Estudos sobre Religião - Biblioblog

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Continuado nossa série

a) David Flusser


David Flusser (1917-2000) foi Professor de Judaismo do Segundo Templo e Cristianismo Antigo do Departamento de Religiões Comparadas da Universidade Hebraica de Jerusalém. Flusser era membro da Academia Israelense de Ciências e Humanidades, e recebeu o Israel Prize em 1980, por sua contribuição ao estudo da História Judaica. Flusser nasceu em Viena (Austria), mas foi criado na atual República Tcheca. Com a crescente ameaça do nazismo, ele emigrou para Israel em 1939, onde continuou sua carreira acadêmica. Seu interesse pelo estudo do cristianismo e da figura de Jesus surgiu com sua amizade com cristãos menonitas na República Tcheca.

Um de seus principais livros foi o Livro Jesus (1965), escrito em alemão, ampliado e revisado em 1998, em uma nova edição, agora em Inglês, "Jesus, The Sage from Galilee". Flusser, que era adepto do judaismo ortodoxo, dedicou seu livro a seus "amigos menonitas". Em sua prefácio da versão revisada, Flusser faz considerações em relação a seu método de trabalho:

"A edição alemã de meu livro foi muito bem recebida na Europa, encontrando somente tênue oposição por parte de alguns círculos cristãos extremamente conservadores. Seus pares americanos devem compreender que, em virtude da minha origem judaica, não posso ser mais cristão que a maioria dos crentes em Jesus. Minha interpretação dos evangelhos, porém é mais conservadora que a de muitos estudiosos do Novo Testamento na atualiadade. Atribuo minha abordagem conservadora a minha formação, que não foi de um teólogo, seja ele judeu ou cristão mais de um classicista. Meu método fundamenta-se nas disciplinas de estudos clássicos, cujo interesse são os textos gregos e latinos. Estou confiante que os três primeiros evangelhos refletem, fidedignamente, o Jesus Histórico. Além disso não gosto da dicotomia feita entre o "Jesus Histórico" e o "Cristo Querigmático". [1]

Talvez alguns dos leitores, e certamente muitos estudiosos, tenham ficado chocados com a afirmação de Flusser, de que os evangelhos sinóticos "refletem fidedignamente o Jesus Histórico". No entanto, essa afirmação não deve ser considerada fora de contexto. Flusser qualifica cuidadosamente seu posicionamento como veremos adiante. (E, além disso, o ponto é que os evangelhos sinóticos foram elaborados a partir de fontes mais antigas compostas pelos discípulos de Jesus e o Igreja de Jerusalém). De qualquer forma, ele ressalta que sua abordagem é, comparativamente, mais conservadora que de muitos estudiosos do novo testamento, justamente por sua formação e vivência como classicista e historiador da antiguidade grego-romana. Ele acrescenta mais detalhes de sua abordagem e método:

"Não estou sugerindo , em absoluto, que a leitura dos textos deva ser isenta de críticas. Isto deve ficar claro apóa a leitura do primeiro capítulo, onde analiso sucintamente meu método crítico.
"Meu enfoque conservador dos evangelhos origina-se também da minha identidade judaica. Como judeu, estudei, tanto quanto possível, as várias tendências dentro do judaismo antigo. Esta direção é deveras útil para a interpretação dos evangelhos, particularmente das palavras e dos feitos de Jesus"[1]

Ou seja, Flusser estabelece dois níveis de comparação para análise dos textos evangélicos. O primeiro é o mundo greco-romano. O segundo é o judaismo do segundo templo, seus escritos e seus grupos variados. Assim, os evangelhos são textos como vários outros textos elaborados no contexto local, do judaismo antigo, quanto global, da Antiguidade romana. Os ditos e feitos de Jesus são então comparados com os de vários outros carismáticos, pregadores e profetas da Antiguidade. Flusser continua, abordando a questão do sabemos e podemos saber sobre Jesus:

"Realmente, possuimos registros mais completos sobre as vidas de imperadores seus contemporâneos e de alguns poetas romanos. Entretanto, a exceção do historiador Flávio Josefo, e possivelmente de São Paulo, Jesus é o judeu, de épocas posteriores ao Antigo Testamento, sobre quem mais sabemos.
Toda biografia tem seus próprios problemas peculiares. Dificilmente esperaríamos encontrar informação de Jesus em documentos não cristãos. Ele compartilha deste destino com Moisés, Buda e Maomé, que, do mesmo modo, tampouco recebem menção alguma de relatos de não crentes (...)" [2]

Flusser observa que mesmo quando fontes externas e contemporâneas existem, as informações mais relevantes sobre um líder carísmático serão obtidas nos seus próprios ensinos e nos documentos produzidos por seus seguidores ("lidos de forma crítica, é claro")[2]. Flusser introduz dois exemplos modernos [2], o primeiro é o do fundador da Igreja de Jesus Cristo dos Ultimos Dias (Mormóns), Joseph Smith, cujas fontes biográficas são, basicamente, seus próprios escritos e documentos elaborados por seus seguidores. O outro é o do líder religioso africano Simon Kimbangu, a qual são creditados milagres de cura realizados entre março e setembro de 1921 no antigo Congo Belga. Kimbangu atraiu multidões com suas pregações e foi considerado suspeito de sedição pelas autoridades coloniais, que o aprisionaram em Leopoldville (Kinshasa) a mais de 1000 km de sua vila. Kimbamgu morreu lá em 1950. Entretanto, sua mensagem inspirou a Igreja Kimbangista. Flusser observa que devido a brevidade de seu ministério, e por ele nada ter escrito, sabemos muito pouco sobre o que Kimbangu pensava sobre si mesmo, e nesse ponto especifífico, "o testemunho das autoridades belgas no Congo, é no seu caso, de tanta valia quanto os arquivos do governador Pilatos, ou os registros de chancelaria do sumo sacerdote no caso de Jesus"[2].

O Professor Flusser expressa seu ponto de vista em relação aos evangelhos como fontes históricas, e qualifica sua observação anterior de que os evangelhos sinóticos refletem fidedignamente o Jesus Histórico:

" (...) Os três primeiros Evangelhos apresentam um retrato razoavelmente fiel de Jesus como um judeu típico de sua época, e também preservam consistentemente seu mode de falar do Salvador em Terceira Pessoa. Uma leitura imparcial dos evangelhos sinóticos resulta num quadro que é mais característico de um fazedor de milagres e pregador judeu do que de redentor da humanidade (...) O Jesus retratado nos Evangelhos Sinóticos é, pois, o Jesus histórico, não o "Cristo Querigmático.
Para a cristandade judaica - mesmo em séculos posteriores, quando a Igreja em geral considerava sua visão herética - o papel de Jesus como fazedor de milagres , mestre, profeta, e messias era mais importante que o Senhor ressurecto do querigma. Já nos primórdios, esta ênfase começou a mudar entre as congregações cristãs helênicas fundadas por judeus gregos e formadas predominante por não-judeus. Nelas, a redenção através do Cristo crucificado e ressurecto tornou-se o cerne da pregação. Não é por acaso que os escritos oriundos destas comunidades - por exemplo, as cartas de São Paulo - mal mencionam a vida e pregação de Jesus. Talvez seja um golpe de sorte, até onde vai nosso conhecimento de Jesus, que os Evangelhos Sinóticos tenham sido escritos relativamente tarde - ao que parece por volta de 70 DC - quando a criatividade dinâmica dentro das congregaçõe paulinas declinara. Na maioria dos casos, este estrato posterior da tradição sinótica encontrou sua primeira expressão na redação, no estilo grego, dos evangelistas separados. Se exarminarmos este material com um espírito sem preconceitos, aprenderemos de seu conteúdo e forma de expressão que ele não esta relacionado com declarações querigmáticas mas com platitudes cristãs. [2]

Ou seja, Flusser observa que a imagem geral, o contorno, da figura de Jesus nos sinóticos é de um realizador de milagres e pregador, que esta em dissonância, em discontinuidade, com o Cristo das epístolas e da pregação cristã posterior. Podemos acrescentar, na linha de nosso post anterior, as observações do Professor GEM de Ste Croix de que o mundo retratado nos evangelhos sinóticos, das pequenas vilas e lugarejos rurais da Galiléia, esta em discontinuidade com os grandes centros helenísticos em que os primeiros cristãos viviam. Também vale a pena recordar as observações do Professor Fergus Millar, de que os evangelhos refletem um mundo que se foi com a primeira guerra judaica.

Flusser pergunta, retoricamente "Seria verossínil sugerir que, quando os Evangelhos Sinóticos são estudados cientificamente, apresentam um retrato fidedigno do Jesus histórico, apesar da pregação da fé querigmática por parte da Igreja?" [2]

Estudiosos como Flusser afirmam que os sinópticos refletem o Jesus Histórico, o sentido é que eles mostram, em muitos de seus aspectos, uma figura que é plausível e verossimilar com o contexto histórico em que viveu (uma vez que, como diz Flusser, "o papel de Jesus como fazedor de milagres , mestre, profeta, e messias era mais importante que o Senhor ressurecto do querigma"). A teoria mais aceita das fontes dos evangelhos sinóticos, é a das duas fontes, Marcos e Q (devemos registrar que Flusser é cético da Teoria das Duas Fontes, preferindo a prioridade lucana). Postula-se que Q seja a fonte comum de material encontrado em Mateus e Lucas, e não presente em Marcos. Q é, basicamente, uma fonte de ditos, reunindo material como ensinos (parte do Sermão do Monte), parábolas, e pregações apocalipticas. É plausível que parte significativa desses ditos fizessem parte da pregação de um galileu do século I, baseado no que encontramos em outras fontes do período como os Manuscritos do Mar Morto. Quanto a Marcos, a grande maioria dos historiadores vai rejeitar milagres de domínio sobre a natureza como Jesus andando sobre o Mar ou acalmando a tempestade, por exemplo. No entanto, o milagre mais comumente encontrado nos evangelhos sinóticos é o exorcismo, pratica atestada na Antiguidade por toda a parte, e na Judeía a torto e a direito. Josefo narra um exorcismo que ele, e o futuro Imperador Vespasiano testemunharam:

"Vi, por exemplo, como um dos nossos, de nome Eliazar, libertou, na presença de seus filhos, de tribunos, e de outros soldados, os possuídos por maus espíritos. A cura se deu da seguinte maneira: ele pôs sob o nariz do possuído um anel que continha uma das raízes prescritas por Salomão, fez o doente cheira-la e então arrancou o mau espírito através do nariz. O possesso veio abaixo imediatamente, e Eliezer adjurou o Espírito a nunca mais retornar ao homem, enquanto proferia o nome de Salomão e os encantamentos compostos por ele" (Flávio Josefo, Antiguidades Judaicas 8:46-47).

E, obviamente, observadores e adversários do cristianismo não usaram como linha principal de argumentação a negação dos milagres de Jesus. O que vemos, repetidamente, são os oponentes atribuindo os supostos milagres a utilização de magia ou feitiçaria. Assim, como já vimos, a parte considerada autêntica do Testemunho Flaviano, fala dos "paradoxa" (feitos controversos ou surpreendentes) de Jesus. Em meados do século II, Justino e Tertuliano defendem Jesus da acusação de ser um mágico (em Dialogo com Trifo, 69:5 e Apologetica, 21:17, respectivamente). Celso, o ferrenho adversário do cristianismo, comparando os feitos de Jesus a atos comuns de feitiçaria "realizados pelos mágicos egípcios que no meio das praças e feiras, por alguns trocados, demonstram conhecimento nas mais venerandas artes, expulsam demônios, curam enfermidades, e invocam a almas de heróis", e Celso pergunta, "Visto, então, que essas pessoas podem realizar tais feitos, teremos que concluir que são "filhos de Deus" ou que procedem de homens iníquos sob a influência de espiritos malignos?(Orígenes, Contra Celso 1:68)

Seja qual forem nossas convicções sobre isso, o fato é que em quase todas as culturas as pessoas acreditam que demônios podem possui-las, que causam enfermidades e que certas pessoas são capazes de expulsar espíritos malignos. Muitas vezes essas manifestações foram atribuidas a quadros psiquiátricos, como o transtorno dissociativo de identidade, ou doenças como a epilepsia. Existe também um grande contingente de pessoas com doenças causadas ou com sintomas agravados por vetores psicosomáticos, bem como transtornos de conversão (que em casos extremos podem levar a parestesia, paralisia ou cegueira), e vários estudos médicos apontem que placebos muitas vezes são eficazes [3]. Alguém pode sair de casa e ir a uma Igreja Universal, ou a um Centro Espírita, ou Terreiros de Umbanda, em que encontrará centenas de pessoas afirmando ter recebido ou sido liberta de Espíritos, sendo curada e falando com seus entes queridos mortos (como as que afirmam ter sido curadas pelo médium que "recebe" o Dr. Fritz).

