Estudos sobre Religião - Biblioblog

segunda-feira, 5 de abril de 2010


No post anterior, conversamos um pouco sobre os problemas associados aos argumentos frequentemente encontrados na internet de que a falta ou escassez de referências não cristãs a Jesus seria uma prova de sua inexistência ou irrelevância histórica, citando como exemplo o filme para internet zeitgeist e lista de Remsburg. Uma vez que os autores do zeitgeist mencionaram Flávio Josefo, falamos anteriormente do relato deste escritor sobre a morte de Tiago, irmão de Jesus chamado o Cristo,. Neste post, onde ainda estamos discutindo algumas questões preliminares em nossa série "Jesus na História Richter de Impacto Histórico", vamos falar sobre a 2ª, e mais polêmica, encontrada em Antiguidades 18:63-64, o assim chamado:

Testimonium Flavianum.
Por esse tempo apareceu Jesus, um homem sábio, [se na verdade podemos chama-lo de homem]. Pois ele foi o autor de feitos surpreendentes, um mestre de pessoas que recebem a verdade com prazer. E ele ganhou seguidores tanto entre muitos judeus, como dentre muitos de origem grega. [Ele era [o] Cristo], E quando Pilatos, por causa de uma acusação feitas pelos nossos homens mais proeminentes, condenou-u a cruz, aqueles que o haviam amado antes não deixaram de faze-lo. [Pois ele lhes apareceu no terceiro dia, novamente vivo, exatamente como os profetas divinos haviam falado deste e de incontáveis outros fatos assombrosos sobre ele]. E até hoje a tribo dos cristãos, que deve esse nome a ele, não desapareceu"[Antiguidades Judaicas, 18:3 (§63-64)]

É verdade que, na forma que se encontra hoje, é muito pouco provável que tenha sido escrito por Josefo. Porém, dizer que "já foi provado ser uma fraude a centenas de anos" é uma meia-verdade. A opinião atual entre os estudiosos, com base nas pesquisas mais recentes, é que Josefo realmente mencionou Jesus, mas que seu texto foi alterado, provavelmente com a adição das frases entre colchetes, acima, pelos copistas cristãos do texto de Josefo, de forma a "embelezar" ou "turbinar" a referência a Jesus. Essa é a teoria da interpolação parcial.

Conforme explica o Professor Louis Feldman, da Yeshiva University:
"Quanto ao celebrado Testemunho Flaviano (Ant. 18:63-64) a grande maioria dos estudiosos o consideram como parcialmente interpolado, sendo esta também a minha conclusão. Que o núcleo básico é autêntico é reforçado pelo fato de que aparece em todos os manuscritos (ainda, que o mais antigo destes seja datado do XI século) e todas as versões, incluindo as traduzidas pelo latim pela Escola de Cassiodorus no século VI" [1].

John P. Meier acrescenta que foram adicionados a coleção de testemunhas indiretas versões variantes em síriaco e árabe [2]. A passagem é citada pela primeira vez por Eusébio de Cesaréia (263-339), em Demonstratio Evangelica 3.5 § 124 e Historia Ecclesiastica 1.11-7-8, escritas por volta do ano 320. Uma vez que todos os manuscritos de Josefo existentes contém o Testemunho Flaviano, eventual crítica em relação a autenticidade é interna, relacionada a aspectos de vocabulário, estilo, fraseologia...

Entre os argumentos para a rejeição total ou parcial da passagem esta o fato de que Josefo, que se dizia fariseu, passou os anos finais de sua vida na corte dos Imperadores Romanos. Como então ele poderia se referir a Jesus como o "Messias" ou que ele havia aparecido ao terceiro dia, ressurreto?

Na Série de posts "Jesus como Mestre e Sábio", discutimos como Josefo poderia ter considerado Jesus como sábio e mestre, além de analisarmos o caso de Galeno - que passou quarenta anos como médico da corte dos imperadores Marco Aurélio (que perseguiu os cristãos), Cômodo e Sétimo Severo - e apesar da suas reservas as bases intelectuais do cristianismo, considerava a "Escola de Cristo" capaz de transformar pessoas simplórias em seres humanos disciplinados, corajosos e ansiosos pela justiça, "verdadeiros filósofos". Outro citado foi o fílosofo neoplatônico Porfírio de Tiro (232-305 DC), que elaborou um violentos ataque a religião cristã, chamado Adversus Christianos ("Contra os Cristãos") em 15 volumes, e uma defesa a religião pagã, "Da filosofia dos oráculos", e mesmo assim chega a dizer que "Jesus foi um homem e virtuoso e sábio, querido até mesmo pelos deuses". Ao analisarmos a relação entre os primeiros cristãos e os fariseus, vimos que, no final do séc. I, não só que apresentavam um relação complexa, de tensão e afinidade, mas que quando Josefo escreveu, os grupos cristãos palestinos, como nazarenos e ebionitas, eram bastante atuantes, e tinham boas conexões com os fariseus.

Testimonium Flavianum na pesquisa atual: Em um post anterior, citei outro trabalho de do Professor Feldmann ("Josephus and Modern Scholarship"), que revisou a literatura relevante sobre Josefo entre 1937 e 1980 [3]. Se é verdade que poucos aceitam a autênticidade total da passagem, reduzido também é o número daqueles que crêem que ela seja uma interpolação completa. No período, 3 em cada 4 estudiosos creêm em uma menção a Jesus nessa passagem, e a posição dominante (70 %) é que foi escrita por Josefo, com alterações e/ou revisões cristãos.

Outro estudioso judeu, Dr. Paul Winter, conduziu um estudo similar, e analisou a literatura relevante de Josefo, revisando 47 estudiosos, que escreveram sobre o Testemunho Flaviano entre 1812 e 1968 [4]. Desses 47, nove o consideraram como basicamente autêntico, e inteiramente escrito por Josefo, 21 entendem que o paragrafo foi escrito por Josefo, mas contém adições cristãs (teoria da interpolação parcial) e 17 o consideravam totalmente falso. Assim, também segundo Winter, uma significativa maioria entre os estudiosos (62 %) aceitam a autenticidade parcial ou total do Testemunho Flaviano. Além disso há uma tendência ainda mais favorável a autenticidade parcial no periodo posterior a I Guerra Mundial (1914-1918).

Paul Winter, 25 estudos sobre Testimonium Flavianum – 1918-1968
6 (24 %) o consideraram como basicamente autêntico, e inteiramente escrito por Josefo,
13 (52 %) parcialmente autêntico, o paragrafo foi escrito por Josefo, mas contém adições cristãs 6 (24 %) espúrio (totalmente falso), o texto foi completamente interpolado por cristãos

Os dados de Winter [4], mostram fortalecimento da tendência de aceitação parcial ou total do Testemunho Flavianum (76 %). Com significativo crescimento dos adeptos da tese da interpolação parcial ( de 43 % para 52 %) Os resultados são similares aos de Feldman (55 % favoráveis a teoria da interpolação parcial, e 75 % favoráveis a autenticidade parcial ou total) . Assim, concluimos como Alice Whealey de que ao longo do século XX, cristalizou-se uma "grande tendência de estudiosos, independentemente de sua filiação religiosa, de considerar o texto como majoritariamente autêntico". Peter Kirby, "completa" os trabalhos de Winter e Feldmann, de 1980 até 1996. Em sua própria leitura, o "placar" é de 10 a 3, favoravel a autencidade parcial [5]. Christopher Price [6] chega a resultados parecidos, 15 a 1 favorável a autenticidade parcial.

