10 indicações de leitura da biblioblogosfera
Semana de 24 a 30 de agosto de 2026
Depois da primeira edição, o BIBLIOBLOGS AD CUMMULUS RADAR prossegue em sua proposta de acompanhar a produção independente sobre Bíblia, judaísmo, cristianismo e história das religiões na internet.
Nesta segunda edição, ampliamos deliberadamente a busca. Além de acompanhar alguns autores já conhecidos de nossos leitores, procuramos novos blogs e novas áreas de produção, especialmente textos que pudessem trazer alguma contribuição para a leitura histórica, literária, filológica ou cultural dos textos bíblicos.
Como na edição anterior, não se trata de um ranking. Não pretendemos dizer quais são os “melhores” textos da semana. A proposta é mais simples: selecionar dez leituras que encontramos particularmente interessantes e que acreditamos merecer uma visita.
A janela desta edição corresponde aos textos publicados entre 24 e 30 de agosto de 2026. E, desta vez, fizemos questão de ampliar nosso mapa da biblioblogosfera.
01 — Marc Zvi Brettler | TheTorah.com
How to Read “The” Bible?
26 de agosto
Marc Zvi Brettler retoma, vinte anos depois, uma questão que parece elementar, mas que possui consequências metodológicas profundas: o que queremos dizer quando falamos em “a Bíblia”?
O autor parte de uma reconsideração de seu próprio livro How to Read the Bible e reconhece que, ao longo das últimas duas décadas, passou a perceber de maneira mais aguda os problemas envolvidos na própria expressão “a Bíblia”. Afinal, de qual Bíblia estamos falando? De que cânon? De qual tradição interpretativa? De qual comunidade?
O texto é particularmente interessante porque coloca em discussão aquilo que frequentemente permanece oculto por trás da expressão “texto bíblico”: a existência de diferentes cânones, tradições de leitura e comunidades interpretativas. É uma reflexão metodológica que interessa diretamente a quem trabalha com crítica histórica e história da recepção.
02 — Drew Longacre | OTTC — A Blog for Old Testament Textual Criticism
Dershowitz Kennicott Key
28 de agosto
Esta foi uma das descobertas que mais nos interessaram nesta segunda rodada do Radar.
Drew Longacre apresenta uma nova ferramenta disponibilizada por Idan Dershowitz para consulta aos manuscritos reunidos no século XVIII por Benjamin Kennicott, uma das figuras importantes da história da crítica textual da Bíblia Hebraica.
O recurso permite localizar informações e imagens dos manuscritos colacionados por Kennicott e constitui uma ferramenta particularmente útil para pesquisadores interessados em manuscritos hebraicos, códices massoréticos, transmissão textual e história da crítica bíblica.
Para o Radar AD CUMMULUS, é exatamente o tipo de descoberta que procuramos: um blog especializado, pouco conhecido fora dos círculos acadêmicos específicos, mas que oferece material de enorme interesse para quem deseja compreender como os textos bíblicos chegaram até nós.
03 — Ian Paul | Psephizo
What does ‘take up your cross’ mean in Matthew 16?
25 de agosto
Ian Paul volta-se para Mateus 16,21–28 e para uma das expressões mais conhecidas da tradição cristã: “tomar a sua cruz”.
O ponto de partida é particularmente interessante porque o autor questiona a interpretação corrente segundo a qual a expressão significaria simplesmente suportar dificuldades ou carregar um “fardo” ao longo da vida. Paul pergunta se essa linguagem pode realmente remontar ao Jesus histórico e procura situá-la dentro do conjunto dos ensinamentos atribuídos a Jesus.
O texto também chama atenção para a estrutura narrativa de Mateus: a confissão de Pedro em Cesareia de Filipe é imediatamente seguida pelo anúncio da paixão, pela repreensão de Pedro e pela resposta de Jesus. A proximidade entre esses episódios produz uma tensão importante entre messianismo, sofrimento, discipulado e expectativa escatológica.
É uma leitura especialmente interessante para quem acompanha os debates sobre a relação entre o Jesus histórico e a construção narrativa dos evangelhos.
04 — Claude Mariottini | Dr. Claude Mariottini
Psalm 23: “Your Rod and Your Staff”
26 de agosto
Claude Mariottini continua sua série de estudos sobre o Salmo 23 e, neste texto, concentra-se na conhecida expressão “tua vara e teu cajado”.
