Estudos sobre Religião - Biblioblog

domingo, 8 de agosto de 2010




Em maio do ano passado, eu fiz questão de postar algumas belas imagens da iconografia cristã registrada nas cavernas da Capadócia. As fotos foram registradas pela minha amiga e artista plástica Marta Zelinska.

Hoje, resolvi postar um belíssimo trabalho em forma de ícone bizantino desenvolvido pelo meu amigo carioca Wanyr Junior. O Wanyr possui um grande interesse por religiosidade em geral, reproduzindo e transcriando variadas tradições religiosas a partir de uma perspectiva multicultural e sincrética. De acordo com ele "Este icone do ressucitado é uma releitura moderna, estando correto do ponto de vista evangelico, no entanto. A palavra grega Nika significa vitória e é tambem ligada à resureição. Neste ícone, Cristo tem as mãos abertas como num livro e esta mostrando suas chagas, ja que o evangelho é a boa nova da ressureição."

Quando lhe perguntei sobre as motivações ao fazer essa obra, Wanyr me respondeu a partir de uma postura que busca ao mesmo tempo inovar, se mantendo fiel à ortodoxia iconográfica. Seu projeto foi o de elaborar um ícone da ressurreição, diferente do tradicional Christos Pantokrator (todo-poderoso), normalmente encontrado na tradição ortodoxa. A seu ver, essa tradição retira os sinais do sofrimento crístico. Nessa versão atualizada, a segunda do artista, a mão com dois dedos unidos procura revelar a dupla natureza humana e divina de Jesus e como isto se apresenta na ressureição.

Os trabalhos de Wanyr podem ser encontrados também em sua página do facebook! Confiram!
A mente dos judeus entre os séculos I a.C. e I d.C. estava impregnada com a rememorização de opressões históricas e do sentimento do exílio, pois com as expectativas históricas com o retorno do exílio babilônico e medo-persa, houveram as conquistas e posteriores tiranias helenistas, a revolta e “libertação” macabéia, e novas conquistas e jugos romanos. Houveram diversas formas de reações, não só em atos e levantes, não só em traições, mas em manifestações e forma de viver. Esses fatores foram muito marcantes para a definição de ambientes de vida – definido inteligentemente por Howard Clark Kee: “compreende-se não apenas a sociedade, onde o indivíduo encontra sentido e identidade, nem apenas a cultura, que a sociedade transmite e em cujos termos ela define os seus próprios objetivos, mas também as dimensões cósmicas da existência – aquilo que chamaríamos de mundo natural, sua origem e o poder que o sustenta" [1] – dentre grupos e subgrupos do povo judeu.

Apesar das nuances algumas vezes sutis, e no panorama geral complexas, dentre os grupos sociais, podemos ver dois contrastes nítidos entre dois, os saduceus e os fariseus. Com os primeiros engendrou-se uma postura de convivência cooptada com o império romano, mantendo mais da identidade e apego à tradição do que os herodianos, sem uma colaboração tão acentuada, mas buscando manter o status quo. Com os fariseus engendrou-se uma identidade de resistência, buscando manter também e identidade judaica somada às aspirações redentoras alicerçadas nos vaticínios proféticos, no contraste com o modo de ser greco-romano via o apego à rituais cotidianos, zelo pela Torah, e atendo-se à ideia da ressurreição e vindicação escatológica dos justos por parte de Deus, com o subsequente destrono e subversão da ordem dos dominadores, e uma nova ordem com o Israel purificado e restaurado sendo a luz do mundo [2]. Uma passagem clássica que apresenta tal expressão está no livro de “Sabedoria de Salomão” :
No momento, porém, em que Deus intervir, eles resplandecerão e correrão como centelhas na palha. Julgarão as nações e dominarão os povos, e o Senhor reinará sobre eles para sempre. (3:7-8)
Diante deste quadro, há uma passagem reveladora no evangelho de João, abordando o seu julgamento diante Pilatos (João 18.13-16):

Se o soltares, não estarás agindo como amigo de César! Pois todo aquele que se faz rei declara-se contra César”.

Mal ouviu essas palavras, Pilatos fez conduzir Jesus para fora e o instalou em uma tribuna, no lugar chamado Lithóstroton – em hebraico Gábata [ que quer dizer 'pavimento de pedra', nota nossa]. Era o dia da preparação da páscoa, por volta da sexta hora [ou meio-dia]. Pilatos disse aos Judeus: “eis o vosso rei!” Mas eles se puseram a gritar: “À morte! Crucifica-o!” Pilatos replicou: “Devo eu crucificar o vosso rei?”; os sumo-sacerdotes responderam: “nós não temos outro rei, senão César”. Foi então que Pilatos lhes entregou Jesus para ser crucificado.

Tal declaração de lealdade – diante de um prefeito romano em um assento de julgamento [3], que culmina uma progressão ao longo do período maior de audiência de Jesus ante Pilatos em que este se reúne com os líderes religiosos, tendo antes um ponto de pico também em “Pois todo aquele que se faz rei se declara amigo de César”, que então chega ao ponto mais alto do vs. 15., está sob um pano de fundo de um vasto constrangimento religioso. Pode-se retratá-lo com essas passagens, marcantes para aquele contexto, na Bíblia Hebraica:

“Não serei eu vosso soberano, nem meu filho. IWHW seja seu soberano!” -Gideão em Jz:8.3
IWHW disse a Samuel: Escuta a voz do povo em tudo aquilo que te pedem. Não é a ti que rejeitam, mas a mim. Não querem mais que eu reine sobre eles”. I Sm:8.7
“Dai a Deus a força. Sua majestade está sobre Israel, sua força está nas nuvens”. Sl:68.35
“Senhor, nosso Deus, outros senhores além de Ti dominaram sobre nós, mas é unicamente o Teu nome que repetimos”. Is: 26.13
“A oração foi a seguinte: 'Senhor, Senhor Deus, Criador de todas as coisas, terrível e forte, justo e misericordioso, o único Rei, o único bom,' (...)” II Mb:1.24

Essa concessão então ante a Roma dificultaria ao máximo conceber que os fariseus participaram-na, ou mesmo aprovaram-na. Sim, pessoas são complexas, e no dia a dia aparecem situações com reações inesperadas ao máximo; ainda mais em momentos igualmente complexos. Por isso em tal campo de estudo é comum encontrarmos, nos acadêmicos mais ponderados e prudentes, expressões como “sugere”, “provavelmente”, “possivelmente”, retratando o respeito com o que em estatística é chamado “margem de erro”. Mas se falando de um grupo identitário, temos base o suficiente para concluir, com bom grau de proximidade, que muito dificilmente os fariseus tomaram parte no apelo para a morte de Jesus na audiência com Roma. O evangelista coloca “os Sumo-sacerdotes” ao se referir àqueles que pediam a morte argumentando pela probidade para com César; isso incluiria o Sumo-sacerdote, o círculo mais íntimo, seguidores próximos, membros do Sinédrio, e aqueles que acompanhavam seu coro. Não incluiria então os fariseus, ainda que muitos deles pudessem estar presentes ou assistindo. Não engrossaram o coro, ou não respaldaram, e justamente neste momento alguns poderia até em seu íntimo estarem se opondo; na segunda mais importante oração nacional, após o Shemah, a Shemoneh Esreh, a benção 11 aclama a Deus “que sejas o nosso Rei, somente Tu”. Ao consentirem, estariam capitulando ante o partido de seus maiores confrontadores, publicamente, ante a judeus residentes em Jerusalém, ante judeus e prosélitos imigrantes da diáspora, ante autoridades e militares romanos.

Somando ao já abordado brilhantemente pelo companheiro Nehemias quanto à relação fariseus/cristãos, estereotipada de maneira tão errônea, além de corrigir erros vulgares, teria profusas implicações sobre a compreensão das origens e emergência do cristianismo, da dinâmica sociocultural dos primeiros cristãos, e para a composição e caráter dos evangelhos.



[1] As origens cristãs em perspectiva sociologica, p. 21
[2] N. T. Wright, Christian Origins and the Question of God, vol. 2: The New Testament and the People of God.  p.189-99.
[3] D.A.Carson, The Gospel According of John, p. 607-608

domingo, 1 de agosto de 2010



Foi ao ar neste último dia 27 de julho um documentário do canal NatGeo (National Geographic). Aparentemente o arqueólogo Robert Cargill, após penetrar o subterrâneo do Santuário do Livro em Jerusalém, conseguiu descobrir alguma nova e talvez descisiva pista sobre a história daqueles que produziram os manuscritos de Qumran. De acordo com a nova proposição, a ortodoxa hipótese de que os textos foram produto da comunidade dos essênios irá cair definitivamente por terra. Mais informações podem ser vistas na matéria do UCLA Today. Podemos encontrar também uma breve descrição do documentário no próprio blog do Dr. Cargill. Mais informações podem ser vistas também no artigo "Biblical Mystery of Dead Sea Scrolls Solved?", publicado pela Fox News. A próxima apresentação do NatGeo será neste dia 3 de agosto. Infelizmente ainda não descobri uma forma de acompanhar tal transmissão online em tempo real. De qualquer forma, vale a pena conferir o que virá pela frente.

