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terça-feira, 17 de setembro de 2013





Resumo

Este artigo investiga a relação entre crise histórica, dominação social e produção de interpretações religiosas no judaísmo do Segundo Templo, concentrando-se na Assumptio Mosis — também conhecida na pesquisa moderna como Testament of Moses — e nos Salmos de Salomão. O estudo parte da reconstrução historiográfica da crise hasmoneia tardia e da intervenção romana, utilizando Flávio Josefo como principal testemunho narrativo, para examinar posteriormente como diferentes comunidades judaicas interpretaram a ruptura da ordem política e religiosa. A análise dedica atenção especial ao capítulo 7 da Assumptio Mosis, no qual aparecem governantes descritos como injustos, hipócritas, ricos, glutões e “devoradores dos bens dos pobres”, e sustenta, mediante uma metodologia de exclusão baseada em cosmologia, práticas religiosas, relações com o Templo e mecanismos de distinção social, que a identificação dos adversários com elites sacerdotais saduceias é mais coerente que as alternativas farisaica ou essênia, embora permaneça uma hipótese histórica e não uma identificação nominal explícita. Em seguida, a análise sociológica demonstra que o texto não se limita a condenar indivíduos moralmente: ele constrói uma representação da dominação como apropriação econômica, concentração de autoridade e produção de uma falsa legitimidade religiosa. A comparação com os Salmos de Salomão revela duas respostas distintas a uma conjuntura de crise: enquanto estes deslocam a legitimidade política dos governantes presentes para a tradição davídica e para uma restauração futura, a Assumptio Mosis enfatiza a resistência dos fiéis, a deslegitimação moral dos dominantes e sua futura vindicação. Propõe-se, assim, compreender essas obras como mecanismos distintos de preservação da identidade coletiva diante da ruptura entre ordem normativa e realidade histórica.

Palavras-chave: judaísmo do Segundo Templo; Assumptio Mosis; Testament of Moses; Salmos de Salomão; saduceus; fariseus; Hasmoneus; Flávio Josefo; sociologia da religião; dominação.



1 INTRODUÇÃO: UMA CRISE, DIFERENTES FORMAS DE INTERPRETAR A HISTÓRIA

A literatura judaica produzida entre o final do período hasmoneu e o início da dominação romana constitui um dos conjuntos documentais mais importantes para compreender como sociedades submetidas a profundas transformações políticas e religiosas procuram tornar inteligível a própria experiência histórica. O problema que orienta este artigo não consiste simplesmente em determinar o que aconteceu na Judeia entre a consolidação do poder hasmoneu, as disputas entre suas elites e a intervenção de Pompeu em 63 a.C., mas em compreender como diferentes grupos judaicos interpretaram uma conjuntura na qual categorias fundamentais de sua ordem social — autoridade, sacerdócio, Templo, Lei, identidade de Israel e legitimidade política — passaram a apresentar uma relação cada vez mais problemática com a realidade histórica. Os Salmos de Salomão e a Assumptio Mosis são particularmente interessantes porque não oferecem crônicas dos acontecimentos. São textos religiosos, teológicos e literários que transformam experiências históricas em narrativas moralmente organizadas. A literatura recente sobre os Salmos de Salomão, por exemplo, insiste justamente na necessidade de compreender a obra como testemunho situado da conquista romana e das crises políticas que a precederam, enquanto Patrick Pouchelle chamou atenção para a possibilidade de uma comparação sistemática entre os Salmos de Salomão e a Assumptio Mosis, observando que os dois documentos compartilham problemas de contexto, transmissão e interpretação histórica, embora pertençam a configurações literárias distintas.

A questão central, portanto, pode ser formulada nos seguintes termos: o que acontece com uma comunidade quando a ordem social que ela reconhece como legítima entra em contradição com a ordem efetivamente existente? A pergunta desloca nossa análise de uma história puramente factual para uma sociologia histórica da interpretação. Uma guerra civil, a deposição de uma dinastia, a entrada de tropas estrangeiras em Jerusalém ou a transformação do estatuto do sumo sacerdócio são acontecimentos históricos; a afirmação de que esses acontecimentos constituem punição divina, corrupção da ordem, cumprimento profético ou prova da eleição de uma comunidade é uma operação interpretativa. O objeto deste artigo encontra-se precisamente nesse segundo nível. Utilizaremos a sociologia analítica não como um sistema destinado a impor categorias modernas sobre sociedades antigas, mas como instrumento para reconstruir mecanismos sociais: tensão estrutural, discrepância entre expectativas e condições efetivas, disputa por legitimidade, formação de fronteiras identitárias, concentração de autoridade, dominação econômica, memória coletiva e reconfiguração da esperança. O pressuposto é que textos religiosos podem ser tratados como evidências de processos sociais precisamente porque não são meros espelhos da sociedade: eles são instrumentos pelos quais grupos classificam pessoas, estabelecem fronteiras, distribuem legitimidade, explicam sofrimento e projetam futuros possíveis.

Essa perspectiva exige também cautela quanto à identificação dos grupos responsáveis pelos documentos. Não partiremos da premissa de que todo texto judaico do período tenha necessariamente origem em um dos três grandes grupos conhecidos pelas fontes posteriores — fariseus, saduceus ou essênios. Tampouco utilizaremos categorias partidárias como rótulos automáticos. A identificação do grupo deve ser construída a partir do próprio documento. No caso da Assumptio Mosis, a dificuldade é particularmente aguda: o texto sobrevive de forma incompleta, em uma única testemunha latina, e sua reconstrução textual e literária permanece objeto de discussão. Johannes Tromp continua sendo referência fundamental precisamente porque sua edição crítica reúne o texto, a história da pesquisa, questões linguísticas e um comentário detalhado; sua obra trata a Assumptio Mosis como um pseudepígrafo judaico palestino do século I d.C. e dedica parte substancial do estudo às controvérsias sobre datação, composição e interpretação. A própria transmissão do texto recomenda prudência: a designação tradicional Assumptio Mosis não corresponde perfeitamente ao conteúdo da obra sobrevivente, que a pesquisa frequentemente denomina Testament of Moses, e a identificação original do documento com a Assumption of Moses depende de uma complexa história de transmissão e recepção. A edição eletrônica da Society of Biblical Literature considera a edição de Tromp a edição crítica padrão e ressalta que ela se baseia fundamentalmente na edição de Ceriani, nas leituras de Clemen e em fotografias antigas do manuscrito.

Nossa hipótese específica é deliberadamente mais estreita. Sustentaremos que os “homens destrutivos e ímpios” do capítulo 7 são mais plausivelmente compreendidos como uma elite sacerdotal associada ao universo saduceu do que como fariseus ou essênios. Não afirmamos que o autor tenha escrito o nome “saduceus”, porque não escreveu; afirmamos que, submetido o texto a uma matriz de exclusão, o conjunto de características atribuídas aos adversários — poder institucional, riqueza, relação com o Templo, pretensão de legitimidade, linguagem de pureza, apropriação dos bens dos pobres e posição dominante — apresenta maior coerência com uma crítica às elites sacerdotais do que com uma crítica aos fariseus enquanto grupo de especialistas da Lei. A questão é importante, mas não constitui a finalidade última do artigo. Ela serve para identificar quem está sendo acusado de produzir ou reproduzir uma determinada ordem social. Uma vez estabelecida essa hipótese, podemos perguntar algo mais abrangente: que tipo de sociedade o autor da Assumptio Mosis percebe diante de si, quais relações de dominação considera ilegítimas e como transforma a experiência de subordinação em esperança de vindicação?



2 A CRISE HISTÓRICA: DA ORDEM HASMONEIA À DOMINAÇÃO ROMANA

A reconstrução histórica deve começar com uma constatação fundamental: a intervenção romana de 63 a.C. não ocorreu em uma sociedade judaica politicamente unificada que repentinamente foi atacada por uma potência estrangeira. Roma entrou em uma conjuntura de conflito interno na qual diferentes segmentos da elite judaica disputavam o controle da ordem política e sacerdotal. A narrativa de Josefo é particularmente importante porque preserva, ainda que de maneira literariamente elaborada e retrospectivamente organizada, uma descrição dos conflitos entre Hircano II e Aristóbulo II e das diferentes posições assumidas pelas elites judaicas. Em Antiguidades XIV, Josefo relata que, quando Pompeu ouviu as reivindicações dos dois irmãos, também recebeu uma representação de setores da população que se opunham ao governo monárquico. Segundo sua narrativa, esses grupos afirmavam que a tradição política judaica consistia em obedecer aos sacerdotes do Deus de Israel e acusavam Hircano e Aristóbulo de tentarem modificar essa forma de governo para escravizar a população. Essa passagem é extraordinariamente importante para nossa análise porque demonstra que a questão política não se reduzia à oposição entre “judeus” e “romanos”: havia uma disputa interna acerca da própria forma legítima de governo.

Josefo registra que a população que se apresentou diante de Pompeu não desejava simplesmente escolher entre os dois irmãos. O problema era mais profundo: questionava-se a própria legitimidade da monarquia. Em sua formulação, a tradição recebida dos antepassados consistia na submissão aos sacerdotes, enquanto os descendentes sacerdotais Hircano e Aristóbulo procuravam transformar essa ordem. A passagem deve evidentemente ser utilizada com cautela, pois Josefo escreve décadas depois dos acontecimentos e organiza seu material segundo seus próprios interesses historiográficos. Ainda assim, ela fornece um elemento decisivo para nossa reconstrução: a autoridade sacerdotal constituía uma alternativa concebível à autoridade monárquica, e a disputa pela legitimidade política passava pela relação entre sacerdócio e governo. A pesquisa contemporânea continua discutindo a maneira pela qual Josefo constrói esse episódio. Um estudo recente do Oxford Handbook of Josephus destaca justamente que a narrativa de Josefo sobre a queda da monarquia hasmoneia deve ser lida criticamente porque Guerra e Antiguidades modificam determinados elementos entre si; ainda assim, o argumento geral de Josefo é claro ao apresentar a stasis hasmoneia como fator decisivo da dissolução política e social que culminou na tomada de Jerusalém por Pompeu.

