Estudos sobre Religião - Biblioblog

quinta-feira, 21 de julho de 2011

No livro dos Atos dos Apóstolos, encontramos um relato que constituiria um dos pontos cardeais para a história posterior da cristandade. Tal relato encontra-se no capítulo 15 e trata do famoso Concílio de Jerusalém. A partir dele, descobrimos que havia entre os seguidores de Jesus alguns judeus oriundos da seita dos fariseus que haviam aderido ao movimento cristão (At 15,5). Descobrimos também que cristãos judaizantes estavam pregando entre os gentios (At 15,1). Em sua pregação, afirmavam que os gentios deveriam “circuncidar-se e guardar a lei” para que pudessem tornar-se cristãos. O problema colocado pelo texto, portanto, não era secundário nem meramente disciplinar: tratava-se de determinar qual seria o estatuto religioso dos gentios dentro do movimento de Jesus. Eles poderiam ingressar diretamente na comunidade messiânica mediante a fé em Cristo ou precisariam, antes, assumir a identidade religiosa judaica mediante a circuncisão e a observância da Torah?

Atos 15,1 e 15,24 evidenciam que alguns desses pregadores estavam relacionados à própria Igreja de Jerusalém. O texto afirma que eles haviam saído de lá e que, ao chegarem às comunidades gentílicas, estavam “perturbando” os cristãos com sua pregação. A linguagem empregada por Lucas é particularmente significativa: esses homens estavam “perturbando” e “subvertendo” as almas dos gentios, ensinando-lhes algo que, segundo os apóstolos e presbíteros de Jerusalém, não havia sido autorizado pela comunidade apostólica (At 15,24). Não se tratava, portanto, de uma diferença meramente teórica entre escolas de interpretação. A questão já havia produzido consequências concretas nas comunidades e ameaçava criar uma condição de pertencimento diferenciada para os cristãos provenientes do mundo gentílico. Atos 15,2 nos mostra que Paulo e Barnabé tiveram “grande discussão e contenda” com esse grupo de cristãos judaizantes. Diante da impossibilidade de solucionar localmente a controvérsia, os dois grupos foram enviados a Jerusalém para que a questão fosse examinada pelos apóstolos e pelos anciãos. A pergunta fundamental era, então, bastante precisa: os gentios, para se tornarem cristãos, deveriam primeiro circuncidar-se e “guardar a Lei”?

Quando a questão começou a ser formalmente exposta no Concílio, os cristãos provenientes do grupo dos fariseus levantaram-se e defenderam precisamente essa posição. Atos 15,5 registra que alguns deles afirmavam ser necessário “circuncidá-los e mandar-lhes que guardassem a lei de Moisés”. Em outras palavras, a proposta implicava uma espécie de judaização dos gentios como condição de plena incorporação ao povo messiânico. O gentio não seria simplesmente admitido como gentio na comunidade cristã; deveria atravessar previamente a fronteira identitária estabelecida pela Torah. Em termos práticos, a circuncisão funcionaria como sinal corporal dessa incorporação e a observância da Lei como demonstração permanente de pertencimento. Atos 15,7 nos informa que houve “grande contenda”. A comunidade apostólica encontrava-se, portanto, diante de uma disputa de enorme alcance: de um lado, aqueles que defendiam que os cristãos gentios deveriam circuncidar-se e observar a Lei de Moisés; de outro, Paulo e Barnabé, que sustentavam que a incorporação dos gentios à comunidade messiânica não poderia depender dessa transformação prévia de identidade.

A resolução do impasse é apresentada por Tiago, identificado tradicionalmente como Tiago, o Justo, líder da Igreja de Jerusalém. Depois de ouvir Pedro, Paulo e Barnabé, Tiago propõe que não se imponha aos gentios “maior encargo” além de determinadas prescrições: deveriam abster-se “das coisas sacrificadas aos ídolos, e do sangue, e da carne sufocada, e da prostituição” (At 15,29). A decisão é posteriormente incorporada à carta enviada às comunidades gentílicas. O ponto fundamental é que a Igreja de Jerusalém acabou por rejeitar a exigência de circuncisão e da observância integral da Lei de Moisés como condição para o ingresso dos gentios na comunidade cristã. Isso é particularmente importante porque a proposta recusada não era uma invenção de adversários externos: ela havia sido defendida por membros provenientes do próprio ambiente farisaico e, segundo Lucas, por pessoas vinculadas à comunidade de Jerusalém. O Concílio não aboliu a Torah para os judeus; tampouco estabeleceu que judeus cristãos deveriam abandonar suas práticas ancestrais. O que fez foi estabelecer uma distinção fundamental entre a condição religiosa dos judeus que aderiam a Jesus e a condição dos gentios que ingressavam na comunidade messiânica.

Uma questão importante surge, então, a partir da análise do tipo de recomendações feitas por Tiago aos cristãos gentios. Essas prescrições não parecem constituir simplesmente uma lista arbitrária de comportamentos moralmente desejáveis. Elas podem ser compreendidas dentro de uma tradição judaica mais ampla relativa às obrigações mínimas exigíveis dos não judeus que desejassem viver em relação com Israel e com o Deus de Israel. É nesse contexto que ganha relevância a posterior categoria rabínica das leis noáquicas, embora seja metodologicamente necessário evitar uma identificação automática entre o Decreto de Jerusalém e a formulação rabínica posterior das sete leis de Noé. A Jewish Encyclopedia, em sua discussão sobre o Novo Testamento, relacionou historicamente o acordo de Jerusalém à condição dos chamados “prosélitos da porta”, isto é, gentios que poderiam aproximar-se da comunidade judaica sem assumir integralmente a identidade judaica. O artigo afirma:

“Como foi grande o sucesso de Barnabé e Paulo no mundo pagão, as autoridades em Jerusalém insistiram sobre a circuncisão como condição de admissão de membros na igreja, até que, por iniciativa de Pedro e de Tiago, o chefe da igreja de Jerusalém, foi acordada a aceitação das Leis Noáquicas — ou seja, sobre a abstenção da idolatria, da prostituição, do consumo de carne de um animal vivo — as quais deveriam ser exigidas dos gentios desejosos de entrar na Igreja.” (JEWISH ENCYCLOPEDIA, s.d.).

A formulação merece, entretanto, uma cautela histórica. Não devemos simplesmente projetar sobre Atos 15 o sistema rabínico completo das sete leis noáquicas tal como este seria posteriormente sistematizado. O problema é cronológico e conceitual. O que podemos afirmar com maior segurança é que as prescrições de Atos 15 participam de um universo judaico no qual determinadas obrigações eram atribuídas aos povos não judeus em sua relação com Deus, com Israel e com as normas fundamentais da vida humana. A aproximação entre o Decreto Apostólico e as tradições noáquicas é, portanto, historicamente sugestiva, mas deve ser tratada como continuidade de uma tradição conceitual, e não como prova de que os apóstolos já possuíssem uma formulação rabínica acabada das sete leis de Noé.

Um dos testemunhos judaicos mais antigos para a existência de uma tradição relativa aos mandamentos dados a Noé encontra-se no Livro dos Jubileus, obra normalmente situada no século II a.C. Em Jubileus 7,20–28, encontramos uma passagem particularmente significativa:

“E no ano do vigésimo oitavo jubileu, Noé começou a dar aos seus filhos as ordenanças, os mandamentos e todos os julgamentos que conhecia. E exortou seus filhos a observar a justiça, a cobrir a vergonha de sua carne, a abençoar seu Criador, a honrar pai e mãe, a amar seu próximo e a guardar suas almas da fornicação, da impureza e de toda iniquidade [...]. Pois aquele que derramar o sangue de um homem, e aquele que comer o sangue de qualquer carne, será exterminado da terra.” (JUBILEUS, 7,20–28).

A aproximação com Atos 15 torna-se interessante justamente porque não estamos diante de uma correspondência perfeita, mas de um campo comum de preocupações religiosas. Em Jubileus encontramos justiça, relação com Deus, honra aos pais, amor ao próximo, condenação da fornicação e proibição do sangue. Em Atos encontramos idolatria, relações sexuais ilícitas, sangue e carne sufocada. Se acrescentarmos a essas prescrições a tradicional síntese ética atribuída por Jesus ao amor a Deus e ao próximo (Mc 12,28–31), emerge um quadro que apresenta notáveis afinidades com a tradição judaica relativa às obrigações universais da humanidade. A hipótese que se coloca, portanto, não é necessariamente a de que Tiago estivesse simplesmente reproduzindo um texto de Jubileus, mas a de que o Decreto de Jerusalém pode ser compreendido dentro de uma tradição judaica mais ampla que distinguia entre as obrigações específicas de Israel e determinadas obrigações religiosas consideradas universais.

Um ponto particularmente interessante aparece quando Paulo retorna a Jerusalém, em Atos 21, e reencontra Tiago e os anciãos. Tiago o adverte acerca dos milhares de judeus que haviam aderido ao movimento de Jesus e que permaneciam “zelosos da Lei”. Existia entre eles o temor de que Paulo estivesse ensinando aos judeus da diáspora a abandonar os costumes ancestrais. A questão já não dizia respeito somente aos gentios: a própria pregação paulina começava a ser percebida como potencialmente ameaçadora para a continuidade da identidade judaica dentro do movimento cristão. É nesse contexto que Tiago recorda explicitamente a decisão tomada anteriormente acerca dos gentios:

“Quanto aos gentios que abraçaram a fé, já lhes escrevemos sobre nossas decisões: que se abstenham das carnes imoladas aos ídolos, do sangue, das carnes sufocadas e das uniões ilegítimas.” (At 21,25).

A repetição do Decreto é extremamente significativa. Se as prescrições de Atos 15 fossem apenas uma recomendação circunstancial, sem aplicação continuada às comunidades gentílicas, seria difícil compreender por que Tiago as recordaria novamente anos depois. O texto sugere, ao contrário, que a distinção estabelecida em Jerusalém continuava sendo considerada válida. Os gentios não precisavam tornar-se judeus para pertencer à comunidade cristã, mas sua incorporação não era apresentada como religiosamente desprovida de obrigações. Existia uma condição intermediária: não eram submetidos à totalidade da Torah, mas também não ingressavam na comunidade como se nenhuma norma religiosa lhes fosse aplicável.

É precisamente aqui que a comparação com Paulo se torna particularmente interessante. Ao examinarmos 1 Coríntios 10,25–30, encontramos uma posição aparentemente mais flexível em relação às carnes relacionadas aos sacrifícios pagãos. Paulo afirma:

“Tudo o que se vende no mercado, comei-o sem levantar dúvidas por motivo de consciência. Pois ao Senhor pertence a terra e tudo o que ela encerra. Se um pagão vos convidar e aceitardes o convite, comei de tudo o que vos for oferecido, sem levantar dúvidas por motivo de consciência. Mas se alguém vos disser: ‘Isto foi oferecido em sacrifício’, não comais, por causa daquele que vos advertiu e por motivo de consciência.” (1Cor 10,25–28).

A posição paulina exige uma análise cuidadosa. Paulo não parece simplesmente ignorar o problema da idolatria; sua argumentação desenvolve uma distinção entre o alimento enquanto realidade material e o significado religioso atribuído ao seu consumo. A carne vendida no mercado pode ser consumida sem investigação sobre sua procedência ritual. Entretanto, quando o caráter sacrificial é explicitamente colocado em evidência, a situação muda por causa da consciência do outro e do perigo de transformar o ato alimentar em participação simbólica na idolatria. A ética paulina, portanto, desloca o centro da questão: não se trata apenas de saber se determinada carne foi ou não sacrificada a uma divindade, mas de compreender qual significado religioso o ato assume dentro da comunidade.

