Estudos sobre Religião - Biblioblog

quinta-feira, 9 de abril de 2009


Em março de 2007, foi ao ar um documentário chamado The Lost Tomb of Jesus. O documentário foi produzido por James Cameron e Simcha Jacobovici. O foco central dessa produção, que também foi apresentada na forma de livro, era tentar demonstrar que a família de Jesus havia sido descoberta em uma tumba em Talpiot.

O documentário sofreu diversas críticas e gerou uma enorme controvérsia. Não nos interessa aqui entrar neste mérito além do que já o fizeram anteriormente. No entanto, acho relevante divulgar aqui um novo documentário chamado The Jesus Tomb Unmasked. De forma curiosa, este documentário nos apresenta a participação da maioria dos especialistas entrevistados no documentário anterior de Jacobovici. Mas com um detalhe, no entanto: eles negam peremptoriamente as ilações traçadas no primeiro filme. E mais: afirmam ter sido manipulados pelos produtores, através de cortes de edição e distorção de informações.

Recomendo profundamente a análise deste novo documentário.

No entanto, o que me deixou sempre perplexo não é a negação das ilações feitas em "The Lost Tomb of Jesus". Elas são realmente forçadas e demonstram uma falta de seriedade com o trabalho arqueológico e de pesquisa. O que sempre me intrigou foi numa encontrar uma satisfatória e séria pesquisa sobre as possíveis ligações entre este material encontrado e o cristianismo. Tudo o que vejo é uma necessidade premente em negar. Um ultra-ceticismo que sempre fez suspeitar do inverso - da falta de seriedade científica em se levar tais possibilidades realmente a sério.

O trabalho de Simcha Jacobovici e James Cameron não convence. Além disso, é realmente lastimável como manipularam os especialistas envolvidos, através das edições do material filmado. No entanto, eles tiveram o mérito de colocar a questão em debate. E as sucessivas negações peremptórias às evidências apresentadas [inclusive com relação às concretas evidências não-manipuladas] só me leva a suspeitar de que existe uma falta de seriedade científica na pesquisa sobre tais dados e evidências.

O novo documentário faz parte do projeto "Expedition Bible". A proposta deste projeto de programas, segundo o próprio site, é a de: "defender e estabelecer a confiabilidade e autoridade da Bíblia."

Uma proposta apologética como esta não pode ser cientificamente tratada com seriedade.

A despeito de algumas contradições nos Manuscritos de Qumran, sobre a seita das cavernas e algumas descrições dos essênios nas fontes clássicas – Philo de Alexandria, Josefo e Plínio, o Velho [há que levar-se em consideração que, especialmente Philo e Plínio, eles obtiveram suas fontes sobre os essênios longe de ser em primeira mão] – Geza Vermes apontou três considerações principais que associam-nos:

1 – Não existe outro local, a não ser Qumran, que corresponda ao assentamento essênio descrito por Plínio entre Jericó e Engendi.
2 – Cronologicamente falando, as atividades essênias descritas por Josefo como tendo lugar no período de Jônatas Macabeus (c.150 a.C.) e a primeira guerra dos judeus (66-70 d.C.) coincidem perfeitamente com a ocupação sectária em Qumran.
3 – As semelhanças da vida em comunidade, a organização e os costumes são fundamentais para confirmar a identificação das duas entidades como algo extremamente provável, na medida em que algumas óbvias diferenças entre elas possam ser explicadas [como, p.ex., no movimento essênio nas cidades, não havia a distribuição comunal-igualitária dos bens obrigatória; a que se considerar o isolamento no deserto, e o convívio público e institucional no meio urbano; no isolamento, as exigências para com pureza e total e integral dedicação de bens, tempo, comportamento, era mais rígida].

Considera também que na seita de Qumram, dois movimentos distintos estavam incorporados, contemplando dois séculos de desenvolvimento, havendo também certa maleabilidade na compilação e transmissão literária. Particularmente, considero apenas que se deve ter a ressalva de não os considerar como representativo geral dos essênios.


