Estudos sobre Religião - Biblioblog

sábado, 25 de novembro de 2017

Continuando nossa série com cristãos poderosos nos primeiros século do cristianismo, vamos abordar duas figuras que viveram em Roma no início do século III.

Marco Aurélio Prosenes


"A Cura da Mulher com Fluxo de Sangue". Via wikicommons
Professor Peter Lampe, da Universidade de Heidelberg, nos apresenta Marcos Aurelio Prosenes, observando que era um ex-escravo imperial, liberto seja no reinado conjunto de Marco Aurélio e seu irmão Lúcio Vero, (161-169 DC) ou, ainda, na co-regência de Marco Aurélio com seu filho Cômodo, entre 176 a 180 DC [1]. Assim como Jacinto, sua pupila Marcia Demétria (amante do Imperador Cômodo) e Carpóforo, todos mencionados no post anterior desta série, Prosenes fazia parte de um influente círculo de libertos imperiais, que se converteram ao cristianismo e que faziam parte dos auxiliares próximos do Imperador Cômodo. 


Prosenes, porém, sobreviveu a queda da dinastia Antonina, o caos do ano dos cinco imperadores (193 DC)  prosperando após a chegada ao poder de Sétimo Severo (193-211), tornando homem de confiança de seu filho Caracala (211-217 DC).

A carreira de Marco Aurélio Prosenes, como usual de oficiais romanos, é descrita em inscrições funerárias, como descrevem os Professores John Dominic Crossan e Jonathan L Reed:

"(...) Duas inscrições são evidência da existência de outro cristão primitivo, desta vez de nível mais alto, no âmbito da corte imperial. Podem ser lidas num sarcófago pertencente ao alforriado imperial Marco Aurélio Prosenes, no ano 217 D.C. A primeira, entre dois cupidos, identifica o morto como
Ex-escravo dos imperadores, camareiro do imperador [Caracala], mordomo do tesouro e da propriedade imperial, administrador das apresentações de gladiadores, encarregado dos vinhos, indicado pelo divino Cômodo para a corte, tendo seus ex-escravos arcado com as despesas para a confecção deste sarcófago, com seu próprio dinheiro em honra de seu piedosíssimo mestre que bem o merece (CIL 6:8498A)"[2]
O Cursus Honorum de Prosenes é de um ex-escravo, que após ser trazido a Corte Imperial por Cômodo, ocupa vários postos de alta confiança até sua morte, já sob o governo de Caracala, em uma ascensão funcional de aproximadamente 30 anos. 

Prosenes exerceu o cargo de procurador (ex. procurator thesaurorum). No Principado, após as reformas do Imperador Augusto (31 AC-14 DC), esses oficiais eram responsáveis pela administração das propriedades  e territórios imperiais, tanto na esfera pública quanto em relação aos bens pessoais do Imperador. Nas provinciais senatoriais, procuradores eram responsáveis pelos assuntos fiscais, uma vez que, como observa o Professor Jona Lendering, não era possível indicar senadores para atuar como questores subordinados aos proconsules ou propretores que governavam tais províncias [3]. Além disso, tais procuradores respondiam diretamente ao Imperador [3]. Nas provinciais imperiais, a partir de Claúdio (41-54 DC), começou a se tornar comum a prática de transferir a procuradores os poderes plenos de governo provincial, como pode ser verificado na Judéia. Paralelamente, procuradores passaram a servir em cargos no governo romano equivalentes aos atuais ministérios, respondendo pelo tesouro imperial e o correio romano, por exemplo. Ou seja, ao longo do principado, com a concentração cada vez maior de poder na figura do Imperador, houve uma tendência dos cargos na administração passarem a ser ocupados por pessoas de sua confiança e orbita de influência.   

Então Marco Aurélio Prosenes seria o equivalente moderno do funcionário que é admitido na empresa como contínuo e após toda uma vida de serviços prestados, galga vários postos até assumir uma Superintendência Regional, Diretoria ou assessoria direta do Presidente.  

Como observa o Professor Peter Lampe:
"In any case, under Commodus (180-192 C.E.) Prosenes begins a respectable career administering a series of court offices (supervising the transport of wine from Italy to Rome, particularly for the table of the emperor [mensa Augusti]; director of the imperial gladiator games, steward of the imperial assets; administrator of the treasure chamber and advances to the most influential position of an imperial chief chamberlain under Caracella ("a cubiculo Augusti"). Especially in the office of chief chamberlain, imperial freedmen could still exercise power after freedmen had been denied acess to all higher positions in the administration, particularly since the time of Hadrian. Numerous personnel stood at the chamberlains' command. Their political influence was considerable - particularly since Commodus. In  the court of Commodus, they held the reins of government as more or less unofficial representatives of the emperor (Saoterus, Cleander, Ecletus). Chief Chamberlain M. Aurelius Cleander appointed consuls and the praefect of the guard. About Prosenes nothing similarly spectacular is known. His rank, however, is the highest that he as an imperial freedman could wish to possess.  [4]
(Tradução) De qualquer forma, sob Cômodo (180-192 CE), Prosenes começa uma carreira respeitável ocupando uma série de postos na Corte (supervisionando o transporte de vinho da Itália para Roma, particularmente para a mesa do imperador [mensa Augusti], diretor dos jogos imperiais de gladiadores, mordomo dos ativos imperiais, administrador da câmara do tesouro e avança para a posição mais influente de mordomo chefe da casa imperial sob Caracella ("cubiculo Augusti"). Especialmente no cargo de mordomo chefe, os libertos imperiais ainda podiam exercer poder após terem sido impedidos de exercer os cargos superiores da admnistração, particularmente desde a época de Adriano. Numerosos funcionários estavam no comando dos mordomos. Sua influência política era considerável - particularmente desde Cômodo. Na corte de Cômodo, eles detinham as rédeas do governo como representantes mais ou menos não oficiais do imperador (Saoterus, Cleander, Ecletus). O mordomo chefe M. Aurélio Cleander indicou cônsules e o Prefeito da guarda. Sobre Prosenes nada semelhante é conhecido. Seu posto, no entanto, é o mais alto que ele, na condição de alforriado imperial poderia almejar. [4]