Razões para o predôminio da Tese da Autenticidade Parcial:

Professor David Flusser, Universidade Hebraica
"E possível detectar o método do revisor cristão no início da passagem. "Nesta época viveu Jesus, homem sábio - se é possivel chama-lo de homem. É exatamente essa interpolação infeliz que garante a autenticidade da declaração de Josefo de que Jesus era um homem sábio" [7]

Professores Gerd Thiessen e Annete Metz,
"Nem os argumentos a favor da autencidade, nem os favoráveis à tese da interpolação são convincentes. Os primeiros explicam de forma insuficiente os aspectos cristãos, os últimos não fazem justiça ao fato de que há claras ressonâncias da terminologia de Josefo no texto. Por esse motivo, e também devido a descoberta de novas fontes, foram propostas diferentes teorias de reelaboração"[8]

Maria Antonia da Costa Pereira,
"São vários os aspectos que impedem os estudiosos de rejeitar o testimonium como total fabrico cristão. Questões linguísticas (embora se encontrem algumas singularidades que apontem para interpolações tardias não são suficientes para se recusar todo o texto); a forma como esta redigida a referência a Tiago, irmão de Jesus (AJ XX, 200), que implica que esta já havia sido apresentado; finalmente os aspectos comuns as várias versões que se podem encontrar do Testimonium Flavianum levam muitos autores a considerar que alguma coisa Josefo deve ter escrito sobre Jesus"[9]

Assim, entre os motivos para essa forte tendência favorável a autenticidade parcial por parte dos estudiosos, esta o fato das frases claramente cristãs do Testemunho Flaviano , como "se é que podemos chama-lo de homem", "Ele era o Cristo", "porque apareceu vivo a eles ao terceiro dia, como os divinos profetas tinham previsto estas e milhares de outras coisas maravilhosas a respeito dele" parecem não estar bem ligadas ao texto, enquanto que o restante é consistente com o estilo peculiar de Josefo. O outro motivo, é a existência de variantes do texto de Josefo, encontradas em Jerônimo (inicio do sec. V), Agapio (sec. X) e Miguel, o Sirio (sec. XII), que não contém algumas das partes usualmente consideradas como interpolações cristãs.

Versões: Por volta do ano 400, Jerônimo, em sua obra De Viris Ilustribus ("Dos Homens Ilustres") cita o Testimonium Flavianum da seguinte forma:
Ele [Josefo] também escreveu sobre o Senhor dessa maneira: "Nessa época viveu Jesus, um homem sábio, se é que podemos chama-lo de homem. Pois ele foi umrealizador de feitos maravilhosos, mestre de pessoas que recebem coisas verdadeiras com prazer. E ele ganhou muitos seguidores entre os judeus, quanto dentre os gentios, e acreditou-se que ele era o Cristo [Messias]. E quando por causa de uma acusação feita por nossos homens mais proeminentes Pilatos o crucificou aqueles que o haviam amado antes não deixaram de faze-lo. Pois ele lhes apareceu no terceiro dia, novamente vivo, exatamente como os profetas divinos haviam falado deste e de incontáveis outros fatos assombrosos sobre ele. E até hoje a tribo dos cristãos, que deve esse nome a ele, não desapareceu"

Alice Whealey [10] argumenta que o fato da passagem ser encontrada em Jerônimo basicamente na mesma forma, mas com uma variação no ponto crucial do texto, com a frase"Acreditou-se que ele [Jesus] era o Cristo" ao invés de "Ele era o Cristo", aponta que variantes do Testemunho Flaviano em grego circulavam na Antiguidade Tardia e início da Idade Média. Isso é evidenciado pela existência de uma versão do sec. XII do Testemunho Flaviano, em siriaco, de Miguel, o Sírio, em que também se lê "Acreditou-se que ele era o Cristo".

O escritor Josefo também diz em sua obra sobre as instituições judaicas: Nestes tempos havia um homem sabio chamado Jesus, se é que é apropriado chama-lo de homem. Ele foi um realizador de feitos gloriosos e um mestre da verdade. Muitos entre os judeus e dos gentios tornaram-se seus discipulos. e acreditaram que ele era o Messias, em desacordo com a opinião dos principais [homens] de [nossa] nação. Por causa disso, Pilatos o condenou a cruz e ele morreu. Mais aqueles que amavam não deixaram de estima-lo. Ele apareceu para eles vivo após três dias. Pois os profetas tinham predito dele coisas maravilhosas (como estas). E a tribo dos cristãos, que deve seu nome a ele, não desapareceu até [este] dia.

Segundo Whealey, os autores que escreviam em Latim e Siriaco não liam uns aos outros na antiguidade tardia. Contudo, latinos e sirios tinham acesso a obras em grego. Assim, segundo Whealey, a única explicação plausível e que Jerônimo e algum escritor sírio (provavelmente, Tiago de Edessa, que viveu no séc. VII), tiveram acesso a alguma variante grega do Testemunho Flaviano, contendo "Acreditou-se que ele era o Cristo" ao invés de "Ele era o Cristo" [11]. O fato é extremamente relevante pois a variação se dá justamente na frase mais problemática de todo o Testimonium, aquela em que é mais inacreditável que Josefo poderia ter escrito.

Mais talvez a mais importante versão do Testimonium esta na "História do Mundo", de Agapio, escrita em árabe em 941 DC, e publicada pelo Prof. Slomo Pines, da Univ. Hebraica, em 1971.

"Na época viveu um homem sábio, chamado Jesus, que indicou uma boa conduta de vida(*), era conhecido como virtuoso e tenha muitas judeus e gentios como discipulos. Pilatos o condenou a cruz e a morte, mas seus discipulos não desistiram de seu ensino, e contavam que três dias após sua crucificação lhes teria aparecido, estaria vivo, e por isso seria o Messias sobre o qual os profetas contavam maravilhas (ou milagres). (*) E a tribo dos cristãos ate hoje não cessou de existir [12]"

Acredita-se que a versão de Agápio seja um parafrase, e não uma tradução de Josefo. No entanto, é interessante que as frases "se é lícito chama-lo de homem", e "ele era o Cristo", apontadas como obvias interpolações estão ausentes. A frase sobre as aparições aos discipulos, ao 3º dia conforme o relato dos profetas, e sua messianidade, é meramente um relato dos díscipulos.
Agapio era um cristão melkita, bispo da cidade de Hieralópolis Bambice (Síria), então sob dominio muculmano. Feldman observa que estudiosos como Bammel acreditavam que as diferenças na versão de Agápio (em relação a que aparece hoje em Antiguidades) teriam se originado em um ambiente islâmico, possivelmente com finalidade apologética, uma vez que os cristãos foram confrontados com a crença de que alguém tinha morrido no lugar de Jesus, e ele mesmo havia escapado [13]. A propósito, o Alcorão, diz o seguinte a respeito da vida e ministério de Jesus:

"E quando os anjos disseram: Ó Maria, por certo que Deus te anuncia o Seu Verbo, cujo nome será o Messias(148), Jesus, filho de Maria, nobre neste mundo e no outro, e que se contará entre os diletos de Deus. Ele lhe ensinará o Livro, a sabedoria, a Tora e o Evangelho. E ele será um Mensageiro para os israelitas, (e lhes dirá): Apresento-vos um sinal do vosso Senhor: plasmarei de barro a figura de um pássaro, à qual darei vida, e a figura será um pássaro, com beneplácito de Deus, curarei o cego de nascença e o leproso; ressuscitarei os mortos, com a anuência de Deus, e vos revelarei o que consumis o que entesourais em vossas casas. Nisso há um sinal para vós, se sois fiéis.” [14].
E por dizerem: Matamos o Messias, Jesus, filho de Maria, o Mensageiro de Deus, embora não sendo, na realidade, certo que o mataram, nem o crucificaram(315), senão que isso lhes foi simulado. [15]

Os muçulmanos acreditam em Jesus como mensageiro de Deus, que realizou curas, milagres, ensinou e teve discpulos, e o reconhecem como o Messias. Crêem que ele era humano, e não divino. Afirmam, no entanto, que Jesus não foi realmente crucificado, outra pessoa morreu em seu lugar, ( Judas ou Simão de Cirene), e seu substituto teria sido transfigurado para se parecer com ele, tendo as pessoas sido iludidas a acreditar em sua crucificação.

