Estudos sobre Religião - Biblioblog

sexta-feira, 5 de junho de 2009

Saiu a última versão do Biblical Studies Carnival, que traça um paralelo de ótimas postagens no universo dos biblioblogs. E o nosso AD CUMMULUS aparece lá mais uma vez! Desta feita, a menção se fez através dos textos do Neemias sobre os testemunhos não-cristãos à Jesus no primeiro século.

Parabéns pelo texto, meu amigo Neemias! Queremos mais!


Ps - Recomendo a série de textos "Creating Jesus" da professora April DeConick em seu blog "The Forbididden Gospels". Nesta série de textos, a pesquisadora procura traçar uma linha explicativa que supostamente levaria à transformação do rabi Yeshua bar Yosef em Jesus Cristo - Deus. Eu estava pensando em elaborar um texto sobre o assunto. E eis que me deparo com esta coletânea. Vale a pena conferir. E penso que poderíamos elaborar por aqui as nossas versões.


No ano passado, eu havia dito que eu passei a acreditar realmente em Deus, quando assisti a série COSMOS do Carl Sagan!

E olha que essa imagem captada pelo telescópio Chandra ainda nem tinha aparecido! Intrigado com a beleza da imagem? Confira mais aqui!

quarta-feira, 3 de junho de 2009


O cenário está efervescente como nunca no campo dos estudos do messianismo judaico do século I em interface com o movimento de Jesus de Nazaré. Neste cenário, o aforisma de Nietzsche que dizia “os positivistas dizem: fatos é o que há; eu porém vos digo: fatos é o que não há, o que á são interpretações” se mostra sobremaneira aplicável.

Por exemplo, a grande controvérsia no momento é sobre a tábua descoberta com inscrições que podem significar uma imagem de um messias que morreria e ressuscitaria em três dias. Essa é a inscrição em Inglês : http://www.bib-arch.org/news/dssinstone_english.pdf
Temos aqui as linhas que estão no centro do debate, e as lacunas:




80. In three days […], I, Gabri’el …[??..],
81. the Prince of Princes,[…], narrow holes[??..] …[…]…

O estudo sobre o tablete foi publicado primeiramente na Biblical Archeological Rewiew por Ada Yardeni.

As possíveis fontes interpretativas mais envolvidas na perspectiva do “Apocalipse de Gabriel” são muito bem delineadas por Edward Cook, sobretudo como um “mix” de Zc. 11.8, Ageu 2.6 e Dn. 8.26, e possivelmente pelo que delinea, através de uma hermenêutica na perspectiva tipológica da Sod, usada por intérpretes judaicos das escrituras para descobrir um significado místico profundo em passagens.

Polêmicas quanto a leitura da inscrição em si , se puder realmente ser tomado como autêntica a leitura quanto à perspectiva da ressurreição no terceiro dia, diversas correntes já se formaram.

http://www.bpnews.net/BPFirstPerson.asp?ID=28435
http://www.reuters.com/article/newsOne/idUSL088075320080708
http://www.catholicnewsagency.com/new.php?n=13168
http://www.nysun.com/opinion/blurry-vision-of-gabriel/81384/
http://www.garyhabermas.com/articles/gabrielsvision1/gabrielsvision.htm
http://bibliahebraica.blogspot.com/2008/08/knohl-suffering-messiah.html
http://michaelsheiser.com/PaleoBabble/2009/11/more-media-paleobabble-on-the-gabriel-stone/

Para algumas mais extremistas, comprovaria, de forma relativamente similar como antes se polemizava por uma cristologia tomada diretamente de mitos pagãos, que a perspectiva messiânica dos primeiros cristãos foi criada folcloricamente através dessa visão do messias sofredor pré-cristã em Israel.

Outra, como a do Professor Israel Knohl, mais moderada, defende que disso se depreende com certeza a auto-consciência messiânica de Jesus, e sua missão direcionada para um empreendimento revolucionário voltado à libertação de Israel.

Ainda outras apontam para que isso solidifica ainda mais o enraizamento e contextualização do cristianismo nascente com o ambiente judaico de sua época, ainda que não se possa dizer nunca de um ambiente judaico “puro”, livre de qualquer helenismo; e que tal como outras perspectivas messiânicas, Jesus teria compartilhado pontos importantes e rejeitado outros igualmente importantes, seja na do messias davídico, o sacerdotal, o da figura escatológica, e a do messias catastrófico.

Ainda fica a pergunta, que por enquanto não se tem como extrapolar a simples conjectura, se esse entendimento tinha a ver com uma ressurreição antecipando e inaugurando a ressurreição escatológica, tal como os cristãos interpretavam.