Desta forma, Prosenes pode ter sido um dos homens mais poderosos do Império em seu tempo. Os mordomos citados por Lampe, como Marco Aurélio Cleander, Ecleto, e Saoterus, figuram entre os vários ex-escravos da casa imperial que se tornaram auxiliares próximos dos governantes (Marco Antonio Pallas também poderia ser citado) que  ficaram famosos mais pelo abuso, do que pelo uso de seu poder. O fato de Prosenes sequer ser citado no registro literário é indicativo que exerceu seu trabalho de forma profissional e bem sucedida.

 Mas como podemos deduzir que Prosenes era cristão? A resposta a esta pergunta vem do conteúdo da segunda inscrição, como nos descrevem Crossan e Reed:

A segunda inscrição, contudo, foi escrita pelo antigo escravo de Prosenes, chamado Ampélio. Na borda superior do lado direito do sarcófago, mais curto, acima da figura de um animal mitológico e quase invisível, a inscrição continha a frase latina caracteristicamente cristã Receptus ad deum, "recebido por Deus" . Le-se o seguinte:
Prosenes foi recebido por Deus cinco dias antes das Noas de [março] em S[...]nia quando Prasenes e Extricato foram cônsules, o último pela segunda vez [217 Dc]. Ampélio, seu ex-escravo, escreveu estas linhas quando ele voltou da campanha à cidade (CIL 6:8498B).[5]
Em 214 DC, Caracala resolveu intervir em uma guerra civil entre os pretendentes Artabano V e Vologeses VI, pelo trono da Partia, arquirival de Roma no leste. Em 8 de abril de 217, com o exército estacionado em Edessa (atual Urfa, na fronteira entre Síria e Turquia), o Imperador, protegido apenas com um grupo seleto de sua guarda pessoal, resolveu visitar o Templo da deusa lunar em Carras (atual Harã), a 40 km de distância (e onde, 270 anos antes, as tropas do General Marco Licinio Crasso haviam sido esmagadas, em uma maiores derrotas da história de Roma). Durante a viagem de volta, Caracala foi assassinado.   

Crossan e Reed descrevem o sarcófago
O leal Ampélio havia acompanhado Prosenes na campanha do Imperador Caracala contra os partos na Mesopotâmia, mas seu patrono morrera por lá. Evitou cremar o amigo e trouxe seu corpo para Roma. Os cristãos, como os judeus, não aceitavam a cremação, talvez por causa da crença na ressurreição. Tudo indica que Prosenes e Ampélio eram cristãos e que este preparara um funeral teologicamente adequado para o companheiro. Evitou não apenas a cremação mas também decorações pagãs no sarcófago, aceitando apenas figura neutras como golfinhos, cúpidos, cornucópia e grifos, bem como a frase pagã comum ou sua abreviação: dis manibus (sanctum), "sagrado aos espíritos mortos", embora essa inscrição se referisse ao divus Cômodo". É provável que Ampélio tenha acrescentado a segunda inscrição claramente cristã.[5]


Nessa linha, Professor Peter Lampe [6] apresenta os seguintes motivos:
  •  A inscrição de Ampélio está posicionada em lugar pouco usual, a borda superior do lado menor do sarcófago, acima da figura de um Grifo. Isso pode indicar certa cautela e descrição.
  • Prosenes é nomeado "procurator numerum". Lampe observa que em todo o volume VI do Corpus Inscriptum Latinarum (inscrições da cidade de Roma), não há nenhuma outra menção desse título. Este foi o segundo cargo de sua carreira. Parece ter havido uma certa preocupação em evitar o termo "munus gladiatorium", que seria o título mais comum. Cristãos batizados deviam evitar a participação nos jogos, conforme se lê, por exemplo, em Tradição Apostólica, capítulo XVI, 7.  
  •  A inscrição de Ampélio utiliza a frase "Recebido por Deus" (receptum ad deum). Tal frase não é encontrada em inscrições pagãs. No entanto, é bastante comum em inscrições cristãs posteriores. Lampe concede que a base de comparação é com inscrições do quarto e quinto século, o que implica um certo anacronismo, já que não muitas outras inscrições do mesmo período para se comparar.
  • Prosenes foi enterrado em um sarcófago e não teve suas cinzas colocadas em uma urna. Cremação, não sepultamento, era o usual na sociedade romana. Ainda mais atípico foi o fato do corpo de Prosenes tenha sido transportado, por quase 3 mil quilômetros, da Mesopotâmia até Roma. Nem mesmo o corpo do Imperador Caracala foi transladado para Roma, seu corpo foi cremado e suas cinzas levadas para Roma. 
Lampe conclui com a constatação que a identidade cristã de Ampélio e Prosenes explica a totalidade da evidência. Ao evitar a utilização de uma tumba com características externas pagãs, aparentar receio em relembrar a sua ligação com a gladiatura, usar inscrição com uma frase tão cristã quanto possível em lugar discreto, além do trabalhoso, caro e completamente atípico translado do corpo de Prosenes por 3 mil quilometros é explicado se ambos fossem cristãos, para que seus amigos pudessem lhe proporcionar um enterro cristão. 

Por fim, aceitando a identificação cristã de Prosenes, em qual momento teria se convertido? Provavelmente após ter deixado o cargo de responsável pelo jogos gladiatoriais.  