A sequência narrada por Josefo é particularmente relevante para a leitura da Assumptio Mosis: disputa dinástica, intervenção de potências externas, concentração de autoridade, conflito entre grupos internos, guerra e perda da autonomia. Em Antiguidades XIV, Josefo registra que o conflito entre Hircano e Aristóbulo levou à intervenção romana; mais adiante, ao reconstruir as consequências da conquista, afirma que a população judaica perdeu sua liberdade e que a autoridade real, anteriormente associada à dignidade dos sumos sacerdotes, passou a ser exercida por outros. A narrativa da conquista de Jerusalém acrescenta a dimensão religiosa: Pompeu tomou a cidade, penetrou no espaço sagrado e reorganizou a autoridade sacerdotal. Em Guerra I, Josefo descreve ainda a divisão interna dentro da própria cidade: o partido de Aristóbulo pretendia resistir, enquanto partidários de Hircano defendiam a abertura das portas aos romanos. A conquista romana, portanto, não apenas substituiu uma autoridade por outra; ela reorganizou as relações entre poder político, sacerdócio, Templo e elites concorrentes.

A importância dessa reconstrução para nossa hipótese é evidente. O capítulo 7 da Assumptio Mosis não precisa ser lido como comentário direto a um único episódio militar. Ele pode ser compreendido como uma interpretação de uma ordem social na qual aqueles que controlam instituições e recursos reivindicam para si a legitimidade moral, enquanto uma comunidade que se considera fiel à tradição percebe essa reivindicação como falsa. Essa estrutura é precisamente aquilo que encontramos na passagem central do capítulo 7: os dominantes “dizem que são justos”, justificam sua apropriação dos bens dos pobres pela própria justiça e, simultaneamente, mantêm um discurso de pureza. A questão social, portanto, não aparece dissociada da questão religiosa. A acusação é precisamente que o poder transformou sua própria posição social em aparência de justiça.

A linha temporal mínima necessária para nosso estudo pode ser resumida de modo muito simples:

CONSOLIDAÇÃO HASMONEIA
│
▼
CONCENTRAÇÃO DE PODER POLÍTICO E SACERDOTAL
│
▼
CONFLITOS INTERNOS E DISPUTAS DE LEGITIMIDADE
│
▼
HIRCANO II × ARISTÓBULO II
│
▼
INTERVENÇÃO DE POMPEU — 63 a.C.
│
▼
PERDA DA AUTONOMIA POLÍTICA
│
▼
RECONFIGURAÇÃO DAS ELITES
│
▼
NOVAS FORMAS DE INTERPRETAÇÃO DA DOMINAÇÃO

O ponto sociológico decisivo é que a crise não consiste apenas na perda de território. Ela representa uma ruptura entre uma ordem normativa e uma ordem empírica. Uma sociedade que concebia Jerusalém, o Templo, a Lei e a autoridade sacerdotal como elementos de uma ordem legítima precisava explicar por que homens considerados injustos podiam ocupar posições de poder, possuir riqueza e controlar instituições sagradas. É nesse espaço entre a realidade e a norma que se produz a interpretação religiosa.



3 A ASSUMPTIO MOSIS: DATAÇÃO, ESTRUTURA E O CAPÍTULO 7

A datação da Assumptio Mosis deve ser estabelecida com maior precisão antes que se faça qualquer inferência sociológica. A obra sobrevivente contém uma profecia histórica que percorre períodos sucessivos da história de Israel, chegando ao período herodiano. A referência ao rei que governaria por trinta e quatro anos constitui um dos principais argumentos para sua datação. A tradição interpretativa relaciona essa figura a Herodes, o Grande, cuja morte ocorreu em 4 a.C.; a partir daí, a composição do documento costuma ser situada no início do século I d.C., embora existam divergências quanto à relação entre diferentes camadas do texto. A pesquisa moderna reconhece, portanto, uma preferência significativa pela primeira metade do século I d.C., embora não haja consenso absoluto sobre composição, redação e eventual transmissão de materiais anteriores.

Essa cautela é importante porque o capítulo 7 não deve ser automaticamente projetado para 63 a.C. O texto pode conservar memória de conflitos anteriores, mas escreve a partir de uma posição histórica posterior. É precisamente por isso que a pergunta correta não é “qual acontecimento exatamente o capítulo 7 descreve?”, mas “qual experiência histórica de dominação é transformada pelo autor em um tipo social de governante ímpio?” Essa diferença metodológica permite conciliar duas observações aparentemente contraditórias: o documento pode ter sido composto no início do século I d.C. e, ao mesmo tempo, elaborar problemas cuja genealogia remonta à crise hasmoneia e à transformação da ordem sacerdotal e política.

O capítulo 6 já fornece o contexto necessário. O texto fala de um rei insolente, que não pertence à linhagem sacerdotal, que exerce violência, mata líderes e governa durante trinta e quatro anos. Em seguida, menciona seus sucessores e a chegada de um poderoso rei do Ocidente, que conquista o país, leva seus habitantes cativos, incendeia parte do Templo e crucifica alguns. A estrutura narrativa coloca em sequência dominação interna e dominação externa. O capítulo 7 começa justamente depois dessa sucessão de acontecimentos e introduz outro tipo de governante: não simplesmente o conquistador estrangeiro, mas homens que governam afirmando ser justos.

É aqui que se encontra o núcleo de nossa análise. O texto descreve:

“homens destrutivos e ímpios” que governam “dizendo que são justos”; homens traiçoeiros, amantes de banquetes, glutões e “devoradores dos bens dos pobres”, afirmando fazê-lo “com base em sua justiça”, enquanto, na realidade, procuram destruí-los. O mesmo grupo é descrito como cheio de impiedade e iniquidade e, apesar de suas “mãos e mentes” tocarem coisas impuras, pronuncia grandes palavras e declara: “Não me toque para que não me polua” (ASSUMPTIO MOSIS, 7).

A força da passagem está precisamente na acumulação. O autor não fornece uma acusação isolada. Ele constrói um tipo social mediante a associação de poder, riqueza, consumo, exploração, hipocrisia e pureza. O homem dominante é aquele que possui recursos suficientes para banquetear-se, apropria-se dos bens dos pobres, exerce sua posição em nome da justiça e, ao mesmo tempo, estabelece uma distância ritual em relação aos outros. A impureza não está, portanto, apenas no comportamento privado. Ela está na própria relação social entre dominante e dominado.

O trecho sobre os pobres é especialmente importante:

“Devoradores dos bens dos pobres, dizendo que fazem isso por causa de sua justiça, mas na realidade para destruí-los” (ASSUMPTIO MOSIS, 7).

Não se trata simplesmente de uma condenação da riqueza. O texto acusa os dominantes de converter apropriação em justiça. Esse detalhe será central para nossa interpretação sociológica. O problema não é que os poderosos tenham bens; é que utilizem uma linguagem normativa para legitimar sua apropriação dos bens alheios. A dominação, em outras palavras, não se sustenta exclusivamente pela coerção. Ela procura produzir uma representação de si mesma como legítima.

A segunda dimensão é a pureza:

“E embora suas mãos e suas mentes toquem coisas impuras, suas bocas falarão grandes coisas e dirão também: ‘Não me toque, para que não me polua’” (ASSUMPTIO MOSIS, 7).

Temos aqui uma estrutura de oposição entre prática e discurso, mas também entre pureza reivindicada e impureza efetivamente praticada. A frase “não me toque” cria uma fronteira corporal entre o grupo dominante e aqueles que ele considera contaminantes. A fronteira religiosa torna-se, assim, simultaneamente uma fronteira social.

É precisamente essa passagem que alimentou interpretações como a de David Flusser, que viu no capítulo 7 uma crítica aos fariseus e identificou uma proximidade entre a acusação de hipocrisia do texto e determinados conflitos em torno de pureza ritual. A posição de Flusser precisa ser levada a sério porque parte de uma observação textual legítima: a combinação entre discurso de pureza, aparência de justiça e acusação de impureza possui paralelos importantes na literatura judaica e cristã do período. Contudo, a semelhança temática não basta para identificar o alvo histórico. Nossa argumentação seguirá precisamente esse ponto: devemos perguntar que grupo, dentro da estrutura social da Judeia, reúne de maneira mais coerente os diferentes atributos acumulados pelo texto.



4 QUEM SÃO OS INIMIGOS? UMA METODOLOGIA DE EXCLUSÃO

A hipótese saduceia que defendemos não deriva de uma identificação nominal, mas de uma comparação entre o perfil sociológico construído pelo texto e as características conhecidas dos grupos judaicos do período. A metodologia é deliberadamente falsificacionista: não perguntamos inicialmente “qual grupo gostaríamos que fosse o inimigo?”, mas “quais grupos conseguem sobreviver às características do texto?”. Esse procedimento é especialmente importante porque a pesquisa sobre a Assumptio Mosis possui longa história de interpretações conflitantes. A própria reconstrução de Tromp mostra que a obra recebeu atribuições muito diferentes ao longo da história da pesquisa, incluindo hipóteses sobre autores zelotas, farisaicos e outras possibilidades.

A primeira possibilidade é a farisaica. Ela possui um argumento importante: o vocabulário de pureza e a crítica à discrepância entre aparência e prática podem lembrar controvérsias associadas aos fariseus. Além disso, a tradição de leitura de Flusser não é arbitrária. Ela se baseia em um padrão de crítica que também aparece em outros textos do período. Mas a hipótese enfrenta uma dificuldade sociológica: o capítulo 7 não descreve simplesmente intérpretes da Lei; descreve governantes, consumidores de riqueza, apropriadores dos bens dos pobres e pessoas dotadas de posição social suficiente para exercer domínio institucional. Se quisermos identificar os adversários como fariseus, precisamos explicar por que o texto escolhe justamente atributos que não são os mais característicos da posição farisaica enquanto movimento de especialistas e intérpretes da Lei.

A hipótese essênia apresenta dificuldade ainda maior. A comunidade de Qumran desenvolveu precisamente uma crítica radical às elites sacerdotais de Jerusalém, mas o documento que estamos estudando não se apresenta como texto da comunidade de Qumran, não reproduz sua terminologia sectária característica e não demonstra a relação específica com o Templo que encontramos nos documentos qumrânicos. A ausência de características distintivas de Qumran não permite simplesmente transformar toda crítica ao sacerdócio em crítica essênia. Ao contrário: se retiramos a identificação sectária, precisamos voltar à estrutura social mais ampla da Judeia.

A hipótese saduceia ganha força justamente nesse ponto. Os saduceus, na literatura antiga, aparecem associados às elites sacerdotais e aristocráticas e à esfera do Templo. Não precisamos aceitar sem crítica todas as descrições posteriores ou rabínicas sobre eles. Basta reconhecer que, na configuração política do período, havia um setor sacerdotal aristocrático cuja relação com o Templo e com as estruturas de poder o colocava em posição muito diferente da de movimentos centrados primordialmente na interpretação da Lei. O problema descrito pela Assumptio Mosis — elite poderosa, riqueza, autoridade, Templo/pureza, apropriação de recursos e pretensão de justiça — encontra nessa posição social uma coerência particularmente forte.