Aparentemente, Paulo flexibiliza ainda mais a aplicação das recomendações atribuídas ao Decreto Apostólico, especialmente no que toca às práticas dietéticas. Isso não significa necessariamente que Paulo estivesse conscientemente rejeitando o Concílio de Jerusalém. É possível que estejamos diante de diferentes aplicações pastorais de uma decisão cuja formulação original era bastante concisa. Também é possível que a tradição lucana e a tradição paulina reflitam perspectivas diferentes sobre a extensão prática das normas estabelecidas em Jerusalém. O dado mais interessante, entretanto, permanece: a questão da alimentação tornou-se um dos campos nos quais a tensão entre identidade judaica, participação no mundo gentílico e unidade da comunidade cristã foi efetivamente negociada.

Há, finalmente, um aspecto particularmente relevante para o propósito de nossa análise: a questão da guarda do Shabbat por parte dos gentios. Como é sabido, a observância do Shabbat constitui um dos mandamentos fundamentais da Torah e aparece explicitamente no Decálogo. Mais do que uma simples norma ritual, o sábado funciona como sinal da aliança e como elemento de diferenciação identitária de Israel. Se o Concílio de Jerusalém determinou que os gentios não deveriam ser submetidos à circuncisão nem à observância integral da Lei de Moisés, surge inevitavelmente uma pergunta: o que acontecia com um dos mandamentos mais importantes da própria Torah?

Essa pergunta é particularmente interessante porque o Decreto de Jerusalém não menciona o Shabbat. Se Tiago pretendesse estabelecer uma lista completa de obrigações religiosas para os gentios, a ausência do sábado seria difícil de explicar. Se, por outro lado, as quatro prescrições constituem apenas um conjunto mínimo de exigências para a convivência entre judeus e gentios dentro da comunidade messiânica, então sua ausência pode adquirir outro significado. O problema, portanto, não é simplesmente descobrir se os gentios “tinham permissão” para guardar o Shabbat, mas determinar se a observância do sábado constituía uma obrigação religiosa universal ou se permanecia como um sinal específico da aliança de Israel.

É justamente essa questão que conduz à segunda parte de nossa investigação: se os gentios foram explicitamente dispensados da circuncisão e da observância integral da Torah, qual era, afinal, seu estatuto diante do Shabbat? A resposta poderá lançar nova luz não apenas sobre Atos 15, mas sobre a própria natureza da distinção entre cristãos judeus e gentios no cristianismo das primeiras gerações.







sexta-feira, 1 de julho de 2011

Em nossa série de posts "Jesus na Escala Richter de Impacto Histórico", iniciada em janeiro de 2010, fizemos considerações gerais a respeito das fontes históricas sobre Jesus, e que o consenso entre os historiadores é que é possível utilizar o método crítico para extrair informações sobre o Jesus Histórico e o cristianismo a partir dos evangelhos e de outros escritos cristãos. Na sequência, analisamos o testemunho de Josefo sobre Tiago, "irmão de Jesus chamado o Cristo", e sobre o próprio Jesus (o Testemunho Flaviano, ou TF), do qual concluimos pela autenticidade parcial, e analisamos as objeções mais comuns. Vimos também a relevância das breves afirmações dos historiadores romanos, Tácito, Plínio e Suetônio. Mais recentemente, situamos a evidência histórica disponível sobre Jesus, em um contexto mais amplo, dos eventos que alteraram completamente a natureza do mundo antigo - verdadeiros marcos históricos como a travessia do Rubicão e a Grécia do século posterior a Alexandre Magno - verificando que mesmo nesses casos, a atestação, embora significativamente superior a que nós temos para Jesus, é muitas vezes limitada. Nesse contexto, levando em conta a importância proporcional desses eventos para seus contemporâneos, a vida de Jesus pode ser considerada como relativamente bem atestada nas fontes não-cristãs.





Estamos chegando assim, a parte final de nossa série. Nosso objetivo agora é analisar os dados disponíveis sobre Jesus no seu contexto mais imediato, a Palestina sob domínio romano, e as personalidades daquele período, pretendentes messiânicos como Judas Galileu, Simão Bar Kochba, profetas carismáticos como João Batista e Hanina Ben Dosa e líderes religiosos como Hilel, o Mestre de Justiça e Gamaliel. Vamos comparar o impacto e atestação deixado por essas figuras nas fontes literárias e arqueológicas com as disponíveis para Jesus, e também tentar avançar nas semelhanças e diferenças das perpecções de seus contemporâneos.


Com a intenção de ilustrar nossa discussão, os resultados serão analisados de forma semi-quantitativa, considerando quatro níveis (fraco, moderado, grande, enorme), e três parâmetros, quais sejam, a intensidade do impacto (ou seja, se, por exemplo, estamos discutindo a ação de um agitador, se ele provocou um tumulto local, ou uma rebelião que se estendeu por uma região, como a Galiléia ou Judeia, ou até mesmo uma guerra civil de grande escala que impactou todo o Oriente Médio ou, em último caso, tenha forçado a intervenção direta do Imperador), a extensão do impacto (local, regional, geral, global), e por fim quanto a duração do impacto e seus efeitos (também considerando esta gradação em quatro níveis).





Vamos começar com três líderes revolucionários: Simão de Peréia, Judas Galileu e o Profeta Egípcio. A relevância da comparação com essas três figuras reside não só no que podemos esperar em termos de evidência, tal como registro arqueológico e menção em escritores no período, mas também em um elemento intrigante: o fato de Jesus ter sido executado como um subversivo.


O Rei dos Judeus: Muito poucos questionaram o fato de que Jesus foi crucificado como o Rei dos Judeus. Assim, sob o ponto de vista romano, Jesus foi julgado e condenado por dois delitos relacionados entre si, "perduellio", ou seja, por agir como um inímigo público dos interesses do Império e "crimen lasae maiestatis populi romani" [1] , por tentar subverter a ordem estabelecida pelos representantes e/ou prepostos do Imperador, do Senado, e do Povo de Roma. Como muitos estudiosos já observaram, tal fato dificilmente seria inventado pelos cristãos, pois além do constrangimento causado pela crucificação em si, os "cristãos não costumavam usar o título de "Rei dos Judeus" para Jesus (...) E se eles não utilizavam o título para Jesus, porque os relatos [dos mesmos cristãos] afirmam que ele foi executado por que teria reinvidicado esse título? Evidentemente porque ele foi julgado por causa do título", até porque a acusação de majestas contra Jesus representava riscos razoáveis para os seus seguidores, complicando ainda mais a vida de um grupo já perseguido, por ser "propício a mal entendidos políticos", alem do fato que a "Igreja rapidamente perdeu o interesse em converter judeus" de forma que "os autores dos evangelhos remodelaram e adaptaram as tradições que compilaram de acordo com o ponto de vista de um público habituado a ler grego e impregnado das idéias que circulavam no antigo mundo mediterrâneo - para eles a importância de Jesus não estava em ele ter sido o Rei dos Judeus, mas sim no fato de ele ter sido o Salvador do Mundo", finalmente, "as palavras da inscrição não contem alusões ao Antigo Testamento, e portanto podem não ter sido ditados pelo desejo de registrar as últimas horas de Jesus conforme a profecia divina", e concluindo que "Jesus foi morto por crucificação, e que sua cruz trazia uma inscrição indicando o motivo de sua condenação são os únicos fato sólidos e estabelecidos que podem ser tomados como ponto de partida de qualquer investigação dos relatos evangélicos de seu julgamento [2].


Se analisarmos os evangelhos, veremos o conceito de "Reino de Deus" multiplamente atestado nas fontes (Marcos, Q, L, M, João, Tomé e Paulo), como nas formas (parabolas, sermões, orações, aforismos, milagres...) [3]. Metade das parábolas fazem menção ao "Reino de Deus". Jesus foi crucificado entre dois "lestai", termo que embora seja traduzido comumente como "ladrão", leva uma conotação de "revolucionário" ou "guerrilheiro". Jesus teve Cristo (Messias) incorporado a seu nome, sendo que Messias, originalmente, é um conceito que possui amplas conotações políticas, envolvendo o estabelecimento de um Reino terreno, interpretado pelos judeus no I século como o fim do jugo romano. Os cristãos, reiteradamente, reinterpretaram o conceito messiânico como o de um Reino celestial, que seria estabelecido na terra apenas no fim dos tempos. Tais fatos indicam fortemente que a mensagem de Jesus da vinda iminente do "Reino de Deus" foi interpretada pela autoridades como subversiva a ordem imperial e perturbadora da Pax Romana, seja qual fosse seu conteúdo ou propósito original, e que os cristãos, constrangidos e ameaçados por essa "má impressão", buscaram desfazer esse "mal entendido".



1) Simão de Peréia:






Entre a morte de Herodes (4 AC) e a queda de Jerusalém (73 DC), houve uma série de agitadores, pregadores itinerantes, milagreiros, profetas que lideraram revoltas ou movimentos messiânicos. Uma lista deles é apresentada aqui, pelo Professor Jona Lendering [4]. Como pode ser observado, a principal (e na maioria das vezes única) fonte para todos eles é Josefo. No âmbito de seu primeiro livro "Guerras Judaicas", o relato de figuras contemporâneos de Josefo, com as quais ele teve oportunidade de interagir pessoalmente, como João de Giscala, Menaem e Simão Bar-Giora, é bastante detalhado. Eles são apontados como rebeldes fanáticos que levaram o povo judeu a catástrofe que causou a destruição de Jerusalém. Então eles são, de alguma forma, a razão de ser daquela narrativa. No entanto, para os pretendentes messiânicos mencionados em Antiguidades, e mesmo nos dois primeiros livros de Guerras Judaicas (no período anterior ao incio do conflito em 66 DC), como Teudas, Judas Galileu, João Batista e Simão de Peréia os relatos são geralmente muito curtos, não excedendo alguns parágrafos. Se observamos a história desses pretendentes messiânicos, vamos perceber um padrão de aparecimento súbito, origem obscura, são seguidos por multidões, e, diante da ação repressora das autoridades, o lider é capturado ou foge, e os seguidores se dispersam [5].


O interesse por essas figuras não foi compartilhado pelos muitos escritores que viveram no período. Por exemplo, Filo de Alexandria (20 AC - 50 DC), não menciona nenhum dos pretendentes messiânicos citados pro Josefo. Ele nada diz sobre as violentas revoltas lideradas por Simão de Peréia, Atronges, ou Judas Galileu, em que milhares de judeus foram mortos, com seus cadáveres sendo pisados pelas botas dos soldados romanos. Embora Filo discuta o carater violento do Governador Pôncio Pilatos ocasionalmente, não menciona o comportamento dele em relação a Jesus de Nazaré ou a repressão violenta a multidão liderada pelo profeta Samaritano (episódio que levou a destituição de seu cargo). Fora dos escritos de Flávio Josefo, somente Lucas menciona a existência de alguns desses lideres populares (Teudas, o Egípcio, e Judas Galileu) em Atos dos Apóstolos, além de Tácito que faz uma breve referência a Simão de Pereia (único pretendente messiânico, além de Jesus, a ser citado em uma fonte greco-romana).



