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quinta-feira, 20 de agosto de 2026

 






1. A comunidade celestial no judaísmo do Segundo Templo

A concepção cristã posterior da communio sanctorum não surgiu em um vazio religioso, cosmológico ou antropológico. Sua formação deve ser situada no interior de um processo histórico mais amplo, desenvolvido no judaísmo do Segundo Templo, no qual antigas representações da assembleia divina foram progressivamente articuladas a concepções mais complexas acerca da realidade celestial, dos anjos, dos justos, do destino dos mortos e da relação entre a comunidade terrestre e o mundo transcendente. Essa constatação, entretanto, exige uma distinção metodológica fundamental: não se trata de afirmar que o judaísmo do Segundo Templo já possuísse a doutrina cristã da Comunhão dos Santos, nem que a literatura enóquica ou qumrânica constitua uma fonte direta da eclesiologia cristã posterior. O que esses textos permitem identificar é algo mais elementar e, justamente por isso, mais importante: a existência de um arcabouço cosmológico e comunitário no qual o mundo celestial podia ser concebido como uma realidade socialmente estruturada, habitada por Deus, anjos e seres santos, submetida a uma ordem própria e, em determinadas tradições, relacionada de maneira dinâmica com a comunidade humana. A literatura do Segundo Templo não apresenta, portanto, uma única concepção do céu ou dos justos mortos, mas um conjunto diversificado de representações desenvolvidas durante vários séculos. George W. E. Nickelsburg chama atenção justamente para a diversidade interna da escatologia judaica desse período e, particularmente no corpus enóquico, para a transformação das tradições escatológicas ao longo de aproximadamente três séculos e meio (NICKELSBURG, 1988). Annette Yoshiko Reed, por sua vez, demonstra que a literatura enóquica deve ser compreendida como resultado de processos complexos de composição, transmissão e recepção, e não como expressão de uma comunidade homogênea ou de uma tradição isolada do restante do judaísmo (REED, 2005). A importância desses estudos para a presente investigação está precisamente em permitir que a relação entre judaísmo e cristianismo seja pensada não segundo o modelo simplista de “fonte e derivação”, mas segundo o modelo de continuidade, transformação e reconfiguração de estruturas religiosas.

A literatura enóquica constitui, nesse sentido, um dos testemunhos mais expressivos da elaboração dessa cosmologia. Em 1 Enoque 22, o espaço destinado aos mortos é descrito segundo uma geografia diferenciada: as almas encontram-se separadas em compartimentos distintos, de acordo com sua condição e seu destino escatológico. O texto não apresenta a morte como simples dissolução da identidade pessoal, mas como passagem para uma realidade organizada segundo critérios religiosos e escatológicos. Essa representação torna-se ainda mais significativa em 1 Enoque 39,4–5, quando Enoque contempla “as moradas dos santos” e os lugares destinados aos justos. Os justos aparecem associados aos anjos santos e, de modo particularmente relevante para nossa investigação, são apresentados como aqueles que oram e intercedem pelos seres humanos. É necessário, contudo, resistir à tentação de transformar essa passagem em uma prova antecipada da doutrina cristã da intercessão dos santos. Não há aqui ainda uma communio sanctorum cristã, nem uma teologia desenvolvida da veneração dos mortos. O que encontramos é uma possibilidade conceitual anterior: o justo, mesmo depois da morte, continua pertencendo a uma ordem religiosa e celestial e sua existência pode manter uma relação funcional com o mundo dos vivos. A relevância dessa representação para a história posterior da santidade cristã não está, portanto, em demonstrar dependência direta, mas em mostrar que o judaísmo do Segundo Templo já dispunha de categorias mediante as quais a fronteira entre comunidade terrestre e comunidade celestial podia ser pensada sem que a morte significasse necessariamente a interrupção da pertença religiosa (NICKELSBURG, 2001; NICKELSBURG; VANDERKAM, 2012).

Essa representação encontra paralelo particularmente importante na literatura de Qumran, sobretudo nos chamados Songs of the Sabbath Sacrifice. Os cânticos apresentam uma realidade celestial organizada em torno do templo celeste, do trono divino e de uma hierarquia de seres angélicos envolvidos na liturgia. A edição crítica de Carol A. Newsom demonstrou a extraordinária complexidade dessa composição e sua importância para a compreensão da imaginação litúrgica qumrânica (NEWSOM, 1985). O elemento decisivo para nossa argumentação não é postular uma relação direta entre Qumran e o cristianismo, mas observar a estrutura religiosa que os cânticos tornam visível: a comunidade terrestre pode conceber seu culto em relação com uma liturgia celestial. A realidade divina não é imaginada simplesmente como um espaço distante no qual Deus reside, mas como uma ordem cultual na qual seres celestiais desempenham funções específicas. A liturgia terrestre encontra, dessa maneira, sua referência em uma liturgia transcendente. A distinção entre céu e terra permanece, mas a separação não é absoluta. Em termos analíticos, podemos falar de uma sociologia religiosa do céu: existem sujeitos, autoridades, funções, hierarquias, espaços, liturgias e relações; e existe uma comunidade terrestre que se compreende em referência a essa realidade celeste. A expressão é nossa, não dos autores antigos, mas descreve adequadamente a estrutura que emerge de diferentes textos do período (NEWSOM, 1985).

A literatura enóquica e os textos de Qumran devem, entretanto, ser inseridos em um quadro mais amplo. Daniel 7 apresenta os “santos do Altíssimo” dentro de uma visão na qual a história terrestre é submetida ao julgamento da assembleia divina; Daniel 12 associa a fidelidade dos justos à ressurreição e à recompensa escatológica; 2 Macabeus e 4 Macabeus desenvolvem uma teologia do justo perseguido e morto que será posteriormente fundamental para a compreensão cristã do martírio. Não existe, portanto, uma única tradição judaica que conduza linearmente à communio sanctorum. O que existe é uma convergência de tradições: de um lado, a elaboração de uma comunidade celestial; de outro, o desenvolvimento de uma antropologia escatológica segundo a qual os justos mortos continuam inseridos no plano de Deus; e, paralelamente, a construção de uma teologia do justo perseguido, cuja fidelidade pode levá-lo à morte e cuja morte não representa derrota definitiva.



Tabela 1 — Estruturas antecedentes da comunidade celestial

TradiçãoConcepção fundamentalElemento relevante
Daniel 7Assembleia divina e “santos do Altíssimo”O destino dos justos é decidido em uma realidade celestial
Daniel 12Ressurreição e recompensa dos justosContinuidade escatológica da existência dos fiéis
1 Enoque 22Geografia diferenciada dos mortosA morte não dissolve a identidade religiosa
1 Enoque 39Moradas dos santos e relação com os anjosO justo morto permanece inserido na ordem celestial
1 Enoque 39,4–5Oração dos justosPossibilidade de relação entre comunidade celeste e terrestre
QumranTemplo celestial e liturgia angélicaParticipação terrestre na realidade celestial
2 Macabeus 6–7Justo perseguido e mortoMartírio como fidelidade extrema
4 MacabeusMorte dos mártires e vindicaçãoDesenvolvimento de uma teologia do martírio




A partir desse conjunto, torna-se possível formular uma primeira proposição central: o judaísmo do Segundo Templo não fornece ao cristianismo a doutrina da Comunhão dos Santos, mas fornece parte significativa da infraestrutura cosmológica necessária para que essa doutrina possa posteriormente ser formulada. O que é herdado não é uma instituição, uma fórmula ou uma doutrina pronta, mas a possibilidade de imaginar uma realidade na qual a comunidade religiosa ultrapassa a fronteira da morte. O céu já pode ser uma assembleia; os justos já podem possuir uma existência escatológica; os anjos já podem constituir uma comunidade litúrgica; e o mundo terrestre já pode ser pensado em relação com a liturgia celeste. O cristianismo introduzirá posteriormente uma reorganização decisiva desse material em torno de Cristo. A continuidade, portanto, é estrutural, não simplesmente literária.



2. A cristianização da assembleia celestial

Essa transformação torna-se particularmente evidente em Hebreus 12,22–24. O autor afirma que os cristãos chegaram “ao monte Sião e à cidade do Deus vivo, a Jerusalém celeste, e a milhões de anjos em reunião festiva, e à assembleia dos primogênitos inscritos nos céus, e a Deus, juiz de todos, e aos espíritos dos justos que chegaram à perfeição, e a Jesus, mediador de uma nova aliança”. A passagem possui extraordinária importância porque reúne, em uma única paisagem religiosa, elementos que aparecem separadamente em diferentes tradições judaicas: Jerusalém celestial, anjos, assembleia, Deus e justos aperfeiçoados. A novidade decisiva consiste na posição atribuída a Jesus. Ele não aparece como mais um membro da assembleia, mas como mediador da nova aliança. A estrutura cosmológica é reconhecível; sua organização interna, entretanto, foi profundamente transformada.

