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quinta-feira, 20 de agosto de 2026

 






1. A comunidade celestial no judaísmo do Segundo Templo

A concepção cristã posterior da communio sanctorum não surgiu em um vazio religioso, cosmológico ou antropológico. Sua formação deve ser situada no interior de um processo histórico mais amplo, desenvolvido no judaísmo do Segundo Templo, no qual antigas representações da assembleia divina foram progressivamente articuladas a concepções mais complexas acerca da realidade celestial, dos anjos, dos justos, do destino dos mortos e da relação entre a comunidade terrestre e o mundo transcendente. Essa constatação, entretanto, exige uma distinção metodológica fundamental: não se trata de afirmar que o judaísmo do Segundo Templo já possuísse a doutrina cristã da Comunhão dos Santos, nem que a literatura enóquica ou qumrânica constitua uma fonte direta da eclesiologia cristã posterior. O que esses textos permitem identificar é algo mais elementar e, justamente por isso, mais importante: a existência de um arcabouço cosmológico e comunitário no qual o mundo celestial podia ser concebido como uma realidade socialmente estruturada, habitada por Deus, anjos e seres santos, submetida a uma ordem própria e, em determinadas tradições, relacionada de maneira dinâmica com a comunidade humana. A literatura do Segundo Templo não apresenta, portanto, uma única concepção do céu ou dos justos mortos, mas um conjunto diversificado de representações desenvolvidas durante vários séculos. George W. E. Nickelsburg chama atenção justamente para a diversidade interna da escatologia judaica desse período e, particularmente no corpus enóquico, para a transformação das tradições escatológicas ao longo de aproximadamente três séculos e meio (NICKELSBURG, 1988). Annette Yoshiko Reed, por sua vez, demonstra que a literatura enóquica deve ser compreendida como resultado de processos complexos de composição, transmissão e recepção, e não como expressão de uma comunidade homogênea ou de uma tradição isolada do restante do judaísmo (REED, 2005). A importância desses estudos para a presente investigação está precisamente em permitir que a relação entre judaísmo e cristianismo seja pensada não segundo o modelo simplista de “fonte e derivação”, mas segundo o modelo de continuidade, transformação e reconfiguração de estruturas religiosas.

A literatura enóquica constitui, nesse sentido, um dos testemunhos mais expressivos da elaboração dessa cosmologia. Em 1 Enoque 22, o espaço destinado aos mortos é descrito segundo uma geografia diferenciada: as almas encontram-se separadas em compartimentos distintos, de acordo com sua condição e seu destino escatológico. O texto não apresenta a morte como simples dissolução da identidade pessoal, mas como passagem para uma realidade organizada segundo critérios religiosos e escatológicos. Essa representação torna-se ainda mais significativa em 1 Enoque 39,4–5, quando Enoque contempla “as moradas dos santos” e os lugares destinados aos justos. Os justos aparecem associados aos anjos santos e, de modo particularmente relevante para nossa investigação, são apresentados como aqueles que oram e intercedem pelos seres humanos. É necessário, contudo, resistir à tentação de transformar essa passagem em uma prova antecipada da doutrina cristã da intercessão dos santos. Não há aqui ainda uma communio sanctorum cristã, nem uma teologia desenvolvida da veneração dos mortos. O que encontramos é uma possibilidade conceitual anterior: o justo, mesmo depois da morte, continua pertencendo a uma ordem religiosa e celestial e sua existência pode manter uma relação funcional com o mundo dos vivos. A relevância dessa representação para a história posterior da santidade cristã não está, portanto, em demonstrar dependência direta, mas em mostrar que o judaísmo do Segundo Templo já dispunha de categorias mediante as quais a fronteira entre comunidade terrestre e comunidade celestial podia ser pensada sem que a morte significasse necessariamente a interrupção da pertença religiosa (NICKELSBURG, 2001; NICKELSBURG; VANDERKAM, 2012).

Essa representação encontra paralelo particularmente importante na literatura de Qumran, sobretudo nos chamados Songs of the Sabbath Sacrifice. Os cânticos apresentam uma realidade celestial organizada em torno do templo celeste, do trono divino e de uma hierarquia de seres angélicos envolvidos na liturgia. A edição crítica de Carol A. Newsom demonstrou a extraordinária complexidade dessa composição e sua importância para a compreensão da imaginação litúrgica qumrânica (NEWSOM, 1985). O elemento decisivo para nossa argumentação não é postular uma relação direta entre Qumran e o cristianismo, mas observar a estrutura religiosa que os cânticos tornam visível: a comunidade terrestre pode conceber seu culto em relação com uma liturgia celestial. A realidade divina não é imaginada simplesmente como um espaço distante no qual Deus reside, mas como uma ordem cultual na qual seres celestiais desempenham funções específicas. A liturgia terrestre encontra, dessa maneira, sua referência em uma liturgia transcendente. A distinção entre céu e terra permanece, mas a separação não é absoluta. Em termos analíticos, podemos falar de uma sociologia religiosa do céu: existem sujeitos, autoridades, funções, hierarquias, espaços, liturgias e relações; e existe uma comunidade terrestre que se compreende em referência a essa realidade celeste. A expressão é nossa, não dos autores antigos, mas descreve adequadamente a estrutura que emerge de diferentes textos do período (NEWSOM, 1985).

A literatura enóquica e os textos de Qumran devem, entretanto, ser inseridos em um quadro mais amplo. Daniel 7 apresenta os “santos do Altíssimo” dentro de uma visão na qual a história terrestre é submetida ao julgamento da assembleia divina; Daniel 12 associa a fidelidade dos justos à ressurreição e à recompensa escatológica; 2 Macabeus e 4 Macabeus desenvolvem uma teologia do justo perseguido e morto que será posteriormente fundamental para a compreensão cristã do martírio. Não existe, portanto, uma única tradição judaica que conduza linearmente à communio sanctorum. O que existe é uma convergência de tradições: de um lado, a elaboração de uma comunidade celestial; de outro, o desenvolvimento de uma antropologia escatológica segundo a qual os justos mortos continuam inseridos no plano de Deus; e, paralelamente, a construção de uma teologia do justo perseguido, cuja fidelidade pode levá-lo à morte e cuja morte não representa derrota definitiva.



Tabela 1 — Estruturas antecedentes da comunidade celestial

TradiçãoConcepção fundamentalElemento relevante
Daniel 7Assembleia divina e “santos do Altíssimo”O destino dos justos é decidido em uma realidade celestial
Daniel 12Ressurreição e recompensa dos justosContinuidade escatológica da existência dos fiéis
1 Enoque 22Geografia diferenciada dos mortosA morte não dissolve a identidade religiosa
1 Enoque 39Moradas dos santos e relação com os anjosO justo morto permanece inserido na ordem celestial
1 Enoque 39,4–5Oração dos justosPossibilidade de relação entre comunidade celeste e terrestre
QumranTemplo celestial e liturgia angélicaParticipação terrestre na realidade celestial
2 Macabeus 6–7Justo perseguido e mortoMartírio como fidelidade extrema
4 MacabeusMorte dos mártires e vindicaçãoDesenvolvimento de uma teologia do martírio




A partir desse conjunto, torna-se possível formular uma primeira proposição central: o judaísmo do Segundo Templo não fornece ao cristianismo a doutrina da Comunhão dos Santos, mas fornece parte significativa da infraestrutura cosmológica necessária para que essa doutrina possa posteriormente ser formulada. O que é herdado não é uma instituição, uma fórmula ou uma doutrina pronta, mas a possibilidade de imaginar uma realidade na qual a comunidade religiosa ultrapassa a fronteira da morte. O céu já pode ser uma assembleia; os justos já podem possuir uma existência escatológica; os anjos já podem constituir uma comunidade litúrgica; e o mundo terrestre já pode ser pensado em relação com a liturgia celeste. O cristianismo introduzirá posteriormente uma reorganização decisiva desse material em torno de Cristo. A continuidade, portanto, é estrutural, não simplesmente literária.



2. A cristianização da assembleia celestial

Essa transformação torna-se particularmente evidente em Hebreus 12,22–24. O autor afirma que os cristãos chegaram “ao monte Sião e à cidade do Deus vivo, a Jerusalém celeste, e a milhões de anjos em reunião festiva, e à assembleia dos primogênitos inscritos nos céus, e a Deus, juiz de todos, e aos espíritos dos justos que chegaram à perfeição, e a Jesus, mediador de uma nova aliança”. A passagem possui extraordinária importância porque reúne, em uma única paisagem religiosa, elementos que aparecem separadamente em diferentes tradições judaicas: Jerusalém celestial, anjos, assembleia, Deus e justos aperfeiçoados. A novidade decisiva consiste na posição atribuída a Jesus. Ele não aparece como mais um membro da assembleia, mas como mediador da nova aliança. A estrutura cosmológica é reconhecível; sua organização interna, entretanto, foi profundamente transformada.