Nossa matriz pode ser reduzida a quatro critérios:


CritérioFariseusEssênios/QumranElites saduceias
Autoridade institucional sobre o Templofraca/indiretaoposição ao sistema dominanteforte
Associação com elite sacerdotallimitadacrítica a elaforte
Riqueza e poder institucionalpossível, mas não definidorapouco compatível com a imagem sectáriaforte
Pureza como linguagem de distinçãoforteforteforte
Perfil do capítulo 7 como conjuntoparcialbaixa compatibilidadealta compatibilidade


O resultado não significa que os fariseus não pudessem ser ricos, que nenhum fariseu pudesse pertencer a uma elite ou que todo saduceu fosse necessariamente corrupto. Isso seria transformar categorias sociais complexas em caricaturas. O argumento é outro: qual posição social corresponde melhor ao tipo construído pelo autor? E aqui a elite sacerdotal apresenta maior poder explicativo.

Existe ainda uma questão particularmente importante: a cosmologia do texto. A obra não manifesta características que nos obriguem a atribuí-la a um grupo que rejeitasse a ressurreição, a intervenção escatológica ou formas de julgamento futuro. Pelo contrário, a estrutura geral da Assumptio Mosis aponta para uma teologia fortemente escatológica, na qual Deus julga os poderes humanos e intervém na história. Isso torna pouco plausível a identificação do próprio autor com o núcleo doutrinário saduceu. Mas essa conclusão não enfraquece nossa hipótese; ela a fortalece. Se o autor não é saduceu, pode perfeitamente estar escrevendo contra uma elite saduceia.

Essa distinção é fundamental:

autor saduceu ≠ autor que critica os saduceus.

Nossa hipótese é precisamente a segunda.

O autor pode compartilhar com os adversários uma sociedade, uma tradição nacional e uma relação com o Templo, mas rejeitar radicalmente a maneira como uma elite sacerdotal utiliza seu poder. Nesse sentido, a Assumptio Mosis pode ser lida como produto de um ambiente judaico não saduceu que critica a apropriação da autoridade religiosa por uma elite sacerdotal.


5 A SOCIOLOGIA DA DOMINAÇÃO: QUEM ESTÁ FALANDO E CONTRA QUEM?

É somente depois de estabelecer essa hipótese que a análise sociológica se torna realmente produtiva. O capítulo 7 não nos interessa apenas porque talvez identifique um grupo partidário; ele interessa porque revela uma teoria social implícita da dominação. O autor apresenta uma sociedade dividida entre aqueles que governam e aqueles cujos bens são devorados; entre aqueles que proclamam justiça e aqueles que sofrem sua aplicação; entre aqueles que controlam os mecanismos de pureza e aqueles que podem ser considerados contaminantes. O texto, portanto, produz uma representação relacional do poder.

A primeira relação é econômica. Os dominantes são “devoradores dos bens dos pobres”. O verbo é particularmente expressivo porque transforma a exploração em consumo corporal. A riqueza dos dominantes é apresentada como resultado da destruição econômica dos subordinados. A imagem não é de uma sociedade simplesmente desigual; é de uma sociedade na qual a prosperidade de alguns está associada à perda de outros. Essa formulação permite aproximar a Assumptio Mosis de uma sociologia da dominação material sem reduzir o texto a um tratado econômico moderno. O autor não está oferecendo estatísticas sobre distribuição de renda; está formulando uma acusação moral de apropriação assimétrica de recursos.

A segunda relação é política. Esses homens “governam”. Portanto, a apropriação econômica não acontece fora da estrutura institucional. O grupo que possui recursos é também o grupo que exerce autoridade. Essa combinação é crucial. O texto não acusa simplesmente homens ricos de serem egoístas; acusa homens ricos que governam. O problema é a conversão do poder institucional em capacidade de apropriação.

A terceira relação é normativa. Os dominantes dizem que são justos. Aqui aparece aquilo que Weber permite compreender como problema da legitimidade. O poder não se satisfaz com a capacidade de obrigar; ele precisa ser apresentado como legítimo. A frase “dizendo que são justos” mostra que o conflito não ocorre apenas entre poderosos e pobres. Ocorre também entre duas definições de justiça. Para o grupo dominante, sua prática pode ser narrada como legítima; para o autor, ela é precisamente a negação da justiça.

Essa estrutura é sociologicamente sofisticada:


PODER INSTITUCIONAL
+
CONTROLE DE RECURSOS
+
PRETENSÃO DE JUSTIÇA
↓
LEGITIMAÇÃO DA DOMINAÇÃO
↓
APROPRIAÇÃO DOS BENS DOS POBRES
↓
PRODUÇÃO DE DESIGUALDADE
↓
CRÍTICA MORAL E RELIGIOSA
↓
DESLEGITIMAÇÃO DO DOMINANTE


A quarta relação é religiosa. O dominante não apenas diz ser justo; ele afirma uma condição de pureza. A frase “não me toque” estabelece uma barreira entre seu corpo e os demais. O problema é que o autor desmonta essa pretensão mostrando que “suas mãos e suas mentes” tocam coisas impuras. A pureza, portanto, é apresentada como capital simbólico apropriado pelo grupo dominante, para utilizar uma categoria bourdieusiana, embora o conceito deva ser aplicado aqui de maneira heurística. O poder religioso consiste também na capacidade de definir quem pode tocar, quem pode aproximar-se e quem pode contaminar.

É nesse ponto que a hipótese saduceia ganha uma dimensão que vai além da simples classificação partidária. Se o autor está criticando uma elite sacerdotal, então a acusação possui uma estrutura extraordinariamente coerente: aqueles que deveriam administrar a ordem sagrada transformaram a santidade em instrumento de distinção social, enquanto participam de práticas que o autor considera moralmente impuras. O escândalo não está simplesmente na hipocrisia individual. Está na possibilidade de que uma elite institucionalmente responsável pela santidade utilize a linguagem da santidade para legitimar relações de dominação.

Isso explica por que a expressão “não me toque” é tão importante. O autor não está dizendo apenas “vocês são hipócritas”. Está dizendo algo mais profundo: vocês construíram uma fronteira de pureza que os protege dos outros enquanto escondem a impureza de suas próprias práticas. A acusação religiosa e a acusação social tornam-se inseparáveis.

É possível, portanto, compreender o capítulo 7 através da categoria de tensão estrutural. A comunidade possui uma ordem normativa segundo a qual justiça, Lei, santidade e cuidado com os membros vulneráveis deveriam organizar a vida social; entretanto, observa uma realidade na qual os indivíduos que controlam a autoridade e os recursos afirmam ser justos enquanto exploram os pobres. A tensão produz uma crise de legitimidade. O autor responde deslegitimando os dominantes e projetando sua derrota para o futuro.

Essa operação não é muito diferente, em estrutura, daquilo que encontramos nos Salmos de Salomão, mas o objeto da deslegitimação é diferente.



6 ASSUMPTIO MOSIS E SALMOS DE SALOMÃO: DUAS FORMAS DE RESPONDER À CRISE

A comparação com os Salmos de Salomão torna-se especialmente fecunda porque os dois documentos podem ser relacionados à experiência mais ampla da crise política e religiosa da Judeia, mas não produzem a mesma resposta. A pesquisa contemporânea dos Salmos de Salomão reconhece a importância das alusões à conquista romana e às guerras civis hasmoneias, embora também enfatize que os poemas não devem ser lidos como crônicas. O volume organizado por Pouchelle, Keddie e Atkinson, publicado pela Society of Biblical Literature, reúne justamente estudos que analisam os Salmos de Salomão a partir de perspectivas históricas, políticas, sociais, religiosas e socioeconômicas, incluindo explicitamente a comparação com a Assumptio Mosis.

No Salmo 17, a crise aparece como ruptura da ordem davídica. O poema afirma:

“Tu, Senhor, escolheste Davi como rei sobre Israel e juraste a ele acerca de sua descendência, para que seu reino não cesse diante de ti. Mas, por causa de nossos pecados, pecadores se levantaram contra nós; atacaram-nos e expulsaram-nos” (SALMOS DE SALOMÃO, 17.4-5).

A lógica é diferente da Assumptio Mosis. O problema central não é, inicialmente, a exploração dos pobres por uma elite sacerdotal. É a corrupção da liderança e a perda da ordem legítima. A tradição davídica funciona como padrão de comparação. O governo existente é julgado à luz de uma ordem normativa anterior.

A solução aparece imediatamente:

“Olha, Senhor, e levanta para eles o seu rei, o filho de Davi, no tempo que escolheste, ó Deus, para reinar sobre Israel, teu servo. [...] Ele expulsará os pecadores da herança, esmagará a arrogância do pecador como vaso de oleiro; com vara de ferro quebrará toda a sua substância e destruirá as nações ímpias pela palavra de sua boca.” (SALMOS DE SALOMÃO, 17.21-24).

A restauração é, portanto, política e teológica. O grupo espera que Deus estabeleça um rei legítimo. A literatura acadêmica sobre os Salmos de Salomão tem destacado precisamente esse caráter contextual da expectativa messiânica: a figura messiânica é construída em resposta a problemas concretos da comunidade e deve ser interpretada dentro de suas circunstâncias sociais e ideológicas, e não como expressão abstrata de uma expectativa judaica uniforme.

O Salmo 17 continua:

“Ele reunirá um povo santo, que conduzirá em justiça; julgará as tribos do povo santificado pelo Senhor seu Deus. Não permitirá que a injustiça habite mais entre eles” (SALMOS DE SALOMÃO, 17.26-27).

A crise é resolvida mediante restauração da ordem legítima.

Na Assumptio Mosis, a estrutura é diferente. Não encontramos a mesma elaboração de um rei davídico como solução imediata para a crise descrita no capítulo 7. O autor concentra sua atenção na perversidade daqueles que dominam e na necessidade de que os fiéis resistam à sua influência. A crítica social possui maior densidade econômica: os pobres aparecem explicitamente como vítimas da apropriação dos poderosos. O problema é a dominação exercida em nome de uma falsa justiça.

A diferença pode ser sintetizada assim:


DimensãoSalmos de SalomãoAssumptio Mosis
Unidade problemáticaordem políticaordem político-social e religiosa
Principal acusaçãogoverno ilegítimodominação e hipocrisia da elite
Vítima centralIsrael / justospobres / justos
Linguagem de críticapecado e ilegitimidadeimpiedade, exploração e falsa pureza
Critério normativotradição davídicaLei, fidelidade e justiça
Operação identitáriapreservação do verdadeiro Israelpreservação dos fiéis diante dos dominantes
Soluçãorestauraçãoresistência e vindicação
Futurorei davídicojulgamento divino
Função da escatologiarestaurar a ordemsustentar a resistência


A diferença é melhor compreendida não como oposição absoluta, mas como duas estratégias de preservação da identidade coletiva diante de uma mesma família de crises. Nos Salmos de Salomão, a comunidade resolve a contradição entre promessa e realidade deslocando a legitimidade para o futuro rei davídico. Na Assumptio Mosis, a comunidade resolve a contradição preservando sua própria fidelidade e deslegitimando moralmente os dominantes. Em ambos os casos, a realidade histórica não é negada; ela é reinterpretada.