Essa passagem permite perceber algo fundamental para o desenvolvimento posterior da communio sanctorum: a comunidade cristã não é apresentada simplesmente como uma associação histórica de pessoas que vivem na terra e aguardam uma futura entrada no céu. Ela já participa, de alguma maneira, da realidade celestial. Os cristãos aproximam-se da Jerusalém celeste; encontram-se associados aos anjos e aos “espíritos dos justos aperfeiçoados”; e tudo isso ocorre diante de Deus e em relação a Jesus. A fronteira entre comunidade terrestre e comunidade celestial permanece, mas torna-se teologicamente permeável.

O mesmo processo pode ser percebido no Apocalipse. João contempla uma assembleia celestial organizada em torno do trono divino, formada por seres viventes, anciãos, anjos e multidões celestes; entretanto, o centro da adoração é o Cordeiro. O que ocorre, novamente, não é a substituição de uma cosmologia judaica por uma cosmologia inteiramente nova, mas a cristologização de uma estrutura religiosa preexistente. A assembleia celestial permanece; sua composição fundamental permanece reconhecível; a liturgia celeste permanece; mas Cristo passa a ocupar o centro da estrutura.

A pergunta deixa de ser simplesmente “quem pertence à comunidade celestial?” e passa a ser, cada vez mais, “qual é a relação entre aqueles que pertencem à comunidade celestial e Cristo?” Essa transformação é decisiva para compreender a posterior categoria de santo. O santo cristão não será simplesmente um indivíduo moralmente virtuoso, nem simplesmente um justo que morreu e foi admitido no céu. Ele será progressivamente compreendido como aquele cuja existência está relacionada a Cristo e cuja vida manifesta essa pertença.

A santidade cristã possui, portanto, uma dimensão simultaneamente ontológica, comunitária e mimética: ontológica porque envolve uma nova condição diante de Deus; comunitária porque o santo pertence a uma comunidade que ultrapassa os limites da existência individual; e mimética porque essa pertença se manifesta pela configuração da vida segundo Cristo.

É precisamente nesse ponto que a tradição cristã começa a modificar a antiga concepção judaica da comunidade celestial. A cosmologia é herdada; o princípio de organização é transformado. O céu continua sendo comunidade, mas agora a comunidade é definida pela relação com Cristo. Assim, a passagem do judaísmo do Segundo Templo para o cristianismo pode ser descrita como uma passagem da assembleia celestial à assembleia celestial cristológica.



3. O problema do estado dos mortos: sono, consciência e a sociologia celeste

É nesse ponto que se torna necessário introduzir uma questão que, embora decisiva para a coerência da hipótese, costuma ser obscurecida quando se fala genericamente em “comunidade celestial”: o que significa estar morto dentro dessa comunidade? Se os mortos estão simplesmente “dormindo” até a ressurreição, como poderiam os santos participar de uma comunidade celestial, ser vistos em visões, exercer intercessão ou permanecer relacionados aos vivos? A resposta exige abandonar qualquer tentativa de atribuir à patrística uma doutrina uniforme. A investigação das fontes revela, ao contrário, uma pluralidade de modelos escatológicos, que vão desde uma existência consciente, porém intermediária e incompleta, até concepções de sono da alma e, em alguns círculos, verdadeira morte da alma até a ressurreição. Nicholas Constas demonstrou que a questão do chamado “estado intermediário” permaneceu objeto de elaboração e controvérsia durante a patrística e o período bizantino, justamente porque diferentes tradições procuravam conciliar a expectativa da ressurreição corporal com representações de existência pós-morte (CONSTAS, 2001).

Um dos primeiros pontos importantes é que “sono” nem sempre significa inconsciência ontológica da alma. A metáfora bíblica do sono podia ser utilizada para designar a morte como estado provisório, sobretudo porque o morto aguardava a ressurreição. O problema surge quando se transforma a metáfora em uma antropologia segundo a qual a consciência desaparece completamente. Essa segunda posição existiu, mas não foi universal entre os cristãos antigos. Eusébio de Cesareia registra, no século IV, que alguns cristãos da Arábia sustentavam que a alma morria juntamente com o corpo e seria renovada apenas na ressurreição; segundo Eusébio, Orígenes foi chamado para intervir na controvérsia e conseguiu modificar a posição daqueles que haviam aderido à doutrina. História Eclesiástica VI,37 constitui, portanto, uma evidência particularmente importante da existência de correntes cristãs que rejeitavam a consciência pós-morte.

Mas essa posição não deve ser projetada retrospectivamente sobre toda a patrística. Já em Tertuliano encontramos uma rejeição explícita da ideia de que a alma durma juntamente com o corpo. Em De anima 43 e 55, ele argumenta que o sono corporal não implica repouso da alma e afirma que, após a morte, as almas permanecem ativas. Mais importante ainda, Tertuliano estabelece uma diferenciação extraordinariamente relevante para nossa investigação: nem todos os mortos possuem imediatamente o mesmo destino. Segundo sua concepção, as almas aguardam em Hades, mas os mártires possuem um privilégio especial e passam imediatamente ao Paraíso. Tertuliano interpreta Apocalipse 6,9–11 como uma visão das almas dos mártires sob o altar e utiliza também as visões atribuídas a Perpétua para sustentar a posição de que os mártires possuem acesso privilegiado à realidade paradisíaca.

Essa distinção é extremamente significativa porque mostra que, já no início do século III, a categoria de “mártir” funcionava como uma categoria escatologicamente excepcional. O cristão comum ainda aguardaria a consumação; o mártir, por ter configurado sua morte à morte de Cristo, poderia receber imediatamente uma condição superior. Estudos sobre a concepção tertulianiana do estado intermediário destacam precisamente essa diferença entre os mártires e os demais fiéis: os primeiros recebem acesso direto à bem-aventurança, enquanto os demais permanecem aguardando a consumação escatológica.

Ireneu oferece um modelo diferente e igualmente importante. Em Adversus haereses V,31–32, ele rejeita a ideia de que os mortos imediatamente recebam a plenitude celestial. As almas dos santos encontram-se em estado de expectativa até a ressurreição, quando receberão sua condição perfeita. Isso não significa, entretanto, que Ireneu conceba a alma como inexistente ou inconsciente. Em V,34, ele insiste na continuidade da identidade das almas durante o estado separado do corpo. O ponto de Ireneu é fundamental: o santo pode estar consciente e existir realmente sem que isso signifique que já tenha recebido a ressurreição e a glorificação final.

Temos, portanto, três possibilidades que não devem ser confundidas:

  1. inconsciência ou mortalismo: a alma deixa de existir até a ressurreição;
  2. sono da alma: a existência permanece, mas a atividade consciente é fortemente reduzida ou suspensa;
  3. existência consciente intermediária: a alma permanece consciente, mas ainda aguarda a ressurreição e a glorificação definitiva.

Essa diferenciação é indispensável porque resolve uma aparente contradição em nossa hipótese. A comunidade celestial não pressupõe necessariamente que todos os mortos estejam imediatamente na presença plena de Deus. Ela pressupõe apenas que exista uma realidade pós-morte na qual determinados sujeitos possam continuar pertencendo à ordem religiosa e escatológica de Deus. A forma dessa existência foi objeto de diferentes interpretações patrísticas.