"Houve também um certo Simão, que tinha sido escravo do rei Herodes, mas em outros aspectos, uma pessoa decente, que tinha uma compleição alta e robusta, e muito superior aos outros de sua ordem, e a seus cuidados foram confiadas coisas muito importantes. Este homem se destacou no estado desordenado em que as coisas estavam, e foi tão ousado que colocou uma diadema na cabeça, e foi seguido por muitos apoiadores, que o proclamaram Rei, convencendo-se que era mais digno do que qualquer outro. "Ele queimou o palácio real em Jericó, e saqueou o que restou dele. Ele também ateou fogo em muitas outras das casas do rei em vários lugares do país, destruindo-os totalmente, e permitiu que aqueles que estavam com ele squeassem os despojos. Teria realizado maiores proezas, se medidas repressivas não tivessem sido tomadas imediatamente. [O comandante da infantaria de Herodes] Grato juntou alguns soldados romanos as forças que tinha com ele, e foi ao encontro de Simão . E depois de uma grande e longa luta, grande parte daqueles que vieram da Peréia (um corpo desordenado de homens, lutando de forma ousada, ainda que inábil) foram destruídos. Embora Simão tenha conseguido evadir-se através um vale certos, Grato alcançou-o e cortou-lhe a cabeça." (Flávio Josefo, Antiguidades Judaicas 17.273-276)



"Quando Herodes morreu, sem esperar pela decisão imperial, um certo Simão usurpou o título de Rei. Ele foi subjugado pelo Governador da Síria, Quintilio Varo, e naquela ocasião os judeus foram divididos em três reinos governados pelos filhos de Herodes. (Tácito, Historias 5:9)


Com o relatado acima, a morte de Herodes, o Grande, resultou em uma grande crise. Em várias partes da Judéia houve tumultos, e três líderes surgiram, Judas, Filho de Ezequias (algumas vezes identificado com Judas Galileu), na Galiléia; Atronges, na Judéia; e Simão na região em torno do Mar Morto. Os filhos de Herodes -Arquelau, Antipas e Filipe - não conseguiram sufocar a rebelião. Assim, o Legado Romano na Sírio, Quintílio Varo, teve de intervir. Marchando com três legiões sobre seu comando (cerca de 20 mil soldados), as tropas romanas destruiram Sefóris e Emaus, e crucificaram cerca de 2 mil pessoas (Guerras 2:72-77 e Antiguidades 17:286-298), numa das maiores execuções em massa já realizada pelo Império.


Apesar de ter sido uma revolta violenta, sufocada a um grande custo, e com dificuldade, o fato é que Flávio Josefo constitui, basicamente, nossa única fonte remanescente. Quanto aos lideres da rebelião, Simão de Peréia foi, provavelmente, o mais proeminente, tanto pela descrição de Josefo, quanto pelo fato de ter sido o único pretendente messiânico (anterior a Primeira Guerra Judaico Romana) do qual temos registro em autores romanos (além, é claro, de Jesus de Nazaré). Simão conseguiu um parágrafo em Tácito. Um feito surpreendente.




Nesse ponto, podemos ressalvar que é possível que existam fontes a respeito de Simão de Peréia (e Atronges), hoje perdidas, principalmente aquelas que possam ter sido utilizadas ou mencionadas por Tácito e Josefo. Infelizmente, nenhum dos dois nomeiam suas fontes (ou sequer declaram que utilizaram) nessa parte específica da narrativa. No entanto, é sábido que em Guerras, e principalmente em Antiguidades, Josefo utilizou as obras do secretário e historiador da corte de Herodes, Nicolau de Damasco, contemporâneo dos eventos. O Professor Ben Zion Wacholder, do Hebrew Union College, observa que Nicolau é uma fonte fundamental para os livros XIII a XVII de Antiguidades Judaicas, embora Josefo apenas ocasionalmente mencione a fonte em que se baseou, e os estudiosos tenham que analisar caso a caso (por exemplo, Josefo teria utilizado um relato detalhado de Nicolau sobre os hasmoneus em Antiguidades, mas não em Guerras) [6]. Embora nenhum dos livros de Nicolau de Damasco tenha chegado a nosso tempo, existe um número significativo de fragmentos, e o mais extenso é justamente o que lida com final do reinado de Herodes [6]. O relato de Nicolau seria de suma importância, uma vez que ele era um contemporâneo dos eventos, e seus escritos eram considerados confiáveis. No entanto, nesse longo fragmento Nicolau é extremamente sucinto no que se refere a revolta "Apos esses eventos, e passado um pouco de tempo, o Rei [Herodes] também morreu, e a nação se levantou contra seus filhos, e contra os gregos. Esses últimos contavam mais de dez mil. Na batalha que se seguiu os gregos foram vitoriosos" [7]. Ou seja, nos fragmentos disponíveis de Nicolau de Damasco, ele não menciona os líderes da revolta. Ainda, Wacholder observa que o "relato da revolta dos judeus como sendo direcionado contra os gregos, não é encontrado em Josefo" [7].



Sobre a possibilidade das partes perdidas de Nicolau de Damasco trazerem informações sobre seus Simão e os outros líderes da revolta, Professor Eliezer Paltiel, da Universidade de Melbourne, escreve:



"Nor can Nicolaos claim exclusive rights to Josephus' story of the actual war. Nicolaos was in Rome at the time of the hostilities. He had come in order to perform a last favor for the dead king by pleading the cause of his eldest surviving son. Nicolaos was heartily tired of Judaea, and there is no reason to assume that he ever inquired into Jewish affairs again ("). As we shall see, he had good reason to be acquainted with the military reports that reached Rome, but these reports were only part of the story. On them is ultimately based BJ, II, 5, 1-3 (66-79) ; AJ,XVII, 10, 9-11, 1 (286-299). In these last passages Josephus does not remember a single name of a rebel leader. One name that may have been - probably was - contained in the Roman general's report was that of Simon of Peraea, which found its way into the pages of Tacitus (I2). Tacitus does too much honor to Simon, and his notice is incontradiction with BJ, II, 4, 2 (59) ;AJ, XVII, 10, 6 (276). We must conclude thatthe Roman commander's report was slightly misleading. Josephus, however, possessed more detailed information concerning the various rebels, which he presents to us in BJ, II, 3, 4-4, 3 (5 1 -65) and in AJ, XVII,10, 3-8 (265-285) (14)." [8]

(tradução) Nicolau não pode reinvindicar direitos exclusivos sobre a narrativa de Josefo dos eventos da Guerra. Nicolau estava em Roma na época das hostilidades. Ele tinha ido para lá com o intuito de prestar um último serviço para o rei morto, defendendo a causa do seu filho mais velho sobrevivente. Nicolou estava profundamente cansado da Judéia, e não há razão para assumir que ele tenha tido interesse sobre os assuntos judaicos novamente. Como veremos, ele tinha boas razões para estar familiarizado com os relatórios militares, que chegaram a Roma, mas esses relatórios eram apenas uma parte da história. A partir deles é, em última análise, baseada Guerras Judaicas, II, 5, 1-3 (66-79); e Antiguidades Judaicas, XVII, 10, 11/09, 1 (286-299). Nestas passagens, Josefo não menciona pelo nome um único líder rebelde. Um nome que pode ter sido - e provavelmente foi - mencionado no relatório do general romano era a de Simão de Pereia, que acabou encontrando abrigo nas páginas de Tácito. Tácito faz muitas honras a Simon, e seu relato esta em contradição com Guerras Judaicas, II, 4, 2 (59); e Antiguidades Judaicas, XVII, 10, 6 (276). Devemos concluir então que o relatório do comandante romano foi um pouco enganoso. Josefo, no entanto, possuía informações mais detalhadas sobre os diversos. rebeldes, que ele nos apresenta em Guerras, II, 3, 4-4, 3 (5 1 -65) e em Antiguidades Judaicas, XVII, 10, 3-8 (265-285) (14). [8]



Na sequência Paltiel conclui que a descrição de Josefo sobre Simão, Atronges e Judas, Filho de Ezequias era proveniente "de fontes desconhecidas de Nicolau de Damasco" [8]. Em suma, nos não temos menção a Simão de Pereia nos fragmentos remanescentes dos livros do escritor contemporâneo Nicolau de Damasco, que tratam da revolta, e mesmo a possibilidade de que tenha se referido ao lider rebelde em outras partes, hoje perdidas, de sua obra utilizadas por Josefo, é improvável. No entanto, uma vez que o relato de Tácito contradiz em pontos importantes o de Josefo, é bem possível que o escritor romano tenha utilizado um relatório militar hoje perdido, mas o qual, de qualquer forma, ele não menciona, bem como qualquer outra de suas fontes sobre a revolta. Logo, estamos reduzidos a Tácito e Josefo no nosso conhecimento de Simão de Peréia.

("Aonde estão aquelas dezenas de historiadores contemporâneos, que viviam em torno do Mediterrâneo, quando se precisa deles! Porque eles não mencionaram Simão de Peréia e seus feitos? Bando de perguiçosos!!!!)


Como observam o Professor John D Crossan e o Professor Jonathan Reed


"Na Antiguidade, os governantes, os ricos ou seus escribas eram os únicos que sabiam ler e escrever, assim, as histórias, biografias e narrativas que sobreviveram até hoje foram escritas ou ditadas principalmente pelos poderosos. Interessavam-se por pessoas públicas e por conflitos públicos. Pouco se importavam com a vasta maioria do povo e com o que acontecia nas pequenas cidades ou vilas rurais, como, por exemplo, a pequena vila de Nazaré, a não ser quando causavam problemas ou ameaçavam a estabilidade e a economia" [9]



Assim, assumindo que Jesus congregou multidões em número semelhante a de alguns desses pretendentes messiânicos, teriamos que a sua atestação reflete justamente o que se esperaria de um lider carismático que reune multidões alvoroçadas com a possibilidade de terem encontrado o Messias. Os autores que escreviam as grandes histórias do período, como Josefo, Tácito, Suetônio simplesmente não estavam interessados em líderes carismáticos, profetas e milagreiros populares de provincias pouco importantes; seu interesse surgia apenas quando lideram movimentos que perturbações na pax romana. Nesse aspecto, para Tácito ou Josefo, por mais estranho que possa parecer em nossa perspectiva, alguém como Simão de Peréia merecia mais espaço do que Jesus, justamente por ter representado uma maior perturbação a ordem estabelecida. Em sua visão Jesus e (principalmente) os cristãos representavam uma fonte de amolação e problemas, as menções a Jesus e seu movimento em Tácito, Plínio e, Suetônio se referem a tumultos em que os cristãos estavam envolvidos e o Testemunho Flaviano original muito provavelmente relatava uma atrocidade cometida contra Jesus (a crucificação de um inocente), ou um Tumulto causado por causa dele. No entanto, nesse quesito, Simão de Peréia se saiu um pouco melhor, pois forçou três legiões a sairem de seus quartéis, e alguém como Quintilio Varo pode adicionar uma importante vitória militar em seu currículo. Por isso, Josefo e Tácito dedicam a ele mais espaço do que Jesus.