Se Agápio tivesse tido acesso a versão atual do Testimonium, seria estranho não ter mencionado a frase "se é lícito chama-lo de homem", ou a afirmação categórica "porque ele apareceu a eles vivo novamente no terceiro dia; como os divinos profetas tinham previsto estas e milhares de outras coisas maravilhosas a respeito dele" ter sido alterada por um mero relato dos díscipulos. Por outro lado, na versão de Agápio, a referência sobre a crucificação e morte de Jesus teria efeito apologético muito reduzido, visto que o Corão afirma que os judeus (o que inclui Josefo) realmente acreditavam que Jesus tinha sido crucificado ("isso lhes foi simulado"). E que sentido haveria em Agápio inventar uma versão do Testimonium que - não faz referência aos feitos extraordinários de Jesus, nem o reconhece claramente como Messias (ao contrário do Corão), e no resto, concordaria em tudo com as crenças islâmicas (que também creem que Jesus era sábio e virtuoso) - em suma, que não daria nenhum suporte as crenças do (suposto) interpolador?

Feldman observa que Agapio, como cristão convicto, certamente não retiraria do texto a parte que fala que Jesus era sobre-humano, e, provavelmente, não o editaria ara que fosse mais palatável aos muçulmanos, e assim, "reproduz o que encontrou". Acrescenta que Pines demonstrou que a fonte de Agapio é uma versão síria, ainda mais antiga, do Testemunho Flaviano. Em todo caso, aceite-se ou não a versão de Agápio como sendo próximo do que Josefo teria escrito, Feldman conclui que seu grande valor e reforçar ainda mais a probabilidade de que Josefo escreveu algo sobre Jesus, um testemunho neutro, até mesmo negativo, uma vez que faltam justamente as partes a qual se acredita que Josefo não poderia ter escrito, por atestarem o carater messiânico de Jesus[16].

Uma dos motivos porque os estudiosos consideram que Josefo realmente mencionou Jesus, é o fato do Testimonium Flavianum contém a frase "E quando Pilatos a sugestão de nossos líderes o crucificou". Como observa Paul Winter, não é próvavel que a equilibrada distinção entre a denúncia, atribuida aos lideres judeus, e a condenação e execução, conduzida por Pilatos, seja fruto de um interpolador cristão pós origeniano [17]. Ele observa que desde meados do II século os escritores cristãos, repetidamente, minizaram a culpa de Pilatos (e dos romanos) lançando toda, ou quase toda, responsabilidade sobre a execução de Jesus sobre os judeus [17]. E aqui, podemos acrescentar que a "culpa" geralmente era atribuida não só aos lideres judeus, como no Testimonium, mas a todos os judeus, como em Origenes, escrevendo em cerca de 240 DC, que reclama pelo fato de Josefo não ter dito que as "maquinações contra Jesus foram a causa das misérias que atingiram o povo [judeu], pois tinham matado o Cristo"). Se, ainda, levarmos em conta a versão de Miguel,o Sírio - em que os lideres judeus não compartilharam da opinião de alguns do povo de que Jesus era o Cristo, e não são mencionados (explicitamente) como tendo agido para que Jesus fosse crucificado - ou a versão de Agápio - em que Pilatos decide crucificar Jesus, e os líderes judeus não são sequer mencionados, ainda que nos parágrafos imediatamente anterior e posterior ao Testimonium, Agapio diga que judeus mataram Jesus - tornam quase certo que, no mínimo, Josefo escreveu algo sobre a morte de Jesus por ordem de Pilatos.

O Prof. Steve Mason, da Univ. de York, e um dos principais estudiosos de Josefo, observa que a existência de versões alternativas do testimonium encoraja a maioria dos pesquisadores a acreditar que Josefo escreveu algo semelhante ao que temos hoje "cristianizado", "se a versão laudatória de Eusébio e do texto atual foi completamente inventada por escribas cristãos, de onde surgiram então as versões mais "contidas" de Jerônimo, Agápio e Miguel, o Sirio"? [18]

Segundo Mason, a versão de Agapio praticamente elimina as principais dificuldades do associadas ao Testemunho Flaviano, pois (a) não é relutante em considerar Jesus um mero homem (b) não faz referência a milagres de Jesus (c) Pilatos executa Jesus por conta própria (d) Apresenta as aparições "post-mortem" do Jesus como algo relatado pelos discípulos, não como um fato (e) Josefo especula sobre Jesus ser o Messias, mas não afirma explicitamente (f) é dito apenas que os profetas falaram a respeito do Messias, quem quer que ele fosse, e não especificamente sobre Jesus. Esta mudança também explicaria o estranho termo "Messias" para os leitores de Josefo. Em suma, para Mason, a versão de Agapio do Testemunho soaria como algo que um observador judeu do I século poderia ter escrito de Jesus e seus seguidores. [18].

Reconstrução do Testimonium: A descoberta de Agápio e outras versões, associadas a pesquisas de vocabulário e estilo, fizeram avançar propostas de reconstrução do Testimonium, tais como a do estudioso católico John P. Meier (que segue, de modo geral, a proposta dos acadêmicos judeus Joseph Klausner e Paul Winter), que tem encontrado larga aceitação:

"Por esse tempo apareceu Jesus, um homem sábio. Pois ele foi o autor de feitos surpreendentes, um mestre de pessoas que recebem a verdade com prazer. E ele ganhou seguidores tanto entre muitos judeus, como dentre muitos de origem grega. E quando Pilatos, por causa de uma acusação feitas pelos nossos homens mais proeminentes, condenou-u a cruz, aqueles que o haviam amado antes não deixaram de faze-lo. . E até hoje a tribo dos cristãos, que deve esse nome a ele, não desapareceu" (versão de Meier) [19]

A vantagem da proposta de Meier é sua simplicidade. As frases apontadas como interpolações cristãs parecem tão pouco ligadas ao resto do parágrafo que podem ser retiradas, sem que se perca o sentido ou a coesão do texto, tal como se estivessem entre parenteses - Nesta época viveu Jesus um homem sábio, (se é que podemos chama-lo de homem) um realizador de feitos extraordinários (...) - Excluídas essas frases, o paragráfo mantém sua coesão e sentido. As frases tidas como "cristãs" e as (supostamente) josefanas estão postas no parágrafo tal como uma porção de água e outra de óleo se apresentam na imagem ao lado.