Tabela 2 — A sociologia celeste na patrística

Autor/tradiçãoEstado dos mortosSituação dos santos/mártiresRelação com os vivos
Justino Mártir (séc. II)Existência intermediária até a ressurreiçãoJustos aguardam a consumaçãoÊnfase na ressurreição futura
Ireneu de Lião (c. 180)Almas continuam existindo e aguardam a ressurreiçãoSantos em expectativa; não recebem ainda a plenitudeComunidade futura e continuidade da identidade
Martírio de Policarpo (séc. II)Mártir permanece vivo na realidade celestialMártir como discípulo e imitador de CristoMemória e exemplo
Tertuliano (c. 200–220)Almas conscientes em HadesMártires possuem privilégio e vão imediatamente ao ParaísoMártires têm posição celestial privilegiada
Perpétua/Saturus (203)Visões apresentam mortos em ambiente paradisíacoMártires reconhecem outros mártiresComunidade dos mártires no além
Orígenes (séc. III)Existência pós-morte consciente, em processo de transformaçãoSantos participam de realidade espiritual intermediáriaRelação dinâmica entre mundo terrestre e celeste
Cristãos da Arábia registrados por Eusébio (séc. III)Alma morre com o corpo até a ressurreiçãoNão há consciência pós-morte nesse modeloRuptura temporária até a ressurreição
Cirilo de Jerusalém (séc. IV)Mortos continuam inseridos na economia litúrgicaPatriarcas, profetas, apóstolos e mártires são lembradosIntercessão dos santos
Basílio de Cesareia (séc. IV)Santos vivem diante de DeusMártires possuem especial parrhesiaFiéis podem pedir sua intercessão
Gregório de Nazianzo (séc. IV)Santos continuam relacionados à IgrejaMártires possuem proximidade especial com DeusInvocação e memória
Agostinho (séc. IV–V)Almas conscientes em condição intermediáriaMártires e justos podem estar com CristoComunidade dos vivos e mortos
Eustrácio de Constantinopla (séc. VI)Rejeita a inatividade da almaSantos mortos continuam ativosIntercessão e milagres




Essa tabela mostra algo particularmente importante para nosso argumento: “o santo está consciente” não é uma doutrina universal desde o início, mas a concepção de santos conscientes e ativos torna-se progressivamente mais explícita à medida que a teologia da intercessão se desenvolve. O percurso não é linear.

Um testemunho particularmente importante é o Martírio de Policarpo. A visão de Policarpo não deve ser lida apenas como descrição de um destino individual. O documento situa os mártires dentro de uma comunidade que transcende a morte. A Paixão de Perpétua e Felicidade, por sua vez, apresenta uma imagem ainda mais explícita: Saturus vê Perpétua e outros mártires depois da morte e os reconhece em uma comunidade paradisíaca. A literatura martirológica, portanto, começa a produzir uma verdadeira topografia celeste dos mártires.

A questão da consciência pós-morte torna-se ainda mais clara no desenvolvimento litúrgico do século IV. Cirilo de Jerusalém, ao explicar a liturgia eucarística, afirma que a Igreja recorda os patriarcas, profetas, apóstolos e mártires para que, por suas orações e intercessões, Deus receba a súplica da comunidade. O dado é crucial: aqui já não estamos simplesmente diante da memória dos mortos, mas de uma concepção segundo a qual os santos participam ativamente da relação entre a Igreja terrestre e Deus. A tradição litúrgica preservada por Cirilo mostra, portanto, uma transição da memória para a intercessão.

A partir desse momento, a categoria de “santo” começa a adquirir uma densidade que ultrapassa a simples recordação de um morto exemplar. O santo é um morto que, na concepção da Igreja, não deixou de pertencer à comunidade. Mais ainda: sua posição junto a Deus lhe confere uma capacidade de intercessão que os vivos não possuem. Essa é uma transformação decisiva da antiga sociologia celestial. O céu deixa de ser apenas o lugar para o qual os justos serão conduzidos no fim dos tempos e passa progressivamente a ser concebido como uma comunidade já existente, ainda que em condição intermediária, da qual determinados santos participam atualmente.

É justamente nesse ponto que podemos compreender a diferença entre o morto comum e o santo sem transformar essa diferença em uma regra universal da patrística. Em algumas tradições, especialmente na formulação de Tertuliano, a diferença é explícita: os mártires possuem acesso imediato ao Paraíso, enquanto outros mortos aguardam. Em outras, como em Ireneu, todos os justos permanecem em expectativa, embora conscientes. Mais tarde, na liturgia de Cirilo e na tradição de Basílio, os santos aparecem como figuras que já desfrutam de uma proximidade com Deus suficiente para interceder. O conceito de santidade, portanto, não depende exclusivamente de uma antropologia uniforme da alma; ele é também uma categoria de posição dentro da economia celestial.

Essa conclusão é particularmente importante para nossa hipótese geral. A “sociologia do céu” identificada na literatura judaica do Segundo Templo não desaparece no cristianismo. Ela é ampliada e reorganizada. Agora existem diferentes posições dentro da comunidade celestial: Deus, Cristo, anjos, justos, mártires e, posteriormente, santos de diferentes categorias. A questão não é simplesmente saber se o morto “está vivo” ou “está dormindo”; é determinar qual posição escatológica lhe é atribuída e quais relações essa posição permite manter com a comunidade terrestre.

Dessa maneira, a aparente oposição entre “sono dos mortos” e “comunhão dos santos” não deve ser tratada como uma contradição simples. Trata-se de duas linguagens escatológicas diferentes que coexistiram na história cristã. O sono pode designar a espera pela ressurreição; a consciência pode designar a existência intermediária; e a santidade pode designar uma condição especial de proximidade com Deus. O problema histórico não é escolher uma dessas linguagens e eliminar as demais, mas reconstruir como diferentes comunidades cristãs articularam tempo, morte, ressurreição e pertença comunitária.



4. O martírio: continuidade judaica e especificidade cristã

É nesse ponto que nossa hipótese necessita de uma segunda distinção fundamental. O cristianismo não inventou o martírio. Uma afirmação dessa natureza seria historicamente insustentável. Muito antes do surgimento do cristianismo, o judaísmo havia desenvolvido uma poderosa tradição do justo perseguido que prefere a morte à infidelidade. Daniel 3 e 7, 2 Macabeus 6–7 e, sobretudo, 4 Macabeus constituem testemunhos fundamentais dessa tradição. Jan Willem van Henten demonstrou sistematicamente como 2 e 4 Macabeus elaboram a figura dos mártires macabeus como “salvadores” do povo judeu, articulando fidelidade a Deus, fidelidade à Lei, sofrimento, morte, honra e esperança de vindicação (VAN HENTEN, 1997). Em 4 Macabeus, particularmente, os mártires tornam-se paradigmas de fidelidade e sua morte é interpretada mediante categorias de sacrifício, expiação, benefício comunitário e vitória moral. A literatura judaica anterior ao cristianismo já havia, portanto, sacralizado o sofrimento e a morte do justo.

Essa constatação, contudo, não elimina a especificidade cristã; ao contrário, permite identificá-la com maior precisão. Se o martírio já existia, qual é então a transformação introduzida pelo cristianismo? A resposta deve ser buscada na cristologização do martírio. O mártir cristão não é simplesmente o indivíduo que reproduz o padrão macabeu de fidelidade a Deus e à Lei. Ele é aquele que segue Cristo. Sua morte é interpretada à luz da paixão de Jesus e pode tornar-se uma forma de imitatio Christi. Candida Moss demonstrou que a ideia de sofrer em imitação de Jesus não surgiu apenas nos relatos tardios das perseguições, mas constitui uma dimensão importante do próprio discipulado no movimento cristão primitivo (MOSS, 2010).

Assim, a especificidade cristã não está na sacralização do martírio em si. O judaísmo já havia sacralizado o martírio. Tampouco está simplesmente na crença de que o justo morto continua pertencendo à comunidade, pois também essa possibilidade aparece em tradições judaicas do Segundo Templo. A especificidade cristã encontra-se na reunião dessas estruturas em torno de uma pessoa específica: Jesus Cristo.

O mártir cristão torna-se santo porque sua morte pode ser compreendida como participação mimética na morte de Cristo; e sua santidade torna-se inteligível porque Cristo é apresentado como paradigma da existência cristã.

Essa diferença é teologicamente profunda. O mártir macabeu morre em fidelidade a Deus e à Lei; o mártir cristão morre em fidelidade a Cristo. A fidelidade cristã não elimina necessariamente a fidelidade ao Deus de Israel, mas desloca o eixo da identificação religiosa. O centro da identidade passa a ser a relação com uma pessoa cuja vida, morte e ressurreição constituem o paradigma normativo da existência cristã.



5. Imitatio Christi e a formação do santo cristão

O Martírio de Policarpo, geralmente situado em meados do século II, constitui uma das testemunhas mais importantes dessa transformação. O documento não apresenta Policarpo apenas como um homem que morreu corajosamente por sua religião. Sua morte é inserida deliberadamente na narrativa cristã da paixão. O texto estabelece uma relação entre o sofrimento do bispo e o sofrimento de Cristo e descreve os mártires como discípulos e imitadores do Senhor (Mart. Pol. 17,3). A distinção entre Cristo e os mártires é preservada: Cristo recebe adoração; os mártires são amados e honrados enquanto discípulos e imitadores. O mártir é santo precisamente porque sua santidade é derivada de Cristo e orientada para Cristo.

A estrutura pode ser expressa mediante uma cadeia mimética:

Cristo → mártir → comunidade → novos imitadores.