Essa passagem permite perceber algo fundamental para o desenvolvimento posterior da communio sanctorum: a comunidade cristã não é apresentada simplesmente como uma associação histórica de pessoas que vivem na terra e aguardam uma futura entrada no céu. Ela já participa, de alguma maneira, da realidade celestial. Os cristãos aproximam-se da Jerusalém celeste; encontram-se associados aos anjos e aos “espíritos dos justos aperfeiçoados”; e tudo isso ocorre diante de Deus e em relação a Jesus. A fronteira entre comunidade terrestre e comunidade celestial permanece, mas torna-se teologicamente permeável.

O mesmo processo pode ser percebido no Apocalipse. João contempla uma assembleia celestial organizada em torno do trono divino, formada por seres viventes, anciãos, anjos e multidões celestes; entretanto, o centro da adoração é o Cordeiro. O que ocorre, novamente, não é a substituição de uma cosmologia judaica por uma cosmologia inteiramente nova, mas a cristologização de uma estrutura religiosa preexistente. A assembleia celestial permanece; sua composição fundamental permanece reconhecível; a liturgia celeste permanece; mas Cristo passa a ocupar o centro da estrutura.

A pergunta deixa de ser simplesmente “quem pertence à comunidade celestial?” e passa a ser, cada vez mais, “qual é a relação entre aqueles que pertencem à comunidade celestial e Cristo?” Essa transformação é decisiva para compreender a posterior categoria de santo. O santo cristão não será simplesmente um indivíduo moralmente virtuoso, nem simplesmente um justo que morreu e foi admitido no céu. Ele será progressivamente compreendido como aquele cuja existência está relacionada a Cristo e cuja vida manifesta essa pertença.

A santidade cristã possui, portanto, uma dimensão simultaneamente ontológica, comunitária e mimética: ontológica porque envolve uma nova condição diante de Deus; comunitária porque o santo pertence a uma comunidade que ultrapassa os limites da existência individual; e mimética porque essa pertença se manifesta pela configuração da vida segundo Cristo.

É precisamente nesse ponto que a tradição cristã começa a modificar a antiga concepção judaica da comunidade celestial. A cosmologia é herdada; o princípio de organização é transformado. O céu continua sendo comunidade, mas agora a comunidade é definida pela relação com Cristo. Assim, a passagem do judaísmo do Segundo Templo para o cristianismo pode ser descrita como uma passagem da assembleia celestial à assembleia celestial cristológica.



3. O problema do estado dos mortos: sono, consciência e a sociologia celeste

É nesse ponto que se torna necessário introduzir uma questão que, embora decisiva para a coerência da hipótese, costuma ser obscurecida quando se fala genericamente em “comunidade celestial”: o que significa estar morto dentro dessa comunidade? Se os mortos estão simplesmente “dormindo” até a ressurreição, como poderiam os santos participar de uma comunidade celestial, ser vistos em visões, exercer intercessão ou permanecer relacionados aos vivos? A resposta exige abandonar qualquer tentativa de atribuir à patrística uma doutrina uniforme. A investigação das fontes revela, ao contrário, uma pluralidade de modelos escatológicos, que vão desde uma existência consciente, porém intermediária e incompleta, até concepções de sono da alma e, em alguns círculos, verdadeira morte da alma até a ressurreição. Nicholas Constas demonstrou que a questão do chamado “estado intermediário” permaneceu objeto de elaboração e controvérsia durante a patrística e o período bizantino, justamente porque diferentes tradições procuravam conciliar a expectativa da ressurreição corporal com representações de existência pós-morte (CONSTAS, 2001).

Um dos primeiros pontos importantes é que “sono” nem sempre significa inconsciência ontológica da alma. A metáfora bíblica do sono podia ser utilizada para designar a morte como estado provisório, sobretudo porque o morto aguardava a ressurreição. O problema surge quando se transforma a metáfora em uma antropologia segundo a qual a consciência desaparece completamente. Essa segunda posição existiu, mas não foi universal entre os cristãos antigos. Eusébio de Cesareia registra, no século IV, que alguns cristãos da Arábia sustentavam que a alma morria juntamente com o corpo e seria renovada apenas na ressurreição; segundo Eusébio, Orígenes foi chamado para intervir na controvérsia e conseguiu modificar a posição daqueles que haviam aderido à doutrina. História Eclesiástica VI,37 constitui, portanto, uma evidência particularmente importante da existência de correntes cristãs que rejeitavam a consciência pós-morte.

Mas essa posição não deve ser projetada retrospectivamente sobre toda a patrística. Já em Tertuliano encontramos uma rejeição explícita da ideia de que a alma durma juntamente com o corpo. Em De anima 43 e 55, ele argumenta que o sono corporal não implica repouso da alma e afirma que, após a morte, as almas permanecem ativas. Mais importante ainda, Tertuliano estabelece uma diferenciação extraordinariamente relevante para nossa investigação: nem todos os mortos possuem imediatamente o mesmo destino. Segundo sua concepção, as almas aguardam em Hades, mas os mártires possuem um privilégio especial e passam imediatamente ao Paraíso. Tertuliano interpreta Apocalipse 6,9–11 como uma visão das almas dos mártires sob o altar e utiliza também as visões atribuídas a Perpétua para sustentar a posição de que os mártires possuem acesso privilegiado à realidade paradisíaca.

Essa distinção é extremamente significativa porque mostra que, já no início do século III, a categoria de “mártir” funcionava como uma categoria escatologicamente excepcional. O cristão comum ainda aguardaria a consumação; o mártir, por ter configurado sua morte à morte de Cristo, poderia receber imediatamente uma condição superior. Estudos sobre a concepção tertulianiana do estado intermediário destacam precisamente essa diferença entre os mártires e os demais fiéis: os primeiros recebem acesso direto à bem-aventurança, enquanto os demais permanecem aguardando a consumação escatológica.

Ireneu oferece um modelo diferente e igualmente importante. Em Adversus haereses V,31–32, ele rejeita a ideia de que os mortos imediatamente recebam a plenitude celestial. As almas dos santos encontram-se em estado de expectativa até a ressurreição, quando receberão sua condição perfeita. Isso não significa, entretanto, que Ireneu conceba a alma como inexistente ou inconsciente. Em V,34, ele insiste na continuidade da identidade das almas durante o estado separado do corpo. O ponto de Ireneu é fundamental: o santo pode estar consciente e existir realmente sem que isso signifique que já tenha recebido a ressurreição e a glorificação final.

Temos, portanto, três possibilidades que não devem ser confundidas:

  1. inconsciência ou mortalismo: a alma deixa de existir até a ressurreição;
  2. sono da alma: a existência permanece, mas a atividade consciente é fortemente reduzida ou suspensa;
  3. existência consciente intermediária: a alma permanece consciente, mas ainda aguarda a ressurreição e a glorificação definitiva.

Essa diferenciação é indispensável porque resolve uma aparente contradição em nossa hipótese. A comunidade celestial não pressupõe necessariamente que todos os mortos estejam imediatamente na presença plena de Deus. Ela pressupõe apenas que exista uma realidade pós-morte na qual determinados sujeitos possam continuar pertencendo à ordem religiosa e escatológica de Deus. A forma dessa existência foi objeto de diferentes interpretações patrísticas.



Tabela 2 — A sociologia celeste na patrística

Autor/tradiçãoEstado dos mortosSituação dos santos/mártiresRelação com os vivos
Justino Mártir (séc. II)Existência intermediária até a ressurreiçãoJustos aguardam a consumaçãoÊnfase na ressurreição futura
Ireneu de Lião (c. 180)Almas continuam existindo e aguardam a ressurreiçãoSantos em expectativa; não recebem ainda a plenitudeComunidade futura e continuidade da identidade
Martírio de Policarpo (séc. II)Mártir permanece vivo na realidade celestialMártir como discípulo e imitador de CristoMemória e exemplo
Tertuliano (c. 200–220)Almas conscientes em HadesMártires possuem privilégio e vão imediatamente ao ParaísoMártires têm posição celestial privilegiada
Perpétua/Saturus (203)Visões apresentam mortos em ambiente paradisíacoMártires reconhecem outros mártiresComunidade dos mártires no além
Orígenes (séc. III)Existência pós-morte consciente, em processo de transformaçãoSantos participam de realidade espiritual intermediáriaRelação dinâmica entre mundo terrestre e celeste
Cristãos da Arábia registrados por Eusébio (séc. III)Alma morre com o corpo até a ressurreiçãoNão há consciência pós-morte nesse modeloRuptura temporária até a ressurreição
Cirilo de Jerusalém (séc. IV)Mortos continuam inseridos na economia litúrgicaPatriarcas, profetas, apóstolos e mártires são lembradosIntercessão dos santos
Basílio de Cesareia (séc. IV)Santos vivem diante de DeusMártires possuem especial parrhesiaFiéis podem pedir sua intercessão
Gregório de Nazianzo (séc. IV)Santos continuam relacionados à IgrejaMártires possuem proximidade especial com DeusInvocação e memória
Agostinho (séc. IV–V)Almas conscientes em condição intermediáriaMártires e justos podem estar com CristoComunidade dos vivos e mortos
Eustrácio de Constantinopla (séc. VI)Rejeita a inatividade da almaSantos mortos continuam ativosIntercessão e milagres




Essa tabela mostra algo particularmente importante para nosso argumento: “o santo está consciente” não é uma doutrina universal desde o início, mas a concepção de santos conscientes e ativos torna-se progressivamente mais explícita à medida que a teologia da intercessão se desenvolve. O percurso não é linear.