Prosenes é assim um dos vários cristãos na corte imperial no final do século II e início do III. Além de Marcia e Karpoforo, Professor Lampe [6] menciona as esposas dos governadores da Siria e Capadócia, por volta do ano 200 DC, citadas por Hipolito e Tertuliano, bem como a ama de leite do futuro Imperador Caracala e Proculo, chamado Torpácio, que, segundo Tertuliano, foi mantido no Palácio Imperial até sua morte por Sétimo Severo em retribuição por tê-lo curado com óleo.    

 Marcos Demetrianos


A Aparição aos Apóstolos, Duccio di Buoninsegna, 1311. via Artbible.



Além de considerar as evidências da propagação do cristianismo nas elites de Roma, as informações trazidas das provinciais são de extrema relevância. Em uma cidade do interior da Bitínia (norte da atual Turquia), chamada Claudiopolis, na primeira metade do século III DC, um importante chefe político, que havia exercido os principais cargos públicos locais, teve inscritas as seguintes palavras em seu túmulo familiar:



"(...) Para os santos que também puseram sua confiança em Deus: Marcos Demetrianos, que serviu honradamente como principal arconte, administrador da cidade, e diretor dos jogos, e sua querida mãe, Aurelia Pannichas, Aurelia Demetriana, sua filha, e Domitio Heliodoro, seu genro, juntamente com o irmão dela Demetriano e o tio dela Crisipo erigiram esta túmulo como memorial. (...)"  [7]
Professor Phillip Harland, York University, comenta a significância da inscrição e seu contexto

The board of archons was the most influential civic body in this region, and the post of head of this board would be reserved only for the most wealthy benefactors of the city. Demetrianos’s benefactions had evidently included sponsorship of the contests that were so much a characteristic of social life in the city. Here we have a Christian couple of high social status and great influence within the civic context being honored on an epitaph by a family that is proud of both their civic achievements and their “faith in God.” (Tradução) O conselho de arcontes era a entidade cívica mais importante da região, e o posto de chefe do conselho era reservado para o mais rico do beneméritos da cidade. O patrocínio de Demetrianos evidentemente incluia o suporte as disputas que caracterizavam muito da vaida social da cidade. Aqui nos temos um casal cristão com altíssima condição social e grande influência no contexto cívico, sendo honrados com um epitáfio por uma família orgulhosa das realizações cívicas e sua "Fé em Deus".  [7]

A inscrição de Marcus Prosenes indicava de forma discreta sua fé cristã. Praticamente, apenas outros cristãos poderiam identificar sua fé. Marcos Demetrianos é explícito em sua identidade. Contudo, Prosenes aparenta não se vangloriar de seu passado como diretor dos jogos de gladiadores, enquanto Demetrianos parece não se incomodar com a condição de diretor dos jogos, oficio teoricamente ligado ao culto imperial  [8]. Uma explicação que consideramos plausível, é que a existência como cristão era precária, mas, já no seculo III, milhões viviam desta forma, dentre os quais as figuras poderosas que já citamos. Uma espécie de "jeitinho", que implicava em algumas acomodações, tanto do Estado, quanto dos cristãos perseguidos. O próprio Imperador, beneficiário do culto em sua honra e cujo nome era invocado para executar os cristãos, mantinha mordomos, babás, servos de confiança, e até amantes que seguiam a fé proibida. Tal modus vivendi era, contudo, ocasionalmente perturbado. Quando porém postos em uma situação em que o confronto não podia mais ser evitado, muitos cristãos desafiaram o Império com suas vidas, como já observamos aqui no adcummulus "(...) Ou seja, a mulher mencionada acima, Ptolemaus, Lucius e o terceiro cristão não identificado, podiam viver suas vidas de forma relativamente tranquila, manter casamento com incrédulos, ensinar o cristianismo, assistir procedimentos do forúm, por anos a fio, sem serem molestados. Contudo, caso tivessem inimigos dispostos a acusa-los publicamente diante das autoridades, e, dependendo da rigidez dos juízes, poderiam ter como destino a execução. Era uma condição que poderia até ser tranquila, mas sempre precária. A qualquer momento, uma denúncia podia levar a prisão e a morte(...)".


Outro fator para a diferença de atitudes do mordomo do imperador e do político do interior, é geográfico. A região formada pelas antigas províncias romanas da Ásia Menor, Frigia, Galácia, Bitínia e Ponto, Cilícia e Capadócia, correspondente a atual Turquia, constitui, possivelmente, a mais relevante fronteira de expansão do cristianismo primitivo. Conforme Atos dos Apóstolos, a primeira, segunda e terceira viagem missionária de Paulo atravessaram estes territórios. Paulo estabeleceu residência por alguns anos em Éfeso, e escreveu aos Gálatas. O apocalipse foi dirigido "às sete igrejas da Ásia". Mesmo considerando textos do Novo Testamento cuja autoria seja questionada pela maior parte dos estudiosos, como  a carta de Paulo a Igreja de Colossos (50-80 DC) e 1ª Pedro (80-110 DC), que faz menção aos peregrinos do Ponto, Ásia, Galácia, Capadócia e Bitínia, se infere a presença de congregações estabelecidas e capilarizadas no final do século I DC. Como já falamos aqui em outros posts, provavelmente, lá o apóstolo Felipe e suas filhas se estabeleceram e foram sepultados.  