Importante ainda é que, pelo menos as duas primeiras, apresentam estilo e linguagem estranho a Josefo ao mesmo tempo que são linguisticamente ligadas ao Novo Testamento. O estudo de Meier demonstra que, ao mesmo tempo em que as palavras e frases chave do "núcleo" do Testimonium ou não aparecem no Novo Testamento ou são ali empregadas num sentido totalmente diferente, quase todas as palavras do núcleo são encontrados em outros textos da obra de Josefo, sendo grande parte do vocabulário característico de Josefo [20]. Ele observa que a palavra grega hedone (prazer) aparece 5 vezes no Novo Testamento, e sempre num sentido de condenação. Em Josefo, essa palavra ocorre 128 vezes. Já paradoxos (incríveis, controversos), é um termo que aparece uma única vez no Novo Testamento, e 50 vezes em Josefo. [21]

A proposta de Meier foi muito bem aceita e tornou a abordagem e solução padrão para a questão do Testimonium, sendo endossada por estudiosos de várias orientações religiosas como o protestante N. T. Wright, o católico (bem) liberal John Dominic Crossan (De Paul University, EUA), a judia Paula Frederiksen (Boston University) e o agnóstico Bart Erhmann (Universidade da Carolina do Norte) [22] entre outros.

Paralelamente, o Professor Geza Vermes chegou a uma reconstituição semelhante a de Meier:
"Por esse tempo apareceu Jesus, um homem sábio. Pois ele foi o autor de feitos surpreendentes e um mestre de pessoas que recebem a verdade com prazer. E ele ganhou seguidores entre muitos judeus, [como dentre muitos de origem grega]. Ele era o assim chamado Cristo. E quando Pilatos, por causa de uma acusação feitas pelos nossos homens mais proeminentes, condenou-u a cruz, aqueles que o haviam amado antes não deixaram de faze-lo. . E até hoje a tribo dos cristãos, que deve esse nome a ele, não desapareceu"[23]

Vermes mantém a referência a messianidade de Jesus, agora como uma crença dos cristãos e não como uma afirmação de Josefo, uma vez que Josefo se refere a Tiago, como o "irmão de Jesus o assim chamado o Cristo". Isso é reforçado pelas versão variantes de Jerônimo e Miguel o Sírio (acreditou-se que ele era o cristo, ou o "foi chamado de Cristo").

Em outro estudo, Vermes chama a atenção a descrição dos feitos maravilhosos de Jesus como paradoxa, pois o Novo Testamento usa uma única vez essa palavra (contra 50 em Josefo), enquanto que a pregação cristão definia os atos de Jesus como "feitos poderosos" (grego: dunameis), ou sinais (semeia), e que seriam as escolhas mais obvias de um interpolador que criasse o testemunho com finalidade apologética. Assim como Josefo, Celso, o ferrenho crítico do cristianismo do final do sec. II, emprega expressão paradoxa poites, para descrever os feitos de Jesus, atribuindo-os a seu conhecimento de magia (Contra Celso 1:6), o que é interessante, uma vez que, conforme observa Alice Whealey, além do termo paradoxa para designar os feitos de Jesus ser raro na literatura cristã pré Concílio de Nicéia, a combinação com o termo poites (realizar), não é encontrada em lugar nenhum da literatura cristã pré-Origenes [24]. Uma vez que se torna improvável que a fonte dessa expressão seja a pregação cristã, é possível que Celso tenha utilizado uma fonte independente, como Josefo.

Além dessas versões neutras, houve propostas de reconstituição de um Testimonium originalmente negativo quanto a Jesus. O Professor Robert Eisler observou que a alteração de algumas letras poderia dar ao texto uma característica totalmente diferente. Sophos aner (sábio) ser lido como sophistes aner (usado para líderes de facção que Josefo não gostava, ou mestres versados nas escrituras que usavam seu conhecimento para desorientar ou enganar, como Judas Galileu); alethe (verdade) também é muito parecido em grego com aethe (estranho), epêgageto (atrair) também pode ter a conotação de "desencaminhar". Assim, em 1931, Eisler propôs uma versão do Testemunho Flaviano que teve bastante repercussão na época:

Neste tempo surgiu [um foco de novos tumultos], um certo Jesus, um homem astuto se é que podemos chamar de homem, [aquele que foi o mais monstruoso dos homens, a quem os díscipulos chamavam o filho de Deus, como tendo feito maravilhas que nunhum outro fizera antes....] Ele era realmente um mestre de truques espetaculares, para aqueles que aceitam o anormal com prazer.... e ele seduziu muitos judeus e também muitos gregos, e foi considerado por eles o Cristo*.... E quando, por causa de uma acusação feita por nossos homens mais proeminentes, Pilatos o sentenciou a cruz, aqueles que o haviam amado não cessaram de causar tumultos. [Por que acreditavam], que tendo estado morto por três dias, ele lhes havia aparecido novamente vivo, como os profetas divinos haviam falado deste e de incontáveis outros fatos assombrosos sobre ele. E até hoje a tribo dos cristãos**, que devem seu nome a ele, não desapareceu."[25]

A proposta de Eisler teve bastante repercussão na época, e encontrou varios seguidores nas décadas seguintes tais como os Professores SGF Brandon e W. Bienert. A proposta é engenhosa pois mantém a totalidade do Testimonium, com um relato agora hostil a Jesus. No entanto, as adições foram consideradas temerárias e especulativas, justamente por não encontrarem suporte em manuscritos gregos de Antiguidades, suas versões em outras linguas antigas, ou em citações. No entanto, versões mais moderadas da tese de Eisler, sem as adições, encontraram apoio de muitos estudiosos. A proposta de reconstituição, do Prof. F.F. Bruce, (1910-1990), da Universidade de Manchester, mantém alguns dos "insights" de Eisler, com vantagem de praticamente não depender de reconstituições de partes perdidas do texto:

"E por essa época surgiu [um novo foco de dificuldades] um certo Jesus, homem sábio. Ele era operador de feitos maravilhosos, mestre daqueles que recebem coisas estranhas com prazer. Atraiu a muitos judeus e muitos gregos. Esse homem era o assim chamado Cristo. E quando Pilatos, ante ao pronunciamento dos principais vultos dentre nós, o condenara a crucificação, aqueles que o haviam amado de começo não cessaram de faze-lo. Pois lhes apareceu, [segundo diziam], vivo outra vez ao terceiro dia, havendo os divinos profetas falado isso e milhares de outras coisas a respeito dele, e mesmo agora, a família dos cristãos, assim denominados por causa dele, ainda não se extinguiu." [26]

É interessante que Bruce propos esta versão em 1943, e Eisler faleceu em 1949. Em 1971, Slomo Pines trouxe ao conhecimento da comunidade científica as versões de Josefo em Agápio e Miguel, o Sírio, que forneceram fortes evidências que boa parte do que Bruce e Eisler propuseram correspondia ao texto original de Josefo. Agápio não contém a frase "se é que podemos chama-lo de homem". As aparições do Jesus ressurecto são relatos dos díscipulos, não algo que Josefo afirma ou se compromete. Em Agápio, Josefo relata que os discipulos de Jesus diziam que ele era o Cristo. Na citação de Miguel, Josefo diz que os seguidores de Jesus pensaram, acreditavam (e porque não, chamaram) que ele era o Messias.

Mas, afinal, Josefo tinha uma visão positiva ou negativa sobre Jesus? Ou seja, qual dessas reconstituições é a correta? Embora a reconstituição negativa, a la Eisler ou Bruce, tenha seus muitos (e qualificados) defensores, sua popularidade foi ultrapassada pelas versões neutras, principalmente em décadas mais recentes. Uma das razões nos é dada por Alice Whealey, uma vez no tempo em Josefo escreveu a relação entre Judeus e Cristãos não era tão polarizada e antagônica como seria nos séculos seguintes[27]. Ou seja, não se deve considerar, a priori, que a atitude, por exemplo, os rabinos do Talmude fosse a mesma de judeus do final do sec. I. De fato, recentemente, tem sido crescente, se não majoritária, a visão de que, a despeitode tensões existentes desde seu surgimento, a divisão definitiva de caminhos entre judeus e cristãos se deu em meados do sec. II, e em algumas regiões muito posteriormente.