De qualquer forma, algo que ficou bem estabelecido, é o apelo à modéstia e cautela ao trabalhar com a construção da figura histórica de Jesus. Muitos, inclusive uma boa parcela dos que aderem à primeira posição, tinham por si que seria impossível serem históricass as passagens em que Jesus falava sobre sua morte e ressurreição; seria uma projeção do Querigma, por parte dos evangelistas, em formato de narrativa histórica vívida. Por que não viam como ele poderia tecer essa consideração sobre seu destino; não concordavam com ele estabelecer uma cobrança dos discípulos para com esse entendimento profético, devendo ser uma fábula ajustada para um programa teológico. Isso dito com o ar de cientificidade de quem está examinando num microscópio eletrônico os cloroplastos de uma célula vegetal. Contudo, não corresponde às mesmas exigências de corroboração que esta atende, nem se infere de uma necessidade lógica. Apesar de ser uma hipótese que pode ser válida, foi tratada por alguns bons nomes como muito mais do que isso.

Como em qualquer abordagem, as teorias e modelos conceituais sempre viciam as apreensões dos dados. Contudo, como testes de verificação, instrumentos de aferição (não há microscópios eletrônicos que levem alguém a voltar ao passado e filmar o que acontecia) e análises estatísticas aqui são severamente limitados, sem contar as concorrências dentre paradigmas abrangentes, a margem para esse preenchimento aqui é maior do que em em ciências naturais.

De qualquer forma, não seria inusitado uma perspectiva, fora do cristianismo, do Messias como Servo Sofredor.

Dentre alguns exemplos, pode-se citar, na Pesikta Rabbati, uma coleção midráshica medieval compilada de tradições judaicas palestinas dos IV-V séculos, onde encontramos um comentário rabínico, com referências especialmente ao Salmo 22, sobre uma figura sofredora-redentora do Messias, que pode indicar uma dívida a uma tradição muito mais precoce, seguida pelo comentarista:





…in the year when the Messiah appears, the Patriarchs will ask him whether he is displeased with Israel because of the affliction he endured on their account…The Patriarchs will arise and say…thou didst suffer for the iniquities of our children, and terrible ordeals befell thee, such ordeal as did not befall earlier generations or later ones; for the sake of Israel thou didst become a laughingstock and a derision among the nations of the earth; and didst sit in darkness, in thick darkness, and thine eyes saw no light, and thy skin cleaved to thy bones, and thy body was as dry as a piece of wood; and thine eyes grew dim from fasting, and thy strength was dried up like a potsherd—all these afflictions on account of the iniquities of our children, all these because of thy desire to have our children benefit by that goodness which the Holy One, blessed be He, will bestow in abundance upon Israel…our true Messiah…will be shut up in prison, a time when the nations of the world will gnash their teeth at him every day, wink their eyes at one another in derision of him, nod their heads at him in contempt, open wide their lips to guffaw - loud course burst of laughter -, as is said All they that see me laugh me to scorn; they shoot out the lip, they shake the head ; My strength is dried up like a potsherd; and my tongue cleaveth to my throat; and thou layest me in the dust of death Moreover, they will roar over him like lions, as is said They open wide their mouth against me, as a ravening and roaring lion. I am poured out like water, and all my bones are out of joint; my heart is become like wax; it is melted in mine inmost parts.


Em 36.2, encontramos:




In the seven days prior to the coming of the Son of David, they'll iron beams and put on his neck until his body's and bend it and yell wail. Then your voice will sound in the highest heavens, and he says to God: 'Lord of the universe, as you can still support my strength? As my spirit, my soul, the members of my body will be support? I'm not flesh and blood?' It was because of the suffering of the Son of David that David expressed regret, saying, 'My strength is dried as a bit'. During this suffering, the One God, blessed be, will say "the Son of David 'Ephraim, my true Messiah, you took this suffering on himself long ago, during the six days of creation. And now, your pain is my pain'. The answer that the Messiah: 'Now I'm glad. It is enough to be a servant as his Lord'.

Também há uma obra judaica do século XIII, Zohar, na passagem 2:21 2a, em que ocorre uma ligação mística do sofrimento do Messias a Israel (algo bem próximo da perspectiva de Knohl). O livro The Messiah Texts de Raphael Patai apresenta uma história de Nachman de Bratslav, rabino do séc. XVIII, representando uma alegoria em que um vice-rei representaria Israel e o Messias identificados no sofrimento vicário.

Além dessa controvérsia, o importante é o grande panorama descortinado sobre o messianismo e a esperança judaica que foi marcante para a formação do cristianismo; cada vez mais, qualquer reducionismo ao tentar delimitar os traços para a formação do pensamento de Jesus defronta-se com algo que se apresenta como um caleidoscópio, e não uma lente monocular. Deixo um texto de Craig A. Evans que, embora não trate da polêmica da descoberta da inscrição mencionada aqui, é um explêndido subsídio para uma janela com visão ampla e geral sobre este assunto, que pode dar uma orientação consistente para reflexões concisas, considerando as questões-limites colocadas no horizonte da época: Messianic Hopes and Messianic Figures in Late Antiquity..

terça-feira, 2 de junho de 2009

No próximo dia 9 de junho, terça-feira, às 19:30, será realizado o lançamento do livro "Leituras Críticas Sobre Leonardo Boff", coletânea de 6 ensaios sobre os 70 anos de vida do renomado teólogo. O trabalho foi organizado pelo professor de Ciência Política Juareza Guimarães e editado pela editora da UFMG. Dentre os ensaistas, encontramos nomes como os de João Batista Libânio, Patrus Ananias e Rudolf von Sinner.