Ps. O documentário pode ser encontrado através do sistema torrent. É só procurar por "National Geographic Writing the Dead Sea Scrolls torrent" no google.

sábado, 31 de julho de 2010

Busquemos uma breve aproximação sobre o relato joanino da prisão de Jesus. Devido ao espaço não pretendemos de forma alguma dar uma resposta cabal a controvérsias nem chegar perto de esgotar o tema, mas apenas traçar um panorama.

Primeiramente, como se deu a prisão? Quem prendeu Jesus, segundo o testemunho joanino?

Nessa noite especial, nos tempos das celebrações pascais, Jesus e seus discípulos permaneceram em imediações hierosolimitas, conforme Deuteronômio 16.4-5. Assim, havia um foco de lugar em que os que conspiravam para prendê-lo teriam em mente. Estavam sendo escoltados por Judas. Poderia ser uma cilada? Bem provável...

Passaram pelo Vale do Cedrom, cujo termo literal significa “Cedrom em cheia pelo inverno”[1]; no período que se presume ter acontecido o episódio, março-abril, estaria então raso e fácil de atravessar. Lucas 22.9 sugere que não seria a primeira vez que Jesus e seus discípulos se reuniam lá.

E a tropa destacada?

Há uma grande dificuldade com esta passagem. O Termo que João emprega para “destacamento”, peira, era um termo que comumente se referiria a décima parte de uma legião romana, assim, 600 homens!! Em demais passagens no Novo Testamento, reporta-se a coortes sob o comando de um tribuno – chiliarchos. Ainda que na província romana da Judéia houvessem cinco coortes romanas, como a da famosa fortaleza Antonia, seria plausível o cenário de uma tropa romana deste contingente em uma operação de prisão de um sujeito que até então era desconhecido de Pilatos, e ainda por cima terem levado à casa de Anás – que não era o sumo-sacerdote daquele período, tendo sido deposto por Roma em 15 a.C.???

E como é uma hipótese muito provável que João conheça, de forma independente, tradições antigas relacionadas nos Sinópticos [2], como somente ele destacaria a coorte romana, e nas outras tradições não?

Provavelmente, ele não empregara o termo num sentido “tecnicamente” preciso e unívoco. Poderia de forma mais presumível se remeter a uma guarnição dentre a coorte - que não iria sair totalmente ali para prender um indivíduo num período tão conspícuo e perigoso como aquele da Páscoa – em que advinham tropas de Cesaréia. Seria um "manípulo" – 200 pessoas ou menos. Tanto que os soldados não foram liderados por um Centurião, mas por um funcionário de menor escalão, que pode ser entendido como chefe de um subgrupo da coorte – confira também Jo18.12. Ainda um contingente impressionante.

Marcos comenta que fora uma grande multidão armadas de espadas e varas, enviadas pelos chefes dos sacerdotes e demais lideranças religiosas. Lucas fala somente de chefes dos sacerdotes e da guarda do Templo. Craig Keener apresenta uma discussão aprofundada sobre o termo mostrando que a linguagem geral também fora usada igualmente para unidades judaicas [3].

Realmente teria havido uma queda dos soldados simplesmente ao ouvir Jesus pronunciar uma associação com a auto-revelação divina a Moisés na Sarça Ardente: “Eu Sou” – Êxodo 3.14? Craig Keener também aponta que nessa época, acreditava-se que os feiticeiros usavam a pronúncia do nome divino para disparar conjuras [4]. Dada a busca de imputar ao ministério de milagres de Jesus o agir dos demônios através dele ou sendo mesmo um feiticeiro, um mágico, é altamente sugestivo.

Mas também há outro cenário. O que se apresenta é que Jesus esperava ser entregue, e estava de prontidão. Os soldados ao se depararem com esse inesperado - ele assim, de peito aberto [no relato eles respondem “a Jesus, o Nazoreu” de uma forma que ressalta que eles nunca esperariam uma situação como aquela, mas um ataque de surpresa], então poderiam ter imaginado uma emboscada e uma luta violenta naquele lugar inóspito, por parte de guerrilheiros escondidos, ferozes e armados. O escritor destaca “e Judas estava com eles” não teria sido à toa. Dessa forma, se visualiza melhor a impressão neles de ter sido uma cilada. “Fomos pegos”. De fato, já era em um contexto em que finalizara a missão dos discípulos na qual estavam incubidos de não levar armas, e os relatos mostram que pelo menos um deles (Pedro?) reagira disposta a um combate armado. Possivelmente, o discípulo pode ter aproveitado para conferir uma associação de peso teológico.

A cena de um encontro irregular informal dos líderes religiosos, numa tonalidade de intriga destacada em João, ante a audiência formal que é a que mais parece nos Sinóticos antes do Conselho Judaico, possui uma plausibilidade maior [5]. Não seria uma audição central tal qual diante do conselho presidido pelo verdadeiro sumo-sacerdote daquele ano, Caifás, mais à frente mencionado em João. O termo “primeiramente”, no versículo 13, dá a entender que o escritor trata de um quadro maior em que mais audiências viriam. Se encaixa com o pano de fundo mais ampliado, com a trama política envolvendo o poder no Templo. Cinco dos filhos de Anás foram sumo sacerdotes, a despeito da deposição, e Caifás, seu genro, o fora nomeado por peso de seu poder e influência, sob seu auspício[6]. E muitas vezes Anás exercia o poder de fato. Nada excepcional ser referido e tratado ainda então como sumo-sacerdote, havendo precedente no judaísmo: se podendo ver no “Guerras Judaicas”, de Josefo, 2.12.#243, e no material Horayot 3.1,2,4, um tratado presente no Talmud que fala sobre precedentes antigos assim [7].

Assim, podemos ver Anás jogando com o fato de que o cargo era vitalício e, apelando para o nacionalismo e o rancor pela dominação romana, invalidar sua deposição para legitimar seu poder de fato. Que ele exercia seu poder, também através de sua riqueza [Josefo, Antiguidades 18.2.2#34; 20.9.1#243] [8], é atestado pela literatura judaica em que seus sucessores o desancam. A imagem que eles passam dele referenda o abuso de se sobrepor ao costume de submeter processos que remetia a penas capitais a uma coorte de juízes – acima de 23 – [9] e atuar como juiz, ainda mais que o costume remetia à tradição farisaica, e assim submeter Jesus a um interrogatório, procedimentos e uma condução de julgamento arbitrários. Os fios da trama começam a se entrelaçar em uma rede, levando a, ou montando o quadro coerente para a crucificação.

Referências/Indicações:
[1]  Joel B. Green – Gethsemane. Em : Joel B. Green, Scot McKnight, Howard I. Marshall – orgs. “Dictionary of Jesus and the Gospels”.
[2]  Raymond Brown, John XIII-XXI  p.787-791 
[3]  Craig Keener - The Gospel of John: A Commentary  p.1078;
[4]  Keener, op.cit., p. 1081
[5]  Ed Parish Sanders, Historical Figure of Jesus, p. 72
[6]  Bruce M. Metzger e Michael David Coogan (Editores) The Oxford Companion to the Bible p. 97
[7]  Raymond E. Brown, The Death of the Messiah p. 398-428
[8]  Donald P. Senior, “The Passion of Jesus in the Gospel of John”. p. 46-64
[9]  Keener, op. cit., p. 1089                 

quinta-feira, 29 de julho de 2010












Judas 1:4-9 — A disputa pelo corpo de Moisés

“Porque se introduziram alguns, que já antes estavam escritos para este mesmo juízo, homens ímpios, que convertem em dissolução a graça de Deus, e negam a Deus, único dominador e Senhor nosso, Jesus Cristo. Mas quero lembrar-vos, como a quem já uma vez soube isto, que, havendo o Senhor salvo um povo, tirando-o da terra do Egito, destruiu depois os que não creram; e aos anjos que não guardaram o seu principado, mas deixaram a sua própria habitação, reservou na escuridão e em prisões eternas até ao juízo daquele grande dia; assim como Sodoma e Gomorra, e as cidades circunvizinhas, que, havendo-se entregue à fornicação como aqueles, e ido após outra carne, foram postas por exemplo, sofrendo a pena do fogo eterno. E, contudo, também estes, semelhantemente adormecidos, contaminam a sua carne, e rejeitam a dominação, e vituperam as dignidades. Mas o arcanjo Miguel, quando contendia com o diabo, e disputava a respeito do corpo de Moisés, não ousou pronunciar juízo de maldição contra ele; mas disse: O Senhor te repreenda. Estes, porém, dizem mal do que não sabem; e, naquilo que naturalmente conhecem, como animais irracionais se corrompem.”
Judas 1:4-9

Essa passagem da epístola de Judas nos mostra uma disputa entre o arcanjo Miguel e Satanás pelo corpo de Moisés. Trata-se de uma das passagens mais intrigantes de todo o Novo Testamento, justamente porque o autor parece pressupor que seus leitores conheciam uma tradição que nós, hoje, não possuímos integralmente. Judas não explica de onde vem a história, não informa por que Satanás disputava o corpo de Moisés e tampouco esclarece por que Miguel precisava intervir. Simplesmente menciona o episódio como se fosse suficientemente conhecido por seus leitores. Antes que possamos prosseguir em nossa análise, precisamos, portanto, retornar ao Antigo Testamento e averiguar como foi a morte de Moisés. De acordo com Deuteronômio 34:5-6, assim temos:

“Assim morreu ali Moisés, servo do SENHOR, na terra de Moabe, conforme a palavra do SENHOR. E o sepultou num vale, na terra de Moabe, em frente de Bete-Peor; e ninguém soube até hoje o lugar da sua sepultura.”

