Estudos sobre Religião - Biblioblog

quinta-feira, 14 de junho de 2018

Marcos, o evangelista, Icone Copta
Concord, California, via wkicommons
Em fevereiro de 2012, falamos aqui de notícias referentes a possível descoberta do mais antigo manuscrito bíblico já conhecido, que conteria um fragmento do evangelho de Marcos do século I, anunciada pelo Professor Daniel B Wallace, do Dallas Theological Seminary..

Atualmente, o mais antigo manuscrito do Novo Testamento conhecido é um fragmento do evangelho de João, o P52, geralmente datado entre 125-175 DC. Outros importantes papiros são o P90, também do evangelho de João (2° século DC),  P46, datado de 175-225 DC, que contem o texto das cartas paulinas, e P45, que contém partes substanciais dos evangelhos e atos dos apóstolos, e é datado de cerca de 250 DC.

O manuscrito, porém, foi cercado de polêmica desde o seu anuncio. Havia um acordo de preservação de confidencialidade dos estudiosos que tiveram acesso ao manuscrito, até sua publicação, e assim boa parte das informações disponíveis eram fragmentadas, desencontradas, ou simplesmente  proveniente de boatos e rumores. Em 2015, chegou a ser divulgado por alguns meios que o papiro estava associado a mascaras mortuárias de múmias egípcias do período romano.

Em 24 de maio deste ano, porém, os manuscritos foram publicados pela equipe do Professor Dirk Obbink, da Universidade de Oxford, em conjunto com a Egypt Exploration Society, (EES) em Oxyrhynchus Papyri, Volume LXXXIII (Graeco-Roman Memoirs), que editou uma nota relativa a descoberta:

In the latest volume of the Oxyrhynchus Papyri, volume LXXXIII text 5345, Professor Obbink and Dr Colomo publish a fragment from a papyrus codex (book). The two sides of the papyrus each preserve brief traces of a passage, both of which come from the gospel of Mark. After rigorous comparison with other objectively dated texts, the hand of this papyrus is now assigned to the late second to early third century AD. This is the same text that Professor Obbink showed to some visitors to Oxford in 2011/12, which some of them reported in talks and on social media as possibly dating to the late first century AD on the basis of a provisional dating when the text was catalogued many years ago. Papyrus 5345 was excavated by Grenfell and Hunt, probably in 1903 (on the basis of its inventory number), and has never been for sale, whatever claims may have been made arising from individual conversations in the past. No other unpublished fragments of New Testament texts in the EES collection have been identified as earlier than the third century AD. 
(Tradução) No último volume de Oxyrhynchus Papyri, volume LXXXIII, texto 5345, professor Obbink e Dra. Colomo publicam um fragmento de um códice de papiro (livro). Cada um dos dois lados do papiro preserva breves traços de uma passagem, ambas provenientes do evangelho de Marcos. Depois de uma comparação rigorosa com outros textos objetivamente datados, o manuscrito deste papiro é agora atribuída ao final do segundo ao início do terceiro século DC. Este é o mesmo texto que o Professor Obbink mostrou para alguns visitantes de Oxford em 2011/12, que alguns deles relataram nas conversas e nas mídias sociais como possivelmente datando do final do primeiro século DC, com base em uma datação provisional quando o texto foi catalogado há muitos anos. O papiro 5345 foi escavado por Grenfell e Hunt, provavelmente em 1903 (com base no seu número de inventário), e nunca esteve à venda, seja qual for a alegação que possa ter sido feita a partir de conversas individuais no passado. Nenhum outro fragmento não publicado de textos do Novo Testamento na coleção EES foi identificado como antes do terceiro século DC.

O artigo apresentando o novo papiro foi disponibilizado aqui,  contendo o texto de Marcos 1:6-7 e 17-18. O papiro passa agora também a integrar a coleção de manuscritos antigos do novo testamento (séculos II a VIII)  como P137. Na publicação, a data do manuscrito foi corrigida em cerca de 100 anos, passando agora para o final do século II DC. A significância do achado é comentada em detalhes pelos Professores James McGrath, Airton José da Silva, Larry Hurtado, e Bart Erhman, que pontuam também questionamentos não tanto dirigidos a descoberta em si, mas aos vários rumores e informações desencontradas que circularam previamente a publicação, que levaram a EES a expandir a nota acima, com a resposta aos principais questionamentos, em 04/06/2018.

Sobre o papiro, Professor Bart Erhman disponibilizou o texto em seu post (link acima):

Frente:
(...) de suas sandálias, Eu os batizo com água mas ele batizará vocês com o Espirito Santo. E aconteceu naqueles dias (...)

Verso :
(...) No mar.  Pois eram pescadores. E ele lhes disse, venham comigo e eu os farei pescadores de homens. E imediatamente deixaram suas redes  (....).

De nossa parte, já havíamos nos manifestado quando as primeiras informações surgiram em 2012, no sentido de que a descoberta era provavelmente muito signikficativa, mas que se deveria "evitar colocar a carroça na frente dos bois", e os novos fatos não mudam nossa posição:

"É importante observar que, mesmo que haja (e provavelmente há) exagero na notícia, a sua publicação seria muito relevante para a critica textual do novo testamento e história do cristianismo primitivo. O Evangelho de Marcos é um dos textos neo-testamentários mais pobremente atestados, P45 é nossa melhor testemunha textual e data de meados do século III. Se esse novo papiro puder ser datado de 100 DC, por exemplo, seria o mais antigo manuscrito do novo testamento. Se, após analise dos especialistas, sua datação for corrigida em um século, ainda seria o fragmento mais antigo do segundo (e mais antigo) evangelho. Portanto, em se confirmando, essa descoberta tem potencial enorme para contribuir com nosso conhecimento do cristianismo primitivo.

Então, controvérsias a parte, a publicação do manuscrito é extremamente significativa.

terça-feira, 16 de janeiro de 2018




O livro dos Atos dos Apóstolos, em seu capítulo 21, nos apresenta um acontecimento crítico para a compreensão da trajetória histórica de Paulo de Tarso e, de maneira mais ampla, para a compreensão das tensões existentes no interior do cristianismo nascente. Paulo retorna a Jerusalém e encontra Tiago e os anciãos da comunidade. Segundo o relato, havia naquela cidade milhares de judeus que haviam aderido ao movimento dos nazarenos e que eram, simultaneamente, zelosos da Lei. O problema não era, portanto, simplesmente a existência de judeus que acreditavam em Jesus como Messias, mas a coexistência, dentro do movimento cristão primitivo, de diferentes formas de compreender a relação entre a fé em Jesus e a Torah. Esses judeus estavam preocupados com os rumores segundo os quais Paulo estaria ensinando aos judeus da diáspora a abandonar Moisés, deixando de circuncidar seus filhos e de caminhar segundo os costumes tradicionais. Tiago, diante dessa situação, orienta Paulo a participar de um rito público no Templo juntamente com homens que haviam realizado votos, de maneira que sua conduta pudesse demonstrar que ele próprio não ensinava aos judeus a apostasia em relação à Lei.