Cristo constitui o modelo original; o mártir demonstra historicamente que esse modelo pode ser reproduzido; a comunidade preserva sua memória; e a memória funciona como mecanismo pedagógico mediante o qual outros cristãos são convidados a reproduzir a mesma forma de vida. Candida Moss demonstra que os atos dos mártires utilizam precisamente essa estrutura para transformar a morte individual em paradigma coletivo (MOSS, 2010).

O Martírio de Policarpo é particularmente importante porque permite observar a passagem entre a santidade do mártir e a continuidade da comunidade através da morte. Depois da execução, os cristãos recolhem os restos de Policarpo e passam a preservar sua memória. O texto afirma que desejam celebrar o aniversário de seu martírio e recordar aqueles que anteriormente haviam terminado sua carreira. O objetivo não é simplesmente preservar objetos pertencentes ao morto, mas estabelecer uma memória capaz de produzir imitação.

O problema fundamental não é, portanto, “por que os cristãos veneravam ossos?”, mas como a comunidade cristã podia continuar relacionada a seus mortos como membros efetivos de sua história religiosa?

Essa mudança de perspectiva é decisiva para a compreensão da communio sanctorum. O santo não é inicialmente importante porque é um morto poderoso; ele é importante porque sua vida continua sendo constitutiva da identidade dos vivos. O mártir morto permanece presente por meio de sua memória, de seu exemplo e de sua pertença à realidade celestial.

A partir daí, a santidade começa a reunir três dimensões que anteriormente apareciam separadas: a dimensão celestial, herdada da cosmologia judaica; a dimensão martirial, herdada em parte da tradição judaica do justo perseguido; e a dimensão cristológica, especificamente cristã, que interpreta a santidade como imitação de Cristo.



6. Da memória do mártir à communio sanctorum

A partir desse percurso, a hipótese central pode ser formulada com maior precisão. A communio sanctorum não deve ser compreendida como uma invenção repentina da Igreja dos séculos II ou III, nem como simples continuidade do culto judaico aos mortos ou dos cultos greco-romanos aos heróis. Sua formação resulta da convergência de duas histórias religiosas distintas, posteriormente reunidas e reorganizadas em torno de Cristo.

A primeira é a longa elaboração judaica de uma cosmologia da comunidade celestial. A literatura apocalíptica, enóquica e qumrânica torna possível imaginar uma realidade celeste organizada, povoada por Deus, anjos e justos, dotada de liturgia, hierarquia, julgamento e continuidade com a comunidade humana.

A segunda é a elaboração cristã de uma antropologia da imitação de Cristo. O cristianismo recebe uma tradição judaica já profundamente desenvolvida do justo perseguido e do mártir. Daniel e, sobretudo, 2 e 4 Macabeus demonstram que a morte por fidelidade religiosa já possuía significado comunitário e escatológico antes de Jesus. O cristianismo não cria essa tradição; ele a reinterpreta. A novidade está em fazer de Cristo o paradigma normativo segundo o qual o sofrimento do discípulo é compreendido.

A terceira dimensão, que agora se torna possível identificar com maior clareza, é a elaboração patrística de uma sociologia celeste. A comunidade dos santos não é formada apenas porque os mortos sobrevivem; ela depende da atribuição de diferentes posições aos mortos dentro da economia celestial. O mártir pode receber um estatuto privilegiado; o justo pode permanecer em expectativa; o santo pode ser concebido como vivendo diante de Deus; e, posteriormente, os santos podem ser invocados como intercessores.

Temos, assim, uma estrutura muito mais sofisticada do que a simples oposição entre “mortos conscientes” e “mortos dormindo”. A questão fundamental passa a ser:

quem está presente na comunidade celestial, em que condição, em que momento e com quais prerrogativas?

Essa formulação permite compreender por que a figura do mártir foi tão importante. O mártir não é apenas aquele que morreu. Ele é aquele cuja morte é interpretada como imitação de Cristo e que, por isso, pode receber uma posição escatológica excepcional. Tertuliano constitui um testemunho especialmente claro dessa lógica ao diferenciar os mártires dos demais mortos: enquanto os últimos aguardam, os primeiros possuem acesso imediato ao Paraíso.



Tabela 3 — A formação progressiva da Comunhão dos Santos

EtapaEstruturaFunção
Judaísmo do Segundo TemploAssembleia celestialCosmologia
Literatura enóquicaJustos e anjos no alémContinuidade pós-morte
QumranComunidade terrestre + liturgia celestialParticipação
Daniel/MacabeusJusto perseguido e mártirModelo de fidelidade
Novo TestamentoAssembleia celestial em torno de CristoCristologização
Martírio cristãoMártir como imitador de CristoSantificação
TertulianoMártires com acesso privilegiado ao ParaísoHierarquização escatológica
Cirilo de JerusalémSantos lembrados e invocados na liturgiaIntercessão
Patrística posteriorSantos como comunidade celeste ativaComunhão entre vivos e mortos
Igreja posteriorCommunio sanctorumComunidade transcendente e terrestre



A partir dessas estruturas, a communio sanctorum pode ser entendida não simplesmente como uma doutrina sobre a sobrevivência da alma, mas como uma teoria cristã da continuidade da comunidade. O que está em jogo não é apenas a sobrevivência dos indivíduos, mas a sobrevivência das relações que constituem a comunidade.

O santo continua sendo membro porque a morte não rompe sua pertença a Cristo; continua sendo modelo porque sua vida permanece disponível à imitação; e, quando a teologia da intercessão se consolida, continua também sendo um agente da comunidade porque sua proximidade com Deus lhe permite interceder pelos vivos.

Essa última dimensão aparece de maneira especialmente clara em Cirilo de Jerusalém. Na explicação da liturgia, a Igreja recorda patriarcas, profetas, apóstolos e mártires e pede que Deus acolha suas orações e intercessões. O morto santo não é mais apenas objeto da memória: ele participa da ação litúrgica da Igreja.

Nesse sentido, a communio sanctorum é a consequência de uma transformação progressiva do estatuto religioso do morto:

morto → justo → mártir → santo → membro da comunidade celestial → intercessor.

É importante, contudo, não tratar essa sequência como uma evolução automática. Ela representa antes uma possibilidade histórica progressivamente elaborada. Nem todo morto é santo; nem todo santo foi mártir; nem todos os Padres conceberam o estado intermediário da mesma maneira; e nem toda tradição cristã aceitou igualmente a consciência ativa dos mortos. O desenvolvimento da communio sanctorum é precisamente o resultado da negociação dessas diferentes concepções.



7. Continuidade, transformação e especificidade cristã

A hipótese que emerge desse percurso pode agora ser formulada de maneira mais precisa. O judaísmo do Segundo Templo fornece ao cristianismo a cosmologia da comunidade celestial; a tradição judaica do martírio fornece o paradigma do justo que permanece fiel até a morte; o cristianismo fornece Cristo como centro e paradigma absoluto da existência santa; e a patrística desenvolve progressivamente uma sociologia hierarquizada da comunidade dos mortos, na qual mártires e santos podem possuir uma posição especial diante de Deus.

A relação entre essas tradições não deve ser representada como uma linha direta de influência literária. O que existe é uma transformação estrutural.

Assembleia celestial → comunidade dos justos → continuidade para além da morte → justo perseguido → mártir → Cristo como paradigma → imitatio Christi → santo → comunidade celestial cristológica → intercessão → communio sanctorum.

Essa sequência permite evitar dois extremos interpretativos igualmente problemáticos. De um lado, evita a ideia de que a communio sanctorum tenha surgido como ruptura absoluta com o judaísmo. De outro, impede que o cristianismo seja reduzido a simples derivação das tradições judaicas anteriores.

Há continuidade cosmológica, mas inovação cristológica. Há continuidade martirológica, mas transformação mimética. Há continuidade escatológica, mas diferenciação da condição dos mortos. Há continuidade comunitária, mas expansão das relações entre vivos e mortos.

O resultado é uma nova sociologia religiosa da santidade.

O cristianismo não precisou inventar a ideia de que o céu possuía uma comunidade, de que os justos mortos continuavam diante de Deus ou de que o mártir podia possuir um estatuto religioso especial. Essas possibilidades estavam disponíveis, em graus diferentes, no universo judaico anterior e contemporâneo ao cristianismo. O que o cristianismo fez foi reordenar essas possibilidades em torno de uma figura histórica específica — Jesus — e converter a relação com essa figura no princípio organizador da santidade.

