Estudos sobre Religião - Biblioblog

quinta-feira, 5 de abril de 2012



Eu entendo que para aqueles interessados nas origens do cristianismo e no judaísmo do segundo templo, uma das maiores dificuldades é identificar e encontrar fontes acessíveis e confíaveis. Muito do que se encontra se perde em polêmicas ou apogética contra ou a favor do cristianismo. Além disso, muitas vezes as fontes não são citadas, ou não são confiáveis, ou citadas de forma distorcida.


Portanto, para suprir essa lacuna, e como já haviamos feito, apresentamos abaixo artigos acadêmicos acessíveis ao público leigo. Verdadeiro ouro garimpado da internet.



1) Messianismo e Pretendentes Messiânicos: O Professor Jona Lendering, lecionou Teoria da História e História Antiga na Universidade Livre de Amsterdã, e é um dos fundadores da Livius Onderwijs, associação de professores voltados para a historia antiga, sediada em Amsterdã, que promove cursos e palestras sobre a Antiguidade Clássica. Já haviámos falado do trabalho de Lendering sobre o Jesus Histórico em um dos posts da Série Quem Eles dizem que Eu Sou, junto com Martin Goodman, John P Meier e André Chevitaresi.


Lendering aborda o fenômeno do Messianismo em vários artigos, que abrangem as origens do conceito (o ritual da unção do Rei, nos profetas e salmos messiânicos, e figuras como o Rei Josias, o Imperador Ciro, e Zorobabel). Também analisa a evolução histórica do conceito de Messias, desde os Macabeus até a destruição do Templo, com suas várias facetas "Um Rei e Lider Militar como Davi", "Um profeta como Moisés", "um Mestre de sabedoria como Salomão", ou um "Sacerdote como Melquisedeque".

Lendering também discute os líderes que reivindicaram a condição messiânica, ou foram vistos assim por seus seguidores, como Simão de Peréia, Judas Galileu, João Batista, e, obviamente, Jesus de Nazaré, avaliando fontes históricas como os evangelhos, Josefo e Tácito.

O leitor pode seguir os links acima, ou ir direto para o overview aqui.


2) Análise Histórica dos Evangelhos: Samuel Nunes dos Santos (2011) O Evangelho de Lucas Enquanto Fonte Histórico-Biográfica. Revista Jesus Histórico e sua Recepção - Ano IV [2011] - volume 7, fls. 89-110.

Resumo: O nosso objetivo no presente artigo é avaliar o evangelho de Lucas enquanto uma fonte histórico-biográfica. Para tanto, analisaremos algumas palavras/expressões contidas no texto grego em que ele foi escrito e sua vinculação com o trabalho de um historiador em aspectos tais como: caráter narrativo, discurso de verdade, organização dos fatos, pesquisa. E, apresentaremos, em forma narrativa, uma síntese das informações colhidas em Lucas sobre o Jesus Histórico.
Palavras-Chave: Fonte Histórica, Biografia, Jesus Histórico, Discurso de verdade

O uso dos evangelhos como fonte histórica é tema constante aqui no blog, tal como na série, em progresso, "Quem Eles Dizem que Eu Sou", em que buscamios apresentar como vários estudiosos abordam a questão. O artigo de Samuel dos Santos é muito interessante pois aborda de forma muito sensata e equilibrada as limitações dos evangelhos enquanto fontes históricas, que, contudo não inviabiliza sua utilização, situando suas virtudes e limitações no contexto mais amplo de outros escritos da Antiguidade Clássica. Ele conclui:

(Samuel Nunes dos Santos) "Por fim, podemos constatar que o Evangelho de Lucas possui diversos fragmentos biográficos passíveis de análise histórica, ricos em detalhes úteis na construção de uma Vita de Jesus. Pode-se observar que os aspectos histórico-biográficos detectados no evangelho, atribuído ao evangelista Lucas, revelam o interesse não de escrever uma biografia, mas de relatar eventos históricos. Sua preocupação é com os “fatos que entre nós se cumpriram”, e neles o seu principal personagem é Jesus. O relato destes fatos, o autor deste evangelho os denomina de tratado (loghon) em Atos 1.1: “Fiz o primeiro tratado, ó Teófilo”.
Verificamos então que o Evangelho de Lucas não é uma obra biográfica sobre Jesus. Lucas escreveu em um gênero que estava nascendo naquele século: o evangelho. Nele se inseriram parábolas, sentenças, narrativas, alegorias e também fragmentos biográficos. O que se vê nele é uma variedade de gêneros muito grande. É coerente a afirmação de Klaus Berger que diz haver uma multiplicidade de gêneros nos Evangelhos, entre eles a biografia (KLAUS BERGER, 1998: 5-6). O material biográfico existente no evangelho lucano é suficientemente rico em detalhes da vida e pessoa de Jesus, o que possibilita a grande utilidade deste evangelho como fonte histórico-biográfica."[O Evangelho de Lucas Enquanto Fonte Histórico-Biográfica, fl. 19 (pagina 107)],

Outros artigos como este podem ser encontrados na Revista Jesus Histórico., publicada pelo IFCS/UFRJ.

domingo, 1 de abril de 2012

Somente os idiotas armazenam na sua memória ferramentas para as quais não têm uso. É o desafio vital que excita o pensamento.
Rubem Alves, "Sobre homens e moluscos"


James D. G Dunn é Professor Emérito de Divindade na Universidade de Durham, ocupando a cadeira de John B. Lightfoot . Ele possui Ph.D. e D.D. na Universidade de Cambridge e M.A. e B.D. na Universidade de Glasgow. Foi presidente do Studiorum Novi Testamenti Societas, liderando o corpo internacional para os estudos do Novo Testamento.

É mais conhecido por ser um dos “campeões” da, assim nomeada ( ele mesmo foi o expoente a utilizar esta nomenclatura, ainda que posteriormente muitos problematizaram que ela abrange um leque de posições de estudiosos bem diversa) “Nova Perspectiva sobre Paulo". No Brasil a Editora Academia Cristã publicou a respeito suas obras monumentais “Nova Perspectiva sobre Paulo”  e a Paulus publicara “A Teologia do Apóstolo Paulo”. Porém ele despontou com trabalhos inovadores, fecundos, polêmico, concisos e abrangentes sobre a pneumatologia nas origens cristãs. Livros como “Baptism in the Holy Spirit”, “The Christ and the Spirit (vl 1): Christology” e “The Christ and the Spirit (vl 2): Pneumatology” possuem lugar garantido em todos os debates com preocupação acadêmica, acerca do tema.

Aqui faremos um recorte em seu trabalho acerca da questão do “Jesus Histórico”, buscando fazer uma breve e simples apresentação de sua perspectiva e proposta metodológica e epistemológica que oferece uma linha de trabalho peculiar; neste momento não aprofundarei em termos mais específicos acerca das descrições que o autor faz sobre o que considera histórico no ministério de Jesus. Devido a questões de tamanho e propriedades inerentes de visualização de blog, me ative a notas e citações que julguei imprescindíveis para ajudar na compreensão.

*Obs: os trechos de citações estão em tradução livre direta, por questões de espaço; caso se solicite, poderei com prazer repassar os originais em inglês.



Introdução 

O livro em que emergira onde reuniu e organizou dados e tratamentos, as referências e argumentos de diversos trabalhos publicados, é o massivo “Jesus Remembered”.

Ele está dividido em cinco partes. Dunn abre com uma discussão sobre "Fé e Jesus Histórico”. Aqui, ele re-conta a história da ascensão da pesquisa crítica em Jesus e no início do Cristianismo. Parte 2: "A partir dos Evangelhos de Jesus", procura mais uma vez reconstruir o que podemos realmente saber sobre o Jesus dos Evangelhos . Tendo o material peneirado , Dunn, em seguida, aborda as questões de " Missão de Jesus” (parte 3), “auto-compreensão de Jesus” (parte 4), e “morte de Jesus, ressurreição, recordação e entre os seus seguidores” (parte 5).

"Jesus Remembered" é o primeiro volume de sua monumental série acerca dos primeiros 120 anos de cristianismo, “Christianism in Makind” (na qual também faz parte “Beginning from Jerusalem”), uma tentativa de "dar uma descrição integrada e fazer análise, tanto histórica e teológica, quanto social e literária dos 120 primeiros anos ou mais do cristianismo"("J.R.", p. 6). Dunn acredita que "Há três grandes questões para os alunos do início do Cristianismo: (1) O que havia em Jesus que explica tanto o impacto que ele acarretou sobre seus discípulos e por que ele foi crucificado? (p.2) Como e por que aconteceu que o movimento de Jesus que decolou depois de sua morte não permanecera dentro judaísmo do primeiro século e se tornou inaceitável para o judaísmo rabínico emergente? (3) o cristianismo que surgiu no segundo século foi como uma religião predominantemente de gentios, essencialmente o mesmo que sua versão do primeiro século ou significativamente diferente em caráter gentio? " (p 3).



Problematização com Crítica das Formas

Tradicionalmente, a metodologia da Crítica das Formas busca retirar acréscimos secundários para chegar no que é realmente factual em cada passagem, caso haja algum. Ela então concebe como aspecto básico do caráter da composição dos evangelhos, que foram uma composição a partir de um mosaico de pequenas unidades fragmentárias, transmitidas oralmente através de coletivos anônimos, de modo informal e sem controle; moldadas comunitariamente às situações vivenciais do contexto em que foram compiladas reunindo-se os fragmentos independentes e colocadas sob uma moldura no ato de escrita. [1]

De acordo com o pensamento de um dos seus principais nomes, "O que as fontes nos oferecem é, antes de tudo, a mensagem da comunidade cristã primitiva, que, na maior parte a Igreja livremente atribuíra a Jesus" (Bultmann, Jesus, 12).