O episódio é particularmente significativo porque não se trata de uma defesa abstrata da Lei, mas de uma tentativa de demonstrar publicamente a continuidade entre o movimento nazareno de Jerusalém e a tradição mosaica. A narrativa de Atos parece fazer questão de preservar essa distinção. Os judeus seguidores de Jesus não são apresentados como indivíduos que abandonaram sua identidade religiosa, mas como pessoas que continuam zelosas da Torah. A questão paulina aparece, portanto, em outro nível: não seria necessário que os gentios incorporados ao movimento messiânico assumissem integralmente a identidade legal judaica. Essa distinção já havia sido estabelecida em Atos 15 e reaparece explicitamente em Atos 21. É precisamente nesse ponto que a narrativa de Lucas oferece uma chave fundamental para compreender a pluralidade do cristianismo primitivo: a não obrigatoriedade da Lei para os gentios não implicava necessariamente a rejeição da Lei pelos judeus que acreditavam em Jesus.

Essa distinção torna-se ainda mais importante quando observamos a resolução atribuída ao chamado Concílio de Jerusalém. Em Atos 15, a questão central consistia precisamente em saber se os gentios deveriam ser circuncidados e obrigados a observar a Lei de Moisés. Alguns membros oriundos do grupo dos fariseus que haviam aderido à fé cristã sustentavam que isso era necessário. O texto é explícito:

“Alguns, porém, que tinham descido da Judeia ensinavam aos irmãos: ‘Se não vos circuncidardes segundo o costume de Moisés, não podereis ser salvos’. Tendo ocorrido uma grande discussão e controvérsia entre eles e Paulo e Barnabé, decidiu-se que Paulo e Barnabé e alguns outros fossem a Jerusalém, aos apóstolos e anciãos, para tratar dessa questão.”
(Atos 15:1-2).

O problema, portanto, não era simplesmente saber se a Lei era boa ou má, nem mesmo se os cristãos judeus deveriam continuar observando-a. A questão era qual estatuto jurídico-religioso deveria ser atribuído aos gentios que ingressavam no movimento messiânico de Israel. Quando a questão é finalmente discutida em Jerusalém, Lucas novamente registra a presença daqueles que defendiam uma posição mais rigorosa:

“Alguns homens que tinham pertencido ao partido dos fariseus, mas que haviam abraçado a fé, levantaram-se e disseram: ‘É necessário circuncidar os gentios e exigir deles que observem a Lei de Moisés’.”
(Atos 15:5).

A resolução apresentada por Tiago modifica substancialmente essa exigência. Os gentios não precisariam assumir a totalidade das obrigações da Torah. Deveriam, entretanto, abster-se de determinadas práticas:

“Por isso, julgo que não se devem inquietar os gentios que se convertem a Deus. Quanto a eles, escreva-se que se abstenham das contaminações dos ídolos, da união ilegítima, das carnes sufocadas e do sangue.”
(Atos 15:19-20).

A decisão de Jerusalém, portanto, estabelecia uma diferenciação normativa entre judeus e gentios dentro do movimento cristão. Não temos aqui, necessariamente, uma rejeição da Torah como sistema religioso judaico, mas uma delimitação de sua obrigatoriedade para os gentios. Essa distinção é importante porque impede uma leitura retrospectiva segundo a qual a Igreja de Jerusalém teria simplesmente abandonado a Lei de Moisés. O próprio capítulo 21 torna isso evidente. Tiago relembra Paulo a decisão anterior e afirma:

“Quanto aos gentios que abraçaram a fé, já lhes escrevemos sobre nossas decisões: que se abstenham das carnes imoladas aos ídolos, do sangue, das carnes sufocadas e das uniões ilegítimas.”
(Atos 21:25).

A liderança da comunidade de Jerusalém parece, portanto, trabalhar com dois regimes normativos distintos: de um lado, judeus-cristãos que permanecem vinculados à Torah; de outro, gentios-cristãos submetidos a um conjunto reduzido de prescrições. Essa distinção é particularmente importante porque nos obriga a abandonar a ideia de que “cristianismo primitivo” constituía desde o início uma realidade homogênea. O próprio testemunho de Atos aponta para uma pluralidade interna: havia judeus seguidores de Jesus zelosos da Lei, gentios que não estavam obrigados à circuncisão e à observância integral da Torah, grupos judaizantes que defendiam uma aplicação mais ampla da legislação mosaica e, provavelmente, correntes helenistas cuja relação com a Lei era significativamente diferente.

A tradição cristã posterior parece conservar a memória de grupos judaico-cristãos que continuaram observando a Lei. Irineu de Lyon, no final do século II, descreve os chamados ebionitas como aqueles que permaneciam ligados a práticas judaicas, enquanto Epifânio, no século IV, apresenta os nazarenos como um grupo que continuava observando a Lei. Essas fontes, contudo, precisam ser utilizadas com cautela: são testemunhos posteriores e pertencem a uma literatura de caráter heresiológico. Não podemos simplesmente transportar suas descrições para o século I como se fossem fotografias históricas da comunidade de Jerusalém. Ainda assim, elas são relevantes porque demonstram que permaneceu viva, durante os primeiros séculos, a memória de uma forma de cristianismo judaico na qual a observância da Lei não era considerada incompatível com a crença em Jesus.

O Novo Testamento, por sua vez, apresenta diversas passagens nas quais determinados mandamentos do Decálogo aparecem preservados ou reinterpretados. Um dos exemplos mais conhecidos encontra-se no episódio do jovem rico:

“E eis que alguém se aproximou e lhe perguntou: ‘Mestre, que devo fazer de bom para possuir a vida eterna?’ Jesus respondeu: ‘Por que me perguntas sobre o que é bom? Um só é bom. Se queres entrar na vida, observa os mandamentos’. Ele perguntou: ‘Quais?’ Jesus respondeu: ‘Não matarás, não cometerás adultério, não furtarás, não levantarás falso testemunho; honra teu pai e tua mãe; e amarás teu próximo como a ti mesmo’.”
(Mateus 19:16-19).