Um fato importante deve então ser destacado: a disputa não se fez pelo corpo de Moisés ainda vivo. De acordo com a junção das duas passagens, podemos inferir que a tradição conhecida pelo autor de Judas dizia respeito ao corpo de Moisés depois de sua morte. O Deuteronômio acrescenta justamente o elemento que torna a narrativa possível: o lugar da sepultura permaneceu desconhecido. A partir daí, torna-se perfeitamente imaginável, dentro da lógica da literatura judaica do Segundo Templo, que uma tradição posterior tenha preenchido essa lacuna com uma narrativa na qual forças celestes disputavam aquilo que havia acontecido com o corpo do grande legislador.

A questão, no entanto, torna-se ainda mais complexa quando perguntamos: qual seria o interesse de Satanás no corpo enterrado de Moisés? Por que o adversário de Deus teria interesse em um cadáver? E, sobretudo, por que Miguel apareceria nesse contexto para disputar com ele? Se estamos diante apenas de uma disputa física por um corpo, a narrativa parece estranhamente desproporcional. Se, porém, o “corpo de Moisés” possui uma dimensão simbólica, a história começa a adquirir outra densidade. Para que possamos avaliar bem essa história, devemos estabelecer alguns pontos e iniciar a reflexão sobre algumas novas questões:

1 – O que é atribuído a Satanás no Novo Testamento e ao arcanjo Miguel no Novo Testamento?

2 – O que a figura de Moisés poderia significar simbolicamente?

3 – Em qual contexto aparece essa disputa de Satanás e Miguel no texto de Judas? Do que é que se está falando neste texto?

Quer nos parecer que não houve necessariamente uma disputa “real” entre essas figuras no sentido de uma narrativa histórica que possamos reconstruir. E talvez essa disputa também não tenha sido simplesmente por algum suposto corpo enterrado de Moisés. É possível que estejamos diante de uma disputa pelo simbólico envolvido em “Moisés”. E, nesse sentido, uma hipótese particularmente sugestiva se apresenta: esta seria uma disputa por Israel.

Moisés não representa simplesmente um indivíduo morto. Ele é o libertador de Israel, o mediador da aliança, o legislador, aquele que recebeu a Torah e aquele que intercedeu repetidamente pelo povo diante de Deus. Sua figura concentra, portanto, uma enorme quantidade de significados dentro do judaísmo. Se o corpo de Moisés se torna objeto de uma disputa celeste, talvez aquilo que esteja em jogo seja justamente a autoridade representada por esse corpo. Quem possui autoridade sobre aquilo que Moisés representa? Quem possui autoridade sobre Israel? E, em última instância, quem possui autoridade sobre a história?

Sinteticamente, é possível afirmar que o que está ali em jogo é a disputa sobre quem ficará com o domínio sobre Israel e, em última instância, sobre quem ficará com o domínio sobre o mundo.

No entanto, de forma a realmente entendermos esta proposição, é necessário que estudemos a fonte primária utilizada pelo autor da epístola de Judas em tal passagem. Ela parece estar relacionada a uma tradição preservada na chamada Assumptio Mosis, ou Ascensão de Moisés. A relação entre Judas 9 e esse texto é antiga na pesquisa, embora não seja possível reconstruir com segurança todos os detalhes da fonte utilizada por Judas. O problema é que a obra chegou até nós de forma incompleta. O manuscrito latino descoberto no século XIX preserva apenas parte do texto, e justamente a seção que poderia explicar diretamente a disputa mencionada por Judas não sobreviveu. Temos, portanto, diante de nós uma situação curiosa: possuímos uma passagem do Novo Testamento que pressupõe uma tradição conhecida, possuímos uma obra judaica relacionada a Moisés que parece pertencer ao mesmo universo literário, mas não possuímos o trecho que permitiria fechar definitivamente o argumento.

Apesar disso, podemos fazer algumas ilações a partir do material disponível. Vamos a ele.

ASSUMPTIO MOSIS 11 — Josué falando com Moisés próximo à sua morte

“[Mas agora] que lugar o receberá? Ou qual será o sinal que marcará o (seu) sepulcro? Ou quem ousará mover o seu corpo de lá como se fosse um mero homem? Porque todos os homens quando morrem têm de acordo com a idade os seus sepulcros na terra; mas seu sepulcro é da subida ao pôr-do-sol, e do sul aos confins do norte: todo o mundo é seu sepulcro. Meu senhor, estás partindo, e quem alimentará este povo?”

[...]

“E os reis dos Amoreus também quando eles ouvem que nós estamos atacando, acreditarão que não estará mais entre eles o espírito santo que era digno do Senhor, múltiplo e incompreensível, o senhor da palavra, que era fiel em todas as coisas, o profeta principal de Deus ao longo da terra, o mestre mais perfeito do mundo, [que não está mais entre eles], dirão: ‘Marchemos contra eles. Se o inimigo apenas uma vez agiu impiamente contra o seu Deus, eles não têm nenhum defensor para oferecer suas orações, como Moisés o grande mensageiro que todos os dias de dia e de noite teve os seus joelhos fixados na terra, orando e procurando a ajuda dEle para que regesse todo o mundo com compaixão e justiça, fazendo-O lembrar do pacto dos pais e propiciando o Deus com juramento’. Porque eles dirão: ‘Ele não está com eles: vamos então e os destruamos e os lancemos para fora da face da terra’. O que restará então deste povo, meu senhor, Moisés?”

ASSUMPTIO MOSIS 12 — Moisés respondendo a Josué

“Por que eu vos digo, Josué: não é por causa da piedade deste povo que tu lançarás fora as nações. As luzes do céu, os fundamentos da terra foram feitos e foram aprovados por Deus e estão debaixo do anel de sinete da sua mão direita. Então, esses que fazem e cumprem as ordens de Deus aumentarão e prosperarão: mas esses que pecam e fixam e negligenciam as ordens estarão sem as bênçãos mencionadas, e eles serão castigados com muitos tormentos pelas nações. Mas lançar fora completamente e os destruir não é permitido. Porque Deus irá adiante pois previu todas as coisas para sempre [...]”

O que poderíamos, pois, extrair destas passagens?

1 – Pela sua grandeza, o sepulcro de Moisés atinge simbolicamente toda a Terra. O sepulcro de Moisés é todo o mundo.

Essa formulação é extraordinária. O texto não nos fornece simplesmente uma localização geográfica para o túmulo de Moisés; ele faz exatamente o contrário. O sepulcro torna-se universal. “Todo o mundo é seu sepulcro.” Moisés ultrapassa, portanto, a condição de indivíduo histórico e transforma-se em uma figura cuja presença simbólica alcança toda a terra.

2 – Josué tem Moisés como o símbolo defensor de Israel, mediador entre Deus e os homens.

O que mais chama a atenção na fala de Josué é justamente seu temor de que a morte de Moisés deixe Israel sem proteção. Moisés não é apresentado somente como legislador. Ele é aquele que intercede, aquele que “todos os dias de dia e de noite” procura a ajuda de Deus para que o povo seja governado “com compaixão e justiça”. Sua morte, portanto, representa uma ruptura potencial na relação entre Israel e Deus.

3 – Para Josué, a morte de Moisés é o fim de Israel.

A lógica de Josué é direta: se Moisés não estiver mais com eles, os inimigos compreenderão que Israel ficou desprotegido. “Ele não está com eles: vamos então e os destruamos.” A morte de Moisés assume, assim, uma dimensão política e cósmica. A permanência de Moisés é associada à permanência de Israel.

4 – Mas Moisés desqualifica Josué dizendo que Deus está no controle de tudo.

É aqui que a resposta de Moisés se torna fundamental. Josué pensa a história a partir da presença ou ausência de Moisés. Moisés, porém, desloca a questão para Deus. As luzes do céu, os fundamentos da terra e os acontecimentos históricos estão sob o “anel de sinete” da mão divina. A autoridade de Moisés não é absoluta porque a autoridade de Deus é absoluta.