Então é altamente plausível que Jesus fosse um exorcista. O que não prova, isoladamente, que Jesus exorcisasse pessoas, mas a verossimilhança desses elementos no contexto, a intensidade com que essa característica é ressaltada na tradição cristã, e o fato de que os oponentes ao invés de negar esses feitos, repetidamente os atribuem a ação de poderes demoníacos, indicam fortemente que a imagem geral de Jesus como curandeiro e exorcista é histórica, ainda que a historicidade dos eventos individuais seja bem mais díficil de avaliar.

b) Geza Vermes


Em muitos aspectos a visão de Flusser se aproxima de outro peso pesado dos estudos do cristianismo primitivo, com origem e historia de vida semelhante, o Professor Geza Vermes. Vermes também nasceu no leste Europeu, em Mako, Hungria, em 1924, em família de ascendência judaica. Aos sete anos, ele e seus pais foram batizados como catolicos-romanos. Vermes viveu a atmosfera tensa dos anos anteriores a II Guerra Mundial, e passou a sofrer os horrores do nazismo quando, em março 1944, as tropas alemãs ocuparam a Hungria. Seus pais e a maior parte de seus familiares foram presos e assassinados. Vermes, que estava cursando o seminário, conseguiu escapar refugiando-se em várias cidades [4].

Com o fim da Guerra, ele chegou a ser ordenado padre, e iniciou sua carreira acadêmica, imigrando para Louvain, na Bélgica. Em 1953, conclui seu doutorado, elaborando uma das primeiras dissertações sobre os recém descobertos Manuscritos do Mar Morto. Em 1957, Vermes abandonou o sacerdócio e a Igreja Católica, e voltou ao seio do Judaismo, se afiliando em 1970 a Jewish Liberal Synagogue, de Londres, para onde havia se mudado, ligada ao Judaismo Reformista. Na Inglaterra, ele foi Professor da Universidade de Newcastle upon Tyne, e a partir de 1965, do Wolfson College e da Faculty of Oriental Studies, da Universidade de Oxford, onde se tornou Professor Emérito de Estudos Judaícos, sendo também escolhido como membro da British Academy, por sua contribuição ao estudo dos manuscritos do mar morto, e da historia do cristianismo primitivo, e do judaismo do segundo templo [4].

Em seu livro "As Várias Faces de Jesus", o Professor Vermes analisa historicamente, e em separado, a forma como Jesus é apresentado no evangelho e nas cartas de João, nos esritos paulinos, em Atos dos Apóstolos e nos Evangelhos Sinóticos. A partir da análise desses quatro perfis principais, a luz do contexto histórico do judaísmo do sec I DC, ele elabora um quinto, o do Jesus histórico, presente nos estagios mais primitivos da tradição. Ele observa que:

"(...) o retrato de Jesus nos Evangelhos Sinópticos toma a forma de um esboço biográfico. Marcos, Mateus e Lucas não eram, admitidamente, historiadores profissionais em busca de objetividade crítica; não obstante atuaram como narradores da vida, das idéias, das atividades, do magistério e da morte de um homem santo de carne e sangue que viveu poucas décadas antes deles decidirem registrar as tradições construidas em volta dele. Finalmente e, sucintamente, os evangelistas testemunharam sua crença na ressureição de Jesus" [5].

"os traços mais notáveis do retrato de Jesus nos Sinópticos, o de um curandeiro e exorcista carismático, mestre e campeão do Reino de Deus, são essencialmente dependentes da figura histórica que outros escritores do Novo Testamento progressivamente mascararam." [5]

E acrescenta com base na análise das narrativas, títulos e ensinamentos de Jesus nas fontes em comparação ao contexto cultural, religiosos e político da Palestina do século I.

"Nossa abordagem tripartida - com base em histórias, títulos e ensinamentos - do Jesus de Marcos, Mateus e Lucas produziu um quadro coerente, o retrato de Jesus pretendido pelos Sinópticos. Ele espelha de algum modo, sem ser idêntico a ele, o Jesus da História. Infelizmente, devido a natureza do material do Evangelho, a precisão histórica estrita irá fatalmente esquivar-se, mas é possivel fazer um esforço denodado - que será tentado presentemente - para autenticar essa imagem o máximo possível, integrando-a ao contexto cultural e religioso do judaísmo palestino contemporâneo. Para começarmos com uma observação negativa, mas fundamentalmente importante, o Jesus dos sinópticos, como aquele dos Atós dos Apóstolos, não é uma figura sobrenatural, mas alguém firmemente plantado em nosso universo de homens. Sua apoteose não foi súbita, foi alcançada passo a passo. Começou com o nascimento milagroso registrado em Mateus e Lucas, e continuou, através de Paulo e João, pelos patriarcas e concílios da Igreja gentílica. A deificação formal, embora avultando-se no horizonte a partir do século II, não foi concluida até o Concílio de Nicéia em 325 DC. " (...) [6]

Em seguida, Vermes observa que na visão de judeus palestinos do século I, nenhum ser humano, mesmo alguém celebrado como "Filho de Deus", poderia, concebivelmente, partilhar a natureza do Todo-Poderoso. Ele especifica então, suas conclusões em relação a crença dos primeiros cristãos sobre Jesus.

"O Jesus de Marcos, Mateus e Lucas (e o de Atos) entra em cena como pregador galileu itinerante, curandeiro e exorcista, admirado e seguido por muitos, mas também objeto de suspeição por outros tantos, especialmente o Establisment religioso central, responsável pela manutenção da Lei e da Ordem na Jerusalém sob ameaça de rebelião. Segundo o testemunho comum dos sinópticos, contudo, onde quer ele fosse, Jesus era reconhecidocomo o porta-voz de Deus, pela gente simples da Galiléia. Sabemos que viam nele um profeta. De fato, os Evangelhos nos dão todas as razões para acreditarmos que Jesus considerava pessoalmente como tal, e que esta também foi a primeira quase definição aplicada a ele no começo da pregação cristã: "Jesus, o Nazareno, foi por Deus aprovado diante de vós com milagres, prodígios e sinais". [6]

Vermes destaca os termos "homem sábio" e "realizador de feitos extraordinários" como elementos centrados na memória popular judaica no século I, que levaram a interpretações diferentes pelos cristãos, por Josefo, e pelos inimigos de Jesus. (Inclusive, já analisamos aqui, no final de 2009, a tese de Geza Vermes [7] que a descrição de Jesus como "homem sábio" e "realizador de feitos maravilhosos (milagrosos) espelha a imagem de Jesus que circulava na Palestina como uma tradição popular, interpretada de forma neutra por Josefo, e como testemunho sobre um mago e enaganador, na polêmica judaica do século II, em Celso e nos rabinos do Talmude. Inclusive, Celso, até onde sabemos, usou a mesma palavra que Josefo para descrever os feitos de Jesus, "paradoxa" (Contra Celso 1:6;17-18), um termo ambiguo (maravilhoso, surpreendente, mas também controverso) [8].

"ao descrever Jesus com a ajuda dessas duas expressões basicamente positivas "homem sábio" e "realizador de obras extraordinárias", Josefo logrou formular um julgamento distanciado sobre Jesus. Seu esboço, embora frio, coincide fundamentalmente com o retrato, pintado em cores mais quentes, de Jesus que descobrimos oculto sob os Evangelhos Sinóticos" [8].

Ou seja, tanto para observadores neutros, como para amigos e adversários a memória de Jesus entre os judeus do século I é a de um mestre carismático e realizador de feitos extraordinários, que morreu em confronto com as autoridades, políticas e/ou religiosas. Os adversários alegavam que as multidões eram seduzidas por um impostor e mago, em conluio com forças demoníacas. Os cristãos diziam que os ensinos, os milagres e a morte (aparentemente) desonrosa, eram o cumprimento das escrituras, e, assim, Jesus era o Cristo (o Messias).

No entanto, a tese de Vermes vai além. Como dito acima, ele acredita que ao longo dos séculos, a imagem de Jesus "poderoso em palavras e atos", , que "espelha de certa forma o Jesus da história, sem ser identico a ele", foi sendo substituida por reflexões teológicas sobre o relacionamento de Jesus e Deus, e sua natureza, pré-existência e relacão entre o elemento divino e humano na pessoa de Jesus. Isso pode ser ilustrado na pregação inicial da igreja primitiva, em Atos dos Apóstolos. No discurso atribuido a Pedro no Dia de Pentecostes, temos o que parece ser uma das primeiras confissões da Igreja "Varões Israelitas: escutai estas palavras: Jesus, o nazareno, varão aprovado por Deus entre vós com milagres, prodígios e sinais, que Deus por ele fez no meio de vós, como vós mesmos bem sabeis; a este, que foi entregue pelo determinado conselho e presciência de Deus, vós matastes, crucificando-o pelas mãos de iníquos; ao qual Deus ressuscitou, rompendo os grilhões da morte, pois não era possível que fosse retido por ela" (Atos 2:22-24, ver também Lucas 24:19). Ou seja, Jesus é apresentado como um homem de Deus, que realizava feitos poderosos, foi executado como mártir e justificado pela Resssureição, o que, como vimos acima, é quase um sumário dos evangelho sinóticos.
Cerca de 150 depois, com a Igreja já firmemente estabelecida no contexto gentio, Tertuliano (200 DC), apresenta em seu livro "Prescrição contra os Hereges", uma regra ou (Confissão) da Fé recebida dos apóstolos "(...)Sua Palavra enviou, e esta Palavra é chamada de Seu Filho, e, sob o nome de Deus, foi visto "de diversas maneiras" pelos patriarcas, ouvido em todos os momentos nos profetas, e finalmente desceu pelo Espírito e Poder do Pai para a Virgem Maria, se fez carne em seu ventre, e, nascendo dela, foi conhecido como Jesus Cristo, então, doravante, Ele pregou a nova lei e a nova promessa do reino dos céus, operou milagres, e tendo sido crucificado, ressuscitou ao terceiro dia; e tendo ascendido aos céus, Ele se sentou à direita do Pai"[9]. Ou seja, ao núcleo sumarizando o ministério de Jesus, sua morte, ressureição e glorificação (como nos sinóticos), são acrescentados elementos joaninos, paulinos e dos evangelhos de infância de Mateus e Lucas ("o Verbo que se faz carne", pré-existente, participante da substância divina, nascido virginalmente).


Mas no mesmo Tertuliano, "Em Contra Praxeas" e "Do Véu das Virgens"[10], encontramos versões variantes (e mais curtas) da confissão , em que a frase "pregação da nova Lei, nova promessa, e do Reino, bem como aos milagres operados por Jesus" esta ausente. De fato, com a omissão dessa frase, a confissão é, no que se refere ao Filho, quase identica ao Simbolo de Fé Romano, a versão mais antiga do Credo dos Apóstolos afirma "Creio em Jesus Cristo, seu único Filho, Nosso Senhor,que foi concebido pelo poder do Espírito Santo;nasceu da Virgem Maria;padeceu sob Pôncio Pilatos,foi crucificado, morto e sepultado; ressuscitou ao terceiro dia; subiu aos Céus,onde está sentado à direita de Deus Pai todo-poderoso,de onde há-de vir a julgar os vivos e os mortos". Isto indica, já no início do século III, o crescimento do elemento teológico em detrimento do histórico; a fé vai se definindo mais em torno da natureza de Jesus do que relativamente a seus feitos.
Esse processo se aprofunda ainda mais no IV Século, quando, por exemplo, no Credo de Niceia (325 DC), os bispos confessam a Fé "em um só Senhor Jesus Cristo, o unigênito Filho de Deus, gerado pelo Pai antes de todos os séculos, Luz da Luz, verdadeiro Deus de verdadeiro Deus, gerado, não criado, de uma só substância com o Pai, pelo qual todas as coisas foram feitas; o qual, por nós homens e por nossa salvação, desceu dos céus, foi feito carne pelo Espírito Santo e da Virgem Maria, e tornou-se homem, e foi crucificado por nós sob Pôncio Pilatos, e padeceu e foi sepultado e ressuscitou ao terceiro dia, conforme as Escrituras, e subiu aos céus e assentou-se à direita do Pai, e de novo há de vir com glória para julgar os vivos e os mortos, e o seu reino não terá fim". Também no século IV, o Patriarca Atanásio de Alexandria, ao sintetizar a Fé necessária a salvação em 40 artigos, a grande maioria referente a Jesus na condição de 2ª Pessoa da Trindade, dedica apenas três (em parte) ao Jesus terreno ao afirmar " (27) que se creia fielmente na encarnação do nosso Senhor Jesus Cristo" que "(29) homem porque nasceu, no tempo, da substância da sua Mãe" e que "36. (...) sofreu e morreu por nossa salvação, desceu ao Hades, ressuscitou dos mortos ao terceiro dia".
Por fim, os bispos reunidos no Concílio de Calcedônia, em 451 DC, ao elaborarem o famoso Credo afirmam que "se deve confessar um só e mesmo Filho, nosso Senhor Jesus Cristo, perfeito quanto à divindade, e perfeito quanto à humanidade;verdadeiramente Deus e verdadeiramente homem, constando de alma racional e de corpo,consubstancial com o Pai, segundo a divindade, e consubstancial a nós, segundo a humanidade; em tudo semelhante a nós, excetuando o pecado;gerado segundo a divindade pelo Pai antes de todos os séculos, e nestes últimos dias, segundo a humanidade, por nós e para nossa salvação, nascido da Virgem Maria, mãe de Deus; um e só mesmo Cristo, Filho, Senhor, Unigênito, que se deve confessar, em duas naturezas, inconfundíveis, imutáveis, indivisíveis, inseparáveis;a distinção de naturezas de modo algum é anulada pela união, antes é preservada a propriedade de cada natureza, concorrendo para formar uma só pessoa e em uma subsistência;não separado nem dividido em duas pessoas, mas um só e o mesmo Filho, o Unigênito, Verbo de Deus, o Senhor Jesus Cristo, conforme os profetas desde o princípio acerca dele testemunharam, e o mesmo Senhor Jesus nos ensinou, e o Credo dos santos Pais nos transmitiu.