A comparação permite ainda perceber uma diferença importante na concepção de poder. O Salmo de Salomão 17 imagina uma autoridade justa que reorganizará Israel. O messias será aquele que “conduzirá” o povo com justiça, eliminará a injustiça e purificará Jerusalém. A Assumptio Mosis, por sua vez, parece muito mais interessada em demonstrar que o poder existente perdeu sua legitimidade moral. Sua crítica não depende de imaginar imediatamente uma instituição substituta. O primeiro passo é desmascarar a autoridade.

Essa diferença permite formular dois mecanismos sociológicos:

Salmos de Salomão: deslocamento da legitimidade.

Assumptio Mosis: deslegitimação da dominação.

No primeiro caso, a comunidade diz, em essência: o governo atual não representa a ordem legítima; Deus deverá restaurá-la.

No segundo: aqueles que governam afirmam possuir justiça, mas sua própria prática revela a corrupção da ordem; portanto, a comunidade deve resistir e esperar sua vindicação.

Essa comparação também ajuda a compreender por que não devemos reduzir o messianismo judaico a uma reação automática contra Roma. A pesquisa recente sobre os Salmos de Salomão demonstra que a figura messiânica responde a uma série de problemas sociais e políticos concretos, e não apenas à dominação romana. Do mesmo modo, a Assumptio Mosis não pode ser reduzida a um panfleto anti-romano. Seu capítulo 7 mostra que o problema da dominação começa dentro da própria sociedade, na relação entre governantes e pobres, entre elite e subordinados, entre aqueles que definem a pureza e aqueles que podem ser excluídos.

Essa observação é decisiva para nosso argumento geral. A dominação estrangeira pode produzir uma crise de identidade, mas não explica sozinha a literatura de crise. Antes mesmo da chegada dos romanos, a sociedade judaica já experimentava conflitos sobre quem deveria governar, quem possuía autoridade sacerdotal, quem poderia definir a Lei e qual forma de governo correspondia à tradição. Josefo confirma que a própria intervenção romana ocorreu em meio a uma disputa interna na qual diferentes grupos apresentavam concepções incompatíveis de governo legítimo.



7 CONCLUSÃO: ENTRE RESTAURAÇÃO E VINDICAÇÃO

A análise desenvolvida neste artigo permite sustentar uma hipótese mais específica sobre a relação entre história, religião e estrutura social no judaísmo do Segundo Templo. A Assumptio Mosis deve ser lida como uma obra produzida em uma sociedade atravessada por conflitos de autoridade, desigualdade, transformação institucional e dominação estrangeira. Sua composição no início do século I d.C. não impede que ela reelabore problemas originados nas crises do período hasmoneu; ao contrário, a própria estrutura retrospectiva da obra permite transformar acontecimentos anteriores em etapas de uma história providencial. A pesquisa crítica de Tromp permanece fundamental para essa leitura porque demonstra a complexidade textual e literária do documento e situa sua forma sobrevivente no judaísmo palestino do primeiro século.

Nossa hipótese sobre os adversários do capítulo 7 deve ser mantida dentro desses limites. Não podemos afirmar que o texto nomeie explicitamente os saduceus. Não podemos tampouco transformar a categoria “saduceu” em uma descrição homogênea de todos os membros da elite sacerdotal. O que podemos afirmar é que, quando submetemos o texto a uma análise de exclusão, a identificação com uma elite sacerdotal de perfil saduceu apresenta maior coerência estrutural do que a identificação com os fariseus ou com os essênios. O argumento não depende de uma única palavra, mas da convergência de vários elementos: exercício do governo, posição dominante, riqueza, apropriação dos bens dos pobres, pretensão de justiça, linguagem de pureza e proximidade com uma ordem institucional que o autor considera corrompida.

A hipótese possui ainda uma consequência importante: o autor não precisa ser saduceu para falar sobre saduceus. Pelo contrário, sua cosmologia e sua expectativa escatológica tornam pouco plausível a identificação do autor com o núcleo saduceu. Isso não é um problema para nossa reconstrução. É justamente aquilo que esperaríamos de um texto de crítica social: um grupo que experimenta a dominação a partir de uma posição subordinada ou marginal pode construir a elite dominante como objeto de denúncia. A categoria de “grupo” precisa, portanto, ser utilizada relacionalmente. Não perguntamos apenas “a qual partido pertencia o autor?”, mas também “contra qual estrutura de autoridade sua comunidade se posicionava?”.

Esse ponto permite retornar ao capítulo 7. A frase segundo a qual os dominantes devoram os bens dos pobres é provavelmente o elemento sociológico mais importante de todo o documento. O autor não está apenas acusando seus adversários de serem pecadores. Ele está descrevendo uma relação social na qual a riqueza de uns está associada à vulnerabilidade de outros. A crítica religiosa funciona como mecanismo de deslegitimação dessa relação. Os dominantes dizem ser justos; o autor demonstra que sua prática é injusta. Eles reivindicam pureza; o autor afirma que suas mãos e suas mentes estão contaminadas. Eles se apresentam como superiores; o autor os transforma em objeto de julgamento futuro.

A religião desempenha, portanto, uma função que não pode ser reduzida à consolação. Ela constitui uma linguagem de contestação da legitimidade. A comunidade não possui necessariamente os meios políticos para derrubar os dominantes. Possui, entretanto, a capacidade de afirmar que sua autoridade não é verdadeira, que sua riqueza não constitui prova de justiça e que sua posição social não garante sua aprovação divina. A escatologia torna possível completar essa operação: aquilo que a história presente parece confirmar — o poder dos dominantes — será invertido pelo julgamento divino.

É aqui que a comparação com os Salmos de Salomão se torna decisiva. Os dois textos respondem a uma discrepância fundamental entre ordem normativa e realidade histórica, mas realizam operações diferentes. Os Salmos de Salomão preservam a esperança mediante a reconstrução da legitimidade política. A tradição davídica fornece o modelo; o governante ilegítimo é deslegitimado; Deus deverá levantar o rei justo. A Assumptio Mosis realiza uma operação diferente: preserva a identidade mediante a resistência e a deslegitimação moral dos dominantes. A solução não consiste primordialmente em recuperar uma instituição perdida, mas em permanecer fiel até que Deus julgue aqueles que corromperam a ordem.

Podemos, assim, formular o contraste final:


SALMOS DE SALOMÃO

CRISE
↓
CORRUPÇÃO DA LIDERANÇA
↓
PERDA DA LEGITIMIDADE
↓
TRADIÇÃO DAVÍDICA
↓
RESTAURAÇÃO FUTURA


ASSUMPTIO MOSIS

CRISE
↓
DOMINAÇÃO / EXPLORAÇÃO
↓
FALSA LEGITIMAÇÃO
↓
DESMASCARAMENTO DOS DOMINANTES
↓
RESISTÊNCIA DOS FIÉIS
↓
VINDICAÇÃO FUTURA


O contraste não significa que os Salmos de Salomão desconheçam a exploração social ou que a Assumptio Mosis não possua uma dimensão política. Significa que os documentos organizam a experiência da crise a partir de centros de gravidade diferentes. A pesquisa contemporânea sobre os Salmos de Salomão tem mostrado justamente como sua expectativa messiânica deve ser relacionada aos problemas sociais e históricos específicos enfrentados por sua comunidade, e a comparação de Pouchelle entre os Salmos de Salomão e a Assumptio Mosis demonstra que a aproximação entre os dois textos é metodologicamente possível e produtiva.

O resultado mais amplo é uma compreensão menos mecanicista da literatura judaica de crise. A opressão não produz automaticamente messianismo; a derrota não produz automaticamente apocalipticismo; a dominação romana não produz automaticamente revolta. O que ocorre é mais complexo. Uma conjuntura histórica cria tensões; comunidades dotadas de tradições religiosas interpretam essas tensões; essas interpretações reorganizam identidades, estabelecem fronteiras, deslegitimam adversários e produzem expectativas sobre o futuro.

Os Salmos de Salomão transformam a crise em argumento para a restauração de uma ordem legítima.

A Assumptio Mosis transforma a crise em argumento para a resistência dos fiéis e para a futura inversão da relação entre dominantes e dominados.

Em ambos, a escatologia desempenha uma função sociológica fundamental: ela impede que o presente monopolize o significado da história. O fato de os dominantes vencerem hoje não significa que tenham razão. O fato de os justos sofrerem hoje não significa que tenham fracassado. O futuro torna-se o tribunal no qual a ordem presente será finalmente julgada.

É precisamente nesse sentido que esses textos podem ser compreendidos como documentos de uma sociologia histórica da esperança. Eles não apenas dizem que determinadas comunidades esperavam alguma coisa. Eles mostram por que precisavam esperar e como a expectativa futura permitia manter uma identidade coletiva diante de uma realidade histórica que parecia contradizê-la.

A diferença entre os dois documentos, portanto, não deve ser procurada simplesmente no conteúdo de suas expectativas, mas no mecanismo social por meio do qual essas expectativas são produzidas. Nos Salmos de Salomão, a esperança preserva a continuidade de Israel mediante a restauração da autoridade legítima. Na Assumptio Mosis, a esperança preserva a comunidade mediante a resistência à autoridade corrompida e a expectativa de seu julgamento.

A questão fundamental deixa então de ser apenas “quem eram os inimigos?” e passa a ser:

Que tipo de sociedade precisa produzir uma literatura na qual os poderosos são acusados de devorar os bens dos pobres enquanto proclamam sua própria justiça?

Nossa resposta é que estamos diante de uma sociedade na qual poder, riqueza, autoridade religiosa e legitimidade estão suficientemente concentrados para que sua relação se torne objeto de disputa. O capítulo 7 da Assumptio Mosis registra essa disputa em linguagem religiosa. Sua força não reside apenas em chamar os dominantes de ímpios, mas em desmontar a pretensão de que sua posição social seja expressão de justiça. O texto transforma a desigualdade em acusação, a pureza em objeto de suspeita e a dominação em uma condição provisória diante do julgamento divino.