Dunn faz uma análise crítica destes postulados. Uma de suas provocações reverbera: "Poucos hoje, se há alguém, assumem que as fontes escritas levam o leitor de volta diretamente para o Jesus que atuou e ensinou na Galileia três ou mais décadas antes" (Jesus Remembered, p.173)

O pesquisador infere aguçadamente que “a ‘configuração padrão’ do ‘paradigma literário’ , ou seja, o ponto de vista que os autores dos evangelhos sinóticos foram literariamente dependentes uns dos outros” (geralmente levando em consideração a forma de Mateus e Lucas , dependendo de exemplares literários de Marcos e “Q” - nota minha) - "é demasiado limitado para explicar as complexidades da tradição de Jesus" (336) [grifo meu]. Ou seja, quem analisar de forma esmiuçada e também topicamente os Sinóticos pode ver os tipos de diferenças entre eles, mas grande número dessas diferenças dificilmente permite a conclusão de que, por exemplo, Lucas copiou Marcos só fazendo mudanças para atender às suas ênfases.

Usando gráficos regulares que apresentam os textos sinóticos em colunas paralelas e sublinhando os paralelos mais próximos, Dunn busca referências no trabalho de Kenneth Bailey, em "Informal Controlled Oral Tradition and the Synoptic Gospels”, sugerindo com rigor que as diferenças entre os paralelos sinóticos refletem uma interação complexa entre edição literária e o uso da tradição oral. Dunn também pesquisa de forma concisa o que ele descompactou em detalhes de numerosos escritos díspares sobre a unidade e a diversidade do judaísmo em que Jesus nasceu. Sugere que o critério orientador é o de fazer uma varredura ampla através da tradição sinótica sobre vários temas, procurando o que é, ao mesmo tempo mais característico e mais distinto, bem como o que é mais provável que seja autêntico.



A base: transmissão “informal e controlada”

Kenneth E. Bailey, Ph.D. em Novo Testamento, viveu por 47 anos no Oriente Médio, tendo sido professor de matérias sobre o Novo Testamento em diversas instituições, dentre elas o Biblical Department of the Near East School of Theology, em Beirut, e no Tantur Ecumenical Institute for Theological Research, em Jerusalém. Estudou diversos exegetas árabes cristãos antigos, como Ibn al’-Assãl, Ibn Al-Salíbí, e Ibn Al-Tayyib.

Neste clássico artigo ele postula que a forma como as sociedades das aldeias do Oriente Médio, marcadas pelo valor da tradição oral em reportar histórias, transmitem-nas, é feito em um ambiente informal, mas controlado. A imagem faz parte de uma reunião de aldeia onde a comunidade está a "preservar seu depósito de tradição" (Bailey, “Informal Controlled” p.6). [2]

Esta prática de "preservar as tradições tem alguns controles importantes que lhe são postos”. Primeiro, "Apenas aqueles dentro da comunidade que cresceram ouvindo as histórias têm o direito de recitá-las em reuniões públicas" ("Informal Controlled", p. 6) [grifo meu].

Em segundo lugar, às histórias que são importantes para a identidade das comunidades foi permitido alguma flexibilidade nos detalhes, mas os "tópicos centrais da história não podem ser mudados" (Bailey, "I.C.",p. 7) [grifo meu]. Bailey dá vários exemplos de como isso funciona na prática. Ele conta as ocasiões em que pediu a várias pessoas diferentes narrarem a mesma história. O que ele descobriu foi que cada vez lhe fora dito, essencialmente, a mesma história, com alguma flexibilidade, mas muitas vezes as linhas principais da história eram literalmente as mesmas, independentemente do contador. (p 10). Ele passa a observar que, analogamente para as comunidades cristãs dispersas, "lembrar as palavras e atos de Jesus de Nazaré foi afirmar sua própria identidade. As histórias tinham de ser contadas e controladas ou tudo o que fez eles serem quem eram estava perdido"(Bailey,"I.C.",p. 10).



A necessidade de uma abordagem que supere a crítica das formas clássica

Ao formular a metodologia de seu programa de estudo, Dunn insiste que maior atenção deve ser dada ao fato de que os materiais evangélicos foram derivados, não aleatoriamente, de tradição oral. Ele não põe de lado a “hipótese das duas fontes”, admite que existem paralelos entre os Evangelhos que dificilmente podem ser explicados por outro que não dependência literária (144 n . 15). Mas, ao mesmo tempo, ele insiste que a maneira usual de se utilizar a “hipótese das duas fontes” uma ferramenta de pesquisa simplesmente errada (248).

Enquanto ele aceita a evidência de Fonte de Ditos, ele é cético em relação a tentativas de detectar camadas literárias em Q ( “J.R.”, p. 467, nota 70 ) e rejeita a afirmação de que “Q” era o Evangelho apenas voltado para alguma comunidade , rejeitando assim o noção de uma comunidade Q”.[3]

Os Evangelhos não devem ser considerados como uma série de edições escritas dos documentos anteriores, a serem estudados de tal maneira a remover a camadas mais precoces para chegar à forma mais antiga da tradição. Em vez disso, a maioria dos paralelos entre o Evangelhos sinóticos, de fato exibem mais de características de “re-contagens” orais do mesmo evento: “variações dentro do mesmo” (“J.R.”, p.212)[grifo meu] , tal como seria de esperar para encontrar como o produto de um processo como o que os relatos contemporâneos de Kenneth Bailey na vida das aldeias no Oriente Médio. Ele ilustra este por um certo número de exemplos extraídos do Evangelho paralelos , todos os quais mostram que o paradigma literário simplesmente não serve ("J.R.", p.234).

  • Alguns exemplos; observe-se o que se tem de plena semelhança, dentre todo o conjunto:

Mateus 7,13-14 - Entre pela porta estreita (...) muitos são os que entram

e Lucas 13,24 - Esforçai-vos por entrar pela porta estreita, pois eu vos digo que muitos procurarão entrar e não conseguirão.

Mateus 10,34-38 - Não penseis que vim trazer paz à terra; eu não vim trazer paz, mas uma espada. Pois eu vim jogar um homem contra seu pai, uma filha contra sua mãe e a nora contra sua sogra. Aquele que ama pai ou mãe mais do que a mim não é digno de mim; e aquele que amar filho ou filha mais do que a mim não é digno de mim. Aquele que não tomar sua cruz e não seguir após a mim não é digno de mim.

Lucas 12,51-53 - Pensais que vim trazer paz sobre a terra? Não, eu vos digo, mas sim a divisão. Pois de agora em diante uma casa com cinco pessoas ficará dividida; ficarão divididos três contra dois e dois contra três, mãe contra pai e pai contra mãe, mãe contra filha e filha contra mãe, sogra contra nora e nora contra sogra.

Lucas 14,26-27 - Quem quiser vir após mim e não odiar seu pai e sua mãe, mulher e filhos, irmãos e irmãs, sim, e até sua própria vida, não pode ser meu discípulo. Quem não carrega sua própria cruz e vem após mim não pode ser meu discípulo. 

Ninguém que lê estes relatos duvidaria que eles são a mesma história. No entanto, são diferentes o suficiente para sugerir que eles podem não ter a mesma fonte textual. Se assumirmos que estes estão mais para serem como diferentes recontagens orais da história dentro de uma comunidade, transmitindo suas histórias pela tradição controlada informal, então faz sentido. A história básica é a mesma: 1) Jesus está com os seus discípulos em um barco, 2) uma grande tempestade surge enquanto Jesus está dormindo, 3) os discípulos acordam Jesus, 4) Ele repreende o vento e o mar e traz calmaria, 5 ) Jesus questiona a falta de fé dos discípulos. Várias linhas são lembradas literalmente (“J.R.”, p.. 217).


Implicações

Sua aceitação da hipótese das duas fontes é criticamente qualificada, não apenas pelo reconhecimento do uso de tradições independentes por Mateus e Lucas, mas também por sua hipótese de a transmissão oral da tradição. Advêm diferenças decorrentes da vida dos que estão envolvidos na tradição oral, em que a partir das variedades destas tradições paralelas se diz a redação literária. Disso ele tira duas implicações.

Primeiro, as fontes escritas foram moldadas pela transmissão oral das tradições que elas incorporam. Em segundo lugar, a transmissão oral da tradição continuou ao lado da escrita, remetendo para múltiplas performances de Jesus e as performances de várias testemunhas de Jesus, variações de desempenho na transmissão posterior da tradição, ou o desempenho dos escritores dos Evangelhos. Para Dunn, o modelo de variação de desempenhos orais prepondera sobre redação sobre a fonte (“J.R.” pgs 336 e 441 nota 42). [4]

O resultado é um Jesus que nunca está livre de interpretação, mas reconhece-se que essa interpretação começou com Jesus e com os seus seguidores antes do evento pascoal. Assim, o Jesus que emerge da investigação histórica como tal é sempre "o Jesus Recordado", que é o acessível para estudarmo-lo. Isso nos lembra que Jesus não é diretamente acessível mas só é conhecido através do impacto que ele fez sobre aqueles que viram-no e ouviram -no e na transmissão de suas memórias sobre ele. Estas memórias são interpretadas e não transmitidas de fatos nus; são múltiplas, envolvendo uma diversidade de interpretações.


Destaca-se daí que, para Dunn, as tradições sobre Jesus originam-se na memória da comunidade dos primeiros cristãos.  Pode-se supor com propriedade que o processo de tradição começou com a palavra inicial e/ou ato de Jesus (“A New Perspective on Jesus: What the Quest for the Historical Jesus Missed”, p. 239). Estas palavras e/ou atos foram então, memorizados na comunidade. A fé de seus discípulos foi, pelo menos indiretamente na sua forma básica, uma parte da personalidade de Jesus, assim temos acesso a Jesus Nazaré como é recordado e esta forma de percepção de sua herança derivou de uma parte de sua personalidade. Era um processo de recordação compartilhada e não devemos esquecer o papel contínuo das testemunhas transmissoras (“New Perspect on Jesus”,p. 242) [grifo meu].


