Estudos sobre Religião - Biblioblog

quinta-feira, 19 de agosto de 2010




Resumo

Este artigo investiga a formação de diferentes configurações da expectativa messiânica judaica a partir de instrumentos provenientes da sociologia, da psicologia social e da sociologia da religião. Parte-se da hipótese de que as representações messiânicas não constituem categorias religiosas estáticas, mas formas historicamente situadas de elaboração simbólica de crises de ordem, experiências de opressão, derrotas coletivas, rupturas de identidade e crises de legitimidade das lideranças. Mobilizam-se, particularmente, as categorias de tensão estrutural, crenças generalizadas, privação relativa, memória coletiva, trauma cultural, identidade social, conflito intergrupal, autoridade e teodiceia. O objetivo não é estabelecer uma relação causal mecânica entre sofrimento histórico e produção de determinada figura messiânica, mas compreender as condições socioculturais que tornam determinadas configurações messiânicas mais plausíveis em contextos específicos. Sustenta-se que a pluralidade de figuras messiânicas — régias, sacerdotais, guerreiras, proféticas, judiciais e, posteriormente, sofredoras — pode ser compreendida como resultado de diferentes formas de definir aquilo que uma comunidade considera ter perdido e aquilo que entende como necessário para restaurar a ordem. Particular atenção é concedida à hipótese de que a figura do Messias sofredor representa uma transformação específica da lógica de legitimação: quando a vitória histórica deixa de poder funcionar como demonstração da eleição, o sofrimento e a fidelidade podem ser reinterpretados como fundamentos de uma futura vindicação. O estudo estabelece, assim, um modelo teórico destinado a ser posteriormente confrontado com a documentação judaica antiga, especialmente a literatura apocalíptica e os textos de Qumran.

Palavras-chave: Messianismo; judaísmo antigo; sofrimento; derrota; memória coletiva; identidade social; apocalíptica; sociologia da religião.



1 INTRODUÇÃO: O MESSIANISMO COMO PROBLEMA SOCIOLÓGICO

A investigação histórica acerca do messianismo judaico antigo costuma partir de uma pergunta aparentemente simples: o que é um Messias? O problema, entretanto, torna-se consideravelmente mais complexo quando se observa a documentação judaica produzida entre o período do Segundo Templo e a Antiguidade tardia. A literatura disponível não apresenta uma concepção única, uniforme e universalmente compartilhada acerca da figura messiânica. Encontram-se expectativas relacionadas à restauração da monarquia davídica, à renovação sacerdotal, à purificação do culto, à derrota dos inimigos de Israel, à restauração escatológica, ao julgamento dos ímpios, à revelação profética e, em determinados textos, a figuras cuja trajetória envolve sofrimento, rejeição ou morte. A própria pluralidade documental impede que se trate “o Messias” como se fosse uma categoria teológica homogênea desde suas origens. O problema histórico mais produtivo consiste, portanto, em perguntar por que diferentes comunidades judaicas imaginaram diferentes agentes de restauração e, sobretudo, quais experiências históricas e estruturas sociais tornaram determinadas configurações messiânicas mais inteligíveis ou plausíveis. O presente estudo propõe deslocar essa questão para o campo da sociologia histórica: em vez de considerar as figuras messiânicas exclusivamente como produtos de desenvolvimento teológico interno, examinaremos também as relações entre crise social, identidade coletiva, memória, autoridade, sofrimento e expectativa de restauração.

Esse deslocamento não significa reduzir o fenômeno religioso à estrutura social. Uma interpretação desse tipo seria teoricamente inadequada. Não se pode afirmar, por exemplo, que uma comunidade composta majoritariamente por sacerdotes produzirá necessariamente um Messias sacerdotal, ou que um grupo envolvido em conflito político produzirá necessariamente um Messias guerreiro. As representações religiosas são mediadas por tradições, textos, instituições, repertórios simbólicos e disputas internas. O que a sociologia pode oferecer é outra coisa: uma teoria das condições de possibilidade. Uma situação histórica pode produzir determinadas tensões; essas tensões precisam ser interpretadas; a interpretação mobiliza categorias culturais disponíveis; e o resultado pode ser uma nova configuração simbólica da realidade. Neil J. Smelser oferece um ponto de partida particularmente importante ao distinguir condições estruturais de tensão dos processos mediante os quais crenças generalizadas são produzidas e passam a orientar o comportamento coletivo (SMELSER, 1962, p. 47-130). Sua Theory of Collective Behavior organiza explicitamente essa passagem entre tensão estrutural e formação de crenças generalizadas.

A questão central deste artigo emerge exatamente desse ponto. Uma comunidade submetida à dominação estrangeira não necessariamente produz uma expectativa messiânica. Uma comunidade derrotada militarmente não necessariamente produz um Messias guerreiro. Uma comunidade submetida a uma crise sacerdotal não necessariamente produz um Messias sacerdotal. E uma comunidade que experimenta sofrimento não necessariamente produz um Messias sofredor. A relação entre experiência e representação é muito mais complexa. A hipótese que pretendemos desenvolver é, portanto, mais restrita: determinadas formas de crise podem produzir problemas específicos de legitimidade e identidade que tornam determinadas formas de imaginação messiânica particularmente adequadas à elaboração coletiva da experiência.

Nesse sentido, o Messias pode ser entendido como uma figura de condensação. Ele concentra em uma personagem ou em uma categoria escatológica aquilo que a comunidade acredita ter perdido e aquilo que espera recuperar. Quando a perda fundamental é a soberania, a figura redentora tende a assumir características régias; quando é a pureza do culto, pode assumir características sacerdotais; quando é a capacidade militar, pode adquirir configuração guerreira; quando é a orientação divina, pode assumir função profética. A questão do Messias sofredor, contudo, introduz uma dificuldade qualitativamente diferente. Ela emerge quando o próprio agente da restauração parece compartilhar a experiência de derrota que deveria superar. O problema deixa então de ser apenas “quem restaurará Israel?” e passa a ser “como pode permanecer legítimo aquele que sofreu a mesma derrota que deveria superar?”

É essa segunda questão que orientará o desenvolvimento teórico deste primeiro bloco.



2 TENSÃO ESTRUTURAL: QUANDO A ORDEM HISTÓRICA ENTRA EM CONTRADIÇÃO COM A ORDEM ESPERADA

A teoria da tensão estrutural oferece uma primeira ferramenta para compreender a relação entre experiência histórica e produção de expectativas coletivas. Smelser argumenta que determinados processos de comportamento coletivo podem ser compreendidos a partir da presença de condições estruturais que geram tensões e, posteriormente, de mecanismos mediante os quais essas tensões são interpretadas coletivamente (SMELSER, 1962, p. 47-66). A importância desse modelo para a presente investigação está menos em sua aplicação literal ao messianismo antigo do que na distinção metodológica que ele permite estabelecer entre situação objetiva e interpretação coletiva da situação. A existência de dominação, desigualdade, derrota ou instabilidade não produz automaticamente uma determinada resposta religiosa; ela constitui uma condição que pode tornar necessária uma elaboração interpretativa. A literatura de Smelser organiza essa questão precisamente a partir da tensão estrutural e da criação de crenças generalizadas, antes de avançar para as diferentes formas de comportamento coletivo.

Essa distinção é fundamental para a história do messianismo. O domínio estrangeiro, considerado isoladamente, é apenas um fato político. Ele adquire significado religioso quando é interpretado à luz de categorias normativas: promessa, eleição, aliança, terra, templo, justiça, realeza, pureza e restauração. A experiência da dominação pode então produzir uma contradição entre a representação normativa que uma comunidade possui de si mesma e sua situação histórica concreta. O grupo acredita ser portador de uma determinada ordem legítima, mas encontra-se subordinado a uma ordem que considera ilegítima. A tensão não está, portanto, apenas na relação entre governantes e governados; encontra-se também na relação entre aquilo que a comunidade acredita ser e aquilo que sua situação histórica parece demonstrar que ela é.