Esse processo pode ser explicado, em parte, pela natureza das controvérsias que levaram a redação dos credos. O objetivo de cada um desses credos era identificar hereges. As controvérsias Ariana, Nestoriana e Monofisista, dos séculos IV e V, não versavam sobre os evangelhos ou novo testamento, já estabelecidos como autoritativos, antes, cada lado buscava demonstrar que biblica e filosoficamente que sua visão da relação do Deus Pai e Filho, e do elemento humano e divino na pessoa de Cristo era a correta.




No contexto dos séculos II e III, até onde se sabe, os grupos proto-ortodoxos e seus adversários não discutiam os feitos de Jesus, mas a natureza de sua manifestação e sua relação com os poderes celestiais. Por exemplo, adversários como o arqui-herege Marcião, subscreviam uma cristologia docética. Yahweh criara um mundo mau e corrupto, e, assim, Jesus, como salvador, não poderia participar de criação corrupta. Assim, para Marcião, Jesus é um ser celestial que vem ao mundo em semelhança de carne, em forma humana. A concepção docética utiliza um conceito semelhante aos dos anjos que apareceram a Abraão (Genesis 18), que conversam com ele, sentam em sua mesa, comem e bebem em sua presença; o deixam, vão até Sodoma, resgatam a família de Ló, e quase são molestados pelos sodomitas; ou então com o anjo que lutou com Jacó no Vau do Jaboque e, no fim da luta, acerta o pobre patriarca no nervo ciático, que fica lá com a coxa deslocada. (Crenças docéticas podem ser estranhas, mas eram disseminadas na antiguidade, tanto na forma de anjos e deuses em forma humana, quanto em figuras como Pitágoras e Mani como seres celestiais com aparência humana para transmitir conhecimentos superiores [11]. Essas crença possui paralelos modernos bizarros, como seitas como o Raelianos, que acreditam que Jesus, Buda, Maomé e Joseph Smith eram extraterrestes em forma humana, ou dos seguidores de David Icke, que acreditam que o ex-Presidente Bush e a Família Real Britanica, e varios outros líderes mundiais são humanoides reptilianos cuja real identidade é encoberta por uma grande conspiração).




Os marcionitas utilizavam o Evangelho do Senhor, uma versão do evangelho de Lucas (ou de um hipotético proto-evangelho de Lucas), sem as narrativas de infância e as citações do Velho Testamento que apresenta Jesus ensinando em Cafarnaum, escolhendo díscipulos, pregando as multidões, curando pessoas, sendo ungido pela mulher do vaso de alabastro, participando da ultima ceia, sendo entregue as autoridades, interrogado, torturado, crucificado, e seu corpo, chega a ser enterrado. No clima filosófico da época, uma opinião comum era que a matéria era uma forma corrompida da existência, e o corpo uma prisão do espirito, nossa parte divina. Muitos diziam que o mundo material era resultado da ação de um deus inferior, o Demiurgo, mau, ou ignorante e/ou apenas limitado. Os gnósticos, em geral, adotavam essa concepção. Se a matéria é maligna, Cristo, o espírito redentor divino não poderia possuir carne verdadeira. Não obstante, eles aceitavam que Cristo veio ao mundo, pregou, ensinou o verdadeiro conhecimento, realizou maravilhas, e foi eventualmente crucificado. As crenças parecem contraditórias, mas os gnósticos encontraram duas maneiras de conciliar seus conceitos teológicos com a tradição evangélica. A maioria dos gnósticos adotava uma cristologia separacionista[12], emprestando conceitos ebionitas que afirmavam que Jesus era um homem comum, que foi escolhido para receber o poder do Espírito. Assim, Jesus Nazareno recebeu em seu corpo o Aeon Cristo, e assim realizou atos poderosos e pregou a palavra do Senhor. Assim, eles conciliavam a pureza de um ser Divino, que se associava transitoriamente a um ser humano, sem se encarnar efetivamente, mas apenas "enchendo" ou"possuindo" um corpo. Diferentemente dos ebionitas, porém, esses gnósticos mantinham que, quando Jesus foi preso e executado, Cristo deixou seu corpo, deixando-o sofrer sozinho, enquanto nosso Aeon via de longe, intocado pelo sofrimento [12]. Já os docéticos conciliaram suas concepções filosóficas com as tradições evangélicas, desenvolvendo a crença que Cristo era um ser divino, que vem ao mundo com "roupa", aparência, disfarce humano, vivendo como um rabi galileu chamado Jesus Nazareno. Na concepção deles ele vive uma vida como um homem (mais ou menos) comum, como pregador e profeta itinerante, exorcista e curandeiro, como os evangelhos descrevem, mas sua verdadeira natureza de ser celestial com "roupa humana" só é conhecida por alguns, para todos os que viam ou conheciam, le seria "Jesus de Nazaré, carpinteiro e pregador", com CPF e Carteira de Identidade.


Assim, como nos diz o Professor Maurice Goguel, mesmo os "docéticos não contestavam a história evangélica. Eles eram cristãos idealistas, agarrados acima de tudo a noção da divindade de Cristo e o caráter celestial de sua pessoa, e que tentavam dar uma interpretação harmonizadora com suas idéias (...) Os docéticos tornam-se assim testemunhas da tradição evangélica"[13]. A questão não era sobre os feitos de Jesus, sua pregação e milagres, de que tinha sido enviado por Deus. O ponto era a natureza da sua manifestação. O grosso da tradição evangélica não opôs doceticos, separacionistas e proto-ortodoxos. Bart Erhmann acredita que o verso em que Jesus está em agonia no Getsemane, suando sangue, foi adicionado a Lucas, para frear o uso do do texto pelos docéticos [14], que também utilizaram os eventos narrados na tradição, como a escolha dos díscipulos, as grandes mensagens, e a crucificação. É a interpretação dessa tradição, e conceitos filosóficos particulares dos docéticos, que os levam a uma opinião teológica diferenciada da narrativa comum. Assim, proto-ortodoxos, marcionitas, gnósticos docéticos e marcionitas, bem como os ebioniotas, compartilhavam uma tradição evangélica comum e antiga, apostólica, um verdadeiro "elo perdido", sobre "Jesus Nazareno, varão aprovado por Deus com milagres, prodígios e sinais, que foi entregue pelo determinado conselho e presciência de Deus, e crucificado; e a qual Deus ressuscitou. Esses fatos comuns geraram interpretações teológicas e filosóficas diferentes por parte desses grupos.

c) John M Roberts


John M Roberts nasceu na cidade de Bath, Inglaterra. Se graduou em Oxford, e iniciou sua carreira acadêmica, em 1953, como professor visitante nos EUA, como membro do Institute for Advanced Study, em Princeton, e posteriormente nas Universidades da Carolina do Sul e de Colúmbia. Retornando ao Reino Unido, voltou para Oxford e ministrou também na Universidade de Southampton.




Roberts não era especialista em cristianismo primitivo, judaísmo do segundo templo, ou antiguidade clássica, seu campo de atuação foi a história moderna, temas como a revolução francesa. No entanto, ao escrever uma "história do mundo", com objetivo de situar o leitor leigo "das origens nas savanas africanas a 2007", Roberts situa as origens e desenvolvimento do cristianismo no seio do Império Romano, e apresenta algumas questões importantíssimas sobre a compreensão de nossas fontes, com grande poder de sintese e objetivamente, o que nos permite uma perspectiva mais global, em relação a uma abordagem mais aprofundada e pontual de um historiador especialista. Além disso, incluo Roberts em nossa lista, por apresentar a visão de um historiador de um outro período, que pode (e traz) alguns "insights" em relação aos desafios de nossas fontes sobre o cristianismo primitivo, em particular, e da Antiguidade em geral:




"Into this electric atmosphere Jesus was born in about 6 BC, into a world in which thousands of his countrymen awaited the coming of the Messiah, a leader who would lead them to military or symbolic victory and inaugurate the last and greatest days of Jerusalem. The evidence for the facts of his life is contained in the records written down after his death in the gospels, the assertions and traditions which the early Church based on the testimony of those who had actually known Jesus.(tradução) Nesta atmosfera carregada, por volta de 6 AC, Jesus nasceu, em um mundo em que milhares de seus compatriotas esperavam o advento do Messias, um lider que levaria a vitória militar ou simbólica e inauguraria os últimos e mais gloriosos dias de Jerusalém. A evidência para os fatos da sua vida está contida nos registros escritos após sua morte nos evangelhos, afirmações e tradições nas quais a Igreja Primitiva se baseava no testemunho daqueles que haviam conhecido Jesus[15].




Assim, Roberts posiciona o nascimento de Jesus no contexto amplo das expectativas messiânicas do Judaismo de seu Tempo, e passa a analisar os evangelhos, e principalmente, as tradições que teriam sido baseadas na memória oral dos seguidores de Jesus.




The gospels are not by themselves satisfactory evidence but their inadequacies can be exagerated. They were no doubt written to demonstrate the supernatural authority of Jesus and the confirmation provided by the events of his life for the prophecies which had long announced the coming of Messiah. This interested and hagiographical origen does not demand sceptism about all the facts asserted; many have inherent plausibility in that they are what might be expected of a jewish religious leader of the period. They need not be rejected ; much more inadequate evidence about far more intractable subjects has often to be employed. There is no reason to be more austere or rigorous in our canons of acceptability for early christians records than for, say, the evidence in Homer which illuminates Mycanae. Nevertheless, it is very hard to find corroborative evidence of the facts stated in the Golspels in other records.[15] (tradução) "Os evangelhos, isoladamente, não são evidência \satisfatória, mas seus problemas podem ser as vezes exagerados. Sem dúvida, foram escritos para demonstrar a autoridade sobrenatural de Jesus e que os eventos de sua vida eram confirmações das antigas profecias da vinda do Messias. Sua origem hagiográfica e por partes interessadas, não exige, contudo, ceticismo em relação a todos os fatos que narram. Muitos são inerentemente plausíveis com base no que se esperaria para um líder religioso judeu do período. Não é necessária sua rejeição; emprega-se frequentemente evidência muito mais problemática sobre assuntos bem mais intratáveis. Não há razão para sermos mais austeros ou rigorosos em nossos canons de aceitabilidade para os registros da igreja primitiva do que, por exemplo, as evidências em Homero que iluminam o periodo Micênico. Dito isto, e muito difícil encontrar elementos corroborativos dos fatos narrados nos evangelhos em fontes externas.[15]





Roberts apresenta assim as dificuldades e os desafios envolvidos no uso dos evangelhos como fonte histórica. Ele começa observando que não são o tipo de material com o qual os historiadores sonham, por terem sido elaborados com um viés, com o objetivo de trazer pessoas a nova fé (João 20:31) e confirmar os já evangelizados ou convertidos (Lc 1:4), buscando vigorosamente demonstrar que os eventos da vida de Jesus cumpriam as escrituras, e não "historiadores profissionais em busca da objetividade crítica"(como diria Geza Vermes). No entanto, como observa Roberts, esses problemas não nos devem levar a jogar o bebê com as águas do banho, levando-nos ao ceticismo total sobre os fatos narrados. Apesar das dificuldades e possível utilizar o método histórico-crítico nos evangelhos.