Plínio, o moço, em sua carta ao Imperador Trajano (que já abordamos aqui no adcummulus), demonstra sua surpresa com a expansão do cristianismo na Bitínia, em que era governador:

 (...) O assunto parecia ser importante o suficiente para que fosse dirigido a vós, especialmente considerando os números em perigo. Pessoas de todas as classes e idades e de ambos os sexos são, e serão, envolvidas na acusação, pois esta superstição contagiosa não se limita apenas às cidades, mas tem se espalhado pelas aldeias e zonas rurais; parece possível, no entanto, verificar e curá-la.(...)"     
Essa expansão continuou nos séculos seguintes, com os cristãos representando uma parte cada vez mais significativa da população daquela região. Conforme observa o Professor William Tabernee, Oklahoma Higher Education Heritage Society, as inscrições e outros artefatos cristãos surgem relativamente cedo e com frequência:
A large number of Christian inscriptions, many datable to before 260 (Mitchell 1993, 2:58–59), have been found in the nearby Çarşamba River Valley (MAMA 8.100, 116, 118–20, 131, 158–59, 161–65, 167, 199). An analysis of these and  other inscriptions from the area has shown that approximately one-third of the population of this particular region was Christian before 260, increasing to 80 percent during the fourth century (Mitchell 1993, 2:58). This compares  favorably with the statistics for the Upper Tembris Valley in Phrygia, where the  “Christians for Christians” inscriptions were produced and where 80 percent  of the tombstones datable to between 280 and 310 explicitly indicate Christianity (Mitchell 1993, 2:58). (Tradução) Um grande número de inscrições cristãs, muitas com datação anterior a 260 DC (Mitchell 1993, 2:58-59), foram encontradas nas proximidades do Vale do Rio Çarşamba (MAMA 8.100, 116, 118–20, 131, 158–59, 161–65, 167, 199). Uma análise desta e de outras inscrições da área demonstrou que aproximadamente um terço da população deste região específica era cristã antes de 260, aumentando para 80 porcento durante o quarto século (Mitchell 1993, 2:58). Isto é comparável com as estatísticas do Vale do Tembris Superior na Frigia onde as inscrições " de cristãos para cristãos" foram produzidas e onde 80 por cento das sepulturas datadas entre 280 a 310 indicam explicitamente cristianismo [8]

Assim, o cristianismo se expandiu de tal forma nas igrejas da Frígia, Capadôcia, Bitinia e Asia Menor que as evidências já indicam uma predominância de cristãos na população pouco antes da ascensão de Constantino. A tal ponto chegou a "ousadia" e segurança dos cristãos, que na Frígia temos a partir do III século algumas inscrições com a formula "cristãos para cristãos", como a que vemos abaixo:


Eutyches for Ammia his daughter-in-law and for Tatia his granddaughter; and

Makedon for his son and for his wife Ammia;  and Eutyches their son, (who

like his father and grandfather is still) living, constructed (this tomb for their

relatives). Christians for Christians (Tradução) Eutico para Ammia sua nora e para Tatia sua neta, e Makedon para seu filho e sua esposa Ammia; e Eutico seu filho (que como seu pai e avô ainda vive), constriu (esta tumba para seus parentes). Cristãos para cristãos.[9]
Assim, Eutico e seus familiares trazem testemunho, insculpido em pedra, da valentia e intrepidez de cristãos que já não mais temiam se identificar como tal.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
[1]  Peter Lampe (2003) Christians at Rome in the First Two Centuries: From Paul to Valentinus, fl. 330
[2] John Dominic Crossan e Jonathan L Reed (2004) Em Busca de Paulo:Como o Apóstolo de Jesus opôs o Reino de Deus ao Imperio Romano, Paulinas, São Paulo, fls. 333-334 
[3] Jona Lendering (2002, 2017) Procurator, www.livius.org/articles/concept/procurator/, acessado em 24.11.2017
[4] Peter Lampe (2003) Christians at Rome in the First Two Centuries: From Paul to Valentinus, fl. 331
[5] John Dominic Crossan e Jonathan L Reed (2004) Em Busca de Paulo:Como o Apóstolo de Jesus opôs o Reino de Deus ao Imperio Romano, Paulinas, São Paulo, fl. 334
[6] Peter Lampe (2003) Christians at Rome in the First Two Centuries: From Paul to Valentinus, fls. 331-332. Para Proculo e a ama de leite de Caracala, fl. 337, para as esposas dos Governadores da Síria e Capadócia, fl. 340.
[7] Phillip Harland (2002), Connections with Elites in the World  of the Early Christians, http://www.philipharland.com/publications/Harland%202002%20Connections.pdf , acessado em 24.11.2017.
[8] The Eerdmans Encyclopedia of Early Christian Art and Archaeology, Volume 1, fl. 197
[9] WilliaTabernee (2014), Asia Minor and Cyprus in  WilliamTabernee (ed). Early Christianity in Contexts: An Exploration across Cultures and Continents, fl. 292
[10] WilliaTabernee (2014), Asia Minor and Cyprus in  WilliamTabernee (ed). Early Christianity in Contexts: An Exploration across Cultures and Continents, fl. 272





 

sábado, 4 de março de 2017

Imperador Cômodo, como Hércules,  Museu Capitolino, via wikicommons
Continuando nossa série com cristãos poderosos nos primeiros século do cristianismo, vamos abordar duas figuras que viveram em Roma no final do século II. 

Márcia, a amante do Imperador

Márcia Aurélia Ceionia Demétria, uma ex-escrava, liberta do Imperador Lúcio Vero, pode nos ser melhor apresentada por seu contemporâneo, Cássio Dio (155-235 DC), que exerceu as funções de governador de Esmirna, cônsul de Roma e procônsul da Africa e depois da Panônia (atual Hungria), e durante o governo de Comodo, atuava como Senador.

Havia uma certa Marcia, amante de Quadrato (um dos homens mortos naquele tempo) e Ecleto, seu mordomo. O último se tornou também mordomo de Cômodo. Enquanto a primeira  se tornou amante de Cômodo e depois a esposa de Ecleto  e os viu também perecer por violência. Conta-se que que ela favoreceu grandemente os cristãos e lhes rendeu muitas bondades, na medida em que ela poderia fazer qualquer coisa com Comodo. [1] 
Cômodo , filho do Imperador Marco Aurélio,  reinou entre 180-192 DC, sendo o último governante da dinastia Antonina. Seu reinado, conforme apresentado pelas fontes disponíveis, como Cassio Dio e o autor grego Herodiano (170-240 DC), entre outras foi catastrófico. Como resumem os professores Eric Cline e Mark Graham, "Cômodo foi o pior Imperador em mais de um século" [2]. Essa deficiência como governante, de certa forma, abriu caminho para que Márcia fosse muito mais que uma amante do Imperador, mas alguém que exerceu poder efetivo de várias maneiras.