O leitor não deve ter a impressão que minimizamos o impacto desses pretendentes messiânicos. Os movimentos liderados por Atronges e Simão de Peréia devem ter varrido a Judéia como um terremoto, ou um tsunami. Impactaram violentamente a vida de dezenas milhares de pessoas. A questão é que seu "epicentro" estava muito distante das elites, e não representaram um impacto duradouro no curso do Império, além do problema comum a toda a antiguidade de que apenas uma pequena parte dos artefatos e escritos antigos chegou até nós. Em conjunto, a sobreposição desses fatores, atenuou seus efeitos, de forma que chegam até nós como punhados de frases em curtos parágrafos, como que se os movimentos que eles causaram tivessem sido leves tremores ou "marolinhas". Na verdade, é justamente o contrário: por terem perturbado muito, foi lhes concedido esse curto espaço, quase como notas de rodapé. Assim, o simples fato de que Jesus foi mencionado por Josefo e Tácito (mesmo que brevemente) é forte evidência que ele causou muita dor de cabeça.



Assim, podemos avaliar que a intensidade do impacto dos feitos de Simão de Peréia foi grande, a extensão desse impacto foi geral (3° nível em nossa escala, pois forçou a mobilização das legiões estacionadas na Síria, e a intervenção do Legado Imperial Quintilio Varo), embora o duração da revolta e seus efeitos tenha sido moderada, ja que, uma vez dominada, não forçou nenhum rearranjo permanente na estrutura politica e social da Palestina Romana.



2) Judas Galileu




"Havia um certo Judas, um Galileu, de uma cidade chamada Gamala, que, levando consigo Zadoque, um fariseu, tornou-se zeloso para atraí-los a uma revolta. Ambos disseram que essa tributação não era melhor do que à escravidão, e exortou a nação a fazer valer sua liberdade, como se pudessem adquirir felicidade e segurança além do que já possuíam, e um gozo garantido de um bem ainda maior, que era da honra e da glória que lhe permitiria adquirir magnanimidade. Eles também disseram que Deus não lhes ajudaria, a menos que se unissem em torno de seus conselhos, de como poderiam ser bem sucedidos, e para sua própria vantagem, que se estabeleceria por meio de grandes façanhas, e não se cansassem na busca das mesmas. Então, os homens recebiam o que eles disseram com prazer, e a ousadia de seus esforços aumentou cada vez mais. Todos os tipos de infortúnios surgiram a partir destes homens, eo país estava infectado com essa doutrina a um nível incrível. Uma após outra, violentas guerras cairam sobre nós, e perdemos os nossos amigos, que aliviavam nossas dores. Houve também roubos e o assassinato de nossos principais líderes. Isto foi feito pretensamente a título do bem público, mas na realidade com esperança de ganho pessoal, fomentando a sedição, e causando mortícinios, às vezes perpetrados contra seu próprio povo (pela loucura desses homens um contra o outro, já que seu desejo era exterminar todos da parte contrária), e às vezes de seus inimigos. A fome nos atingiu, e reduziu-nos até o último grau de desespero, como fez também a tomada e a demolição de nossas cidades, e por fim, a sedição atingiu a um nível tão alto que o templo de Deus foi queimada pelo fogo de seus inimigos. Essas foram as conseqüências, uma vez que alteraram o modo de vida de nossos pais, de tal maneira, que pesaram decisivamente para trazer tudo para a destruição (Flavio Josefo, Antiguidades Judaicas 18:4-9).



"Judas Galileu foi o fundador do quarta seita da filosofia judaica. Estes homens aceitavam em tudo as opiniões dos fariseus; mas possuiam um vínculo inquebrantável com a liberdade, e diziam que Deus era seu único Senhor e Rei. Eles também não davam valor a suas próprias vidas, nem a vida de seus parentes e amigos, e nada os faria serem súditos de homem algum" (Flavio Josefo, Antiguidades Judaicas 18:23)



"(...) Depois dele levantou-se Judas, o galileu, nos dias do recenseamento, e levou muitos após si; mas também este pereceu, e todos quantos lhe obedeciam foram dispersos. (Atos dos Apóstolos 5:37)


Josefo, quase que exclusivamente entre os escritores da Antiguidade, colecionou historias dos "bandidos, profetas e" candidatos a "messias" (parafraseando o título do livro do Prof. Horsley), que tanto perturbaram a pax romana na Judéia do século I. No entanto, Judas Galileu é para Josefo uma obsessão. Além de fundar uma nova seita do judaismo, ele atraiu a muitos, que ouviam com prazer sua doutrina, que como uma praga, "infectou a nação", levando a vários levantes e, ao fim, a Guerra com os Romanos e suas funestas consequências. Judas Galileu é importante também não só por seu ensino mas porque muitos de seus descendentes estiveram envolvidos em momentos decisivos de agitação revolucionária. Em 47 DC, Tiago e Simão, filhos de Judas, foram executados pelo Procurador Tibério Alexandre (Ant. 20.100-103), em um momento em que o país passava por uma grande fome (o que pode ter sido utilizado por eles para fomentar a rebelião). Durante a Guerra Judaica, Menaem, descendente de Judas, proclamou-se Rei. Quando Jerusalem caiu, Eleazar ben Jair, primo de Menahem (e portanto parente de Judas), foi um dos líderes da resistência em Massada. A menção a Judas Galileu e sua família são essenciais para as finalidades apologéticas da narrativa de Josefo junto a seus leitores da aristocracia romana. As inovações de Judas teriam iludido e desencaminhado a nação, pois seus ensinos "alteraram o modo de vida de nossos pais, de tal maneira, que pesaram decisivamente para trazer tudo para a destruição" (Ant. 18:9), o legado de sua loucura foi de agitação, fome, destruição das cidades e do Templo de Deus (18:7-8). Judas Galileu e sua escola são o bode expiatório perfeito para Josefo, e caem como uma luva para sua narrativa. Tanto Josefo, quanto Atos dos Apóstolos, localizam Judas Galileu na época do recenseamento realizado quando os romanos transformaram a Judéia em província, em 6 DC.


Deve ser observado que Josefo menciona também um certo Judas, que saqueou o palácio de Herodes na Galiléia, após sua morte, em cerca de 4 AC, e que era filho do arqui-ladrão Ezequias (Antiguidades 17:271-272 e Guerras 2:56) que Herodes, então governador da Galiléia, executou em 47 AC (14:163-177). Alguns estudiosos, como Geza Vermes [10], identificam esse Judas, Filho de Ezequias com Judas Galileu, enquanto outros, como Steve Mason, Gerd Thiessen e Annete Merz, não estão tão confiantes [11]. Se os dois forem a mesma pessoa, teríamos uma dinastia revolucionária, que se inicia com o arqui-ladrão Ezequias, em meados do sec. I AC e que atua até a Guerra Judaica, mais de 100 anos depois, com quatro gerações da família sempre na vanguarda da agitação política. No entanto, vamos considerar Judas Galileu e Judas Filho de Ezequias como pessoas distintas.


Os escritores contemporâneos de Josefo, no entanto, pareceram não estar dispostos a gastar tinta com Judas Galileu. Filo de Alexandria, importante fonte dos assuntos Judaicos no período, nada diz sobre Judas Galileu. O grande "vilão" e "aliciador" galileu também não é mencionado no relato das campanhas romanas na Judéia [12], escrito por Tácito (Histórias 5:9-13) , e nas ocasionais referências de Suetônio a grande revolta (A Vidas dos Doze Césares, Vespasiano ; Tito ). Judas "Che Guevara" Galileu não fez muito sucesso fora dos escritos de Josefo.


[E aqui, de novo, perguntamos: "Onde estão aqueles 40 escritores, mencionados na lista de Remsburg, que viviam no Mediterrâneo mais ou menos na época em que Judas viveu, quando se precisa deles? Se adicionarmos o fato de que Lucas pode ter usado Josefo como fonte, e que Josefo tinha motivos apologéticos a defender, sendo conveniente encontrar meia duzia de fanáticos como bode expiatório como causa da Guerra - e trilhando o caminho hipercético as vezes encontrado em certos círculos - poderíamos perguntar, retoricamente, "será que Josefo simplesmente não inventou Judas Galileu?" (Como dizem os americanos, "Where there is a will, there is a way", com retórica, e suficiente disposição para torturar os dados, não considerando o contexto mais amplo da antiguidade, você pode chegar a conclusão que você quiser, por mais absurdo que seja).]

Assim, podemos avaliar que a intensidade do impacto, por ocasião de seu surgimento, dos feitos de Judas Galileu foi moderada, e a extensão desse impacto parece ter sido apenas regional, (por ocasião do recenseamento, apenas a Judéia foi submetida a taxação e domínio direto dos romanos). A doutrina de Judas e Zadoque atraiu a muitos, é fato, mas, naquele momento, parece não etr havido uma revolta generalizada. Por outro lado, a doutrina de Judas perdurou por décadas, sendo propagada por sua escola e seus descendentes, impregnando a nação, e levando, por fim, a Grande Revolta, ou seja, a duração do impacto e seus efeitos foi grande.



3) O Profeta Egípcio



Um prejuízo maior causou os judeus o falso profeta do Egito. Chegou um milagreiro enganador ao país que se apresentava como falso profeta e reuniu 30.000 vítimas de seu engodo. Ele os conduziu até o Monte das Oliveiras e de lá pretendiam entrar com violência em Jerusalém., tomar de surpresa a guarnição romana e torna-se dominador sobre o povo com o auxílio de seus companheiros armados. Félix, no entanto, antecipou-se a seu ataque com soldados romanos; o povo também participou da defesa, de forma que o egípcio, na batalha que se seguiu, pode fugir com uns poucos. A maioria de seus seguidores, no entanto, foi morta ou capturada. O restante se espalhou, e cada um tentou se esconder em casa (Flávio Josefo, Guerras Judaicas, 2:261-263)

[Josefo reconta basicamente a mesma história em Antiguidades 20:169-171]


Não és porventura o egípcio que há poucos dias fez uma sedição e levou ao deserto os quatro mil sicários? (Atos dos Apostolos, 21:38)


O egípcio se enquadra muito bem na categoria de profeta de sinais, que promete ao povo a libertação de seus sofrimentos e de seus inimigos, evocando o exemplo de Moisés, e, neste caso específico, Josué (que fez os muros de Jerico serem derrubados, Josué 6:20) , além de evocar a crença popular, baseada na interpretação de Zacarias 14:3-9, de que nos últimos dias o Senhor, do Monte das Oliveiras, lancaria seus exercítos contra os inimigos de Israel, ocupantes da cidade santa [13]. O Professor Jona Lendering observa que o termo utilizado por Josefo "tyrannein" , (tornar-se o soberano, um tirano), para descrever as intenções do egípcio, o que indica uma reinvindicação real. Então o egício se enquadra também na categoria de pretendente messiânico.



Em guerras o número de 30.000 seguidores do egípcio parece grandemente exagerado. A população inteira de Jerusalém no período era de cerca 50.000. Quinze anos depois de escrever as Guerras Judaicas, Josefo relata em Antiguidades que 400 seguidores do egípcio foram mortos no confronto, e outros 200 foram capturados na invasão mal-sucedida, (sendo que o egípcio e o restante de seus soldados fugiram em retirada), mas não diz o número total de seguidores do falso profeta. Atos dos Apóstolos fala em 4 mil seguidores, que parece um número (mais) plausível. Impressiona a facilidade com que o Egípcio arregimentou seguidores, convencendo-os a marchar contra uma tropa romana pesadamente armada e bem treinada em uma cidade altamente fortificada como Jerusalém. No entanto, como observa o Professor Richard Horsley, o tumulto liderado pelo egípcio encontra paralelo na ação de Teudas, 10 anos antes, e do Profeta Samaritano, 20 anos antes, e aponta uma predisposição das massas diante da mensagem de livramento imediato por parte do Senhor, e o anseio por parte dos profetas e seus seguidores de participar de um ato de libertação divino [14]. O ar estava carregado de fervor messiânico e apocalíptico.