Sabemos que com os manuscritos do Mar Morto, desabaram algumas vinculações mais estreitas dentre Jesus e os apóstolos com os essênios, que se especulavam antes desde Renan, p.ex., a partir dos estudos dos textos de Josefo.Tal é muito bem apontado por Joseph Fitzmyer. Mas ainda assim, há muitos paralelos e questões importantes para compreendermos o surgimento, do movimento de João Batista, e do movimento de Jesus, e do próprio cristianismo.

Com as cartas Pseudo-Clementinas, tornou-se evidente que à época de Jesus haviam segmentos de gnosticismo judaico; ou seja, precedendo em muito o gnosticismo dissidente do cristianismo.

Vindo à tona os textos mandeos, na década de 20 do século passado, conheceu-se um movimento batista judaico, pré-cristão. Espalhado na Palestina e Síria.

Também temos conhecimentos de mestres itinerantes que se atribuíam poderes excepcionais, tal como nos informa Atos 5 e Josefo; nomes como Judas e Teudas.

A seita dos se auto-atribuía o nome de Nova Aliança, similar à Kainê Diathekê – Novo Testamento. Veneravam o Mestre da Justiça. James Vanderkam apresenta que eles possuiam um banquete comunitário, e há fragmentos aludindo à presença do Messias durante tal, embora em Qumran menciona-se, no Preceito do Messianismo, que tal refeição era presidida por dois Messias.

Se identificavam como a voz que proclamava no deserto para o arrependimento de Israel e a vinda do Messias e a vitória sobre as forças pagãs e vindicação de Israel [4QpSalmo 3.1; 1QSamuel 8.1216; 11.16-12.24]. Lembra-se que em Ezequiel – 47.1,2,12- e Zacarias – 14.8 haviam profecias que associavam os sinais escatológicos emanando através do último Templo para o Deserto e ao Mar Morto, tornando as águas deste potáveis.

Havia um banho batismal para admissão, contudo, eram repetidos, e não uma única vez. Havia a repartição do bem comum, contudo esta era obrigatória, e administrada, havendo um ofício de administrador para tal. Na comunidade cristã primitiva era livre e espontânea, considerada fruto do impulso do Espírito. No episódio de Ananias e Safira, registra-se que não eram obrigados a levar, podiam guardá-los, embora não tentar ludibriar afirmando terem levado tudo, retendo partes secretamente, para angariar prestígio.

O Evangelho de João é o que apresenta mais paralelos. Há uma passagem da Regra que remonta à inteligência divina como mediadora da criação, embora o que se tem é que ambos remetam à reflexões sapienciais, como registrado em alguns Salmos, Provérbios, Sirácida e Sabedoria.

No Evangelho também, parece haver uma dupla sugestividade, entre a Palavra de Deus no judaísmo, com o conceito helênico do Logos, que adentrara no judaísmo helenizado.

Algumas questões chamam a atenção, seriam atitudes de Jesus que provocariam repúdio na seita. Quando ele comentando da Lei, acrescentando eu porém vos digo, isto seria inadmissível para os essênios e sua concepção legalista. Tais antíteses destoam do mestre da justiça, e a questão do sábado oferece uma clivagem bem pronunciada, vide as regras sabáticas dos manuscritos de Damasco. Eles eram especialmente legalistas em relação ao Sabbath, muito rigorosos a este respeito.

O texto joanino apresenta uma polêmica aberta contra o Templo, sendo um de seus motivos. Josefo declara que os essênios enviavam ofertas ao Templo, sem participar do culto nele. Nos manuscritos não se tem nada claro quanto ao relacionamento deles com o Templo. Pode-se indicar que suas preocupações, antes do que com o Templo, eram de não se misturar às outras formas de judaísmo no culto.

O ascetismo deles também não admitiria a postura de Jesus, que era chamado de comilão e beberrão. Nem com sua postura de mandar os discípulos proclamarem sua missão até sobre os telhados.