O interesse da análise está na tentativa de recuperar o significado concreto dessas imagens no universo pastoril antigo. A vara e o cajado não são simplesmente dois elementos poéticos intercambiáveis: correspondem a instrumentos distintos, associados a funções diferentes no trabalho do pastor.
A partir dessa distinção, Mariottini procura mostrar como a metáfora do salmo ganha densidade quando recuperamos seu contexto material e cultural. É um bom exemplo de como a atenção ao vocabulário e ao ambiente histórico pode modificar a percepção de uma passagem bíblica familiar.
Ler o post no blog de Claude Mariottini
05 — James F. McGrath | Religion Prof
The Cost of Welcome
29 de agosto
James F. McGrath parte de Marcos 3,20–35 e de uma questão textual que pode alterar significativamente nossa compreensão da cena: quem são exatamente os “que estavam com ele” ou “os seus” em Marcos 3,21?
O problema envolve a expressão grega hoi par’ autou, que algumas traduções entendem como referência à família de Jesus. McGrath chama atenção para o fato de que a expressão não precisa necessariamente significar “família” e que a tradução escolhida interfere diretamente na interpretação da cena seguinte, na qual a mãe e os irmãos de Jesus aparecem procurando-o.
A partir daí, o autor desenvolve uma reflexão sobre a redefinição dos vínculos familiares no ensino de Jesus. O texto é interessante porque começa com uma questão filológica e narrativa e a conduz para uma discussão histórica e teológica sobre família, pertencimento e inclusão.
É uma das indicações desta edição que mais diretamente dialogam com nosso interesse por distinguir o texto, sua construção narrativa e aquilo que podemos reconstruir historicamente.
06 — Steve Thomason | The Art Pastor
The Final Session of Our Summer Journey — Illustrating Colossians 2:6–7
28 de agosto
Uma das descobertas mais interessantes desta semana vem de um território pouco explorado no Radar: a relação entre estudo bíblico, artes visuais e ferramentas digitais.
Steve Thomason apresenta o encerramento de sua série Summer Journey of Art & Scripture e mostra o processo de criação de um comentário bíblico em formato de história em quadrinhos sobre Colossenses 2,6–7.
O texto, porém, não se limita à produção artística. Thomason trabalha também com o grego koiné, sintaxe, contexto histórico romano e tradução, procurando mostrar como determinadas escolhas linguísticas podem modificar a compreensão do texto. O resultado é uma experiência que combina exegese, pedagogia visual e história cultural.
É justamente o tipo de iniciativa que vale a pena acompanhar porque demonstra como a biblioblogosfera pode experimentar novas formas de apresentar conteúdos antigos.
Ler o post no blog de Steve Thomason
07 — Erin Newton | The Park Forum
Cursed Birth Day
26 de agosto
O texto parte de Jeremias 20,14–15 e de uma das passagens mais dramáticas do livro: “Maldito o dia em que nasci!”
A autora aproxima a experiência de Jeremias da de Jó e, de maneira inesperada, também da criatura de Frankenstein, explorando a recorrente imagem literária daquele que deseja amaldiçoar o próprio nascimento depois de experimentar sofrimento extremo.
Embora o texto esteja inserido em uma proposta de leitura e reflexão bíblica, a aproximação chama atenção para um fenômeno importante: a Bíblia participa de uma longa história literária de representação do sofrimento humano, e suas imagens continuam sendo reutilizadas em outras tradições culturais.
08 — Jim Davila | PaleoJudaica
Launderville, Ezekiel 1–24 (SBL)
30 de agosto
O PaleoJudaica é uma das referências que merecem acompanhamento constante para quem se interessa por judaísmo antigo, Bíblia Hebraica e mundo judaico do período bíblico e pós-bíblico.
Nesta edição, Jim Davila chama atenção para a publicação de Ezekiel 1–24: Introduction and Commentary, de Dale F. Launderville, pela SBL Press.
A obra é particularmente interessante porque combina hebraico, grego antigo, aramaico, siríaco e latim, além de articular tradução, história da recepção e análise histórico-crítica do texto de Ezequiel. A indicação é, portanto, muito mais do que uma simples notícia bibliográfica: ela aponta para uma abordagem que coloca a transmissão, interpretação e recepção do texto dentro de uma mesma perspectiva.