O caso do Profeta Egípcio, como os outros já apresentados, também é util por nos oferecer o tipo de atestação externa esperado para líderes carismaticos que conduziam multidões no século I DC, como Jesus de Nazaré ou João Batista. Embora o egípcio, conforme o relato de Josefo, tenha atuado como milagreiro (enganador) e (falso) profeta, e tenha persuadido a milhares de pessoas, e os tenha reunido para marchar contra uma das mais importantes cidades do Oriente Romano, e uma batalha tenha se seguido e , centenas, quem sabe milhares, tenham sido mortos, nos não sabemos quase nada sobre o "Egípcio", nem mesmo seu nome. E como Josefo e Atos dos Apostolos são as únicas fontes sobre o tumulto, e nenhum artefato arqueológico é associado a revolta, vamos continuar carentes de informação sobre esse episódio. Ainda que tenha sido um acontecimento que faria a "Breaking News" da CNN se ocorresse em nosso tempo.



E, para variar, "Agora, onde estavam os quarenta e tantos escritores antigos contemporâneos a malograda invasão de Jerusalém, inspirada pelo profeta egípcio, que não mencionaram esse fato?

Podemos avaliar a intensidade do impacto dos feitos do Profeta egipcio foi grande, ainda que extensão desse impacto parece ter sido apenas regional, embora o duração da revolta e seus efeitos não tenham sido duradouros, apenas moderados.


Referências Bibliográficas
[1] Gerd Thiessen e Annete Merz (1996), O Jesus Histórico: Um Manual, fl. 485-486

[2] Bart Erhman (2000), Jesus, apocalyptic prophet of the new millennium, fls. 217-223, (particularmente fl. 222-223); Gerd Thiessen e Annete Merz (1996). O Jesus Histórico: Um Manual, fl.485; Alan F. Seagal (2005), "Jesus and the Gospels-What Really Happened", [1] Believe Only the Embarrassing, Slate, http://www.slate.com/id/2132974/entry/2132989/, acessado em 29.04.2011; Paul Winter (1974), "Sobre o Julgamento de Jesus", fls. 217 e 219.
Além das referências acima, podemos acrescentar, como já observamos anteriormente, que a crucificação de Jesus sob a acusação de ser o Rei dos Judeus era muito perigosa para os primeiros cristãos dado seu status legal precário no Império Romano. Os evangelhos foram escritos, provavelmente, entre a 1ª Guerra Judaica (66-73 DC) e 2ª Guerra Judaica (132-135 DC). No século I DC e início do seculo II, houveram inúmeras revoltas, provocadas por auto-proclamados "Reis dos Judeus" e "Messias", que causaram a morte de (dezenas de) milhares de pessoas, dentre os quais milhares de bons soldados e cidadãos de Roma. No mesmo período, a igreja era perseguida e o cristianismo era uma seita ilegal, sendo que alguns oficiais e magistrados suspeitavam que o grupo era formado por agitadores, desleias a Cesar e a Roma. De fato, Aristides, Quadrato, Justino Martir, Melito, Apolinario, e outros, escreveram ao Imperador da época buscando incessantemente provar que os cristãos eram leais, pacíficos e produtivos e perfeitos súditos do Império. Porque, nessas circunstâncias, os cristãos inventariam que seu líder tinha sido um Messias Crucificado, executado como um criminoso político, por magistrados romanos, sob a acusação de Alta Traição? Certamente porque Jesus foi realmente crucificado, por ter sido acusado (justa ou injustamente) de se auto-proclamar "Rei dos Judeus", e essas coisas eram fatos conhecidos (e problemáticos) que os cristãos tinham que explicar.
Entre os várias relatos em que os cristãos primitivos são pressionados a refutar acusações de alta traição e desfazer mal-entendidos em relação ao "Reino" de Jesus, temos Justino Martir, em sua 1ª Apologia ( cerca de 150 DC), dirigida ao Imperador Antonino Pio e ao Senado Romano, afirmando que o "Reino" que os cristãos buscavam não era humano ou terrestre, mas celestial (1ª Apologia, Capítulo 11). Da mesma forma, Hegesipo (cerca de 170 DC), relata que os netos de Judas, irmão de Jesus, foram interrogados pelo Imperador Vespasiano, no final do século I, a respeito de sua descendência Davídica, de Cristo, e da natureza de seu Reino (citado por Eusébio de Cesaréia, Historia Eclesiastica Livro 3: capítulo 20). Por fim, lemos em Atos dos Apostolos (80-90 DC), que, durante sua 3ª Viagem Missionária (50-52 DC), Paulo e seus colaboradores foram acusado em Tessalônica de "proceder contra os decretos de César, dizendo haver outro rei, que é Jesus" (Atos 17:7), forçando Paulo e Silas a fugirem para Beréia (17:9).
[3] John P. Meier, Um Judeu Marginal, Livro 2, Volume 2, fl. 10.
[4] Jona Lendering, Messianic claimants http://www.livius.org/men-mh/messiah/messianic_claimants00.html, acessado em 20.06.2011.
[5] A analise acadêmica de referência sobre esses movimentos é o livro do Professor Richard Horsley, "Bandits, prophets & messiahs: popular movements in the time of Jesus"; para o padrão mencionado, ver, principalmente, fls. 162-171.
[6] Ben Zion Wacholder Josephus and Nicolaus of Damascus in Louis Feldman & Gohei Hata (1988) Josephus, the Bible, and History, fl. 147, 152-157
[7] GLAJJ, F97, linhas 53-71. (GLAJJ é a sigla para a coleção Greek and Latin Authors on Jews and Judaism, organizada por Menahem Stern, volume I, 1974; F97 = fragmento 97). O fragmento em questão é reproduzido por Ben Zion Wacholder, Josephus and Nicolaus of Damascus in Louis Feldman & Gohei Hata (1989) ...., fls. 156-158 (ver nota 109, à fl. 169).
[8] Eliezer Paltiel (1981) War in Judaea - After Herod's death. In: Revue belge de philologie et d'histoire. Tome 59 fasc. 1, 1981. Antiquité. pp. 107-136. (especificamente fls. 110-111)
[9] John D. Crossan e Jonathan Reed (2003) Em Busca de Jesus, fl. 65
[10] Geza Vermes (2001) Quem é Quem na Época de Jesus, fl. xxx;
[11] Steve Mason (2008), Flavius Josephus, translation and commentary, volume 1b, Judean War (200), fl. 81, nota 724; Gerd Thiessen e Annete Merz (1996), O Jesus Histórico, Um Manual, fl. 163.
[12] Jona Lendering, Messianic Claimants (4), Judas the Galilean http://www.livius.org/men-mh/messiah/messianic_claimants04.html, acessado em 30.06.2011
[13] Jona Lendering, Messianic Claimants (10), The Egyptian Prophet http://www.livius.org/men-mh/messiah/messianic_claimants04.html, acessado em 30.06.2011 [14] Richard Horsley e John S. Hanson (1999), Bandits, prophets & messiahs: popular movements in the time of Jesus, fls. 168-170.

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

O post sobre a referência a Tiago, irmão de Jesus, por Flavio Josefo, em Antiguidades 20:9:1 (§ 200), na Série Jesus na Escala Richter de Impacto Histórico, foi atualizado, com algumas observações acrescentadas.

" Alías, o uso de um deslize de uma figura poderosa, como pretexto para enfrace-lo, por seus adversários políticos não é algo incomum seja na Antiguidade quanto no presente. O fato de que Josefo, explicitamente, começa seu relato afirmando que Anás era saduceu, enquanto que indica que a ação para contesta-lo teve origem nos que eram "zelosos observadores da Lei" (fariseus), é forte indício de que o ato precipitado de Anás foi visto por alguns como uma oportunidade para indispor ele e sua poderosa família com os romanos, dando chance a um novo equilibrio de poder. Assim, a pressa de alguns desses zelosos observadores da Lei em encontrar Albino ainda no caminho de Alexandria, não se deu tanto em razão de sua angustiados pela execução de Tiago e seus companheiros, ou porque estivessem preocupados com minúcias do direito romano, mas porque a ação precipitada e inusitadamente ousada do Sumo Sacerdote, usurpando poderes formais do Procurador, abriu uma avenida de oportunidades para seus adversários políticos."

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terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Arqueólogos afirmam ter encontrado o mais antigo documento escrito em Jerusalém. Diz-se que vêm do século 14 a.C.


Publicado em Israel Exploration Journal: Mazar, Eilat, Horowitz Wayne, Oshima Takayoshi, Yuval Goren e. . "A Cuneiform Tablet from the Ophel in Jerusalem." IEJ 60 (2010): 4-21.

http://www.youtube.com/watch?v=kx66Rmadqr8

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Continuando nossa série Jesus na Escala Richter de Impacto Histórico (ano novo, vida nova), gostaria de falar um pouco de fatos históricos e suas consequências.
O ponto de partida da série, foram as afirmações que volta e meia, e principalmente na Internet, encontramos :

Se Jesus pregou para multidões, teve doze discípulos, realizou curas e todas aquelas coisas da Bíblia, porque quase nenhum historiador judeu ou gentio falou sobre ele?
É so isso temos para o Filho de Deus? Ninguém lembrou dele? Será que ele existiu mesmo?
A Bíblia diz que multidões seguiam a Jesus, que sábios vinham de vários lugares para ouvir Jesus. Porque nenhum deles escreveu nada sobre ele?
Se Jesus tivesse realmente existido, escritores como Filo de Alexandria, Veleio Paterculo, Justus de Tiberíades, Sêneca, Plínio o Velho, Lucano e Plutarco teriam dito algo sobre ele.

No primeiro post da série nós conversamos um pouco sobre os problemas associados a esse tipo de argumento, de que a falta ou escassez de referências não cristãs a Jesus seria uma prova de sua inexistência ou irrelevância histórica. As vezes são apresentadas listas de autores que viviam no Império Romano nos 100 seguintes a morte de Jesus (em uma dessas listas, elaborada no final do séc. XIX pelo escritor Jonh Remsburg, são mencionados 43 autores) e pergunta-se "se Jesus existiu, se realizou tão grandes feitos, como pode não ter sido notado por esses escritores"? Como pode ter sido mencionado apenas por 3 ou 4 autores, em textos que não maiores que um parágrafo?.

Naquela ocasião mostramos como o consenso dos historiadores é justamente o contrário, e de que os evangelhos são usados como fonte histórica. Discutimos o fato de que se a avaliação dos pesquisadores varia muito e apresenta extremos, havendo aqueles que aceitam a tradição evangélica como basicamente confíavel até aqueles que defendem uma visão muito mais cética, concluindo que cerca de 10 % do que é atribuido a Jesus nos evangelhos teria sido provavelmente dito ou realizado por ele, e que entre estes extremos, a maioria dos críticos se posiciona em um amplo espectro de opiniões. O fato é que mesmo mesmo nessa visão bem minimalista teriamos por volta de 50 feitos e ditos de Jesus considerados como provavelmente autênticos, mesmo utilizando os critérios históricos de forma extremamente rigorosa. Na sequência, analisamos o testemunho de Josefo sobre Tiago, "irmão de Jesus chamado o Cristo", e sobre o próprio Jesus (o Testemunho Flaviano, ou TF), do qual concluimos pela autenticidade parcial, e analisamos as objeções mais comuns. Vimos também a relevância das afirmações dos historiadores romanos, Tácito, Plínio e Suetônio.