A morte do mártir tornou-se, então, não apenas testemunho de fidelidade religiosa, mas imitação da paixão; sua memória tornou-se não apenas lembrança funerária, mas mecanismo de formação comunitária; e sua presença celeste tornou-se não apenas continuidade individual após a morte, mas participação na comunidade dos que pertencem a Cristo.

Dessa maneira, a história que conduz da literatura judaica do Segundo Templo à communio sanctorum não deve ser representada como uma linha reta de influência, mas como uma transformação de estruturas religiosas. O judaísmo forneceu a linguagem cosmológica; a tradição martirológica forneceu a linguagem do testemunho extremo; Cristo forneceu o centro cristológico; e a patrística desenvolveu progressivamente as categorias mediante as quais os santos puderam ser concebidos como membros ativos de uma comunidade que transcende a morte.

A tese central deste estudo pode, finalmente, ser formulada nos seguintes termos:

O judaísmo do Segundo Templo forneceu ao cristianismo parte da infraestrutura cosmológica necessária para pensar uma comunidade religiosa que ultrapassasse a fronteira da morte: uma assembleia celestial composta por Deus, anjos e justos, dotada de ordem, liturgia e continuidade com a comunidade terrestre. Esse mesmo judaísmo desenvolveu uma poderosa teologia do justo perseguido e do mártir, particularmente evidente em Daniel e na literatura dos Macabeus. O cristianismo não inventou nenhuma dessas estruturas. Sua inovação consistiu em reorganizá-las em torno de Cristo. Ao transformar o mártir em imitador de Cristo e a santidade em configuração da existência à vida e à morte de Cristo, o cristianismo estabeleceu uma nova lógica de pertencimento à comunidade celestial. A patrística posteriormente desenvolveu diferentes modelos para explicar a condição dos mortos, alguns concebendo-os como conscientes e outros como adormecidos ou mesmo inexistentes até a ressurreição. Dentro desse campo de disputa, porém, consolidou-se progressivamente a figura do santo como membro privilegiado da comunidade celestial e, posteriormente, como intercessor dos vivos. A communio sanctorum emerge, assim, da convergência entre uma cosmologia judaica da assembleia celestial, uma tradição judaica do justo martirizado, uma antropologia cristã da imitatio Christi e uma elaboração patrística da continuidade comunitária entre vivos e mortos.


É precisamente aqui que a communio sanctorum deixa de ser simplesmente uma doutrina acerca dos mortos e passa a ser compreendida como uma teoria cristã da continuidade da comunidade. O santo continua sendo membro porque a morte não rompe sua pertença a Cristo; continua sendo modelo porque sua vida permanece disponível à imitação; e, na medida em que se consolida a crença na consciência dos santos junto a Deus, continua sendo também intercessor. A comunidade terrestre, por sua vez, não existe isoladamente: ela se compreende como parte de uma realidade maior, simultaneamente histórica, celestial e escatológica.

O que a literatura do Segundo Templo havia tornado cosmologicamente pensável, o cristianismo transforma em uma nova forma de pertencimento religioso; o martírio transforma essa pertença em testemunho corporal; e a patrística transforma o testemunho em uma sociologia celeste da santidade.



REFERÊNCIAS

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Fontes primárias

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JUSTINO MÁRTIR. Diálogo com Trifão. 80–81.

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TERTULIANO. De anima. 43; 55–58.

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1 ENOQUE. Especialmente 22; 39; 46–48; 61–62; 70–71.

HEBREUS. Especialmente 11–12.

APOCALIPSE. Especialmente 4–7; 14; 20–22.

MARTÍRIO DE POLICARPO. Especialmente 9; 17–18; 19; 21.

PAIXÃO DE PERPÉTUA E FELICIDADE. Especialmente 4; 7–13; 18–21.




sábado, 1 de agosto de 2026

 



Introdução

Mateus 27:52–53 ocupa uma posição singular na narrativa da paixão porque introduz, no interior de um conjunto de sinais associados à morte de Jesus, um acontecimento que o próprio evangelista não desenvolve: “os túmulos se abriram e muitos corpos de santos falecidos ressuscitaram”. A singularidade do episódio não está apenas em sua excepcionalidade, mas na forma como Mateus interrompe a narrativa justamente no momento em que a questão começa a adquirir consequências históricas: os ressuscitados saem dos túmulos, entram na cidade santa e “apareceram a muitos”. Depois disso, desaparecem do relato. O evangelista não informa quem eram, de onde provinham, o que disseram, quanto tempo permaneceram entre os vivos, qual era sua condição corporal, nem o que lhes aconteceu posteriormente. A narrativa, portanto, produz uma abertura deliberada ou, pelo menos, uma lacuna que a tradição cristã posterior não demoraria a preencher.

O problema que se apresenta agora, entretanto, é diferente daquele que orientou a reconstrução anterior da tradição patrística e medieval. Não interessa apenas perguntar se os santos morreram novamente ou ascenderam com Cristo. A questão mais profunda é compreender como a literatura cristã apócrifa transformou a pequena e enigmática notícia de Mateus em uma narrativa completa sobre a descida de Cristo ao mundo dos mortos. Essa transformação é particularmente visível no chamado Evangelho de Nicodemos, sobretudo em sua segunda parte, tradicionalmente conhecida como Descensus Christi ad Inferos. A investigação acadêmica considera esse texto uma composição complexa, formada pela associação das tradições dos Acta Pilati e da Descensus, com uma história textual que atravessa as tradições grega, latina e posteriormente eslava. J. K. Elliott observa que, embora a antiguidade conhecesse uma obra chamada Acta Pilati, não é possível simplesmente identificá-la com o texto atualmente conhecido como Evangelho de Nicodemos; a forma composta que chegou até nós é geralmente situada entre os séculos IV e VI.

Essa cautela cronológica é essencial. O Evangelho de Nicodemos não pode ser utilizado como se fosse uma testemunha contemporânea dos acontecimentos narrados por Mateus. Ele é muito posterior e pertence a uma tradição de expansão narrativa. Seu valor para o presente estudo é outro: ele permite observar o que a tradição cristã fez com o silêncio de Mateus. Onde Mateus deixa personagens anônimos, o apócrifo lhes atribui nomes; onde Mateus menciona apenas a saída dos túmulos e a aparição na cidade, o Descensus constrói uma geografia do mundo dos mortos; onde o evangelista não descreve qualquer discurso dos ressuscitados, o texto apócrifo transforma alguns deles em testemunhas privilegiadas da descida de Cristo ao Hades. A lacuna deixa de ser apenas lacuna e passa a funcionar como espaço de produção narrativa.

É justamente essa passagem — do silêncio à narrativa, da notícia à testemunha, do corpo ressuscitado ao testemunho sobre o mundo dos mortos — que precisa ser incorporada à história da interpretação de Mateus 27. A literatura apócrifa não resolve simplesmente uma questão deixada em aberto pelo evangelista. Ela reformula a própria natureza do episódio. Os santos deixam de ser figuras anônimas que aparecem brevemente em Jerusalém e tornam-se parte de uma concepção muito mais ampla: Cristo desce ao domínio da morte, rompe suas estruturas, liberta os justos, conduz os mortos à vida e inaugura uma nova relação entre o mundo dos vivos e o mundo dos mortos.

Nesse sentido, o Evangelho de Nicodemos constitui uma camada fundamental da tradição que conduz posteriormente à formulação medieval encontrada em Remígio de Auxerre e Tomás de Aquino. Mas a relação não pode ser construída de modo linear ou causal. Não se trata de afirmar que Remígio simplesmente retirou sua interpretação do Evangelho de Nicodemos, nem que Tomás tenha tomado a narrativa apócrifa como autoridade exegética. O que existe é algo mais interessante: um campo cristão de interpretação no qual Mateus 27:52–53, a descida de Cristo aos mortos, a libertação dos justos e a natureza da ressurreição dos santos progressivamente se entrelaçam. É essa cadeia que interessa reconstruir.


Do acontecimento silencioso de Mateus à narrativa dos mortos

O primeiro dado que precisa ser preservado é a extraordinária economia narrativa de Mateus. O evangelista não oferece uma narrativa sobre a descida de Cristo ao Hades. Ele tampouco identifica os santos. A sequência é extremamente curta: abertura dos túmulos, ressurreição de muitos corpos de santos, saída dos sepulcros depois da ressurreição de Jesus, entrada na cidade santa e aparição a muitos. A construção possui, portanto, uma forte densidade escatológica, mas não desenvolve uma narrativa sobre o que ocorreu no intervalo entre a morte e a ressurreição.

