as observações do Professor Dennis MacDonald:

"Ancients were aware that snake venom was harmless when ingested; in fact, people were known to have drunk venom for medicinal purposes. it would appear that Eusebius, aware of the fact, altered Papias's account to read instead "a fatal poison" " (TraduçãoOs antigos estavam a par que veneno de serpente era inofensivo quando apenas ingerido. Na verdade, alguns foram conhecidos por beber veneno com propósitos medicinais. Parece que Eusébio, ciente desse fato, alterou o relato de Papias para uma "poção fatal"[23]
O episódio, como resumido por Filipe de Side, é que Justo bebeu veneno de cobra, e que teria sido após ter sido desafiado, o que soa um tanto imprudente (Justo não bebeu veneno por causa de uma execução, como Sócrates, ou por envenenamento a traição, como Buda). Esses elementos tornam sua versão mais crível, refletindo melhor o que Papias teria escrito.

Em relação ao ingestão de veneno por Justo, observa o Professor Steve A Johnson, do Departamento de Ecologia da Vida Selvagem e Conservação da Universidade da Flórida,

Venoms are generally not toxic if swallowed, and must be injected under the skin (by snakes, spiders, etc.) into the tissues that are normally protected by skin in order to be toxic. However, we do NOT recommend drinking venom! (Tradução) Venenos, geralmente, não são tóxicos se engolidos, e devem ser injetados subcutâneamente (por cobras, aranhas, etc...), em tecidos normalmente protegidos pela pele para terem efeito tóxico. Entretanto, nos NÃO RECOMENDAMOS beber veneno![24]
Esse é um exemplo, como já comentado aqui, de casos em que muitos episódios considerados como milagres não excluem uma explicação científica. Que Justo Barsabas tomou veveno em uma disputa com incrédulos, e nada lhe aconteceu, pode ou não ter acontecido, mas, como visto acima, a versão de Filipe de Side da narrativa escrita por Papias soa bastante plausível.

Do exposto, podemos concluir que a presença de Filipe e suas filhas em Hierápolis segue um padrão e uma linha de testemunhos bastante consistente, sendo provável que tenham sido sepultados lá.
Referências Bibliográficas
[1] François Bovon, "Women Priestesses in the Apocryphal Acts of Phillip" In Francois Bovon, Glenn E. Snyder (2009) New Testament and Christian apocrypha: collected studies II, fls. 246-247
[2] James McGrath (2008) History and Fiction in the Acts of Thomas: The State of the Question Journal for the Study of the Pseudepigrapha June 2008 17: 297-311.
[3] William Tabernee ( ) "Montanist inscriptions and Testimonia, fl. 53
[4]  James R Edward (2009) The Hebrew Gospel and the Development of the Synoptic Tradition, fls 15-16
[5] Dalle C Allison (1992) Peter and Cephas, One and the Same, Journal of Biblical Literature, Vol. 111, No. 3 (Autumn, 1992), pp. 489 citando Bart Erhman.
[6] Alice Whealey (2005), "Josephus, Eusebius the Ceasarea, and the Testimonium Flavianum" in Christfried Bottrich, Jens Herzer, Torsten Reiprich eds. (2007), Josephus und das neue Testament, Wechselseitige Wahrnehmungen II, fls. 106.
[7] Averill Cameron & Stuart G Hall (1999) Eusebius Life of Constantine, Translation with Introduction and Commentary, Introduction, fls 16-19.
[8] Martin Goodman (2007), Rome and Jerusalem: The Clash of Ancient Civilizations, fl. 6
[9] Timothy D Barnes (198 ) Constantine and Eusebius fls.140-141
[10] G.W Boversock, Peter Robert Lamont Brown, Oleg Grabar (2000) Late Antiquity: A Guide to the Postclassical World Montanists, fl. 189
[11] Tabbernee, William, 2007 Fake Prophecy and Polluted Sacraments: Ecclesiastical and Imperial Reactions to Montanism,  fls. 139/140
[12] Michel Yves Perrin (2009) Edificar Estruturas Cristãs: Estruturar as Igrejas In Alain Corbin, Nicole Lemaitre, Françoise Telaimon e Catherine Vincent (2009) História do Cristianismo, fls. 78-79
[13] Eusébio, História Eclesiastica, Livro V, Capítulo 24,
[14] Eusébio, Vida de Constantino, Livro III, Capítulo 18
[15] Eusébio, História Eclesiastica, Livro V, capítulo 24, versos 16 e 17 e Sozomen, História Eclesiástica, Livro VII, caiptulo 19
[16] Martin Hengel & Thomas Trapp (2010) Saint Peter: The Underestimated Apostle, fl.119
[17] Dennis MacDonald (2012):  Two Shipwrecked Gospels: The Logoi of Jesus and Papias’s Exposition of Logia about the Lord, fl. 40.
[18] São Irineu de Lion, Contra as Heresias, 5:33-34
[19] Eusébio de Cesaréia, História Eclesiástica Livro 3, Capítulo 39, tradução de Ivo Storniolo e Euclides M. Balancin, em Coleção Patrística nº 1,  Padres Apostólicos: Clemente Romano, Inácio de Antioquia, Policarpo de Esmirna, Pastor de Hermas, Carta de Barnabé, Papias e Didaque, Paulus, 1995
[20] Jerônimo, Dos Homens Ilustres, Capitulo 18; Eusébio, Crônicas, 220ª Olimpíada/Ano 100[21] Eusébio de Cesaréia, História Eclesiastica, Livro 3, Capítulo 39
[22]
[23]Dennis MacDonald (2012): Two Shipwrecked Gospels: The Logoi of Jesus and Papias’s Exposition of Logia about the Lord, fl. 40.
[24] Steve A Johnson (2012) Frequently Asked Questions about Venenous Snakes, questão: If you drink venom, will it kill you  http://ufwildlife.ifas.ufl.edu/venomous_snake_faqs.shtml. última modificação, maio de 2012. Acessado em 23.11.2012

 



Leia Também

  • Carregando sugestões...

Pesquisar este blog