5 – Trata-se, pois, de um texto profundamente marcado pelo determinismo apocalíptico.

Não necessariamente pelo determinismo no sentido filosófico posterior do termo, mas pela ideia de que a história possui uma direção estabelecida no conhecimento divino. Os acontecimentos não são simplesmente uma sucessão caótica de eventos. Deus conhece antecipadamente aquilo que acontecerá e estabelece limites para a ação das forças humanas e espirituais.

6 – Aqui está em jogo, afinal, a batalha dos justos contra os ímpios.

O que é dito a Josué é que Deus está no controle do mundo e não o mal. Ele permite que o mal aconteça. No entanto, não permite que neste momento o mal seja debelado por completo: “Mas lançar fora completamente e os destruir não é permitido.” Esta frase é particularmente importante porque estabelece uma distinção entre a existência histórica do mal e sua soberania. O mal existe, age e produz sofrimento, mas não possui autorização para determinar o desfecho da história.

7 – Deus tem um plano para o final dos tempos e as coisas caminharão de acordo com este plano.

“Então, esses que fazem e cumprem as ordens de Deus aumentarão e prosperarão.” A literatura apocalíptica frequentemente trabalha exatamente com essa tensão entre o presente e o futuro. O presente pode parecer dominado pelas forças adversárias, mas o futuro permanece submetido ao julgamento divino. O sofrimento atual não constitui a última palavra sobre o destino dos justos.

8 – A disputa do corpo de Moisés pode ser lida, então, como uma disputa sobre quem governa o mundo.

Aqui entramos deliberadamente no terreno da especulação ensaística. Não podemos demonstrar historicamente que o autor de Judas tinha exatamente essa intenção. Mas a hipótese se torna interessante quando colocamos lado a lado Judas, a tradição de Moisés e a literatura apocalíptica judaica. Moisés concentra em si a autoridade sobre Israel; Miguel aparece em Daniel como o grande príncipe associado aos filhos do povo; Satanás aparece como acusador e adversário. O corpo de Moisés poderia funcionar, portanto, como o ponto simbólico em que essas diferentes dimensões se encontram.

9 – Nós temos duas instâncias interligadas: a terrena e a celeste.

Os chefes das nações ímpias se ligam às forças adversárias. Josué se liga a Moisés; Miguel se liga à proteção de Israel. Está feito o campo de batalha. A luta se dará sobre o destino dos ímpios e dos justos sobre a terra. No entanto, nem a Josué é permitido destruir de vez os ímpios e nem a Miguel é permitido amaldiçoar Satanás, como é dito no texto de Judas:

“O Senhor te repreenda.”

Temos, portanto, uma mesma estrutura em dois níveis. Na Assumptio Mosis, Josué deseja compreender o destino de Israel a partir da ausência de Moisés. Moisés responde que o destino permanece nas mãos de Deus. Em Judas, Miguel encontra Satanás, mas não assume para si a autoridade do julgamento. Em ambos os casos, existe uma autoridade superior diante da qual mesmo as maiores figuras celestes ou humanas precisam recuar.

10 – Miguel diz: “O Senhor te repreenda” porque somente a Deus cabe este papel — qual seja: decidir o destino final dos ímpios e dos justos.

Da mesma forma, era proibido a Josué destruir definitivamente as nações ímpias, porque somente a Deus cabe este papel. A analogia não precisa ser perfeita para ser significativa. O ponto comum é a existência de uma fronteira de autoridade. Josué possui uma missão, mas não possui o juízo final. Miguel possui uma posição celeste extraordinária, mas não possui o juízo final. Os homens possuem suas próprias funções, mas não possuem o juízo final.

E é exatamente nesse ponto que o texto de Judas retorna à realidade concreta da comunidade cristã.

Perceba agora, sabendo dessa passagem, que o texto de Judas se refere a um embate entre grupos cristãos. De acordo com o autor desta epístola, alguns indivíduos “psíquicos” — isto é, pessoas caracterizadas pela ausência do Espírito — se infiltraram na Igreja. Eles estão injuriando aqueles que consideram autoridades, rejeitando aquilo que o autor apresenta como domínio legítimo e falando de coisas que não compreendem. O problema de Judas, portanto, não é apenas escatológico. É também profundamente comunitário. A batalha cósmica funciona como uma espécie de espelho para uma batalha que está ocorrendo dentro da própria comunidade.

Neste ponto nós temos duas proposições:

1 – Uma definitiva: nem o próprio Arcanjo Miguel, quando se defrontava com o próprio Satanás, pôde injuriá-lo. Logo, estes homens estão fazendo algo que nem a altíssima hierarquia angélica ousou fazer.

2 – Uma sugestão: os espirituais devem transferir a autoridade da repreensão a Deus: “Que o Senhor os repreenda.”

E esta segunda proposição talvez seja ainda mais importante do que a primeira. Judas não está simplesmente ensinando que seus adversários são maus. Ele está estabelecendo quem possui o direito de julgar. A questão é menos “quem está certo?” do que “quem possui autoridade para pronunciar o julgamento definitivo?”. E a resposta, tanto na tradição de Moisés quanto na tradição de Miguel, parece ser exatamente a mesma: Deus.

Depois disso, o autor do texto também caminha por uma trilha marcadamente apocalíptica através das profecias de Henoc. Judas cita 1 Enoque 1:9:

“E destes também profetizou Enoque, o sétimo depois de Adão, dizendo: Eis que veio o Senhor entre milhares de seus santos, para fazer juízo contra todos e condenar dentre eles todos os ímpios, por todas as suas obras de impiedade que impiamente cometeram e por todas as duras palavras que ímpios pecadores disseram contra ele.”

A escolha de Enoque é significativa. O autor está novamente deslocando o julgamento para uma instância futura. Os adversários podem falar agora. Podem agir agora. Podem aparentemente prosperar agora. Mas existe um julgamento que ainda não aconteceu e que pertence exclusivamente a Deus. A situação presente, portanto, não pode ser utilizada como medida definitiva da realidade.

É justamente aqui que podemos perceber uma lógica semelhante àquela que encontramos na Assumptio Mosis. As coisas acontecem desta forma atualmente porque existe um plano divino que ultrapassa aquilo que os homens conseguem enxergar. Deus permite que determinados acontecimentos ocorram, mas isso não significa que tenha perdido o controle sobre eles. O presente pode ser marcado pela ação do mal sem que o mal seja o senhor da história.

E talvez seja aqui que esteja o ponto mais interessante de toda essa investigação.

O autor da Assumptio Mosis parece estar preocupado com a pergunta: se Moisés morrer, quem protegerá Israel?

Josué pensa que a ausência de Moisés poderá abrir espaço para a destruição.

Moisés responde que não.

Porque o mundo não depende de Moisés.

Depende de Deus.

Judas, por sua vez, parece estar preocupado com outra pergunta: se existem homens ímpios dentro da própria comunidade, quem poderá julgá-los?

E sua resposta também é a mesma.

Não cabe aos homens assumir o lugar do juiz.

Nem mesmo Miguel o fez.

“O Senhor te repreenda.”

O autor do texto da Ascensão de Moisés está, na verdade, dialogando com um universo mais amplo da literatura apocalíptica judaica. Em Daniel, os poderes terrestres aparecem vinculados a uma realidade celeste; em 1 Enoque, o juízo dos poderes rebeldes é reservado para o momento determinado por Deus; em Jubileus, a história humana permanece inserida em uma ordem previamente estabelecida; em Qumran, as forças da luz e das trevas travam um conflito cósmico, mas o desenlace permanece submetido à soberania divina. Em diferentes formas, esses textos compartilham uma mesma intuição: o mundo visível não pode ser compreendido sem sua dimensão invisível.

É nesse universo que a leitura de Judas se torna particularmente interessante.

O que parece ser uma disputa entre homens é também uma disputa entre poderes.

O que parece ser uma disputa sobre autoridade comunitária é também uma disputa sobre a ordem cósmica.

O que parece ser uma disputa sobre o corpo de Moisés pode ser lido como uma disputa sobre aquilo que Moisés representa.

E o que parece ser uma disputa entre Miguel e Satanás termina sendo uma afirmação sobre os limites da autoridade de ambos.

Talvez, portanto, a grande questão escondida por trás do corpo de Moisés seja justamente esta: quem governa a história?

Satanás pode acusar.

As nações podem atacar.

Os ímpios podem prosperar.

Os adversários podem penetrar na comunidade.

Os próprios justos podem sofrer.

Mas nenhum desses acontecimentos significa que o mundo tenha saído das mãos de Deus.

E é exatamente por isso que Miguel não diz: “Eu te amaldiçoo”.

Ele diz:

“O Senhor te repreenda.”

Não porque Miguel seja impotente diante de Satanás, mas porque o juízo final não pertence a Miguel.

Da mesma forma, Moisés não permite que Josué destrua definitivamente as nações, porque o juízo final não pertence a Josué.

E talvez esta seja a chave para compreender a estranha história da disputa pelo corpo de Moisés.