Prof. Robert Van Voorst apresenta algumas razões adicionais i) Josefo foi utilizado, basicamente, por cristãos ( e não por pagãos e judeus), que conservaram suas obras e o citaram repetidamente. Houvesse em Josefo uma observação negativa e agressiva a Jesus não haveria tanto "estímulo" para copiar e citar Josefo ao longo dos séculos, e hoje, o mais provavel, e que a obra dele estivesse perdida. ii) A versão de Agápio que mesmo não sendo de maneira alguma negativo a Jesus, não contém a maior parte do material "suspeito" de interpolação, além de apresentar o status messianico de Jesus e sua ressureição como crenças cristãs iii) O relato positivo de Josefo a respeito de João Batista, uma figura perturbadora o suficiente para ser executado por Herodes Antipas, Rei vassalo de Roma. iv) Uma vez que ambas as hipóteses pressupoem que há tanto material claramente cristão e josefano na passagem e que é possivel separar, mesmo com alguma imprecisão, o relato original, mantendo a coesão e sentido do relato, as versões negativas tem a desvantagem de exigirem conjecturas em relação a partes supostamente perdidas do texto, o que implica que a hipotese da versão neutra tem poder explanatório semelhante que a das versões negativas, com a vantagem de apresentar maior simplicidade, e deve ser preferida [28].

Se as razões acima tornam pouco provável a existência de um texto originalmente hostil a Jesus em Josefo, pela necessidade de postular a existência de frases perdidas, sem que haja suporte nos manuscritos e citações existentes, o fato é que alguns dos insights de autores como Eisler e Bruce (ou Twelftree, Ernest Bammel) são bastante plausíveis. Um exemplo nessa direção foi dado pelo historiador francês Theodore Reinach, ainda em 1897:

"Por este tempo apareceu Jesus, chamado Cristo, um homem sagaz, (pois era um realizador de feitos miraculosos), que ensinava aqueles que eram ansiosos por coisas novas, e que seduziu muitos judeus e muitos gregos. Ainda que Pilatos por uma acusação dos nossos líderes o condenou a cruz, aqueles que o amaram desde o início (ou aqueles a quem ele enganou desde o início) não deixaram de segui-lo, e até hoje a tribo dos cristãos, que deve seu nome a ele não deixou de existir [29].

Essa reconstituição e, outras semelhantes, utilizam o fato, já comentado, de que é possivel ler "astuto" ("sophistes") ao invés de "sábio" ("sophos"), de que o verbo "epêgageto" tem conotação possível tanto de "aliciar" ou "seduzir" seguidores quanto de "ganhar" ou "atrair", que Jesus pode ter ensinado coisas "estranhas" (aethe) ao invés de "verdadeiras" ("alethe"), sem nenhuma alteração significativa do que temos hoje, logo uma versão neutra, com leves pitadas de sarcasmo e leves alfinetadas nos cristãos, também é possivel, permitindo alguma ambiguidade tanto para um retrato levemente negativo ou positivo.

Seja como for, as versões antigas do Testimonium, e as suas reconstruções modernas apontam de forma clara que Josefo considerava Jesus um líder carismático, que atraiu (ou aliciou) um grupo de seguidores significativo, e cujas atividades chamaram a atenção de Pôncio Pilatos, que o mandou crucificar. No entanto a força dessa ligação entre Jesus e seus discipulos foi tão grande que os seguidores, chamados cristãos por causa dele, ainda existiam décadas depois da morte de Jesus. É provável também que Josefo tenha relatado dos feitos surpreendentes (ou maravilhosos, ou controversos, mas em todo caso, paradoxais), foi considerado o Cristo por seus discípulos, que os líderes judaicos tenham participado direta ou indiretamente de sua execução (seja não dando suporte as reinvidicações de Jesus e seus seguidores, como em Miguel o Sírio, seja formulando a denúncia contra Jesus). É plausivel, em vista da versão de Agápio, que os díscipulos tenham relatado aparições de Jesus após sua morte.
CONTINUA, (próximo post objeções mais comuns a autenticidade parcial)