A proposta

O caráter das fontes como a memória da comunidade também significa que o melhor método é procurar características e temáticas das tradições de Jesus ao invés de tomar episódios individuais isolados hermeticamente. Como por exemplo, os registros dos ensinamentos de Jesus no Evangelho estão saturados com referências ao Reino de Deus, e Dunn considera que é quase impossível explicar tais dados que não seja na suposição de que Jesus foi recordado como a falar muitas vezes sobre o assunto (“J.R.” p.384).

Assim, ele não procura basear a sua reconstrução no estabelecimento da autenticidade de ditos individuais ou em incidentes sem correlações contextuais mais amplas, mas pela coerência geral das fontes no pressuposto de que a tradição foi formada pelo impacto de Jesus durante seu ministério (pgs 332, 335). Ele descreve sua abordagem em termos do Realismo Crítico proposto por Bernard Lonergan e adotado por Ben F. Meyer e N. T. Wright ( “J.R.”, p. 110 nota 11 ).   [5] 

Emerge daí uma figura de Jesus com forte preocupação escatológica, com acentos apocalípticos para sua principal pregação, o “Reino de Deus”, em que na verdade chegara a passar por uma frustração por chegar a prever que sua vinda estava em iminência, mas que perseverara até o fim na coerência com sua missão para este Reino.

O futuro reino que Jesus anuncia estar próximo será uma das inversões escatológicas ( “J.R.” p.412, nota 17 ): haverá uma inversão de status, e os mais pobres herdarão o reino; o discipulado envolve força de vontade entre as dificuldades e um compromisso total; haverá um julgamento, sendo que é o juízo final que está explicitamente em vista ( “J.R.”, p.425).

As lembranças mais antigas nas quais Dunn se baseia com mais ênfase remetem a um círculo mais amplo de discípulos do que os Doze (pg. 239, nota 43). Ele considera que houve professores cristãos que serviram como o repositório de tradições congregadas por via oral (“J.R.” p. 176) [grifo meu], mas estes parecem terem sido referenciados como tais depois do ministério de Jesus. Dunn tem extrema cautela quanto a traçar os ensinamentos de volta para o grupo interno dos Doze e , em seguida, ao próprio Jesus, como se tivesse sido cuidadosamente controlada por meio de ensino memorização não parece explicar a divergências na tradição como tem chegado até nós.

Não só o núcleo estável, mas também a diversidade de performances pode voltar para múltiplas performances de Jesus ou das várias testemunhas no início (“J.R.” pg. 532, nota 34 , nota 42 , 660). O processo da tradição “precisa ser distinto da memória individual, ainda que pudesse ser descrita como uma memória corporativa que proporciona identidade ao grupo que assim recorda”. (“J.R.” p. 173). “Ao concentrar atenção particular sobre o caráter comunal do processo de transmissão primitivo, não deveríamos descartar a ênfase mais tradicional sobre a figura da autoridade individual, respeitada pela própria associação dele ou dela com Jesus durante os dias de sua missão”. (“J.R.”, p 243). “Onde mais os evangelistas encontraram a tradição? Armazenada, ociosa, em uma velha caixa, no fundo da casa de algum mestre? Armazenada, não recitada, na memória falha de um velho apóstolo?! Dificilmente.” (“J.R.” pg 250) [6] 

Assim, James D.G. Dunn acredita que "os primeiros transmissores dentro das igrejas cristãs [eram] preservadores mais inovadores... procurando transmitir, recontar, explicar, interpretar, elaborar, mas não criar de novo... Com o corpo principal da tradição sinóptica, creio eu, temos na maioria dos casos o acesso direto ao ensino e ministério de Jesus como foi lembrado [grifo meu] desde o início do processo de transmissão (que muitas vezes antecede a Páscoa) e de acesso de modo bastante direto ao ministério e ensino de Jesus através dos olhos e ouvidos daqueles que andavam com ele" (em "Messianic Ideas and Their Influence on the Jesus of History", in The Messiah, ed. James H. Charlesworth. pp. 371-372, citado em “J.R.” pg 653)

A transmissão da memória sobre Jesus fora marcada pelo dilema dos primeiros cristãos, sendo que à medida que ia se ficando mais amplamente nítido que se constituíam um grupo religioso à parte, “quase certamente teriam exigido uma história (ou histórias) fundacionais para explicar, a si mesmos tanto quanto a outros, porque haviam formado grupos sociais distintos” (“J.R.” p. 175). Isto reflete para ele, principalmente, nas passagens sobre atritos com os grupos judaicos. Ele aprofunda mais a respeito desta questão em "Jews and Christians: The Parting of the Ways, A. D. 70 to 135".



Dale C. Allison Jr. - " Este não é apenas um livro mais sobre Jesus, mas sim uma ampla apresentação, por parte de um estudioso renomado, das conclusões a que chegou durante a vida de reflexão e crítica bem informada. É cheio de bom senso e de muito aprendizado. Como sempre, o trabalho de James Dunn é caracterizado não só por uma familiaridade com o mundo judaico real de Jesus do primeiro século, mas também por um conhecimento sem igual da vasta literatura secundária. Especialmente sugestivo é o apelo consistente em continuar a tradição oral, o qual frequentemente parece justificado."

John P. Meier - " Durante décadas, James D.G. Dunn tem sido um líder no estudo sério e equilibrado de ambos: cristologia e história da pesquisa sobre Jesus. Tenho aproveitado muito de seus muitos livros e artigos e tenho o prazer de ler esta destilação maciça de seus muitos anos de reflexão e publicação sobre o Jesus histórico. Eu recomendo altamente “Jesus Remembered” para todos aqueles interessados ​​em uma abordagem séria e metodologicamente sofisticada para as grandes questões que atormentam e estimulam a pesquisa do Jesus histórico hoje."

Jonathan L. Reed - " 'Jesus Remembered' fornece um olhar fresco e completo das origens cristãs que é provocante e ao mesmo tempo criterioso em suas avaliações. James Dunn está igualmente em casa na história da pesquisa, nos detalhes dos Evangelhos, na matriz de fontes não bíblicas e na arqueologia do mundo de Jesus; e ele tece-os em um relato coerente e credível das tradições de Jesus."


NOTAS:

[ 1] para aprofundar mais, de forma acessível a iniciantes, indico “Literary Forms in the New Testament”, de James L Bailey e Lyle D. Vandeer Broek.


[2] Por Bailey: As narrativas históricas importantes para a vida do indivíduo da aldeia também se enquadram neste segundo nível de flexibilidade que prevê a continuidade e liberdade para a interpretação individual da tradição. Mais uma vez um exemplo ajudará a esclarecer esse aspecto do nosso tema. Há vinte e cinco anos atrás Makhiel Pai da aldeia de Dayr Abu Hennis contou-me sobre fundação da sua aldeia. Os romanos chegaram no século II e construiram a cidade de Antinopolis. 

Mais tarde, monges cristãos construíram um mosteiro na periferia da cidade para o fim específico de testemunhar sua fé na cidade pagã. Para sustentar-se eles fizeram cestas de folhas de palmeira para trabalhadores, mas ao invés de conferir às cestas as funcionais duas alças , os monges colocaram uma terceira alça ao lado. Como eles vendiam as cestas no mercado da cidade , os clientes foram atraídos pela qualidade e preço, mas ficavam surpresos com as três alças. 

" Por que você colocou três alças nestas cestas ? eles perguntavam . 

"Vejam bem", os monges respondiam” isso tem a ver com o que cremos". 

“Que interessante. Em que é que você crê?” vinham os questionamentos. 

 "Bem, nós sabemos que Deus é três em um , assim como esta cesta é uma cesta e ainda tem três alças", os monges poderiam responder. ("Informal Controlled” p. 8) 

Para Bailey, após a Queda de Jerusalém, houvera um colapso em estruturas de reprodução social de diversos povoados na Palestina, de forma se sentira necessidade de impetrar um maior controle formal sobre a tradição.


[3] tradição acadêmica fundamentada nos clássicos trabalhos de John Kloppenborg 


[4] Ver também Samuel Byrsokog “Jesus the Only Teacher”. Stockholm: Almqvist anda Wiksell, 1994.


[5]A reflexão de Lonergan quanto ao realismo crítico se dá no âmbito de um inquérito filosófico-teológico; ele afirma que o Realismo Crítico reconhece a distinção entre o mundo da experiência sensorial imediata e do mundo como mediado pelo significado (que é o mundo real), procurando conhecer o mundo sabendo que este conhecimento é mediado pelo significado.

Lonergan observa que "a mesma operação não só intenta um objeto, mas também revela um pretendido assunto", em que atentando para com o conhecimento, o conhecedor pode, de acordo com a própria estrutura do atentar, decidir "operar de acordo com as normas imanentes no relacionamento espontâneo do que foi vivido, compreendido, afirmado experimentar , compreender, julgar e decidir " ( Method in Theology, p. 15).