Mas dito isso qual o impacto de Jesus deixou no registro histórico? Qual a relevância das fontes que temos (cristãs ou não cristãs)? O que temos é o que poderíamos esperar?

No primeiro post da série "prometemos":
Além de analisar os relatos (ou falta deles) para pessoas e eventos contemporâeos a Jesus (um século antes e depois de sua morte), vamos comparar o impacto e atestação deixado por esses eventos e pessoas nas fontes literárias, com aquele deixado por Jesus de Nazaré. Uma espécie de "Escala Richter de Impacto Histórico"

Neste post, vamos começar com eventos que alteraram completamente a natureza do mundo antigo, verdadeiros marcos históricos, e sua atestação - Pedimos, porém, aos leitores para aumentar "um pouco" o período que haviamos proposto inicialmente, para incluir eventos que ocorreram vários séculos anteriores ou posteriores a Jesus (serão exemplos interessantes, prometo). Vamos falar um pouco também de como os textos literários foram produzidos e conservados na antiguidade, e porque muitas vezes não chegaram até nós.

1) Travessia do Rubicão
O Rio Rubicão, no final da República Romana, era a fronteira entre a provincia da Galia Cisalpina e a província da Itália (onde ficava Roma). As Lei Romana proibia os oficiais comandantes de movimentar suas legiões fora dos limites de sua provincia, sem autorização do Senado [1]. Na Itália (como prevenção contra possíveis golpes militares), tal proibição era, obviamente, muito mais séria. Somente consules e pretores podiam comandar tropas na Itália. Assim, um general que deixasse sua provincia e invadisse a Italia cometia crime capital, e os soldados que o seguissem também seriam condenados a morte.

No ano 49 AC graves tensões sacudiam a República Romana. O proconsul Gaio Julio César havia obtido sensacionais vitórias militares, conquistando as Gálias (atuais França e Bélgica) , submetendo milhões de pessoas ao domínio de Roma. Para muitos, porém, Cesar não era bemvindo . O General vitorioso, que acumulara riqueza incalculavel, e com legiões de soldados veteranos e extremamente leais era considerado uma ameaça. Seus maiores inimigos, uma facção de senadores liderada por Catão, o Jovem o acusava de varios crimes (reais, supostos e imaginários) e queria que ele fosse processado e julgado. O sucesso de Cesár não lhe trouxe muitos amigos, muito pelo contrário. Senadores mais moderados, como Cícero, e o antigo aliado de César, e seu companheiro de consulado, Pompeu "Magno", se voltaram contra ele. César queria condicionar seu retorno a Roma, com a possibilidade de uma nova eleição, que lhe daria imunidade legal. O Senado, de modo geral, se voltara contra Cesar. No entanto, Gaio César tinha o apoio do povo e, com massivas injeções financeiras, tivera suporte do consul Lucio Emilio Paulo e do Tribuno do Povo Gaio Escribônio Cúrio, em 50 AC, além de eleger seu comandado Marco Antônio como Tribuno do Povo no ano seguinte, o que lhe dava o poder de vetar algumas medidas do Senado. Em janeiro de 49 AC, a situação se tornou insustentavel. Pompeu e o Senado deram um ultimato para que César rendesse suas tropas e se submetesse a julgamento. Os tribunos aliados de Cesar se declararam ameaçados e fugiram da cidade. César, que estava em Ravena, soube das notícias e usando como pretexto as ameaças contra a sagrada figura dos tribunos do povo, atravessou o Rubicão com a XIII Legião e invadiu a Itália.

Pompeu e a maior parte do Senado fugiram de Roma, para não serem capturados. Seguiram-se quatro anos de Guerra Civil. Em sequência, César derrotou Afranio, na Espanha, depois Pompeu, na Batalha de Farsália (Grécia), que fugiu e foi assassinado no Egito; depois Catão, o Jovem, em Tapsos (Numídia, atual Tunisia), que se suicidou, e, finalmente, Pompeu, o Jovem, em Munda (Espanha). Cesar então voltou a Roma, perdou seus inimigos, tornou-se o senhor inconteste da República, e foi assassinado. Após a morte de César, Augusto e Marco Antônio lutaram entre si, depois contra Cassio e Bruto, e depois novamente entre si, para dominar o Império. Augusto venceu e instituiu o principado, depois de quase 20 anos de Guerras.

Então a Travessia do Rubicão é algo como o Grito do Ipiranga, o Ataque as Torres Gêmeas, a Bomba de Hiroshima, o homem chegando na Lua. Um evento que marcou o fim de uma era. O fim da República e o início do Império.

Uma descrição da Travessia do Rubicão nos é dada por Suetônio, com toda a pompa e circunstância:

"Quando chegou ao conhecimento de César a notícia de que o direito de intercessão dos tribunos havia sido derrogado e que estes se haviam retirado da cidade, rápida e secretamente, fez marchar na vanguarda algumas coortes (...) e arremoessou-se, acompanhado apenas de uma pequena escolta, pela estrada mais deserta. quando a chama dos archotes se extinguiu, perdeu-se e, por um longo espaço tempo, vagou absolutamente sem rumo. Quando a manhã já ia alta, apareceu, subitamente, um guia: caminhou a pé por veredas deveras estreitas e, nas ribas do Rubicão, que traça a fronteira com sua província, reuniu-se então com as coortes. Permaneceu lá por alguns instantes e, ao computar a magnitude de seus planos, dirigiu a palavra para os que acompanhavam, dizendo-lhes:
"- Hoje, ainda podemos recuar. Mas caso passarmos aquela pequena ponte, cabe à sorte das armas decidir o resto"
Permanecia ainda vacilando quando, de repente, deparou-se com a seguinte visão: um homem de corpo e beleza singulares apareceu ali por perto, tocando avena. Os pastores, como também numerosos soldados dos postos mais vizinhos, correram ao seu encontro para ouvi-lo, entre os quais alguns corneteiros. Assim que os avistou, o jovem músico arrancou o clarim de um deles e, de um salto, atirou-se ao rio. Fazendo-o soar com um vigor extraordinário, dirigiu-se para a margem oposta. Diante disso, César falou, então: "Vamos para onde nos chamam os prodígios dos deuses e a iniquidade dos nossos inimigos. A sorte esta lançada"

Suetônio nos dá um relato bastante "embelezado", e tardio, pois foi escrito 175 anos depois do fato. Mas esse deve ser o tipo de evento que as criancinhas em Roma aprendiam na escola. César comandava uma legião 5000 soldados, 300 cavaleiros, (ou seja, milhares de testemunhas oculares), e dezenas de oficiais. Centenas de senadores tiveram que sair de Roma e da Itália. assim, deve haver dezenas de referências e descrições detalhadas em livros, cartas, poesias... Certo?

Errado, como vc pode ver aqui, neste resumo do Prof. Jeffrey Benaker, da Universidade de Wiscosin:

"Caesar’s crossing of the Rubicon in 49 BC is well known as an important milestone in the demise of the Roman Republic. It is also the case that we lack contemporary or even near-contemporary accounts. Caesar himself, in his Bellum Civile, makes no mention of the river. The history of his lieutenant, Asinius Pollio, has been lost, as has Livy’s 109th book (the periocha for 109 does not mention the Rubicon). Velleius Paterculus, then, when he writes that Caesar crossed the Rubicon after being frustrated by the Senate, is the earliest extant author to refer to the crossing, even if he does not comment on the event’s significance. The first thorough treatment of the Rubicon in the surviving literature does not appear until more than a century after the fact, in Lucan’s Pharsalia, a work of epic poetry rather than historiography. This version is followed by the detailed accounts in the biographies of Caesar by Plutarch and Suetonius. Appian’s history also includes the story of the crossing, but Dio shows that a historian could still write about Caesar’s civil war without mentioning the Rubicon.
My aim in this paper is to examine the four extant narratives of Caesar at the Rubicon (Lucan 1.183-232; Plutarch, Caesar 31-32; Suetonius, Caesar 30-32; and Appian 2.35.5).
(tradução) "A Travessia do Rubicão por Cesar em 49 BC é conhecida como um dos eventos mais importantes na queda da República Romana. É também um caso de típico de falta de relatos contemporâneos ou semi-comtemporâneos. O próprio César, em seu livros Bellum Civile (Guerras Civis), não faz menção ao Rio. A história de seu oficial, Asinio Polio, foi perdida, assim como o 109° livro de Livio (o periocha para o livro 109 não menciona o Rubicão). Veleio Paterculo, ao escrever que César cruzou o Rubicão em resposta as ações do Senado, é nosso relato remanescente mais antigo, embora não comente a importância do evento. O relato detalhado mais antigo da travessia do Rubicão hoje existente esta em Farsália, de Lucano, escrito mais de um século depois do fato, e que é mais um trabalho de poesia épica do que historiografia. Esta versão é seguido pelas narrativas detalhadas nas biografias de César por Plutarco e Suetônio. A história de Apío também inclui a história da travessia, mas Dio mostra que um historiador ainda poderia escrever sobre a guerra civil de César, sem mencionar o Rubicão.
Meu objetivo neste paper é analisar as quatro narrativas hoje existentes da Travessia do Rubicão por César (Lucano 1.183-232; Plutarco, César 31-32, Suetônio, César 30-32; e Apiano 2.35.5)"

Ou seja, uma vez que o próprio Cesar (48 AC) não menciona o Rio, os relatos sobreviventes desse fato marcante são Veleio Paterculo (30 DC), Lucano (61 DC), Plutarco (80 DC), Suetônio (125 DC) e Apiano (150 DC). Ou seja, cinco relatos em 200 anos. Se considerarmos um período de 100 anos temos apenas Veleio Paterculo. Provavelmente, todos esses relatos se baseiam na história escrita por Asinio Polio, um dos oficiais de César, narrativa esta que se perdeu. Com excessão de Lucano, nenhum deles gasta mais de uma folha descrevendo a história. Veleio Paterculo escreve uma unica linha "Cesar concluiu que a Guerra era inevitável e cruzou o Rubicão com seu exército" ( Historia Romana, 2:49.4).

(Agora, onde estavam os quarenta e tantos escritores antigos que viveram nos 100 ou 150 anos depois da travessia do Rubicão, que não mencionaram esse fato?)

Outro problema é geografico. O Rubicão não era um rio caudaloso, mas um riacho cujo nascente era nos montes Apeninos e seguia até o Mar Adriático, passando pelas cidades de Rimini e Cesena. Em cerca de 40 AC, Augusto anexou a Galia Cisalpina a província da Itália, e a "relevância" do Rubicão foi em muito diminuida. Os séculos se passaram, o relevo da região foi alterado por ação natural e humana, e os cursos d'agua varias vezes tiveram seu curso alterado, de sorte que não se tem certeza onde exatamente o Rio se localizava [3]. (Em 1933, o Rubicão foi identificado, oficialmente, como sendo, muito provavelmente, o Rio Fiumicino [3]).