Um testemunho particularmente importante é o Martírio de Policarpo. A visão de Policarpo não deve ser lida apenas como descrição de um destino individual. O documento situa os mártires dentro de uma comunidade que transcende a morte. A Paixão de Perpétua e Felicidade, por sua vez, apresenta uma imagem ainda mais explícita: Saturus vê Perpétua e outros mártires depois da morte e os reconhece em uma comunidade paradisíaca. A literatura martirológica, portanto, começa a produzir uma verdadeira topografia celeste dos mártires.

A questão da consciência pós-morte torna-se ainda mais clara no desenvolvimento litúrgico do século IV. Cirilo de Jerusalém, ao explicar a liturgia eucarística, afirma que a Igreja recorda os patriarcas, profetas, apóstolos e mártires para que, por suas orações e intercessões, Deus receba a súplica da comunidade. O dado é crucial: aqui já não estamos simplesmente diante da memória dos mortos, mas de uma concepção segundo a qual os santos participam ativamente da relação entre a Igreja terrestre e Deus. A tradição litúrgica preservada por Cirilo mostra, portanto, uma transição da memória para a intercessão.

A partir desse momento, a categoria de “santo” começa a adquirir uma densidade que ultrapassa a simples recordação de um morto exemplar. O santo é um morto que, na concepção da Igreja, não deixou de pertencer à comunidade. Mais ainda: sua posição junto a Deus lhe confere uma capacidade de intercessão que os vivos não possuem. Essa é uma transformação decisiva da antiga sociologia celestial. O céu deixa de ser apenas o lugar para o qual os justos serão conduzidos no fim dos tempos e passa progressivamente a ser concebido como uma comunidade já existente, ainda que em condição intermediária, da qual determinados santos participam atualmente.

É justamente nesse ponto que podemos compreender a diferença entre o morto comum e o santo sem transformar essa diferença em uma regra universal da patrística. Em algumas tradições, especialmente na formulação de Tertuliano, a diferença é explícita: os mártires possuem acesso imediato ao Paraíso, enquanto outros mortos aguardam. Em outras, como em Ireneu, todos os justos permanecem em expectativa, embora conscientes. Mais tarde, na liturgia de Cirilo e na tradição de Basílio, os santos aparecem como figuras que já desfrutam de uma proximidade com Deus suficiente para interceder. O conceito de santidade, portanto, não depende exclusivamente de uma antropologia uniforme da alma; ele é também uma categoria de posição dentro da economia celestial.

Essa conclusão é particularmente importante para nossa hipótese geral. A “sociologia do céu” identificada na literatura judaica do Segundo Templo não desaparece no cristianismo. Ela é ampliada e reorganizada. Agora existem diferentes posições dentro da comunidade celestial: Deus, Cristo, anjos, justos, mártires e, posteriormente, santos de diferentes categorias. A questão não é simplesmente saber se o morto “está vivo” ou “está dormindo”; é determinar qual posição escatológica lhe é atribuída e quais relações essa posição permite manter com a comunidade terrestre.

Dessa maneira, a aparente oposição entre “sono dos mortos” e “comunhão dos santos” não deve ser tratada como uma contradição simples. Trata-se de duas linguagens escatológicas diferentes que coexistiram na história cristã. O sono pode designar a espera pela ressurreição; a consciência pode designar a existência intermediária; e a santidade pode designar uma condição especial de proximidade com Deus. O problema histórico não é escolher uma dessas linguagens e eliminar as demais, mas reconstruir como diferentes comunidades cristãs articularam tempo, morte, ressurreição e pertença comunitária.



4. O martírio: continuidade judaica e especificidade cristã

É nesse ponto que nossa hipótese necessita de uma segunda distinção fundamental. O cristianismo não inventou o martírio. Uma afirmação dessa natureza seria historicamente insustentável. Muito antes do surgimento do cristianismo, o judaísmo havia desenvolvido uma poderosa tradição do justo perseguido que prefere a morte à infidelidade. Daniel 3 e 7, 2 Macabeus 6–7 e, sobretudo, 4 Macabeus constituem testemunhos fundamentais dessa tradição. Jan Willem van Henten demonstrou sistematicamente como 2 e 4 Macabeus elaboram a figura dos mártires macabeus como “salvadores” do povo judeu, articulando fidelidade a Deus, fidelidade à Lei, sofrimento, morte, honra e esperança de vindicação (VAN HENTEN, 1997). Em 4 Macabeus, particularmente, os mártires tornam-se paradigmas de fidelidade e sua morte é interpretada mediante categorias de sacrifício, expiação, benefício comunitário e vitória moral. A literatura judaica anterior ao cristianismo já havia, portanto, sacralizado o sofrimento e a morte do justo.

Essa constatação, contudo, não elimina a especificidade cristã; ao contrário, permite identificá-la com maior precisão. Se o martírio já existia, qual é então a transformação introduzida pelo cristianismo? A resposta deve ser buscada na cristologização do martírio. O mártir cristão não é simplesmente o indivíduo que reproduz o padrão macabeu de fidelidade a Deus e à Lei. Ele é aquele que segue Cristo. Sua morte é interpretada à luz da paixão de Jesus e pode tornar-se uma forma de imitatio Christi. Candida Moss demonstrou que a ideia de sofrer em imitação de Jesus não surgiu apenas nos relatos tardios das perseguições, mas constitui uma dimensão importante do próprio discipulado no movimento cristão primitivo (MOSS, 2010).

Assim, a especificidade cristã não está na sacralização do martírio em si. O judaísmo já havia sacralizado o martírio. Tampouco está simplesmente na crença de que o justo morto continua pertencendo à comunidade, pois também essa possibilidade aparece em tradições judaicas do Segundo Templo. A especificidade cristã encontra-se na reunião dessas estruturas em torno de uma pessoa específica: Jesus Cristo.

O mártir cristão torna-se santo porque sua morte pode ser compreendida como participação mimética na morte de Cristo; e sua santidade torna-se inteligível porque Cristo é apresentado como paradigma da existência cristã.

Essa diferença é teologicamente profunda. O mártir macabeu morre em fidelidade a Deus e à Lei; o mártir cristão morre em fidelidade a Cristo. A fidelidade cristã não elimina necessariamente a fidelidade ao Deus de Israel, mas desloca o eixo da identificação religiosa. O centro da identidade passa a ser a relação com uma pessoa cuja vida, morte e ressurreição constituem o paradigma normativo da existência cristã.



5. Imitatio Christi e a formação do santo cristão

O Martírio de Policarpo, geralmente situado em meados do século II, constitui uma das testemunhas mais importantes dessa transformação. O documento não apresenta Policarpo apenas como um homem que morreu corajosamente por sua religião. Sua morte é inserida deliberadamente na narrativa cristã da paixão. O texto estabelece uma relação entre o sofrimento do bispo e o sofrimento de Cristo e descreve os mártires como discípulos e imitadores do Senhor (Mart. Pol. 17,3). A distinção entre Cristo e os mártires é preservada: Cristo recebe adoração; os mártires são amados e honrados enquanto discípulos e imitadores. O mártir é santo precisamente porque sua santidade é derivada de Cristo e orientada para Cristo.

A estrutura pode ser expressa mediante uma cadeia mimética:

Cristo → mártir → comunidade → novos imitadores.

Cristo constitui o modelo original; o mártir demonstra historicamente que esse modelo pode ser reproduzido; a comunidade preserva sua memória; e a memória funciona como mecanismo pedagógico mediante o qual outros cristãos são convidados a reproduzir a mesma forma de vida. Candida Moss demonstra que os atos dos mártires utilizam precisamente essa estrutura para transformar a morte individual em paradigma coletivo (MOSS, 2010).

O Martírio de Policarpo é particularmente importante porque permite observar a passagem entre a santidade do mártir e a continuidade da comunidade através da morte. Depois da execução, os cristãos recolhem os restos de Policarpo e passam a preservar sua memória. O texto afirma que desejam celebrar o aniversário de seu martírio e recordar aqueles que anteriormente haviam terminado sua carreira. O objetivo não é simplesmente preservar objetos pertencentes ao morto, mas estabelecer uma memória capaz de produzir imitação.

O problema fundamental não é, portanto, “por que os cristãos veneravam ossos?”, mas como a comunidade cristã podia continuar relacionada a seus mortos como membros efetivos de sua história religiosa?

Essa mudança de perspectiva é decisiva para a compreensão da communio sanctorum. O santo não é inicialmente importante porque é um morto poderoso; ele é importante porque sua vida continua sendo constitutiva da identidade dos vivos. O mártir morto permanece presente por meio de sua memória, de seu exemplo e de sua pertença à realidade celestial.

A partir daí, a santidade começa a reunir três dimensões que anteriormente apareciam separadas: a dimensão celestial, herdada da cosmologia judaica; a dimensão martirial, herdada em parte da tradição judaica do justo perseguido; e a dimensão cristológica, especificamente cristã, que interpreta a santidade como imitação de Cristo.