Um ponto de contato.

Um ponto de contato que poderia ter se dado, seria através do movimento de João Batista.

Houveram primeiros discípulos de Jesus que antes foram de João Batista. Em boa parte da literatura cristã primitiva, como nas Pseudo-Clementinas, podemos ver que nos primórdios da constituição das igrejas cristãs, o grupo de João Batista foi rival da igreja. O Evangelho de João ressalta que João não era o Messias, nem se assumia ou reinvidicava como tal, antes, aguardava a vinda e a vitória definitiva do Messias.*

André – João 1.40, e o discípulo anônimo a quem o evangelho constantemente remete, adviera do círculo de João Batista. Em Mateus 11.10, Eis aí eu envio diante da tua face o meu mensageiro, o qual preparará o teu caminho diante de ti, pode sugerir que Jesus iniciou seu ministério depois de ter se iniciado no círculo de João. Oscar Cullmann, deveras, escreve que Mateus 11.11 é frequentemente traduzido de maneira equivocada, em que corrigindo seria assim Jesus declara: _Aquele que é o menor (isto é, Jesus enquanto discípulo) é maior do que ele (João Batista), no reino dos Céus.

Pelo evangelho de Lucas, somos informados que João, antes de começar também seu ministério e vivera nos desertos de Judá, local onde se encontrava cavernas e o convento dos essênios. Destarte, é plausível constatar seus contatos, de fato quase impossível negar; sendo precipitado afirmar que ele chegara a ser essênio, todavia retiraria dali influências, reflexões, que ele levara para seu movimento e pregação.

O movimento de Jesus, tendo guardado elementos do movimento de João Batista, contudo reelaborou-os e de certa forma, promoveu assim contrastes e até oposições mais nítidas para com a linha essênica. O mestre da justiça era um sacerdote legalista, tendo morrido e depois venerado como profeta. Foi considerado um mártir de sua mensagem. Jesus, entretanto, assumia na sua morte um papel de acordo com os planos de Deus; dizia que dava sua vida voluntariamente para o papel que assumia . O profeta não assumira um papel de redenção. O evangelho de João não só assume uma postura crítica ao Templo, como expõe Jesus assumindo o papel que o Templo deveria assumir, de encontro do Céu com a Terra, da presença de Deus com os homens. Assim, como Oscar Cullmann pondera, não é improvável que homens como o mestre da justiça sejam os que o evangelho tem presente no capítulo 10 [de João] _Todos os que vieram antes de mim são salteadores....

Um importante ponto a notar a respeito, se dá atentando a resposta que Jesus dera aos discípulos de João quando indagado se era quem estavam aguardando, apresentando os sinais do Reino dos Céus:

Ide contar a João o que estais ouvindo e vendo: os cegos recuperam a vista, os coxos andam, os leprosos são purificados e os surdos ouvem, os mortos ressuscitam e aos pobres são proclamadas as boas novas. Lucas 7.22.

Geza Vermes aponta que no fragmento da Ressurreição dos manuscritos do Mar Morto, esses eram apresentados como sinais do advento do cumprimento escatológico. As curas também eram proclamadas assim no Preceito da Comunidade 4:6.

Uma outra questão, é que o movimento essênio não é intrinsecamente indissociável do mestre da justiça. Josefo, Filo de Alexandria, e Plínio, esmiuçando a seita, não comentaram sobre ele. Antes dos Rolos do Mar Morto, mal se tinha o que dizer a respeito de tal personagem. Diametralmente oposto o que ocorre na igreja cristã.

Há um outro importante ponto de contato: o círculo que se integrou ao movimento de Jesus, conhecido como os judeus helenistas, que contava com personagens importantíssimos como Estevão. Posteriormente, comentaremos a respeito.