O autor de Judas não está simplesmente contando uma história sobrenatural sobre dois seres celestes disputando um cadáver. Ele está colocando diante de seus leitores uma estrutura de autoridade: existem aqueles que acusam, existem aqueles que resistem, existem aqueles que protegem, existem aqueles que governam — mas somente Deus possui a palavra definitiva sobre o destino da criação.

Nesse sentido, a disputa pelo corpo de Moisés pode ser compreendida como uma disputa pelo significado de Moisés, pelo significado de Israel e, em última instância, pelo significado da própria história.

E talvez seja justamente por isso que a tradição tenha colocado Satanás diante de Miguel.

Porque, quando o adversário acusa, Miguel não precisa assumir o lugar de Deus.

Ele simplesmente responde:

“O Senhor te repreenda.”

E, nessa pequena frase, talvez esteja condensada toda uma concepção apocalíptica do mundo: o mal é real, mas não é soberano; o sofrimento existe, mas não é definitivo; os poderes celestes atuam, mas não são absolutos; e a história pode parecer momentaneamente entregue às forças adversárias, mas o seu destino final continua pertencendo a Deus.

O mundo pode parecer estar nas mãos do maligno.

Mas, para a lógica da Assumptio Mosis, de Judas e da tradição apocalíptica que os cerca, o mundo está, desde o princípio, nas mãos de Deus.

Assumptio Moses - em inglês.

terça-feira, 27 de julho de 2010












Sacrifício, Templo e imaginário messiânico na formação da cristologia primitiva

O texto de Atos dos Apóstolos, especialmente em seus capítulos finais, apresenta uma situação que permanece teologicamente desconcertante quando confrontada com determinadas formulações posteriores da cristologia cristã. Em Atos 21, Paulo retorna a Jerusalém e encontra Tiago e os anciãos da comunidade. O diagnóstico feito por eles é inequívoco: havia na cidade “milhares de judeus que creram” e que eram “zelosos da Lei” (At 21,20). O problema, portanto, não consistia simplesmente em saber se os seguidores judeus de Jesus continuavam vinculados à tradição mosaica; Lucas parece pressupor precisamente isso. A preocupação dos dirigentes de Jerusalém era que esses milhares de judeus haviam recebido informações segundo as quais Paulo ensinava aos judeus residentes entre os gentios a abandonar Moisés, não circuncidar os filhos e deixar de observar os costumes ancestrais. A resposta de Tiago é igualmente significativa: Paulo deveria demonstrar publicamente que também ele “anda ordenadamente, guardando a Lei” (At 21,24). Para tanto, deveria associar-se a homens submetidos a um rito de purificação relacionado a um voto e participar das práticas cultuais do Templo. O episódio é particularmente importante porque não ocorre em uma comunidade periférica, mas na própria comunidade de Jerusalém, sob a liderança de Tiago. A investigação histórica precisa, contudo, estabelecer uma distinção metodológica: Atos é uma fonte literária posterior aos acontecimentos que narra e não pode ser simplesmente tomado como uma transcrição documental das práticas da Igreja de Jerusalém. Ainda assim, o episódio constitui uma evidência textual relevante de que a memória cristã preservada por Lucas não considerava incompatíveis, em princípio, a adesão a Jesus como Messias e a permanência de práticas judaicas relacionadas à Lei e ao Templo. A pesquisa contemporânea sobre o cristianismo judaico tem justamente chamado atenção para essa questão, embora permaneça controversa a extensão em que os primeiros seguidores judeus de Jesus efetivamente continuaram realizando sacrifícios animais.

A questão que nos interessa nasce exatamente dessa tensão. Se a morte de Jesus já tivesse sido compreendida, desde as primeiras décadas do movimento, como o sacrifício vicário definitivo que substituía ou tornava teologicamente desnecessário o sistema sacrificial do Templo, por que a comunidade judaica de Jerusalém permaneceria vinculada ao culto do Templo? A pergunta não significa afirmar que Atos prove que todos os cristãos judeus ofereciam regularmente animais em sacrifício; isso ultrapassaria aquilo que a fonte permite estabelecer. O que o texto permite afirmar com maior segurança é que a permanência no universo cultual judaico não era percebida por Lucas como uma contradição automática com a fé em Jesus. O próprio Paulo é apresentado entrando no Templo, submetendo-se à purificação e participando de um procedimento cujo encerramento envolvia sacrifícios (At 21,23-26). A pesquisa recente tornou essa questão ainda mais interessante: há estudiosos que admitem a possibilidade de que os primeiros cristãos judeus tenham distinguido entre diferentes tipos de oferendas, considerando perfeitamente possível a morte de Jesus como evento de caráter expiatório sem concluir que todas as demais formas de sacrifício deveriam imediatamente desaparecer. Outros, ao contrário, consideram problemática a tentativa de harmonizar retroativamente a prática cultual de Jerusalém com a soteriologia sacrificial desenvolvida posteriormente. O ponto decisivo é que não devemos impor aos cristãos judeus do período anterior a 70 d.C. uma síntese teológica que pode ser resultado de desenvolvimentos posteriores. A própria literatura cristã antiga revela que a relação entre Jesus, o Templo e os sacrifícios foi objeto de disputas e reelaborações.

É justamente aqui que a questão do “Cordeiro de Deus” se torna particularmente instigante. A associação de Jesus com o cordeiro tornou-se posteriormente uma das imagens mais poderosas da cristologia cristã. João Batista proclama: “Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo” (Jo 1,29). No Apocalipse, o Cordeiro é simultaneamente aquele que foi morto e aquele que recebe autoridade cósmica, possui sete chifres e sete olhos, abre o livro selado e participa do governo escatológico de Deus (Ap 5). A tradição cristã posterior aproximou naturalmente essas imagens do sistema sacrificial judaico, da Páscoa, de Isaías 53 e da linguagem da expiação. Contudo, a investigação contemporânea mostra que a expressão de João 1,29 não possui uma interpretação única e consensual. Há pesquisadores que a relacionam ao cordeiro pascal; outros enfatizam Isaías 53; outros ainda consideram possibilidades relacionadas ao ritual do Yom Kippur, à Aqedah ou a uma combinação de tradições. Marijke H. de Lang, por exemplo, questiona precisamente a tendência de pressupor que amnos tou Theou tenha necessariamente uma referência sacrificial: para ela, Isaías 53 pode constituir o pano de fundo principal, sem que isso obrigue a interpretar a imagem exclusivamente como “animal sacrificado”.

É nesse ponto que a hipótese originalmente desenvolvida neste ensaio merece ser preservada, mas reformulada com maior cautela. Talvez o problema não seja perguntar simplesmente se os primeiros cristãos compreendiam Jesus como um “cordeiro sacrificial”, mas investigar de que maneira diferentes tradições judaicas já haviam utilizado a linguagem do cordeiro para representar figuras de Israel, liderança, sofrimento, resistência e expectativa escatológica. Se encontrarmos no judaísmo anterior ao cristianismo imagens nas quais o cordeiro ou o carneiro participa da simbologia messiânica e da luta final contra as forças hostis a Israel, então a expressão “Cordeiro de Deus” não precisa ser entendida desde o início exclusivamente através da categoria sacrificial. Isso não elimina a possibilidade de uma dimensão expiatória; significa apenas que a imagem poderia possuir uma polivalência semântica que o cristianismo posteriormente reorganizou. A questão deixa então de ser “o cristianismo inventou o cordeiro sacrificial?” e passa a ser outra, mais historicamente interessante: como uma imagem judaica de caráter político, escatológico e messiânico foi progressivamente integrada a uma cristologia da morte redentora?



1. O problema dos sacrifícios e a comunidade de Jerusalém

O ponto de partida continua sendo Atos 21. Tiago informa a Paulo que existem em Jerusalém milhares de judeus que creem em Jesus e que são “zelosos da Lei” (At 21,20). A expressão é extraordinariamente significativa. Não se trata simplesmente de judeus culturalmente ligados à tradição de seus antepassados, mas de indivíduos descritos precisamente através de seu zelo pela nomos. A resposta de Tiago não é pedir-lhes que abandonem essa prática. Ao contrário, todo o episódio é construído em torno da necessidade de demonstrar publicamente que Paulo não está ensinando aos judeus da Diáspora uma apostasia em relação a Moisés. A estratégia consiste em entrar no Templo, participar de um rito de purificação e associar-se aos homens que haviam feito o voto. O texto conclui: “Então Paulo, levando consigo aqueles homens, no dia seguinte, tendo-se purificado com eles, entrou no Templo, anunciando o cumprimento dos dias da purificação, até que fosse oferecido o sacrifício em favor de cada um deles” (At 21,26).