6. Da memória do mártir à communio sanctorum

A partir desse percurso, a hipótese central pode ser formulada com maior precisão. A communio sanctorum não deve ser compreendida como uma invenção repentina da Igreja dos séculos II ou III, nem como simples continuidade do culto judaico aos mortos ou dos cultos greco-romanos aos heróis. Sua formação resulta da convergência de duas histórias religiosas distintas, posteriormente reunidas e reorganizadas em torno de Cristo.

A primeira é a longa elaboração judaica de uma cosmologia da comunidade celestial. A literatura apocalíptica, enóquica e qumrânica torna possível imaginar uma realidade celeste organizada, povoada por Deus, anjos e justos, dotada de liturgia, hierarquia, julgamento e continuidade com a comunidade humana.

A segunda é a elaboração cristã de uma antropologia da imitação de Cristo. O cristianismo recebe uma tradição judaica já profundamente desenvolvida do justo perseguido e do mártir. Daniel e, sobretudo, 2 e 4 Macabeus demonstram que a morte por fidelidade religiosa já possuía significado comunitário e escatológico antes de Jesus. O cristianismo não cria essa tradição; ele a reinterpreta. A novidade está em fazer de Cristo o paradigma normativo segundo o qual o sofrimento do discípulo é compreendido.

A terceira dimensão, que agora se torna possível identificar com maior clareza, é a elaboração patrística de uma sociologia celeste. A comunidade dos santos não é formada apenas porque os mortos sobrevivem; ela depende da atribuição de diferentes posições aos mortos dentro da economia celestial. O mártir pode receber um estatuto privilegiado; o justo pode permanecer em expectativa; o santo pode ser concebido como vivendo diante de Deus; e, posteriormente, os santos podem ser invocados como intercessores.

Temos, assim, uma estrutura muito mais sofisticada do que a simples oposição entre “mortos conscientes” e “mortos dormindo”. A questão fundamental passa a ser:

quem está presente na comunidade celestial, em que condição, em que momento e com quais prerrogativas?

Essa formulação permite compreender por que a figura do mártir foi tão importante. O mártir não é apenas aquele que morreu. Ele é aquele cuja morte é interpretada como imitação de Cristo e que, por isso, pode receber uma posição escatológica excepcional. Tertuliano constitui um testemunho especialmente claro dessa lógica ao diferenciar os mártires dos demais mortos: enquanto os últimos aguardam, os primeiros possuem acesso imediato ao Paraíso.



Tabela 3 — A formação progressiva da Comunhão dos Santos

EtapaEstruturaFunção
Judaísmo do Segundo TemploAssembleia celestialCosmologia
Literatura enóquicaJustos e anjos no alémContinuidade pós-morte
QumranComunidade terrestre + liturgia celestialParticipação
Daniel/MacabeusJusto perseguido e mártirModelo de fidelidade
Novo TestamentoAssembleia celestial em torno de CristoCristologização
Martírio cristãoMártir como imitador de CristoSantificação
TertulianoMártires com acesso privilegiado ao ParaísoHierarquização escatológica
Cirilo de JerusalémSantos lembrados e invocados na liturgiaIntercessão
Patrística posteriorSantos como comunidade celeste ativaComunhão entre vivos e mortos
Igreja posteriorCommunio sanctorumComunidade transcendente e terrestre



A partir dessas estruturas, a communio sanctorum pode ser entendida não simplesmente como uma doutrina sobre a sobrevivência da alma, mas como uma teoria cristã da continuidade da comunidade. O que está em jogo não é apenas a sobrevivência dos indivíduos, mas a sobrevivência das relações que constituem a comunidade.

O santo continua sendo membro porque a morte não rompe sua pertença a Cristo; continua sendo modelo porque sua vida permanece disponível à imitação; e, quando a teologia da intercessão se consolida, continua também sendo um agente da comunidade porque sua proximidade com Deus lhe permite interceder pelos vivos.

Essa última dimensão aparece de maneira especialmente clara em Cirilo de Jerusalém. Na explicação da liturgia, a Igreja recorda patriarcas, profetas, apóstolos e mártires e pede que Deus acolha suas orações e intercessões. O morto santo não é mais apenas objeto da memória: ele participa da ação litúrgica da Igreja.

Nesse sentido, a communio sanctorum é a consequência de uma transformação progressiva do estatuto religioso do morto:

morto → justo → mártir → santo → membro da comunidade celestial → intercessor.

É importante, contudo, não tratar essa sequência como uma evolução automática. Ela representa antes uma possibilidade histórica progressivamente elaborada. Nem todo morto é santo; nem todo santo foi mártir; nem todos os Padres conceberam o estado intermediário da mesma maneira; e nem toda tradição cristã aceitou igualmente a consciência ativa dos mortos. O desenvolvimento da communio sanctorum é precisamente o resultado da negociação dessas diferentes concepções.



7. Continuidade, transformação e especificidade cristã

A hipótese que emerge desse percurso pode agora ser formulada de maneira mais precisa. O judaísmo do Segundo Templo fornece ao cristianismo a cosmologia da comunidade celestial; a tradição judaica do martírio fornece o paradigma do justo que permanece fiel até a morte; o cristianismo fornece Cristo como centro e paradigma absoluto da existência santa; e a patrística desenvolve progressivamente uma sociologia hierarquizada da comunidade dos mortos, na qual mártires e santos podem possuir uma posição especial diante de Deus.

A relação entre essas tradições não deve ser representada como uma linha direta de influência literária. O que existe é uma transformação estrutural.

Assembleia celestial → comunidade dos justos → continuidade para além da morte → justo perseguido → mártir → Cristo como paradigma → imitatio Christi → santo → comunidade celestial cristológica → intercessão → communio sanctorum.

Essa sequência permite evitar dois extremos interpretativos igualmente problemáticos. De um lado, evita a ideia de que a communio sanctorum tenha surgido como ruptura absoluta com o judaísmo. De outro, impede que o cristianismo seja reduzido a simples derivação das tradições judaicas anteriores.

Há continuidade cosmológica, mas inovação cristológica. Há continuidade martirológica, mas transformação mimética. Há continuidade escatológica, mas diferenciação da condição dos mortos. Há continuidade comunitária, mas expansão das relações entre vivos e mortos.

O resultado é uma nova sociologia religiosa da santidade.

O cristianismo não precisou inventar a ideia de que o céu possuía uma comunidade, de que os justos mortos continuavam diante de Deus ou de que o mártir podia possuir um estatuto religioso especial. Essas possibilidades estavam disponíveis, em graus diferentes, no universo judaico anterior e contemporâneo ao cristianismo. O que o cristianismo fez foi reordenar essas possibilidades em torno de uma figura histórica específica — Jesus — e converter a relação com essa figura no princípio organizador da santidade.

A morte do mártir tornou-se, então, não apenas testemunho de fidelidade religiosa, mas imitação da paixão; sua memória tornou-se não apenas lembrança funerária, mas mecanismo de formação comunitária; e sua presença celeste tornou-se não apenas continuidade individual após a morte, mas participação na comunidade dos que pertencem a Cristo.

Dessa maneira, a história que conduz da literatura judaica do Segundo Templo à communio sanctorum não deve ser representada como uma linha reta de influência, mas como uma transformação de estruturas religiosas. O judaísmo forneceu a linguagem cosmológica; a tradição martirológica forneceu a linguagem do testemunho extremo; Cristo forneceu o centro cristológico; e a patrística desenvolveu progressivamente as categorias mediante as quais os santos puderam ser concebidos como membros ativos de uma comunidade que transcende a morte.

A tese central deste estudo pode, finalmente, ser formulada nos seguintes termos:

O judaísmo do Segundo Templo forneceu ao cristianismo parte da infraestrutura cosmológica necessária para pensar uma comunidade religiosa que ultrapassasse a fronteira da morte: uma assembleia celestial composta por Deus, anjos e justos, dotada de ordem, liturgia e continuidade com a comunidade terrestre. Esse mesmo judaísmo desenvolveu uma poderosa teologia do justo perseguido e do mártir, particularmente evidente em Daniel e na literatura dos Macabeus. O cristianismo não inventou nenhuma dessas estruturas. Sua inovação consistiu em reorganizá-las em torno de Cristo. Ao transformar o mártir em imitador de Cristo e a santidade em configuração da existência à vida e à morte de Cristo, o cristianismo estabeleceu uma nova lógica de pertencimento à comunidade celestial. A patrística posteriormente desenvolveu diferentes modelos para explicar a condição dos mortos, alguns concebendo-os como conscientes e outros como adormecidos ou mesmo inexistentes até a ressurreição. Dentro desse campo de disputa, porém, consolidou-se progressivamente a figura do santo como membro privilegiado da comunidade celestial e, posteriormente, como intercessor dos vivos. A communio sanctorum emerge, assim, da convergência entre uma cosmologia judaica da assembleia celestial, uma tradição judaica do justo martirizado, uma antropologia cristã da imitatio Christi e uma elaboração patrística da continuidade comunitária entre vivos e mortos.