"É admitido que, uma vez que a verdade seja alcançada, é intencionalmente independente do sujeito que a alcançou: que é a auto-transcendente e meta da investigação. Mas o lar ontológico da verdade é o assunto. O objetivo não é alcançado à parte de um processo exigente, como a busca da verdade revela-se no indagar, transforma-se de indagação em indagação e de questionamento em resposta-questionamento, solicita reflexão sobre as respostas, e chega ao clímax no ato de julgar-se ser com certeza ou provavelmente verdadeira ou falsa. Todas estas são atividades do sujeito e não há objetividade sem todas elas. Verdade, decerto, amadurece na árvore do assunto, e a objetividade é o fruto da subjetividade na sua forma mais intensa e persistente" - Ben F. Meyer, ( Critical realism and the New Testament , pgs.139-140)

Esta [ i.e., o Realismo Crítico] é uma maneira de descrever o processo de "saber" que reconhece a realidade da coisa conhecida, como algo diferente do que é o conhecedor (daí o ‘realismo’), enquanto também reconhecendo plenamente que o único acesso que temos a esta realidade encontra-se ao longo do trajeto em espiral de diálogo adequado ou uma conversa entre o conhecedor e a coisa conhecida (daí o 'crítico’). Este caminho leva à reflexão crítica sobre os produtos do nosso inquérito sobre a ‘realidade’, para que nossas afirmações sobre ela reconheçam a sua própria provisoriedade. O conhecimento, em outras palavras, embora em princípio concebe a realidade independente da mediação do conhecedor, nunca é em si mesmo independente do conhecedor. - N.T.Wright, (The New Testament and the People of God, p. 35)


[6] O famoso erudito neotestamentário Charles H. Dodd realizou uma consistente arguição de que Atos 10, 34-43 constitui um quadro geral da pitoresca tradição narrativa oral de Pedro, em “Apostolic Preachings and it’s Developmens” (1944), abrindo um campo fecundo de pesquisa que ainda perdura entre os estudiosos, ainda que com variações de conclusões. Dentre este labor de identificar fontes de narrativas, quadros e tradições entre discípulos de Jesus, possuímos exemplos prolíficos e amplos, variando desde fontes entre mulheres, como Carla Ricci em “Mary Magdalene and Many Others: Women Who Followed Jesus”, 1994, em que, dentre outros postulados instigantes, vemos Joana (Lucas 8,3) como provável fonte, no material lucano (Atos e “L” em Lucas – além das complementações em materiais marcanos e em “Q” ou “Mateus” dependendo da teoria de fontes), no que se refere à corte e membros da corte herodiana; outros materiais derivariam de Tiago, como postulado por Bruce Chilton e Jacob Neusner em “The Brother of Jesus: James the Just and His Mission”, 2001. 


terça-feira, 13 de março de 2012





Dalle C Allison Jr, se graduou na Wichitta State University (Kansas, EUA), e obteve seu PhD na Duke University (Durham, Carolina do Norte). Atualmente é o Errett M. Grable Professor de Novo Testamento e Cristianismo Primitivo do Seminário Teológico de Pittsburg, sendo sua área de especialização é judaismo do segundo templo, escatologia do cristianismo primitivo, o evangelho de Mateus, a fonte de ditos Q e o Jesus Histórico. Allison é membro de uma igreja presbiteriana em, Glenshaw, Pensilvania.



O trabalho de Allison tem causado grande repercussão entre os estudiosos do cristianismo primitivo, ao questionar os métodos tradicionais utilizados para elaborar a biografia do Jesus Histórico, principalmente os critérios de historicidade, e como defensor ferrenho do Jesus histórico como profeta apocalíptico, que o coloca em rota de colisão com os estudiosos ligados ao Jesus Seminar, como John Dominic Crossan.



Em seu mais recente livro "Constructing Jesus: Memory, Imagination and History" (2011), Allison questiona a abordagem fundamental de muitos estudiosos que, com base em critérios como o da dissimilaridade, identificam ditos e feitos provavelmente autênticos de Jesus, e partir disso tentam construir uma biografia. Uma prévia do livro (em inglês), foi disponibilizada por ocasião do lançamento pela Baker Academics.


Alisson argumenta que, se os evangelhos tem como base a tradição oral, e assumindo que essa tradição transmitiu memória histórica, seria interessante começar com estudos sobre memória e tradição oral, e entender como memórias são transmitidas em primeiro lugar. So então, comparando a forma como memória é transmitida e comparando com os textos que possuímos é que podemos concluir se, e até que ponto, os evangelhos e outras fontes cristãs primitivas transmitem memória histórica, e em quais elementos mais provavelmente ela se encontra.




We all know from introspection that our long-term memories, which are “constantly evolving generalizations,” tend to retain “whole events, whole faces, whole conversations, not the sub-plots, the features, the words that make them up.” As our recollections become increasingly tattered and faded, they are disposed to retain, if anything, only the substance or “gist” of an event. We may forget the words and syntax of a sentence yet still remember its general substance or meaning. We construct memories of people and events in the same way we reproduce maps from our heads: we omit most of the details, straighten the lines, and round off the angles, thereby creating a sort of minimalist cartoon.
(tradução) No fundo, todos sabemos que nossas memórias de longo prazo, são "generalizações em constante evolução", que tendem a reter " a impressão geral dos eventos, rostos, conversas, e não os detalhes, as características, as palavras que o compõem." Como nossas lembranças tornam-se cada vez mais surradas e desbotadas, eles conservam, se alguma coisa, apenas a substância, ou pontos essênciais de um evento. Podemos esquecer as palavras e sintaxe de uma frase mas nos lembraremos de sua substancia ou significado geral. Nós elaboramos memórias de pessoas e eventos da mesma maneira que reproduzimos mapas de nossas cabeças: omitimos a maioria dos detalhes, endireitamos as linhas, e arredondamos os ângulos, criando assim uma espécie de caricatura minimalista.[1]

Allison advoga que, a partir dos estudos sobre a memória, e pela própria experiência cotidiana, a uma tendência humana de manter por longo tempo a imagem do todo, mesmo que perdendo os detalhes. A maioria das pessoas se lembra da data de sua formatura, casamento, nascimento de filhos, morte de entes queridos de forma marcante, por décadas a fio. Sentem esses momentos de forma vívida, e as impressões gerais são conservadas. No entanto, os detalhes se perdem.



Who has not more than once thought, “I can’t recall the exact words, but they were something like this”? As one researcher has put it, “Verbatim/perceptual traces fade more quickly than ‘gistified’ traces.” It is the same with the images in our heads. We may recollect visiting the Parthenon, but unlesswe are that rare, one-in-a-billion individual with a photographic memory,we will not be able to close our eyes and count the number of its columns. Similarly, those who have been robbed will not forget being robbed; yet, as thecritical study of criminal lineups has demonstrated, this circumstance does notensure that witnesses will correctly remember what the robber looked like (tradução) Quem nunca se perguntou: "Eu não consigo me lembrar das alavras exatas, mas era algo parecido com isso"? Como um pesquisador colocou, "lembranças verbatim / perceptivas desaparecem mais rapidamente do que os eventos e traços essenciais."O mesmo acontece com as imagens em nossas mente. Podemos lembrar de uma visita ao Parthenon, mas a menos que sejamos uma da aquelas uma-em-um-bilhão de pessoas com memória fotográfica, não seremos capazes de fechar os olhos e contar o número de sua columns. Da mesma forma, aqueles que são roubados não vão esquecer do que lhes foi subtraido, no entanto, como os estudos crítico de line ups penal tem demonstrado, esta circunstância não garante que as testemunhas lembrarão corretamente da aparência do ladrão. [1]


Podemos citar alguns exemplos O torcedor de um time de futebol é capaz de lembrar do dia, do ano, da escalação, e do jogo em que seu time foi campeão, embora certamente não se lembrará da maioria dos detalhes da partida. A maior parte do conteúdo de discursos e sermões é facilmente esquecida, contudo a impressão gerada com grandes oradores e algumas frases marcantes são geralmente conservadas. Podemos citar alguns exemplos da história recente do Brasil, para um período de tempo comparável, em nossa perspectiva, ao Jesus histórico e os evangelhos.


"Não é o candidato que vai percorrer o País. É o anticandidato, para denunciar a antieleição, imposta pela anti-Constituição" (Ulysses Guimarães, 1973) [2]



"Eu os identifico a todos. E são muitos deles, os mesmos que, desde 1930, como vivandeiras alvoroçadas, vêm aos bivaques bolir com os granadeiros e provocar extravagâncias do Poder Militar", (Humberto Castelo Branco, 1965) [2]


"Senhor Presidente, há uma versão histórica; há, pelo menos, uma tradição legendária que declara que, no momento em que a maior justiça se encontrou com a maior injustiça e no dia em que o erro supremo se defrontou com a suprema verdade, nesse dia o juiz, o interessado na justiça, o representante de poder estatal, que era Pôncio Pilatos, em face da perturbadora fúria, em face do transviamento das multidões arrebatadas, esquecendo-se dos deveres morais que incumbiam a sua pessoa e dos misteres políticos que incumbiam a seu cargo, respondeu, a uma advertência, com estas palavras melancólicas: "Mas, o que é a verdade?" (Afonso Arinos, 1954). [2]


Assim, como nas frases em negrito dos discursos acima é relativamente comum relembrar frases soltas de líderes famosos, e até coleciona-las; no entanto, o contexto e a exata situação em que foram pronunciadas se perde frequentemente, e, nos casos acima, para esmagadora maioria das pessoas, somente a consulta a um livro de discursos, perdido em uma estante em canto escondido de uma biblioteca de primeira linha poderia esclarecer o contexto e exatas circunstâncias em que foram pronunciados (isso, é claro, antes do advento do Google Books). E qual o impacto dessa constatação para os estudos do Jesus Histórico e dos evangelhos?