Essa perspectiva nos permite reformular o problema do messianismo. A questão não é simplesmente saber se determinado grupo foi oprimido, mas perguntar qual aspecto de sua identidade foi percebido como ameaçado pela opressão. Se o elemento central da identidade é a soberania, a restauração será imaginada politicamente. Se é o sacerdócio, será imaginada cultualmente. Se é a fidelidade religiosa, a questão poderá adquirir uma dimensão de julgamento e vindicação. A figura messiânica, nessa perspectiva, não constitui apenas uma resposta à opressão; constitui uma resposta ao tipo específico de perda que a opressão tornou visível.


Tabela 1 — Da condição histórica à expectativa messiânica

Condição históricaPerda percebidaCrise produzidaPossível configuração redentora
Dominação estrangeiraSoberaniaCrise políticaMessias régio/guerreiro
Crise sacerdotalPureza cultualCrise religiosaMessias sacerdotal
Fragmentação internaUnidadeCrise identitáriaRestaurador/reunificador
InjustiçaOrdem moralCrise de teodiceiaJuiz escatológico
Perseguição dos justosFidelidadeCrise de legitimidadeJusto vindicado
Derrota da liderançaCredibilidade do eleitoCrise de autoridadeLíder martirizado/vindicado
Sofrimento do líderRelação entre eleição e derrotaCrise messiânicaMessias sofredor/vindicado

Fonte: elaboração própria.


A última linha da tabela representa uma situação teoricamente mais complexa que as anteriores. O problema já não é simplesmente a existência de opressão. O problema é a incompatibilidade aparente entre eleição e fracasso. Uma comunidade pode aceitar que seus membros sofram; pode aceitar que um exército seja derrotado; pode aceitar que um governante seja removido. Torna-se mais difícil preservar uma expectativa messiânica quando aquele que deveria ser o instrumento da restauração é precisamente aquele que experimenta a derrota.

A partir desse ponto, a sociologia da tensão se encontra com a sociologia da autoridade. A derrota de um membro comum do grupo não necessariamente ameaça a estrutura simbólica do coletivo. A derrota do líder eleito pode ameaçá-la profundamente.


3 PRIVAÇÃO RELATIVA: EXPECTATIVA, PERDA E A DISTÂNCIA ENTRE O QUE É E O QUE DEVERIA SER

A teoria da privação relativa desenvolvida por Ted Robert Gurr permite avançar um passo nessa análise. Em Why Men Rebel, Gurr dedica-se à relação entre privação relativa e impulso para a violência, distinguindo a situação objetiva da percepção de discrepância entre expectativas e condições efetivamente alcançadas (GURR, 1970, p. 22-88). Para a presente investigação, sua contribuição principal está na noção de que o descontentamento social não depende exclusivamente de condições absolutas, mas também da relação entre aquilo que um grupo acredita que deveria possuir e aquilo que efetivamente possui.

A aplicação dessa formulação ao judaísmo antigo deve ser realizada com cautela. Não se trata de afirmar que o conceito de Gurr possa ser simplesmente transportado para sociedades antigas. Sua utilidade é heurística: ele permite pensar uma estrutura de discrepância entre expectativa normativa e realidade histórica. Uma comunidade judaica não avaliava sua situação exclusivamente por indicadores materiais ou militares. Sua percepção estava mediada por uma tradição histórica e religiosa que atribuía significado à eleição de Israel, à terra, à aliança, à dinastia davídica, ao templo e à justiça divina. Consequentemente, uma condição política podia ser percebida como muito mais grave do que sua dimensão material imediata sugeriria. A discrepância relevante poderia ser aquela entre a identidade normativa atribuída a Israel e sua condição histórica concreta.

É nesse ponto que a derrota adquire dimensão religiosa. A pergunta não é simplesmente “por que perdemos uma guerra?”, mas “como podemos ser aquilo que acreditamos ser se somos derrotados?”. A pergunta produz uma tensão de segunda ordem: a derrota ameaça não apenas o poder, mas a interpretação da própria identidade.


Diagrama 1 — Privação relativa e expectativa messiânica

IDENTIDADE NORMATIVA
EXPECTATIVA DE ORDEM
─────────────────
DISCREPÂNCIA
EXPERIÊNCIA HISTÓRICA
PRIVação / DERROTA
CRISE INTERPRETATIVA
┌──────┴──────┐
▼ ▼
ABANDONO REINTERPRETAÇÃO
DA EXPECTATIVA DA DERROTA
EXPECTATIVA DE
RESTAURAÇÃO

Fonte: elaboração própria.

A teoria de Gurr não explica o messianismo; ela ajuda a compreender por que expectativas frustradas podem adquirir intensidade política e emocional. Para a presente investigação, sua contribuição principal está justamente na noção de discrepância. O Messias pode ser interpretado como uma resposta simbólica à discrepância entre a ordem normativa e a ordem empiricamente experimentada.

A hipótese precisa, contudo, permanecer limitada. Não podemos concluir que privação relativa necessariamente gera messianismo. Ela pode produzir revolta, acomodação, migração, apatia, reforma religiosa, violência, ascetismo ou inúmeras outras respostas. O que nos interessa é identificar uma das possibilidades: a transformação da discrepância histórica em expectativa de restauração escatológica.



4 MEMÓRIA COLETIVA: A DERROTA NÃO É APENAS LEMBRADA, É RECONSTRUÍDA

A dimensão temporal do problema exige a incorporação da teoria da memória coletiva de Maurice Halbwachs. Em On Collective Memory, Halbwachs sustenta que a memória não opera simplesmente como armazenamento individual do passado, mas se organiza dentro de quadros sociais. A edição de 1992, traduzida e organizada por Lewis A. Coser, estrutura a discussão a partir de “The Social Frameworks of Memory”, incluindo “The Reconstruction of the Past” e, posteriormente, “Religious Collective Memory” (HALBWACHS, 1992, p. 35-119). A estrutura da edição pode ser conferida bibliograficamente.

Essa formulação é decisiva porque permite compreender que acontecimentos históricos não possuem um único significado permanente. A memória coletiva reconstrói o passado a partir das necessidades, posições e categorias do presente. O passado é, portanto, continuamente reorganizado. A memória de uma derrota pode ser transformada em memória de humilhação, martírio, punição, prova, resistência ou promessa. O acontecimento histórico permanece, mas sua função dentro da identidade coletiva pode mudar.

A aplicação dessa teoria ao messianismo permite compreender por que acontecimentos de derrota podem adquirir significado escatológico somente posteriormente. Uma comunidade não precisa formular imediatamente uma interpretação messiânica de uma derrota. Pode fazê-lo décadas ou gerações depois, quando o acontecimento passa a ser integrado a uma narrativa maior sobre a identidade do grupo. A derrota pode então ser reclassificada como parte de uma história de sofrimento que antecede a restauração.

Essa dimensão é particularmente importante quando consideramos figuras de liderança. A morte de um líder pode ser inicialmente lembrada como fracasso. Posteriormente, a mesma morte pode ser reinterpretada como testemunho de fidelidade. O processo não exige alteração do acontecimento, mas alteração da narrativa que o organiza.

Halbwachs é especialmente útil aqui porque a memória religiosa não é simplesmente memória de acontecimentos religiosos; ela é uma forma de reconstruir o passado dentro de quadros coletivos de significado. A existência de uma seção especificamente dedicada à memória religiosa demonstra a importância que o autor atribui à relação entre memória, tradição e organização social da experiência (HALBWACHS, 1992, p. 84-119).


Tabela 2 — Reinterpretações possíveis da derrota

AcontecimentoMemória negativaReinterpretação religiosa
Derrota militarFracassoProva
Morte do líderFim da missãoMartírio
PerseguiçãoImpotênciaFidelidade
ExílioPerdaEspera
HumilhaçãoDesonraSofrimento do justo
DominaçãoDerrotaSituação provisória
Ausência de restauraçãoFrustraçãoAdiamento escatológico

Fonte: elaboração própria.