Referências Bibliográficas
[1] Louis H Feldman (1984), Flavius Josephus Revisited, The man, His Writings, and his significance, In Wolfgang Haase & Temporini; Aufstieg und Niedergang der römischen Welt, page 822
[2] John.P. Meier, Um Judeu Marginal, fl. 70
[3] Louis Feldmann, Josephus and Modern Scholarship, in Peter Kirby, Testimonium Flavianum http://www.earlychristianwritings.com/testimonium.html , acessado em 17.02.2010
[4] Paul Winter, "Excursus II -Josephus on Jesus and James," in E. Schurer, The History of the Jewish People in the Age of Jesus Christ, rev. and ed. by G. Vermes and F. Millar, pages 428-441. A partir de 1918, Winter cita os estudos de B Brune (1919), W.E. Barnes (1920), R. Laqueur (1920), Van Liempt (1927), F. Dornsieff (1936), e R.H. J. Shutt no campo "Defending Authenticity, istoé, o texto que temos hoje é totalmente ou quase totalmente de Josefo. No campo contrário, "Against Authenticity", temos E. Meyer (1921), L. Wohleb (1927), Solomon Zeitlin (1928), L. Hermann (1929), Hans Conzelmann (1959), F. Hahn (1966), que crêem que o texto foi provavelmente interpolado, totalmente, em Antiguidades. A posição dominante, esta entre os estudiosos listados no campo "Maintaining Theory of Interpolation", que defendem a interpolação parcial, congregando Joseph Klausner (1925), Robert Eisler (1931), Maurice Goguel (1933), W. Bienert (1936), Ch. Martin (1941), F. Scheidwieler (1951), C.K Barret (1956), o próprio Winter (1961) T.W Manson (1962), André Pelletier (1964), SGF Brandon (1968), além de H St. J. Thackeray (1929), que Winter cita para definir os defensores dessa posição " The paragraph in the main comes from Josephus or his secretary, but the christian censor has, by slight omissions and alterations, so distorted it as to give a wholly different complexion" ("o paragrafo foi basicamente escrito por Josefo ou seu assistente, mas o editor/censor cristão, com pequenas omissões e alterações, o distorceu de tal forma que lhe deu um caratér completamente diferente") e Louis Feldman (1965), que também nos dá uma boa definição "A visão mais provável parece ser a que nosso texto representa substancialmente o que Josefo escreveu, mas que algumas alterações foram feitas pelo interpolador cristão".
[5] Peter Kirby (2001), Testimonium Flavianum, www.earlychristianwritings.com/testimonium.html
[6] Christopher Price (2004), Did Josephus Refer to Jesus? www.bede.org.uk/Josephus.htm
[7] Gerd Theissen e Annete Merz (1996), Jesus Histórico, um Manual, fl. 88-89
[8] David Flusser (1998), Jesus, fl. 12
[9] Maria Antonia da Costa Pereira (2004) , "Os Primeiros Cristãos em Flávio Josefo: João Baptista, Jesus Cristo e Tiago, irmão de Jesus" In: Revista Lusófona de Ciência das Religiões, Ano III, 2004, n° 5/6 -191-200.
[10] Alice Whealey (2000), 'The Testimonium Flavianum controversy from Antiquity to the Present", fl. 2 in SBL Josephus Seminar, Papers from 2000 Session (acesso em 17.02.2010) http://pace.mcmaster.ca/media/pdf/sbl/whealey2000.pdf
[11] Alice Whealey (2000), The Testimonium Flavianum controversy from Antiquity to the present, fl.10, nota 8, in SBL Josephus Seminar, Papers from 2000 Session (acesso em 17.02.2010) http://pace.mcmaster.ca/media/pdf/sbl/whealey2000.pdf
[12] David Flusser (1998), Jesus, The Sage from Galilee fl.148. A última frase, sobre a "tribo dos cristãos", foi emendada por Pines a partir do texto grego. Há uma versão online, em inglês, da "História do Mundo" de Agapio, elaborada e disponibilizada por Roger Pearse (2009), que é uma parafrase da tradução francesa do texto árabe de Agapio, publicado por Alexander Vasiliev (1907) , em Patrologia Orientalis, volume 7, fls. 457-591. A versão de Agapio do Testemunho Flaviano se encontra na página 470-471, aqui
[13] Louis Feldman (1984), Flavius Josephus Revisited..., In Wolfgang Haase & Temporini; Aufstieg und Niedergang der römischen Welt, fl. 834
[14] Alcorão 3:45, 48 e 49
[15] Alcorão 4:157
[16] Louis Feldman (1984), "Flavius Josephus Revisited...", In Wolfgang Haase & Temporini; Aufstieg und Niedergang der römischen Welt, fls. 834-835
[17] Paul Winter (1961) Sobre o processo de Jesus, fl. 127; Winter também escreve (fl. 130/131): "Justino, entretanto, apesar de em I Apologia XIV 3 referir-se a (...) Jesus que foi crucificado por Pôncio Pilatos, o governador, sugere em outras passagens que a crucificação foi obra dos judeus. Melito de Sardes fala aos judeus que não só condenaram Jesus a morte mas ainda o pregaram na cruz com as próprias mãos "Embora Jesus tivesse necessariamente de ser crucificado, Israel deveria ter deixado que ele sofresse nas mãos dos gentios, pela mão do opressor, e não pela ação de Israel" retoricamente se dirige a Israel "Aquele para quem até Pilatos lavou a mãos, vós o matastes"
No credo apostólico o nome de Pilatos é mencionado de forma não comprometedora, apenas como referência cronologica - "sofreu sob Pôncio Pilatos"- sem qualquer indicação de que Pilatos teria sido o instrumento desse sofrimento. Na falsa epístola de Pilatos ao Imperador Claúdio, o governador afirma que Jesus foi executado graças a subterfúgios dos judeus. Numa estranha mistura em que se destacam elementos buscados em João e Lucas, Irineu conta que Herodes [Antipas] e Pôncio Pilatos reuniram-se e condenaram Jesus a ser crucificado "Herodes temia que ele [Jesus] tomasse seu lugar (...) e Pilatos foi pressionado pelos judeus que o cercavam a entrega-lo [Jesus] contra a vontade, apoiado no fundamento de que não faze-lo seria ir contra César, libertando um homem que recebera o título de Rei". Tertuliano, referindo-se às várias noções de Jesus correntes entre seus contemporâneos afirma "(...) e o povo já conhecia Cristo, um homem certamente de alguma importância, que os judeus julgaram (...) (os judeus) mataram-no como um adversário (...) toda a sinagoga dos filhos de Israel o matou. O processo de refinamento do retrato de Pilatos foi tão longe que na época de Tertuliano, o Padre da Igreja poderia até se referir como já ciente da verdade cristã". Assim, Winter demonstra, com essas citações de escritores cristãos do sec. II até o tempo de Orígenes, como se cristalizou uma retórica recorrente de absolver Pilatos e lançar a culpa sobre todos os judeus, indistintamente. Isso se acentou nos séculos seguintes, com funestas consequências.
[18] Steve Mason (2003) "Josephus and the New Testament", fl. 172
[19] John P. Meier (1991), Um Judeu Marginal, Volume 1, fl.69
[20] John P. Meier (1991), Um Judeu Marginal, Volume 1, fl. 71.
[21] John P. Meier (1991), Um Judeu Marginal, Volume 1, fls 87 a 90, nota 41 e 42 .
[22] ver John D. Crossan (1994), Jesus uma Biografia Revolucionária, fl. 172; Paula Frederiksen (1999), Jesus of Nazareth, King of the Jews, fl. 249; Bart Erhmann (1999) Jesus, apocalyptic prophet of the new millennium, fl. 59-62;
[23] Geza Vermes (2010), Jesus in the eyes of Josephus, Standpointmag, jan/fev 2010.
[24] Alice Whealey (2005), "Josephus, Eusebius the Ceasarea, and the Testimonium Flavianum" in Christfried Bottrich, Jens Herzer, Torsten Reiprich eds. (2007), Josephus und das neue Testament, Wechselseitige Wahrnehmungen II, fls. 82-83
[25] Robert Eisler (1931), The Messiah Jesus, fl. 61
[26] F.F. Bruce (1949),
[27] Alice Whealey (2000), The Testimonium Flavianum controversy from Antiquity to the present, fl.7, in SBL Josephus Seminar, Papers from 2000 Session (acesso em 17.02.2010) http://pace.mcmaster.ca/media/pdf/sbl/whealey2000.pdf
[28] Robert Van Voorst (2000), Jesus Outside of New Testament: an introduction to ancient evidence, fls 95-99.
[29] citado por Maurice Goguel (1926) Jesus the Nazarene: Myth or History, capitulo II, fl. 35

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

No post anterior, conversamos um pouco sobre os problemas associados aos argumentos frequentemente encontrados na internet de que a falta ou escassez de referências não cristãs a Jesus seria uma prova de sua inexistência ou irrelevância histórica, citando como exemplo o filme para internet zeitgeist e lista de Remsburg. Uma vez que os autores do zeitgeist mencionaram Flávio Josefo, observamos que no texto atual de sua obra Antiguidades Judaicas, existem duas referências a Jesus de Nazaré, nas passagens encontradas no Livro 18:63-64 (conhecida como Testimonium Flavianum) e 20:9:1 (ou 20:200), em que ele relata a execução de Tiago, irmão de Jesus, chamado o Cristo. Neste post, onde ainda estamos discutindo algumas questões preliminares em nossa série "Jesus na História Richter de Impacto Histórico", vamos falar sobre essa referência a Josefo a Tiago, irmão de Jesus, e suas implicações.



Josefo, Tiago e Jesus


Em Antiguidades 20:200, Josefo descreve a execução de "Tiago, irmão de Jesus chamado o Cristo" por ordem do Sumo Sacerdote Anás, o jovem (também chamado Anã, Ananias e Ananus):


"O jovem Anás (...) era precipitado em seu temperamento e inusitadamente ousado. Seguia a Escola dos Saduceus, que são de fato mais insensíveis que qualquer dos outros judeus (...) quando julgam. Sendo portanto este tipo de pessoa, Hananias, pensando ter uma oportunidade favorável, pois que Festo tinha morrido e Albino estava a caminho, convocou o Sinédrio e colocou diante dele o irmão de Jesus, o assim chamado Cristo, de nome Tiago e alguns outros. Acusou-os de terem transgredido a lei e os entregou para serem apedrejados. Mas isso exasperou até os mais zelosos observadores da lei, que mandaram um encarregado ao Rei com o pedido de exigir por escrito de Anás que desistisse de qualquer outras ações, pois não havia sido correto em seu primiero passo. Alguns deles foram ter com Albino, que estava a caminho proveniente de Alexandria, e informaram-no de que Anás não tinha autoridade para convocar o Sinédrio sem seu consentimento. Convencido por essas palavras, Albino rapidamente escreveu a Anás ameacando-vingar-se dele. O Rei Agripa, por causa da atitude de Anás, afastou-o do sumo sacerdócio que ele exercera por três meses e o substituiu por Jesus, o filho de Damasco" (Antiguidades Judaicas 20.9.1 § 200-203)"