O elemento que chama a atenção nessa passagem é precisamente a seleção dos mandamentos. Jesus não apresenta ao jovem toda a legislação mosaica, mas enumera alguns dos mandamentos do Decálogo e acrescenta o mandamento do amor ao próximo. Algo semelhante ocorre em diferentes textos do Novo Testamento: encontramos reiteradamente princípios correspondentes a grande parte do Decálogo, enquanto o mandamento relativo ao Shabbat assume uma posição excepcionalmente problemática. A questão não é que o Novo Testamento desconheça o sábado; pelo contrário, ele o discute extensamente. O ponto é que não encontramos uma prescrição inequívoca impondo aos cristãos gentios a guarda do sábado nos mesmos termos em que o mandamento é imposto a Israel.

Essa ausência torna-se ainda mais significativa quando observamos o desenvolvimento posterior da literatura cristã. Uma das primeiras formulações sistemáticas que encontramos sobre o Decálogo como uma legislação de validade permanente para os cristãos aparece em Irineu de Lyon, no final do século II. Em Contra as Heresias, Irineu estabelece uma distinção particularmente importante entre a chamada lei natural e a legislação mosaica:

“Deus, no princípio, advertindo os homens por meio dos preceitos naturais que desde o começo implantara na humanidade, isto é, por meio do Decálogo — que, se alguém não observar, não terá salvação —, nada mais exigiu deles. [...] Depois, porém, quando eles [os judeus] se mostraram desobedientes e ingratos, acrescentou-lhes, por meio de Moisés, outros preceitos, por causa da servidão, a fim de os sujeitar e disciplinar.”
(IRINEU DE LIÃO, Contra as Heresias, IV, 15).

Aqui encontramos algo extremamente importante para nossa investigação. Irineu começa a formular uma distinção que posteriormente seria decisiva para a teologia cristã: a Lei de Moisés pode ser compreendida como possuindo elementos temporários e elementos permanentes. A circuncisão, determinadas prescrições rituais e outras práticas podem ser interpretadas tipologicamente, enquanto os mandamentos fundamentais do Decálogo permanecem como expressão da lei natural. Irineu não apresenta, portanto, simplesmente uma rejeição da Lei; ele produz uma hierarquização interna da própria legislação mosaica. Essa distinção é fundamental para compreender a posterior formação cristã de uma categoria denominada “Decálogo”.

A posição de Irineu torna-se particularmente interessante quando chegamos justamente ao quarto mandamento. Ele não afirma simplesmente que o sábado foi abolido. Sua estratégia é outra: transformá-lo em sinal e símbolo. O sábado passa a representar uma realidade espiritual mais ampla:

“Os sábados ensinavam que devemos perseverar dia após dia no serviço de Deus. [...] O sábado de Deus, isto é, o reino, era indicado pelas coisas criadas; nesse reino, o homem que tiver perseverado no serviço de Deus repousará e participará da mesa de Deus. [...] Abraão, contudo, sem circuncisão e sem observância dos sábados, creu em Deus, e isso lhe foi imputado como justiça.”
(IRINEU DE LIÃO, Contra as Heresias, IV, 16).

A operação hermenêutica realizada por Irineu é sofisticada. O sábado não desaparece; ele é relocalizado. O Shabbat físico transforma-se em imagem do descanso escatológico, enquanto sua realidade mais profunda consiste na perseverança contínua no serviço de Deus. A mesma lógica será desenvolvida posteriormente por Clemente de Alexandria, para quem o sétimo dia aponta para uma realidade superior de descanso e iluminação. O que vemos, portanto, não é simplesmente uma abolição do quarto mandamento, mas sua desliteralização e espiritualização.

Surge então uma questão histórica que considero fundamental: como essa concepção cristã do Decálogo se constituiu? Se a comunidade apostólica de Jerusalém permaneceu vinculada à Torah, conforme parece indicar Atos 21, e se os gentios haviam sido dispensados da observância integral da Lei, de onde surgiu a ideia de que o Decálogo poderia ser destacado do restante da legislação mosaica e transformado em uma espécie de núcleo moral universal do cristianismo?

A resposta não pode ser simplesmente encontrada na Igreja de Jerusalém. Pelo contrário, a evidência disponível sugere uma situação mais complexa. Uma hipótese particularmente interessante consiste em investigar correntes judaicas heterodoxas ou judaico-cristãs que passaram a atribuir ao Decálogo uma posição normativa excepcional, eventualmente separando-o das demais prescrições mosaicas. É nesse ponto que entram em cena os chamados minim da literatura rabínica.

Antes, porém, é necessário estabelecer um dado fundamental: o Decálogo possuía uma posição excepcional dentro do próprio judaísmo do Segundo Templo. A ideia de que os Dez Mandamentos ocupavam uma posição privilegiada não foi criada pelo cristianismo. O chamado Papiro Nash, datado geralmente do período helenístico, reúne o Decálogo e o início do Shema, e manuscritos provenientes de Qumran também preservam textos contendo os Dez Mandamentos. A evidência indica, portanto, que havia no judaísmo anterior ao cristianismo uma relação particular entre o Decálogo, a oração e a identidade religiosa.

A Mishná preserva ainda uma memória muito explícita dessa prática. Em Tamid 5:1, afirma-se que, no serviço do Templo, eram recitados os Dez Mandamentos juntamente com o Shema e outras passagens fundamentais. A centralidade litúrgica do Decálogo, portanto, é anterior ao cristianismo e não deve ser interpretada como uma inovação cristã posterior. Ao contrário, o cristianismo herdou um problema já existente no interior do judaísmo: qual era exatamente o estatuto dos Dez Mandamentos dentro da totalidade da Torah?

Em determinado momento, contudo, essa recitação deixou de integrar a liturgia judaica cotidiana. A tradição rabínica atribui essa mudança precisamente à necessidade de impedir uma interpretação considerada herética. O Talmude Babilônico, ao discutir a questão, afirma que os Dez Mandamentos não eram mais recitados diariamente por causa da reivindicação dos minim: caso continuassem a ser recitados, esses grupos poderiam sustentar que somente os Dez Mandamentos haviam sido entregues a Moisés no Sinai. A passagem é particularmente importante porque revela a existência de uma disputa sobre a própria estrutura da revelação mosaica.

Entretanto, aqui é necessário introduzir uma correção decisiva em relação à hipótese formulada originalmente. Não podemos afirmar simplesmente que os minim eram cristãos judaicos, muito menos que eram especificamente cristãos que defendiam a validade exclusiva do Decálogo. O termo minim possui uma história complexa na literatura rabínica e pode designar diferentes categorias de desviantes. Adiel Schremer demonstrou que a identificação automática dos minim tannaitas com cristãos é metodologicamente problemática; em sua análise da Tosefta Hullin, ele argumenta que os minim não constituem, na literatura tannaita, uma categoria especificamente cristã.