Apesar desses problemas geográficos e de atestação histórica, não há duvida de que havia um rio Rubicão na fronteira e César o atravessou. Primeiramente, César evita dizer que cruzou a fronteira entre a sua provincia e a Itália, e portanto não menciona o Rubicão, uma vez que ele estaria admitindo uma situação constrangedora, e confessando um crime [4]. César, astutamente, diz que foi informado dos tumultos e ultrajes sofridos pelos tribunos, quando estava em Ravena esperando a resposta de suas propostas de pacificação (Guerras Civis 1:5), e vendo Pompeu e seus aliados se preparando para Guerra e espoliando colonias, cidades e Templos em busca de recursos (1:6), convocou suas tropas e lhes rememorou as injurias recebidas, a inveja de seus inimigos, os ultrajes sofridos pelos tribunos, e suas boas intenções (1.7), e se assegurando da boa vontade dos soldados, marchou para Rimini (1.8). Ravena ficava na Galia Cisalpina, Rimini na Itália. (Cesár, magistralmente, escreve um relato em que faltam as palavras "província" "Galia", "Cisalpina", "fronteira", "Rubicão", "ilegal" e "Itália", e como em uma espécie de "teletransporte" da Antiguidade, surge na Itália como suas tropas).

Além disso, o fato que Cesar estava na Galia na década de 50 AC, que tomou a Itália no ano seguinte, e que houve uma Guerra Civil entre ele e Pompeu são fatos conexos é atestados por multíplas fontes literarias (como Cícero e Tito Lívio) e arqueológicas. Por fim, a travessia do Rubicão (que implica em invasão não consentida da Itália) é coerente com esses e os outros fatos que conhecemos. A travessia do Rubicão é um evento histórico que explica o curso dos acontecimentos de que temos conhecimento, e sem o qual nossas fontes não fariam sentido.
A ilustração apenas mostra que é imprudente fazer juízos históricos baseado apenas na falta de evidência, uma vez que mesmo acontecimentos de repercussão extraordinária e que mudaram a vida de milhões de pessoas de forma definitiva muitas vezes tem atestação reduzida nas fontes que chegaram até nós. Sob o ponto de vista de um cidadão do Império a travessia do Rubicão seria muito, mas muito, mais relevante do que a crucificação (e os feitos) de um pretendente messiânico, na distante Judéia, principalmente se ele não estivesse acompanhado de hordas de rebeldes sob seu comando.

2) Grecia Antiga, século III AC

É lugar comum apontar a Grécia clássica como o "berço da civilização ocidental". Filósofos como Pitagoras, Socrátes, Platão e Aristóteles logo vem a mente; também os passos importantes para o desenvolvimento futuro da ciência dados por Tales de Mileto, Demócrito, Hipócrates e Euclides; assim como experiências politicas como a democracia ateniense; bem como a berço de disciplinas como a História, com Herodoto e Tucidiades. Os idéias da Grécia Clássica foram importantes, principalmente, pela influência que exerceram sobre seus conquistadores, do Helenismo de Alexandre Magno, e posteriormente em prover a base cultural sobre o qual se desenvolveu o Império Romano, e, em grande parte, o cristianismo.

A wikipedia observa astutamente que a cidade de Atenas, nos séculos V e IV AC, está no epicentro de toda essa civilização. Lá estavam a Academia de Platão, e o Liceu de Aristóteles, e onde viveram inúmeros filósofos, politicos e escritores, nós é muito bem conhecida. O mesmo não pode ser dito do período posterior, já na fase helenistica (323 - 146 AC). No entanto, o Professor Pierre Cabanes, da Universidade de Paris X Nanterre, ao ilustrar os problemas de fontes que o historiador se depara de falta de documentação mesmo onde menos se espera.

"O historiador da Antiguidade deve frequentemente admitir sua ignorância sobre pontos importantes da vida dos antigos, pois nosso saber é fragil, limitado, construido a partir de uma documentação fragmentária, muitas vezes lacunar. Se a documentação é relativamente abundante para a cidade de Atenas , nos séculos V e IV AC, não o é mais para os séculos seguintes, e a história ateniense do século III AC sai do esquecimento graças a achados de inscrições. As regiões mais distantes sofrem ainda mais desta precariedade de documentos, que só aparecem na maioria das vezes , na tradição literária, por ocasião de uma guerra na qual tomam parte os exércitos atenienses. No resto do tempo reina o silência completo. Só as excavações arqueológicas podem fazer falar esses sítios que testemunham uma civilização interessante. E o que dizer da Gália pré-romana, dos etruscos cuja escrita ainda não foi completamente decifrada e tantas outras populações cuja lingua, puramente oral, só deixou poucos trações na toponímia e onosmática? O que dizer também das multidões que viveram na escravidãoou formas de dependência coletiva? Aqui e ali aparecem algumas, graças a uma decisão de alforriagravada no muro de um santuário. Mas esta pobreza de documentação não deve provocar a decepção diante da falta de informação; Ela deve, ao contrário, aguçar o espírito de observação metódica para extrair o máximo de cada aporte antigo. É desta busca permanente e tenaz que pode nascer um melhor conhecimento da antiguidade [5]

Ou seja, mesmo no "centro" do mundo antigo, no lugar em que escritores e cultura não faltavam, temos um período importantíssimo em que a documentação é escassa, ou até inexistente. Cabanes adiciona outro exemplo: o desaparecimento quase completo da tradição literária para certos períodos, como o século posterior as conquistas de Alexandre, o Grande (360-323 AC). Os registros primarios, como o relato do historiador da corte de Alexandre se perderam. As fontes secundárias, escritas por oficiais de Alexandre, como Ptolomeu, Nearco e Aristobolo, além do escritor Cleitarco, se perderam, e nossas fontes se resumem a relatos terciários de autores do período romano que se basearam nesses relatos secundários. (Uma boa introdução sobre os problemas das fontes nos é dada também por Jona Lendering, aqui e aqui [6])

"Poderíamos prosseguir esta constatação desastrosa multiplicando os exemplos, mas vamos nos limitar a observar o desaparecimento quase completo de toda a tradição literária para algumas épocas. Assim, para o século subsequente à morte de Alexandre o Grande, em 323, a tradição histórica é um vasto campo de ruínas. Nenhuma das grandes obras históricas contemporâneas é conservada, seja a de Jerônimo de Cardia ou a de Filarco. Elas foram utilizadas posteriormente, a primeira por Diodoro, Ariano e Plutarco, e a segunda por Políbio, Troge Pompeu e Plutarco. O próprio relato do reinado de Alexandre não consta mais nos escritos de seus contemporâneos, cujas obras desapareceram todas, mas nas obras do tempo de Augusto (Diodoro da Sicília e Troge Pompeu), do reinado de Vespasiano (História de Alexandre, de Quinto Curcio), ou do século II (A Anabasis de Arriano de Nicomédia, ou a Vida de Alexandre, de Plutarco). É preciso levar em conta essa defasagem cronológica entre os eventos narrados e as datas que ocorreram. Três ou Quatro séculos de distância não convencem ninguém a tomar este autor como Testemunho direto. Como se, em nossos dias, as guerras de religião emergissem simplesmente do nada" [7]
Ou seja, nossos registros literários para alguém que virou o mundo de cabeça para baixo, é limitado. Mais ainda para o período seguinte a morte de Alexandre, quando mudanças importantíssimas ocorreram e suas conquistas foram divididas entre seus generais. De novo, "é imprudente fazer juízos históricos baseado apenas na falta de evidência, uma vez que mesmo acontecimentos de repercussão extraordinária e que mudaram a vida de milhões de pessoas de forma definitiva muitas vezes tem atestação reduzida nas fontes que chegaram até nós".

3) Mais porque temos tão poucas fontes?

Devemos aqui fazer uma considerações a essa falta de fontes e relatos da Antiguidade. Milhares de livros foram produzidos na Antiguidade, a questão é que a grande maioria não chegou até nosso tempo. O problema se dá em virtude de como os textos antigos eram produzidos e conservados para a posteridade.

O professor Steve Mason, da York University, faz algumas consideração sobre a produção de livros e sua distribuição na Antiguidade observa abaixo que apenas uma ínfima parcela da população lia e escrevia no período romano e helenístico. Destes poucos letrados, somente alguns tinham condição de contratar um escriba profissional para fazer cópias dos textos que escreviam. Não havia, imprensa, maquinas de xerox, impressoras. A maioria dos livros era composta por seus autores para serem compartilhados entre seus amigos. Havia, é claro, excessões.

Most of the thousands of books that were written in the ancient world did not survive into the Middle Ages, let alone into the modern world. In the absence of paper, printing presses, and photocopiers, it was not a foregone conclusion that any given book would live beyond its author’s own generation. Publication of books was in general the prerogative of a small and literate elite. Books were often published (“made public”) in oral form, by recitation before a group of interested friends. Book manuscripts, on papyrus or occasionally parchment1 rolls, were relatively rare because they had to be copied individually by hand—usually the hand of a wealthy man’s slave. Libraries and booksellers existed, but they, too, were few and far between. Therefore, only those books that enjoyed a lively readership or some sort of official sponsorship could remain accessible. Only such committed readers would invest the necessary effort to have lengthy manuscripts copied and recopied. [8]
(tradução) A maioria dos milhares de livros que foram escritos no mundo antigo, não sobreviveu à Idade Média, e muito menos chegaram a nossa época. Na falta de papel, impressoras e fotocopiadoras, não havia garantia nenhuma de que determinado livro chegaria a ser lido pela geração seguinte a de seu autor. A publicação de livros era, em geral, prerrogativa de uma pequena elite e alfabetizados. Frequentemente os livros eram publicados ("tornados públicos") em forma oral, pela recitação diante de um grupo de amigos interessados. Manuscritos do livro, em papiro ou ocasionalmente rolos de pergaminho, eram relativamente raras, porque eles tinham que ser copiados à mão, um a um, normalmente pelo escravo de um homem rico. As bibliotecas e livrarias existiam, mas também eram poucos e distantes entre si. Portanto, somente aqueles livros que conseguiam um público devotado ou algum tipo de patrocínio oficial se mantinham acessíveis. Só esse leitores comprometidos iria investir o esforço necessário para que manuscritos extensos fossem copiados e reproduzidos.

O Professor Jona Lendering, por sua vez, observa as decisões econômicas que tiveram que ser feitas para manutenção e conservação de textos antigos. Uma vez que o papel e os escribas (insumos de produção) eram escassos e caros - e de tempos em tempos se deveria escolher quais os textos seriam copiados e quais não - se um determinado manuscrito tinha o "patrocinio" de um nobre rico (ou seja, havia demanda), ele sobreviveria, enquanto que os outros, "sem mercado", não. O mesmo pode ser dito de textos de interesse (ou desinteresse) das autoridades religiosas e políticas do momento.