*Nesse ponto, me afasto de uma opinião de Dominic Crossan, que sustenta que João aguardava a intervenção direta de Deus para consumar a história e inaugurar seu Reino em imediato. Para mim fica claro, até mesmo pelas próprias passagens que Crossan expõe para sustentar sua posição, que João, sim, esperava a iminência escatológica, mas vinda de Deus por parte do Messias. A esse cabia instaurar de vez o Reino de Deus. Quando ele dizia Eu batizo com água; mas, no meio de vós, está quem vós não conheceis, o qual vem após mim, do qual não sou digno de desatar-lhe as correias das sandálias – João 1.26 - ele contrapunha à sua pessoa; ele – quem vinha após ele, ou seja, punha no mesmo plano. Não se imagina que se referiria a Deus nesses termos, antes usaria algumas das alusões convencionais referentes. Por mais que pensemos no antropomorfismo comum para com YHWH, é muito forçado que João remeteria a Deus em termos de desatar as sandálias, antes do que alguém como o Messias, que embora no mesmo plano, fosse de categoria superior. Assim também quando ele envia discípulos a perguntar a Jesus És tu aquele que há de vir, ou devemos esperar outro?, em Lucas 7.19, se deixa claro que não esperava YHWH vindo de imediato, mas antes seu Messias.

Crossan, Jean Dominic. O Jesus Histórico. Imago Editora, Rio de Janeiro, 1994.

Cullman, Oscar. A significação dos textos de Qumran para o estudo das origens cristãs, in : Das Origens do Evangelho à Formação da Teologia Cristã Ed. Novo Século. São Paulo, 2000.

Fitzmyer, Joseph A. 101 Perguntas Sobre os Manuscritos do Mar Morto. Ed. Loyola, São Paulo, 1997.

Josefo, Flávio. História dos Hebreus: Antiguidades Judaicas, XVIII, 1,5. CPAD. São Paulo, 2006.

Vanderkam, James C. Os manuscritos do Mar Morto hoje. Ed. Objetiva. Rio de Janeiro, 1995.

Vermes, Geza. Os Manuscritos do Mar Morto. Ed.Mercuryo. São Paulo. 2ªed.,2004.

Wright, Nichollas Thomas. Jesus and the Victory of God, Christian Origins and the Question of God, Vl. 2. Augsburg Fortress, 1996.

segunda-feira, 6 de abril de 2009



Há uma passagem particularmente reveladora na documentação produzida no contexto da conquista persa da Babilônia em 539 a.C. O chamado Cilindro de Ciro, inscrição elaborada segundo a tradição política e religiosa babilônica, apresenta a ascensão de Ciro como resultado da escolha de Marduk, principal divindade da Babilônia. É importante corrigir, desde o início, uma identificação que às vezes aparece em formulações populares do problema: Marduk não é uma divindade zoroastriana, mas a principal divindade do panteão babilônico. O texto não pertence, portanto, à religião persa de Ciro, mas ao universo religioso mesopotâmico e procura interpretar a conquista persa a partir da perspectiva da própria Babilônia. A passagem é extraordinária porque descreve a escolha do soberano por meio de uma imagem corporal que encontraremos, quase com as mesmas palavras, no Segundo-Isaías:

“Marduk examinou e inspecionou todos os países, procurando um governante justo segundo o seu coração. Ele tomou Ciro, rei de Anshan, pela mão, chamou-o pelo nome e pronunciou seu nome para a realeza sobre toda a terra. Ele fez a terra de Gutium e todos os medos prostrar-se aos seus pés. E ele apascentou com justiça e retidão todos os povos sobre os quais havia obtido a vitória. Marduk, o grande senhor, contemplou com alegria suas boas ações e seu coração reto.” (OPPENHEIM, 1955, p. 315-316, tradução nossa).