Isso, entretanto, não elimina o problema histórico. Ao contrário, torna-o mais interessante. A literatura rabínica efetivamente preserva a memória de disputas acerca da posição normativa do Decálogo, e sabemos que seguidores de Jesus chegaram a ser classificados como minim em determinados textos rabínicos. O que não podemos fazer é retroprojetar essa classificação sobre todos os minim ou presumir que todos os grupos assim designados fossem cristãos. A literatura rabínica deve ser utilizada como testemunho de processos de classificação e fronteirização religiosa, e não como um catálogo sociológico preciso dos grupos existentes no século I. Richard Kalmin chama atenção justamente para esse problema: as fontes rabínicas sobre minim e cristãos podem revelar tanto as relações efetivas entre comunidades quanto os interesses e preconceitos dos próprios autores e editores rabínicos.

Há, entretanto, uma possibilidade particularmente fecunda. Se determinados minim ou determinados cristãos não observantes da Torah utilizaram o Decálogo para sustentar uma concepção seletiva da Lei, então a tradição rabínica poderia estar registrando, ainda que indiretamente, uma disputa semelhante àquela que posteriormente aparece na teologia cristã: a possibilidade de distinguir entre os mandamentos universais e permanentes e as prescrições particulares da legislação mosaica.

É justamente aqui que a obra de Irineu adquire uma importância extraordinária. Ele não apenas afirma que o Decálogo continua vigente; ele constrói uma genealogia segundo a qual o Decálogo corresponde à lei natural implantada por Deus na humanidade desde o princípio, enquanto determinadas prescrições mosaicas teriam sido acrescentadas posteriormente. Essa distinção permite ao cristianismo resolver uma questão aparentemente insolúvel: como rejeitar a obrigatoriedade integral da Lei de Moisés sem rejeitar os mandamentos fundamentais nela contidos? A resposta consiste em separar conceitualmente o Decálogo da Torah enquanto totalidade.

Essa operação é particularmente importante porque oferece uma possível chave para compreender o desenvolvimento posterior da teologia cristã. O cristianismo poderia afirmar simultaneamente que a Lei mosaica não era obrigatória para os gentios e que os Dez Mandamentos permaneciam obrigatórios para todos os cristãos. A aparente contradição desaparece quando se estabelece uma distinção entre Torah e Decálogo. A primeira passa a ser compreendida como legislação específica da aliança mosaica; o segundo, como expressão de uma lei moral universal.

Devemos, contudo, evitar uma conclusão excessivamente linear. A produção acadêmica mais recente coloca em dúvida justamente a ideia de que o “Decálogo” já funcionasse no Novo Testamento como uma categoria normativa independente. Shraga Bick argumenta que, embora mandamentos individuais do Decálogo sejam amplamente utilizados no Novo Testamento, o Decálogo como categoria normativa distinta não aparece ali de maneira claramente constituída. Segundo sua proposta, a transformação do Decálogo em categoria cristã diferenciada ocorre sobretudo a partir do final do século II, em paralelo ao desenvolvimento de uma linguagem que contrasta os mandamentos que os cristãos deveriam conservar com outras partes da Lei judaica.

Essa hipótese é particularmente importante para nosso argumento porque desloca cronologicamente o problema. Talvez não devamos procurar no cristianismo apostólico uma doutrina já pronta segundo a qual “a Lei foi abolida, mas os Dez Mandamentos permanecem”. O que encontramos nos textos do século I pode ser algo muito mais fragmentário: mandamentos individuais do Decálogo são preservados, mas ainda não existe necessariamente uma categoria teológica autônoma chamada “Decálogo”. É somente posteriormente que escritores cristãos como Irineu começam a transformar essa coleção de mandamentos em uma categoria sistemática.

Nesse sentido, a questão dos minim deve ser recolocada dentro de uma história mais ampla de construção das fronteiras religiosas. A discussão não é simplesmente “quem eram os minim?”, mas também “por que determinados grupos passaram a ser classificados como minim?” e “que tipo de controvérsia sobre a Lei estava sendo produzida por essas classificações?”. A literatura rabínica registra um processo de diferenciação entre grupos judaicos, enquanto a literatura cristã produz simultaneamente suas próprias classificações de ortodoxia e heresia. A formação do cristianismo não foi, portanto, apenas um processo de separação entre duas religiões já constituídas, mas uma longa disputa pela definição legítima da herança de Israel. Schremer enfatiza justamente essa dimensão dinâmica do processo de construção do “outro” religioso.

O cristianismo joanino oferece outro elemento que merece investigação. O Evangelho de João apresenta uma relação particularmente tensa entre Jesus e determinadas prescrições da Lei, sobretudo no que diz respeito ao sábado. Em João 5:18 encontramos uma afirmação excepcionalmente forte:

“Por isso os judeus procuravam com maior empenho matá-lo, pois não somente violava o sábado, mas também chamava a Deus de seu próprio Pai, fazendo-se assim igual a Deus.”
(João 5:18).

É importante evitar, novamente, uma conclusão simplista. João não está necessariamente afirmando que Jesus “aboliu a Lei”. O Evangelho possui uma teologia muito mais complexa. Entretanto, a maneira como apresenta os conflitos sabáticos e a relação entre Jesus, Moisés e a tradição judaica demonstra que estamos diante de uma comunidade cristã cuja identidade estava sendo construída em forte tensão com determinados setores da sociedade sinagogal. A tradição joanina, portanto, constitui uma evidência relevante de que diferentes comunidades cristãs podiam desenvolver relações muito distintas com a Torah.

A hipótese que podemos formular, portanto, é mais complexa do que simplesmente afirmar que “os cristãos aboliram a Lei”. O que parece ter acontecido foi uma progressiva reorganização da própria Lei dentro do cristianismo. A comunidade apostólica de Jerusalém preservou uma forte identidade judaica e continuou vinculada à Torah; os gentios foram admitidos sem a obrigação da circuncisão e da observância integral da legislação mosaica; determinados grupos judaico-cristãos parecem ter desenvolvido posições mais radicais acerca da Lei; e, posteriormente, escritores cristãos como Irineu e Clemente sistematizaram uma distinção entre mandamentos permanentes e prescrições tipológicas.

Nesse processo, o Decálogo assumiu uma posição privilegiada. Ele não nasceu dentro do cristianismo como uma invenção cristã. Sua centralidade possuía raízes no judaísmo do Segundo Templo. O que o cristianismo realizou foi uma operação diferente: progressivamente, determinados autores passaram a retirar o Decálogo de sua posição dentro da totalidade da Torah e a apresentá-lo como expressão de uma lei moral universal. A história da recitação litúrgica dos Dez Mandamentos, a existência de manuscritos do Segundo Templo que os preservam, a controvérsia rabínica acerca dos minim e a interpretação de Irineu podem ser compreendidas como momentos distintos de uma longa transformação do estatuto teológico do Decálogo.