A partir dessa perspectiva, podemos compreender a importância da escatologia. Ela oferece uma estrutura temporal capaz de separar o presente da derrota do futuro da vindicação. O fracasso histórico não precisa ser negado; pode ser deslocado para uma etapa intermediária da narrativa.



5 TRAUMA CULTURAL: QUANDO O SOFRIMENTO ATINGE A IDENTIDADE DO GRUPO

A teoria do trauma cultural de Jeffrey C. Alexander aprofunda essa análise ao demonstrar que acontecimentos traumáticos não produzem automaticamente uma memória coletiva determinada. O trauma cultural constitui um processo de construção de significado no qual uma coletividade interpreta determinado acontecimento como ameaça fundamental à sua identidade. Alexander estrutura esse processo em torno da construção de narrativas, grupos portadores, audiências, atribuição de responsabilidade, classificação cultural, memória e revisão da identidade coletiva (ALEXANDER, 2004, p. 1-30). O capítulo apresenta explicitamente esses mecanismos e ocupa as pp. 1-30 da edição de Cultural Trauma and Collective Identity.

A relevância dessa teoria para o presente estudo é enorme porque ela impede uma interpretação naturalista do sofrimento. Não é o acontecimento em si que determina o trauma cultural; é o processo social por meio do qual o acontecimento passa a ser interpretado como ameaça à identidade coletiva. Alexander desenvolve deliberadamente uma perspectiva construtivista, segundo a qual o trauma emerge de processos de produção social de significado.

Isso permite formular uma distinção metodológica decisiva:

sofrimento histórico não é sinônimo de trauma cultural; trauma cultural é uma forma socialmente construída de interpretar sofrimento histórico.

Essa distinção é essencial para a análise do messianismo. Não devemos simplesmente localizar períodos de grande sofrimento e concluir que eles produziram expectativas messiânicas. Devemos investigar como comunidades específicas interpretaram esses sofrimentos, quem foi responsabilizado, como a identidade do grupo foi afetada e quais narrativas foram utilizadas para transformar a experiência em memória coletiva.

Alexander também oferece uma ferramenta particularmente relevante para compreender a passagem da experiência individual para a representação coletiva. O trauma cultural envolve uma narrativa na qual a dor de determinados indivíduos ou grupos passa a ser apresentada como ameaça à coletividade mais ampla (ALEXANDER, 2004, p. 1-30).

Essa operação pode ajudar a compreender a emergência de uma figura messiânica sofredora. Se uma liderança for percebida como condensação da identidade coletiva, seu sofrimento poderá ser narrado não apenas como experiência pessoal, mas como representação da própria experiência da comunidade.


Diagrama 2 — Da experiência traumática à representação messiânica

ACONTECIMENTO
SOFRIMENTO
INTERPRETAÇÃO COLETIVA
AMEAÇA À IDENTIDADE
NARRATIVA DE MEMÓRIA
PERSONIFICAÇÃO DA CRISE
FIGURA DE LIDERANÇA
SOFRIMENTO REPRESENTATIVO
POSSÍVEL VINDICAÇÃO
ESCATOLÓGICA

Fonte: elaboração própria.


Devemos novamente evitar uma extrapolação indevida. Alexander está construindo uma teoria sociológica geral do trauma cultural, não uma teoria específica do judaísmo antigo. Sua contribuição aqui é heurística: permite formular perguntas que posteriormente precisam ser respondidas pela documentação antiga.



6 IDENTIDADE SOCIAL E A CONSTRUÇÃO DO “NÓS” E DO “OUTRO”

A experiência de opressão também produz transformações na definição dos limites do grupo. A teoria da identidade social de Henri Tajfel e John Turner fornece um instrumento central para compreender esse processo. Em “An Integrative Theory of Intergroup Conflict”, os autores discutem as relações entre categorização social, identidade, comparação intergrupal e conflito (TAJFEL; TURNER, 1979, p. 33-47).

O ponto relevante para nossa investigação é que identidades coletivas não existem isoladamente. Elas são construídas também por meio de diferenciações. A definição do “nós” está frequentemente relacionada à definição de um “eles”. Em situações de conflito, essas fronteiras podem tornar-se particularmente salientes. Entretanto, a ameaça externa não necessariamente elimina conflitos internos. Pelo contrário: ela pode intensificar disputas sobre quem representa autenticamente o grupo.

Esse aspecto é fundamental para o estudo do messianismo judaico. A pergunta “quem nos salvará?” está intimamente relacionada à pergunta “quem somos nós?”. O Messias pode funcionar como uma representação condensada do grupo ideal. O rei representa um Israel soberano; o sacerdote, um Israel purificado; o guerreiro, um Israel capaz de resistir; o profeta, um Israel novamente orientado por Deus; o juiz, um Israel submetido à justiça divina.

A pluralidade messiânica pode, portanto, ser parcialmente compreendida como pluralidade de projetos de identidade coletiva.


Tabela 3 — Problema coletivo e configuração messiânica

Problema centralIdentidade ameaçadaAgente idealizado
Perda da soberaniaIsrael políticoRei
Dominação militarIsrael combatenteGuerreiro
Corrupção cultualIsrael sacerdotalSacerdote
FragmentaçãoIsrael como comunidadeReunificador
InjustiçaIsrael como comunidade justaJuiz
Perda da revelaçãoIsrael como povo orientado por DeusProfeta
Sofrimento dos fiéisIsrael como povo justoJusto vindicado
Derrota da liderançaLegitimidade do eleitoLíder sofredor/vindicado

Fonte: elaboração própria.



A última linha é decisiva. O Messias sofredor pode representar não apenas aquilo que o grupo espera tornar-se, mas aquilo que o grupo experimenta. O rei guerreiro encontra-se acima da condição presente da comunidade porque possui a força que ela perdeu. O Messias sofredor, ao contrário, pode encontrar-se profundamente identificado com a própria condição da comunidade.

Essa característica produz uma mudança fundamental na estrutura da representação messiânica: a distância entre salvador e comunidade diminui.



7 AUTORIDADE, CARISMA E A CRISE PRODUZIDA PELA DERROTA DA LIDERANÇA

O problema torna-se ainda mais complexo quando a figura messiânica é compreendida como liderança. A sociologia da religião de Max Weber oferece aqui uma ferramenta indispensável, particularmente por sua análise da autoridade religiosa, do profeta e dos problemas de teodiceia. Em The Sociology of Religion, a discussão sobre o profeta e a seção dedicada à teodiceia e à salvação constituem pontos fundamentais para compreender a relação entre autoridade religiosa, sofrimento e legitimação (WEBER, 1963).

O conceito weberiano de autoridade carismática permite compreender por que o fracasso de um líder pode ser particularmente destrutivo para uma comunidade. A autoridade carismática depende do reconhecimento de qualidades extraordinárias e de uma missão excepcional. Se o líder é considerado portador de uma missão divina, sua derrota pode gerar uma contradição entre a crença na missão e a evidência empírica do fracasso.

É precisamente nessa situação que a narrativa religiosa precisa trabalhar. Uma possibilidade é concluir que o líder não era verdadeiramente eleito. Outra é concluir que a missão fracassou. Uma terceira consiste em reinterpretar o fracasso como aparente. O líder foi derrotado no plano histórico, mas será vindicado em uma ordem futura.

O problema pode ser representado da seguinte maneira:



Diagrama 3 — Crise de autoridade da liderança messiânica

ELEIÇÃO
MISSÃO REDENTORA
EXPECTATIVA
DE ÊXITO
DERROTA
┌────────┴────────┐
▼ ▼
DESLEGITIMAÇÃO REINTERPRETAÇÃO
│ │
▼ ▼
“NÃO ERA O “A DERROTA
ELEITO” É PROVISÓRIA”
VINDICAÇÃO
FUTURA

Fonte: elaboração própria.