É nesse ponto que a Assumptio Mosis deixa de ser apenas um documento interessante para a história das seitas judaicas e passa a ser uma fonte particularmente relevante para a história social do judaísmo do Segundo Templo. Ela nos permite observar uma comunidade que não dispõe do poder institucional dos seus adversários, mas dispõe de algo que, em sociedades religiosas, pode ser igualmente decisivo: a capacidade de definir quem é verdadeiramente justo.

E essa capacidade constitui uma forma de poder.



REFERÊNCIAS

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HALBWACHS, Maurice. On collective memory. Chicago: University of Chicago Press, 1992.

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SMELSER, Neil J. Theory of collective behavior. New York: Free Press, 1962.

TAJFEL, Henri; TURNER, John C. An integrative theory of intergroup conflict. In: AUSTIN, William G.; WORCHEL, Stephen (org.). The social psychology of intergroup relations. Monterey: Brooks/Cole, 1979. p. 33-47.

TROMP, Johannes. The Assumption of Moses: a critical edition with commentary. Leiden: Brill, 1993. Studia in Veteris Testamenti Pseudepigrapha, v. 10. A obra permanece a edição crítica de referência para o texto latino.

TRAFTON, Joseph L. The Psalms of Solomon: new light from the Syriac version? Journal of Biblical Literature, v. 105, n. 2, p. 227-237, 1986.

WEBER, Max. The sociology of religion. Boston: Beacon Press, 1963.

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FONTES PRIMÁRIAS

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ASSUMPTIO MOSIS. Capítulos 6–7. Texto latino e tradução inglesa. Disponível em: Online Critical Pseudepigrapha — Society of Biblical Literature. Acesso em: 21 ago. 2026.

ASSUMPTIO MOSIS. Tradução inglesa baseada na tradição textual do manuscrito latino. Disponível em: The Assumption of Moses — texto integral. Acesso em: 21 ago. 2026.

CHARLES, Robert Henry. The Assumption of Moses: translated from the Latin sixth-century manuscript, the unemended text of which is published herewith, together with the text in its restored and critically emended form. London: A. & C. Black, 1897. A edição histórica está disponível integralmente em reprodução digital.

TROMP, Johannes. The Assumption of Moses: a critical edition with commentary. Leiden: Brill, 1993. Edição crítica na Brill

Salmos de Salomão

SALMOS DE SALOMÃO. Especialmente 2, 8 e 17. Texto grego. Disponível em: Texto grego dos Salmos de Salomão 17. Acesso em: 21 ago. 2026.

SALMOS DE SALOMÃO. Salmo 17. Texto grego e tradução inglesa. Disponível em: Rahlfs Septuagint — Salmos de Salomão 17. Acesso em: 21 ago. 2026.

quinta-feira, 19 de agosto de 2010




Resumo

Este artigo investiga a formação de diferentes configurações da expectativa messiânica judaica a partir de instrumentos provenientes da sociologia, da psicologia social e da sociologia da religião. Parte-se da hipótese de que as representações messiânicas não constituem categorias religiosas estáticas, mas formas historicamente situadas de elaboração simbólica de crises de ordem, experiências de opressão, derrotas coletivas, rupturas de identidade e crises de legitimidade das lideranças. Mobilizam-se, particularmente, as categorias de tensão estrutural, crenças generalizadas, privação relativa, memória coletiva, trauma cultural, identidade social, conflito intergrupal, autoridade e teodiceia. O objetivo não é estabelecer uma relação causal mecânica entre sofrimento histórico e produção de determinada figura messiânica, mas compreender as condições socioculturais que tornam determinadas configurações messiânicas mais plausíveis em contextos específicos. Sustenta-se que a pluralidade de figuras messiânicas — régias, sacerdotais, guerreiras, proféticas, judiciais e, posteriormente, sofredoras — pode ser compreendida como resultado de diferentes formas de definir aquilo que uma comunidade considera ter perdido e aquilo que entende como necessário para restaurar a ordem. Particular atenção é concedida à hipótese de que a figura do Messias sofredor representa uma transformação específica da lógica de legitimação: quando a vitória histórica deixa de poder funcionar como demonstração da eleição, o sofrimento e a fidelidade podem ser reinterpretados como fundamentos de uma futura vindicação. O estudo estabelece, assim, um modelo teórico destinado a ser posteriormente confrontado com a documentação judaica antiga, especialmente a literatura apocalíptica e os textos de Qumran.

Palavras-chave: Messianismo; judaísmo antigo; sofrimento; derrota; memória coletiva; identidade social; apocalíptica; sociologia da religião.



1 INTRODUÇÃO: O MESSIANISMO COMO PROBLEMA SOCIOLÓGICO

A investigação histórica acerca do messianismo judaico antigo costuma partir de uma pergunta aparentemente simples: o que é um Messias? O problema, entretanto, torna-se consideravelmente mais complexo quando se observa a documentação judaica produzida entre o período do Segundo Templo e a Antiguidade tardia. A literatura disponível não apresenta uma concepção única, uniforme e universalmente compartilhada acerca da figura messiânica. Encontram-se expectativas relacionadas à restauração da monarquia davídica, à renovação sacerdotal, à purificação do culto, à derrota dos inimigos de Israel, à restauração escatológica, ao julgamento dos ímpios, à revelação profética e, em determinados textos, a figuras cuja trajetória envolve sofrimento, rejeição ou morte. A própria pluralidade documental impede que se trate “o Messias” como se fosse uma categoria teológica homogênea desde suas origens. O problema histórico mais produtivo consiste, portanto, em perguntar por que diferentes comunidades judaicas imaginaram diferentes agentes de restauração e, sobretudo, quais experiências históricas e estruturas sociais tornaram determinadas configurações messiânicas mais inteligíveis ou plausíveis. O presente estudo propõe deslocar essa questão para o campo da sociologia histórica: em vez de considerar as figuras messiânicas exclusivamente como produtos de desenvolvimento teológico interno, examinaremos também as relações entre crise social, identidade coletiva, memória, autoridade, sofrimento e expectativa de restauração.

Esse deslocamento não significa reduzir o fenômeno religioso à estrutura social. Uma interpretação desse tipo seria teoricamente inadequada. Não se pode afirmar, por exemplo, que uma comunidade composta majoritariamente por sacerdotes produzirá necessariamente um Messias sacerdotal, ou que um grupo envolvido em conflito político produzirá necessariamente um Messias guerreiro. As representações religiosas são mediadas por tradições, textos, instituições, repertórios simbólicos e disputas internas. O que a sociologia pode oferecer é outra coisa: uma teoria das condições de possibilidade. Uma situação histórica pode produzir determinadas tensões; essas tensões precisam ser interpretadas; a interpretação mobiliza categorias culturais disponíveis; e o resultado pode ser uma nova configuração simbólica da realidade. Neil J. Smelser oferece um ponto de partida particularmente importante ao distinguir condições estruturais de tensão dos processos mediante os quais crenças generalizadas são produzidas e passam a orientar o comportamento coletivo (SMELSER, 1962, p. 47-130). Sua Theory of Collective Behavior organiza explicitamente essa passagem entre tensão estrutural e formação de crenças generalizadas.

A questão central deste artigo emerge exatamente desse ponto. Uma comunidade submetida à dominação estrangeira não necessariamente produz uma expectativa messiânica. Uma comunidade derrotada militarmente não necessariamente produz um Messias guerreiro. Uma comunidade submetida a uma crise sacerdotal não necessariamente produz um Messias sacerdotal. E uma comunidade que experimenta sofrimento não necessariamente produz um Messias sofredor. A relação entre experiência e representação é muito mais complexa. A hipótese que pretendemos desenvolver é, portanto, mais restrita: determinadas formas de crise podem produzir problemas específicos de legitimidade e identidade que tornam determinadas formas de imaginação messiânica particularmente adequadas à elaboração coletiva da experiência.

Nesse sentido, o Messias pode ser entendido como uma figura de condensação. Ele concentra em uma personagem ou em uma categoria escatológica aquilo que a comunidade acredita ter perdido e aquilo que espera recuperar. Quando a perda fundamental é a soberania, a figura redentora tende a assumir características régias; quando é a pureza do culto, pode assumir características sacerdotais; quando é a capacidade militar, pode adquirir configuração guerreira; quando é a orientação divina, pode assumir função profética. A questão do Messias sofredor, contudo, introduz uma dificuldade qualitativamente diferente. Ela emerge quando o próprio agente da restauração parece compartilhar a experiência de derrota que deveria superar. O problema deixa então de ser apenas “quem restaurará Israel?” e passa a ser “como pode permanecer legítimo aquele que sofreu a mesma derrota que deveria superar?”

É essa segunda questão que orientará o desenvolvimento teórico deste primeiro bloco.



2 TENSÃO ESTRUTURAL: QUANDO A ORDEM HISTÓRICA ENTRA EM CONTRADIÇÃO COM A ORDEM ESPERADA

A teoria da tensão estrutural oferece uma primeira ferramenta para compreender a relação entre experiência histórica e produção de expectativas coletivas. Smelser argumenta que determinados processos de comportamento coletivo podem ser compreendidos a partir da presença de condições estruturais que geram tensões e, posteriormente, de mecanismos mediante os quais essas tensões são interpretadas coletivamente (SMELSER, 1962, p. 47-66). A importância desse modelo para a presente investigação está menos em sua aplicação literal ao messianismo antigo do que na distinção metodológica que ele permite estabelecer entre situação objetiva e interpretação coletiva da situação. A existência de dominação, desigualdade, derrota ou instabilidade não produz automaticamente uma determinada resposta religiosa; ela constitui uma condição que pode tornar necessária uma elaboração interpretativa. A literatura de Smelser organiza essa questão precisamente a partir da tensão estrutural e da criação de crenças generalizadas, antes de avançar para as diferentes formas de comportamento coletivo.

Essa distinção é fundamental para a história do messianismo. O domínio estrangeiro, considerado isoladamente, é apenas um fato político. Ele adquire significado religioso quando é interpretado à luz de categorias normativas: promessa, eleição, aliança, terra, templo, justiça, realeza, pureza e restauração. A experiência da dominação pode então produzir uma contradição entre a representação normativa que uma comunidade possui de si mesma e sua situação histórica concreta. O grupo acredita ser portador de uma determinada ordem legítima, mas encontra-se subordinado a uma ordem que considera ilegítima. A tensão não está, portanto, apenas na relação entre governantes e governados; encontra-se também na relação entre aquilo que a comunidade acredita ser e aquilo que sua situação histórica parece demonstrar que ela é.