Ancient texts were typically written on papyrus, which is vulnerable. As a rule of the thumb, we can assume that a scroll had to be copied every century. If parchment was used, replacement could take place less frequently. However, preparing a skin and making parchment was extremely expensive. Most texts were, therefore, written on papyrus and subject to decay and disappearance. If there were many copies of the same text, the chances of survival were greater, but professional writers were expensive and texts usually circulated in small numbers. A surprisingly great number of ancient texts has survived in only one copy, which shows how vulnerable the process of transmission was. The best way to conceptualize the process is, therefore, that ancient texts always disappeared, unless a rich lord or lady decided to hire a scribe and copy a scroll. Inevitably, selections were made. There was no need to copy the Histories of Valerius Antias once Livy had published the History of Rome from its Foundation; there was no need to copy the speeches of Greek orators of the third and second centuries BCE because the sophists of the second century CE were so much more eloquent; and there was no need to copy archaic poetry like Sappho’s because it was written in a poorly understood, archaic language. The publication of new texts was the greatest danger for the survival of older texts.
(tradução) Os textos antigos eram tipicamente escritos em papiro, que é vulnerável. Como regra geral , podemos supor que um livro tinha de ser copiado em cada século. Se pergaminho foi utilizado, a substituição poderia ocorrer com menos freqüência. No entanto, a preparar peles de animais para fazer um pergaminho era muito caro. A maioria dos textos foram, portanto, escritos em papiro e sujeitos à deterioração e desaparecimento. Se houvesse muitas cópias do mesmo texto, as chances de sobrevivência eram maiores, mas os escritores profissionais eram caros e os textos normalmente distribuídos em pequenas quantidades. Um número surpreendentemente grande de textos antigos chegou até nós em um único exemplar, que mostra o quão vulnerável o processo de transmissão foi. A melhor maneira de compreender o processo é ter em mente que textos antigos sempre desapareceriam, a menos que um rico senhor ou senhora decidisse contratar um escriba para recopia-los. Inevitavelmente, escolhas foram feitas. Não se julgou necessário copiar as histórias de Valerius Antias uma vez Lívio já havia publicado a história de Roma desde a sua fundação, não havia necessidade de copiar os discursos dos oradores gregos dos séculos III e II AC, pois os sofistas do século II DC foram muito mais eloqüentes, e não havia necessidade de copiar poesia arcaica como Safo, porque foi escrito em uma língua de díficil compreendida, arcaico. A publicação de novos textos era o maior perigo para a sobrevivência dos textos mais antigos.


Ou seja, os textos hoje existentes sobreviveram a um longo processo de seleção por séculos a fio. Tal processo facilitava a sobrevivência de textos de determinados autores (era mais fácil um livro atribuido a um mestre famoso como Aristoteles, Galeno ou Santo Agostinho, de que de um desconhecido Escribonio da Silva ou Theopompus de Souza). Além disso, determinados períodos foram catastróficos para conservação dos livros antigos, como os séculos seguintes a queda do Imperio Romano. Por fim, esse processo de seleção e escolha, que era racional do ponto de vista das limitações dos antigos, é desfavorável para os historiadores atuais. Entre copiar cada um dos relatos mais antigos, escritos próximos a epoca dos fatos, e um síntese e/ou resumo desses relatos feita por um escritor bem posterior, a escolha dos antigos tendia a ser pela segunda opção. É o caso das histórias de Valério Antias, Fábio Pictor, e Catão, o Velho, que foram fontes da narrativa de Tito Lívio, o grande sucesso da última significou que primeiras não foram conservadas, temos conhecimento de Antias, ou Catão ou Pictor apenas pelas citações em Lívio ou outros autores antigos (para desespero dos historiadores atuais).

4. As referências a Jesus na literatura antiga dificilmente seriam conseravdas


Por fim, devemos lembrar as condições de vida e morte de Jesus. Ele exerceu seu ministério em áreas rurais e pelo interior da Galiléia. Para os escritores romanos ou gregos, isso era tão remoto quanto Burkina Faso. Para os seus oponentes, ele e seu grupo eram uma seita obscura do judaísmo, um culto estrangeiro, uma "superstição nova e maligna" (Suetônio), entre centenas que existiam no Império. Jesus entrou em conflito com as autoridades políticas e religiosas da Judéia e foi crucificado, por ser acusado de ser o Messias, além de ter na cruz o explosivo título de "O Rei dos Judeus". Como nos diz Paulo, os poderosos deste mundo não compreederam Jesus "porque se o tivessem compreendido, não teriam crucificado o Senhor da glória." (I Cor. 2:8). Pregar a idéia de um Messias crucificado era "loucura para os gregos, e escândalo para os judeus" (I Cor. 1:23).

Logo, se algum autor não cristão fizesse menção Jesus, ou aos cristãos, seria, provavelmente, para ataca-los. As menções a Jesus e seu movimento por Tácito, Plínio e, Suetônio se referem a tumultos em que os cristãos estavam envolvidos, e onde sempre são descritos como superstição, com adjetivos nada lisonjeios como nova, depravada, irracional, mortal ... . A seção em que Jesus aparece em Josefo relata tumultos, tensões e calamidades, e, portanto, a versão original do Testemunho Flaviano provavelmente relatava uma atrocidade cometida contra Jesus (a crucificação de um inocente), ou um Tumulto causado por ele. Autores como Galeno e Luciano criticam a credulidade dos cristãos.

Ocorre que a Igreja, desde o século IV foi a principal (se não a única) mantenedora da herança literária da Antiguidade. Logo, textos e autores hostis ao cristianismo, ou que fizessem comentários desabonadores contra Jesus seriam menos propensos a serem recopiados a cada século, e, portanto, terem chegado até nós. É verdade que quase todos os autores citados acima fazem críticas ao cristianismo, mas quase todos eles ponderam que os cristãos eram inocentes das acusações inicialmente feitas contra eles (Tácito, Plínio) , tinham uma conduta correta e cuidavam uns dos outros (Luciano), ou percebiam elementos de sabedoria nos ensinos de Jesus ou do evangelho (Josefo e Galeno).

Ocorre que, principalmente para os primórdios do cristianismo, a maioria dos críticos não deve ter sido tão compreensivo. Como já dissemos em um post em que mostramos "Jesus pelas lentes de seus adversários", citando o Professor Maurice Goguel, que através de Luciano, Celso, das várias apologias do século II (Justino, Taciano, Aristides) e pelo Dialogo entre Justino e o judeu Trifo, podemos ter uma visão bem detalhada dos críticos do cristianismo naquele período. Da mesma forma que há uma tradição apologética existe um outra polêmica, a qual a primeira tentava refutar. Então, vemos já por volta de 130-140 DC Justino Martir constata em circulos judaicos "eles atribuiram [os milagres] a utilização de poderes mágicos, porque eles se atreveram a dizer que Jesus era um mágico e enganador do povo" (Dialogo com Trifo 69.5). Décadas depois, por volta de 175 DC, o crítico pagão Celso, em seu livro "o Verdadeiro Discurso" lança um violento ataque sobre vários aspectos da vida de Jesus - ancestralidade, concepção, nascimento, infância, ministério, morte, ressureição e influência posterior, baseado em informações que circulavam entre os judeus.

"De acordo com Celso, os pais de Jesus eram de uma aldeia judia (Contra Celso 1.28), e sua mãe era uma pobre mulher que obtinha seu sustento como fiandeira (1.28). Ele realizou seus milagres através de feitiçaria (1.28; 2.32; 2.49; 8.41). Sua aparência física era de um homem feio e pequeno (6.75). Para seu descrédito, Jesus manteve todos os costumes judaicos, inclusive o sacrifício no Templo (2.6). Ele reuniu apenas dez seguidores e ensinou a eles seus piores hábitos, como mendigar e furtar (1.62; 2.44). Seus discipulos, que contavam só "dez marinheiros e coletores de impostos" foram os únicos a qual ele convenceu de sua divindade, mas agora seus seguidores convertem multidões (2.46). Os relatos de sua ressureição vieram de uma mulher histérica, e a crença na ressureição foi o resultado da mágica de Jesus, os desejos de seus seguidores, ou alucinação coletiva, tudo com o propósito de impressionar outros e aumentar as chances de outros tornaram-se mendigos (2.55).” [10]

Justino e Celso atestam várias tradições já existentes de polêmicas e ataques contra Jesus. Um vez que ambos escrevem em meados do século II, é razoavel concluir que já havia, pelo menos no início do século II, uma literatura polêmica, incipiente, contra o cristianismo. Logo, provavelmente, existiram muito mais menções a Jesus e aos cristãos do que possuímos hoje. Sua natureza agressiva resultou em sua não conservação, ainda que seus ecos sejam percebidos na literatura apologética que tentou refuta-la.

Conclusão

É imprudente fazer juízos históricos baseado apenas na falta de evidência, uma vez que mesmo acontecimentos de repercussão extraordinária e que mudaram a vida de milhões de pessoas de forma definitiva, muitas vezes tem atestação relativamente reduzida nas fontes que chegaram até nós. Sob o ponto de vista de um cidadão do Império a travessia do Rubicão ou eventos posteriores a Alexandre Magno, seriam infinitamente mais relevantes do que a crucificação (e os feitos) de um pretendente messiânico, na distante Judéia, principalmente se ele não estivesse acompanhado de hordas de rebeldes sob seu comando. Nesse contexto, levando em conta a importância proporcional desses eventos para seus contemporâneos, a vida de Jesus pode ser considerada como relativamente bem atestada nas fontes não-cristãs. Além, é claro, da extraordinária quantidade de tinta que os seus seguidores utilizaram para registrar sua significância e seus feitos. Cabe ressaltar novamente, a análise só pode ser feita do ponto de vista proporcional e relativo, e não absoluto. Temos muita mais registros, diretos e indiretos, da Travessia do Rubicão do que da crucificação de Jesus, simplismente porque foram eventos de escalas muito diferentes de repercussão entre seus contemporâneos.

Como escreve o Professor John P. Meier, da Universidade de Notre Dame:

"A dificuldade de conhecer algo sobre Jesus deve ser colocada no contexto maior de saber algo sobre Tales, Apolônio de Tiana, ou qualquer outro nome do mundo antigo (...) Portanto o problema não é exclusivo de Jesus ou das fontes que contam sua história. Na verdade, em comparação com as inúmeras figuras indefinidas da história antiga, é surpreendentemente a quantidade de informações que temos sobre Jesus" [11].

Assim como o historiador israelense David Flusser, da Universidade Hebraica de Jerusalém,
"Realmente, possuimos registros mais completos sobre a vida dos imperadores seus contemporâneos e de alguns poetas romanos. Entretanto a excessão do historiador judeu Flávio Josefo, e possivelmente de São Paulo, Jesus é o judeu, de épocas posteriores ao Antigo Testamento, sobre quem nós mais sabemos" [12]

Referências Bibliográficas:
[1] Adrian Goldsworthy, Caesar's civil war, 49-44 BC, fl. 29
[2] Jeffrey Benaker (2007), Caesar on the Brink:Writing about the Rubicon in the Early Empire, 103th Classical Association of the Middle West and South, Cincinnati, Ohio, Abril 2007.
[3] Jona Lendering (2003), Rubico (49 BCE), http://www.livius.org/ro-rz/rubico/rubico.html, acessado em 18.01.2011.
[4] Kurt Raauflaub (2009) Bellum Civile In Miriam Tamara Griffin (2009) A companion to Julius Caesar, fl. 186.


[5] Pierre Cabanes (2001), Introdução a História da Antiguidade, fl. 16
[6] Jona Lendering , "Alexander the Great: the 'good' sources" http://www.livius.org/aj-al/alexander/alexander_z1b.html e "Alexander the Great: the 'vulgate' tradition, http://www.livius.org/aj-al/alexander/alexander_z1a.html, acessado em 18.01.2011
[7] Pierre Cabanes (2001), Introdução a História da Antiguidade, fl.
[8] Steve Mason (2003) Josephus and the New Testament, fl. 8, 2ª ed., excertos disponíveis http://www.hendrickson.com/pdf/chapters/156563795x-ch01.pdf, acessado em 21.01.2011
[9] Jona Lendering (2009), Common Errors (9): The Gnostic Gospels, postado em 15.05.2009 http://rambambashi.wordpress.com/2009/05/15/common-errors-9-the-gnostic-gospels/, acessado em 21.01.2011.
[10] Robert Van Voorst, Jesus Outside of New Testament, fl. 66

[11] John P. Meier (1991), Um Judeu Marginal, Repensando o Jesus Histórico, Vol. I, fl. 34
[12] David Flusser (1998), Jesus, fl .01

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