A segunda solução é particularmente importante para a história do messianismo porque permite preservar a eleição sem negar a derrota. Ela cria uma nova temporalidade: a verdade da eleição não precisa ser demonstrada imediatamente pela vitória histórica.

É exatamente aqui que o sofrimento pode adquirir uma função nova. Se a vitória deixa de ser o critério imediato de legitimidade, a fidelidade diante da derrota pode assumir esse papel.



8 TEODICEIA: O PROBLEMA DO JUSTO QUE SOFRE

A questão da liderança derrotada conduz diretamente ao problema clássico da teodiceia. Weber trata a teodiceia em conexão com a necessidade de explicar a distribuição empiricamente observável do sofrimento e da felicidade em relação às concepções religiosas de justiça, salvação e ordem (WEBER, 1963). A importância desse problema para a presente investigação está em sua estrutura elementar: como explicar a existência do sofrimento quando o sofredor é precisamente aquele que deveria estar sob proteção ou favor divino?

A pergunta torna-se particularmente aguda quando aplicada a uma comunidade considerada eleita. Se Deus é justo, por que os justos sofrem? Se Deus é poderoso, por que os injustos triunfam? E, quando essa questão é aplicada a Israel, o problema adquire uma dimensão coletiva: por que o povo eleito é derrotado?

A religião não precisa necessariamente resolver essa contradição pela negação do sofrimento. Pode reinterpretá-lo. O sofrimento pode ser punição, disciplina, teste, consequência da liberdade humana, mistério divino ou etapa anterior à recompensa. A solução que nos interessa é aquela na qual o sofrimento do justo é integrado à própria narrativa de sua legitimidade.

Nesse ponto, devemos introduzir uma distinção decisiva para a segunda parte do artigo:

sofrimento não é necessariamente redenção.

Um justo pode sofrer e ser posteriormente vindicado sem que seu sofrimento tenha qualquer função redentora para terceiros. Um profeta pode ser perseguido sem que sua perseguição constitua parte da missão salvífica. Um líder pode morrer e ser posteriormente exaltado sem que sua morte seja apresentada como instrumento de expiação.

Portanto, a existência de sofrimento em uma figura escatológica não basta para estabelecer a categoria de Messias sofredor em sentido forte.

A questão correta será:

O sofrimento constitui apenas uma circunstância da trajetória do personagem ou passa a integrar sua função escatológica?

Essa distinção será central quando analisarmos os textos judaicos.



9 UMA TIPOLOGIA SOCIOLÓGICA DAS FIGURAS MESSIÂNICAS

A discussão desenvolvida até aqui permite construir uma tipologia que não pretende classificar exaustivamente todas as figuras messiânicas da literatura judaica, mas relacionar diferentes configurações a diferentes problemas de ordem coletiva.

Tabela 4 — Tipologia sociológica das expectativas messiânicas

TipoProblema dominanteFunçãoCritério de legitimidade
RégioPerda da soberaniaRestaurar o governoVitória/restauração
GuerreiroDominaçãoDerrotar o inimigoPoder militar
SacerdotalCrise cultualPurificar o cultoSantidade/linhagem
ProféticoCrise de orientaçãoRevelar a vontade divinaRevelação
JudicialInjustiçaJulgar os ímpiosJustiça
RestauradorFragmentaçãoReunificarUnidade
CelesteIncapacidade humanaIntervir transcendentementeAutoridade divina
Justo vindicadoSofrimento dos fiéisDemonstrar justiçaVindicação
SofredorDerrota da liderançaTransformar derrota em fidelidadeSofrimento/vindicação
Redentor sofredorCrise radical de ordemProduzir restauração por meio do sofrimentoFunção redentora

Fonte: elaboração própria.



A tipologia mostra que a categoria “Messias sofredor” deve ser utilizada com cautela. Há uma diferença entre o Messias que sofre e o Messias cuja missão envolve o sofrimento. A segunda categoria é muito mais forte.

Essa distinção também evita um problema recorrente na história comparada das religiões: identificar retrospectivamente qualquer personagem que morra ou seja perseguido como precursor de uma concepção posterior de sofrimento redentor. A metodologia adotada aqui exige que cada etapa seja demonstrada textualmente.

Podemos representar essa progressão da seguinte forma:



Diagrama 4 — Graus de integração do sofrimento à figura messiânica

FIGURA MESSIÂNICA
SOFRE
É PERSEGUIDA
SOFRIMENTO É PROVA
DE FIDELIDADE
SOFRIMENTO POSSUI
FUNÇÃO ESCATOLÓGICA
SOFRIMENTO POSSUI
FUNÇÃO REDENTORA

Fonte: elaboração própria.

Somente os dois últimos níveis permitem falar, em sentido forte, de uma concepção de Messias sofredor. Essa gradação será fundamental para a análise documental posterior.



10 A HIPÓTESE DO MESSIAS SOFREDOR: DA DERROTA À VINDICAÇÃO

Podemos agora reunir os elementos desenvolvidos nas seções anteriores. Uma comunidade experimenta uma ruptura entre sua ordem normativa e sua situação histórica. A tensão produz uma necessidade de interpretação. A discrepância entre expectativas e condições efetivas pode intensificar a percepção da perda. O acontecimento é posteriormente incorporado à memória coletiva. Se a experiência atingir a identidade do grupo, pode adquirir características de trauma cultural. A ameaça externa pode reforçar as fronteiras entre “nós” e “eles”. Se uma liderança considerada legítima for derrotada, surge uma crise adicional: a própria autoridade do eleito parece ter sido desmentida pelos acontecimentos.

Nesse ponto, a comunidade dispõe de diferentes soluções interpretativas. Pode abandonar o líder. Pode substituí-lo. Pode reinterpretar sua missão. Pode transformar sua morte em martírio. Pode deslocar sua vindicação para o futuro. Pode afirmar que o fracasso aparente constitui parte de uma trajetória maior. A emergência de uma figura messiânica sofredora deve ser procurada precisamente nesse espaço de possibilidades.

A hipótese central deste estudo pode então ser formulada com rigor:

A experiência coletiva da derrota, da perseguição e do fracasso de lideranças não produz mecanicamente uma figura messiânica sofredora; entretanto, pode criar uma crise de legitimidade que favorece a reinterpretação da relação entre eleição, sofrimento e vitória. Quando tradições do justo perseguido, da vindicação futura e da restauração escatológica estão disponíveis, o sofrimento pode deixar de funcionar como refutação da eleição e passar a funcionar como evidência de fidelidade.

Essa hipótese é mais forte do que uma simples relação entre sofrimento e messianismo, mas suficientemente limitada para permanecer historicamente testável. Ela não afirma que todos os Messias sofredores nasceram de experiências concretas de derrota. Tampouco afirma que uma determinada configuração social produz necessariamente uma determinada figura religiosa. Afirma apenas que determinados problemas de legitimidade tornam inteligível uma transformação na qual o fracasso deixa de ser incompatível com a eleição.

A diferença entre o Messias vitorioso e o Messias sofredor pode ser sintetizada em duas lógicas distintas:

Diagrama 5 — Duas lógicas de legitimação messiânica

MESSIAS VITORIOSO

ELEIÇÃO
MISSÃO
PODER
VITÓRIA
VINDICAÇÃO
MESSIAS SOFREDOR

ELEIÇÃO
MISSÃO
FIDELIDADE
PERSEGUIÇÃO
SOFRIMENTO
VINDICAÇÃO FUTURA

Fonte: elaboração própria.

No primeiro modelo, a legitimidade tende a ser demonstrada pela transformação da realidade histórica. No segundo, a legitimidade pode ser demonstrada pela fidelidade diante da impossibilidade imediata de transformar essa realidade.

Essa inversão é sociologicamente significativa. O líder que vence confirma sua eleição mediante a vitória. O líder que sofre precisa ser legitimado mediante uma narrativa que explique por que sua derrota não invalida sua eleição. A comunidade precisa, portanto, produzir uma nova relação entre presente e futuro, fracasso e fidelidade, sofrimento e legitimidade.