Essa característica torna especialmente significativa a recepção encontrada em Inácio de Antioquia. Na tradição longa da Carta aos Tralianos, o episódio de Mateus aparece associado à descida de Cristo aos mortos. Inácio escreve que Cristo morreu realmente e que, “sob a terra”, encontravam-se aqueles que ressuscitaram juntamente com ele; em seguida relaciona explicitamente essa multidão à passagem de Mateus: “Many bodies of the saints that slept arose”.

O argumento de Inácio merece atenção porque antecede em muitos séculos o Evangelho de Nicodemos em sua forma conhecida e já realiza uma operação hermenêutica que será decisiva: os santos ressuscitados não são compreendidos como um episódio isolado, mas como parte da descida de Cristo ao domínio dos mortos. Na formulação mais extensa da tradição inaciana, Cristo “descendeu [...] ao Hades sozinho”, mas ressuscitou acompanhado por uma multidão.

Aqui encontramos uma chave fundamental para a nova configuração do problema. A pergunta deixa de ser exclusivamente “o que aconteceu aos corpos dos santos?” e passa a ser “o que aconteceu no mundo dos mortos quando Cristo morreu?”. Essa alteração é decisiva. Mateus fornece o acontecimento visível — os túmulos abertos e os santos que aparecem na cidade —, enquanto a tradição cristã começa a procurar um acontecimento invisível capaz de explicar esse fenômeno: a vitória de Cristo sobre o domínio da morte.

Essa conexão também aparece em outros textos cristãos antigos. O Evangelho de Pedro, por exemplo, descreve a saída de Cristo do túmulo acompanhada por figuras celestes e introduz uma pergunta dirigida à cruz acerca daqueles que estavam “adormecidos”. Embora o texto não reproduza Mateus 27:52–53 de maneira direta nem permita simplesmente identificá-lo como sua fonte, ele demonstra que a associação entre ressurreição, mortos adormecidos e proclamação no mundo inferior circulava em tradições cristãs antigas.

Essa convergência é importante porque permite compreender o surgimento posterior da tradição do Descensus Christi ad Inferos. Não se trata de uma invenção repentina da literatura medieval. A ideia de que Cristo, entre sua morte e sua ressurreição, atravessou o domínio dos mortos e ali realizou uma ação salvífica possui antecedentes no cristianismo antigo e encontra expressão em diferentes tradições escriturísticas e patrísticas. A literatura apócrifa, particularmente o Evangelho de Nicodemos, realiza uma operação diferente: transforma esse conjunto de alusões em narrativa dramática.


O Evangelho de Nicodemos e a invenção narrativa dos testemunhos

A importância do Evangelho de Nicodemos para Mateus 27:52–53 aparece imediatamente quando Joseph de Arimateia, na segunda parte do texto, reage à surpresa provocada pela ressurreição de Jesus. A argumentação é construída precisamente sobre a existência dos outros mortos que teriam ressuscitado. O texto pergunta, em essência, por que seria extraordinário que Jesus tivesse ressuscitado se ele também havia levantado muitos outros mortos que apareceram em Jerusalém. Em seguida, a narrativa identifica dois deles: Simeão e seus dois filhos, apresentados como pessoas recentemente enterradas e cujos sepulcros agora se encontram vazios.

A diferença em relação a Mateus é enorme. O evangelista havia escrito sobre “muitos corpos de santos”, sem nomes. O apócrifo transforma a indeterminação em identificação. Mais ainda: estabelece uma espécie de verificação testemunhal. Os túmulos são procurados; encontram-se vazios; os ressuscitados são localizados em Arimateia; autoridades judaicas e cristãs entram em contato com eles. O acontecimento deixa de ser apenas um sinal e transforma-se em depoimento.

Esse mecanismo narrativo merece ser destacado porque é precisamente nele que a literatura apócrifa se distancia do texto mateano. Mateus conserva o acontecimento dentro da lógica dos sinais da paixão. O Evangelho de Nicodemos procura responder às perguntas que Mateus não responde: quem eram os ressuscitados? Onde estavam? O que aconteceu com eles? O que viram? Por que voltaram? O que aconteceu no mundo dos mortos?

A resposta é construída em torno de Karinus e Leucius. Eles se convertem em testemunhas privilegiadas daquilo que aconteceu durante a descida de Cristo ao mundo inferior. Em uma das formas latinas da narrativa, os dois afirmam que haviam ressuscitado com Cristo e que a destruição das portas da morte significava que as almas dos santos haviam sido libertadas. Uma formulação particularmente significativa afirma: “We arose with Christ out of hell, and he raised us up from the dead.”

Essa frase altera profundamente a configuração do problema de Mateus 27. Os santos não são mais simplesmente indivíduos que retornaram à vida. Sua ressurreição passa a ser explicada como efeito da descida de Cristo ao mundo inferior. A morte de Jesus não constitui apenas o acontecimento que antecede a abertura dos túmulos; ela é apresentada como o ato que desencadeia a libertação dos mortos.

A narrativa continua avançando. Karinus e Leucius recebem a tarefa de testemunhar aquilo que ocorreu. Em uma das formas latinas, o arcanjo Miguel lhes ordena que retornem a Jerusalém, permaneçam em oração e testemunhem a ressurreição de Cristo; a tradição afirma ainda que havia muitos outros que haviam ressuscitado com eles. O texto conserva inclusive uma limitação temporal para sua permanência entre os vivos.

Esse detalhe é particularmente importante para o nosso problema anterior sobre a possibilidade de uma segunda morte.

O Evangelho de Nicodemos não apresenta os ressuscitados como indivíduos que simplesmente retornaram à vida ordinária para continuar indefinidamente sua existência terrestre. Eles pertencem a uma categoria excepcional. Sua ressurreição possui uma função testemunhal e transitória: são levantados para evidenciar a vitória de Cristo e para testemunhar aquilo que ocorreu no mundo dos mortos.

Aqui encontramos uma configuração que se aproxima significativamente da interpretação de Remígio, embora não possamos estabelecer uma dependência textual direta entre os dois autores. Remígio afirmará que os santos ressuscitaram “para serem testemunhas da ressurreição do Senhor”. No Evangelho de Nicodemos, Karinus e Leucius desempenham precisamente essa função. A convergência conceitual é, portanto, mais importante do que uma suposta dependência literária.


O mundo dos mortos torna-se visível

A principal contribuição da literatura apócrifa para a interpretação de Mateus 27 não está, portanto, na tentativa de preencher simplesmente a identidade dos santos. Ela está na construção de uma geografia teológica da morte.

Mateus menciona sepulcros.

A tradição do Descensus introduz o Hades.

Essa diferença parece pequena, mas altera completamente o problema. O sepulcro é o lugar do corpo morto; o Hades é o domínio dos mortos. Quando a literatura apócrifa conecta os dois, o acontecimento de Mateus adquire uma dimensão cosmológica: aquilo que acontece na superfície de Jerusalém é o reflexo de algo que ocorreu simultaneamente nas profundezas.

A narrativa passa então a operar em dois planos. Na terra, os sepulcros se abrem e os mortos aparecem. No mundo inferior, Cristo destrói as barreiras que mantinham os justos presos. A abertura dos túmulos deixa de ser um fenômeno isolado e converte-se em manifestação terrestre de uma ruptura cósmica.

Essa estrutura explica por que a tradição do Descensus se tornou tão importante na história cristã. A pesquisa contemporânea reconhece que o Evangelho de Nicodemos é uma composição formada por diferentes unidades textuais e que sua segunda parte desenvolve precisamente a tradição da descida de Cristo aos mortos. O estudo de Minczew e Skowronek destaca essa natureza composta e a circulação das diferentes recensões gregas, latinas e eslavas. A investigação de Elliott, por sua vez, ressalta a dificuldade de determinar uma data única para a obra e distingue a tradição antiga dos Acta Pilati da forma posterior conhecida como Evangelho de Nicodemos.

Essa observação impede um erro metodológico importante. Não devemos dizer que “o Evangelho de Nicodemos prova o que aconteceu em Mateus 27”. Ele não prova. O que ele demonstra é outra coisa: em determinado momento da história cristã, a pequena notícia de Mateus já havia sido integrada a uma tradição narrativa muito mais extensa sobre a descida de Cristo ao mundo dos mortos.

É precisamente essa distinção que torna o apócrifo historicamente valioso.

Ele não funciona como testemunho independente do acontecimento.

Funciona como testemunho da recepção e expansão do acontecimento.


Karinus e Leucius: da testemunha anônima ao corpo que fala

A transformação mais radical realizada pelo Evangelho de Nicodemos talvez seja aquela que ocorre com a própria figura do ressuscitado. Em Mateus, os santos aparecem, mas não falam. Eles são vistos por outros. Sua função é visual: “apareceram a muitos”. O verbo utilizado pelo evangelista encerra sua participação narrativa.