A questão fundamental, portanto, não é simplesmente saber se os cristãos guardavam os Dez Mandamentos, mas quando e por que os Dez Mandamentos passaram a ser concebidos como uma categoria normativa distinta da Lei de Moisés. Essa formulação altera significativamente o problema histórico. Ela desloca a investigação da pergunta “os cristãos aboliram o sábado?” para uma questão muito mais abrangente: como uma tradição judaica centrada na Torah produziu, dentro de determinados segmentos do movimento de Jesus, uma distinção entre a Lei mosaica e uma lei moral universal representada pelo Decálogo?

É nesse ponto que a investigação dos minim, dos cristãos judaicos, da tradição joanina e, posteriormente, de Irineu pode oferecer uma hipótese particularmente fecunda. Se os minim puderem ser relacionados, ainda que parcialmente, a determinadas correntes judaico-cristãs, talvez estejamos diante de uma das etapas intermediárias através das quais o cristianismo passou da afirmação apostólica de que os gentios não precisavam guardar a totalidade da Lei para a formulação posterior de que os cristãos deveriam guardar o Decálogo, enquanto determinadas prescrições mosaicas poderiam ser espiritualizadas, tipologizadas ou abandonadas. Mas essa relação deve permanecer formulada como hipótese, e não como fato estabelecido.

A história do quarto mandamento torna-se, nesse contexto, especialmente reveladora. O sábado não desapareceu simplesmente do pensamento cristão. Ele foi reinterpretado. Em Irineu, tornou-se símbolo da perseverança; em Clemente, antecipação de uma realidade superior de descanso; em outras tradições cristãs, passou progressivamente a ser relacionado ao primeiro dia da semana, o Dia do Senhor. A transformação do Shabbat em realidade espiritual e, posteriormente, a emergência do domingo como dia distintivamente cristão constituem, portanto, não dois fenômenos isolados, mas momentos sucessivos de uma longa operação de deslocamento da identidade cristã em relação à Torah.

A questão que permanece aberta — e que talvez seja a mais importante de toda esta investigação — é justamente esta: se a Igreja apostólica de Jerusalém não impôs o Decálogo aos gentios como um conjunto jurídico separado, e se a própria comunidade judaico-cristã de Jerusalém continuava vinculada à totalidade da Torah, em que ambiente histórico começou a surgir a ideia de que o Decálogo poderia ser destacado da Lei de Moisés e transformado na legislação moral universal do cristianismo? A resposta talvez esteja menos na Igreja de Jerusalém do que nas correntes periféricas do judaísmo e do cristianismo judaico, justamente aquelas que participaram das disputas pelas fronteiras da identidade israelita e que posteriormente foram classificadas, por diferentes tradições, como heréticas.

A questão, portanto, permanece aberta: os cristãos que posteriormente defenderam a validade universal do Decálogo estavam simplesmente preservando uma tradição apostólica, ou estavam incorporando ao cristianismo uma interpretação particular da própria Torah, desenvolvida nas disputas internas do judaísmo e posteriormente reelaborada pela teologia cristã? É nessa fronteira — entre judaísmo do Segundo Templo, cristianismo judaico, minim e cristianismo gentílico — que se encontra uma das chaves para compreender a transformação histórica do Shabbat em domingo e da Torah em “lei moral”.



REFERÊNCIAS

BICK, Shraga. Contextualizing the Decalogue: the invention of the Ten-Commandments in late ancient Christianity. Journal for the Study of the New Testament, v. 47, n. 4, p. 809-837, 2025. DOI: 10.1177/0142064X241311835.

IRINEU DE LIÃO. Contra as heresias. Livro IV. Tradução de Alexander Roberts e William Rambaut. In: ROBERTS, Alexander; DONALDSON, James (ed.). Ante-Nicene Fathers. Buffalo: Christian Literature Publishing, 1885. Disponível em: New Advent — Against Heresies, Book IV. Acesso em: 20 ago. 2026.

KALMIN, Richard. Christians and heretics in rabbinic literature of late antiquity. Harvard Theological Review, Cambridge, 2011.

MARCUS, Joel. Birkat Ha-Minim revisited. New Testament Studies, Cambridge, 2009.

SCHREMER, Adiel. Laws of Minim. In: SCHREMER, Adiel. Brothers Estranged: heresy, Christianity and Jewish identity in late antiquity. Oxford: Oxford University Press, 2009. p. 69-86. DOI: 10.1093/acprof:oso/9780195383775.003.0004.

SCHREMER, Adiel. Producing Minut: labeling the early Christians as Minim. In: SCHREMER, Adiel. Brothers Estranged: heresy, Christianity and Jewish identity in late antiquity. Oxford: Oxford University Press, 2009. p. 87-100. DOI: 10.1093/acprof:oso/9780195383775.003.0005. 

sábado, 25 de novembro de 2017

Continuando nossa série com cristãos poderosos nos primeiros século do cristianismo, vamos abordar duas figuras que viveram em Roma no início do século III.

Marco Aurélio Prosenes


"A Cura da Mulher com Fluxo de Sangue". Via wikicommons
Professor Peter Lampe, da Universidade de Heidelberg, nos apresenta Marcos Aurelio Prosenes, observando que era um ex-escravo imperial, liberto seja no reinado conjunto de Marco Aurélio e seu irmão Lúcio Vero, (161-169 DC) ou, ainda, na co-regência de Marco Aurélio com seu filho Cômodo, entre 176 a 180 DC [1]. Assim como Jacinto, sua pupila Marcia Demétria (amante do Imperador Cômodo) e Carpóforo, todos mencionados no post anterior desta série, Prosenes fazia parte de um influente círculo de libertos imperiais, que se converteram ao cristianismo e que faziam parte dos auxiliares próximos do Imperador Cômodo. 


Prosenes, porém, sobreviveu a queda da dinastia Antonina, o caos do ano dos cinco imperadores (193 DC)  prosperando após a chegada ao poder de Sétimo Severo (193-211), tornando homem de confiança de seu filho Caracala (211-217 DC).