A memória coletiva desempenha papel decisivo nessa operação porque permite que o sofrimento seja preservado como elemento constitutivo da identidade do grupo. O trauma cultural, por sua vez, oferece um modelo para compreender como determinados acontecimentos passam a ser interpretados como ameaças à identidade coletiva. A identidade social explica a necessidade de diferenciar o grupo de seus adversários. A teoria da privação relativa esclarece a discrepância entre expectativas e realidade. A teoria da tensão estrutural explica como condições sociais podem gerar pressão para a produção de novas interpretações. E a sociologia da religião de Weber permite compreender a necessidade de atribuir sentido ao sofrimento e preservar a legitimidade religiosa diante de uma ordem histórica aparentemente injusta.

Nenhuma dessas teorias, isoladamente, explica o Messias sofredor. É justamente a articulação entre elas que permite construir uma hipótese mais sofisticada.

Diagrama 6 — Modelo integrado

DOMINAÇÃO / DERROTA
TENSÃO ESTRUTURAL
PRIVação RELATIVA
CRISE DE EXPECTATIVAS
AMEAÇA À IDENTIDADE
MEMÓRIA COLETIVA
SOFRIMENTO COLETIVO
CRISE DA LIDERANÇA
CRISE DE LEGITIMIDADE
┌───────┴────────┐
▼ ▼
DESLEGITIMAÇÃO REINTERPRETAÇÃO
JUSTO SOFREDOR
FIDELIDADE
VINDICAÇÃO FUTURA
FIGURA ESCATOLÓGICA
MESSIAS SOFREDOR

Fonte: elaboração própria.

O modelo deve ser compreendido como uma sequência heurística, não como uma cadeia causal universal. Uma comunidade pode interromper o processo em qualquer ponto. A tensão pode produzir revolta sem produzir messianismo. A derrota pode produzir abandono da expectativa. O sofrimento pode produzir martírio sem produzir messianismo. A memória pode apagar o líder em vez de preservá-lo. A identidade coletiva pode ser reconstruída sem recorrer à escatologia. E uma figura messiânica pode surgir sem que possamos demonstrar qualquer relação direta com uma crise social específica.

O que o modelo permite afirmar é algo mais modesto e, justamente por isso, mais útil: ele identifica um conjunto de mecanismos sociológicos mediante os quais a experiência da derrota pode ser convertida em expectativa de restauração e, em determinadas circunstâncias, em uma representação messiânica na qual o sofrimento do líder deixa de constituir objeção à sua legitimidade.

Essa conclusão nos conduz diretamente ao problema histórico do segundo bloco.

Não basta encontrar no judaísmo antigo personagens que sofram. Será necessário determinar se esses personagens são messiânicos; se são messiânicos, qual é sua função; se sofrem, qual é a função de seu sofrimento; se são mortos, qual é o significado de sua morte; e, sobretudo, se sua derrota é reinterpretada como parte de uma trajetória de vindicação.

A distinção entre justo sofredor, mártir, líder perseguido, figura escatológica sofredora e Messias sofredor será, portanto, o eixo metodológico da próxima etapa.

É nesse ponto que o problema sociológico encontra o problema histórico-textual. A teoria produziu uma hipótese; agora é necessário submetê-la à documentação.



CONSIDERAÇÕES FINAIS

A análise realizada permite abandonar duas explicações simplistas sobre a origem das expectativas messiânicas. A primeira é a explicação puramente teológica, segundo a qual diferentes figuras messiânicas seriam simplesmente expressões sucessivas de uma doutrina religiosa preexistente. A segunda é o reducionismo sociológico, segundo o qual cada configuração religiosa seria mero reflexo das condições materiais ou políticas de determinado grupo. Ambas as perspectivas são insuficientes. A primeira ignora a diversidade histórica das comunidades e das experiências de crise; a segunda ignora a autonomia relativa dos sistemas simbólicos e das tradições religiosas.

O modelo proposto neste artigo situa-se entre esses extremos. As experiências históricas produzem tensões e problemas; as tradições culturais oferecem repertórios de interpretação; as comunidades selecionam, reorganizam e transformam esses repertórios; e as novas configurações simbólicas passam a orientar a maneira como o grupo compreende seu passado, seu presente e seu futuro. O Messias é, nesse sentido, simultaneamente personagem religioso e representação social da restauração esperada.

A pluralidade messiânica deixa então de parecer uma anomalia. Ela se torna teoricamente inteligível. Comunidades diferentes podem formular diferentes Messias porque enfrentam diferentes problemas de ordem. A comunidade cuja perda fundamental é a soberania imagina a restauração da soberania. Aquela cuja crise é cultual pode imaginar a restauração sacerdotal. Aquela cuja experiência central é a perseguição pode enfatizar o justo perseguido. Aquela que experimenta a derrota de sua própria liderança pode precisar elaborar uma nova relação entre eleição e fracasso.

É nesse último ponto que emerge a hipótese do Messias sofredor.

O sofrimento, nessa perspectiva, não deve ser compreendido inicialmente como uma categoria teológica abstrata, mas como um problema de legitimidade. Como pode permanecer legítimo aquele que perdeu? A resposta pode consistir na transformação do significado da derrota. O líder não perdeu porque sua eleição era falsa; perdeu porque a ordem presente é injusta. Não foi abandonado por Deus; sua vindicação foi deslocada para o futuro. Não é a vitória imediata que demonstra sua legitimidade; é sua fidelidade diante do sofrimento.

A hipótese é suficientemente específica para ser confrontada com a documentação. Precisaremos agora perguntar se os textos judaicos efetivamente realizam essa operação simbólica. Será necessário estabelecer, texto por texto, se existe uma associação entre messianidade, sofrimento, derrota, morte, fidelidade e vindicação.

É justamente nesse ponto que a literatura de Qumran, a tradição apocalíptica judaica e, posteriormente, textos como o Sefer Zerubbabel se tornam decisivos. Sua função, entretanto, não será ilustrar uma teoria já comprovada. Ao contrário: eles serão o campo empírico no qual a hipótese sociológica deverá ser testada, corrigida ou eventualmente rejeitada.

O primeiro bloco, portanto, chega ao seu ponto de encerramento com uma proposição deliberadamente aberta: o Messias sofredor pode ser compreendido como uma solução simbólica para uma crise específica de legitimidade — aquela produzida quando a comunidade precisa preservar a eleição e a esperança de restauração diante da experiência concreta da derrota.

O problema histórico subsequente será verificar se essa solução pode efetivamente ser encontrada na documentação judaica anterior ao cristianismo e, sobretudo, em que momento, em quais comunidades e mediante quais tradições o sofrimento deixa de ser simplesmente uma característica do justo perseguido para tornar-se parte constitutiva da identidade e da missão de uma figura messiânica.


A segunda parte desse artigo pode ser encontrada aqui: 

A FORMAÇÃO DO MESSIAS SOFREDOR: SOFRIMENTO, DERROTA E VINDICAÇÃO NA TRADIÇÃO JUDAICA - Parte II


REFERÊNCIAS

ALEXANDER, Jeffrey C. Toward a theory of cultural trauma. In: ALEXANDER, Jeffrey C.; EYERMAN, Ron; GIESEN, Bernhard; SMELSER, Neil J.; SZTOMPKA, Piotr. Cultural trauma and collective identity. Berkeley: University of California Press, 2004. p. 1-30.

GURR, Ted Robert. Why men rebel. Princeton: Princeton University Press, 1970.

HALBWACHS, Maurice. On collective memory. Translated and edited by Lewis A. Coser. Chicago: University of Chicago Press, 1992.

SMELSER, Neil J. Theory of collective behavior. New York: The Free Press, 1962.

TAJFEL, Henri; TURNER, John C. An integrative theory of intergroup conflict. In: AUSTIN, William G.; WORCHEL, Stephen (ed.). The social psychology of intergroup relations. Monterey: Brooks/Cole, 1979. p. 33-47.