A estrutura do relato é suficientemente precisa para que sua importância não possa ser reduzida a uma simples coincidência. Marduk procura, escolhe, toma Ciro pela mão, pronuncia seu nome e lhe concede a soberania. A conquista militar aparece, portanto, como consequência de uma eleição divina anterior. Ciro não é apresentado como alguém que simplesmente construiu seu império mediante sua capacidade militar; sua vitória é incorporada à ordem cósmica babilônica. A divindade encontra o soberano adequado, toma-o pela mão e o transforma em instrumento de sua própria vontade. A mão de Marduk funciona, assim, como imagem da condução divina da história.

É justamente nesse ponto que o texto do Segundo-Isaías adquire uma dimensão extraordinária. O profeta conhece o mesmo acontecimento histórico, conhece Ciro, conhece a queda da Babilônia e conhece a emergência do Império Persa. Entretanto, quando interpreta esses acontecimentos, utiliza uma linguagem que parece responder diretamente à linguagem política babilônica. Em Isaías 45,1-3, Iahweh declara:

“Assim diz Iahweh a seu ungido, a Ciro, a quem tomei pela destra, para subjugar diante dele as nações e desarmar reis, para abrir diante dele as portas, a fim de que nenhuma porta lhe fique fechada. Eu mesmo irei à tua frente e aplainarei os lugares montanhosos; arrebentarei as portas de bronze, despedaçarei os ferrolhos de ferro. Dar-te-ei os tesouros ocultos e as riquezas escondidas, para que saibas que eu sou Iahweh, aquele que te chama pelo teu nome, o Deus de Israel.” (Is 45,1-3).

A correspondência é impressionante. Marduk toma Ciro pela mão; Iahweh toma Ciro pela destra. Marduk pronuncia o nome de Ciro; Iahweh afirma que o chama pelo nome. Marduk concede a Ciro vitória sobre as nações; Iahweh declara que o fará subjugar os reis. Marduk conduz Ciro à Babilônia; Iahweh afirma que irá à sua frente. Não estamos, portanto, diante de duas descrições inteiramente independentes da ascensão persa, mas diante de duas interpretações religiosas do mesmo acontecimento histórico. A questão decisiva passa a ser saber por qual divindade a história de Ciro deve ser interpretada.

É justamente aqui que aparece a diferença fundamental. No Cilindro de Ciro, Marduk é o sujeito da história. É ele quem procura o governante, escolhe Ciro, toma-o pela mão e lhe entrega o domínio. Em Isaías, entretanto, Iahweh ocupa exatamente essa mesma posição. O profeta apropria-se de uma linguagem política e religiosa reconhecível e a reorganiza em torno do Deus de Israel. O problema não é, portanto, negar que Ciro tenha poder. O problema é determinar de onde procede esse poder e quem possui autoridade para explicar seu significado. Como observa Kuhrt (2007), o Cilindro deve ser compreendido dentro da tradição mesopotâmica de legitimação da realeza; Ciro é apresentado segundo uma linguagem que o integra à ordem religiosa babilônica. O Segundo-Isaías realiza uma operação semelhante, mas com uma finalidade teológica radicalmente diferente.

Essa diferença torna-se ainda mais evidente quando o profeta afirma que Ciro não conhece Iahweh:

“Por causa de meu servo Jacó e de Israel, meu eleito, eu te chamei pelo teu nome; dei-te um título, embora não me conhecesses. Eu sou Iahweh, e não há outro; fora de mim não há Deus. Eu te cingi, embora não me conhecesses, para que se saiba, desde o nascente do sol até o poente, que não há ninguém além de mim. Eu sou Iahweh, e não há outro.” (Is 45,4-6).

A formulação é teologicamente desconcertante. Ciro não precisa conhecer Iahweh para ser escolhido por ele. A relação é unilateral: Ciro não conhece Deus, mas Deus conhece Ciro. O soberano persa permanece estrangeiro, não pertence à comunidade de Israel e não recebe sua missão em razão de uma conversão religiosa. Sua eleição ocorre precisamente para demonstrar que a soberania de Iahweh não está limitada àqueles que o conhecem. A utilização do termo “ungido” (māšîaḥ) para designar um rei persa torna essa afirmação ainda mais radical. Como demonstra Fried (2002), a passagem atribui a um soberano estrangeiro uma categoria carregada de significado na tradição israelita, deslocando a expectativa tradicional de um agente exclusivamente israelita da ação divina.