É precisamente aqui que a communio sanctorum deixa de ser simplesmente uma doutrina acerca dos mortos e passa a ser compreendida como uma teoria cristã da continuidade da comunidade. O santo continua sendo membro porque a morte não rompe sua pertença a Cristo; continua sendo modelo porque sua vida permanece disponível à imitação; e, na medida em que se consolida a crença na consciência dos santos junto a Deus, continua sendo também intercessor. A comunidade terrestre, por sua vez, não existe isoladamente: ela se compreende como parte de uma realidade maior, simultaneamente histórica, celestial e escatológica.

O que a literatura do Segundo Templo havia tornado cosmologicamente pensável, o cristianismo transforma em uma nova forma de pertencimento religioso; o martírio transforma essa pertença em testemunho corporal; e a patrística transforma o testemunho em uma sociologia celeste da santidade.



REFERÊNCIAS

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Fontes primárias

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TERTULIANO. De resurrectione carnis. 18.

1 ENOQUE. Especialmente 22; 39; 46–48; 61–62; 70–71.

HEBREUS. Especialmente 11–12.

APOCALIPSE. Especialmente 4–7; 14; 20–22.

MARTÍRIO DE POLICARPO. Especialmente 9; 17–18; 19; 21.

PAIXÃO DE PERPÉTUA E FELICIDADE. Especialmente 4; 7–13; 18–21.




sexta-feira, 31 de julho de 2026

 

DE UMA ESCATOLOGIA DO TEMPO A UMA ESCATOLOGIA DO ESPAÇO

O problema colocado por Mateus 27,51–53 não se esgota na questão da ressurreição dos mortos. Essa questão, embora fundamental, já foi examinada na etapa anterior desta investigação, na qual se demonstrou que o judaísmo do Segundo Templo dispunha de diferentes tradições mediante as quais morte, restauração, vindicação, messianismo e ressurreição podiam ser articulados. Também foi estabelecida a necessidade de distinguir entre a associação da era messiânica com a ressurreição dos mortos e a afirmação, muito mais específica, de que o próprio Messias morreria e ressuscitaria. A literatura de Qumran, particularmente 4Q521, mostra a primeira possibilidade, mas não oferece uma narrativa equivalente à segunda. Do mesmo modo, o primeiro estudo demonstrou que Mateus não parece depender de uma única “profecia” que anteciparia integralmente a cena de 27,51–53, mas trabalha através da convergência de diferentes tradições judaicas. O problema que agora se abre é outro. Se a literatura apocalíptica judaica forneceu a Mateus um repertório suficientemente amplo para tornar inteligível a irrupção da realidade escatológica, como essa literatura representa o espaço no qual tal irrupção acontece? Onde se encontram os mortos quando o fim invade o presente? O que acontece com os lugares que, na ordem ordinária do mundo, deveriam separar o sagrado do profano, os vivos dos mortos e o oculto do visível? E, sobretudo, por que Mateus faz com que os santos não apenas saiam dos sepulcros, mas entrem na Cidade Santa e apareçam a muitos? A pergunta, portanto, desloca-se da ontologia da ressurreição para sua geografia narrativa. O objetivo deste segundo artigo é investigar precisamente essa dimensão.

A mudança de perspectiva é importante porque impede que a passagem seja reduzida a uma sucessão de fenômenos sobrenaturais. O texto de Mateus é construído através de uma cadeia espacial rigorosamente ordenada: primeiro, o espaço mais interior do Santuário é rompido; em seguida, a terra é abalada; as rochas se fendem; os sepulcros são abertos; os corpos dos santos são levantados; finalmente, os mortos atravessam o espaço funerário, entram na Cidade Santa e tornam-se visíveis aos vivos. A sequência possui uma lógica que ultrapassa a descrição de acontecimentos extraordinários. Ela apresenta uma progressiva abertura das fronteiras do mundo. O véu que separava o interior do Santuário é rompido; a terra, que sustentava a estabilidade do mundo, treme; a rocha, que simbolizava a resistência da matéria, é fendida; o túmulo, que separava os mortos dos vivos, é aberto; e os mortos, antes confinados ao espaço da sepultura, aparecem no espaço urbano. O movimento da narrativa é, assim, do interior para o exterior, do oculto para o manifesto e do espaço dos mortos para o espaço dos vivos. Essa característica permite aproximar Mateus de uma dimensão menos estudada da literatura apocalíptica: sua capacidade de representar o fim não apenas como transformação temporal, mas como reconfiguração espacial do cosmos.

A literatura apocalíptica judaica é particularmente apropriada para essa investigação porque sua linguagem não representa a intervenção divina como mera alteração pontual de acontecimentos históricos. O apocalíptico frequentemente implica a abertura de espaços anteriormente inacessíveis, a passagem entre diferentes domínios da realidade, a transformação de montanhas, cidades e territórios, a revelação de lugares ocultos e a exposição pública de aquilo que permanecia escondido. O mundo futuro não aparece apenas como uma data posterior ao presente; ele é imaginado como uma outra configuração espacial da realidade. Essa característica pode ser percebida em diferentes tradições do judaísmo do Segundo Templo, embora jamais devamos convertê-las numa sequência evolutiva linear. A pesquisa sobre 4Q385, por exemplo, ressalta que não é possível construir simplesmente uma progressão contínua das concepções judaicas sobre a vida após a morte; o que existe é um processo de releitura, deslocamento e recomposição de tradições. A questão que interessa aqui é justamente essa recomposição: como antigas imagens de restauração passam a constituir paisagens escatológicas nas quais os limites do mundo podem ser atravessados?

É a partir dessa perspectiva que a cena de Mateus deve ser novamente observada. O texto afirma:

“E eis que o véu do Santuário se rasgou em duas partes, de alto a baixo; a terra tremeu e as rochas se fenderam. Os sepulcros se abriram e muitos corpos de santos falecidos ressuscitaram. E, saindo dos sepulcros depois da ressurreição de Jesus, entraram na Cidade Santa e foram vistos por muitos.”
(Mt 27,51–53, Bíblia de Jerusalém).

A sequência merece ser tomada em sua integralidade. O acontecimento não é simplesmente “ressurreição dos mortos”. Há uma cadeia anterior e posterior que determina seu significado. O sepulcro é apenas um dos espaços rompidos. Antes dele, o Santuário e a própria terra já foram afetados; depois dele, a cidade é atravessada e os mortos tornam-se visíveis. Mateus constrói, portanto, uma narrativa de transgressão sucessiva das fronteiras espaciais. Essa dimensão não foi o centro do primeiro artigo e, por isso, pode agora constituir a nova camada da investigação.





A LITERATURA APOCALÍPTICA E A TRANSFORMAÇÃO DO ESPAÇO

A importância de Pseudo-Ezequiel para essa questão não reside simplesmente em repetir que Qumran conhecia a tradição da ressurreição. Essa conclusão já é insuficiente para a etapa atual. O interesse maior de 4Q385 está na maneira como uma antiga tradição profética é reaberta e reorganizada dentro de um horizonte escatológico. O texto é uma releitura de Ezequiel e preserva, em diferentes cópias, uma versão da visão dos ossos secos. A pesquisa de Annette Evans chama atenção para o fato de que Pseudo-Ezequiel constitui um testemunho particularmente antigo da interpretação da visão de Ezequiel 37 em relação à recompensa futura dos justos, ao mesmo tempo em que alerta contra a construção de uma genealogia linear da crença na ressurreição. Essa observação é metodologicamente decisiva. O que importa para nós não é dizer que 4Q385 “preparou” Mateus, mas perceber que a tradição dos ossos, dos mortos e da restauração podia ser deslocada de seu contexto profético original para uma nova configuração escatológica. O espaço da morte — o lugar onde o corpo parecia definitivamente encerrado — torna-se, nessa releitura, um espaço potencial de manifestação da ação divina.

O elemento espacial é particularmente importante porque a tradição de Ezequiel não apresenta simplesmente uma abstração sobre a sobrevivência da alma. Ela trabalha com corpos, ossos, terra, sepultura e território. A restauração passa pela materialidade do mundo. Essa característica continua presente em Pseudo-Ezequiel e ajuda a compreender por que a literatura apocalíptica pode representar a ressurreição como uma transformação do próprio espaço funerário. O túmulo deixa de ser apenas o lugar onde a morte termina e passa a ser o lugar a partir do qual a ordem futura pode emergir. Não se trata ainda de Mateus, mas encontramos aqui uma estrutura conceitual que se tornará importante: o espaço que deveria conservar o morto transforma-se em espaço de sua manifestação.

4Q521 acrescenta uma dimensão diferente. Como já demonstrado no primeiro artigo, seu valor histórico não está em oferecer uma “profecia de Jesus”, mas em testemunhar uma configuração na qual a manifestação messiânica e os sinais de restauração pertencem ao mesmo horizonte escatológico. O texto é fragmentário e sua interpretação deve permanecer cautelosa; contudo, os fragmentos preservam referências ao “ungido” e à ação de Deus que cura e ressuscita os mortos. A pesquisa de John J. Collins enfatiza justamente a importância dessa combinação, embora reconheça que o estado fragmentário do documento impede certezas excessivas sobre o papel preciso do Messias na ressurreição. O que interessa agora é deslocar ligeiramente a pergunta. Se 4Q521 apresenta os sinais da era messiânica, precisamos observar como esses sinais funcionam como manifestações de uma nova ordem. A cura, a restauração e a vivificação não são acontecimentos isolados; pertencem a uma transformação mais ampla do mundo. O Messias torna reconhecível um tempo diferente porque os efeitos desse tempo começam a aparecer na materialidade da existência.