Em primeiro lugar, Roberts observa que muitos elementos dos evangelhos "inerentemente plausíveis com o que se esperaria de um líder religioso judeu da período", ou seja, são altamente plausíveis no contexto. Podemos acrescentar já visto no post anterior, há muitas evidências de uma tradição oral vibrante anterior aos evangelhos (L Michael White), que tem seu valor reconhecido como fonte histórica, junto com Josefo, para o mundo judaico do periodo anterior a destruição de Jerusalém (Fergus Millar), que várias tradições individuais (e complexos de tradição) contém tanto "colorido local" e tantos "indicios de familiaridade" que devem ter surgido na Palestina, no periodo em que Jesus exerceu seu ministério (Gerd Thiessen), os evangelistas apresentam Jesus consistentemente pregando nas pequenas vilas e aldeias da Galiléia, um mundo distinto dos cristãos primitivos nos grandes centros urbanos da civilização greco-romana, ainda que fosse interessante para esse cristãos ver Jesus discutindo filosofia com os filósofos em Séforis ou Tiberiades, indicando fortemente que nesse aspecto os evangelistas reproduziram o que encontraram em suas fontes (Geofrey M de Ste Croix). Acima já refletimos sobre como os evangelhos sinóticos apresentam um contorno geral de Jesus poderoso em palavras e atos, nas pequenas vilas e aldeias da Galíleia, em dissonância com a pregação do Cristo querigmático posterior; proto-ortodoxos, ebionitas, marcionitas, gnosticos docéticos e separacionistas conservam o esqueleto básico dessa narrativa, quase como um ancestral comum, mesmo que não o enfatizem (David Flusser e Geza Vermes).




A identificação de elementos que plausivelmente podem ser organizados em uma narrativa comum coerente com o contexto histórico em que teriam se originado, e que são mantidos em várias tradições cristãs concorrentes e rivais, em alguns casos indo contra as tendências de desenvolvimento dessas tradições, formam a base do critério de plausibilidade histórica.




Como observa um colega e contemporâneo de John M Roberts, Louis Gottschalk, que foi Professor da Universidade de Chicago, em seu Manual, "Understanding History", na análise de um documento, o historiador deve se ater mais a cada parte relevante do documento, do que ao documento como um todo. Em relação a cada um desses elementos relevantes e particulares, ele deve se perguntar: "Isso é crível ? Por crível não se entende "o que realmente ocorreu", mas sim o "que é mais proximo do que realmente pode ter acontecido com base no exame crítico das melhores fontes disponíveis"[16]. Ou seja, os elementos com alto grau de verossemelhança, o que, enfatiza Gottschalk, é bem mais do que não ser falso, e ainda acima do que meramente plausível[16]. Em outras palavras, o historiador tem condições de estabelecer verossemelhança, ao invés de verdade objetiva[16]. Foi justamente isso que os estudiosos já citados fizeram com os evagelhos. A partir da analise dos elementos relevantes das fontes, estabeleceram a partir de vários elementos plausíveis, um retrato verossimilar de Jesus, tendo em vista o contexto em que viveu, e o impacto que causou. É semelhante a montagem de um quebra-cabeça, onde as peças são arranjadas de forma a formarem um figura, reconhecendo que muitas peças podem estar faltando, e as vezes seja possivel apenas esboçar, ou nem isso, a figura original.




Roberts observa ainda que fontes com problemas similares ou maiores que os evangelhos são utilizados pelos historiadores em outros campos. Ele cita o caso dos escritos homéricos em relação ao período micênico, mas temos ainda as narrativas de Tito Lívio (século I AC) em relação a República Romana primitiva (séculos V e IV AC); a biografia de Apolonio de Tiana (sec I DC) por Filostrato de Quios (século III DC); os livros históricos do Velho Testamento e as tradições orais de povos africanos na reconstrução do passado pré-colonial. Também a atestação de Jesus em fontes externas semi-contemporâneas é consistente com a de outros pretendentes messiânicos como Simão de Peréia, Judas Galileu e o Profeta Egípcio. Por fim, Roberts reconhece que ainda se terá o problema de que as narrativas evangélicas, salvo em alguns pontos específicos (existência, crucificação, atividade como mestre e realizador de curas e exorcismos), não encontram paralelo em fontes não-cristãs, o que permite um ampla variação nos detalhes específicos do ministério de Jesus. Tais situações são relativamente comuns na História Antiga e Medieval, e os historiadores tem que viver com isso, e podemos concluir com as observaçoes dos Professores Martha Howell, da Univ. de Columbia e Walter Prevenier, da Univ. de Ghent:


Historians never have just what they want or need. At one extreme is the historian limited to one source. Einhard’s Life of Charlemagne is, for example, the only source scholars have about the private life of Europe’s first emperor. Like many of the political biographies written today, this one is more hagiography than critical biography, and in the best of worlds historians might refuse to use it as evidence about Charlemagne’s life and his character. But historians, although conscious they are prisoners of the unique source and bear all the risks that this involves, use it because it is all they have.” (tradução) Os historiadores nunca tem exatamente o que eles querem ou precisam. Em um extremo está o historiador limitado a uma única fonte. Vida de Carlos Magno, de Einhard, é, por exemplo, a única fonte disponível para os estudiosos sobre a vida privada do primeiro imperador da Europa. Como muitas das biografias políticas escrito hoje, é mais uma hagiografia do que biografia crítica, e no melhor dos mundos ,historiadores poderiam se recusar a usá-lo como evidência sobre a vida de Carlos Magno e seu caráter. Mas os historiadores, embora conscientes que são prisioneiros de uma única fonte e todos os riscos que isso envolve, a utilizam porque é tudo que eles têm. "




Referências Bibliográficas


[1] David Flusser (1998), Jesus, fl. XVIII (Prefácio)


[2] David Flusser (1998), Jesus, fl. 1-3; A biografia de referência de Joseph Smith foi escrita por Fawn McKay Brodie (1945): No Man Knows My History: The Life of Joseph Smith, por ter sido a primeira obra escrita sobre uma perspectiva não hagiográfica (ou polêmica) sobre o fundador do mormonismo. Os escritos de Joseph Smith podem ser consultados no site http://josephsmithpapers.org/ . Sobre Simon Kimbangu, o site "Dicionário de Biografias Cristãs da Africa" , relata "Além de fontes de arquivos (Archives Africains, Brussels; BMS archives, Oxford), a principal documentação sobre a vida e o ministério de Kimbangu é de Paul Raymaekers, ed., "L'Histoire de Simon Kimbangu prophète d'après les écrivains Nfinangani et Nzungu," Archives de sociologie des religions 31 (1971): 7 - 49 and Paul Raymaekers and Henri Desroche, ed., L'Administration et le sacre. Discours religieux et parcours politiques en Afrique Centrale (1921 - 1957) (1983). A história oral foi coletada em W. MacGaffey, "The Beloved City: Commentary on a Kimbanguist Text," JRA 2 (1969): 129-147, e em Kuntima Diangienda, L'Histoire du Kimbanguisme (1984), escrita pelo filho mais jovem de Kimbangu, o último dirigente da Igreja de Kimbangu. M.-L. Martin, Kimbangu: An African Prophet and His Church (1975); Werner Ustorf, Afrikanische Initiative (1975)".


[3] Para uma análise histórica sucinta e objetiva dos milagres de Jesus numa perspectiva naturalista, ver John Dominic Crossan (1995), Jesus uma Biografia Revolucionária, fls. 104/106; para uma outra mais detalhada e aprofundada, ver John P Meier (1999) Um Judeu Marginal, Livro 2, Volume III,; Professor Raymond Van Dam elaborou uma excelente análise histórica dos relatos de milagres de santos do século V, em seu livro "Saints and their miracles and Late Antique Gaul"(1993) no que se refere a placebos, doenças psicosomática e cura pela fé, um trabalho de referência é o de Arthur e Erica Shapiro "The Powerful Placebo: From Ancient Priest to Modern Physician" ver também Erney Plesmann de Camargo e Mônica Teixeira (2002) Sobre Placebo e Efeito Placebo, Rev. Latinoam. Psicopat. Fund., V, 2, 118-125; Monica Teixeira (2008) Placebo, um Mal Estar para a Medicina, Rev. Latinoam. Psicopat. Fund., São Paulo, v. 11, n. 4, p. 653-660, dezembro 2008; Armando Favazza (1982) Modern Christian Healing of Mental Illness , Am J Psychiatry 139:6, June 1982, 728-736. Nicholas Humphrey (2002) Great expectations: the evolutionary psychology of faith-healing and the placebo effect In Nicholas Humphrey (2003) The Mind Made Flesh: Essays from the Frontiers of Evolution and Psychology, Ch. 19, 255-85, Oxford University Press.


[4] Informações biográficas de Geza Vermes constantes em seu livro "As Varias Faces de Jesus", fl. 369 (contracapa). Especificamente no que se refere ao período da ameaça nazista ver sua autobiografia, "Providential accidents: an autobiography (1998)", fls. 32-39;


[5] Geza Vermes (1998) As Varias Faces de Jesus, fls. 177 e 263, respectivamente


[6] Geza Vermes (1998) As Varias Faces de Jesus, fl. 246


[7] Geza Vermes (1987) The Jesus Notice of Josephus Re-Examined, Journal of Jewish Studies 38, 1- 10;


[8] Geza Vermes (1998) As Varias Faces de Jesus, fl. 306-307


[9] Tertuliano de Cartago, Prescrição contra os Hereges, capítulo 13.


[10] Tertuliano, Contra Praxeas 2, e do "Véu das Virgens 1".
[11] Sobre Pitagoras, segundo Diogenes Laércio (cerca de 200 DC, Vida e Doutrinas de Filosofos Eminentes, Vida de Pitágoras, IX) e Porfírio de Tiro (280 DC, Vida de Pitágoras, 28-29), havia a crença que Pitagoras era o deus Apolo em forma humana, vindo das paradisíacas regiões hiperboreas. Sobre Mani (seculo III DC), O Professor Werner Sundermann, da Universidade Livre de Berlim, em seu artigo na Encyclopaedia Iranica observa "Mani vita preserved in the Cologne Mani Codex (abbrev. CMC), namely Peri tēs gennēs tou sōmatos autou “About the genesis/procreation of his body,” may presuppose the transcendental precedence of his spiritual nature, as does the Parthian fragment M 6032, which states that Mani “through mercy put on the earthly garment,” that is, his material body.(tradução) "A biografia de Mani preservada no Código Mani de Colônia (abrev. CMC), chamada Peri tes gennes tou somatos autou "Da gênese/procreação de seu corpo" possivelmente presupõe a precedência transcendental de sua natureza espiritual, como faz o Fragmento parto M 6032, que afirma que Mani, "por compaixão pôs vestes terrenas", ou seja, um corpo material. http://www.iranicaonline.org/articles/mani-founder-manicheism, acessado 28.12.2011.


[12] Para uma bom "overview" a respeito dos docéticos e sepacionistas no gnosticismo cristão primitivo ver Bart Erhmam, "Evangelhos Perdidos", diferenciação entre doceticos e separacionistas fls 36-37; No que se refere a predominância dos separacionistas sobre os doceticos entre os gnósticos, fl. 188; quanto as crenças comuns gnósticas ver fls.171-201. Entre os rivais dos proto-ortodoxos pelas mentes e corações dos cristãos primitivos. Cerinto, segundo Hipolito de Roma, " afirma que Jesus não nasceu de uma virgem, mas da união natural de José e Maria, como o resto da humanidade; mas que ele excedia em justiça, prudência e compreensão todos os outros homens. E Cerinto afirma também que após o batismo de Jesus, Cristo veio a terra em forma de pomba e desceu sobre ele, vindo da parte da Soberania que habita acima do circulo da existência, e depois disso ele passou a pregar o Pai, que não era conhecido, e realizar milagres. E ele declara que no fim de sua paixão, Cristo o deixou, uma vez que era incapaz de sofre, sendo um Espírito da parte do Senhor" (Hipolito, Refutação de todas as Heresias, Livro X, Capítulo 17). Também Basilides pregava que "o Pai não nascido e sem nome, (...) enviou seu próprio primogênito Nous (aquele que é chamado Cristo) para libertar, aqueles que acreditam nele, do Demiurgo criador do mundo. Ele apareceu então, na Terra em forma humana, para nações representadas por aquelas potestades, e realizou milagres. No entanto ele mesmo não sofreu a morte, mas Simão, um home de Cirene, sendo chamado, levou a cruz em seu lugar; e foi transfigurado para parecer com ele, para que acreditassem que ele era Jesus, e o crucificassem, por ignorância e error, enquanto Jesus recebeu a forma de Simão, e estando de longe, ria deles" (Irineu de Lion, Contra as Heresias, Livro I, Capitulo 24, seção 4.
[14] Maurice Goguel (1926), Jesus the Nazarene: Myth or History?, fl. 79

[15] John M Roberts e Orde Arne Westad (2007) The New Penguin History of World, fl. 265. (obs: Edição de 2003, revisada em 2007 por Orde Arne Westad)
[16] Louis Gottschalk (1969) "Understanding History, A Primer of Historical Method, fls. 139-140.
[17] Martha Howell e Walter Prevenier (2001) From Reliable Sources, fl. 81

segunda-feira, 10 de outubro de 2011


Uma de nossas maiores preocupações aqui no adcummulus tem sido apresentar ao leitor em lingua portuguesa recursos confiáveis para análise histórica dos textos do Velho e (principalmente) Novo Testamento, e refletir a respeito do Jesus Histórico, da origem do cristianismo, no contexto cultural e social da Antiguidade..... No entanto, não há como ignorar o fato de que uma vez que nossa cultura foi impactada, moldada, influenciada decisivamente pelo cristianismo, é díficil agir com distanciamento crítico. Existe o risco do cristão encarar a análise histórica do cristianismo como a defesa de sua fé e identidade, de seu estilo de vida, e talvez, consciente ou subconscientemente, apele por um "tratamento especial" para as narrativas sagradas. Por outro, os que forem céticos ou mesmo críticos do cristianismo e de sua influência, podem igualmente se sentir atraidos com visões que desqualifiquem, apriori, qualquer tentativa de se analisar historicamente o texto bíblico, uma vez que poderia, de alguma forma, "legitimar" a religião cristã.