A carreira de Marco Aurélio Prosenes, como usual de oficiais romanos, é descrita em inscrições funerárias, como descrevem os Professores John Dominic Crossan e Jonathan L Reed:

"(...) Duas inscrições são evidência da existência de outro cristão primitivo, desta vez de nível mais alto, no âmbito da corte imperial. Podem ser lidas num sarcófago pertencente ao alforriado imperial Marco Aurélio Prosenes, no ano 217 D.C. A primeira, entre dois cupidos, identifica o morto como
Ex-escravo dos imperadores, camareiro do imperador [Caracala], mordomo do tesouro e da propriedade imperial, administrador das apresentações de gladiadores, encarregado dos vinhos, indicado pelo divino Cômodo para a corte, tendo seus ex-escravos arcado com as despesas para a confecção deste sarcófago, com seu próprio dinheiro em honra de seu piedosíssimo mestre que bem o merece (CIL 6:8498A)"[2]
O Cursus Honorum de Prosenes é de um ex-escravo, que após ser trazido a Corte Imperial por Cômodo, ocupa vários postos de alta confiança até sua morte, já sob o governo de Caracala, em uma ascensão funcional de aproximadamente 30 anos. 

Prosenes exerceu o cargo de procurador (ex. procurator thesaurorum). No Principado, após as reformas do Imperador Augusto (31 AC-14 DC), esses oficiais eram responsáveis pela administração das propriedades  e territórios imperiais, tanto na esfera pública quanto em relação aos bens pessoais do Imperador. Nas provinciais senatoriais, procuradores eram responsáveis pelos assuntos fiscais, uma vez que, como observa o Professor Jona Lendering, não era possível indicar senadores para atuar como questores subordinados aos proconsules ou propretores que governavam tais províncias [3]. Além disso, tais procuradores respondiam diretamente ao Imperador [3]. Nas provinciais imperiais, a partir de Claúdio (41-54 DC), começou a se tornar comum a prática de transferir a procuradores os poderes plenos de governo provincial, como pode ser verificado na Judéia. Paralelamente, procuradores passaram a servir em cargos no governo romano equivalentes aos atuais ministérios, respondendo pelo tesouro imperial e o correio romano, por exemplo. Ou seja, ao longo do principado, com a concentração cada vez maior de poder na figura do Imperador, houve uma tendência dos cargos na administração passarem a ser ocupados por pessoas de sua confiança e orbita de influência.   

Então Marco Aurélio Prosenes seria o equivalente moderno do funcionário que é admitido na empresa como contínuo e após toda uma vida de serviços prestados, galga vários postos até assumir uma Superintendência Regional, Diretoria ou assessoria direta do Presidente.  

Como observa o Professor Peter Lampe:
"In any case, under Commodus (180-192 C.E.) Prosenes begins a respectable career administering a series of court offices (supervising the transport of wine from Italy to Rome, particularly for the table of the emperor [mensa Augusti]; director of the imperial gladiator games, steward of the imperial assets; administrator of the treasure chamber and advances to the most influential position of an imperial chief chamberlain under Caracella ("a cubiculo Augusti"). Especially in the office of chief chamberlain, imperial freedmen could still exercise power after freedmen had been denied acess to all higher positions in the administration, particularly since the time of Hadrian. Numerous personnel stood at the chamberlains' command. Their political influence was considerable - particularly since Commodus. In  the court of Commodus, they held the reins of government as more or less unofficial representatives of the emperor (Saoterus, Cleander, Ecletus). Chief Chamberlain M. Aurelius Cleander appointed consuls and the praefect of the guard. About Prosenes nothing similarly spectacular is known. His rank, however, is the highest that he as an imperial freedman could wish to possess.  [4]
(Tradução) De qualquer forma, sob Cômodo (180-192 CE), Prosenes começa uma carreira respeitável ocupando uma série de postos na Corte (supervisionando o transporte de vinho da Itália para Roma, particularmente para a mesa do imperador [mensa Augusti], diretor dos jogos imperiais de gladiadores, mordomo dos ativos imperiais, administrador da câmara do tesouro e avança para a posição mais influente de mordomo chefe da casa imperial sob Caracella ("cubiculo Augusti"). Especialmente no cargo de mordomo chefe, os libertos imperiais ainda podiam exercer poder após terem sido impedidos de exercer os cargos superiores da admnistração, particularmente desde a época de Adriano. Numerosos funcionários estavam no comando dos mordomos. Sua influência política era considerável - particularmente desde Cômodo. Na corte de Cômodo, eles detinham as rédeas do governo como representantes mais ou menos não oficiais do imperador (Saoterus, Cleander, Ecletus). O mordomo chefe M. Aurélio Cleander indicou cônsules e o Prefeito da guarda. Sobre Prosenes nada semelhante é conhecido. Seu posto, no entanto, é o mais alto que ele, na condição de alforriado imperial poderia almejar. [4]

Desta forma, Prosenes pode ter sido um dos homens mais poderosos do Império em seu tempo. Os mordomos citados por Lampe, como Marco Aurélio Cleander, Ecleto, e Saoterus, figuram entre os vários ex-escravos da casa imperial que se tornaram auxiliares próximos dos governantes (Marco Antonio Pallas também poderia ser citado) que  ficaram famosos mais pelo abuso, do que pelo uso de seu poder. O fato de Prosenes sequer ser citado no registro literário é indicativo que exerceu seu trabalho de forma profissional e bem sucedida.

 Mas como podemos deduzir que Prosenes era cristão? A resposta a esta pergunta vem do conteúdo da segunda inscrição, como nos descrevem Crossan e Reed:

A segunda inscrição, contudo, foi escrita pelo antigo escravo de Prosenes, chamado Ampélio. Na borda superior do lado direito do sarcófago, mais curto, acima da figura de um animal mitológico e quase invisível, a inscrição continha a frase latina caracteristicamente cristã Receptus ad deum, "recebido por Deus" . Le-se o seguinte:
Prosenes foi recebido por Deus cinco dias antes das Noas de [março] em S[...]nia quando Prasenes e Extricato foram cônsules, o último pela segunda vez [217 Dc]. Ampélio, seu ex-escravo, escreveu estas linhas quando ele voltou da campanha à cidade (CIL 6:8498B).[5]
Em 214 DC, Caracala resolveu intervir em uma guerra civil entre os pretendentes Artabano V e Vologeses VI, pelo trono da Partia, arquirival de Roma no leste. Em 8 de abril de 217, com o exército estacionado em Edessa (atual Urfa, na fronteira entre Síria e Turquia), o Imperador, protegido apenas com um grupo seleto de sua guarda pessoal, resolveu visitar o Templo da deusa lunar em Carras (atual Harã), a 40 km de distância (e onde, 270 anos antes, as tropas do General Marco Licinio Crasso haviam sido esmagadas, em uma maiores derrotas da história de Roma). Durante a viagem de volta, Caracala foi assassinado.   