Essa dimensão torna-se mais evidente quando 4Q521 é colocado em relação com Pseudo-Ezequiel. Em 4Q385, o mundo da morte é reconfigurado pela promessa de restauração; em 4Q521, essa restauração aparece associada à manifestação do tempo messiânico. A importância conjunta desses textos não está em estabelecer uma linha direta até Mateus, mas em revelar uma possibilidade de organização da expectativa escatológica: o futuro pode ser reconhecido quando aquilo que pertence à ordem da morte é transformado em sinal visível da ação de Deus. Mateus não simplesmente repete essa estrutura; ele a radicaliza. A morte de Jesus torna-se o momento em que essa transformação começa a acontecer e, sobretudo, acontece em uma sequência espacial que conduz do Santuário aos sepulcros e dos sepulcros à Cidade Santa.

A literatura de 4 Esdras e 2 Baruque amplia ainda mais o problema porque nela a realidade escatológica não é concebida apenas como uma sucessão de acontecimentos futuros, mas como uma transformação das estruturas que organizam o mundo dos mortos. Em 4 Esdras 7, a terra devolve os que dormem nela e os depósitos devolvem as almas que lhes foram confiadas. A imagem é extraordinariamente importante: a terra possui uma memória dos mortos. Ela não é um simples cenário onde a ressurreição acontece; participa da restituição. O mundo material torna-se depositário daquilo que deverá ser recuperado. Em 2 Baruque 30, a ressurreição aparece associada à consumação da ação messiânica e àqueles que morreram colocando sua esperança no Messias. A literatura apocalíptica tardia não oferece, portanto, uma narrativa paralela a Mateus, mas desenvolve uma concepção na qual o domínio da morte possui uma dimensão espacial e institucional que será desfeita na consumação.

Esse ponto merece atenção porque permite formular uma distinção importante entre ressurreição como acontecimento e ressurreição como transgressão de fronteira. Na primeira formulação, interessa apenas afirmar que mortos voltam à vida. Na segunda, pergunta-se o que acontece com a estrutura espacial que mantinha os mortos separados dos vivos. A literatura apocalíptica tende a privilegiar a segunda dimensão. O fim não é somente o momento em que Deus concede vida; é o momento em que os espaços anteriormente definidos pela morte deixam de cumprir sua função. A terra devolve, os depósitos liberam, os túmulos são abertos. O mundo passa a funcionar de outra maneira.

É justamente essa dimensão que permite compreender a diferença entre uma simples narrativa de milagre e a cena de Mateus 27. Nas narrativas de revivificação individual, o morto retorna à vida sem que o mundo seja necessariamente transformado. Em Mateus, ao contrário, a abertura dos sepulcros é precedida por um terremoto e acompanhada pela ruptura do Santuário e das rochas. A morte de Jesus não produz apenas uma exceção biológica; ela é apresentada como uma perturbação da ordem espacial do mundo. O que acontece com os mortos é parte de um acontecimento muito maior.

É nesse ponto que Zacarias 14 adquire uma importância que não possuía na primeira etapa da investigação. Se a questão anterior era saber quais tradições sustentavam a expectativa da ressurreição, a questão agora é compreender por que Mateus situa a manifestação dos santos dentro da Cidade Santa. A resposta pode estar parcialmente na tradição escatológica de Zacarias, particularmente nos capítulos 12–14, onde Jerusalém se transforma no centro espacial da intervenção definitiva de Deus.

Zacarias 14 descreve uma transformação radical da paisagem de Jerusalém:

“Naquele dia estarão os seus pés sobre o monte das Oliveiras, que está diante de Jerusalém, ao oriente. E o monte das Oliveiras se fenderá pela metade, de leste para oeste, formando um enorme vale...”
(Zc 14,4, Bíblia de Jerusalém).

A passagem não é uma narrativa de ressurreição. Essa diferença precisa ser preservada. Não há fundamento para afirmar que Zacarias 14 seja uma profecia direta dos mortos que aparecem em Mateus. A relação é outra. O texto oferece uma gramática de transformação escatológica do espaço de Jerusalém. O monte é partido; a geografia é modificada; a cidade ocupa o centro do acontecimento; e a manifestação divina vem acompanhada pela presença dos santos:

“Então Iahweh, meu Deus, virá e todos os santos com ele.”
(Zc 14,5, Bíblia de Jerusalém).

A associação entre esses elementos torna-se particularmente significativa quando colocamos Zacarias diante de Mateus. Em Zacarias, a intervenção escatológica modifica fisicamente a região de Jerusalém e está associada à presença dos santos. Em Mateus, a morte de Jesus é acompanhada por um terremoto, as rochas se fendem, os mortos saem dos sepulcros e entram na Cidade Santa. Não existe identidade textual entre as duas cenas, mas existe uma convergência estrutural: a manifestação escatológica é acompanhada pela ruptura da matéria e possui Jerusalém como espaço privilegiado.

Dale C. Allison identificou justamente esse tipo de correspondência ao observar possíveis relações entre Zacarias 14 e Mateus 27,51–53. A importância de sua proposta não consiste em transformar Zacarias numa “profecia literal” de Mateus, mas em chamar atenção para uma rede de correspondências que inclui terremoto, ruptura, Jerusalém e santos. A hipótese torna-se ainda mais relevante quando se observa que Mateus não encerra o episódio com os mortos simplesmente saindo dos sepulcros. Ele acrescenta que eles entram na Cidade Santa. Esse detalhe, aparentemente secundário, pode ser justamente aquilo que permite perceber a dimensão geográfica da cena.

A expressão “Cidade Santa” é mais significativa do que uma simples designação de Jerusalém. Ela transforma a cidade em espaço teológico. O morto não retorna simplesmente ao mundo; ele atravessa o limite do sepulcro e penetra no espaço que Mateus qualifica como santo. O deslocamento espacial possui, portanto, uma direção precisa: da morte para a cidade, do ocultamento para a manifestação, do subterrâneo para o centro religioso e social. O que estava separado dos vivos agora circula dentro da cidade. O espaço urbano torna-se testemunha da irrupção escatológica.

Essa característica aproxima Mateus de uma lógica presente em diversas tradições apocalípticas: a consumação não ocorre em um lugar indefinido. Ela possui geografia. Montanhas são deslocadas; cidades são transformadas; o espaço dos mortos é aberto; o Santuário é afetado; a terra participa do acontecimento. A apocalíptica não dissolve o mundo em uma abstração espiritual; ela o torna dramaticamente material. O fim acontece em lugares, sobre montanhas, dentro de cidades, diante de sepulcros e através da transformação da terra.

Essa perspectiva também permite reconsiderar o terremoto de Mateus 27. O terremoto não precisa ser interpretado apenas como um fenômeno físico destinado a acompanhar dramaticamente a morte de Jesus. Dentro da gramática apocalíptica, o terremoto é uma forma de representar a instabilidade da ordem criada diante da intervenção divina. Em Zacarias, a montanha é fendida. Em outras tradições apocalípticas, céus e terra são abalados. Em Mateus, as rochas se partem e os sepulcros se abrem. A matéria deixa de funcionar como barreira estável. O terremoto é, portanto, menos um episódio isolado que o primeiro sinal de uma sequência de rupturas.

O próprio texto mateano oferece uma progressão cuidadosamente construída: “o véu [...] se rasgou”; “a terra tremeu”; “as rochas se fenderam”; “os sepulcros se abriram”. O campo semântico da ruptura atravessa toda a passagem. O que se rompe primeiro é a separação do Santuário; depois, a estabilidade terrestre; depois, a integridade da rocha; finalmente, a clausura dos mortos. É como se Mateus conduzisse o leitor através de uma série de limiares sucessivamente destruídos. A morte de Jesus torna-se o centro de uma cadeia de aberturas.

Aqui encontramos talvez a principal contribuição desta segunda camada de pesquisa: a ressurreição dos santos não deve ser isolada da ruptura dos espaços que a antecedem. O túmulo aberto é o último elo de uma cadeia que começa no Santuário. Essa continuidade impede que interpretemos os mortos ressuscitados como um episódio independente. Eles são parte de uma transformação mais ampla da realidade.


O SANTUÁRIO, O SEPULCRO E A CIDADE: UMA CARTOGRAFIA DA RUPTURA

A relação entre o véu do Santuário e os sepulcros merece atenção particular. Em uma leitura superficial, os dois acontecimentos parecem não ter relação: o primeiro pertence ao espaço religioso; o segundo, ao espaço funerário. Mas, dentro da estrutura narrativa de Mateus, ambos desempenham funções semelhantes. O véu separava um interior sagrado do restante do espaço cultual; o sepulcro separava o morto do mundo dos vivos. Ambos constituíam fronteiras de acesso. Ambos são rompidos no momento da morte de Jesus.