O Tiago em questão era o líder da Igreja de Jerusalém, a qual é atribuída a carta de mesmo nome no Novo Testamento, e o mesmo a quem Paulo se refere em sua carta aos Galatás, que ao visitar Jerusálem para encontrar Pedro, tendo demorado com ele 15 dias, afirma "Mas não vi a nenhum outro dos apóstolos, senão a Tiago, irmão do Senhor" (Gal. 1:19). Não confundir esse Tiago com Tiago "Boanerges", irmão de João e Filho de Zebedeu, morto por ordem de Herodes Agripa (Atos 12), cerca de 44 DC. Já o Anás aqui é o filho daquele Anás que é mencionado nos evangelhos de Lucas e João como Sumo-Sacerdote (junto com Caifás) quando Jesus foi crucificado. Segundo Josefo ele e cinco de seus filhos foram Sumo-Sacerdotes. Além disso, o evangelho de João informa que Caífas era genro de Anás, o velho, o que aumenta para sete o número de sumo-sacerdotes daquela família.


Há consenso quase universal entre os estudiosos de que a passagem é autentica:


Em analise detalhada da literatura acadêmica em relação a essa passagem, o Professor Louis Feldman, da Yeshiva University, decano dos estudos sobre Flavio Josefo, nos informa em relação a autenticidade:


"Que, de fato, Josefo realmente escreveu algo sobre Jesus é indicado, acima de tudo, pela passagem - que é reconhecida quase universalmente como autêntica - sobre Tiago, que é referido (Antiguidades XX:200) como o irmão do já mencionado Cristo" [1]


Da mesma forma, Dr. Paul Winter, que analisou quase meia centena de estudos acadêmicos sobre Josefo e Jesus, observa:


"os estudiosos que consideram a segunda passagem [a de Tiago] genuina são mais numerosos que aqueles que o consideram a primeira (Testemunho Flaviano). A maiores dos autores que rejeitam Antiguidades 18.3.3 (63-64) como espúria, não tem dúvidas em relação a autenticidade de Antiguidades XX.9.1.200" [2]


Dos 47 estudiosos consultados por Winter, entre 1812 e 1968, ele cita apenas 5 que consideraram tanto o Testemunho Flaviano (Antiguidades 18:63) como inteiramente falso e a frase "Tiago, irmão de Jesus, chamado do Cristo" (Antiguidades 20:200) como interpolada. Dos 25 estudos realizados de 1918 a 1968, somente 1 (4 %) considerou falsas as duas passagens[2].


Argumentos favoráveis a autenticidade:


A aceitação da passagem como autentica é quase unânime. Uma vez, porém, que existe alguma literatura acadêmica que conteste a frase "Tiago, irmão de Jesus, chamado Cristo", embora bastante reduzida, e uma infinidade de páginas na internet, elaboradas por leigos, que a rejeite violentamente, vamos analisar aqui tanto os argimentos para autenticidade, como aqueles que afirmam que a frase foi inserida (interpolada) no texto original de Josefo por escribas cristãos.


a) A passagem consta em todos os manuscristos e versões de Josefo: Professor John Painter observa que a passagem acima sobre Tiago, irmão de Jesus ocorre em todos os manuscritos existentes, em grego e outras linguas, o que implica que, aqueles que negam a autenticidade tem sobre si o ônus da prova [3].


b) Contexto: Os professores Gerd Thiessen e Annete Merz, das Universidades de Heildelberg e Utrecht, apresentam algumas razões para o texto ser ao autentico, ligadas ao contexto: i) texto estar bem ligado ao contexto, ii) não há interesse da passagem em Jesus, iii) o termo "tou legomenos Christos" (que é chamado Cristo) "não implica aprovação ou dúvida". O cognome "Cristo" aparece apenas para diferenciar Jesus das inúmeras pessoas com o mesmo nome. [4].

c) O foco da passagem é na conduta e deposição de Anás II, e não em Tiago: John P.Meier, professor da Universidade de Notre Dame, observa que tem-se aqui uma referencia banal, de passagem, a alguém chamado Tiago, que Josefo certamente considera um personagem menor, o foco não é em sua execução, mas na forma em que foi decidida, uma atitude precipitada de Ananias, que convoca o Sinédrio ilegalmente, estando o governador romano ausente, e que resulta em uma série de eventos que culmina em sua deposição do cargo [5].

d) A identificação Tiago, irmão de Jesus chamado Cristo" não é encontrada em nenhum lugar da literatura cristã: Meier também observa que em nenhum lugar da vasta literatura cristã (NT, Apócrifos, Nag Hammadi, Pais da Igreja) pré Origenes, existe a expressão, digamos, mundana "Tiago, irmão de Jesus, chamado Cristo" (ton adelphon Iesou tou legomena Christou). Com a deferência e respeito habitual dos cristãos, temos sempre "Tiago, o irmão do Senhor" (ho adelphos tou Kyrious), o irmão do Salvador (ho adelphos tou Soter), no mínimo Tiago, o Justo ou Tiago de Jerusalém. De modo geral, um interpolador utilizaria frases ou termos emprestados do Novo Testamento e/ou da literatura ou pregação cristã. Uma vez que em lugar nenhum se encontra essa frase nos textos cristãos, é muito pouco provável que a frase tenha sido inserida no texto por um escriba, e quase certo que a identificação "irmão de Jesus, chamado Cristo" venha de Josefo [5].


e) A história de Josefo é completamente diferente da versão cristã: Meier também observa que a narração de Josefo do martirio de Tiago difere em tempo e forma do autor cristão Hegesipo (segunda metade do século II), no qual os escribas e fariseus emperraram Tiago, o Justo, das arreias do Templo de Jerusalém; começaram a apedreja-lo, mas foram detidos por um sacerdote, finalmente, um lavandeiro o matou a pauladas. Pouco tempo depois Vespasiano cercou a cidade e Jerusalém foi destruida (Historia Eclesiastica 2.23.12-18). Segundo Eusébio de Cesaréia, o relato de Clemente de Alexandria (Historia Eclesiastica 2.23.3,19), é basicamente o mesmo de Hegesipo. Em Josefo, a ordem de execução de Tiago é do sacerdote saduceu (Ananias) e são os fariseus que se revoltam contra isso. "Mais uma vez", nos diz Meier, "é altamente improvável que a versão de Josefo seja resultado de uma montagem cristã"[5].

f) A passagem não dá testemunho das virtudes de Tiago, o Justo: Em linha com as razões c) e e), o Professor Geza Vermes argumenta que não só o interesse de Josefo está centrado na conduta precipitada e inadvertida de Anás, mas como nada diz sobre as admiráveis virtudes que Hegesipo atribui a vítima. Na versão cristã, Tiago, o Justo, era consagrado ao Senhor desde seu nascimento, não bebia vinho ou bebida forte, e sobre sua barba e cabelo nunca havia passado navalha. Josefo diz apenas que era o irmão Jesus, chamado Cristo, focando seu interesse na atmosfera política conturbada da Jerusalém do I século, usando a história como exemplo dessa realidade [6]. Ou seja, se a frase que identifica Tiago com Jesus Cristo tivesse sido inserida no texto por cristãos, seria muito estranho que eles tivessem parado por aí, não aproveitando para escrever um breve testemunho do grande Tiago, o Justo.

g) A frase é mencionada pelos pais da Igreja, a partir do início do sec. III: Além disso, Orígenes (cerca de 240 DC) cita uma referência de Josefo a Tiago "o irmão de Jesus, chamado Cristo" que se encontrava no "Livro XX de Antiguidades" (Contra Celso 1.47; Contra Celso 2.13; Comentário em Mateus 10:13), e a frase é encontrada desta forma neste mesmo livro. O que é por si só, é uma evidência textual de primeira ordem. Dr. Paul Winter observa que uma vez que a frase em Antiguidades 20:9:1 (§200) é, dessa forma, atestada como anterior a Orígenes, não há nenhuma boa razão para acreditar que "irmão de Jesus, chamado Cristo" na passagem sobre Tiago foi escrita por qualquer outra pessoa que não o próprio Josefo [7].