É importante corrigir aqui uma formulação excessivamente categórica do texto original. Não podemos simplesmente afirmar que “os quatro eram nazireus” no sentido técnico de que o episódio corresponda integralmente ao procedimento previsto em Números 6. O texto de Atos descreve homens que estavam sob voto e cuja purificação deveria ser concluída no Templo, mas a reconstrução precisa da natureza do voto permanece discutida. Tampouco podemos afirmar que Paulo pessoalmente ofereceu os animais. O texto diz que ele participou do procedimento e que o sacrifício seria oferecido. Essa diferença é pequena do ponto de vista narrativo, mas enorme do ponto de vista metodológico. O historiador deve distinguir aquilo que o texto afirma daquilo que inferimos a partir do contexto ritual. A pesquisa recente sobre a passagem chama atenção justamente para essas ambiguidades: Atos retrata os cristãos de Jerusalém como frequentadores do Templo, mas não oferece uma descrição sistemática de sua prática sacrificial; ao mesmo tempo, a participação de Paulo no episódio cria uma associação explícita entre cristianismo, purificação e culto templário.

Mas essa cautela não elimina a pergunta central. Ao contrário, torna-a mais precisa. Por que a tradição de Jerusalém não parece ter experimentado a necessidade de abandonar imediatamente o universo cultual judaico? A resposta mais simples é também a mais historicamente plausível: porque, para um judeu do século I, a morte de um indivíduo considerado Messias não implicava automaticamente a abolição da Torá, do Templo ou dos sacrifícios. Essa associação pode parecer inevitável a partir de uma teologia cristã posterior, sobretudo quando lemos Hebreus, mas não era necessariamente inevitável para os primeiros seguidores judeus de Jesus. A morte de Jesus podia ser interpretada como um acontecimento escatológico, messiânico, martirológico, vicário ou expiatório sem que todas as categorias do culto judaico fossem imediatamente reorganizadas em torno dela.

Essa possibilidade é especialmente importante porque impede uma leitura retrospectiva segundo a qual os primeiros discípulos necessariamente deveriam ter pensado: “Jesus morreu pelos pecados; portanto, nenhum sacrifício animal pode mais ser realizado”. Essa equação pertence a uma determinada construção teológica. Ela não deve ser transformada automaticamente em pressuposto histórico. A própria literatura cristã posterior mostra que existiram diferentes maneiras de interpretar a relação entre Jesus e o sistema sacrificial. Alguns grupos cristãos judaicos posteriores chegaram a desenvolver tradições fortemente críticas ao sacrifício animal, enquanto outros preservaram uma relação positiva com categorias cultuais. Estudos sobre tradições judaico-cristãs preservadas em textos como as Recognitiones pseudo-clementinas mostram justamente que a atitude diante do sacrifício foi objeto de disputa interna e passou por processos de releitura.



2. A questão que permanece: quem primeiro interpretou Jesus como sacrifício?

É aqui que podemos retomar uma das proposições mais provocativas do texto original. Se a comunidade de Jerusalém permaneceu profundamente vinculada à Lei e ao Templo, será que a interpretação sacrificial da morte de Jesus se desenvolveu com a mesma intensidade justamente no interior dessa comunidade? Ou será possível que diferentes comunidades tenham desenvolvido diferentes modelos cristológicos?

Não devemos transformar essa pergunta em uma oposição simplista entre “Jerusalém” e “Síria”, como se tivéssemos duas igrejas perfeitamente delimitadas e portadoras de teologias mutuamente incompatíveis. A documentação não permite tamanho grau de precisão. Paulo, por exemplo, certamente conhecia tradições muito antigas sobre a morte de Cristo “por nossos pecados” (1Cor 15,3), e a linguagem sacrificial já aparece em textos paulinos. Ao mesmo tempo, não é possível simplesmente transferir a teologia paulina para todos os seguidores judeus de Jesus em Jerusalém. O cristianismo primitivo foi plural desde muito cedo.

O que podemos dizer, portanto, é mais interessante: o cristianismo primitivo parece ter trabalhado com múltiplas metáforas e modelos interpretativos para compreender a morte de Jesus. Jesus podia ser o Messias davídico; o Filho do Homem; o Servo sofredor; o justo perseguido; aquele que entrega sua vida; o mediador escatológico; e, posteriormente, o Cordeiro. Essas imagens não precisam ter surgido simultaneamente nem possuir exatamente o mesmo significado em todas as comunidades.

A hipótese original de que a imagem sacrificial do Cordeiro poderia ter adquirido desenvolvimento particularmente importante em ambientes helenizados e sírios continua sendo uma hipótese possível, mas precisa ser apresentada como tal. Não dispomos de evidência suficiente para afirmar que “a ideia nasceu na Síria”. O que podemos afirmar é que o Evangelho de João apresenta uma elaboração extremamente sofisticada da linguagem sacrificial e escatológica em torno de Jesus, e que a cristologia joanina não pode ser simplesmente identificada com a cristologia da comunidade de Jerusalém. A questão torna-se ainda mais interessante quando observamos que João situa a morte de Jesus no contexto temporal da preparação da Páscoa e constrói uma série de elementos narrativos que aproximam sua morte do imaginário pascal (Jo 19,14.31-36).



3. O Cordeiro antes do Cordeiro: a literatura judaica

É nesse ponto que precisamos retornar ao judaísmo anterior e contemporâneo ao surgimento do cristianismo. A literatura apocalíptica judaica oferece um repertório simbólico extraordinariamente rico no qual animais representam Israel, seus inimigos, seus governantes e os agentes da intervenção divina. A chamada “Animal Apocalypse”, preservada em 1 Enoque 85–90, é talvez um dos exemplos mais importantes. A história de Israel é narrada através de uma zoologia simbólica na qual diferentes animais representam coletividades humanas e personagens históricos.

O ponto importante para nosso argumento é que cordeiros e carneiros não funcionam ali simplesmente como vítimas sacrificiais. Eles podem representar Israel, grupos de Israel e lideranças que enfrentam os inimigos. Na passagem de 1 Enoque 90, os animais ovinos participam de uma narrativa de opressão, resistência, liderança e intervenção divina. Um grande chifre surge entre eles; há uma luta contra aves predadoras; chega auxílio celestial; o Senhor das ovelhas intervém e, finalmente, uma grande espada é entregue às ovelhas para que avancem contra seus adversários.

Aqui precisamos corrigir uma afirmação importante do texto antigo. Durante muito tempo, a interpretação tradicional identificou o grande chifre de 1 Enoque 90 com Judas Macabeu. Essa leitura continua sendo importante na história da interpretação de 1 Enoque e foi defendida por estudiosos como R. H. Charles. Entretanto, pesquisas mais recentes questionaram essa identificação e também a própria interpretação da Animal Apocalypse como uma simples celebração da revolta macabeia. Sylvie Honigman, por exemplo, argumenta que o “carneiro com chifre” não deve ser automaticamente identificado com Judas Macabeu e propõe uma leitura diferente da relação entre a Animal Apocalypse, a memória macabeia e as categorias de pureza e impureza.

Essa revisão é importante para nosso argumento porque o que precisamos não é de uma identificação histórica precisa do personagem, mas da estrutura simbólica. O cordeiro/carneiro pode participar da representação de uma liderança que enfrenta poderes hostis. A imagem não é, portanto, semanticamente reduzível ao animal levado ao altar.

1 Enoque 90:4–19

Para que a passagem permaneça integralmente no centro de nossa investigação, reproduzimos abaixo a sequência completa:

4. E vi até que aquelas ovelhas foram devoradas pelos cães, pelas águias e pelos milhafres, e não deixaram nelas nem carne, nem pele, nem tendão, até que somente seus ossos permaneceram; e seus ossos também caíram sobre a terra, e as ovelhas diminuíram.

5. E vi até que vinte e três pastores estavam pastoreando, e completaram, cada um em seu período, cinquenta e oito tempos.

6. Mas eis que cordeiros nasceram daquelas ovelhas brancas, e começaram a abrir os olhos, a ver e a clamar às ovelhas.

7. Sim, clamaram a elas, mas elas não deram ouvidos ao que lhes diziam e eram extremamente surdas, e seus olhos estavam extremamente cegos.

8. E vi na visão como os corvos voaram sobre aqueles cordeiros, tomaram um daqueles cordeiros, despedaçaram as ovelhas e as devoraram.

9. E vi até que cresceram chifres naqueles cordeiros, e os corvos derrubaram seus chifres; e vi até que brotou um grande chifre em uma daquelas ovelhas, e seus olhos foram abertos.

10. E ele olhou para elas, e seus olhos foram abertos; e ele clamou às ovelhas, e os carneiros o viram, e todos correram para ele.

11. E, apesar de tudo isso, aquelas águias, abutres, corvos e milhafres continuaram a despedaçar as ovelhas, voando sobre elas e devorando-as; e as ovelhas permaneciam silenciosas, mas os carneiros lamentavam e clamavam.

12. E aqueles corvos lutaram e combateram com ele, procurando derrubar o seu chifre, mas não prevaleceram contra ele.

13. E vi até que os pastores, as águias, os abutres e os milhafres vieram, e eles clamaram aos corvos que quebrassem o chifre daquele carneiro; e lutaram e combateram com ele, e ele lutou com eles e clamou para que viesse seu auxílio.