No apócrifo, ocorre o inverso: o morto passa a falar.

Karinus e Leucius não são apenas corpos que retornaram ao espaço dos vivos. São testemunhas que carregam informação sobre o mundo invisível. Seu corpo ressuscitado torna-se uma espécie de arquivo daquilo que ocorreu no intervalo entre a morte e a ressurreição de Cristo.

Essa mudança é teologicamente extraordinária. O problema epistemológico de Mateus — “como saber o que ocorreu depois da morte de Jesus?” — recebe no apócrifo uma solução narrativa: podemos saber porque aqueles que voltaram dos mortos contam o que viram.

O texto chega a construir uma cena de investigação. As autoridades interrogam os ressuscitados e solicitam que coloquem por escrito o que aconteceu. As declarações de Karinus e Leucius tornam-se documentos. Em uma das versões, as duas testemunhas produzem relatos que são posteriormente comparados, sendo considerados coincidentes. A narrativa enfatiza que os testemunhos apresentam o mesmo conteúdo.

A estratégia literária é evidente: transformar o milagre em documento.

O que em Mateus aparece como uma visão coletiva — os santos “apareceram a muitos” — converte-se, no apócrifo, em testemunho escrito atribuído aos próprios ressuscitados.

Essa operação é particularmente relevante para compreender a história posterior da interpretação. O cristianismo antigo possuía uma preocupação intensa com a realidade corporal da morte e da ressurreição. A literatura apócrifa responde a essa preocupação tornando os mortos testemunhas corporais de acontecimentos invisíveis. A ressurreição não é apresentada como mera sobrevivência espiritual. Os corpos voltam, falam, escrevem, são reconhecidos e interagem com as autoridades.

Nesse ponto, a tradição apócrifa radicaliza aquilo que já estava implícito na linguagem corporal de Mateus: “muitos corpos” ressuscitaram. O apócrifo não abandona o corpo; ele o transforma em testemunha.


O problema da segunda morte sob uma nova luz

É aqui que os novos achados alteram significativamente a leitura da discussão sobre a segunda morte.

Na reconstrução anterior, a questão aparecia sobretudo como uma controvérsia teológica entre duas possibilidades: os santos poderiam ter sido revivificados para morrer novamente, como Lázaro, ou poderiam ter recebido uma condição definitiva e acompanhado Cristo na ascensão. Remígio registra explicitamente essa controvérsia e rejeita a hipótese da segunda morte; Tomás transforma o problema em questão escolástica relacionada à primazia de Cristo.

A literatura apócrifa acrescenta uma terceira dimensão.

Ela mostra que a tradição cristã não precisava escolher simplesmente entre “morrer novamente” e “ascender imediatamente”. O Evangelho de Nicodemos constrói uma situação intermediária e excepcional: os ressuscitados retornam ao mundo dos vivos, testemunham a ressurreição, circulam por determinado período e posteriormente desaparecem da esfera ordinária da história.

Em uma das formas latinas, Karinus e Leucius afirmam que apenas três dias lhes foram concedidos para permanecer em Jerusalém como testemunho da ressurreição. Em outra tradição textual, aparecem associados a uma multidão de mortos ressuscitados e a uma ordem para permanecerem em oração e testemunharem.

O resultado é importante: a literatura apócrifa não descreve uma segunda morte dos santos.

Mas também não apresenta exatamente a mesma solução de Remígio.

Ela constrói uma categoria narrativa própria: ressuscitados para testemunhar, com permanência limitada entre os vivos, vinculados à vitória de Cristo sobre a morte.

Essa configuração torna ainda mais compreensível a resistência de Remígio à hipótese de que os santos tenham retornado simplesmente à vida mortal. Se a tradição cristã já podia imaginar a ressurreição dos santos como uma manifestação especial da vitória de Cristo, a interpretação segundo a qual eles simplesmente voltaram à vida ordinária e morreram novamente tornava-se teologicamente menos necessária.

Entretanto, devemos resistir à tentação de estabelecer uma linha causal direta:

Evangelho de Nicodemos → Remígio → Tomás.

As evidências disponíveis não permitem isso.

O que podemos demonstrar é uma convergência de estruturas interpretativas: Mateus apresenta santos ressuscitados; Inácio relaciona sua ressurreição à descida de Cristo aos mortos; o Evangelho de Nicodemos transforma essa relação em narrativa completa; Remígio registra a controvérsia sobre sua morte posterior e rejeita a segunda morte; Tomás incorpora a questão a uma teologia sistemática da ressurreição.

A continuidade está menos na transmissão literal de uma resposta do que na persistência de um mesmo problema.


A patrística diante do apócrifo: uma relação que não deve ser simplificada

Essa reconstrução também exige uma revisão da maneira como devemos compreender a patrística. Não podemos colocar, de um lado, os “Padres” e, de outro, os “apócrifos”, como se constituíssem dois sistemas absolutamente separados. A história do cristianismo antigo é mais complexa. Ideias, imagens e tradições circulavam entre homilias, comentários bíblicos, liturgia, catequese, apocalipses, narrativas de paixão e textos que posteriormente seriam classificados como apócrifos.

Isso é especialmente importante para o Descensus. A descida de Cristo ao mundo dos mortos não nasce exclusivamente do Evangelho de Nicodemos. Ela possui raízes em diferentes textos bíblicos e cristãos antigos. O próprio Inácio já associava os mortos ressuscitados à descida de Cristo. A tradição posterior desenvolveu essa associação em diferentes direções.

O Evangelho de Nicodemos deve, portanto, ser situado dentro de uma rede de tradições, e não tratado como origem absoluta da doutrina.

Sua originalidade consiste na forma narrativa que dá a essa rede.

A narrativa transforma uma teologia em drama.

Cristo desce.

As portas são rompidas.

A morte é personificada.

Os justos são libertados.

Os patriarcas e profetas entram em cena.

Os ressuscitados testemunham.

O mundo dos mortos passa a possuir personagens, espacialidade, conflito e testemunho.

Essa ampliação explica a enorme influência posterior do Descensus Christi ad Inferos. A tradição atravessou o mundo medieval e alcançou literatura, liturgia, iconografia e teologia. Estudos sobre sua recepção medieval ressaltam justamente a circulação extraordinariamente ampla do motivo da descida de Cristo aos mortos.

O aspecto mais importante para este estudo, porém, é que essa expansão altera a própria compreensão de Mateus 27. O versículo deixa de ser interpretado apenas como um acontecimento estranho ocorrido em Jerusalém e passa a ser lido como sinal terrestre de uma transformação cosmológica ocorrida no domínio dos mortos.


Mateus 27 e a construção cristã do “mundo inferior”

A partir dessa perspectiva, podemos retornar ao texto de Mateus com uma pergunta diferente. O que exatamente a literatura apócrifa acrescenta?

Ela acrescenta sobretudo profundidade espacial e temporal.

Mateus apresenta uma sequência vertical implícita: túmulos, mortos, cidade santa. O Descensus expande essa verticalidade para uma cosmologia: céu, terra, sepulcro, Hades. A morte deixa de ser apenas estado biológico e passa a constituir um domínio sobre o qual Cristo exerce autoridade.

Essa transformação possui consequências importantes para a interpretação dos “santos”. Se eles são simplesmente mortos que retornam à vida, sua função permanece semelhante à de Lázaro ou da filha de Jairo: demonstrar o poder de Jesus sobre a morte. Mas se eles são mortos libertados do domínio inferior no contexto da descida de Cristo, então sua ressurreição participa de algo maior: a reorganização escatológica do próprio domínio da morte.

Essa segunda leitura é aquela que aproxima mais fortemente Mateus 27 das tradições cristãs posteriores sobre a vitória de Cristo sobre Hades.

A literatura apócrifa, portanto, não responde apenas à pergunta “quem eram os santos?”. Ela responde a uma pergunta mais profunda:

por que os túmulos se abriram?

A resposta narrativa é:

porque Cristo entrou no domínio da morte e rompeu seu poder.

É justamente nesse ponto que a literatura apócrifa fornece uma chave nova para compreender a tradição patrística. O interesse de Inácio pelos mortos que ressuscitam com Cristo deixa de parecer uma interpretação isolada. Ele passa a ser reconhecido como parte de uma estrutura maior que posteriormente será dramaticamente desenvolvida pelo Descensus.