Essa perspectiva nos permite reformular o problema do messianismo. A questão não é simplesmente saber se determinado grupo foi oprimido, mas perguntar qual aspecto de sua identidade foi percebido como ameaçado pela opressão. Se o elemento central da identidade é a soberania, a restauração será imaginada politicamente. Se é o sacerdócio, será imaginada cultualmente. Se é a fidelidade religiosa, a questão poderá adquirir uma dimensão de julgamento e vindicação. A figura messiânica, nessa perspectiva, não constitui apenas uma resposta à opressão; constitui uma resposta ao tipo específico de perda que a opressão tornou visível.


Tabela 1 — Da condição histórica à expectativa messiânica

Condição históricaPerda percebidaCrise produzidaPossível configuração redentora
Dominação estrangeiraSoberaniaCrise políticaMessias régio/guerreiro
Crise sacerdotalPureza cultualCrise religiosaMessias sacerdotal
Fragmentação internaUnidadeCrise identitáriaRestaurador/reunificador
InjustiçaOrdem moralCrise de teodiceiaJuiz escatológico
Perseguição dos justosFidelidadeCrise de legitimidadeJusto vindicado
Derrota da liderançaCredibilidade do eleitoCrise de autoridadeLíder martirizado/vindicado
Sofrimento do líderRelação entre eleição e derrotaCrise messiânicaMessias sofredor/vindicado

Fonte: elaboração própria.


A última linha da tabela representa uma situação teoricamente mais complexa que as anteriores. O problema já não é simplesmente a existência de opressão. O problema é a incompatibilidade aparente entre eleição e fracasso. Uma comunidade pode aceitar que seus membros sofram; pode aceitar que um exército seja derrotado; pode aceitar que um governante seja removido. Torna-se mais difícil preservar uma expectativa messiânica quando aquele que deveria ser o instrumento da restauração é precisamente aquele que experimenta a derrota.

A partir desse ponto, a sociologia da tensão se encontra com a sociologia da autoridade. A derrota de um membro comum do grupo não necessariamente ameaça a estrutura simbólica do coletivo. A derrota do líder eleito pode ameaçá-la profundamente.


3 PRIVAÇÃO RELATIVA: EXPECTATIVA, PERDA E A DISTÂNCIA ENTRE O QUE É E O QUE DEVERIA SER

A teoria da privação relativa desenvolvida por Ted Robert Gurr permite avançar um passo nessa análise. Em Why Men Rebel, Gurr dedica-se à relação entre privação relativa e impulso para a violência, distinguindo a situação objetiva da percepção de discrepância entre expectativas e condições efetivamente alcançadas (GURR, 1970, p. 22-88). Para a presente investigação, sua contribuição principal está na noção de que o descontentamento social não depende exclusivamente de condições absolutas, mas também da relação entre aquilo que um grupo acredita que deveria possuir e aquilo que efetivamente possui.

A aplicação dessa formulação ao judaísmo antigo deve ser realizada com cautela. Não se trata de afirmar que o conceito de Gurr possa ser simplesmente transportado para sociedades antigas. Sua utilidade é heurística: ele permite pensar uma estrutura de discrepância entre expectativa normativa e realidade histórica. Uma comunidade judaica não avaliava sua situação exclusivamente por indicadores materiais ou militares. Sua percepção estava mediada por uma tradição histórica e religiosa que atribuía significado à eleição de Israel, à terra, à aliança, à dinastia davídica, ao templo e à justiça divina. Consequentemente, uma condição política podia ser percebida como muito mais grave do que sua dimensão material imediata sugeriria. A discrepância relevante poderia ser aquela entre a identidade normativa atribuída a Israel e sua condição histórica concreta.

É nesse ponto que a derrota adquire dimensão religiosa. A pergunta não é simplesmente “por que perdemos uma guerra?”, mas “como podemos ser aquilo que acreditamos ser se somos derrotados?”. A pergunta produz uma tensão de segunda ordem: a derrota ameaça não apenas o poder, mas a interpretação da própria identidade.


Diagrama 1 — Privação relativa e expectativa messiânica

IDENTIDADE NORMATIVA
│
▼
EXPECTATIVA DE ORDEM
│
▼
─────────────────
│
DISCREPÂNCIA
│
▼
EXPERIÊNCIA HISTÓRICA
│
▼
PRIVação / DERROTA
│
▼
CRISE INTERPRETATIVA
│
┌──────┴──────┐
▼ ▼
ABANDONO REINTERPRETAÇÃO
DA EXPECTATIVA DA DERROTA
│
▼
EXPECTATIVA DE
RESTAURAÇÃO

Fonte: elaboração própria.

A teoria de Gurr não explica o messianismo; ela ajuda a compreender por que expectativas frustradas podem adquirir intensidade política e emocional. Para a presente investigação, sua contribuição principal está justamente na noção de discrepância. O Messias pode ser interpretado como uma resposta simbólica à discrepância entre a ordem normativa e a ordem empiricamente experimentada.

A hipótese precisa, contudo, permanecer limitada. Não podemos concluir que privação relativa necessariamente gera messianismo. Ela pode produzir revolta, acomodação, migração, apatia, reforma religiosa, violência, ascetismo ou inúmeras outras respostas. O que nos interessa é identificar uma das possibilidades: a transformação da discrepância histórica em expectativa de restauração escatológica.



4 MEMÓRIA COLETIVA: A DERROTA NÃO É APENAS LEMBRADA, É RECONSTRUÍDA

A dimensão temporal do problema exige a incorporação da teoria da memória coletiva de Maurice Halbwachs. Em On Collective Memory, Halbwachs sustenta que a memória não opera simplesmente como armazenamento individual do passado, mas se organiza dentro de quadros sociais. A edição de 1992, traduzida e organizada por Lewis A. Coser, estrutura a discussão a partir de “The Social Frameworks of Memory”, incluindo “The Reconstruction of the Past” e, posteriormente, “Religious Collective Memory” (HALBWACHS, 1992, p. 35-119). A estrutura da edição pode ser conferida bibliograficamente.

Essa formulação é decisiva porque permite compreender que acontecimentos históricos não possuem um único significado permanente. A memória coletiva reconstrói o passado a partir das necessidades, posições e categorias do presente. O passado é, portanto, continuamente reorganizado. A memória de uma derrota pode ser transformada em memória de humilhação, martírio, punição, prova, resistência ou promessa. O acontecimento histórico permanece, mas sua função dentro da identidade coletiva pode mudar.

A aplicação dessa teoria ao messianismo permite compreender por que acontecimentos de derrota podem adquirir significado escatológico somente posteriormente. Uma comunidade não precisa formular imediatamente uma interpretação messiânica de uma derrota. Pode fazê-lo décadas ou gerações depois, quando o acontecimento passa a ser integrado a uma narrativa maior sobre a identidade do grupo. A derrota pode então ser reclassificada como parte de uma história de sofrimento que antecede a restauração.

Essa dimensão é particularmente importante quando consideramos figuras de liderança. A morte de um líder pode ser inicialmente lembrada como fracasso. Posteriormente, a mesma morte pode ser reinterpretada como testemunho de fidelidade. O processo não exige alteração do acontecimento, mas alteração da narrativa que o organiza.

Halbwachs é especialmente útil aqui porque a memória religiosa não é simplesmente memória de acontecimentos religiosos; ela é uma forma de reconstruir o passado dentro de quadros coletivos de significado. A existência de uma seção especificamente dedicada à memória religiosa demonstra a importância que o autor atribui à relação entre memória, tradição e organização social da experiência (HALBWACHS, 1992, p. 84-119).


Tabela 2 — Reinterpretações possíveis da derrota

AcontecimentoMemória negativaReinterpretação religiosa
Derrota militarFracassoProva
Morte do líderFim da missãoMartírio
PerseguiçãoImpotênciaFidelidade
ExílioPerdaEspera
HumilhaçãoDesonraSofrimento do justo
DominaçãoDerrotaSituação provisória
Ausência de restauraçãoFrustraçãoAdiamento escatológico

Fonte: elaboração própria.


A partir dessa perspectiva, podemos compreender a importância da escatologia. Ela oferece uma estrutura temporal capaz de separar o presente da derrota do futuro da vindicação. O fracasso histórico não precisa ser negado; pode ser deslocado para uma etapa intermediária da narrativa.



5 TRAUMA CULTURAL: QUANDO O SOFRIMENTO ATINGE A IDENTIDADE DO GRUPO

A teoria do trauma cultural de Jeffrey C. Alexander aprofunda essa análise ao demonstrar que acontecimentos traumáticos não produzem automaticamente uma memória coletiva determinada. O trauma cultural constitui um processo de construção de significado no qual uma coletividade interpreta determinado acontecimento como ameaça fundamental à sua identidade. Alexander estrutura esse processo em torno da construção de narrativas, grupos portadores, audiências, atribuição de responsabilidade, classificação cultural, memória e revisão da identidade coletiva (ALEXANDER, 2004, p. 1-30). O capítulo apresenta explicitamente esses mecanismos e ocupa as pp. 1-30 da edição de Cultural Trauma and Collective Identity.

A relevância dessa teoria para o presente estudo é enorme porque ela impede uma interpretação naturalista do sofrimento. Não é o acontecimento em si que determina o trauma cultural; é o processo social por meio do qual o acontecimento passa a ser interpretado como ameaça à identidade coletiva. Alexander desenvolve deliberadamente uma perspectiva construtivista, segundo a qual o trauma emerge de processos de produção social de significado.

Isso permite formular uma distinção metodológica decisiva:

sofrimento histórico não é sinônimo de trauma cultural; trauma cultural é uma forma socialmente construída de interpretar sofrimento histórico.

Essa distinção é essencial para a análise do messianismo. Não devemos simplesmente localizar períodos de grande sofrimento e concluir que eles produziram expectativas messiânicas. Devemos investigar como comunidades específicas interpretaram esses sofrimentos, quem foi responsabilizado, como a identidade do grupo foi afetada e quais narrativas foram utilizadas para transformar a experiência em memória coletiva.

Alexander também oferece uma ferramenta particularmente relevante para compreender a passagem da experiência individual para a representação coletiva. O trauma cultural envolve uma narrativa na qual a dor de determinados indivíduos ou grupos passa a ser apresentada como ameaça à coletividade mais ampla (ALEXANDER, 2004, p. 1-30).

Essa operação pode ajudar a compreender a emergência de uma figura messiânica sofredora. Se uma liderança for percebida como condensação da identidade coletiva, seu sofrimento poderá ser narrado não apenas como experiência pessoal, mas como representação da própria experiência da comunidade.


Diagrama 2 — Da experiência traumática à representação messiânica

ACONTECIMENTO
│
▼
SOFRIMENTO
│
▼
INTERPRETAÇÃO COLETIVA
│
▼
AMEAÇA À IDENTIDADE
│
▼
NARRATIVA DE MEMÓRIA
│
▼
PERSONIFICAÇÃO DA CRISE
│
▼
FIGURA DE LIDERANÇA
│
▼
SOFRIMENTO REPRESENTATIVO
│
▼
POSSÍVEL VINDICAÇÃO
ESCATOLÓGICA

Fonte: elaboração própria.