Given that memory is “fuzzy,” that we remember the outlines of an event or the general import of a conversation better than the details, that we extract patterns and meaning from informational input, it would be peculiar to imagine that, although their general impressions of Jesus were hopelessly skewed, Christian tradents somehow managed to recall with some accuracy, let us say, two or three of his similitudes or parables and a handful of oneliners. (...) (tradução) Dado que a memória é "difusa", lembrando os contornos de um evento, ou o conteúdo geral de uma conversa, melhor do que os detalhes, que podemos extrair padrões e significados a partir do "input" de informações, seria peculiar imaginar que, embora as suas impressões gerais de Jesus estejam irremediavelmente distorcidas, os cristãos portadores da tradição, de alguma forma, conseguiram recordar, com alguma precisão, digamos, dois ou três de suas similitudes ou parábolas e um punhado de máximas e aforismos. [3]

Então, Allison vai construindo sua reinvidicação de que os elementos gerais, as impressões gerais, a "Big Picture", os padrões recorrentes que se observam na tradição, são os nossos melhores guiais para o Jesus Histórico. Ele vai além:




All this is why fictions may convey facts; an accurate impression can take any number of forms. Even a work as full of make-believe as the Alexander Romance sometimes catches the character of the historical Alexander of Macedon. Similarly, tales about an absent minded professor may be apocryphal and yet spot-on because they capture the teacher’s personality. The letter can be false, the spirit true. One student of human memory has justifiably asserted that “the gospels are more likely to be deeply true than superficially exact".
(tradução) tudo isso é porque a ficção pode transmitir fatos, uma imagem precisa pode ser expressa em um diferente número de formas. Mesmo um trabalho tão cheio de faz-de-conta como os romances de Alexandre, transmitem, por vezes, a realidade do Alexandre da Macedônia histórico. Da mesma forma, os contos sobre um professor distraído pode ser apocrífos e precisos, porque eles de fato capturam a personalidade do professor. A letra pode ser falsa, o espírito, verdadeiro. Um estudante da memória humana tem justificadamente afirmado que "os evangelhos são mais propensos a serem profundamente verdadeiros do que superficialmente exatos"[3]



Dalle Allison pondera que mesmo elementos fictícios de uma narrativa podem nos trazer alguma luz sobre fatos históricos. Ele cita os romances de Alexandre o Grande, elaborados a partir do III século, como exemplo de obras fictícias, mas que trazem, em alguns momentos, elementos que refletem a realidade do Alexandre, o Grande histórico.


O ponto que Allison enfatiza aqui é que mesmo o material fabricado ou falsificado pode nos permitir um vislumbre dos elementos autênticos.


A frase mais famosa atribuida a Maria Antonieta "Se não têm pão, que comam brioches", é apócrifa, segundo seus biografos, e somente foi associada a Rainha da França várias décadas após sua morte [4]. No entanto, o motivo pelo qual a frase "colou" a Rainha, se deve a sua imagem popular, desde os tempos da revolução francesa, de extravagante, frívola, esbanjadora, insensivel aos sofrimentos do povo e as finanças enfraquecidas da França, a Madame Déficit [4]. Ainda que essa caracterização seja em grande parte exagerada, e a frase inautentica, ela reflete a memória dos contemporâneos da Rainha, e permite um vislumbre, mesmo que distorcido, de sua personalidade [4].



Se, nas fontes cristãs primitivas (canônicas e apócrifas) nós temos ditos e eventos que foram fabricados ou alterados, temos que ter em mente que um falsificador busca atender certos interesses (sociais, financeiros,....) ao criar novos elementos ou textos. Mas o material fabricado deve ser apto de convencer como autêntico quem vai recebe-lo. Assim, o falsificador terá que utilizar cuidadosamente os conceitos do que as pessoas consideram autêntico e valioso. Paradoxalmente, quanto melhor é uma falsificação, mas ela nos informa sobre o que era considerado verdade, verossimilar, para um determinado grupo, no período em que a fraude foi produzida [4].

Você encontrará por aí relatos de notas falsificadas de Dolár, Euro, Libra e Real. Será bem mais difícil encontrar uma nota falsificada de uma moeda que não existe, ou em um valor que não existe (uma nota de R$ 35, por exemplo). Também existem diplomas falsificados de engenharia, direito ou medicina de faculdades renomadas. Mas é improvável que alguém produza um diploma de um curso universitário que não existe, de uma faculdade que ninguém ouviu falar. A existência de textos forjados em nome de Paulo já na segunda metade do séc II (como Atos de Paulo, 3 Corintios, ou Apocalipse de Paulo) já evidencia fortemente que as pessoas acreditavam não só que houve um lider cristão chamado Paulo cem anos antes, mas que era suficientemente influente para que falsários usassem o nome para dar credibilidade a seus próprios ensinos.

Assim, um pesquisador do ano 2600 DC, que quissesse pesquisar como eram as notas de R$ 10 no ano de 2000, mesmo que em sua época não existisse nenhuma dessas notas comprovadamente autênticas, poderia obter algumas impressões e ter noções gerais de como se pareciam se tivesse a sua disposição diversos lotes de notas falsificadas desse valor e período. Embora ele saiba que essas notas são falsas, ele sabe também que foram falsificadas com o objetivo de serem aceitas como verdadeiras. Assim, conservam certamente características que imitam as originais. Suas conclusões poderiam ser fortalecidas comparando com características de outras notas autênticas, de outros valores e períodos, que ele tivesse a sua disposição. Assim, se o hipotético pesquisador do futuro tiver a sua disposição um lote suficientemente grande e diversificado de notas falsificadas de R$ 10 do ano 2000, com algumas notas autênticas de outros valores, é possivel que ele consiga reconstruir como uma nota de R$ 10 se parecia, comparando as caracteristicas recorrentes nas falsificações diversificadas, com os elementos comuns das notas comprovadamente verdadeiras de outros valores e período semelhantes.


Um exemplo de um julgamento semelhante na pesquisa histórica são as cartas atribuidas a Apolônio de Tiana, uma coleção com cerca de 100 cartas, dentre as quais, o consenso entre os estudiosos é que grande parte são falsificações grosseiras posteriores, e sobre as demais não há consenso sobre se existem, e quais seriam, as cartas autênticas, uma vez que não há outros escritos de Apolônio de autenticidade comprovada, para que seja feitas comparações estílisticas [5] . No entanto, como observa o Professor Jona Lendering [6]:




The Letters of Apollonius are fabrications, but they serve to corroborate the tradition that the man from Tyana was a magician. Besides, the fact that someone decided to compose these letters in order to create a Greek, anti-Roman hero proves that Apollonius was by then a well-known figure. (Tradução) As cartas de Apolônio são falsificações, mas são úteis para corroborar a tradição que o homem de Tiana era um mágico. Além disso, o fato de alguém decidiu escrever estas cartas com objetivo de criar um héroi grego anti-romano prova que Apolonio era então uma figura bem conhecida. [6]


O caso de Apolônio é ainda mais interessante porque a sua principal fonte, uma biografia escrita por Flávio Filostrato, no início do século III, afirma ter usado como fonte principal um livro de memórias de um discípulo de Apolonio, chamado Damis. No entanto, como já vimos, o consenso acadêmico é de que, ou Filostrato inventou as memórias de Damis, ou, na melhor das hipóteses ele utilizou uma obra de um falsificador anterior [7]. No entanto, também nas memórias de Damis, Apolônio é frequentemente retratado como mágico e uma figura bem conhecida e requisitada nos círculos influentes [8]. Ainda, Luciano de Samosata (120-190 DC), em cerca de 180 DC, ao escrever sobre de Alexandre de Abonoteichus (105 - 170 DC), criador do culto ao deus Glicon, que Luciano considerava um charlatão, que na sua juventude teria sido discípulo de um mágico, seguidor da escola de Apolônio de Tiana (Alexandre o Falso Profeta, 5:31). Cassio Dio, em 230 DC, de uma forma um tanto zombeteira, diz que Apolônio de Tiana, fazendo um discurso em Éfeso, teve uma premonição no exato momento em que o Imperador Domiciano era morto (Historia Romana, 67.18.1), episódio que Filostrato também narra (Vida de Apolônio 8:26, baseado em uma tradição corrente em Éfeso). Dio também nos diz que o Imperador Caracala (211-217 DC) - filho de Julia Dona, "patrocinadora" de Filostrato - tinha atração por magia e construiu um santuário para o grande mágico Apolônio, em Tiana (Historia Romana 78.18.4).



Ou seja, a coleção das Cartas de Apolônio e o Diário de Damis são provavelmente falsificações, Luciano e Cassio Dio tenham escrito 80 a 130 anos, respectivamente após a morte de Apôlonio (e suas menções sejam breves, e possam refletir apenas o conhecimento comum sobre o filósofo em suas respectivas épocas), implicando que, isoladamente, seu valor como testemunho histórico é limitado. No entanto, a percepção de Apolônio como mágico e recorrentemente encontrada em cada uma dessas fontes, nos dando confiança de que essa faceta é provavelmente factual (uma vez também que é elemento constragedor que Filostrato tenta várias vezes, sem sucesso, explicar).



If general impressions are typically more trustworthy than details, then it makes little sense to reconstruct Jesus by starting with a few of the latter—perhaps some incidents and sayings that survive the gauntlet of our authenticating criteria—while setting aside the general impressions that our primary sources instill in us. The larger the generalization and the more data upon which it is based, the greater our confidence. The more specific the detail and the fewer the supporting data, the greater our uncertainty. We should, after reading Thucydides, be assured that there was indeed a PeloponnesianWar, even if we may well wonder about many of the details in his account. If, however, we were to doubt that there was a Peloponnesian War, how could we not be dubious of all the details?
(tradução) Se a impressão geral é tipicamente mais confiável que os detalhes, então faz pouco sentido tentar reconstruir Jesus tendo esses mesmos detalhes como ponto de partida—talvez alguns incidentes e ditos que sobrevivam ao gauntlet de nossos critérios de autenticidade— deixando de lado a impressão geral que nossas fontes nos transmitem. Quanto maior é a generalização e mais dados sobre qual esta se baseia, maior nossa confiança. Quanto mais especificos os detalhes, e menor a quantidade de dados que lhe dão base, maior deve ser nossa incerteza. Nos devemos, ao ler Tucidíades estar mais certos que houve uma Guerra do Peloponeso, mesmo quando nos questionamos sobre muitos elementos particulares de seu relato. No entanto, se, formos duvidar que houve uma Guerra do Peloponeso, como não iremos duvidar de todos os seus particulares?[8
]

Assim, Allison propõe principalmente uma mudança de foco. Tradicionalnente os estudiosos tem identificado os ditos e feitos de Jesus provavelmente autênticos dos provavelmente inautênticos, e construído um esboço do Jesus histórico com base nesses resultados. A nova proposta é, identificar os elementos recorrentes na tradição, e avaliar sua plausibilidade e verossemelhança, e só a partir dai, e de forma cautelosa, fazer julgamentos sobre pericopes individuais.