Então, a busca das origens do cristianismo, não é, e não será, simples. Pois é dificil fugir da condição de parte interessada. É díficil analisar com distanciamento algo que nos cerca. Mas temos exemplos disso em outras áreas da história, que podem nos ajudar a identifcar as armadilhas que nos esperam, e tentar evita-las. A maioria das pessoas que se interessa por "História do Brasil" será de brasileiros, e vemos muitas vezes como a nossa percepção, presente, dos rumos do país, influência decisivamente nossa visão do passado. É interessante ver como a historiografia retratou figuras como D. João VI, Tiradentes ou os Bandeirantes ao longo do tempo.


Por exemplo, nos debates sobre a "Queda do Império Romano" existem os "catastrofistas" e os "continuistas", mas inúmeras teorias já foram propostas, tais como a "ascensão do cristianismo", degeneração moral", "degradação ambiental", "envenenamento por chumbo", "crescimento do governo". Essas teorias, além de se originarem de algumas evidências específicas, frequentemente são motivadas por percepções e preocupações do presente projetadas sobre o passado. Por exemplo, o Professor Guy Halsall, da Universidade de York, observa que houve uma tendência da historiografia alemã e britânica em ver na "Queda" do Império Romano uma transformação em que os povos germânicos em migração trouxeram "sangue novo" ao já decadente Império Romano [1], enquanto isso, seus colegas franceses e italianos muitas vezes viram nesse mesmo processo, a destruição da "civilização", por "bárbaros", provocando a "Idade Negra"[1], assim, estudiosos franceses lamentavam o fim da civilização romana pelas "invasions barbares" , enquanto os historiadores alemães se referiam a "migração" dos povos germânicos em direção ao Império, o "Völkerwanderungen".[1]

Assim, o "problema" do viés, do "bias", como dizem os americanos, esta disseminado na analise histórica. Surge da necessidade, bem humana, de interpretar o passado a luz da nossa percepção, valores e expectivas no presente. O Professor C. Behan McCullough, um estudioso que tem publicado extensamente sobre a natureza do conhecimento histórico, defende a importância da construção de consensos entre estudiosos de variadas perspectivas e visões de mundo para diminuir o "problema" do viés:

"bias in historical argument can only be checked by other historians familiar with the material, but coming at it from another point of view. This is why consensus among historians is important. Not because this guarantees credibility, but because it helps to eliminate individual bias in historical thinking" [2]
(tradução) vies no argumento do historiador somente pode ser contido ao ser confrontar com outros historiadores familiares com o material, mas que o abordam de uma outra perspectiva. Por isso é que o consenso entre historiadores é tão importante. Não porque tenha garantia de certeza, mas porque ajuda a eliminar a viés individual na discussão histórica"

Assim, a implicação disso nos estudos das origens do cristianismo é que a visão de cristãos tradicionais como McCullough, deve ser analisada junto com a de outros estudiosos qualificados ateus, judeus, cristãos liberais, budistas, espitituais mas não religiosos, de todas as "tribos" que a academia se divide. Uma analogia com que o McCullough propõe, seria entender a busca do consenso e/ou maioria no debate histórico como um tipo de "Congresso" em que as proposições são discutidas aprovadas como em uma "Camara de Deputados". No entanto, indo um pouco além nessa analogia, uma vez que existe o risco um grupo ou conjunto de grupos majoritário criar uma "ditadura da maioria", seria interessante também imaginar uma espécie de Senado, onde as proposições majoritárias seriam revisadas considerando os sub-consensos de cada uma das "tribos", uma vez que cada um dos grupos tem representação igual, independente de seu tamanho. Ou seja, é interessante saber não só o que a maioria dos historiadores pensam sobre o Jesus Histórico, por exemplo, mas também quais são as variações na percepções de estudiosos ateus, judeus, cristão conservadores, esquerdistas, direitistas, feministas, humanistas, alemães, franceses, americanos, brasileiros, japoneses....

Nas próximas semanas, nós vamos apresentar várias análises de historiadores da antiguidade, classicistas, estudiosos do novo testamento, e arqueólogos com objetivo de apresentar como historiadores de várias formações e convicções abordam a origem do cristianismo, Jesus e os evangelhos, sobre pontos como "texto e contexto das narrativas" (Hoje), "fatos básicos", "métodos" e "esboço de uma narrativa construida a partir dos evengelhos e análise histórica. O título da Série será "Quem eles dizem que eu sou, os Historiadores e Jesus". Citamos esses estudiosos não porque concordemos sempre com eles (até porque eles discordam entre si frequentemente), mas no intuito de identificar pontos de consenso e discordância, e prover ao leitor um senso de "mainstream", posições minoritárias, consenso, quase consenso.... Acreditamos que não "multidão de conselheiros, há sabedoria"(Provérbios 15:22).


Parte 1: Texto e Contexto nas Narrativas Evangélicas

Os evangelhos sinóticos epresentam Jesus e seus díscipulos como pregadores itinerantes, que anunciavam o Reino de Deus, e realizam feitos que eram considerados por seus contemporâneos como milagres, notadamente curas e exorcismos, basicamente nas regiões rurais e no interior da Galiléia, governada por Herodes Antipas. Relatam também a visita de Jesus a Jerusalém, em que ele foi acusado pelos "principais sacerdotes" de se proclamar o Messias e o Rei dos Judeus, sendo crucificado por Pôncio Pilatos. Por fim, eles apresentam sua crença de que Jesus era o Messias pois Deus o ressuscitou dos mortos. O Evangelho de João relata outras visitas de Jesus a Jerusalém, por ocasião dos grandes festivais religiosos judaicos, e grande parte da narrativa é focada nessas ocasiões, mas João concorda com os sinóticos em uma base na Galiléia na atividade de Jesus e na narrativa de crucificação e ressureição.

a) L Michael White

L. Michael White, é Professor de História Classica e Religião, e Ronald Nelson Smith Chair in Christian Origins, da Universidade do Texas (Austin). Em seu livro "Scripting Jesus", apresenta as datas geralmente aceitas para a composição dos evangelhos.




"In turn, references in the gospel of Mark, to be discussed latershow that Mark was written sometime near the end of first jewish revolt against Rome. That means sometime between 70 and 75 CE, the dates used by the vast majority of new testament scholars. The remaining New Testament Gospels come in the following decades: Matthew: ca 80-90; Luke 90-100; John 95-120. Although there is considerable debate by scholars about the dates within each of these ranges, the Gospels on the whole fall at least one or two generations after the death of Jesus [3].


(tradução) Por sua vez, referências no evangelho de Marcos, que discutiremos mais tarde, mostram que Marcos foi escrito perto do fim da primeira revolta judaica contra Roma. Isso se deu que em algum momento entre 70 e 75 DC, as datas utilizadas pela grande maioria dos estudiosos do Novo Testamento. Os outros evangelhos do Novo Testamento teriam sido escritos nas décadas seguintes: Mateus: cerca de 80-90 DC, Lucas 90-100 DC, João 95-120 DC. Embora haja muito debate pelos estudiosos sobre as datas específicas em cada uma dessas faixas, os Evangelhos como um todo teriam sido escritos, pelo menos, uma ou duas gerações após a morte de Jesus [3].

Ou seja, embora haja profundas divergências entre os estudiosos sobre quando, onde, para quem, e com que intenção os evangelhos foram escritos, é (quase) consensual que surgiram entre a I e II Guerra Judaica (entre 66 a 132 DC), mas provavelmente entre 70 a 110 DC, em grego . A maioria esmagadora dos estudiosos acredita que Marcos foi escrito primeiro, que Lucas e Mateus o utilizaram, e que por fim foi escrito o evangelho de João. [4] A posição majoritária é que Lucas e Mateus usaram uma fonte comum formada basicamente de ditos de Jesus, chamada Q (ou Quelle, "fonte" em alemão). João, também segundo a maioria dos estudiosos, constituiria uma fonte independente sobre Jesus. Assim, Marcos, Q, as fontes especificas de Mateus (M), e Lucas (L), o evangelho João, as narrativas de nascimento de Jesus, Paulo, além do evangelho de Tomé (principalmente para os estudiosos ligados ao Jesus Seminar) são assim fontes potenciais para o Jesus Histórico, representando cada um visões diferentes existentes no seio do cristianismo primitivo [4]

Professor White descreve as implicações desse fato. O que significa esse deslocamento temporal (e geográfico) de quarenta a setenta anos entre a morte de Jesus e o relato de sua vida? Teriam os autores evangélicos condição e disposição de buscar tradições orais ou escritas sobre Jesus, ou eles simplesmente inventaram sua narrativa? A resposta é que uma parte significativa é proveniente de uma "tradição oral vibrant esobre Jesus que começou a circular cerca de uma década após sua morte", que entre os estudiosos "ninguem hoje acredita que os evenagelhos foram simplesmente inventados.


"The gap between the death of Jesus and the composition of the Gospels means either that the Gospels were made up out of whole cloth or that they were based on older tradition and stories that had circulated only in oral form until they began to be written down many years later. Frankly, no one today would argue that they were merely made up. Various factors support the view that a vibrant oral tradition about Jesus had already begun to circulate within a decade or so after his death [5]. (tradução) O lapso de tempo entre a morte de Jesus e a composição dos Evangelhos, implica ou que os textos foram completamente inventados ou que foram baseadas em tradições e estórias mais antigas que circulavam oralmente, até que começaram a ser escritas muitos anos mais tarde. Francamente, ninguém hoje em dia acredita que os evangelhos foram simplesmente inventados. Vários fatores suportam a posição de que uma tradição oral vibrante sobre Jesus já tinha começado a circular dentro de uma década ou mais depois de sua morte [5]



Ainda segundo o Professor White a existência dessas tradições orais, e, possivelmente, textos escritos (como Q), implicou que a preservação das memórias sobre Jesus. No entanto, a natureza fluida dessas tradições implicaria, segundo White, que foram moldadas e remodeladas pelos evangelistas para atender as necessidades específicas de evangelização, instrução, edificação, e defesa da Fé, de suas comunidades. As comunidades para qual foram endereçadas eram, provavelmente, urbanas, em cidades como Efeso, Antioquia, Corinto, Roma.


It is also possible that there were earlier written sources that are now lost. Though not likely whole "Gospels" as we think of them, they too represent stages in the development of the oral tradition from which the later Gospel writers could draw. Yet the nature and extent of this oral tradition (to be discussed in greater detail in Act 11 below) ensured preservation of early memories, but within fluid and malleable modes of transmission. The writers of the Gospels who used these oral traditions were also capable of combining and reshaping them to fit their own needs, or more precisely the own perceptions regarding what their audiences needed in order to believe in Jesus. They were promoting their faith by telling and retelling the story of Jesus in new and varied situation.(tradução) Também é possível que tenham existido fontes escritas anteriormente que tenham se perdido. Embora não seja provável que não fossem "Evangelhos" completos, tais como nós temos hoje, eles também representam estágios no desenvolvimento da tradição oral a partir do qual aqueles que posteriormente escreveram os Evangelho poderiam ter utilizado. Ainda que a natureza e a extensão dessa tradição oral (a ser discutido em maior detalhe no Ato 11 abaixo) tenham garantido a preservação das memórias primitivas, isso ocorreu a partir de modos de transmissão fluidos e maleáveis. Os escritores dos Evangelhos que usaram essas tradições orais também eram capazes de combinar e remodelando-os para atender suas próprias necessidades, ou mais precisamente suas próprias percepções sobre o que era mais necessário a suas audiências, a fim de crer em Jesus. Eles estavam promovendo a sua fé contando e recontando a história de Jesus em situações novas e variadas. [5]



Assim, o conjunto de memórias associados a Jesus foi interagindo com as necessidades específicas das comunidades cristãs sendo eventualmente postas em forma escrita, até o desenvolvimento das narrativas sistemáticas que temos hoje nos evangelhos a partir desse "núcleo" de reminiscências do Jesus Histórico e seu Ministério. O debate então se dá, quase sempre, não sobre a existência dese núcleo histórico, mas sua extensão e na forma como foi moldado até chegar nos textos atuais.


b) Fergus Millar

Por sua vez, "Sir" Fergus Milar, Camden Professor of Ancient History, Emérito, da Universidade de Oxford, enfatiza os escritos de Josefo, de um lado, e os evangelhos, de outro, como representando a memória de um mundo, "que o vento (ou melhor, a guerra) levou; o do Segundo Templo do Judaísmo. O Professor Millar observa que Josefo é o ponto de partida para entender e analisar os evangelhos, e ele mesmo, embora escrevendo em Roma anos depois da destruição daquele mundo pela Grande Guerra Judaica de 66-73 DC, traz sua experiência do mundo do Templo, das familias sacerdotais, do governo e das grandes articulações políticas. Mas existe ainda um outro mundo das experiências das vilas e comunidades da Galiléia, e da vida dos judeus mais simples e humildes.