Essa correspondência não precisa ser entendida como alegoria intencional em todos os detalhes. É suficiente reconhecer que Mateus organiza a cena através de uma sequência na qual diferentes formas de separação deixam de funcionar. O véu deixa de ocultar; o túmulo deixa de conter. Entre os dois acontecimentos encontra-se a terra, que também deixa de oferecer estabilidade. A estrutura é particularmente poderosa porque transforma a morte de Jesus em um evento que afeta simultaneamente o espaço religioso, o espaço natural e o espaço funerário.

A tradição apocalíptica judaica oferece precedentes para essa articulação. Em diferentes textos, a manifestação escatológica envolve simultaneamente a transformação do cosmos, a revelação de realidades ocultas e a restauração dos justos. O que muda de texto para texto é a configuração específica. Em Mateus, entretanto, essa multiplicidade é comprimida em uma única cena. O Santuário, a terra, a rocha e o sepulcro parecem participar de uma mesma cadeia de eventos.

O aspecto decisivo é que Mateus não descreve os mortos permanecendo no espaço intermediário dos sepulcros. Eles saem. E depois entram na Cidade Santa. Essa trajetória produz uma inversão espacial: o lugar dos mortos perde sua capacidade de manter os mortos separados dos vivos. A fronteira funerária é atravessada. A cidade, por sua vez, deixa de ser apenas o espaço dos vivos e passa a conter a presença extraordinária daqueles que haviam sido mortos. A paisagem urbana torna-se, por alguns instantes, uma paisagem escatológica.

A frase final — “apareceram a muitos” — completa essa transformação. A entrada na cidade poderia ainda ser compreendida como um deslocamento meramente espacial. A aparição acrescenta a dimensão epistemológica. Aquilo que estava oculto torna-se conhecido. Os mortos não apenas saem; eles são vistos. O apocalipse, entendido em seu sentido de revelação, atinge aqui sua forma mais clara. A realidade escondida do domínio dos mortos torna-se perceptível no mundo dos vivos.

Esse detalhe ajuda a compreender por que Mateus não fornece nomes, discursos ou histórias individuais. Os santos não são personagens desenvolvidos; são figuras de manifestação. Sua função narrativa é tornar visível a transformação que começou com a morte de Jesus. A própria economia do relato indica isso. Eles não permanecem como protagonistas; aparecem e desaparecem. A narrativa não está interessada na biografia dos mortos, mas naquilo que sua presença torna visível.

É nesse sentido que podemos falar em uma geografia da revelação. O movimento da passagem não é apenas:

morte → ressurreição.

Ele é:

Santuário → terra → rocha → sepulcro → Cidade Santa → visão pública.

Essa sequência é nova em relação ao primeiro artigo porque não pergunta novamente por que os mortos ressuscitam, mas como a narrativa organiza o espaço para tornar essa ressurreição visível.

O argumento pode ser aprofundado pela comparação com 4 Esdras e 2 Baruque. Nesses textos, a ordem escatológica implica a abertura de domínios que anteriormente continham os mortos. Em Mateus, a abertura não permanece confinada ao domínio subterrâneo. Ela culmina no espaço público da cidade. O que em outros textos pertence ao momento da consumação é transformado em um acontecimento localizado dentro da Jerusalém histórica.

É justamente aqui que se encontra uma das diferenças mais importantes entre Mateus e a literatura apocalíptica judaica. Mateus não inventa a ideia de que o mundo dos mortos será finalmente aberto. Tampouco inventa a ideia de que a ordem cósmica será abalada. Sua operação é outra: ele desloca a paisagem escatológica para dentro da narrativa da paixão. A geografia do fim começa a aparecer no centro da história.

Essa observação permite retornar à relação entre 4Q521 e Mateus, mas agora sem repetir a discussão do primeiro artigo sobre messianismo e ressurreição. O problema não é mais perguntar se o Messias podia estar associado à ressurreição dos mortos. Isso já foi demonstrado como possibilidade no ambiente do Segundo Templo. A questão agora é mais radical: o que acontece com o mundo quando a manifestação messiânica é colocada precisamente no momento da morte do Messias?

Em 4Q521, a manifestação messiânica está associada à restauração. Em Mateus 11, a identidade daquele que há de vir é reconhecida mediante sinais de restauração, entre eles a ressurreição dos mortos. O primeiro artigo já examinou essa correspondência e a cautela necessária para não transformar Qumran em uma profecia retrospectiva de Jesus. O que Mateus 27 acrescenta é uma inversão da direção dessa relação. Em vez de a presença do Messias ser reconhecida porque os sinais escatológicos acontecem, a morte do Messias desencadeia os sinais escatológicos.

Essa diferença é decisiva. O Messias não aparece apenas como aquele que anuncia ou realiza a restauração; sua morte torna-se o próprio acontecimento que desorganiza a fronteira entre o presente e o futuro. A literatura apocalíptica havia desenvolvido uma linguagem para representar a transformação do mundo; Mateus utiliza essa linguagem para reinterpretar um acontecimento de morte. O resultado é uma espécie de inversão narrativa: o momento que, na lógica humana, deveria significar a derrota do Messias torna-se precisamente o momento em que a ordem cósmica começa a se romper.

A formulação é particularmente forte quando observamos a ordem dos eventos. Jesus morre. Imediatamente, o Santuário é rompido, a terra treme, as rochas se partem e os sepulcros se abrem. A morte não é apresentada como encerramento de uma trajetória, mas como gatilho narrativo de uma transformação cósmica. O evangelista não precisa explicar teoricamente essa relação; ele a produz por meio da sequência narrativa.

Nesse sentido, a literatura apocalíptica não funciona para Mateus apenas como repertório de imagens. Ela fornece uma forma de pensar o acontecimento. Um acontecimento verdadeiramente escatológico não é apenas aquele que anuncia o futuro; é aquele diante do qual as estruturas ordinárias do mundo deixam de permanecer intactas. Se a morte de Jesus é narrada como acontecimento escatológico, então o mundo precisa reagir. A terra treme. As pedras se partem. O Santuário se abre. Os mortos deixam os sepulcros.

Essa leitura também explica por que a cena não deve ser reduzida à função apologética de “provar” a importância de Jesus. A passagem possui uma densidade cosmológica muito maior. Ela afirma, mediante a linguagem narrativa, que a morte daquele homem possui consequências que ultrapassam a dimensão individual. A criação responde à morte; o espaço sagrado se altera; o espaço dos mortos é rompido; a cidade recebe os santos. A paixão passa a ser narrada como acontecimento que afeta a estrutura do cosmos.

Essa é precisamente uma das características fundamentais do pensamento apocalíptico: acontecimentos históricos podem adquirir uma dimensão cósmica porque são interpretados como momentos de intervenção divina. A história deixa de ser autossuficiente. O que ocorre em um determinado lugar — neste caso, Jerusalém — pode ser o ponto de manifestação de uma transformação que possui alcance universal.

Por isso, a escolha de Jerusalém não é um detalhe menor. Mateus poderia simplesmente afirmar que os mortos ressuscitaram. Ao fazê-los entrar na Cidade Santa, ele insere a manifestação dentro de um espaço carregado de memória bíblica, política e escatológica. Jerusalém torna-se o lugar em que o futuro toca a história.


UMA NOVA LEITURA DE MATEUS 27,51–53

A partir das camadas examinadas, podemos retornar ao texto mateano sem repetir a pergunta central do primeiro artigo. O problema agora não é estabelecer que Mateus utiliza tradições judaicas sobre ressurreição, mas observar como ele transforma essas tradições em uma cena espacialmente organizada de revelação escatológica.

O primeiro elemento é o véu. Sua ruptura inaugura a sequência. O espaço sagrado deixa de estar integralmente separado. Não é necessário decidir aqui entre todas as interpretações possíveis do simbolismo do véu. O dado narrativo é suficiente: algo que separava dois espaços foi rompido.

O segundo elemento é a terra. O terremoto introduz uma perturbação que já não pertence ao interior do Santuário. A ruptura se expande para o cosmos.

O terceiro são as rochas. A matéria sólida participa da perturbação. A rocha que se fende representa a perda de estabilidade daquilo que parecia permanente.

O quarto são os sepulcros. O movimento alcança o espaço da morte. A fronteira que separava mortos e vivos é rompida.

O quinto são os santos. O conteúdo que estava encerrado no espaço funerário torna-se presente.

O sexto é a Cidade Santa. A presença dos mortos atravessa o limite do espaço funerário e penetra no espaço social e religioso.

O sétimo é a visibilidade: eles “aparecem a muitos”. Aquilo que estava oculto torna-se testemunho.

O conjunto forma uma progressão que pode ser representada como:

separação → ruptura → abertura → saída → entrada → manifestação.

Essa sequência não constitui uma simples descrição dos acontecimentos. Ela é a própria lógica narrativa do episódio.

Nesse ponto, a literatura apocalíptica judaica fornece uma chave interpretativa mais precisa. O apocalipse não consiste apenas em dizer que algo acontecerá no futuro. Ele consiste em desvelar uma realidade que estava oculta e em permitir que essa realidade atravesse os limites ordinários do mundo. Mateus constrói a cena exatamente dessa maneira. O véu é desvelado pela ruptura; o túmulo é desvelado pela abertura; o morto é desvelado pela aparição.