WEBER, Max. The sociology of religion. Translated by Ephraim Fischoff. Boston: Beacon Press, 1963.

quarta-feira, 18 de agosto de 2010


Observaste o procedimento correto, caro Plinio, lidando com os casos daqueles que foram denunciados a ti como cristãos. Pois não é possível estabelecer uma regra geral para servir de parâmetro. Eles não devem ser perseguidos. Se eles forem denunciados, e for provada a culpa, eles deverão ser punidos, com esta ressalva, qualquer um que negar que é cristão, e provar isso, istoé, adorando os nossos deuses, mesmo que tenha sido suspeito no passado, obterá perdão mediante seu arrependimento. Mas acusações anônimas não devem ser admitidas nos processos. Por isso, além de perigoso, não se coaduna com o espírito de nossa época. [Imperador Trajano para Plínio, o Moço; em Cartas 10:97]
A carta acima, escrita em 110 DC, faz parte da ampla correspondência entre o Imperador Trajano (98-117 DC), e Plínio, o Moço, então governando a província da Bitínia. Entre os assuntos tratados, está a questão dos cristãos. Como já discutimos aqui, Plínio encontrou um grande número deles na província, e não sabendo muito bem o que fazer, e tendo recebido algumas denúncias, interrogou os acusados. Os que confessaram (ser cristãos), foram interrogados segunda e terceira vez, agora sob ameaça, e os que não se retrataram foram executados (ou enviados a Roma, se fossem cidadãos romanos), pois como o próprio Plinio afirma "independente da natureza de sua crença, teimosia e obstinação inflexível certamente merecem punição".
Em certo momento, entretanto, Plínio começa a questionar: "devo puni-los apenas porque usam o nome de cristãos, ou há algum crime associado ao nome que mereça punição?". Para esclarecer suas dúvidas, interroga cristãos que se retrataram ou tinham abandonado o grupo anos antes, e descobre os "horríveis segredos" da seita :"se reuniam num dia fixo, antes de nascer do sol, cantar um cântico a Cristo como seu deus, e se comprometiam sob juramento, não com algum crime, mas a abandonar o furto, o roubo, o adultério, a infidelidade e não se apossar dos bens a eles confiados. Findos estes ritos, tinham o costume de se separarem e de se reunirem novamente para uma refeição comum e inocente". E mesmo essas reuniões "secretas" deixaram de ser realizadas quando "após a publicação de um edito teu onde, segundo as tuas ordens, se proibiam as associações secretas". Plínio, inconformado, e ainda incrédulo, entende ser necessário "extrair a verdade", e manda interrogar duas escravas, que eram líderes cristãs, chamadas diaconisas, sob tortura (como rezava o bom direito romano de então), e, se torna ainda mais perplexo em descobrir que embora se tratasse de uma superstição depravada, disso ele tinha certeza, dificilmente podia ser considerada perigosa, pois não era subversiva ou revolucionária, ou de alguma forma criminosa. Plínio decide então suspender o inquérito e pergunta a Trajano, O que eu faço agora?

Trajano endossa a percepção de Plínio, e acrescenta que os meios estatais não deveriam ser utilizados contra os cristãos, uma vez que nenhum crime ou ameaça concreta estavam associados ao grupo . Somente se provocados os oficiais romanos deveriam agir. E denúncias anônimas sequer deveriam ser consideradas. Mesmo após a denúncia, todas as oportunidades eram concedidas para que o acusado se livrasse do castigo. Trajano enfatiza que o que se demandava dos cristãos, se denunciados, é que obedecessem as determinações dos magistrados e adorassem aos deuses romanos.

Se como diz Plínio os cristãos não ofereciam perigo (e inclusive faziam juramentos de não fazer o mal), pode-se questionar a lógica de tal orientação, afinal:
Mas porque os cristãos foram perseguidos?
Paula Frederiksen, Professora da Universidade de Boston, explica que as primeiras perseguições contra os cristãos foram aleatórias, esporádicas e locais. Em muitos casos, os cristãos tinham relativa liberdade, até mesmo visitando e assistindo seus irmãos de fé presos, havendo casos de pessoas que mesmo sob custodia, como Inácio de Antioquia, visitavam igrejas. Isso ilustra o que o esta escrito com todas as letras na correspondência entre Plinio e Trajano: ser cristão não era motivo para alguém ser preso [1].

Já o Professor Graeme Clarke, da Universidade Nacional da Austrália, observa que a natureza não sistemática e esporádica das perseguições aos cristãos era semelhante a observada contra outros grupos considerados exóticos (astrólogos, adivinhos, magicos e assemelhados). Os cristãos estavam ipso facto, potencialmente, no lado errado da Lei, mas para que houvesse perseguição efetiva havia necessidade de que as circunstâncias locais favorecessem essa possibilidade, especialmente como resultado de agitação popular (tanto de fervor religioso, ou medo causado por terremotos, secas, inundações, praga ou fome), e, até, ocasionalmente, a própria ousadia de alguns cristãos. Em todo, continua o Prof. Graeme, era a pressão de baixo, da base que causava tais episódios, e não a iniciativa imperial. A atitude imperial era passiva até confrontar-se com um caso ou casos particulares, e estava geralmente confinada ao nível local e provincial. As fontes posteriores tenderiam a universalizar e exagerar as perseguições dos cristãos, o que não correspondeu a realidade ao longo do II e primeira metade do III século.[2]

As fontes pagãs e cristãs fixam como início da perseguição romana aos cristãos o reinado de Nero (54-68 DC), posteriormente ao grande incêndio de Roma em 64 DC [3] Professor Herbert Benario, Emory University, observa que os por conta de sua recusa a adorar o Imperador, seu estilo de vida, e suas reuniões "secretas", não eram muito populares. Além disso dois de seus maiores mestres estavam em Roma, Pedro e Paulo. Assim, continua Benario, eles eram "bodes expiatórios" perfeitos. Individuos a qual a maioria dos romanos desprezavam, e que nutriam crenças "estranhas". Nero planejou tudo com precisão e crueldade. Cristãos foram expostos a bestas selvagens, incendiados. Contudo, as execuções foram tão cruéis que acabaram despertando a compaixão da população. Assim, conclui Benario a tentativa de Nero de desviar as suspeitas acabou se voltando contra ele, sua popularidade, até mesmo entre os mais humildes, foi irremediavelmente prejudicada [4]

Após a morte de Nero (68 DC), seguiu-se uma Guerra Civil. O ano de 69 teve quatro imperadores (Galba, Vitélio, Oto e Vespasiano). Ao final daquele ano, Vespasiano (69-79 DC), conseguiu controlar a situação, inaugurando a dinastia Flaviana, ao ser sucedido por seu filho Tito (79-81). Durante esse período, o império parecia ter esquecido os cristãos, cujo número só aumentava. No ano de 81, Domiciano sucedeu Tito. Seus primeiros anos de reinado foram tão benignos aos cristãos quanto haviam sido seus antecessores. Mas no final de seu reinado (95-96 DC) desabou a perseguição, que parece ter sido inicialmente direcionada contra os judeus. Uma vez que o Templo de Jerusalém havia sido destruido na Guerra Judaico Romana de 66-73 DC, Domiciano determinou que a oferta anual dos judeus enviada a Jerusalém deveria ser destinada ao Tesouro Imperial. Muitos resistiram, e o Imperador reagiu violentamente. Como, à época, a distinção entre judeus e cristãos não estava completamente estabelecida, os servidores imperiais começaram a perseguir todos os que praticavam "costumes judaícos", atingindo ambos os grupos. [5]

Embora basicamente restrita a cidade de Roma e a Asia Menor (na atual Turquia), ela atingiu até a família imperial. Domiciano mandou executar seu primo, o Consul Flavio Clemente, e mandou para o exílio Flávia Domitila, esposa dele, e puniu também vários nobres, sob a acusação de "ateismo" (negação dos deuses romanos estabelecidos, acusação recorrente contra os cristãos) e "costumes judaicos". Provavelmente, entre esses nobres haviam conversos do judaismo e cristianismo. A perseguição durou pouco mais que um ano. Logo Domiciano seria assassinado (96 DC), e assim como Nero, o Senado Romano o declarou tirano, ordenando que seu nome fosse apagado de monumentos e inscrições. [5]