"But of course the most profound testimony to the role of Biblical History in the shoping of popular consciousness is provided by the gospels". For although we cannot state when, where, by who or for whom any of them was written , it is remain beyond question that they emerged out of the same world, the jewish life of Galilee, judean Jerusalem itself, as do the works of Josephus. Indeed those works of Josephus, written far way in Rome between the 70s and the 90s, provide the essential starting point for all discussion of the Gospels. For They are rooted in Josephus experience of a world which had by then disapeared: That of the self government jewish community of Jerusalem, the Temple and the High Priests, the high-priestly families, "the sanhedrim" and the great crowds coming for the major festivals. But there was also another world which was still there, but from which he was now cut off: that of the villages and small towns of the jewish region Gallilee and its neighboring tenets above all" [6]


(tradução) Mas é claro que o testemunho mais profundo para o papel da História Bíblica na formação da consciência popular nos é dado pelos evangelhos ". Pois, embora não se pode afirmar quando, onde, por quem ou para quem qualquer um deles foi escrito, permanece fora questão que surgiram a partir do mesmo mundo, a vida judaica da Galileia, da Judeia própriamente dita e de Jerusalém, assim como as obras de Josefo. Na verdade as obras de Josefo, escritas na distante em Roma entre os anos 70 e década de 90, fornecem o ponto de partida essencial para toda a discussão dos Evangelhos. Pois esta enraizada na experiência de Josefo de um mundo que tinha desaparecido: de uma comunidade judaica que se governava, de Jerusalém, do Templo, e dos sumos sacerdotes, das proeminentes famílias sacerdotais, "do Sinédrio", das grandes multidões que atendiam os principais festivais. Mas havia também um outro mundo que ainda estava lá, mas do qual ele estava agora separado: o das aldeias e pequenas cidades da Galileia e adjacências, acima de tudo " [6]

Os escritos de Josefo (principalmente) - bem como Filo (em menor grau), os manuscritos do Mar Morto, os varios autores que viviam no Mediterrâneo no período, e os dados arqueológicos - nos permitem comparar as narrativa da origem do cristianismo e de seu fundador com a paisagem, a moldura, o background, em que eles emergiram. Isso nos permite fazer juizos quanto a plausibilidade, verossimilhança, e tentar formular hipóteses capazes de fornecer a melhor explicação para a evidência disponível. Por exemplo, se os evangelhos colocam Jesus no ambiente rural e judaico da Galiléia dos anos 20 e 30 DC, e sabemos que eles foram escritos para populações helenizadas, vivendo em cidades como Éfeso ou Antioquia do final do século I e/ou início do II DC, os elementos da narrativa fazem sentido a luz do que sabemos do contexto? Até que ponto a missão de Jesus, conforme as fontes, é coerente com o que sabemos sobre a Galileia dos anos 30 DC, e seus adoráveis profetas, milagreiros e revolucionários (ou ao contrário, Jesus aparece perdido e deslocado do contexto)?

The world which the gospels reflect is precisely the same as that which Josephus experienced, but as it was in the decade before his birth, when Galille was still part of the Tetrarchy of Herod Antipas. The fact that they do genuinely reflect this world with its social division and religion disputes, as it was in the 20s and 30 s, does not mean that they were written either there or then. But They remain authoritative testimony to the concerns and historical consciouness of Jewish Society, in Galilee and Jerusalem above all, before the fall of the Temple. The gospels provide an extremely vivid, and , in geographical terms quite extensive views of what the area of Jewish Setlement was in Jesus time."


(tradução) O mundo que os evangelhos refletem é precisamente o mesmo que Josefo experientou, só que na década anterior ao seu nascimento, quando a Galiléia ainda era parte da tetrarquia de Herodes Antipas. O fato de que eles indubitavelmente refletem este mundo com as suas divisões social e disputas religiosas, como era nos anos 20 e 30, não significa que elae foram escritas nem lá, ou naquela época. Mas eles constituem um testemunho autoritativo das preocupações e consciência histórica da sociedade judaica, na Galiléia e em Jerusalém, acima de tudo, antes da queda do Templo. Os evangelhos fornecem um relato extremamente vívido e, em termos geográficos, bastante extenso do que eram os assentamentos judaicos na época de Jesus. " [6]


Ou seja, o ponto que Millar enfatiza é que os evangelhos, embora escritos para uma outra audiência, em outra lingua, décadas depois, realmente refletem realidades e memórias históricas de um "mundo" galileu e rural dos anos 20 e 30 DC. Nesse aspecto eles são complementares a Josefo como fonte para a vida judaica do século I DC. No entanto, uma vez que foram capazes de preservar uma genuina mémoria histórica, a tal ponto de permitir a "montagem" do cenário, quais são as implicações disso para o seu protagonista?


c) Gerd Theissen


Gerd Theissen , professor de teologia do novo testamento da Universidade de Heidelberg (Alemanha), em livro em co-autoria com a Professora de cultura e literatura do cristianismo primitivo da Universidade de Utrecht (Holanda) Annete Merz, nos oferece um exemplo, entre vários de possíveis, de memória histórica incidental contida nos evangelhos.


"(...) tradições individuais (e complexos de tradição) contêm tanto "colorido local" e tantos "indícios de familiaridade" que devem ter surgido na Palestina.


Mt 11:7-9 o "caniço agitado ao vento" citado no dito é, provavelmente, uma referência irônica as moedas de Herodes Antipas, nos quais era desenhado um "caniço" e que circulavaram apenas em seu reinado "[7]


No texto indicado por Theissen, com versões paralelas em Lucas 7:24-25 e no evangelho de Tomé 78, era parte, provavelmente, da fonte de ditos comum utilizada por Lucas e Mateus chamada Q. Jesus após ser questionado por emissários de João Batista, que estava na prisão, se ele era aquele que havia de vir, diz o seguinte a respeito de João:


"Que saístes a ver no deserto? um caniço agitado pelo vento? Mas que saístes a ver? um homem trajado de vestes luxuosas? Eis que aqueles que trajam vestes luxuosas estão nas casas dos reis". Mas, então que fostes ver? um profeta? Sim, vos digo eu, e muito mais do que profeta;


Mas qual a significância de um dito tão enigmático? Theissen sustenta a sua posição a partir da confluência de evidência numismática, geográfica, literária e contextual, que sumarizamos abaixo


A evidência numismática: No I século, os reis herodianos e governadores romanos na Judéia evitavam a prática usual no mundo antigo de colocarem rostos humanos, deuses ou semi-deuses nas moedas cunhadas, para evitar ferir sensibilidades do povo judeu quanto ao 1° e 2° mandamento. Herodes Antipas, que governou a Galiléia e Peréia por 43 anos cunhou moedas com a imagem de um caniço, que circularam a partir do 23° ano de seu reinado (20 DC) [8]. Theissen, com base no trabalho do arqueólogo Yaakov Meshorer , da Universidade Hebraica, observa que essas moedas, de cobre, foram encontradas em pequeno número e sempre na região norte e nordeste de Israel, na mesma Galiléia e Pereia, em que Antipas reinava[8]. O uso de caniços como simbolo nas moedas judaicas foi, até onde se sabe, uma inovação de Antipas, sendo que outras três séries com a mesma figura foram cunhadas nos anos 33, 34 e 37 de seu reinado (ou 29, 30 e 33 DC) [8][9]. Posteriormente, no ano 39 DC, em sua última série, Antipas substituiu os caniços por palmeiras em suas moedas. No mesmo ano, o Imperador Galigula depôs Antipas, e seu território foi incorporado ao novo reino de seu sobrinho Herodes Agripa I, que após sua morte (44 Dc), foi extinto, sendo a Palestina transformada em provincia romana; Logo, as moedas com a figura do caniço, não existentes na Palestina, foram emitidas por Antipas entre 20 a 33 DC, e substituidas posteriormente, não sendo utilizadas novamente por outros governates. Adicionalmente, a evidência geográfica: Caniços e deserto, a princípio, não combinam. Os primeiros indicam fartura de água e fertilidade, o que é aparentemente incompatível com a desolação dos desertos. Mas o Vale Sul do Jordão, apresenta uma peculiaridade interessante pois oferece as duas coisas; um deserto com um oásis no meio, nas margens do rio Jordão, viabilizando o crescimento dessas plantas, (que podiam chegar a 5 metros de altura) também comum na Galiléia. A utilizar o caniço como seu emblema, Antipas passa uma mensagem a seu povo de união, mesmo com seus domínios separados pelo Rio Jordão e as cidades gregas da Decapolis, um simbolo nativo de seus teritórios, e que respeitava a Lei Judaica [8]; evidência histórica contextual: Antipas governou por 43 anos pela seu "jogo-de-cintura" proverbial, de balançar com o vento, conforme as circunstâncias políticas, sem nunca ser levado por ele, um "caniço". Adicionalmente, as moedas com o caniço foram cunhadas por ocasião da construção de Tiberíades, a nova capital da Tetrarquia, onde ficava o Palácio (e as vestes luxuosas, a casa dos reis) [8]. Flávio Josefo (Antiguidades Judaicas 18:36-38) nos diz que durante a construção de Tiberíades, verificou-se que as fundações da cidade estariam sobre um antigo cemitério, levando os judeus mais piedosos a se recusarem a morar lá. Antipas então levou muitos de seus suditos não judeus para viver lá, fornecendo, em alguns casos, terrenos e casas de graça (desde que as pessoas se comprometessem a permanecer na cidade) e construiu seu palácio, que imitava os palácios imperiais de Roma e da Ilha de Capri (o que deve ter aumentado a insatisfação de muitos com um governante "impio" em seu Palácio "pagão", numa cidade 'impura").

Ou seja, o dito reflete um detalhe de uma realidade histórica e geografica especifica da Galiléia e Pereia, no período em que Jesus teria exercido seu ministério (decadas de de 20 e 30 DC), não se enquadrando no contexto anos anteriores, ou dos anos posteriores, assim como é uma informação de dificil obtenção por alguém que vivia distante daquela região e daquele contexto, como os evangelistas. Assim, o mais provavel é que Mateus (e Lucas) tenha uitilizados fontes (como Q), que, em última instância, retiveram memórias históricas genuinas de eventos do período em que Jesus e João Batista exerceram seus ministérios.

d) Geoffrey Ernest M. de Ste Croix


O historiador britânico Geofrey Ernerst Maurice of Ste Croix, foi Professor da Universidade de Oxford, e um dos principais expoentes de um abordagem marxista para o estudo da História Antiga. Uma de suas principais obras é o livro "The Class Struggle in the Ancient Greek World from the Archaic Age to the Arab Conquests" (1982), em que aplica conceitos como a luta de classes, modo de produção e mais-valia na tentativa de explicar a estrutura e transformações ocorridas em vários períodos da Antiguidade, como as cidades-estado gregas dos seculos V e IV AC, a República Romana, o Principado, o Dominato e a "Queda" de Roma, até a ascensão do Islam no sec VI DC, cobrindo mais de um milênio. O surgimento do cristianismo não passa desapercebido. O Professor Ste-Croix utiliza os evangelhos como fonte, e repreende seus colegas de Novo Testamento por não darem a devida atenção a um padrão interessantíssimo encontrado nos Evangelhos. Apesar deles terem sido escritos fora da Palestina, voltados para Comunidades Urbanas e Helenizadas, o mundo que é refletido nos sinóticos, por exemplo, é o de comunidades e vilas rurais obscuras, destacadas do mundo grego-romano das cidades.