O conceito de geografia escatológica permite, assim, integrar elementos que normalmente são interpretados separadamente. O terremoto, as rochas, os sepulcros e a Cidade Santa não são quatro milagres independentes. São pontos sucessivos de uma mesma cartografia narrativa. A morte de Jesus provoca uma alteração dos limites que estruturavam o mundo.

Essa hipótese também explica por que Zacarias 14 é tão importante. O texto de Zacarias oferece uma imagem de Jerusalém cuja própria geografia será transformada pela manifestação divina. Mateus parece trabalhar dentro de uma imaginação semelhante, embora a reorganize radicalmente. O monte não é o elemento que se fende; são as rochas. A manifestação divina não é descrita através da descida explícita de Iahweh; ela é associada à morte do Messias. Os santos não acompanham diretamente a manifestação divina como em Zacarias; eles saem dos sepulcros e entram na Cidade Santa. O evangelista, portanto, cristianiza uma estrutura espacial escatológica sem simplesmente reproduzir sua forma original.

O resultado é particularmente significativo: a cidade escatológica não é uma cidade futura completamente nova. É a própria Jerusalém histórica que recebe, por um momento, os sinais da ordem futura. O espaço histórico é penetrado pelo espaço escatológico. Essa sobreposição constitui uma das características mais importantes da passagem.



CONSIDERAÇÕES FINAIS: QUANDO O FUTURO MUDA DE LUGAR

A análise realizada permite avançar uma etapa em relação ao primeiro artigo sem repetir suas conclusões. A questão da ressurreição dos mortos no judaísmo do Segundo Templo já demonstrou a existência de um amplo repertório de expectativas no qual restauração, julgamento, messianismo e ressurreição podiam ser articulados. O problema agora revelou outra dimensão: essas expectativas possuíam também uma geografia. Os mortos estavam associados a sepulcros, terra e depósitos; a manifestação divina ocorria em montanhas, cidades e espaços sagrados; a transformação escatológica implicava a alteração da própria configuração material do mundo.

Pseudo-Ezequiel demonstra que a antiga imagem dos ossos secos podia ser reelaborada em um horizonte de recompensa e restauração dos justos; 4Q521 testemunha que a manifestação messiânica podia ser reconhecida por sinais de restauração, entre os quais a vivificação dos mortos; 4 Esdras e 2 Baruque representam a restituição dos mortos através de imagens nas quais a terra e os domínios que os continham participam da consumação. Nenhum desses textos oferece uma fonte direta para Mateus 27,51–53. A pesquisa precisa resistir à tentação de transformar paralelos estruturais em dependência literária. A importância deles é outra: eles demonstram que o imaginário apocalíptico judaico possuía recursos para representar o fim como abertura de espaços, transformação da matéria e manifestação pública de realidades anteriormente ocultas.

Zacarias 14 acrescenta uma dimensão decisiva. Jerusalém aparece como espaço privilegiado da intervenção escatológica; a própria paisagem é transformada; a terra se fende; os santos acompanham a manifestação divina. A comparação com Mateus não permite afirmar uma dependência direta, mas permite perceber uma configuração espacial comum: Jerusalém, ruptura da matéria e presença dos santos pertencem ao mesmo universo de imaginação escatológica. A escolha mateana da expressão “Cidade Santa” torna-se, nesse contexto, muito mais significativa do que pareceria numa leitura exclusivamente centrada na ressurreição.

Mateus realiza, então, uma operação que pode ser definida como espacialização do apocalipse. A literatura apocalíptica havia projetado para a consumação a transformação dos espaços que organizavam a existência. Mateus desloca essa transformação para o momento da morte de Jesus. O futuro não apenas chega antecipadamente; ele muda de lugar. Passa a acontecer dentro de Jerusalém, junto ao Santuário, sobre a terra, nas rochas e dentro dos sepulcros.

Essa deslocação produz a singularidade da cena. O terremoto não é apenas um sinal; ele abre a sequência. O rompimento das rochas não é apenas um fenômeno natural; ele participa da desestabilização da matéria. O sepulcro não é apenas o lugar de onde os mortos saem; ele é uma fronteira que deixa de funcionar. A Cidade Santa não é apenas o destino dos ressuscitados; ela é o espaço histórico no qual o futuro se torna visível.

A sequência narrativa pode, portanto, ser compreendida como uma passagem progressiva entre diferentes domínios:

Santuário → cosmos → matéria → sepulcro → cidade → visibilidade.

Cada passagem implica a ruptura de uma fronteira. O espaço sagrado se abre; a terra se desestabiliza; a rocha se parte; o túmulo se abre; o morto atravessa o limite; a cidade recebe aquilo que pertencia ao domínio da morte; e, finalmente, os vivos veem.

O ponto decisivo é que o apocalipse mateano não permanece no horizonte. Ele se instala na paisagem histórica. O futuro escatológico deixa de ser apenas aquilo que será e começa a aparecer como aquilo que já altera o espaço presente. Essa é uma diferença fundamental em relação ao primeiro artigo: não estamos mais perguntando apenas de onde vêm as imagens da ressurreição, mas o que Mateus faz com elas quando as insere em uma determinada geografia.

A morte de Jesus torna-se, nesse sentido, um acontecimento de desorganização do mundo. O paradoxo é deliberado: quando o corpo do Messias é entregue à morte, a própria morte começa a perder seu domínio espacial. O túmulo abre-se. Os mortos saem. A cidade os recebe. O oculto torna-se visível.

Essa estrutura permite formular uma conclusão mais precisa sobre a relação entre Mateus e a literatura apocalíptica judaica. Mateus não simplesmente importa para sua narrativa uma crença judaica na ressurreição. Ele absorve uma forma apocalíptica de imaginar a transformação do mundo e a reorganiza em torno da morte de Jesus. A novidade não está em cada elemento isolado, mas na configuração espacial que eles adquirem quando reunidos.

É por isso que a passagem deve ser lida menos como um apêndice milagroso da crucificação e mais como uma miniatura narrativa da irrupção escatológica. O fim não é descrito em sua totalidade; ele é condensado em uma série de rupturas. O Santuário abre-se. A terra treme. A pedra se parte. O túmulo cede. O morto atravessa. A cidade testemunha.

A literatura apocalíptica judaica fornece a gramática dessa sequência; Mateus fornece-lhe um novo centro histórico. E esse centro é a cruz.

O resultado é uma formulação que amplia, sem repetir, a conclusão do primeiro artigo: se no primeiro estudo a questão fundamental era compreender como Mateus articula diferentes tradições judaicas de ressurreição, messianismo e escatologia, aqui se torna possível perceber que essa articulação não ocorre apenas no plano das ideias, mas também no plano do espaço. Mateus transforma Jerusalém em uma paisagem de fronteiras rompidas, na qual o Santuário, a terra, a rocha, o sepulcro e a cidade passam a participar de uma mesma manifestação. O apocalipse, portanto, não chega simplesmente ao mundo. Ele abre o mundo por dentro.



Referências bibliográficas

ALLISON, Dale C. The End of the Ages Has Come: An Early Interpretation of the Passion and Resurrection of Jesus. Philadelphia: Fortress Press, 1985.

COLLINS, John J. The Apocalyptic Imagination: An Introduction to Jewish Apocalyptic Literature. 2. ed. Grand Rapids: Eerdmans, 1998.

EVANS, Annette. To what extent is Ezekiel the source of resurrection of the dead in 4Q385 Pseudo-Ezekiel and Targum Ezekiel? Old Testament Essays, Pretoria, v. 28, n. 1, p. 70–85, 2015. DOI: 10.17159/2312-3621/2015/v28n1a6.

GARCÍA MARTÍNEZ, Florentino; TIGCHELAAR, Eibert J. C. The Dead Sea Scrolls Study Edition. Leiden: Brill, 1997–1998.

WATERS, Kenneth L. Matthew 27:52–53 as apocalyptic apostrophe: temporal-spatial collapse in the Gospel of Matthew. Journal of Biblical Literature, v. 122, n. 3, p. 489–515, 2003.

Fontes primárias

BÍBLIA DE JERUSALÉM. Nova edição, revista e ampliada. São Paulo: Paulus, 2002.

1 ENOQUE. In: CHARLESWORTH, James H. (ed.). The Old Testament Pseudepigrapha. New York: Doubleday, 1983–1985.

2 BARUQUE. In: CHARLESWORTH, James H. (ed.). The Old Testament Pseudepigrapha. New York: Doubleday, 1983–1985.

4 ESDRAS. In: CHARLESWORTH, James H. (ed.). The Old Testament Pseudepigrapha. New York: Doubleday, 1983–1985.

4Q385 — PSEUDO-EZEQUIEL. In: GARCÍA MARTÍNEZ, Florentino; TIGCHELAAR, Eibert J. C. The Dead Sea Scrolls Study Edition. Leiden: Brill, 1997–1998.

4Q521 — APOCALIPSE MESSIÂNICO. In: GARCÍA MARTÍNEZ, Florentino; TIGCHELAAR, Eibert J. C. The Dead Sea Scrolls Study Edition. Leiden: Brill, 1997–1998.

ZACARIAS. In: Bíblia de Jerusalém. São Paulo: Paulus, 2002.

MATEUS. In: Bíblia de Jerusalém. São Paulo: Paulus, 2002.

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