Como observa a Professora Anise Strong, da Universidade de Western Michigan:

 Marcia was an imperial freedwoman and probably originally belonged to the household of the Emperor Lucius Verus, who served jointly as emperor with the more famous Marcus Aurelius. She was likely born in the late 150s or early 160s CE, although we have no direct evidence on this point. According to a dedicatory inscription from the Italian town of Anagnia, she was the daughter of an imperial freedman. She may have been raised in Rome by a wealthy eunuch named Hyacinthus, who was also the Christian presbyter of Pope Victor I (Tradução)  Márcia era uma escrava imperial liberta que pertencia provavelmente a casa do Imperador Lúcio Vero, que reinou conjuntamente com o mais famoso Marco Aurélio. Ela nasceu provavelmente no final dos anos 150 ou início dos anos 160, ainda que não tenhamos nenhuma evidência nesse ponto. De acordo com um inscrição dedicatória da cidade italiana de Anagnia, ela era filha de um liberto imperial. Ela pode ter sido criada em Roma por um eunuco rico chamado Hiacinto (Jacinto), que era também presbítero do Papa Vitor I [3]
A inscrição a qual a Professora Anise se refere, é trancrita abaixo;
A Márcia Aurélia Ceonia Demétria, a stolata femina, em honra da dedicação dos banhos termais os quais, após muito tempo, foram restaurados a sua condição original as expensas dela, o senado e o povo de Anagnia, decidiram que uma estátua seja erigida, em lembrança de sua dedicação, ela deu 5 denários aos decuriões, 2 denários para os sacerdotes de Augusto, e um denário para cada um do povo, além de um banquete para todos [4]
A moça de Anagnia, filha de um ex-escravo e educada por um eunuco cristão, auxiliar do Bispo de Roma, no alto de sua trajetória improvável, se torna a concubina favorita do Imperador. Herodiano nos conta que Márcia tratada, na prática,  como sua esposa, (...) com todas as honra imperiais, exceto o fogo sagrado (...)"  [5]. Poucas alpinistas sociais foram tão bem sucedidas. Para marcar sua chegada ao topo, a filha do escravo liberto concede a sua cidade natal favores, obras públicas e banquetes.  Professora Anise Strong  detalha como: 

Marcia’s first known sexual partner was the consul Marcus Ummidius Quadratus, who was executed on charges of attempted assassination in 182 CE. After Quadratus’ death, she became Commodus’ concubine from 182 until his death at the end of 192. At some point during this time period, she married Commodus’ cubicularius, or chamberlain, a man named Eclectus. However, this did not affect her ongoing sexual liaison with Commodus (Tradução) O primeiro amante conhecido de Márcia foi o cônsul Marcos Umidio Quadrado, que foi executado sob acusação de traição em 182 DC. Depois da morte de Quadrato, ela se tornou concubina de Comodo do ano 182 DC até sua morte no final do ano 192 DC. Em algum momento neste periodo, ela casou com o "Cubiculario", ou Mordomo de Comodo, um homem chamado Ecleto. Entretanto isso não afetou seu relacionamento sexual com Comodo.[6]


Desta forma, Márcia, após se tornar amante de um cônsul, não só não compartilha sua desgraça, mas consegue se tornar concubina do próprio Imperador, que executara seu antigo protetor. A conspiração resultou na execução do cônsul Marcus Umidio Quadrado, envolveu também até mesmo Lucilla, a irmã do Imperador. Lucilla foi exilada para ilha de Capri, e morta no ano seguinte (182 DC) por um centurião enviado por Cômodo. Por esta época a esposa de Comodo, a Imperatriz Brutia Crispina, começava a perder prestígio na corte. Assim, com o afastamento ou enfraquecimento das mulheres da família imperial, Márcia se torna, na prática, a Imperatriz de Roma, com grande influência sobre Cômodo. 

Em 190 DC, ela chegaria, talvez, ao auge de seu poder. Um dos ex-mordomos do Imperador, chamado Marco Aurélio Cleander, havia chegado ao posto de Comandante da Guarda Pretoriana (a guarda imperial, unidade de elite, sediada em Roma), e um dos mais importantes conselheiros do Imperador. Nada disso, como típico naqueles tempos, sem conspirar e tramar intrigas contra seus oponentes, enriquecer as custas da corrupção, vender favores e cargos públicos, bem como distribuir dinheiro ao Imperador, a cidade de Roma e outras províncias. Em junho de 190 DC, houve fome em Roma, e o povo culpou Cleander, e um grande tumulto ocorreu na cidade. Cleander enviou tropas para conter os manifestantes, mas isso só tornou o tumulto em uma quase rebelião. Márcia teve um papel fundamental em eliminar Cleander, aplacando a ira da população. Cassio Dio nos conta que:


Eles já se aproximavam de Cômodo, a quem ninguém manteve informado do que estava acontecendo, quando Márcia, a notória esposa de Quadrado, reportou as novas a ele. Cômodo ficou tão perturbado (ele sempre foi o maior dos covardes) que ele subitamente ordenou que Cleander fosse executado, assim como seu filho, que estava aos cuidados do Imperador [7]. 
No entanto, com o passar tempo, o comportamento do Imperador ia se tornando cada vez mais errático. Cômodo, que não só gostava das lutas de gladiadores, mas se considerava uma Gladiador, teve um ideia pitoresca: no dia da "posse" dos cônsules do ano de 193 DC, Cômodo pretendia iniciar o cortejo não do Palácio Imperial, mas do quartel dos gladiadores, acompanhado por eles. Conforme o relato de Herodiano:
Ele anunciou suas intenções a Márcia, a quem, de todas as suas amantes, ele tinha em maior afeto; Ele não ocultava nada daquela mulher, como se ela fosse sua esposa legítima, permitindo a ela as honras imperiais, com exceção do fogo sagrado. Quando ela foi informada de seu plano, tão desarrazoado e indigno de um Imperador, se jogou aos seus pés, advertindo, com lágrimas, que não trouxesse tal desgraça ao Império Romano, nem pusesse em risco sua vida expondo-se a gladiadores e homens desesperados. Após muito implorar, não conseguindo persuadir o imperador a abandonar seus planos, ela deixou sua presença, ainda em pranto. Cômodo então convocou Laeto, o prefeito pretoriano, e Ecleto, seu mordomo de quarto, ordenando que fizessem os arranjos para que passasse a noite no quartel dos gladiadores, lhes dizendo que deixaria os sacrifícios festivos de lá, e se apresentaria aos romanos sob armas. E estes homens também lhe imploraram para que nada fizesse que fosse indigno da posição de Imperador [8].
A reação de seus associados deixou Cômodo profundamente magoado, e assim, Continua Herodiano, o Imperador decidiu agir de forma drástica. Fez uma lista de pessoas que seriam executadas, começando por Márcia, Laeto, Ecleto, muitos senadores, e todos os seus auxiliares que tinham servido seu pai, confiscaria seus bens e entregaria aos soldados da Guarda Pretoriana. No entanto, a lista chegou as mãos de Márcia. Tanto Herodiano, como Cássio Dio, contam que ela se aliou a Ecleto e Laeto, entre outros, para conspirar contra Cômodo. Conforme Cássio Dio:
Por estas razões Laeto e Ecleto o atacaram, após terem feito Márcia sua confidente. Sendo assim, no último dia do ano, a noite, quando as pessoas estavam ocupadas com o feriado, eles fizeram Márcia administrar veneno em um pouco de carne. Mas o uso imoderado de vinho e banho, a qual se habituara, o impediram de sucumbir de uma vez, e ao invés vomitou parte dele; e suspeitando então da verdade, ele pronunciou algumas ameaças. Então eles mandaram Narciso, um atleta, contra ele, e fizeram que o estrangula-se enquanto se banhava. Este foi o fim de Cômodo, após ter reinado por doze anos, nove meses e quatorze dias. Ele viveu 31 anos e quatro meses, e com ele a linhagem dos Aurelios genuínos se extinguiu [9]
Laeto, Ecleto e Márcia agiram rapidamente e pediram a um dos mais respeitados generais romanos e que já havia governado várias províncias - a assumir o trono. Pertinax, o escolhido, foi aceito pelos senadores, o povo, e os oficiais e legionários romanos nas províncias. Contudo, a guarda pretoriana rapidamente passou a ve-lo com desconfiança, quando não lhes ofereceu o donativo (presente em dinheiro, dado pelo Imperador as tropas) que esperavam. Pertinax iniciou um programa de reforma e reestruturação do Império, e tentou restabelecer a hierarquia e disciplina no exército. Parte da Guarda Pretoriana se revoltou, e antes que Pertinax pudesse buscar auxílio do exército provincial, e assassinou o Imperador (após 87 dias de governo). [10]

No caos que se seguiu, o sogro de Pertinax, Flavio Sulpiciano, e o Senador Dídio Juliano passaram a disputar o apoio da Guarda Pretoriana de uma forma pitoresca, fizeram um leilão para quem oferecia o maior donativo aos soldados. Dídio Juliano, ganhou o trono, oferecendo 25 mil sestércios para cada pretoriano. Juliano reinou apenas dois meses, até ser destronado por Sétimo Severo (193-211 DC), que estabilizaria o Império e estabeleceria a dinastia severa, no trono até 235 DC. Dídio Juliano, no entanto, em dos poucos atos de seu breve governo, ordenou a execução de Márcia e seu novo marido, Ecleto.[10]


O dia em que Márcia, sem saber, mudou a história da Igreja


Pães e Peixes, afresco nas Catacumbas de São Calisto, via wikicommons
Mesmo com uma vida cristã pouco "ortodoxa", Márcia não esqueceu suas origens. Ela vivia em uma condição em que os princípios éticos cristãos certamente condenavam como pecaminosa. Cômodo ficou conhecido como um homem devasso, violento e louco, semelhante a Calígula ou Nero. Entretanto, sua companheira atuou decisivamente em favor do cristianismo. Márcia parece ter sido importante em influenciar as políticas do Império  de forma favorável aos cristãos.

Eusébio de Cesareia (263-339 DC)  afirma que, sob Cômodo, os cristão viveram em tempos relativamente tranquilos [11]. Como observou o Professor Thomas Oden (1931-2016), da Drew University, "(...)aparentemente, através dos esforços de sua companheira (concubina ou amante) Márcia, Comodo foi conduzido a uma visão mais conciliatória em relação ao cristianismo, ao contrário de seus predecessores (...)" [12], ou, nas palavras de Anise Strong "(...) Há uma notável falta de relatos de mártires cristãos durante o Reinado de Comodo (...)" [13].

Um autor cristão,  também contemporâneo, chamado Hipólito de Roma, em sua Refutação de Todas as Heresias, do início do século III, nos apresenta uma situação específica em que Márcia favoreceu os cristãos, e que teria consequências tão profundas, quanto inesperadas, para o futuro da Igreja. 