O problema ganha sua verdadeira dimensão quando consideramos o contexto histórico. A Babilônia havia destruído Jerusalém e o templo; a elite de Judá encontrava-se no exílio; o império babilônico parecia representar a potência que dominava a história. A ascensão de Ciro poderia ser interpretada simplesmente como uma nova demonstração da superioridade dos deuses babilônicos. O Cilindro oferece exatamente essa possibilidade: Marduk abandona o governante inadequado, encontra Ciro, conduz sua vitória e restaura a ordem de Babilônia. O Segundo-Isaías produz uma inversão dessa interpretação. A queda da Babilônia não é apresentada como demonstração da supremacia de Marduk, mas como resultado da ação de Iahweh, que utiliza Ciro para realizar um propósito relacionado à restauração de Israel. A mesma conquista recebe, portanto, dois significados religiosos incompatíveis.

Podemos compreender essa diferença mediante uma estrutura bastante simples. No Cilindro, a sequência é Marduk → escolha de Ciro → conquista → restauração da Babilônia. Em Isaías, a sequência é Iahweh → escolha de Ciro → queda da Babilônia → libertação de Israel. O acontecimento histórico é semelhante; o sistema de significação é completamente diferente. Ciro é o mesmo personagem, o Império Persa é o mesmo agente histórico e a Babilônia é a mesma cidade conquistada. O que muda é o sujeito teológico que reivindica a autoria da história.

Essa característica é fundamental para compreender o monoteísmo do Segundo-Isaías. Quando o profeta declara “Eu sou Iahweh, e não há outro”, não está formulando apenas uma proposição abstrata acerca da existência de Deus. Está produzindo uma afirmação sobre quem governa efetivamente a história. Os impérios podem possuir exércitos, reis e territórios; podem destruir cidades e transportar populações; podem parecer determinar o destino dos povos. Entretanto, segundo o profeta, existe uma soberania anterior à soberania imperial. Ciro pode conquistar Babilônia, mas a interpretação dessa conquista pertence a Iahweh. O conquistador é transformado em instrumento.

É justamente nesse sentido que a imagem da mão se torna tão poderosa. A mão de Marduk e a mão de Iahweh representam, em ambos os textos, uma relação de condução. Mas a apropriação da imagem pelo Segundo-Isaías produz uma inversão teológica: aquele que parece conduzir a história é apresentado como alguém que está sendo conduzido. Ciro domina as nações, mas é conduzido por Iahweh; Ciro conquista Babilônia, mas não controla o significado de sua própria conquista; Ciro é o soberano do maior império de seu tempo, mas o profeta afirma que existe uma soberania acima da sua.

Chegamos, assim, à questão que inicialmente parece apenas retórica: ao final das contas, quem tomou Ciro pelas mãos? Historicamente, não podemos transformar essa pergunta em uma afirmação sobre qual divindade efetivamente interveio na história. Podemos, porém, afirmar algo muito mais interessante: duas tradições religiosas diferentes reivindicaram para suas respectivas divindades a autoridade de interpretar a ascensão de Ciro. O texto babilônico afirma que foi Marduk quem o tomou pela mão; o Segundo-Isaías afirma que foi Iahweh. A disputa não é sobre Ciro, mas sobre quem possui o direito de explicar Ciro.

E talvez seja justamente aí que esteja a força extraordinária dessa pequena coincidência textual. O Cilindro diz, em essência: Marduk tomou Ciro pela mão e, por meio dele, restaurou Babilônia. Isaías responde: Iahweh tomou Ciro pela mão e, por meio dele, libertará Israel. A mesma mão, o mesmo rei e acontecimentos históricos relacionados tornam-se instrumentos de duas cosmologias políticas distintas.