"We must begin with the central fact about christians origins, to which theologians and New Testament scholars have never (as far as I am aware) given anything like the emphasis it deserve: that althought the earliest surviving Christian documents are in Greek , and although Christianity spread from city to city in the Graeco-Roman world, its founder lived and preached almost entirely outside the of Graecó-Roman civilisation proper. Here we must go back to the fundamental distiction which I drew in I.iii above between the polis (the Greek city) and the chora (the countryside)- because, if we can trust the only information about Jesus which we have, that of the Gospels (as I believe in this respect we can), the world in which Jesus was active was entirely that of the chora and not at all that of the polis. Apart from Jerusalem (a special case, as I shall explain presently) his mission took place exclusively in the chora, in its villages (komai), in the rural area (the agroi) of palestine. Mainly it was conducted altogether apart from polis territory, in areas of Galilee and Judaea admnistered not by cities but directly by Herod Antipas the "tetrach" or by the Roman governor of Judea; but it is highly significant that on the rather rare ocasions when we do find Jesus active inside polis territory, it is never in the polis itself, in the sense of its urban area, but always in its country district. As We shall see, whenever we have any specif information (as distinct from vague general statements) the terms used are such as to point unmistakably to the countryside- the komai, komopoleis, agroi, chora, also the mere, horia, paralios, perichoros. There is of course a great dispute about how much reliable historical information can legimately be extracted from the narratives of the Gospels, even the Synoptics, But I would emphasise that in so far as we can trust the specif information given us by the gospels there is no evidence that even entered the urban area of any Greek city. That should not surprise us: Jesus belonged wholly to the chora, the Jewish countryside of Galilea and Judea [10]


(tradução) "É imprescindivel que comecemos com um fato central sobre as origens cristãs, à qual os teólogos e estudiosos do Novo Testamento não (até onde sei) tem dado ênfase merecida: a de que embora os documentos mais antigo cristãs tenham sido escritos em grego, e o Cristianismo tenha se espalhado de cidade em cidade no mundo greco-romano, seu fundador viveu e pregou quase inteiramente fora da civilização greco-romana propriamente dita. Aqui devemos voltar a distinção fundamental que eu esboçei [no capítulo] I.iii acima entre as polis ( a cidade grega) e chora (zona rural) - porque, se podemos confiar na única fonte de informação a respeito de Jesus que nós temos, os Evangelhos (como eu acredito que a este respeito podemos), o mundo em que Jesus foi ativo foi inteiramente o da "chora" e não o da "polis". Além de Jerusalém (um caso especial, como explicarei adiante) sua missão ocorreu exclusivamente na "chora", em suas aldeias (komai), na área rural ("agroi") da Palestina. Basicamente sua missão foi realizada totalmente à parte do território da polis, em áreas da Galiléia e da Judéia não administradas por cidades, mas diretamente por Herodes Antipas o "tetrarca" ou o governador romano da Judéia, mas é muito significativo que, nas rarísimas ocasiões quando nós encontramos Jesus ativo dentro do território da polis, nunca é na polis em si, no sentido de sua área urbana, mas sempre em sua periferia rural. Como veremos, sempre que temos qualquer informação específica (e não vagas declarações gerais) os termos usados apontam inequivocamente para a região rural e periférica, komai, komopoleis, agroi, chora, ou meramente, horia, paralios, perichoros. Há, naturalmente, uma grande disputa sobre quanta informação confiável histórica pode ser legitimamente extraída das narrativas dos Evangelhos, mesmo os Sinópticos, mas eu gostaria de salientar que na medida em que podemos confiar nas informações específicas nos dado pelos evangelhos não há evidências de que Jesus atuou na área urbana de qualquer cidade grega. que não deve surpreender-nos: Jesus pertencia totalmente ao chora, ao interior judaizado da Galilea e Judéia [10].

Ste Croix faz uma observação penetrante. Tomemos as cartas de Paulo; vejamos as cidades que são mencionadas: Roma (capital do império), Corinto (maior cidade da Acaia), Filipos (uma das maiores colônias romanas na Grécia), Tessalonica (a maior cidade da Macedônia), as igrejas da Galácia, além da grandes centros como Éfeso e Colossos (se considerarmos as cartas para o qual a autoria paulina é questionada). Alguns eventos ocorrem em Antioquia (a terceira maior cidade do Império), e, claro, Jerusalém. O Apocalipse de João é endereçado as igrejas de Éfeso, e outros grandes centros urbanos da província da Asia; Sardes (onde o proconsul romano residia) , Tiatira , Pérgamo, Filadélfia, Esmirna. Ou seja, os primeiros centros critãos foram, em sua grande maioria, importantes centro urbanos, em um ambiente cosmopolita e plenamente integrado a cultura helenistica no Império, e nesse contexto se inseriam os primeiros cristãos.


Por outro lado, os pilares da narrativa sinótica, Marcos e Q, bem como bem como as fontes particulares de Mateus (M) e Lucas (L), colocam Jesus na Galiléia, e ignoram completamente as duas únicas cidades (polis) propriamente ditas da região em que Jesus atuou, Séforis e Tiberias. Professor Ste Croix observa que nas unicas vezes em que cidades (polis) são mencionadas, são em lugares fora da Galiléia, e sempre nas redondezas, periferia, arredores, nunca na cidade em si [11]. Vemos Jesus na terra dos gerasenos ou gadarenos (Marcos 5:1), onde encontra um homem endemoniado que circulava nas tumbas e montes (ou seja, fora da cidade), e após expulso o demônio e perdidos os porcos, os habitantes da cidade (polis) vão até Jesus (ainda nos arredores da polis) pedindo que ele se retire [10]. Ou então, quando Cesaréia de Filipe é mencionada, vemos Jesus na periferia ou arredores da cidade (Mc 8:27 e Mt 16:13), onde Pedro faz sua confissão, da mesma forma que ao mencionar as cidades fenícias de Tiro e Sidon (Mc 5:14, Mt 8:34 e Lc 6.23), em que a mulher siro-fenícia pede que seu filho seja curado, os evangelhos falam em "mere", "horia" ou "paralios", periferia, "arredores" ou "distrito costeiro" [11]. Ste Croix faz a ressalva que seu objetivo não é avaliar a historicidade de cada uma dessas pericopes individulmente, (algumas como no caso do endemoniado geraseno ou gadareno tem seus conhecidos problemas), mas demonstrar um padrão e avaliar sua implicações.


I dare say that some New Testament scholars may object that I have made far too much of topographical evidence in the Gospels which they themselves are in general reluctant to press. To this I would reply that I am not using any of the Gospels narratives for any topographical purpose: it is a matter of indifference to me whether, for example, the pericope containing the confession of Peter (Mk VIII.27 ff.; Mt XVI.13ff.) is rightly located near Caesarea Phillipi rather than anywhere else. My one purpose has been to demonstrate that the Synoptic Gospels are unanimous and consistent in locating the mission of Jesus entirely in the countryside, not within the poleis proper, and therefore outside the real limits of hellenistic Civilization. It seems to me inconceivable that this can be due to the Evangelists themselves, who (as we have seen) were very likely to dignify an obscure village like Nazareth or Capernaum with the title of polis but would certainly not down grade a locating by making it a country district if in their source it appeared as a polis. I conclude , therefore, that in this respect the Evangelists accurately reflect the situation they found in their sources ; and it seems to me that these sources are very likely indeed to have presented a true picture of the general locus of the activity of Jesus. [11]

(tradução) Ouso dizer que alguns estudiosos do Novo Testamento pode objetar que eu me fiei demais nas evidências topográficas nos evangelhos que eles mesmos em geral relutam em utilizar. A isso eu respondo que não estou usando qualquer uma das narrativas evangélicas para qualquer finalidade topográfica : é indiferente para mim se, por exemplo, a pericope da Confissão de Pedro foi corretamente localizada como ocorrendo perto de Cesaréia de Filipe, e não em outro lugar. Meu objetivo tem sido um para demonstrar que os evangelhos sinóticos são unânimes e consistente em localizar a missão de Jesus inteiramente no campo , não dentro do polis propriamente dita e, portanto, fora dos limites reais da civilização helenística. Parece-me inconcebível que isso pode ser devido ao Evangelistas, que (como vimos) estavam dispostos a dignificar uma vila obscura como Nazaré, ou Cafarnaum com o título de polis, mas certamente não rebaixariam a condição dos lugares que mencionam, tornando em distrito uma polis que é mencionada em suas fontes. Concluo, portanto, que a este respeito os Evangelistas refletem exatamente a situação que encontraram em suas fontes, e parece-me que essas fontes muito provávelmente apresentam um retrato fiel do locus geral da atividade de Jesus. [11]


Ou seja, existe um abismo entre o mundo que os cristãos primitivos viviam (os grandes centros urbanos helenísticos da Siria, Grécia, Asia Menor e Roma) com o mundo em que os evangelhos retratam (as pequenas vilas e areas rurais, e , no máximo, as periferias e arredores das poucas cidades helenisticas da Galiléia e Pereia). Essa dissimilaridade ou diferença, indica a possibilidade de memória histórica.


Esse fato é ainda mais interessante pois os evangelistas, aparentemente, não tinham problemas com a "polis". Eles elevam Cafarnaum e Nazaré, que tudo indica serem pequenas vilas naquele período, a condição de cidade. Certamente, seria interessante para a sua audiência ver Jesus interagindo dentro das cidades gregas, pregando nas "agoras", discutindo com filosofos e autoridades sobre seus ensinos. Não havia porque manter Jesus apenas nos arredores, da periferia dessa instituição do mundo grego-romano, a cidade. Diante disso, Ste Croix conclui que o mais provável é que os evangelistas refeletiram a situação que encontraram nas fontes mais antigas que utilizaram, que apresentavam esse padrão de atuação quase que exclusivo no mundo rural galileu, e que essas fontes mantiveram uma memória histórica acurada do locus de atuação de Jesus em seu ministério.

Referências Bibliograficas


[1] Guy Halsall (2005), "The Barbarian Invasions" , In Paul Fouracre (Ed.) New Cambridge Medieval History, fls. 35-36.
[2] C. Behan McCullough (2004): The logic of history: putting postmodernism in perspective, fl. 15

[3] L Michael White (2010), Scripting Jesus: The Gospel in Rewrite, fls. 05-06

[4] Geza Vermes (2005), A Paixão, fl. 15,; John D. Crossan (1995), Jesus, Uma Biografia Revolucionária, fl. 14; Gerd Theissen (2006), O Novo Testamento, fls. 71-92 e fls. 111-122;.

[5] L Michael White (2010), Scripting Jesus: The Gospel in Rewrite, fls. 05-06

[6] Fergus Millar (1993) The Roman Near East, 31 B.C.-A.D. 337, fl. 342;

[7] Gerd Theissen e Annete Metz (1996) Jesus Histórico fl. 122

[8] Gerd Theissen (2004) Gospel in Context, fls. 26-38, para a analise de Yakoov Meshorer (1967), em Jewish Coins, fls. 66-75; Jonathan Marshall (2008) observa em
Jesus, patrons, and benefactors: Roman Palestine and the Gospel of Luke, fl 187, que a proposta de Theissen foi aceita por muitos estudiosos dentre os quais Sean Freyne (2000, Galilee and the gospels, fls. 201-203), Eckhard Schanabel (2004, Early Christian Mission, Jesus and the Twelve, 1238-1239); John Reumann (2006, Archeology and Early Chistology, 660-682 e 670 a 672). Jonathan Reed (2000) é também receptivo a idéia ( Archaeology and the Galilean Jesus: a re-examination of the evidence, fl. 194).

[9] Morten Horning Jensen (2006) Herod Antipas in Galilee: the literary and archaeological sources, fl 235.

[10] Geoffrey Ernest Maurice de Ste Croix (1983), The Class Struggle in the Ancient Greek World: From the Arcaic Period to the Arab Conquest, fl. 427

[11] Geoffrey Ernest Maurice de Ste Croix (1983), The Class Struggle in the Ancient Greek World: From the Arcaic Period to the Arab Conquest, fl. 429-430

quinta-feira, 21 de julho de 2011

No livro dos Atos dos Apóstolos, encontramos um relato que constituiria um dos pontos cardeais para a história posterior da cristandade. Tal relato encontra-se no capítulo 15 e trata do famoso Concílio de Jerusalém. A partir dele, descobrimos que havia entre os seguidores de Jesus alguns judeus oriundos da seita dos fariseus que haviam aderido ao movimento cristão (At 15,5). Descobrimos também que cristãos judaizantes estavam pregando entre os gentios (At 15,1). Em sua pregação, afirmavam que os gentios deveriam “circuncidar-se e guardar a lei” para que pudessem tornar-se cristãos. O problema colocado pelo texto, portanto, não era secundário nem meramente disciplinar: tratava-se de determinar qual seria o estatuto religioso dos gentios dentro do movimento de Jesus. Eles poderiam ingressar diretamente na comunidade messiânica mediante a fé em Cristo ou precisariam, antes, assumir a identidade religiosa judaica mediante a circuncisão e a observância da Torah?