O lançamento, que faz parte do projeto "Sempre um Papo" contará com a presença do próprio Leonardo Boff e será realizado no auditório do Colégio Santo Agostinho em Belo Horizonte.

Meu conhecimento sobre a obra do ex-frei franciscano não é dos melhores. De qualquer forma, devo aparecer por lá!

sexta-feira, 29 de maio de 2009


É o que relata Ben Witherington III neste artigo da Biblical Archeology Review. De acordo com o texto, a pichação era um fenômeno frequente na antiguidade. Contrariando os meus próprios supostos de que a pichação era um fenômeno dos meios urbanos modernos, o texto mostra como exemplo os achados de Pompéia, no qual foram contabilizados mais de 10 mil pichações notadamente de cunho político.

Escavações em Esmirna revelaram as possíveis mais antigas pichações cristãs, datadas do século II d.C. Em um destes escritos, podemos ler "aquele que nos tem dado o Espírito" como referência a Jesus.

Estas descobertas mostram um grau bem mais elevado de capacidade literária no mundo antigo, transcendo as estimativas de até então. Surpreendente e intrigante!

Ps. Maiores informações também podem ser encontradas no blog do Ben Witherington.

quarta-feira, 27 de maio de 2009


Trago um pequeno comentário para desfazer um grande mal-entendido a respeito de uma suposta citação de um importante sistematizador da fé cristã. Muitas vezes tal citação, distorcida, tem sido usada para postular comentários de teores diversos.

Atribui-se a Tertuliano de Cartago a frase “Creio porque é absurdo”. Às vezes, chegam a dizer que deriva do original “credum ad absurdum”. Delfim Neto, ex-ministro da economia, chegou a atribuir a frase a Santo Agostinho, numa de suas colunas na revista Carta Capital.

A citação original em Latim, encontrada no livro A Carne de Cristo, 5, é:

Crucifixus est dei filius; non pudet, quia pudendum est. Et mortuus est dei filius; credibile prorsus est, quia ineptum est. Et sepultus resurrexit; certum est, quia impossibile.


A tradução seria:

O Filho de Deus foi crucificado: não me envergonho, porque vergonhoso é. O Filho de Deus morreu; é absolutamente crível, porque é insensato. Ele foi sepultado, e se levantou novamente; é certo, porque impossível.



Quinto Sétimo Florêncio Tertuliano nasceu na atual Tunis, por volta de 160 d.C. Se convertera ao cristianismo por volta de do ano 197. Trabalhara como advogado em Roma. Escritor prolífico e dotado de uma retórica extremamente arguta, teria sido responsável pela criação de 509 novos substantivos, 284 novos adjetivos e 161 verbos na língua latina[1]. Foi o criador do termo “Trindade”, do latim, Trinitas; introduzira o termo latino Persona para traduzir o grego Hypostasis.

Ele se engajara num debate acirrado acerca do relacionamento das matizes de racionalidade das filosofias gregas com a fé cristã. Tertuliano era bem cético a respeito, temendo uma deturpação do cristianismo, e se posicionou de forma bem crítica, de forma diametralmente oposta a de Clemente de Alexandria.

Escreve em Prescrição de Hereges, 7:

Ele [Paulo] esteve em Atenas e teve em sua entrevista com os filósofos familiarizando-se com aquela sabedoria humana que pretende conhecer a verdade. De fato ela apenas corrompe e está ela mesma dividida em suas próprias heresias múltiplas pela variedade de suas seitas mutuamente hostis. O que de fato tem Atenas a ver com Jerusalém? Que harmonia há entre a Academia e a Igreja? Que tem os hereges a ver com os cristãos? Nossa instrução vem do pórtico de Salomão, o mesmo que ensinou que o Senhor deve ser buscado com simplicidade de coração. Fora com todas as tentativas de produzir um cristianismo estóico, platônico, e dialético. Nós não queremos nenhuma disputa curiosa senão possuir a Cristo Jesus, nenhuma especulação senão desfrutar o evangelho. Com nossa fé, nós não desejamos nenhuma crença incrementada. Porque esta é a nossa crença fundamental: não há nada mais que não deveríamos crer além desta.


Nessa passagem que abrange a distorcida e desgastada citação, ele polemiza especialmente com o sistema aristotélico. Tertuliano declarara: Infeliz Aristóteles! Que inventou para estes homens a dialética, a arte de edificar e de demolir; uma arte tão evasiva nas suas proposições, tão forçada nas suas conjeturas, tão áspera nos seus argumentos, tão produtora de contendas...retraindo tudo e realmente não tratando de nada!

E usa o texto supracitado em latim para ironizar, ao estilo da retórica indissiocrática de Tertuliano, um argumento de Retórica, de Aristóteles, que justamente apregoava que uma afirmação pode vir a ter um caráter tão extraordinário que precisamente por isso pode atingir a verdade.


[1] – McGRATH, Alister. TEOLOGIA: sistemática, histórica e filosófica – uma introdução à teologia cristã. Shedd Publicações, Santo Amaro. 2007. pg 375.

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