Márcia, uma concubina de Cômodo, que era uma mulher que amava a Deus, e desejosa de realizar alguma boa obra, convidou em sua presença o bendito Victor, que naquela época era bispo da Igreja, e perguntou-lhe quais eram os mártires que estavam na Sardenha. E ele entregou-lhe os nomes de todos, mas não deu o nome de Calisto, sabendo os atos vilanescos que ele tinha arriscado. Márcia, obtendo seu pedido de Cômodo, entregou uma carta de emancipação a um certo eunuco chamado Hiacinto (Jacinto), já avançado em dias. E ele, ao recebê-la, navegou para a Sardenha, e tendo entregue a carta aquele que na época era governador do território, conseguiu que os mártires fossem libertados, com exceção de Calisto. O próprio Calisto, caindo de joelhos e chorando, suplicou que ele também pudesse ser libertado. Hiacinto, portanto, constrangido pela importunação do cativo, solicitou ao governador que concedesse a sua libertação, alegando que Márcia também lhe dera permissão para liberar Calisto e que faria arranjos para que não houvesse quaisquer riscos. Desta forma, o governador foi persuadido e libertou Calisto também. [14]
Jacinto, que havia criado Márcia, é a provável ligação entre ela e o Bispo Victor, para obter a libertação de vários cristãos que estavam condenados a sofrer nas minas. Jacinto, na condição de "pai de criação" de Márcia, e presbítero do Bispo Vitor, tinha as conexões necessárias tanto na corte como na liderança cristã. O fato de Jacinto, Marcia, e vários escravos e libertos imperais, como Carpóforo (que apresentaremos abaixo) e outros que serão mencionados nos posts futuros, indicam que o cristianismo conseguiu avançar significativamente na própria casa imperial.

Mas quem era Calisto?

Involuntariamente, Marcia seria decisiva em um conflito no seio da Igreja de Roma e, em última análise, para toda a cristandade. Calisto, a qual Hipólito menciona, era um jovem escravo de um liberto imperial chamado Carpóforo, que era cristão e muito rico. Carpóforo encarregou, (ou apenas permitiu) Calisto de captar depósitos do público, no bairro Aventino, em Roma. Muitos judeus e cristãos (e dentre estes, muitas víuvas) faziam parte de sua clientela. A atuação de Calisto como banqueiro, nos é apresentada por Hipolito como uma mistura de gestão temerária com gestão fraudulenta, ou seja, escolhas ruins em termos de empréstimos, combinadas com uso dos recursos em seu próprio proveito. O Professor de Economia da Universidade Rei Juan Carlos de Madri, Jesus Huerta de Soto acrescenta que o ambiente economico não era favorável "(...) depois de um período de forte expansão inflacionária seguido de uma grave crise de confiança, perda do poder de compra do dinheiro e falência de várias empresas comerciais e financeiras, que teve lugar sob a governação do Imperador Cômodo de 185 a 190 de nossa era (...)" [15]. 


Túmulo de Santa Cecília (sec III DC). Escultura de Stefano Moderno, 1599. Inicialmente na Catacumba de São Calisto depois transferido para Igreja de Santa Cecília de Trastevere, via wikicommons












O Banco faliu, e Calisto tentou fugir de Roma, indo para Porto, na margens do Tibre com a intenção de entrar no primeiro navio disponivel. Carpóforo foi atrás de Calisto e o interceptou na saída do porto. Calisto se jogou na água para tentar escapar, mas mesmo assim foi capturado. Carpóforo rebaixou Calisto a serviços braçais e penosos, tendo que mover uma pesada pedra de moinho, dia após dia, continuamente. Os depositantes do Banco, contudo, foram até Carpóforo e pediram que libertasse Calisto, na esperança que ele pudesse, de alguma forma, recuperar parte dos recursos. Carpóforo atendeu o pedido deles. Calisto, em sua nova missão de recuperação de créditos, buscou alguns de seus clientes judeus, de uma forma inusitada. Causou tumultos, no sabádo, em sinagogas, tentando constranger os devedores. Novo fracasso. A comunidade judaica, enfurecida com tal sacrilégio, levou o caso ao Prefeito Fusciano, que acoitou Calisto e o enviou as minas da Sardenha [14], praticamente uma sentença de morte. Como observa Thomas Craugwell, mesmo o homem mais forte não sobreviveria mais que um ano aos duros trabalhos, ar sufocante e pouco comida [17]. 

Ao conseguir comover Jacinto, Calisto escapou da morte certa. O Bispo Vitor, temendo as consequências da volta de Calisto a Roma, o manteve distante da cidade. Muitos anos depois, Calisto voltaria a Roma como assistente de um certo Zeferino. Vitor morreu em 199 DC, e a Igreja de Roma elegeu Zeferino como seu Bispo. Zeferino nomeou Calisto diácono e o encarregou de organizar um Cemitério, o que ele fez bem, pois as Catacumbas de São Calisto existem até hoje. Zeferino morreu no ano de 217 DC e o impensável aconteceu, Calisto, o escravo desonesto, banqueiro falido, e prisioneiro medroso, foi eleito Papa [14]. Papa Calisto. Para muitos membros da Igreja de Roma e de outras partes do Império, a eleição de Calisto deve ter sido como a vitória de Donald Trump, muitos séculos depois.

Um dos abismados foi Hipólito de Roma. O governo do Bispo Vitor já havia sido um tempo de controvérsias, em que a Igreja  de Roma entrou em conflito com as Igrejas da Asia Menor, como já falamos aqui no Adcummulus, em um post sobre o Apóstolo Filipe, por conta da data da Pascoa. O mandato de Zeferino também foi tumultuado, com o reinicio da perseguição, e  movimentos como o Montanismo e Sabelianismo, inicialmente bem recebidos em Roma e posteriormente considerados heréticos, ganhando terreno. 