Crossan e Reed descrevem o sarcófago
O leal Ampélio havia acompanhado Prosenes na campanha do Imperador Caracala contra os partos na Mesopotâmia, mas seu patrono morrera por lá. Evitou cremar o amigo e trouxe seu corpo para Roma. Os cristãos, como os judeus, não aceitavam a cremação, talvez por causa da crença na ressurreição. Tudo indica que Prosenes e Ampélio eram cristãos e que este preparara um funeral teologicamente adequado para o companheiro. Evitou não apenas a cremação mas também decorações pagãs no sarcófago, aceitando apenas figura neutras como golfinhos, cúpidos, cornucópia e grifos, bem como a frase pagã comum ou sua abreviação: dis manibus (sanctum), "sagrado aos espíritos mortos", embora essa inscrição se referisse ao divus Cômodo". É provável que Ampélio tenha acrescentado a segunda inscrição claramente cristã.[5]


Nessa linha, Professor Peter Lampe [6] apresenta os seguintes motivos:
  •  A inscrição de Ampélio está posicionada em lugar pouco usual, a borda superior do lado menor do sarcófago, acima da figura de um Grifo. Isso pode indicar certa cautela e descrição.
  • Prosenes é nomeado "procurator numerum". Lampe observa que em todo o volume VI do Corpus Inscriptum Latinarum (inscrições da cidade de Roma), não há nenhuma outra menção desse título. Este foi o segundo cargo de sua carreira. Parece ter havido uma certa preocupação em evitar o termo "munus gladiatorium", que seria o título mais comum. Cristãos batizados deviam evitar a participação nos jogos, conforme se lê, por exemplo, em Tradição Apostólica, capítulo XVI, 7.  
  •  A inscrição de Ampélio utiliza a frase "Recebido por Deus" (receptum ad deum). Tal frase não é encontrada em inscrições pagãs. No entanto, é bastante comum em inscrições cristãs posteriores. Lampe concede que a base de comparação é com inscrições do quarto e quinto século, o que implica um certo anacronismo, já que não muitas outras inscrições do mesmo período para se comparar.
  • Prosenes foi enterrado em um sarcófago e não teve suas cinzas colocadas em uma urna. Cremação, não sepultamento, era o usual na sociedade romana. Ainda mais atípico foi o fato do corpo de Prosenes tenha sido transportado, por quase 3 mil quilômetros, da Mesopotâmia até Roma. Nem mesmo o corpo do Imperador Caracala foi transladado para Roma, seu corpo foi cremado e suas cinzas levadas para Roma. 
Lampe conclui com a constatação que a identidade cristã de Ampélio e Prosenes explica a totalidade da evidência. Ao evitar a utilização de uma tumba com características externas pagãs, aparentar receio em relembrar a sua ligação com a gladiatura, usar inscrição com uma frase tão cristã quanto possível em lugar discreto, além do trabalhoso, caro e completamente atípico translado do corpo de Prosenes por 3 mil quilometros é explicado se ambos fossem cristãos, para que seus amigos pudessem lhe proporcionar um enterro cristão. 

Por fim, aceitando a identificação cristã de Prosenes, em qual momento teria se convertido? Provavelmente após ter deixado o cargo de responsável pelo jogos gladiatoriais.  

Prosenes é assim um dos vários cristãos na corte imperial no final do século II e início do III. Além de Marcia e Karpoforo, Professor Lampe [6] menciona as esposas dos governadores da Siria e Capadócia, por volta do ano 200 DC, citadas por Hipolito e Tertuliano, bem como a ama de leite do futuro Imperador Caracala e Proculo, chamado Torpácio, que, segundo Tertuliano, foi mantido no Palácio Imperial até sua morte por Sétimo Severo em retribuição por tê-lo curado com óleo.    

 Marcos Demetrianos


A Aparição aos Apóstolos, Duccio di Buoninsegna, 1311. via Artbible.



Além de considerar as evidências da propagação do cristianismo nas elites de Roma, as informações trazidas das provinciais são de extrema relevância. Em uma cidade do interior da Bitínia (norte da atual Turquia), chamada Claudiopolis, na primeira metade do século III DC, um importante chefe político, que havia exercido os principais cargos públicos locais, teve inscritas as seguintes palavras em seu túmulo familiar:



"(...) Para os santos que também puseram sua confiança em Deus: Marcos Demetrianos, que serviu honradamente como principal arconte, administrador da cidade, e diretor dos jogos, e sua querida mãe, Aurelia Pannichas, Aurelia Demetriana, sua filha, e Domitio Heliodoro, seu genro, juntamente com o irmão dela Demetriano e o tio dela Crisipo erigiram esta túmulo como memorial. (...)"  [7]
Professor Phillip Harland, York University, comenta a significância da inscrição e seu contexto

The board of archons was the most influential civic body in this region, and the post of head of this board would be reserved only for the most wealthy benefactors of the city. Demetrianos’s benefactions had evidently included sponsorship of the contests that were so much a characteristic of social life in the city. Here we have a Christian couple of high social status and great influence within the civic context being honored on an epitaph by a family that is proud of both their civic achievements and their “faith in God.” (Tradução) O conselho de arcontes era a entidade cívica mais importante da região, e o posto de chefe do conselho era reservado para o mais rico do beneméritos da cidade. O patrocínio de Demetrianos evidentemente incluia o suporte as disputas que caracterizavam muito da vaida social da cidade. Aqui nos temos um casal cristão com altíssima condição social e grande influência no contexto cívico, sendo honrados com um epitáfio por uma família orgulhosa das realizações cívicas e sua "Fé em Deus".  [7]

A inscrição de Marcus Prosenes indicava de forma discreta sua fé cristã. Praticamente, apenas outros cristãos poderiam identificar sua fé. Marcos Demetrianos é explícito em sua identidade. Contudo, Prosenes aparenta não se vangloriar de seu passado como diretor dos jogos de gladiadores, enquanto Demetrianos parece não se incomodar com a condição de diretor dos jogos, oficio teoricamente ligado ao culto imperial  [8]. Uma explicação que consideramos plausível, é que a existência como cristão era precária, mas, já no seculo III, milhões viviam desta forma, dentre os quais as figuras poderosas que já citamos. Uma espécie de "jeitinho", que implicava em algumas acomodações, tanto do Estado, quanto dos cristãos perseguidos. O próprio Imperador, beneficiário do culto em sua honra e cujo nome era invocado para executar os cristãos, mantinha mordomos, babás, servos de confiança, e até amantes que seguiam a fé proibida. Tal modus vivendi era, contudo, ocasionalmente perturbado. Quando porém postos em uma situação em que o confronto não podia mais ser evitado, muitos cristãos desafiaram o Império com suas vidas, como já observamos aqui no adcummulus "(...) Ou seja, a mulher mencionada acima, Ptolemaus, Lucius e o terceiro cristão não identificado, podiam viver suas vidas de forma relativamente tranquila, manter casamento com incrédulos, ensinar o cristianismo, assistir procedimentos do forúm, por anos a fio, sem serem molestados. Contudo, caso tivessem inimigos dispostos a acusa-los publicamente diante das autoridades, e, dependendo da rigidez dos juízes, poderiam ter como destino a execução. Era uma condição que poderia até ser tranquila, mas sempre precária. A qualquer momento, uma denúncia podia levar a prisão e a morte(...)".