Remígio e Tomás depois da literatura do Descensus

A importância dessa nova camada torna-se especialmente evidente quando retornamos a Remígio de Auxerre. Sua pergunta — “o que aconteceu com aqueles que ressuscitaram quando o Senhor ressuscitou?” — já pressupõe uma tradição na qual o problema do destino dos santos pode ser formulado. Remígio registra a opinião de que alguns teriam afirmado que eles “morreram novamente” como Lázaro, mas rejeita essa possibilidade e conclui que eles ascenderam com Cristo.

A literatura apócrifa não fornece necessariamente a origem dessa conclusão, mas ajuda a compreender seu ambiente imaginativo e teológico. O cristianismo antigo havia desenvolvido uma linguagem na qual a ressurreição dos santos estava associada à vitória de Cristo sobre o mundo inferior. A possibilidade de uma simples revivificação mortal não era a única forma disponível para interpretar o episódio.

Tomás, por sua vez, torna a controvérsia mais sofisticada. Na Summa theologiae, III, q. 53, a. 3, a questão aparece formalmente como a alternativa “se ressuscitaram para morrer novamente ou para não morrer novamente”. Essa formulação mostra que a tradição havia chegado a um ponto em que o problema já não era apenas narrativo. Ele exigia uma teoria sobre os diferentes tipos de ressurreição.

Nesse contexto, o Evangelho de Nicodemos ganha importância retrospectiva. Não porque Tomás dependa dele diretamente, mas porque demonstra que o cristianismo já possuía uma tradição narrativa capaz de imaginar ressurreições provisórias, testemunhais e escatologicamente orientadas, diferentes tanto da simples revivificação de Lázaro quanto da ressurreição gloriosa de Cristo.

A tradição apócrifa, portanto, ocupa uma posição intermediária na história conceitual do problema. Ela não resolve definitivamente a questão da segunda morte, mas desloca a discussão para uma estrutura mais ampla: ressurreição, descida, libertação, testemunho e ascensão.


Considerações finais

A incorporação da literatura cristã apócrifa modifica significativamente a reconstrução da tradição interpretativa de Mateus 27:52–53. O problema já não pode ser descrito apenas como uma sucessão de comentários patrísticos que tentam decidir se os santos morreram novamente ou ascenderam com Cristo. A literatura apócrifa revela uma transformação anterior e mais profunda: o pequeno acontecimento narrado por Mateus foi progressivamente inserido em uma narrativa cristã mais ampla sobre a descida de Cristo ao mundo dos mortos.

Mateus permanece como ponto de partida. Seu texto é econômico, quase desconcertante: túmulos se abrem, muitos corpos de santos ressuscitam, eles entram na cidade santa e aparecem a muitos. Não há nomes, testemunhos ou explicação sobre o destino posterior. O silêncio do evangelista é justamente aquilo que permite a expansão posterior.

Inácio de Antioquia constitui uma primeira camada decisiva porque associa os santos ressuscitados à descida de Cristo ao mundo inferior. A fórmula é significativa: Cristo desce sozinho ao Hades, mas ressurge acompanhado por uma multidão. A partir daí, o acontecimento de Mateus deixa de ser exclusivamente terrestre. A abertura dos túmulos passa a ser entendida como manifestação de uma ruptura realizada no domínio dos mortos.

O Evangelho de Nicodemos leva essa possibilidade a uma consequência narrativa muito mais radical. Os santos deixam de ser anônimos. Karinus e Leucius aparecem como testemunhas. Os túmulos são procurados. Os ressuscitados são encontrados. Eles testemunham. Escrevem. Relatam a descida de Cristo. O que Mateus apresentava como uma aparição silenciosa transforma-se em uma narrativa sobre a experiência dos próprios mortos.

O ponto decisivo é que a literatura apócrifa não apresenta esses personagens simplesmente como indivíduos que voltaram à vida mortal. Eles são integrados a uma economia teológica específica: foram levantados por Cristo, testemunham sua vitória e possuem uma relação excepcional com o mundo dos mortos. Em uma das formas da narrativa, eles afirmam que ressuscitaram juntamente com Cristo e que a vitória sobre a morte implicou a libertação dos santos. Em outra tradição textual, sua permanência entre os vivos é limitada e está explicitamente subordinada à função de testemunhar a ressurreição.

Essa constatação modifica também nossa compreensão da hipótese da segunda morte. A literatura apócrifa não registra, pelo menos nas passagens centrais examinadas, uma tradição segundo a qual Karinus, Leucius ou os demais ressuscitados tenham simplesmente retornado à mortalidade e morrido novamente. Tampouco oferece exatamente a formulação medieval de Remígio. O que ela constrói é uma terceira configuração: ressurreição excepcional, testemunho terreno e inserção na vitória escatológica de Cristo.

Isso torna ainda mais importante a posição de Remígio. Quando ele registra que “alguns” sustentavam que os santos haviam morrido novamente “como Lázaro”, encontramos uma controvérsia que agora pode ser situada dentro de um campo interpretativo muito mais amplo. A hipótese da segunda morte não era simplesmente uma consequência lógica inevitável de Mateus; era uma entre várias maneiras de compreender a natureza daquela ressurreição.

Tomás de Aquino representa a sistematização dessa questão. Ao perguntar se os santos ressuscitaram para morrer novamente ou para não morrer novamente, ele transforma em problema escolástico aquilo que Mateus havia deixado como silêncio narrativo. A questão passa então pela natureza da ressurreição, pela incorruptibilidade do corpo e pela primazia de Cristo.

O resultado histórico é, portanto, mais complexo do que a simples oposição entre “morrer novamente” e “ascender com Cristo”. A cadeia que emerge é outra:

Mateus apresenta os santos ressuscitados sem explicar seu destino; Inácio relaciona essa ressurreição à descida de Cristo ao Hades; a literatura apócrifa transforma essa relação em narrativa do Descensus; Karinus e Leucius convertem o morto em testemunha; Remígio registra a controvérsia sobre uma possível segunda morte e a rejeita; Tomás transforma a controvérsia em questão sistemática acerca da natureza e da prioridade da ressurreição.

A literatura apócrifa, desse modo, não é um apêndice marginal à interpretação de Mateus 27. Ela ocupa uma posição estrutural na história da recepção do episódio porque mostra como a tradição cristã respondeu ao silêncio do evangelista: não eliminando a lacuna, mas povoando-a.

Onde Mateus diz apenas que os santos “apareceram a muitos”, o Evangelho de Nicodemos faz esses santos falar. Onde Mateus não descreve o mundo dos mortos, o Descensus abre suas portas. Onde Mateus não explica por que os túmulos se abriram, a tradição responde com a descida de Cristo. E onde Mateus encerra o episódio sem dizer o que aconteceu depois, a tradição posterior começa a formular a pergunta que permanecerá aberta durante séculos: que tipo de ressurreição foi aquela?

É nessa passagem do corpo que aparece para o corpo que testemunha, e do túmulo aberto para o Hades vencido, que a literatura cristã apócrifa acrescenta sua contribuição mais importante à interpretação de Mateus 27:52–53.


Referências principais para esta nova versão

ELLIOTT, J. K. (ed.). The Apocryphal New Testament: A Collection of Apocryphal Christian Literature in an English Translation. Oxford: Clarendon Press, 1993, p. 165–204. Oxford Academic — The Gospel of Nicodemus / Acts of Pilate

IGNATIUS OF ANTIOCH. Epistle to the Trallians, 9. Texto da tradição longa, com a associação explícita entre os santos ressuscitados e a descida de Cristo ao Hades. Ignatius, Trallians 9

MINCZEW, Georgi; SKOWRONEK, Malgorzata. “The Gospel of Nicodemus in the Slavic Manuscript Tradition: Initial Observations”. Apocrypha, v. 17, p. 179–201, 2006. DOI: 10.1484/J.APOCRA.2.302052. Brepols — artigo acadêmico

EVANGELHO DE NICODEMOS. Parte II — Descensus Christi ad Inferos. Nas diferentes recensões, Karinus e Leucius são apresentados como ressuscitados que testemunham a descida de Cristo e a libertação dos mortos. Gospel of Nicodemus — Part II

EVANGELHO DE NICODEMOS. Recensão latina, Parte II, cap. 27. Testemunho de Karinus e Leucius acerca das ações de Cristo no mundo inferior. Gospel of Nicodemus — Latin recension

GILIBERTO, Concetta. “Il motivo del Descensus Christi ad Inferos nella poesia inglese antica”. Filologia Germanica, v. 16. O estudo situa o Descensus no desenvolvimento da tradição cristã e em sua recepção medieval. Filologia Germanica — artigo acadêmico

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