Os temores de Hipolito se tornaram em rebelião aberta quando Calisto elaborou um Édito permitindo que cristãos batizados que haviam cometido pecados considerados graves, como adultério ou mesmo assassinato, pudessem ser readmitidos a comunhão se demonstrassem arrependimento e confessassem seus pecados. Bispos, presbiteros e diaconos em segundo ou terceiro casamento, poderiam manter seu ministério. Mulheres, principalmente de posição social mais elevada, que não conseguiam um casamento com homens cristãos do mesmo nível social, poderiam se unir a seus servos e escravos. Tertuliano, em Cartago, também não gostou da proposta, que também foi seguida pelo Bispo local, e escreveu um tratado "De Pudicitia" em que crítica o referido Édito. Hipolito entende tais concessões uma ameaça ao caráter santo da Igreja. Repreende Calisto por seu ensino de que a Igreja era como uma Arca de Noé, "(...) que foi feita como um símbolo da Igreja, em que os cães, lobos, corvos, e todos os seres limpos e imundos, e assim ele alega que seja o caso de ocorrer que a Igreja seja assim (...)" .[14]

A história, nesse caso, foi escrita pelos inimigos do Bispo Calisto. Nós temos praticamente uma fonte histórica, e a fonte é enviesada (como a grande maioria das fontes históricas), então devemos reconhecer os limites do conhecimento históricos. Os leitores do adcummulus são deixados entre duas opções: entender que Calisto foi um homem impio que conseguiu enganar a todos, e ser reconhecido como Bispo e depois Santo, e que sua trajetória foi uma afronta a natureza da verdadeira Igreja, que deve ser pura; ou, como este blogueiro, podemos também chegar a conclusão, tentativamente, que Calisto, por suas muitas falhas, seus sofrimentos, e sua vida pecaminosa, tenha realmente mudado e concluído que a natureza humana é decaida, dependente da misericordia de Deus, e portanto, antes de tudo, a Igreja deve acolher. Seja como for, as visões de Hipolito e Calisto, sempre conviveram na Igreja, e não só se antagonizaram, mas se complementaram muitas vezes. O cristianismo sempre enfatizou o recomeço, a renovação. Assim, Pedro que negou a Jesus, pode virar "pescador de homens", e os discipulos que fugiram na crucificação, puderam virar apóstolos da ressureição. para trazer os Zaqueus e as Madalenas do mundo. No entanto, o evangelho também prega o tomar a cruz e se afastar de tudo que há no "mundo" - "a cobiça da carne,, a cobiça dos olhos, e a ostentação de bens". A tensão entre exigir um padrão ético elevado e acolher os que caem, foi um elemento fundamental na vitalidade do cristianismo, e na sua capacidade de renovação, sendo parte original do evangelho. "O Espírito, na verdade, esta pronto, mas a carne é fraca", foi uma limitação presente para Igreja em toda sua história. 

Referências Bibliográficas
[1] Cassio Dio, História Romana, Livro 73:4), acessado em 02.03.2017, disponível em 
http://penelope.uchicago.edu/Thayer/E/Roman/Texts/Cassius_Dio/73*.html,   
[2] Eric H Cline e Mark W Graham (2011), Impérios Antigos, da Mesopotâmia a Origem do Islã, Editora Madras, fl. 329
[3] Anise K Strong (2014) A Christian Concubine in Commodus Court? EuGesta (Journal of Gender Studies), n° 4 2014, 238-259, fls. 242-243, acessado em 25.02.2017.
[4] Laura Van Abenna (2008), The Autonomy and Influence of Roman Women in the Late First/early Second, fl. 50. Universidade de Wisconsin-Madison, tese de doutorado. Inscrição catalogada no Corpus Inscriptum Latinarum (CIL) 10.5918.
[5] Herodiano, Historia Romana, 1;16.4http://www.livius.org/sources/content/herodian-s-roman-history/herodian-1.16/, acessado em 02.03.2017
[6]  Anise K Strong (2014) A Christian Concubine in Commodus Court? EuGesta (Journal of Gender Studies), n° 4 2014, 238-259, fls. 242-243, acessado em 25.02.2017
[7] Cassio Dio, História Romana, Livro 73:13, acessado em 02.03.2017, disponível em 
http://penelope.uchicago.edu/Thayer/E/Roman/Texts/Cassius_Dio/73*.html
[8] Herodiano, Historia Romana, 1:16-17http://www.livius.org/sources/content/herodian-s-roman-history/herodian-1.16/, acessado em 02.03.2017
[9]  Cassio Dio, História Romana 73:22.4, acessado em 01.03.2017,  disponível em 
http://penelope.uchicago.edu/Thayer/E/Roman/Texts/Cassius_Dio/73*.html
[10] cf Cassio Dio, História Romana 74, acessado em 01.03.2017,  disponível em http://penelope.uchicago.edu/Thayer/E/Roman/Texts/Cassius_Dio/74*.html e Herodiano, Historia Romana 2:1-8http://www.livius.org/sources/content/herodian-s-roman-history/herodian-2.1/ 
[11] Eusébio de Cesaréia, História Eclesiastica 5.21.1, acessado em 27.02.2017, disponível em http://www.newadvent.org/fathers/250105.htm
[12] Thomas C Oden (2011), Early Libian Christianity, fl. 113
[13] Anise K Strong (2016), Prostitutes and Matrons in the Roman world, fl, 90
[14] Hipólito de Roma, Refutação de todas as Heresias Livro 9, capitulo 7,  http://www.newadvent.org/fathers/050109.htm, o relato que se segue a respeito de Calisto segue, em linhas gerais, a descrição de Hipolito.
[15] Jesus Huerta de Soto (2012), Moeda, Crédito Bancário e Ciclos Economicos, fls. 78-79
[16] Thomas Craugwell (2006), Saints Behaving Badly, fl. 13

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