There is, happily, another path. The first-century traditions about Jesus are not an amorphous mess. On the contrary, certain themes, motifs, and rhetorical strategies recur again and again throughout the primary sources; and it must be in those themes and motifs and rhetorical strategies—which, taken together, leave some distinct impressions—if it is anywhere, that we will find memory. In this, Jesus is like the historical Socrates, who is often thought present notin this or that aphorism but above all in some of the philosophical interests and rhetorical strategies that recur in Plato’s early dialogues.
(Tradução) Há, felizmente, um outro caminho. As tradições do primeiro século sobre Jesus não são uma confusão amorfa. Pelo contrário, certos temas, motivos e estratégias retóricas recorrer novamente e novamente nas fontes primárias, e são nesses motivos e estratégias retóricas, que, em conjunto, deixam algumas impressões distintas, será, se em qualquer lugar, que vamos encontrar memória. Neste ponto, Jesus é como o Sócrates histórico, o qual geralmente acredita estar presente não neste ou naquele aforismo, mas, acima de tudo, em algumas das estratégias retóricas e interesses filosóficos que se repetem nos primeiros diálogos de Platão. [8]



Allison continua:



I am not, I should emphatically add, urging that all the stories in the Gospels must be unhistorical (I am far from being so skeptical) or that our sources fail to preserve some aphorisms of Jesus (again, my doubt is scarcely that large).That is, I am not, a priori, deciding how much history is or is not in the Gospels(which, in any event, is unfeasible, given how often my mind shifts on the issue). Rather, I am making a point about method, about how we may proceed, andcontending that the historian should heed before all else the general impressions that our primary sources produce. We should trust first, if we are to trust at all,what is most likely to be trustworthy. This requires that we begin, although we need not end, by asking, “What are our general impressions?” (tradução) Não estou, devo adicionar enfaticamente, insistindo em que todas as histórias dos Evangelhos deve ser ahistóricas (eu estou longe de ser tão cético) ou que as fontes não preservaram alguns aforismos de Jesus (mais uma vez, minhas dúvidas não são desse tamanho) . Ou seja, eu não estou, a priori, decidindo quanto do história eu encontro, ou não, nos Evangelhos (que, em qualquer caso, é inviável, dada a freqüência com a minha mente se desloca sobre o assunto). Pelo contrário, eu estou fazendo um ponto sobre método, sobre como podemos proceder, e argumentando que o historiador deve prestar atenção, antes de tudo, nas impressões gerais que as nossas fontes primárias produzem. Devemos confiar em primeiro lugar, se formos confiar em algo, naquilo que é mais provável que seja confiável. Isso exige que começamos, embora não seja o fim do caminho, perguntando: "Quais são as nossas impressões gerais?"[8]


E continua a defender sua proposta de se preferir o geral ao específico.





Modern medical experiments supply an analogy to my approach. Even a perfectly devised double-blind, randomized trial counts for little if taken by itself. What matters is replication. And for highly controverted issues, what finally matters is meta-analysis, the evaluation of a large, bundled number of individual studies, including those with possible design flaws. The tendency of the whole is what instills conviction, not any one trial or single piece of evidence. Why should it be any different with research about Jesus? We should,at least initially, be looking at macrosamples. We are rightly more confident about the generalities than about the particulars. We are more sure that Jesus was a healer than that any account of him healing reflects a historical event, more sure that he was a prophet than that any one prophetic oracle goes back to him. When the evangelists generalize, in their editorial comments, that Jesus went about teaching and casting out demons, these are, notwithstanding the redactional agendas, the most reliable statements of all.
(tradução) os modernos experimentos médicos fornecer uma analogia com a minha abordagem. Até um um experimento perfeitamente projetado, "double-blinded", aleatório é insuficiente, se tomadas por si só. O que importa é a replicação. E para questões altamente controvertidas, o que finalmente importa é meta-análise, a avaliação de um número grande de estudos individuais, incluindo aqueles com possíveis falhas de projeto. A tendência do todo é o que infunde convicção, não um julgamento ou evidencia isolada. Por que seria diferente com a pesquisa sobre Jesus? Devemos, pelo menos inicialmente, a olhar para questão macro. Estamos mais confiantes justamente nas generalidades do que sobre qualquer uma das particularidades. Nós temos mais confiança de que Jesus era um curandeiro, do que de qualquer relato isolado de cura realizado por ele reflita um evento histórico, mais certeza de que ele era um profeta do que sobre qualquer oráculo profético atribuido a ele. Quando os evangelistas generalizar, em seus comentários editoriais, que Jesus ensinava e expulsava os demônios, estes são, não obstante as agendas redacional, as declarações mais confiáveis de todas. [8]

Acima Allison tocou num ponto fundamental da pesquisa de Jesus. De modo geral, os fatos considerados como (quase) certos a respeito de Jesus envolvem, em sua maioria, generalidades. De fato, embora haja um consenso de que Jesus foi um exorcista, a avaliação de historicidade das narrativas individuais de exorcismo dos evangelhos é bem mais controversa.


A Professora Morna Hooker, da Universidade de Cambridge, escreveu, ainda nos anos de 1970 [9], uma consistente crítica que apontava as limitações dos critérios de historicidade, principalmente o de dupla dissimilaridade, então o "queridnho" dos estudiosos. Recentemente, Morna escreveu o prefácio do livro "Jesus, Criteria, and Demise of Authenticity" que reune a contribuição de vários estudiosos associados a uma conferência que será realizada em outubro deste ano, na Lincoln Christian University (Illinois, EUA). Professora Hooker chega a conclusões muito parecidas com as de Dalle Alisson:





If we concentrate on the whole rather than the details, however, we shall find that we know quite a lot about Jesus, even though we may not be able to reconstruct with certainty any of his sayings or actions. It is clear, for example, that he spoke with impressive authority, even though there is considerable doubt about the exact form of all the stories demonstrating that fact. It is beyond question, also, that he taught in parables, however difficult it may be to reconstruct them, or to be certain about their original meaning. Few scholars, if any, have doubted that the centre of his teaching was the Kingdom of God – though what he might have meant by that phraseis again a matter of dispute. He also performed various miracles, even though we may disagree about precisely what happened or how. Again, while various stories and sayings may or may not be “accurate,” it is clear that he befriended those on the outskirts of society and that he offended the religious and political leaders. It seems clear, too, that he called men to be his disciples – though whether or not there were in the inner circle is not so certain – and that he demanded – and inspired –remarkable devotion on their part. It is indisputable that he was put to death by the Roman authorities – though to what extent the Jewish authorities were involved is far from clear – and that his followers came to believe that he had been raised from the dead, though how and where they came to that conviction it is now impossible to say. This conviction about the resurrection may perhaps provide a good model forthe way in which we should proceed. The details of the resurrection story differ from one account to another, and the more we ask “What exactly happened?” the more perplexed we shall be. But that the disciples came to believe that Jesus had been raised from the dead is indisputable. Perhaps, then, we shall find the “real” Jesus, not by seeking for the “historical,” but – as some are now arguing – in looking at the“memory” that he left. [9] (Tradução) Se nos concentrarmos no todo e não nos detalhes, no entanto, veremos que nós sabemos muito sobre Jesus, embora não sejamos capazes de reconstruir com certeza qualquer de suas frases ou ações. É claro, por exemplo, que ele falava com autoridade impressionante, mesmo que não haja dúvidas consideráveis sobre o forma exata de todas as histórias que demonstram esse fato. É indiscutível, também, que ele ensinou em parábolas, por mais difícil que seja para reconstruí-las, ou para ser certainabout seu significado original. Poucos estudiosos, se houver, ter duvidado que o centro de seu ensinamento era o Reino de Deus - embora o que ele poderia ter significado por que phraseis novamente uma questão de disputa. Ele também realizou vários milagres, ainda que possamos discordar sobre precisamente o que aconteceu ou como. Mais uma vez, enquanto várias histórias e provérbios podem ou não ser "preciso", é claro que ele fez amizade com aqueles nas margens da sociedade e que ele ofendeu os líderes religiosos e políticos. Parece claro, também, que ele chamou alguns homens para serem seus discípulos - que se houve ou não um círculo mais intimo não é tão certo - e que ele exigiu - e inspirou-notável devoção da sua parte. É indiscutível que ele foi condenado à morte pelas autoridades romanas - mas até que ponto as autoridades judaicas estavam envolvidos está longe de ser claro - e que seus seguidores passaram a acreditar que ele havia sido ressuscitado dos mortos, embora como e de onde vieram a convicção de que agora é impossível dizer. Essa convicção sobre a ressurreição talvez nos forneça um bom modelo no qual se deve proceder. Os detalhes da história da ressurreição diferem de uma conta para outra, e quanto mais perguntar "O que aconteceu exatamente?" mais perplexos nos tornamos. Mas que os discípulos passaram a acreditar que Jesus tinha ressuscitado dos mortos é indiscutível. Talvez, então, vamos encontrar o "verdadeiro" Jesus, não por buscar o "histórico", mas - como alguns estão agora discutindo - em olhar para a "memória" que ele deixou [9]

Allison chama a sua proposta de atestação recorrente.