Tertuliano (cerca 200 DC) faz uma referência a um édito de Nero contra os cristãos, que foi sido utilizado por Domiciano, embora de forma mais branda e por um breve período:

"Consultai vossas histórias. Verificareis que Nero foi o primeiro que atacou com seu poder imperial a seita Cristã, fazendo isso, então, principalmente em Roma. Mas nós nos gloriamos de termos nossa condenação lavrada pela hostilidade de tal celerado porque quem quer que saiba quem ele foi, sabe que nada a não ser uma coisa de especial valor seria objeto da condenação de Nero. Domiciano, igualmente, um homem do tipo de Nero em crueldade, tentou erguer sua mão em nossa perseguição, mas possuía algum sentimento humano; logo pôs um fim ao que havia começado, chegando a restituir os direitos daqueles que havia banido. (...) Que Trajano por muito tempo tornou nula proibindo procurar os cristãos? Que nem Adriano, embora dedicado no procurar tudo o que fosse estranho e novo, nem Vespasiano, embora fosse o subjugador dos Judeus, nem Pio, nem Vero, jamais as puseram em prática? " [6]

Muito se discute em relação a esse Édito de Nero e sua utilização pelos seus sucessores. Maurice Crouzet observa que, em todo caso, Trajano reduziu significativamente sua eficácia ao proibir tanto as denúncias anônimas, quanto ao instruir que os cristãos não deveriam ser procurados. Posteriormente, Adriano (118-137 DC) tornou o edito de Nero efetivamente letra morta ao determinar que somente ofensas objetivas a Lei deveriam ser analisadas, e não o simples fato do acusado ser cristão [7]. Mas, ainda assim, como vimos, a recusa em adorar aos deuses diante de um tribunal era uma ofensa a Lei, e essa parece ter sido a "ofensa a Lei" que levou muitos cristãos a execução. Em todo o caso, não há notícia de perseguição organizada contra os cristãos por Vespasiano e Tito, sendo provavél que as orientações de Trajano a Plínio fossem apenas a formalização de uma política já adotada por seus antecessores. Que foi seguida, em linhas gerias, pelos imperadores Adriano e Antonino Pio (138-161 DC). Logo, Nero e Domiciano foram uma excessão a regra.

Dois aspectos estão ligados a perseguição aos cristãos. O primeiro era a desconfiança de Roma relativa as associações voluntárias, o que englobava não só o cristianismo mas também grupos como astrólogos, adivinhos, mágicos e algumas religiões de mistério. A segunda, e mais séria, é a questão do culto público ao Imperador e aos deuses ancestrais.

Em sua Carta, Plínio relata a Trajano que havia dado curso a seu edito que proibia as associações secretas, o que atingira aos cristãos, que tiveram de alterar sua forma de se reunir. Existia o costume de grupos ligados por interesses comuns (corporativos, religiosos, funerários) se associarem em "Collegium". Tais associações eram comuns, necessárias e disseminadas no Império, mas também eram acompanhadas de perto, pois podiam "degenerar" em objetivos políticos. Por isso a preocupação de Plínio, com rigor um tanto excessivo, empregando até mesmo tortura, em se assegurar que os cristãos não representavam risco ao estado.

Professores John D. Crossan e Jonathan Reed relatam outro episódio que deixa isso claro.
"Plínio pedira permissão para organizar um "collegium" para cerca de 150 bombeiros na cidade de Nicomédia. Incêndios haviam danificado o Templo de Ísis e o santuario da deusa Men. Plínio esperava receber permissão para criar uma brigada de combate ao fogo, assegurando a Trajano que "não seria difícil manter sob observação tão pequeno número de homens" (Cartas 10:33). Mas como as próprias cartas atestam, Trajano nega o pedido e explica as razões:
"Quando as pessoas reunem-se com propósitos comuns, não importando o nome que lhes demos nem as razões que possam ter, logo transformam essa reunião em clube político. A melhor política será providenciar equipamentos e ensinar os proprietários a usa-los, pedidndo
ajuda de outros se acharem necessário". (Cartas 10:34)
Incêndios poderiam ameaçar propriedades e vidas, mas não podiam ameaçar as regras imperiais de integração da política com a religião enquanto sutíl e única operação de poder
[8]
Assim, existia a preocupação dos oficiais romanos com o carater basicamente associativo dos cristãos. Contudo, essa preocupação existia com outros cultos e a postura típica era vigiar, controlar, acompanhar, monitorar, mas raramente proibir ou utilizar os recursos do estado para perseguir. Trajano sabia que os cristãos existiam, que eles se associavam em caráter "secreto", que estavam em grande número (Plínio diz que o "contágio" do cristianismo tinha sido tal que os Templos tinham ficado desertos e os ritos religiosos negligenciados, mas que ele estava resolvendo a situação), mas orienta que não deveria haver esforço para elimina-los. Eles não ofereciam risco e não eram motivo de maiores preocupações.

O segundo, e mais importante, motivo para a perseguição aos cristãos passa pela relação entre a religião e o estado romano, como Crossan e Reed, descrevem:
"A religião romana pertencia ao estado, existia para ele e, portanto, era por ele controlada. A obras "Das Leis" de Cicero, expressa a atitude romana consensual de que "ninguém deve ter deuses para si mesmo, sejam deuses novos, ou estrangeiros, a não ser que o estado os reconheça". Essa idéia explica as tensões crônicas e repressões períodicas depois da entrada de elementos religiosos estrangeiros em Roma. Dois exemplos são suficientes . O Império reprimiu certas devoções do Dionisio grego, o Baco Romano, e outras ligadas a mãe e deusa anatólia, Cibele, a Magna Mater" [9]

Existiam, literalmente, centenas de divindades, cultos e seitas no Império. Contudo, interesses religiosos e políticos caminhavam juntos, e, quando necessário, os deuses de Roma e o culto ao Imperador deveriam ser atendidos, para manutenção do bem do Império. "Ninguém deve ter deuses para si mesmo".

Paula Fredriksen observa a necessidade, na concepção vigente na Roma pagã, de se honrar os deuses locais, associados as cidades e povos do Império. Cada pessoa, não importa suas inclinações pessoais, devia ser leal aos deuses e práticas religiosas de seus ancentrais.

"O problema, então, do ponto de vista da cultura dominante, não era que cristãos gentios fossem "cristãos". O problema era que, seja quais fossem as práticas religiosas que essas pessoas escolhessem seguir, elas ainda eram, para todos os efeitos, "gentias". Quer dizer, os cristãos permaneciam como membros de de um genos (povo) ou natio (nação) particular, com obrigações para com os deuses de seu "genos", que eram os deuses da maioria das pessoas. Do final do primeiro século até cerca de 250 da era cristã, estes cristãos poderiam sofrer dos ressentimentos e ansiedades locais, precisamente porque eles não estavam honrando os deuses da qual a prosperidade de sua cidade dependia. Como na famosa reclamação de Tertuliano "Se as inundações do Tibre atingem os muros, se as [cheias] do Nilo não atingem os campos, se os céus não se movem ou se a Terra o faz, se há fome ou peste, o grito logo se faz ouvir "Lançem os cristãos aos leões" (Apologia 40.2). Judeus cristãos praticamente não eram perseguidos, porque como judeus a não participação do culto público era uma prática antiga, tradicional e protegida por sólida jurisprudência. Obrigação ancenstral era o que importava." [10]