Devemos novamente evitar uma extrapolação indevida. Alexander está construindo uma teoria sociológica geral do trauma cultural, não uma teoria específica do judaísmo antigo. Sua contribuição aqui é heurística: permite formular perguntas que posteriormente precisam ser respondidas pela documentação antiga.



6 IDENTIDADE SOCIAL E A CONSTRUÇÃO DO “NÓS” E DO “OUTRO”

A experiência de opressão também produz transformações na definição dos limites do grupo. A teoria da identidade social de Henri Tajfel e John Turner fornece um instrumento central para compreender esse processo. Em “An Integrative Theory of Intergroup Conflict”, os autores discutem as relações entre categorização social, identidade, comparação intergrupal e conflito (TAJFEL; TURNER, 1979, p. 33-47).

O ponto relevante para nossa investigação é que identidades coletivas não existem isoladamente. Elas são construídas também por meio de diferenciações. A definição do “nós” está frequentemente relacionada à definição de um “eles”. Em situações de conflito, essas fronteiras podem tornar-se particularmente salientes. Entretanto, a ameaça externa não necessariamente elimina conflitos internos. Pelo contrário: ela pode intensificar disputas sobre quem representa autenticamente o grupo.

Esse aspecto é fundamental para o estudo do messianismo judaico. A pergunta “quem nos salvará?” está intimamente relacionada à pergunta “quem somos nós?”. O Messias pode funcionar como uma representação condensada do grupo ideal. O rei representa um Israel soberano; o sacerdote, um Israel purificado; o guerreiro, um Israel capaz de resistir; o profeta, um Israel novamente orientado por Deus; o juiz, um Israel submetido à justiça divina.

A pluralidade messiânica pode, portanto, ser parcialmente compreendida como pluralidade de projetos de identidade coletiva.


Tabela 3 — Problema coletivo e configuração messiânica

Problema centralIdentidade ameaçadaAgente idealizado
Perda da soberaniaIsrael políticoRei
Dominação militarIsrael combatenteGuerreiro
Corrupção cultualIsrael sacerdotalSacerdote
FragmentaçãoIsrael como comunidadeReunificador
InjustiçaIsrael como comunidade justaJuiz
Perda da revelaçãoIsrael como povo orientado por DeusProfeta
Sofrimento dos fiéisIsrael como povo justoJusto vindicado
Derrota da liderançaLegitimidade do eleitoLíder sofredor/vindicado

Fonte: elaboração própria.



A última linha é decisiva. O Messias sofredor pode representar não apenas aquilo que o grupo espera tornar-se, mas aquilo que o grupo experimenta. O rei guerreiro encontra-se acima da condição presente da comunidade porque possui a força que ela perdeu. O Messias sofredor, ao contrário, pode encontrar-se profundamente identificado com a própria condição da comunidade.

Essa característica produz uma mudança fundamental na estrutura da representação messiânica: a distância entre salvador e comunidade diminui.



7 AUTORIDADE, CARISMA E A CRISE PRODUZIDA PELA DERROTA DA LIDERANÇA

O problema torna-se ainda mais complexo quando a figura messiânica é compreendida como liderança. A sociologia da religião de Max Weber oferece aqui uma ferramenta indispensável, particularmente por sua análise da autoridade religiosa, do profeta e dos problemas de teodiceia. Em The Sociology of Religion, a discussão sobre o profeta e a seção dedicada à teodiceia e à salvação constituem pontos fundamentais para compreender a relação entre autoridade religiosa, sofrimento e legitimação (WEBER, 1963).

O conceito weberiano de autoridade carismática permite compreender por que o fracasso de um líder pode ser particularmente destrutivo para uma comunidade. A autoridade carismática depende do reconhecimento de qualidades extraordinárias e de uma missão excepcional. Se o líder é considerado portador de uma missão divina, sua derrota pode gerar uma contradição entre a crença na missão e a evidência empírica do fracasso.

É precisamente nessa situação que a narrativa religiosa precisa trabalhar. Uma possibilidade é concluir que o líder não era verdadeiramente eleito. Outra é concluir que a missão fracassou. Uma terceira consiste em reinterpretar o fracasso como aparente. O líder foi derrotado no plano histórico, mas será vindicado em uma ordem futura.

O problema pode ser representado da seguinte maneira:



Diagrama 3 — Crise de autoridade da liderança messiânica

ELEIÇÃO
│
▼
MISSÃO REDENTORA
│
▼
EXPECTATIVA
DE ÊXITO
│
▼
DERROTA
│
┌────────┴────────┐
▼ ▼
DESLEGITIMAÇÃO REINTERPRETAÇÃO
│ │
▼ ▼
“NÃO ERA O “A DERROTA
ELEITO” É PROVISÓRIA”
│
▼
VINDICAÇÃO
FUTURA

Fonte: elaboração própria.


A segunda solução é particularmente importante para a história do messianismo porque permite preservar a eleição sem negar a derrota. Ela cria uma nova temporalidade: a verdade da eleição não precisa ser demonstrada imediatamente pela vitória histórica.

É exatamente aqui que o sofrimento pode adquirir uma função nova. Se a vitória deixa de ser o critério imediato de legitimidade, a fidelidade diante da derrota pode assumir esse papel.



8 TEODICEIA: O PROBLEMA DO JUSTO QUE SOFRE

A questão da liderança derrotada conduz diretamente ao problema clássico da teodiceia. Weber trata a teodiceia em conexão com a necessidade de explicar a distribuição empiricamente observável do sofrimento e da felicidade em relação às concepções religiosas de justiça, salvação e ordem (WEBER, 1963). A importância desse problema para a presente investigação está em sua estrutura elementar: como explicar a existência do sofrimento quando o sofredor é precisamente aquele que deveria estar sob proteção ou favor divino?

A pergunta torna-se particularmente aguda quando aplicada a uma comunidade considerada eleita. Se Deus é justo, por que os justos sofrem? Se Deus é poderoso, por que os injustos triunfam? E, quando essa questão é aplicada a Israel, o problema adquire uma dimensão coletiva: por que o povo eleito é derrotado?

A religião não precisa necessariamente resolver essa contradição pela negação do sofrimento. Pode reinterpretá-lo. O sofrimento pode ser punição, disciplina, teste, consequência da liberdade humana, mistério divino ou etapa anterior à recompensa. A solução que nos interessa é aquela na qual o sofrimento do justo é integrado à própria narrativa de sua legitimidade.

Nesse ponto, devemos introduzir uma distinção decisiva para a segunda parte do artigo:

sofrimento não é necessariamente redenção.

Um justo pode sofrer e ser posteriormente vindicado sem que seu sofrimento tenha qualquer função redentora para terceiros. Um profeta pode ser perseguido sem que sua perseguição constitua parte da missão salvífica. Um líder pode morrer e ser posteriormente exaltado sem que sua morte seja apresentada como instrumento de expiação.

Portanto, a existência de sofrimento em uma figura escatológica não basta para estabelecer a categoria de Messias sofredor em sentido forte.

A questão correta será:

O sofrimento constitui apenas uma circunstância da trajetória do personagem ou passa a integrar sua função escatológica?

Essa distinção será central quando analisarmos os textos judaicos.



9 UMA TIPOLOGIA SOCIOLÓGICA DAS FIGURAS MESSIÂNICAS

A discussão desenvolvida até aqui permite construir uma tipologia que não pretende classificar exaustivamente todas as figuras messiânicas da literatura judaica, mas relacionar diferentes configurações a diferentes problemas de ordem coletiva.

Tabela 4 — Tipologia sociológica das expectativas messiânicas

TipoProblema dominanteFunçãoCritério de legitimidade
RégioPerda da soberaniaRestaurar o governoVitória/restauração
GuerreiroDominaçãoDerrotar o inimigoPoder militar
SacerdotalCrise cultualPurificar o cultoSantidade/linhagem
ProféticoCrise de orientaçãoRevelar a vontade divinaRevelação
JudicialInjustiçaJulgar os ímpiosJustiça
RestauradorFragmentaçãoReunificarUnidade
CelesteIncapacidade humanaIntervir transcendentementeAutoridade divina
Justo vindicadoSofrimento dos fiéisDemonstrar justiçaVindicação
SofredorDerrota da liderançaTransformar derrota em fidelidadeSofrimento/vindicação
Redentor sofredorCrise radical de ordemProduzir restauração por meio do sofrimentoFunção redentora

Fonte: elaboração própria.



A tipologia mostra que a categoria “Messias sofredor” deve ser utilizada com cautela. Há uma diferença entre o Messias que sofre e o Messias cuja missão envolve o sofrimento. A segunda categoria é muito mais forte.

Essa distinção também evita um problema recorrente na história comparada das religiões: identificar retrospectivamente qualquer personagem que morra ou seja perseguido como precursor de uma concepção posterior de sofrimento redentor. A metodologia adotada aqui exige que cada etapa seja demonstrada textualmente.

Podemos representar essa progressão da seguinte forma:



Diagrama 4 — Graus de integração do sofrimento à figura messiânica

FIGURA MESSIÂNICA
│
▼
SOFRE
│
▼
É PERSEGUIDA
│
▼
SOFRIMENTO É PROVA
DE FIDELIDADE
│
▼
SOFRIMENTO POSSUI
FUNÇÃO ESCATOLÓGICA
│
▼
SOFRIMENTO POSSUI
FUNÇÃO REDENTORA

Fonte: elaboração própria.

Somente os dois últimos níveis permitem falar, em sentido forte, de uma concepção de Messias sofredor. Essa gradação será fundamental para a análise documental posterior.



10 A HIPÓTESE DO MESSIAS SOFREDOR: DA DERROTA À VINDICAÇÃO

Podemos agora reunir os elementos desenvolvidos nas seções anteriores. Uma comunidade experimenta uma ruptura entre sua ordem normativa e sua situação histórica. A tensão produz uma necessidade de interpretação. A discrepância entre expectativas e condições efetivas pode intensificar a percepção da perda. O acontecimento é posteriormente incorporado à memória coletiva. Se a experiência atingir a identidade do grupo, pode adquirir características de trauma cultural. A ameaça externa pode reforçar as fronteiras entre “nós” e “eles”. Se uma liderança considerada legítima for derrotada, surge uma crise adicional: a própria autoridade do eleito parece ter sido desmentida pelos acontecimentos.