14. E vi até que chegou aquele homem que escreveu os nomes dos pastores e os apresentou diante do Senhor das ovelhas; e ele o ajudou e lhe mostrou tudo: seu auxílio desceu para aquele carneiro.

15. E vi até que o Senhor das ovelhas veio contra eles em ira, e todos os que o viram fugiram, e todos caíram diante de sua face.

16. E todas as águias, os abutres, os corvos e os milhafres se reuniram, e com eles vieram todas as ovelhas do campo; e todos se reuniram e ajudaram uns aos outros para quebrar o chifre daquele carneiro.

17. E vi aquele homem que escreveu o livro segundo a palavra do Senhor, até que abriu o livro da destruição que aqueles últimos doze pastores haviam produzido, e mostrou que haviam destruído muito mais do que seus predecessores, diante do Senhor das ovelhas.

18. E vi até que o Senhor das ovelhas veio até eles, tomou em sua mão o bastão de sua ira, golpeou a terra, e a terra se abriu; e todos os animais e as aves do céu caíram longe daquelas ovelhas e foram tragados pela terra, e ela se fechou sobre eles.

19. E vi até que uma grande espada foi dada às ovelhas, e as ovelhas avançaram contra todos os animais do campo para matá-los; e todos os animais e as aves do céu fugiram diante delas.

A força dessa passagem para nosso argumento está justamente naquilo que ela não diz. Não encontramos aqui um cordeiro que morre para retirar os pecados da humanidade. Encontramos cordeiros que veem, clamam, reúnem-se, enfrentam inimigos e participam de uma restauração escatológica. Encontramos um carneiro dotado de chifre — isto é, de um símbolo tradicional de força e autoridade — que luta contra seus adversários e recebe auxílio divino. E encontramos, ao final, a entrega de uma espada às próprias ovelhas. O imaginário dominante é, portanto, o de conflito, julgamento e restauração, e não o de uma vítima conduzida ao altar.

Essa constatação não prova que João 1,29 derive de 1 Enoque. Essa seria uma conclusão metodologicamente excessiva. Tampouco prova que João Batista tivesse em mente a Animal Apocalypse. O que ela demonstra é algo mais modesto e, talvez por isso mesmo, mais importante: a linguagem ovina possuía dentro do judaísmo uma semântica muito mais ampla do que a do sacrifício.



4. O cordeiro messiânico e o problema de João 1,29

Chegamos então à frase que constitui o núcleo de toda a investigação:

“Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo!” (Jo 1,29).

A leitura cristã tradicional encontrou aqui uma referência praticamente automática ao sacrifício. Entretanto, o termo grego empregado por João é amnos, e sua interpretação permanece discutida. Isaías 53 é particularmente relevante porque utiliza justamente amnos na Septuaginta para caracterizar o Servo conduzido ao sofrimento. Isso levou alguns pesquisadores a sustentar que o “Cordeiro de Deus” joanino deve ser entendido prioritariamente como uma imagem do Servo sofredor, e não necessariamente como uma referência direta a um animal sacrificial.

Isso modifica significativamente a questão. Se João 1,29 não for simplesmente “Jesus é o cordeiro sacrificado no Templo”, então precisamos perguntar o que João está fazendo com a linguagem do cordeiro. O evangelho inteiro pode ser lido como uma grande reelaboração de símbolos judaicos. Água, pão, luz, templo, pastor, vinha, serpente, maná, festa e cordeiro são continuamente deslocados para dentro de uma cristologia concentrada na pessoa de Jesus. O símbolo não desaparece; ele é reconfigurado.

É possível, portanto, que o “Cordeiro de Deus” de João seja uma espécie de condensação de diferentes tradições: o Servo de Isaías, o cordeiro pascal, o imaginário da Páscoa, a linguagem de inocência e sofrimento e, talvez, outras tradições messiânicas judaicas nas quais animais ovinos representam Israel ou seus líderes. A própria literatura acadêmica contemporânea tende a tratar essa questão como um problema de intertextualidade múltipla, e não como uma simples identificação entre uma passagem e outra.

E aqui emerge uma possibilidade que considero particularmente fecunda para a investigação: talvez a imagem sacrificial não seja o ponto de partida, mas o resultado de uma convergência de tradições.

O processo poderia ter sido algo semelhante a isto: uma tradição judaica já possuía o cordeiro como símbolo de Israel, liderança e expectativa escatológica; outra tradição associava o cordeiro à Páscoa; Isaías fornecia a imagem do justo/Servo que sofre; as tradições cristãs primitivas interpretavam a morte de Jesus à luz das Escrituras; João reorganizou esses elementos em uma narrativa altamente simbólica; e, posteriormente, a tradição cristã sistematizou essas imagens dentro de uma teologia da expiação.

Não podemos demonstrar cada etapa dessa sequência como fato histórico. Mas ela oferece um modelo explicativo capaz de preservar a diversidade das evidências sem reduzi-las a uma única origem.



5. O paradoxo de Apocalipse: o Cordeiro morto que possui sete chifres

A hipótese ganha ainda mais força quando chegamos ao Apocalipse de João. Aqui encontramos uma combinação absolutamente extraordinária:

“E vi, no meio do trono e dos quatro Seres vivos e no meio dos Anciãos, um Cordeiro de pé, como que imolado. Tinha sete chifres e sete olhos, que são os sete Espíritos de Deus enviados por toda a terra” (Ap 5,6).

A imagem é paradoxal. O Cordeiro está “como que imolado”, portanto apresenta uma dimensão sacrificial inequívoca. Mas, ao mesmo tempo, possui sete chifres. O animal sacrificado é também um animal de poder. O morto é aquele que recebe autoridade. O Cordeiro é vítima e soberano simultaneamente.

Essa combinação é fundamental para nossa investigação. O cristianismo apocalíptico não simplesmente substituiu o Messias guerreiro pelo Messias sacrificial. Ele parece ter fundido as duas imagens. O Cordeiro do Apocalipse é aquele que foi morto, mas é também aquele que vence. Ele é vítima e conquistador; sofrimento e poder; morte e ressurreição; sacrifício e soberania.

A imagem dos chifres é especialmente importante porque impede que pensemos o Cordeiro exclusivamente dentro da semântica da fragilidade. No imaginário bíblico e apocalíptico, o chifre representa força, autoridade e poder régio. O Cordeiro de Apocalipse 5 é, portanto, uma criatura paradoxal: um animal sacrificial dotado de atributos de soberania.

Aqui podemos perceber uma possível ponte conceitual com a literatura apocalíptica judaica. Não estamos afirmando dependência literária direta entre 1 Enoque e Apocalipse. Estamos identificando uma gramática simbólica compartilhada: animais, chifres, conflito cósmico, julgamento e intervenção divina constituem parte de um repertório apocalíptico no qual a representação do poder messiânico pode assumir formas animais. A diferença é que o Apocalipse cristão realiza uma transformação radical: o animal que representa o poder messiânico é simultaneamente o animal que foi sacrificado.

Assim, talvez a inovação cristã não tenha sido simplesmente chamar Jesus de “Cordeiro”, mas fundir em uma única figura o cordeiro sacrificial e o agente messiânico da vitória escatológica.



6. E se “Cordeiro de Deus” não significasse originalmente “vítima expiatória”?

Voltemos então à proposição que orientava o texto original. É possível imaginar uma situação na qual os primeiros seguidores de Jesus o reconhecessem como “Cordeiro de Deus” sem atribuir imediatamente à expressão todo o conteúdo teológico que posteriormente receberia?

A resposta deve ser: sim, é possível; mas não podemos demonstrá-lo como fato.

O ponto metodológico é fundamental. A ausência de uma evidência direta não autoriza a construção de uma certeza histórica. Podemos, entretanto, formular uma hipótese comparativa. No ambiente judaico do século I, “cordeiro” não possuía necessariamente um único significado. Poderia evocar o sacrifício, a Páscoa, o Servo sofredor, Israel, pureza, inocência ou imagens apocalípticas de liderança e restauração. A expressão “Cordeiro de Deus” precisava, portanto, ser interpretada dentro de um campo semântico muito mais amplo do que aquele que a tradição cristã posterior frequentemente pressupôs.

Há ainda um elemento que merece atenção. Se os primeiros discípulos de Jerusalém continuavam ligados ao Templo, e se a associação de Jesus com um sacrifício vicário absoluto fosse já uma doutrina universalmente estabelecida entre todos os seus seguidores, seria razoável esperar algum tipo de tensão explícita entre essa doutrina e a prática cultual. Entretanto, Atos não constrói essa tensão de maneira direta. Ao contrário, apresenta Tiago, os anciãos e os milhares de judeus cristãos como participantes de um universo ainda fortemente moldado pela Lei.