O problema, portanto, não é simplesmente perguntar quem tomou Ciro pela mão, mas perguntar quem tinha o direito de dizer que havia tomado Ciro pela mão. Para a Babilônia, era Marduk. Para o profeta de Israel, era Iahweh. E nessa disputa aparentemente pequena encontra-se uma das mais sofisticadas operações teológicas do Segundo-Isaías: retirar do império vencedor o monopólio sobre a interpretação de sua própria vitória. Ciro pode conquistar o mundo; mas, para o profeta, ele próprio é alguém que está sendo conduzido. O rei que parece dominar a história é, na realidade teológica do texto, apenas aquele cuja mão foi tomada por outro.



Referências

FRIED, Lisbeth S. Cyrus the Messiah? The historical background to Isaiah 45:1. Harvard Theological Review, Cambridge, v. 95, n. 4, p. 373-393, 2002.

KUHRT, Amélie. The Persian Empire: A Corpus of Sources from the Achaemenid Period. London: Routledge, 2007.

OPPENHEIM, A. Leo. The Cyrus Cylinder. In: PRITCHARD, James B. (ed.). Ancient Near Eastern Texts Relating to the Old Testament. 2. ed. Princeton: Princeton University Press, 1955. p. 315-316.

Fontes primárias: Cilindro de Ciro; Isaías 44–45.

Estive pensando nos últimos dias sobre uma forma de aumentar o dinamismo deste blog. Acabei chegando à conclusão de que o caminho é ocupar este espaço também com notícias, pequenos posts e também com a presença de convidados. A idéia é ter pelo menos um pequeno post por dia. Assim, a casa ficará sempre movimentada. É bem certo que não conseguirei esta precisão toda. No entanto, posso garantir que o ritmo de postagens irá aumentar por aqui.

sexta-feira, 27 de março de 2009

Esta surpreendente matéria nos mostra a descoberta de megalitos de 12 mil anos de idade em pleno local onde supostamente estaria o Éden, contendo desenhos e esculturas delicadas de variados animais e criaturas. É de longe a estrutura mais antiga construída por mãos humanas que nós conhecemos. Para se ter uma idéia, os megalitos de Stonehenge na Inglaterra datam de 5 mil anos atrás.

Nunca me satisfez a hipótese de que estruturas arquitetônicas mais sofisticadas neste planeta teriam começado a existir há 6 mil anos atrás. Sempre me pareceu um período por demasiado curto. Ademais, vários indícios, normalmente apresentados por fontes não tão confiáveis, nos mostrava a possibilidade da existência de civilizações anteriores. Desta vez, temos um sítio arqueológico que pode ser considerado como uma das maiores descobertas do século. Que civilização poderia ter feito isso há tanto tempo atrás? Seriam estes os portais de um Templo no Éden?

quinta-feira, 26 de março de 2009

Pois bem! Eu já estava cansado do visual anterior deste blog. Na verdade, nunca me dei bem com ela. Sempre tentei tirar o melhor do template, mas ele era fraco. O tempo, no entanto, sempre me impedia de alterar as coisas por aqui. Ontem, acabei por me render à atávica vontade de mudar. E eis que temos o AD CUMMULUS de cara nova.

O nome deste blog possui três sentidos. O primeiro se refere a um tipo especial de nuvens. Nisso, há uma referência metafórica ao céu. AD CUMMULUS seria algo mais ou menos como "até as nuvens"! Já o segundo sentido se refere à palavra "cúmulo" quando se refere ao ponto ou grau mais alto atingido. AD CUMMULUS seria então "o ponto mais alto atingido". Por fim, há também uma brincadeira com a exclamação "isso é o cúmulo da..."

Como tratamos aqui principalmente de judaismo e cristianismo antigo e temos essa referência ao céu, resolvi colocar como banner definitivo essa foto que tirei das muralhas antigas de Sagunto na Espanha. É uma espécie de convite ao transcender!

E este é o nosso convite! Sempre...

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