Nesse ponto, a comunidade dispõe de diferentes soluções interpretativas. Pode abandonar o líder. Pode substituí-lo. Pode reinterpretar sua missão. Pode transformar sua morte em martírio. Pode deslocar sua vindicação para o futuro. Pode afirmar que o fracasso aparente constitui parte de uma trajetória maior. A emergência de uma figura messiânica sofredora deve ser procurada precisamente nesse espaço de possibilidades.

A hipótese central deste estudo pode então ser formulada com rigor:

A experiência coletiva da derrota, da perseguição e do fracasso de lideranças não produz mecanicamente uma figura messiânica sofredora; entretanto, pode criar uma crise de legitimidade que favorece a reinterpretação da relação entre eleição, sofrimento e vitória. Quando tradições do justo perseguido, da vindicação futura e da restauração escatológica estão disponíveis, o sofrimento pode deixar de funcionar como refutação da eleição e passar a funcionar como evidência de fidelidade.

Essa hipótese é mais forte do que uma simples relação entre sofrimento e messianismo, mas suficientemente limitada para permanecer historicamente testável. Ela não afirma que todos os Messias sofredores nasceram de experiências concretas de derrota. Tampouco afirma que uma determinada configuração social produz necessariamente uma determinada figura religiosa. Afirma apenas que determinados problemas de legitimidade tornam inteligível uma transformação na qual o fracasso deixa de ser incompatível com a eleição.

A diferença entre o Messias vitorioso e o Messias sofredor pode ser sintetizada em duas lógicas distintas:

Diagrama 5 — Duas lógicas de legitimação messiânica

MESSIAS VITORIOSO

ELEIÇÃO
↓
MISSÃO
↓
PODER
↓
VITÓRIA
↓
VINDICAÇÃO
MESSIAS SOFREDOR

ELEIÇÃO
↓
MISSÃO
↓
FIDELIDADE
↓
PERSEGUIÇÃO
↓
SOFRIMENTO
↓
VINDICAÇÃO FUTURA

Fonte: elaboração própria.

No primeiro modelo, a legitimidade tende a ser demonstrada pela transformação da realidade histórica. No segundo, a legitimidade pode ser demonstrada pela fidelidade diante da impossibilidade imediata de transformar essa realidade.

Essa inversão é sociologicamente significativa. O líder que vence confirma sua eleição mediante a vitória. O líder que sofre precisa ser legitimado mediante uma narrativa que explique por que sua derrota não invalida sua eleição. A comunidade precisa, portanto, produzir uma nova relação entre presente e futuro, fracasso e fidelidade, sofrimento e legitimidade.

A memória coletiva desempenha papel decisivo nessa operação porque permite que o sofrimento seja preservado como elemento constitutivo da identidade do grupo. O trauma cultural, por sua vez, oferece um modelo para compreender como determinados acontecimentos passam a ser interpretados como ameaças à identidade coletiva. A identidade social explica a necessidade de diferenciar o grupo de seus adversários. A teoria da privação relativa esclarece a discrepância entre expectativas e realidade. A teoria da tensão estrutural explica como condições sociais podem gerar pressão para a produção de novas interpretações. E a sociologia da religião de Weber permite compreender a necessidade de atribuir sentido ao sofrimento e preservar a legitimidade religiosa diante de uma ordem histórica aparentemente injusta.

Nenhuma dessas teorias, isoladamente, explica o Messias sofredor. É justamente a articulação entre elas que permite construir uma hipótese mais sofisticada.

Diagrama 6 — Modelo integrado

DOMINAÇÃO / DERROTA
│
▼
TENSÃO ESTRUTURAL
│
▼
PRIVação RELATIVA
│
▼
CRISE DE EXPECTATIVAS
│
▼
AMEAÇA À IDENTIDADE
│
▼
MEMÓRIA COLETIVA
│
▼
SOFRIMENTO COLETIVO
│
▼
CRISE DA LIDERANÇA
│
▼
CRISE DE LEGITIMIDADE
│
┌───────┴────────┐
▼ ▼
DESLEGITIMAÇÃO REINTERPRETAÇÃO
│
▼
JUSTO SOFREDOR
│
▼
FIDELIDADE
│
▼
VINDICAÇÃO FUTURA
│
▼
FIGURA ESCATOLÓGICA
│
▼
MESSIAS SOFREDOR

Fonte: elaboração própria.

O modelo deve ser compreendido como uma sequência heurística, não como uma cadeia causal universal. Uma comunidade pode interromper o processo em qualquer ponto. A tensão pode produzir revolta sem produzir messianismo. A derrota pode produzir abandono da expectativa. O sofrimento pode produzir martírio sem produzir messianismo. A memória pode apagar o líder em vez de preservá-lo. A identidade coletiva pode ser reconstruída sem recorrer à escatologia. E uma figura messiânica pode surgir sem que possamos demonstrar qualquer relação direta com uma crise social específica.

O que o modelo permite afirmar é algo mais modesto e, justamente por isso, mais útil: ele identifica um conjunto de mecanismos sociológicos mediante os quais a experiência da derrota pode ser convertida em expectativa de restauração e, em determinadas circunstâncias, em uma representação messiânica na qual o sofrimento do líder deixa de constituir objeção à sua legitimidade.

Essa conclusão nos conduz diretamente ao problema histórico do segundo bloco.

Não basta encontrar no judaísmo antigo personagens que sofram. Será necessário determinar se esses personagens são messiânicos; se são messiânicos, qual é sua função; se sofrem, qual é a função de seu sofrimento; se são mortos, qual é o significado de sua morte; e, sobretudo, se sua derrota é reinterpretada como parte de uma trajetória de vindicação.

A distinção entre justo sofredor, mártir, líder perseguido, figura escatológica sofredora e Messias sofredor será, portanto, o eixo metodológico da próxima etapa.

É nesse ponto que o problema sociológico encontra o problema histórico-textual. A teoria produziu uma hipótese; agora é necessário submetê-la à documentação.



CONSIDERAÇÕES FINAIS

A análise realizada permite abandonar duas explicações simplistas sobre a origem das expectativas messiânicas. A primeira é a explicação puramente teológica, segundo a qual diferentes figuras messiânicas seriam simplesmente expressões sucessivas de uma doutrina religiosa preexistente. A segunda é o reducionismo sociológico, segundo o qual cada configuração religiosa seria mero reflexo das condições materiais ou políticas de determinado grupo. Ambas as perspectivas são insuficientes. A primeira ignora a diversidade histórica das comunidades e das experiências de crise; a segunda ignora a autonomia relativa dos sistemas simbólicos e das tradições religiosas.

O modelo proposto neste artigo situa-se entre esses extremos. As experiências históricas produzem tensões e problemas; as tradições culturais oferecem repertórios de interpretação; as comunidades selecionam, reorganizam e transformam esses repertórios; e as novas configurações simbólicas passam a orientar a maneira como o grupo compreende seu passado, seu presente e seu futuro. O Messias é, nesse sentido, simultaneamente personagem religioso e representação social da restauração esperada.

A pluralidade messiânica deixa então de parecer uma anomalia. Ela se torna teoricamente inteligível. Comunidades diferentes podem formular diferentes Messias porque enfrentam diferentes problemas de ordem. A comunidade cuja perda fundamental é a soberania imagina a restauração da soberania. Aquela cuja crise é cultual pode imaginar a restauração sacerdotal. Aquela cuja experiência central é a perseguição pode enfatizar o justo perseguido. Aquela que experimenta a derrota de sua própria liderança pode precisar elaborar uma nova relação entre eleição e fracasso.

É nesse último ponto que emerge a hipótese do Messias sofredor.

O sofrimento, nessa perspectiva, não deve ser compreendido inicialmente como uma categoria teológica abstrata, mas como um problema de legitimidade. Como pode permanecer legítimo aquele que perdeu? A resposta pode consistir na transformação do significado da derrota. O líder não perdeu porque sua eleição era falsa; perdeu porque a ordem presente é injusta. Não foi abandonado por Deus; sua vindicação foi deslocada para o futuro. Não é a vitória imediata que demonstra sua legitimidade; é sua fidelidade diante do sofrimento.

A hipótese é suficientemente específica para ser confrontada com a documentação. Precisaremos agora perguntar se os textos judaicos efetivamente realizam essa operação simbólica. Será necessário estabelecer, texto por texto, se existe uma associação entre messianidade, sofrimento, derrota, morte, fidelidade e vindicação.

É justamente nesse ponto que a literatura de Qumran, a tradição apocalíptica judaica e, posteriormente, textos como o Sefer Zerubbabel se tornam decisivos. Sua função, entretanto, não será ilustrar uma teoria já comprovada. Ao contrário: eles serão o campo empírico no qual a hipótese sociológica deverá ser testada, corrigida ou eventualmente rejeitada.

O primeiro bloco, portanto, chega ao seu ponto de encerramento com uma proposição deliberadamente aberta: o Messias sofredor pode ser compreendido como uma solução simbólica para uma crise específica de legitimidade — aquela produzida quando a comunidade precisa preservar a eleição e a esperança de restauração diante da experiência concreta da derrota.

O problema histórico subsequente será verificar se essa solução pode efetivamente ser encontrada na documentação judaica anterior ao cristianismo e, sobretudo, em que momento, em quais comunidades e mediante quais tradições o sofrimento deixa de ser simplesmente uma característica do justo perseguido para tornar-se parte constitutiva da identidade e da missão de uma figura messiânica.


A segunda parte desse artigo pode ser encontrada aqui: 

A FORMAÇÃO DO MESSIAS SOFREDOR: SOFRIMENTO, DERROTA E VINDICAÇÃO NA TRADIÇÃO JUDAICA - Parte II


REFERÊNCIAS

ALEXANDER, Jeffrey C. Toward a theory of cultural trauma. In: ALEXANDER, Jeffrey C.; EYERMAN, Ron; GIESEN, Bernhard; SMELSER, Neil J.; SZTOMPKA, Piotr. Cultural trauma and collective identity. Berkeley: University of California Press, 2004. p. 1-30.

GURR, Ted Robert. Why men rebel. Princeton: Princeton University Press, 1970.

HALBWACHS, Maurice. On collective memory. Translated and edited by Lewis A. Coser. Chicago: University of Chicago Press, 1992.

SMELSER, Neil J. Theory of collective behavior. New York: The Free Press, 1962.

TAJFEL, Henri; TURNER, John C. An integrative theory of intergroup conflict. In: AUSTIN, William G.; WORCHEL, Stephen (ed.). The social psychology of intergroup relations. Monterey: Brooks/Cole, 1979. p. 33-47.

WEBER, Max. The sociology of religion. Translated by Ephraim Fischoff. Boston: Beacon Press, 1963.

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