Atos 15,1 e 15,24 evidenciam que alguns desses pregadores estavam relacionados à própria Igreja de Jerusalém. O texto afirma que eles haviam saído de lá e que, ao chegarem às comunidades gentílicas, estavam “perturbando” os cristãos com sua pregação. A linguagem empregada por Lucas é particularmente significativa: esses homens estavam “perturbando” e “subvertendo” as almas dos gentios, ensinando-lhes algo que, segundo os apóstolos e presbíteros de Jerusalém, não havia sido autorizado pela comunidade apostólica (At 15,24). Não se tratava, portanto, de uma diferença meramente teórica entre escolas de interpretação. A questão já havia produzido consequências concretas nas comunidades e ameaçava criar uma condição de pertencimento diferenciada para os cristãos provenientes do mundo gentílico. Atos 15,2 nos mostra que Paulo e Barnabé tiveram “grande discussão e contenda” com esse grupo de cristãos judaizantes. Diante da impossibilidade de solucionar localmente a controvérsia, os dois grupos foram enviados a Jerusalém para que a questão fosse examinada pelos apóstolos e pelos anciãos. A pergunta fundamental era, então, bastante precisa: os gentios, para se tornarem cristãos, deveriam primeiro circuncidar-se e “guardar a Lei”?

Quando a questão começou a ser formalmente exposta no Concílio, os cristãos provenientes do grupo dos fariseus levantaram-se e defenderam precisamente essa posição. Atos 15,5 registra que alguns deles afirmavam ser necessário “circuncidá-los e mandar-lhes que guardassem a lei de Moisés”. Em outras palavras, a proposta implicava uma espécie de judaização dos gentios como condição de plena incorporação ao povo messiânico. O gentio não seria simplesmente admitido como gentio na comunidade cristã; deveria atravessar previamente a fronteira identitária estabelecida pela Torah. Em termos práticos, a circuncisão funcionaria como sinal corporal dessa incorporação e a observância da Lei como demonstração permanente de pertencimento. Atos 15,7 nos informa que houve “grande contenda”. A comunidade apostólica encontrava-se, portanto, diante de uma disputa de enorme alcance: de um lado, aqueles que defendiam que os cristãos gentios deveriam circuncidar-se e observar a Lei de Moisés; de outro, Paulo e Barnabé, que sustentavam que a incorporação dos gentios à comunidade messiânica não poderia depender dessa transformação prévia de identidade.

A resolução do impasse é apresentada por Tiago, identificado tradicionalmente como Tiago, o Justo, líder da Igreja de Jerusalém. Depois de ouvir Pedro, Paulo e Barnabé, Tiago propõe que não se imponha aos gentios “maior encargo” além de determinadas prescrições: deveriam abster-se “das coisas sacrificadas aos ídolos, e do sangue, e da carne sufocada, e da prostituição” (At 15,29). A decisão é posteriormente incorporada à carta enviada às comunidades gentílicas. O ponto fundamental é que a Igreja de Jerusalém acabou por rejeitar a exigência de circuncisão e da observância integral da Lei de Moisés como condição para o ingresso dos gentios na comunidade cristã. Isso é particularmente importante porque a proposta recusada não era uma invenção de adversários externos: ela havia sido defendida por membros provenientes do próprio ambiente farisaico e, segundo Lucas, por pessoas vinculadas à comunidade de Jerusalém. O Concílio não aboliu a Torah para os judeus; tampouco estabeleceu que judeus cristãos deveriam abandonar suas práticas ancestrais. O que fez foi estabelecer uma distinção fundamental entre a condição religiosa dos judeus que aderiam a Jesus e a condição dos gentios que ingressavam na comunidade messiânica.

Uma questão importante surge, então, a partir da análise do tipo de recomendações feitas por Tiago aos cristãos gentios. Essas prescrições não parecem constituir simplesmente uma lista arbitrária de comportamentos moralmente desejáveis. Elas podem ser compreendidas dentro de uma tradição judaica mais ampla relativa às obrigações mínimas exigíveis dos não judeus que desejassem viver em relação com Israel e com o Deus de Israel. É nesse contexto que ganha relevância a posterior categoria rabínica das leis noáquicas, embora seja metodologicamente necessário evitar uma identificação automática entre o Decreto de Jerusalém e a formulação rabínica posterior das sete leis de Noé. A Jewish Encyclopedia, em sua discussão sobre o Novo Testamento, relacionou historicamente o acordo de Jerusalém à condição dos chamados “prosélitos da porta”, isto é, gentios que poderiam aproximar-se da comunidade judaica sem assumir integralmente a identidade judaica. O artigo afirma:

“Como foi grande o sucesso de Barnabé e Paulo no mundo pagão, as autoridades em Jerusalém insistiram sobre a circuncisão como condição de admissão de membros na igreja, até que, por iniciativa de Pedro e de Tiago, o chefe da igreja de Jerusalém, foi acordada a aceitação das Leis Noáquicas — ou seja, sobre a abstenção da idolatria, da prostituição, do consumo de carne de um animal vivo — as quais deveriam ser exigidas dos gentios desejosos de entrar na Igreja.” (JEWISH ENCYCLOPEDIA, s.d.).

A formulação merece, entretanto, uma cautela histórica. Não devemos simplesmente projetar sobre Atos 15 o sistema rabínico completo das sete leis noáquicas tal como este seria posteriormente sistematizado. O problema é cronológico e conceitual. O que podemos afirmar com maior segurança é que as prescrições de Atos 15 participam de um universo judaico no qual determinadas obrigações eram atribuídas aos povos não judeus em sua relação com Deus, com Israel e com as normas fundamentais da vida humana. A aproximação entre o Decreto Apostólico e as tradições noáquicas é, portanto, historicamente sugestiva, mas deve ser tratada como continuidade de uma tradição conceitual, e não como prova de que os apóstolos já possuíssem uma formulação rabínica acabada das sete leis de Noé.

Um dos testemunhos judaicos mais antigos para a existência de uma tradição relativa aos mandamentos dados a Noé encontra-se no Livro dos Jubileus, obra normalmente situada no século II a.C. Em Jubileus 7,20–28, encontramos uma passagem particularmente significativa:

“E no ano do vigésimo oitavo jubileu, Noé começou a dar aos seus filhos as ordenanças, os mandamentos e todos os julgamentos que conhecia. E exortou seus filhos a observar a justiça, a cobrir a vergonha de sua carne, a abençoar seu Criador, a honrar pai e mãe, a amar seu próximo e a guardar suas almas da fornicação, da impureza e de toda iniquidade [...]. Pois aquele que derramar o sangue de um homem, e aquele que comer o sangue de qualquer carne, será exterminado da terra.” (JUBILEUS, 7,20–28).

A aproximação com Atos 15 torna-se interessante justamente porque não estamos diante de uma correspondência perfeita, mas de um campo comum de preocupações religiosas. Em Jubileus encontramos justiça, relação com Deus, honra aos pais, amor ao próximo, condenação da fornicação e proibição do sangue. Em Atos encontramos idolatria, relações sexuais ilícitas, sangue e carne sufocada. Se acrescentarmos a essas prescrições a tradicional síntese ética atribuída por Jesus ao amor a Deus e ao próximo (Mc 12,28–31), emerge um quadro que apresenta notáveis afinidades com a tradição judaica relativa às obrigações universais da humanidade. A hipótese que se coloca, portanto, não é necessariamente a de que Tiago estivesse simplesmente reproduzindo um texto de Jubileus, mas a de que o Decreto de Jerusalém pode ser compreendido dentro de uma tradição judaica mais ampla que distinguia entre as obrigações específicas de Israel e determinadas obrigações religiosas consideradas universais.

Um ponto particularmente interessante aparece quando Paulo retorna a Jerusalém, em Atos 21, e reencontra Tiago e os anciãos. Tiago o adverte acerca dos milhares de judeus que haviam aderido ao movimento de Jesus e que permaneciam “zelosos da Lei”. Existia entre eles o temor de que Paulo estivesse ensinando aos judeus da diáspora a abandonar os costumes ancestrais. A questão já não dizia respeito somente aos gentios: a própria pregação paulina começava a ser percebida como potencialmente ameaçadora para a continuidade da identidade judaica dentro do movimento cristão. É nesse contexto que Tiago recorda explicitamente a decisão tomada anteriormente acerca dos gentios:

“Quanto aos gentios que abraçaram a fé, já lhes escrevemos sobre nossas decisões: que se abstenham das carnes imoladas aos ídolos, do sangue, das carnes sufocadas e das uniões ilegítimas.” (At 21,25).

A repetição do Decreto é extremamente significativa. Se as prescrições de Atos 15 fossem apenas uma recomendação circunstancial, sem aplicação continuada às comunidades gentílicas, seria difícil compreender por que Tiago as recordaria novamente anos depois. O texto sugere, ao contrário, que a distinção estabelecida em Jerusalém continuava sendo considerada válida. Os gentios não precisavam tornar-se judeus para pertencer à comunidade cristã, mas sua incorporação não era apresentada como religiosamente desprovida de obrigações. Existia uma condição intermediária: não eram submetidos à totalidade da Torah, mas também não ingressavam na comunidade como se nenhuma norma religiosa lhes fosse aplicável.

É precisamente aqui que a comparação com Paulo se torna particularmente interessante. Ao examinarmos 1 Coríntios 10,25–30, encontramos uma posição aparentemente mais flexível em relação às carnes relacionadas aos sacrifícios pagãos. Paulo afirma:

“Tudo o que se vende no mercado, comei-o sem levantar dúvidas por motivo de consciência. Pois ao Senhor pertence a terra e tudo o que ela encerra. Se um pagão vos convidar e aceitardes o convite, comei de tudo o que vos for oferecido, sem levantar dúvidas por motivo de consciência. Mas se alguém vos disser: ‘Isto foi oferecido em sacrifício’, não comais, por causa daquele que vos advertiu e por motivo de consciência.” (1Cor 10,25–28).

A posição paulina exige uma análise cuidadosa. Paulo não parece simplesmente ignorar o problema da idolatria; sua argumentação desenvolve uma distinção entre o alimento enquanto realidade material e o significado religioso atribuído ao seu consumo. A carne vendida no mercado pode ser consumida sem investigação sobre sua procedência ritual. Entretanto, quando o caráter sacrificial é explicitamente colocado em evidência, a situação muda por causa da consciência do outro e do perigo de transformar o ato alimentar em participação simbólica na idolatria. A ética paulina, portanto, desloca o centro da questão: não se trata apenas de saber se determinada carne foi ou não sacrificada a uma divindade, mas de compreender qual significado religioso o ato assume dentro da comunidade.

Aparentemente, Paulo flexibiliza ainda mais a aplicação das recomendações atribuídas ao Decreto Apostólico, especialmente no que toca às práticas dietéticas. Isso não significa necessariamente que Paulo estivesse conscientemente rejeitando o Concílio de Jerusalém. É possível que estejamos diante de diferentes aplicações pastorais de uma decisão cuja formulação original era bastante concisa. Também é possível que a tradição lucana e a tradição paulina reflitam perspectivas diferentes sobre a extensão prática das normas estabelecidas em Jerusalém. O dado mais interessante, entretanto, permanece: a questão da alimentação tornou-se um dos campos nos quais a tensão entre identidade judaica, participação no mundo gentílico e unidade da comunidade cristã foi efetivamente negociada.

Há, finalmente, um aspecto particularmente relevante para o propósito de nossa análise: a questão da guarda do Shabbat por parte dos gentios. Como é sabido, a observância do Shabbat constitui um dos mandamentos fundamentais da Torah e aparece explicitamente no Decálogo. Mais do que uma simples norma ritual, o sábado funciona como sinal da aliança e como elemento de diferenciação identitária de Israel. Se o Concílio de Jerusalém determinou que os gentios não deveriam ser submetidos à circuncisão nem à observância integral da Lei de Moisés, surge inevitavelmente uma pergunta: o que acontecia com um dos mandamentos mais importantes da própria Torah?

Essa pergunta é particularmente interessante porque o Decreto de Jerusalém não menciona o Shabbat. Se Tiago pretendesse estabelecer uma lista completa de obrigações religiosas para os gentios, a ausência do sábado seria difícil de explicar. Se, por outro lado, as quatro prescrições constituem apenas um conjunto mínimo de exigências para a convivência entre judeus e gentios dentro da comunidade messiânica, então sua ausência pode adquirir outro significado. O problema, portanto, não é simplesmente descobrir se os gentios “tinham permissão” para guardar o Shabbat, mas determinar se a observância do sábado constituía uma obrigação religiosa universal ou se permanecia como um sinal específico da aliança de Israel.

É justamente essa questão que conduz à segunda parte de nossa investigação: se os gentios foram explicitamente dispensados da circuncisão e da observância integral da Torah, qual era, afinal, seu estatuto diante do Shabbat? A resposta poderá lançar nova luz não apenas sobre Atos 15, mas sobre a própria natureza da distinção entre cristãos judeus e gentios no cristianismo das primeiras gerações.







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