Isso não significa que a comunidade de Jerusalém negasse qualquer eficácia salvífica à morte de Jesus. Significa apenas que não podemos presumir que a categoria “sacrifício de Cristo” tenha funcionado, para todos os grupos cristãos primitivos, como uma categoria de substituição cultual imediata.

Essa é provavelmente uma das questões mais importantes que emergem do nosso estudo. A morte de Jesus poderia ter sido interpretada como sacrifício sem significar necessariamente a abolição de todos os sacrifícios. Na religião judaica antiga, afinal, sacrifícios possuíam funções diferentes. Havia ofertas de expiação, ofertas de comunhão, holocaustos, ofertas votivas e outros procedimentos cultuais. Reduzir todo o sistema sacrificial à categoria moderna de “pagamento pelo pecado” é historicamente inadequado.

Essa possibilidade encontra apoio em pesquisas recentes que reconhecem a dificuldade de determinar exatamente a relação entre a prática cultual dos primeiros cristãos judeus e as posteriores teologias cristãs do sacrifício. Alguns estudiosos admitem que os seguidores judeus de Jesus poderiam ter continuado participando de determinados sacrifícios enquanto atribuíam à morte de Jesus uma função soteriológica própria.



7. O problema de uma cristologia construída retrospectivamente

Talvez o maior problema da investigação tradicional seja outro: a tendência de ler os primeiros cristãos a partir da cristologia já consolidada no século II ou mesmo posteriormente.

Quando um cristão do século IV lê “Cordeiro de Deus”, ele encontra imediatamente uma teologia sacrificial desenvolvida. Mas quando tentamos reconstruir o ambiente judaico do século I, encontramos um universo no qual a mesma palavra podia evocar múltiplas tradições. O historiador precisa resistir à tentação de preencher automaticamente essa palavra com todo o significado que ela recebeu posteriormente.

Essa cautela é particularmente necessária quando comparamos Jerusalém, Paulo e João. Não há razão para imaginar que todos os grupos cristãos tenham desenvolvido simultaneamente a mesma interpretação da morte de Jesus. O cristianismo nascente não era uma unidade teológica homogênea à espera de sua posterior fragmentação. Era, ao contrário, um campo de interpretações concorrentes.

A tradição paulina já apresenta uma linguagem sacrificial poderosa. Paulo fala de Cristo “entregue por nossos pecados” e utiliza categorias derivadas da linguagem cultual. Entretanto, sua relação com a Lei é complexa e não pode ser simplesmente transferida para Tiago e a comunidade de Jerusalém. A Epístola aos Hebreus, por sua vez, desenvolve uma teologia extremamente sofisticada na qual o sacrifício de Cristo é apresentado como definitivo e superior ao sistema levítico. Mas Hebreus não deve ser transformada automaticamente em janela transparente para a teologia de todos os seguidores de Jesus antes de 70.

O mesmo vale para João. O Quarto Evangelho apresenta uma cristologia profundamente elaborada. Jesus é o Logos preexistente, o Filho, aquele que vem do alto, aquele que revela o Pai e aquele cuja morte está integrada à estrutura narrativa do evangelho. A imagem do Cordeiro pertence a essa elaboração. Não devemos, portanto, utilizar João 1,29 para reconstruir automaticamente aquilo que todos os discípulos de Jesus acreditavam décadas antes.

Isso nos conduz a uma formulação mais ponderada da tese original:

É possível que a compreensão de Jesus como “Cordeiro de Deus” tenha atravessado diferentes estágios de interpretação dentro do cristianismo primitivo, passando de um campo simbólico judaico no qual o cordeiro podia representar Israel, o justo sofredor ou uma liderança escatológica, para uma configuração cristológica na qual sofrimento, morte, expiação e vitória messiânica foram progressivamente fundidos em uma única imagem.

Essa formulação não enfraquece o argumento. Ao contrário: ela o torna historicamente mais plausível.



8. Conclusão: do cordeiro sacrificial ao Cordeiro vencedor

Retornemos finalmente à pergunta que deu origem a este ensaio: como compreender a afirmação de João Batista — “Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo”?

A resposta mais simples seria: João está chamando Jesus de cordeiro sacrificial e afirmando que sua morte expiará os pecados do mundo. Essa interpretação possui enorme tradição e encontra importantes elementos de apoio no próprio corpus cristão. Não há razão para descartá-la.

Mas ela não precisa ser a única possibilidade.

A literatura judaica anterior e contemporânea ao cristianismo demonstra que a simbologia do cordeiro possuía outras dimensões. Em 1 Enoque 90, cordeiros e carneiros fazem parte de uma narrativa de sofrimento coletivo, liderança, conflito e restauração. A figura do grande chifre não aparece como vítima passiva, mas como agente de resistência. O Senhor das ovelhas intervém, julga os inimigos e entrega uma espada às ovelhas. Não estamos diante de uma liturgia sacrificial, mas de uma apocalíptica da vitória.

O dado torna-se ainda mais significativo quando chegamos ao Apocalipse. Ali o Cordeiro é explicitamente “como imolado”, mas possui sete chifres. Ele é simultaneamente vítima e soberano. Sua morte não representa derrota; constitui precisamente a condição de sua exaltação. A imagem cristã parece, portanto, realizar uma síntese extraordinária entre dois campos simbólicos: o cordeiro sacrificial e o agente messiânico da vitória escatológica.

Talvez seja justamente nessa fusão que esteja uma das originalidades mais profundas da cristologia cristã.

O cristianismo não precisou inventar a linguagem do cordeiro. Ela já estava disponível no judaísmo. Não precisou inventar a ideia de uma liderança escatológica representada por um animal dotado de chifres. A apocalíptica judaica já conhecia esse imaginário. Não precisou inventar a ideia de um justo perseguido cuja morte possui significado diante de Deus. Isaías e outras tradições judaicas ofereciam repertório suficiente.

O que parece particularmente cristão é a fusão dessas tradições na figura histórica de Jesus.

O Messias é aquele que sofre.

O sofredor é aquele que morre.

O morto é o Cordeiro.

O Cordeiro é o vencedor.

E o vencedor possui chifres.

Nesse sentido, a imagem do Cordeiro não deve ser reduzida à fragilidade. O Cordeiro cristão é uma figura paradoxal de poder. Sua força não consiste em evitar a morte, mas em atravessá-la e transformá-la em vitória. O Apocalipse levará essa lógica ao extremo: aquele que foi morto é precisamente aquele que recebe o livro, rompe seus selos e inaugura a execução do julgamento divino.

E talvez aqui possamos retornar à questão inicial sobre a comunidade de Jerusalém. Se os primeiros seguidores judeus de Jesus continuaram frequentando o Templo e, segundo a narrativa de Atos, permaneciam “zelosos da Lei”, não precisamos necessariamente concluir que eles desconheciam ou rejeitavam qualquer significado salvífico da morte de Jesus. Podemos simplesmente reconhecer que a relação entre a morte de Jesus e o sistema sacrificial ainda não havia sido uniformemente sistematizada. A comunidade de Jerusalém podia continuar vivendo dentro do universo da Torá, enquanto outras comunidades desenvolviam interpretações diferentes sobre a morte, o sofrimento e a função messiânica de Jesus.

É possível, portanto, que a história da ideia de Jesus como “Cordeiro de Deus” não seja a história da descoberta repentina de que Jesus era um animal sacrificial. Talvez seja a história de uma releitura progressiva do imaginário judaico.

O cordeiro de Israel.

O cordeiro do sofrimento.

O cordeiro da Páscoa.

O cordeiro do Apocalipse.

O Cordeiro que morre.

O Cordeiro que vence.

E, finalmente, o Cordeiro de Deus que “tira o pecado do mundo”.

Essa sequência não pode ser demonstrada como uma cadeia histórica linear. Ela deve permanecer como hipótese interpretativa. Mas é precisamente como hipótese que ela se torna intelectualmente fecunda: em vez de pressupor que todas as imagens já estavam reunidas desde o início em uma única teologia cristã, ela permite enxergar o cristianismo primitivo como um processo de composição, disputa e reinterpretação de símbolos provenientes de diferentes estratos do judaísmo.

E talvez seja justamente por isso que a imagem tenha sobrevivido com tamanha força. O Cordeiro cristão é, desde sua origem, uma figura impossível de reduzir a uma única categoria. Ele é vítima e rei, sofrimento e poder, morte e vida, Israel e Messias, sacrifício e vitória.

O Cordeiro é aquele que morre — mas é precisamente porque morreu que, no imaginário apocalíptico cristão, ele se torna aquele que vence.



REFERÊNCIAS

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Fontes primárias

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1 ENOCH. In: CHARLES, Robert Henry (ed.). The Apocrypha and Pseudepigrapha of the Old Testament. Oxford: Clarendon Press, 1913.

JOSEPHUS, Flavius. The Jewish War. Cambridge: Harvard University Press, 1927.

JOSEPHUS, Flavius. Jewish Antiquities. Cambridge: Harvard University Press, 1930.

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