Scholars commonly have conducted business as though all this were true. They have, for example, rarely disputed that Jesus taught about the kingdom of God, despite the failure of that theme to pass the criterion of double dissimilarity. The reason must be that ἡ βασιλεία τοῦ θεοῦ is so frequentlyattested. This is a question not of multiple attestation—a particular saying or event being independently attested in two or more sources—but rather of what one might call “recurrent attestation,” by which I mean that a topic or motif or type of story reappears again and again throughout the tradition" (tradução) Estudiosos geralmente têm conduzido seu trabalho como se tudo isso fosse verdade. Por exemplo, raramente contestam que Jesus ensinou sobre o reino de Deus, apesar do fracasso desse tema para passar a critério da dupla dissimilaridade. A razão é que ἡ βασιλεία τοῦ θεοῦ é tão frequentemente atestado. Esta é uma questão não de multipla atestação, um dito ou evento particular que está sendo independentemente atestado em duas ou mais fontes, mas, antes, o que poderia se chamar de "atestação recorrente," por que eu quero dizer que motivo ou tópica ou tipo de história reaparece de novo e de novo em toda a tradição.


No que se refere aos critérios em si, a "atestação recorrente" é basicamente uma modificação do critério da multipla atestação, passando a não mais considerar como requisito indispensável a independência das tradições. De fato, Allisson não rejeita completamente os critérios tradicionais, e concede a possibilidade de sua utilização, reconhecendo casos de historicidade quase certa, como o ensino sobre o divórcio (encontrado em Paulo, Q e Marcos) , o qual a possibilidade de invenção pela Igreja Primitiva era pouco provável (critério da diferença e múltipla atestação) [11]. No entanto, ele entende que casos seguros de historicidade (ou ahistoricidade) de eventos isolados são extremamente limitados [11].



Concluindo, entendo que Dalle Allison nos apresenta, principalmente, uma proposta de mudança de foco. Segundo ele, a tradição evangélica deve ser analisada de forma global, identificando os elementos recorrentes, analisando sua plausibilidade e verossimlhança, traçando um esboço dos traços da figura de Jesus, e só então, partir para os incidentes e ditos relatados nas fontes. É um rompimento com o "approach" de boa parte da academia de analisar os evangelhos com os critérios de historicidade, separar autentico do supostamente inautêntico, e traçar o retrato com bases nesses "fatos" identificados.



Referências Bibliograficas

[1] Dalle Allison (2011) Constructing Jesus, History, Memory, and Imagination, fl. 10-11

[2] Ulysses Guimarães Discurso na Convenção do Movimento Democratico Brasileiro (MDB) de 23.09.1973, em que foi nomeado candidato a presidente, tendo Barbosa Lima Sobrinho como companheiro de chapa. ver "No regime militar, Ulysses foi anticandidato em antieleição", Estado de S. Paulo, 30.10.2010; Humberto de Alencar Castelo Branco "Discursos‎", Volume I, 1965; Afonso Arinos, lider da minoria (UDN-MG), Discurso no plenário da Câmara dos Deputados, 09.08.1954, depois do atentado contra o Carlos Lacerda que vitimou o Major Aviador Rubens Florentino Vaz, e que envolvia o chefe da guarda pessoal do Presidente Vargas, Gregorio Fortunato. Quinze dias depois desse contundente discurso Getulio Vargas se suicidou; ver Grandes Momentos do Parlamento Brasileiro - Pronunciamentos em Ordem Cronológica, Volume 1, http://www.senado.gov.br/senado/grandesMomentos/pron1.shtm#2_Afonso

[3] Dalle Allison (2011) Constructing Jesus, History, Memory, and Imagination, fl. 13

[4] Sobre a frase infame ver Evelyne Lever (2000) Maria Antonieta, Ultima Rainha da França, fl. 361. Sobre a imagem e personalidade da Rainha (e do Rei Luis XVI), Eric Hobsbawn é extremamente severo "Só sonhadores irrealistas suporiam que Luis XVI pudesse ter aceito a derrota e imediatamente se transformado em monarca constitucional, mesmo que ele tivesse sido um homem menos desprezível e estupido do que era, casado com uma mulher menos irresponsável e com menos miolos de galinha" em Eric J Hobsbawm(1996), A Revolução Francesa, fl. 24. Antonia Fraser discorda, e afirma que ao invés de desprezar os pobres famintos, Maria, como filantropa, teria mais provavelmente dado de seus bolos para alimentar o povo (Antonia Fraser, 2001: Marie Antoinette, The Journey, Authornote, xx) . Lever, entre gregos e troianos, afirma que Maria Antonia era realmente frívola, mas sentimental (Maria Antonieta, Ultima ..., fl. 344).

[5] ver Robert J. Penella (1979) The letters of Apollonius of Tyana: a critical text with prolegomena, translation and commentary, fls 24-25 e 28. Maria Dzielska (1986), Apollonius of Tyana in legend and history, fl. 190. As cartas e as demais fontes sob Apolonio foram discutidas aqui no Adcummulus anteriormente.

[6] Jona Lendering, Apollonius of Tyana, Parte 3: "Apollonius' Letters", disponivel online www.livius.org/ap-ark/apollonius/apollonius03.html#Apollonius%27%20letters, acessado em 09.03.2012

[7] ver Maria Dzielska (1986), Apollonius of Tyana in legend and history, fls. 19, 185, 190-191; Ewen Lyall Bowie (1978), Apollonius of Tyana, Tradition and Reality, in ANRW, 2.16.2, fls. 1685-1686; John Ferguson (1970) Religions of Roman Empire, fl. 182; Jan Jaap Flinterman, Sumário de Politiek, Paideia & Pythagorisme (1993), disponível em http://www.xs4all.nl/~flinterm/Power-Paideia-Pythagoreanism.html, acessado em 09.03.2012

[8] Dalle Allison (2011) Constructing Jesus, History, Memory, and Imagination, fl. 14-16

[9] Morna Hooker (2012), Foreword In Jesus, Criteria, and the Demise of Authenticity (2012), editado por Chris Keith and Anthony LeDonne, fls. 3-4

[10] Dalle Allison (2011) Constructing Jesus, History, Memory, and Imagination, fl. 19

[11] Dalle Allison (2011) Constructing Jesus, History, Memory, and Imagination, fl. 21-22

domingo, 4 de março de 2012


Eu, Rodrigo (Informadordeopiniao) e o colega biblioblogueiro Francisco Jr. temos mantido um cordial e profícuo debate a respeito do sentido do batismo de Jesus. Muito interessante, porque há este costume na esfera internacional da biblioblogosfera, de interação e debates clássicos, como o de Larry Hurtado com James F. McGrath.

Ele advoga que na ocasião do batismo, Jesus o buscara por se considerar pecador e buscar se arrepender de pecados individuais. Eu advogo, mais próximo a J. P. Méier, que Jesus buscara o batismo se associando cerimonialmente ao arrependimento coletivo da nação para poder inaugurar sua missão. A primeira perspectiva está intimamente associada à concepção de que Jesus fora primeiramente discípulo de João, sem então pretender algo mais; a segunda, que ele se associara ao círculo de João, mas já tinha uma perspectiva escatológica na qual, sua própria obra e pessoa desempenharia importante papel.  Quem quiser ver as postagens do colega, minhas respostas e a tréplica dele podem acompanhar nos links abaixo, para se situar melhor no contexto da controvérsia:

Aqui tomo a liberdade de poder recapitular a resposta a última postagem dele, num espaço mais propício do que o de comentários. As citações do nosso colega virão em destaque. 

Preliminarmente, acompanho Francisco nestas ponderações e aplico-a aqui, muito embora eu esteja epistemologicamente a um meio termo entre o coerentismo e o fundacionismo, adotando o realismo crítico.

Também ressaltamos não ser nosso objetivo esgotar o assunto, nem parecermos os “donos da verdade”: nossa concepção de verdade dentro de um contexto argumentativo é meramente coerentista e não metafísica. O objetivo é alcançar um consenso, o qual poderá ser modificado em qualquer época, inclusive abandonado por completo, através de novas descobertas e da própria evolução do conhecimento. Portanto, as conclusões apresentadas nesse texto longe estão de configurar-se a “verdade última” acerca da questão abordada.

E aqui também buscarei tecer ponderações, sem a preocupação da meticulosidade de um programa de um trabalho acadêmico. Advirto preliminarmente que mantenho em aberto a possibilidade de Jesus ter buscado o batismo para se arrepender de pecados pessoais e se conceber como pecador, na esteira da tradição de Hollenbach, “The Conversion of Jesus: From Jesus theBaptizer to Jesus the Healer". Contudo, creio ter motivos suficientes para conceber que não foca o caso.

Uma correção importante a se fazer no tocante a premissas:

- Pela cristologia tradicional, não se é um obstáculo intransponível a possibilidade de que Jesus tenha se reconhecido como pecador no momento do batismo. Pois ela não exige que ele tenha consciência encarnacionista neste momento. Ele poderia:

a) não ter a princípio, e logo em seguida ter, uma autoconsciência mais elevada, devido a uma epifania. Há que se conceber que havendo ali uma “confissão de pecados”, e “arrependimento”, não necessariamente seria questão de se pesar na balança ações particulares, mas posturas vivenciais; assim, alguém com senso de vocação profética poderia  passar por uma crise de consciência de até então não estar ainda cumprindo e vivendo a vocação na radicalidade que ela exige.

b) uma autoconsciência mais elevada poderia se desenvolver ao longo do ministério. Há fortes indícios de que Jesus foi tomando sobre si uma postura orientada a enfrentar o desafio em uma concepção de uma missão histórica sacerdotal de Israel para a qual este teria falhado, e encarnar essa figura coletiva em si mesmo ( Tom Wright, “Jesus and the Victory of God”, Scot McNight, “A new vision for Israël: the teachings of Jesus in national context").