Outro fator para a diferença de atitudes do mordomo do imperador e do político do interior, é geográfico. A região formada pelas antigas províncias romanas da Ásia Menor, Frigia, Galácia, Bitínia e Ponto, Cilícia e Capadócia, correspondente a atual Turquia, constitui, possivelmente, a mais relevante fronteira de expansão do cristianismo primitivo. Conforme Atos dos Apóstolos, a primeira, segunda e terceira viagem missionária de Paulo atravessaram estes territórios. Paulo estabeleceu residência por alguns anos em Éfeso, e escreveu aos Gálatas. O apocalipse foi dirigido "às sete igrejas da Ásia". Mesmo considerando textos do Novo Testamento cuja autoria seja questionada pela maior parte dos estudiosos, como  a carta de Paulo a Igreja de Colossos (50-80 DC) e 1ª Pedro (80-110 DC), que faz menção aos peregrinos do Ponto, Ásia, Galácia, Capadócia e Bitínia, se infere a presença de congregações estabelecidas e capilarizadas no final do século I DC. Como já falamos aqui em outros posts, provavelmente, lá o apóstolo Felipe e suas filhas se estabeleceram e foram sepultados.  

Plínio, o moço, em sua carta ao Imperador Trajano (que já abordamos aqui no adcummulus), demonstra sua surpresa com a expansão do cristianismo na Bitínia, em que era governador:

 (...) O assunto parecia ser importante o suficiente para que fosse dirigido a vós, especialmente considerando os números em perigo. Pessoas de todas as classes e idades e de ambos os sexos são, e serão, envolvidas na acusação, pois esta superstição contagiosa não se limita apenas às cidades, mas tem se espalhado pelas aldeias e zonas rurais; parece possível, no entanto, verificar e curá-la.(...)"     
Essa expansão continuou nos séculos seguintes, com os cristãos representando uma parte cada vez mais significativa da população daquela região. Conforme observa o Professor William Tabernee, Oklahoma Higher Education Heritage Society, as inscrições e outros artefatos cristãos surgem relativamente cedo e com frequência:
A large number of Christian inscriptions, many datable to before 260 (Mitchell 1993, 2:58–59), have been found in the nearby Çarşamba River Valley (MAMA 8.100, 116, 118–20, 131, 158–59, 161–65, 167, 199). An analysis of these and  other inscriptions from the area has shown that approximately one-third of the population of this particular region was Christian before 260, increasing to 80 percent during the fourth century (Mitchell 1993, 2:58). This compares  favorably with the statistics for the Upper Tembris Valley in Phrygia, where the  “Christians for Christians” inscriptions were produced and where 80 percent  of the tombstones datable to between 280 and 310 explicitly indicate Christianity (Mitchell 1993, 2:58). (Tradução) Um grande número de inscrições cristãs, muitas com datação anterior a 260 DC (Mitchell 1993, 2:58-59), foram encontradas nas proximidades do Vale do Rio Çarşamba (MAMA 8.100, 116, 118–20, 131, 158–59, 161–65, 167, 199). Uma análise desta e de outras inscrições da área demonstrou que aproximadamente um terço da população deste região específica era cristã antes de 260, aumentando para 80 porcento durante o quarto século (Mitchell 1993, 2:58). Isto é comparável com as estatísticas do Vale do Tembris Superior na Frigia onde as inscrições " de cristãos para cristãos" foram produzidas e onde 80 por cento das sepulturas datadas entre 280 a 310 indicam explicitamente cristianismo [8]

Assim, o cristianismo se expandiu de tal forma nas igrejas da Frígia, Capadôcia, Bitinia e Asia Menor que as evidências já indicam uma predominância de cristãos na população pouco antes da ascensão de Constantino. A tal ponto chegou a "ousadia" e segurança dos cristãos, que na Frígia temos a partir do III século algumas inscrições com a formula "cristãos para cristãos", como a que vemos abaixo:


Eutyches for Ammia his daughter-in-law and for Tatia his granddaughter; and

Makedon for his son and for his wife Ammia;  and Eutyches their son, (who

like his father and grandfather is still) living, constructed (this tomb for their

relatives). Christians for Christians (Tradução) Eutico para Ammia sua nora e para Tatia sua neta, e Makedon para seu filho e sua esposa Ammia; e Eutico seu filho (que como seu pai e avô ainda vive), constriu (esta tumba para seus parentes). Cristãos para cristãos.[9]
Assim, Eutico e seus familiares trazem testemunho, insculpido em pedra, da valentia e intrepidez de cristãos que já não mais temiam se identificar como tal.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
[1]  Peter Lampe (2003) Christians at Rome in the First Two Centuries: From Paul to Valentinus, fl. 330
[2] John Dominic Crossan e Jonathan L Reed (2004) Em Busca de Paulo:Como o Apóstolo de Jesus opôs o Reino de Deus ao Imperio Romano, Paulinas, São Paulo, fls. 333-334 
[3] Jona Lendering (2002, 2017) Procurator, www.livius.org/articles/concept/procurator/, acessado em 24.11.2017
[4] Peter Lampe (2003) Christians at Rome in the First Two Centuries: From Paul to Valentinus, fl. 331
[5] John Dominic Crossan e Jonathan L Reed (2004) Em Busca de Paulo:Como o Apóstolo de Jesus opôs o Reino de Deus ao Imperio Romano, Paulinas, São Paulo, fl. 334
[6] Peter Lampe (2003) Christians at Rome in the First Two Centuries: From Paul to Valentinus, fls. 331-332. Para Proculo e a ama de leite de Caracala, fl. 337, para as esposas dos Governadores da Síria e Capadócia, fl. 340.
[7] Phillip Harland (2002), Connections with Elites in the World  of the Early Christians, http://www.philipharland.com/publications/Harland%202002%20Connections.pdf , acessado em 24.11.2017.
[8] The Eerdmans Encyclopedia of Early Christian Art and Archaeology, Volume 1, fl. 197
[9] WilliaTabernee (2014), Asia Minor and Cyprus in  WilliamTabernee (ed). Early Christianity in Contexts: An Exploration across Cultures and Continents, fl. 292
[10] WilliaTabernee (2014), Asia Minor and Cyprus in  WilliamTabernee (ed). Early Christianity in Contexts: An Exploration across Cultures and Continents, fl. 272





 

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