Para os leitores do AD CUMMULUS, há ainda uma razão adicional para prestar atenção: Ezequiel é uma fonte fundamental para compreender a formação de determinadas linguagens proféticas, apocalípticas e escatológicas do judaísmo antigo.
09 — Yung Suk Kim | Dr. Yung Suk Kim’s Scholarly Journey
The Parable of the Pearl of Great Price: Meaning & Historical Context
26 de agosto
Yung Suk Kim dedica-se à parábola da pérola de grande valor, em Mateus 13,45–46, procurando diferenciá-la da parábola do tesouro escondido.
Um dos aspectos interessantes da abordagem é a atenção à figura do comerciante: enquanto o homem que encontra o tesouro o descobre aparentemente de maneira inesperada, o comerciante está deliberadamente procurando pérolas de grande valor. A diferença entre descoberta e busca torna-se, assim, parte da interpretação da parábola.
O autor também chama atenção para questões de vocabulário e para a construção narrativa de Mateus. O texto faz parte de uma produção mais ampla de Kim dedicada às parábolas de Jesus e procura aproximar exegese, contexto histórico e interpretação contemporânea.
Ler o post no blog de Yung Suk Kim
10 — Old Testament in a Year
August 29th Old Testament Readings
29 de agosto
Para fechar esta edição, voltamos a um formato diferente dos textos anteriores.
O Old Testament in a Year acompanha a leitura contínua do Antigo Testamento e, neste episódio, chega a Jó 31–33. O autor chama atenção particularmente para a estrutura argumentativa de Jó 31, na qual Jó apresenta uma sequência de afirmações condicionais sobre sua própria conduta.
A observação mais interessante é a comparação com a chamada “lei de talião” de Êxodo 21,23–25 e, posteriormente, com a releitura de Jesus em Mateus 5. O post estabelece, portanto, uma pequena cadeia intertextual que atravessa Jó → Torá → Evangelho, mostrando como temas jurídicos e éticos podem ser retomados e reinterpretados em diferentes camadas da literatura bíblica.
É uma indicação mais simples do que algumas das anteriores, mas representa bem a diversidade da biblioblogosfera que o Radar pretende acompanhar.
Ler o post no Old Testament in a Year
BIBLIOBLOGS AD CUMMULUS RADAR
A segunda edição do BIBLIOBLOGS AD CUMMULUS RADAR nos levou por caminhos bastante diferentes daqueles da primeira.
Encontramos nesta semana crítica textual, manuscritos hebraicos, Bíblia Hebraica, Salmos, Mateus, Marcos, Colossenses, parábolas de Jesus, judaísmo antigo e história da recepção. Encontramos também algo que consideramos especialmente importante para a proposta do Radar: novos autores e espaços de produção que ainda não haviam aparecido em nossa seleção.
O OTTC, por exemplo, nos leva diretamente ao universo especializado da crítica textual da Bíblia Hebraica. O TheTorah.com coloca em discussão a própria categoria “Bíblia”. O PaleoJudaica funciona como uma janela para a produção acadêmica sobre judaísmo antigo e mundo bíblico. E autores como McGrath, Thomason e Yung Suk Kim mostram como a biblioblogosfera contemporânea também experimenta novas formas de aproximar pesquisa, exegese, pedagogia e comunicação.
Ao mesmo tempo, permanecem alguns dos nomes que já acompanhávamos. Não há problema nisso. O objetivo do Radar não é abandonar autores conhecidos, mas equilibrar referências consolidadas e descobertas novas.
É esse equilíbrio que queremos manter nas próximas edições.
O BIBLIOBLOGS AD CUMMULUS RADAR não pretende substituir a leitura dos textos originais. Ao contrário: sua função é justamente criar caminhos até eles.
Não queremos estabelecer hierarquias.
Queremos descobrir.
Queremos acompanhar.
Queremos compartilhar.
E, sobretudo, queremos ajudar a manter viva uma forma de circulação de ideias que, durante muitos anos, fez dos blogs um espaço importante para a divulgação, discussão e democratização dos estudos bíblicos.
Encontrou algum post que merece aparecer no próximo Radar? Envie a indicação para nós.
Até a próxima semana.
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