Eu mesmo digo que minha postura em conceber Jesus tendo procurado o batismo de João, associando-se a um arrependimento coletivo da nação, não tem a ver de forma alguma com ele se conceber como impossível de pecar, mas sim, por minha visão da auto-concepção dele de estar dando início a um ministério em que se incumbiria de uma vocação mista entre sacerdotal e profética, assumindo o que tomava como o encargo missiológico histórico de Israel.

c) a própria concepção encarnacionista poderia ser compreendida pelos discípulos como experiência pós-pascal. E para aqueles que acreditam na ressurreição, poderia ter advindo em Jesus, derivado dela.
De fato, muitos pesquisadores proeminentes creem que o evento pós-pascal foi decisivo para a questão da cristologia elevada; que os discípulos teriam desenvolvido uma compreensão de Jesus ter um status ao lado de YWHW e ser adorado juntamente com ele, após o evento pós-pascal, sendo este um impactante divisor de águas. Com diferenças entre si, poderíamos citar LukeTimothy Johnson, David Capes, Carey C. Newman e Larry Hurtado. Esclarecido isto, podemos tirar qualquer peso de estigma apologético em nossa posição.

Em suma, uma visão que conceba a busca do batismo por Jesus com nuances conspícuas, não sendo advinda de uma consciência de ser pecador e arrependimento de pecados pessoais, não pode necessariamente ser acusada de apego dogmático, tanto quanto uma outra não pode ser necessariamente acusada de ser predisposta a ser anticristã.

Diante disto, examinemos alguns trechos-chave:
a coletividade do perdão era apenas uma possibilidade, não uma regra.

Mas para os fins aqui, não se necessita que fosse uma regra; o mesmo se poderia dizer para a contrição individual.

Estamos falando de indivíduos com sua vida e suas complexidades. Os sistemas sociais são os mais complexos porque são constituídos dos elementos mais complexos, seres humanos. Logo, nesta questão, nunca podemos afirmar com toda certeza algo sobre a consciência do indivíduo, sem ele mesmo se expressar claramente. Muitas pessoas se sentem deslocadas quanto a sua cultura, em todos os tempos.

E aquilo ao qual Stendhal se referia ao criticar a abordagem luterana de Paulo não se reduz meramente a ter consciência de responsabilidade individual. Mas colocar o íntimo individual no centro do palco do drama da existência humana, em detrimento da inserção em uma idéia de meio coletivo. É o eu interior autônomo ante o “nós” exterior.

Desta forma, o que temos de mais materiais sobre a fé hebreia e judaica é de que a preocupação de sua divindade quanto ao plano para o mundo era do coletivo para o individual, não o individual que se somando faz um coletivo composto de partes mônadas. Aplica-se o que Durkheim postulava, “em contraste, as crenças e práticas sociais agem sobre nós a partir de fora; assim, a ascendência exercida pela primeira tal como comparada à segunda é basicamente muito diferente.”

Os próprios textos citados por Francisco, de Paulo e João, se dão em um contexto de responsabilidade do indivíduo, focando a comunidade, e não abstraindo-se dela. Romanos 5.12 enfatiza que “a morte passou a todos os homens, porque todos pecaram”, tratando daí a responsabilidade coletiva.  A consciência individual do pecado em nada invalidava ou desarticulava o caráter coletivo do pecado, porque a formação do pecado no indivíduo se dava na participação do coletivo nele, e não à parte. Romanos 6.23 continua depois falando sobre a imputação coletiva da justiça nos crentes. E I João 1.10 está justamente frisando a responsabilidade comunitária. 

A passagem clássica de Ezequiel, que Francisco citou, se dá contra a perspectiva da maldição hereditária e do condeno aos descendentes, mas não é um texto em que se retira a ideia da responsabilidade coletiva e do indivíduo na coletividade. É importante tratar que não estamos pondo em questão o senso de responsabilidade individual na Antiguidade, mas o senso do indivíduo independente como uma mônada, ante seu coletivo, enfatizando somente o seu “eu”. Decerto, havia uma tensão nas manifestações judaicas daquele tempo do século I.

4 Esdras 7.46-48:

Quem dos que entraram no mundo não pecou? Ou quem dentre os nascentes na terra não transgrediu Tua aliança? Vejo, agora, que a era vindoura a poucos trará alegria, mas tormenta para muitos. Pois cresceu em nós o coração mau que nos afastou do Altíssimo, levou-nos à destruição, fez-nos conhecer os caminhos para longe da vida! E isso não se aplica somente a alguns, mas praticamente a todos os que foram criados!


Conferir melhor em Jacob Neusner, “Comparing Judaisms”, History of Religions 18 [1978-1979], n.14.

Não estamos pondo em julgamento as inferências sobre João quanto:
a) O batismo (o ato)
b) O perdão/remissão dos pecados (o fim)
c) O arrependimento (elemento interno)
d) A confissão (elemento externo)
Embora acrescentemos em b) a concordância em fazer parte de um grupo separado, renovado, pronto para o advento da irrupção final do plano de YWHW para o mundo. E não temos elementos suficientes para saber como se dava d), se particular para João, se para todos, ou se no íntimo para com Deus.

Para se fiar nessas inferências precisa-se depositar uma confiança razoavelmente boa nos evangelhos, porque não é o retrato que Josefo passa.

O que está em questão era o fato de que seria lógico e necessário deduzir que todos os que buscassem seu batismo pensariam apenas no seu “eu” e não na participação no coletivo, no povo, na nação, na condição do povo e nação. E isto se reforça ainda mais se tratando de pessoas que tivessem um senso de que teriam uma missão relacionada e vital para a condição do povo e nação. Isto faria com que ela se identificasse ainda mais com tal. 


Há um grande erro aqui: não se pode afirmar que 
A finalidade é alcançar o perdão/remissão, ou seja, o efeito mágico
, porque não se considerava o batismo por si só como tendo poder, mas esperava-se que ele sinalizaria uma mudança de postura com a qual se estava habilitado e em sintonia com a vontade soberana da divindade, que concederia graciosamente o perdão. O batismo dentre judeus assim não pode ser associado ao rito mágico, por não ser um fator de manipulação de forças sobrenaturais.O ato de remissão de pecados partiria da divindade.

Méier não arroga que seus argumentos sejam conclusivos, e até pondera que eles não necessitam ser. Eles possuem a força de mostrar que não se tem necessidade de inferir que Jesus, por força de lógica, buscou o batismo para se arrepender de seus pecados pessoais – melhor, sua vida pecaminosa passada, pois o batismo focava menos atos particulares do que uma postura que os desencadeava.

o que não foi o caso de João Batista em seu batismo
Sendo o batismo de João voltado para toda nação, e sendo claramente uma alternativa ao serviço do Templo, é natural concluir que possuía sim a dimensão do chamado coletivo de preparação para o eschaton. A indicação de que ele imaginava o advento da irrupção final de Deus na história mediante e, tendo como fenômeno imediato, um agente especial é muito forte.

O batismo na seita de Qumrã mesmo era justamente este, o buscar purificar-se do pecado advindo da participação coletiva para ser o novo povo santificado no eschaton. Na Regra da Comunidade, era o rito de passagem para a verdadeira comunidade da aliança, a separação com o restante impuro. 1QS 5,8.20; 6,15; vejamos 5,13: “Que o ímpio não entre nas águas para participar da ‘pureza’ dos homens de santidade”.

E demais, não há nenhuma necessidade para o argumento de Méier, de que “todo o processo visava o perdão da coletividade”. E de fato, ele não diz isso.

Quando Francisco fala de que a Lei Mosaica visava 
“regular o comportamento individual do israelita/judeu”
, esqueceu-se de frisar que eles concebiam que tal poderia impurificar toda a comunidade, e que a comunidade impura repassava isso para os membros; e que estes se tornavam impuros também diante de Deus e assim perdiam a comunhão com Ele.

Diversas vezes se refere-se na Bíblia Hebraica que “Israel pecou” (como em Josué 7:11-13, dentre muitos outros), e ao “o pecado de Israel”. Logo, é inapropriado dizer que a definição de pecado lá era “atos individuais”. Contempla, mas nãos e restringe nem mesmo se foca neles.

O termo 'hatta'a', tinha o sentido básico de "errar um alvo ou um caminho", e também o termo 'awon', o sentido de "transgressão". Logo, o pecado acarretava quebra de relacionamento. 

Diversos profetas, como Amós, Isaías, Jeremias, denunciavam a opressão da classe dominante sobre o povo. Contudo, costumavam conclamar todo o Israel ao arrependimento, porque o viam como uma nação, não um conjunto de mônadas individuais.

Eu não vi no livro de Méier alguma afirmação de que Jesus buscou “garantir sua salvação” no batismo. Quanto a “mudar de vida”, isso pode indicar a virada para sua missão. Como diversos profetas tiveram sua “mudança de vida”. A dedicação exclusiva, o chamamento de discípulos, a proclamação do Reinado, o efetuar de milagres, o confronto com instituições religiosas, mudanças em sua auto-percepção. De forma alguma uma alternativa a isso seria uma vida com pecados... diversos homens piedosos poderiam sê-lo, ferrenhamente, sem isso.

E o que Jesus poderia buscar garantir ali era justamente a fidelidade a um chamado que creia ter recebido da parte de Deus para uma missão especial.

Reforço a isso: minha concepção de que de fato João anunciava um precursor decisivo para a irrupção final de YWHW na história, e não sua vinda direta e imediada, como Crossan advoga; João ter ficado em dúvidas e mandado questionar Jesus, o que sugere que antes ele nutria altas expectativas quanto a ele (Mt 11,2-6 e Lc 7,18-23); e Jesus ter recrutado para si discípulos de João, que “debandaram” a seguir Jesus tal como o antigo mestre.  

Julgo que, adentrar e aprofundar na questão do caráter da natureza ontológica de Jesus e sua implicação para com se teve cometido pecados ou não, acaba situando-se no campo da apologética, o que não vejo oportuno neste momento.






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