A vida com uma espada na cabeça: O efeito prático da política de Trajano foi que os cristãos tinham relativa tranquilidade, até que alguém tivesse disposição suficiente em acusa-los publicamente, ou que algum administrador provincial, zeloso de suas funções, decidisse reforçar o culto público ao imperador, ou que um Imperador quissesse dar mais ênfase as velhas tradições e ao culto aos deuses, ou que catástrofes levassem a população a achar que o favor dos deuses devesse ser reconquistado, castigando os "ateus" e "impíos" cristãos. Os epísodios de perseguição eram esporádicos e curtos mas, frequentemente, muito violentos.
Professor Stephen Benko, da Universidade da Califórnia, em seu livro "Pagan Rome and Early Christians", apresenta um exemplo que ilustra muito bem o que falamos acima:
"Em algum momento durante o reinado do Imperador Antonino Pio (86-161 DC), uma senhora casada tornou-se cristã, ainda que seu marido não tenha se convertido. Posteriormente, diferenças irrenconciliáveis surgiram entre os dois, e a mulher se divorciou de seu marido. Ele fez isso, simplesmente, dando a ele um repudium, istoé, uma carta de divórcio. O marido amargurado denunciou então sua ex-mulher as autoridades, sob acusação de ser uma cristã. Imediatamente, ela foi presa, mas o Imperador lhe concedeu liberdade provisória, para que coloca-se sua vida em ordem, antes de comparecer ao tribunal para responder as acusações. Então, seu ex-marido denunciou o instrutor dela na fé cristã, um homem de nome Ptolemaeus, que também foi preso, acorrentado, e levado para prisão, e suportou um longo período maus tratos. Finalmente, o dia de seu julgamento chegou, e ele foi levado diante do Juiz, Urbicus. Urbicus fez uma unica pergunta a Ptolemaeus: "Tu és cristão?" Quando ele respondeu afirmativamente, ele foi condenado a morte, e como sentenças de morte eram aplicadas imediatamente, levado para a execução. Um certo Lucius, que testemunhou o julgamento, levantou-se indignado e gritou para o Juiz: "Porque aplicaste esta sentença? Foi esse homem acusado de um crime? Por acaso, ele era um adúltero, assassino, ou ladrão? Ele apenas confessou ser cristão? Urbicus então respondeu "Parece que és cristão também!" "Sim", disse Lucius, "eu sou". Prontamente, Urbicus mandou que fosse executado. Um terceiro cristão, também se apresentou, e recebeu a mesma sentença. Justino, o filósofo, e posteriormente, martir cristão (100 - 165 DC) soube desse episódio, e em protesto escreveu uma carta ao Imperador, que sobreviveu sob o nome de Segunda Apologia [11]
Ou seja, a mulher mancionada acima, Ptolemaus, Lucius e o terceiro cristão não identificado, podiam viver suas vidas de forma relativamente tranquila, manter casamento com incrédulos, ensinar o cristianismo, assistir procedimentos do forúm, por anos a fio, sem serem molestados. Contudo, caso tivessem inimigos dispostos a acusa-los publicamente diante das autoridades, e, dependendo da rigidez dos juízes, poderiam ter como destino a execução. Era uma condição que poderia até ser tranquila, mas sempre precária. A qualquer momento, uma denúncia podia levar a prisão e a morte. Entre as testemunhas dessa situação, esta um papiro (P. Ox XLII.3035), proveniente do Egito, que traz uma ordem de prisão, de 28 de fevereiro do ano 256, contra um certo "Petosorapis, filho de Horus, Cristão", residente na vila de Mermertha [12].

As Grandes Perseguições: Frederiksen observa que mesmo a primeira perseguição coordenada e universal, sob o Imperador Décio (249-251 DC), não marcou uma ruptura total com a politica anterior. Após décadas de crises, guerras civis e tumultos que atingiram o Império, Décio determinou que todos os cidadãos participassem do culto público, que envolvia sacrifícios e homenagens dedicadas ao Imperador. Apesar do grande número de supliciados, Décio não proibiu ou tentou exterminar o cristianismo (alías, nenhum Imperador o fez). Ele "apenas" ordenou que os cristãos gentios, quaisquer que fossem suas práticas peculiares, também observassem os ritos que, acreditava-se, asseguravam a boa vontade dos deuses (e os que não recusaram a cumprir a ordem, cristãos ou não, foram cruelmente torturados, até que o fizessem). O objetivo não era uniformidade religiosa, mas a "preservação" do "bem comum" [13]. Décio morreu em 251, e houveram algumas outras tentativas de reviver a perseguição contra os cristãos, por exemplo, sob o Imperador Valeriano entre 258-260 DC, mas com a ascensão do Imperador Galieno (260-268), houve um período de quase 40 anos de relativa paz para a Igreja, até a extremamente sangrenta "Grande Perseguição" dos cristãos sob o Imperador Diocleciano (284-305 DC) em 303. Conforme observa Frederiksen, quando a "Grande Perseguição" começou, uma grande Basílica ficava no caminho do Palácio de Diocleciano [13].

Crossan e Reed, complementam:
"À mente latina esses cultos iam além dos limites da religião apropriada e eram considerados "superstitio" , superstição. Roma queria dizer com isso não que eram a mesma coisa que magia, mas que se situavam além da crença. Superstição era o excesso imoderado e incontrolável a apenas uma forma de sagrado" [14]

Os cristãos dedicavam sua crença, de forma "imoderada" e "incontrolável" a apenas a uma forma de sagrado, o Cristo, que os desvinculava do culto de Roma ao Imperador e dos deuses de seus ancestrais. Logo, seu culto pode ser citado como um exemplo bem acabado de superstição na concepção romana. Não pelo que faziam, ou pelo que seu mestre havia feito. Não eram uma ameaça, reconheçe Plínio, ou um perigo a qual o estado deveria se ocupar, orienta Trajano. Seu verdadeiro crime era o que deixavam de fazer: adorar os deuses do estado quando solicitados. E isso era especialmente lembrado em situações de crise e calamidade.

Referências Bibliográficas:
[1] Paula Frederiksen (2006), Christians in the Roman Empire, The First Three Centuries AD, in David Porter (2006), Blackwell Companion to the Roman Empire, fl. 602
[2] Graeme Clarke (2005), "Third-century Christianity" in Alan K. Bowman, Peter Garnsey and Averil Cameron (Eds). "The Cambridge Ancient History: The Crisis of Empire, A.D. 193-337", fls. 616-624. Draft version disponível online em http://people.vanderbilt.edu/~james.p.burns/chroma/saints/Persecution.html
[3] Tacito, Anais 15:44; Suetônio, A Vida dos Doze Césares, Nero 16:2; Tertuliano, Apologia 5:4
[4] Herbert W. Benario, Nero In: De Imperatoribus Romanis:An Online Encyclopedia of Roman Rulers and their Families, http://www.roman-emperors.org/nero.htm, acesso em 18.08.2010
[5] Justo L. Gonzalez Uma História Ilustrada do Cristianismo, Volume I, "A Era dos Mártires", fls. 57-60; ver também Suetônio, A Vida dos Doze Cézares, De Vita Domitian, 12.:2 e 17; Cassio Dio, Historia Romana, 67:4.
[6] Tertuliano, Apologia, Capítulo V, versos 4 a 7, http://www.tertullian.org/brazilian/apologia.html#5
[7] Maurice Crouzet, Historia Geral das Civilizações, Volume 4 - Roma e Seu Império
[8] John Dominic Crossan e Jonathan Reed (2004), Em Busca de Paulo, fl. 236
[9] John Dominic Crossan e Jonathan Reed, Em Busca de Paulo, fl. 230-231
[10] Paula Frederiksen, Christians in the Roman Empire in the First Three Centuries ...., fls. 601
[11] Stephen Benko (Stephen Benko, Pagan Rome and Early Christian, fl. 1; Justino Martir, 2ª Apologia, Capítulo 2
[12] Graeme Clarke (2005), "Third-century Christianity" ..... fl. 638
[13] Paula Frederiksen, Christians in the Roman Empire in the First Three Centuries ...., fls. 602
[14] John Dominic Crossan e Jonathan Reed, Em busca de Paulo, fl. 234

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