Só que Origenes (e Eusébio e Jerônimo) cita a passagem bem mais "embelezada", dizendo que "Josefo, que não acreditava que Jesus era o Messias [Cristo], quando estava a buscar as razões da destruição de Jerusalém e a demolição do Templo, e deveria ter dito que as maquinações contra Jesus foram a causa das misérias que atingiram o povo, pois tinha matado o Cristo que foi anunciado pelos profetas. Ele, embora não estivesse disposto a admitir, e ainda como alguém não distante da verdade diz: Estas tragédias atingiram os judeus como retribuição ao que fizeram com Tiago, o Justo, irmão de Jesus chamado o Cristo, pois eles o mataram, mesmo sendo uma pessoa distinta por sua justiça". O mais provável é que esses acréscimos sejam devido a um erro de Origenes ou que ele tenha misturado o relato de Josefo e Hegesipo, uma vez, como observa a Dra. Alice Whealey, que os nomes tem grafia semelhante em grego, e ambos escritores mencionam a morte de Tiago e o cerco e destruição de Jerusalém [8].


No entanto, alguns estudiosos, como o Professor James Tabor, da Universidade da Carolina do Norte [9], acreditam que tenha havido uma segunda passagem referindo-se a Tiago em Antiguidades, hoje perdida (existe algum precedente para isso, em Antiguidades 20.7.2, Josefo diz que o filho do Procurador Felix e Drusila, chamado Agripa morreu na erupção do Vesuvio. Ele diz que descreveria o ocorrido, mas não encontramos esse relato no texto atual de Antiquites.


[adicionado em 15.07.2011: De qualquer forma, vale observar que na seção em que a execução de Tiago é descrita, Josefo observa várias vezes uma situação de crescente degradação e desordem no país. Assim, no parágrafo seguinte (20:9:2 §206), lemos que os servos do Sumo-Sacerdote Ananias se associaram a alguns marginais para roubar os dízimos recebidos pelos outros sacerdotes, espancando aqueles que resistiam, e que os servos dos outros sumo-sacerdotes começaram a agir da mesma forma, "e ninguém os impedia, levando aos sacerdotes que nos tempos antigos eram mantidos pelo dízimo pago a morrerem de fome" (§207). Os sicários então sequestraram o filho do Sumo-Sacerdote Ananias, que foi forçado a convencer o Procurador Albino a libertar dez membros daquele grupo, "o que foi o começo de grandes calamidades" (§ 209), pois os bandidos passaram então a capturar servos do Sumo-Sacerdote para forçar a libertação de seus cumplices, e assim seu número cresceu cada vez mais " e se tornaram mais ousados, e eram uma fonte tormento para a nação" (§ 210). Um pouco adiante, Josefo relata que Jesus, filho de Damasco, foi substituido por Jesus, filho de Gamaliel, e que isso causou um tumulto entre os dois sumos-sacerdotes, e seus partidários formaram bandos que brigavam e se apredejavam nas ruas (§ 213), enquanto que dois membros da familia real, Costobarus e Saulo, parentes do Rei Herodes Agripa, reuniram um grande número de marginais, que usaram de violência contra o povo "e a partir dai, principalmente, a cidade estava em grande desordem, e a nossa situação piorava cada vez mais" (§ 214). Provando a eficiência da Lei de Murphy, Albino, sabendo que havia sido substituido por Géssio Floro, ordenou a execução de muitos prisioneiros, e libertou varios outros, obtendo deles suborno, de forma que "as prisões ficaram vazias, mas o pais cheio de ladrões" (§ 215). Por fim, Josefo expressa sua insatisfação com os Levitas, que persuadiram o Rei Agripa e o Sinédrio a lhes conceder o direito de utilizar as mesmas vestes dos sacerdotes, afirmando "tudo isso é contrário aos costumes de nossa nação, que sempre que foram transgredidos, foram causa de punições que nós nunca conseguimos evitar" (§ 218). Um pouco depois, Jesus filho de Gamaliel foi substituido por Matias, Filho de Teófilo, sob o qual a Guerra com os Romanos começou (§ 223). Nesse contexto de várias calamidades e infortúnios, não é estranho que Orígenes tenha sido induzido a pensar que Josefo estava procurando as causas da destruição de Jerusalém.]


h) Os comentários sobre os efeitos da execução de Tiago, atribuidos a Josefo por alguns pais da Igreja, não foram incorporados a Antiguidades, apesar de seu valor teológico: Conforme observa Alice Whealey [10], é estranho que um eventual interpolador se contentasse com uma versão tão neutra e limitada, e que contradizia o relato cristão tradicional (de Hegesipo) da morte de Tiago. Se, afirma Whealey, como alguns dizem, escribas cristãos "fabricavam" passagens inteiras, porque simplesmente não inseriram em Antiguidades o que Orígenes escreveu (e Eusébio e Jerônimo repetiram) - que Josefo disse, que os judeus diziam, que desastres como a queda de Jerusálem e a destruição do Templo ocorreram como retribuição divina a morte de Tiago - já que seria uma versão teologicamente muito mais interessante? Porque inserir apenas a identificação de que Tiago "era o irmão de Jesus, chamado Cristo" e foi apenas uma vítima de uma ato de um Sumo-Sacerdote afobado, deixando de colocar o comentário atribuído a Josefo por Orígenes, de extrema relevância teológica, de que pensava-se que a morte deste Tiago, o Justo, foi a causa das misérias que atingiram os Judeus? Se, como a maioria dos estudiosos acredita hoje, a referência original a Jesus por Josefo foi "harmonizada" com a versão mais "edificante" encontrada em Eusébio, resultando no atual Testimonium Flavianum, (lembrando que um minoria razoavel de acadêmicos consideram que o Testimonium foi fabricado in totum e inserido em Josefo), porque o mesmo não foi feito com as observações teologicamente interessantes sobre a queda de Jerusalém atribuídas a Josefo pelo mesmo Eusébio (e Orígenes antes dele)? O fato do mesmo não ter acontecido com a passagem sobre Tiago é fortíssima evidência de que o texto não foi alterado ou manipulado uma vez que seria relativamente mais simples harmonizar Antiguidades 20:200 com Orígenes, Eusébio e Jerônimo, inserindo as (supostas) observações de Josefo, sobre a morte de Tiago e queda de Jerusalém feitas por aqueles pais da Igreja.


i) A partir do final do século II, houve uma tendência dos cristãos de considerar Tiago não mais irmão, mas meio ou primo irmão de Jesus: Alice Whealey [11] enfatiza um outro ponto. Chamar Tiago de irmão de Jesus não seria problema para um escritor judeu não cristão do I século. Como também não o foi para Paulo e os evangelistas. No entanto, a partir de meados do II século, referir-se a Tiago como irmão de sangue do Senhor se torna cada vez mais problemático, em virtude da doutrina, cada vez mais disseminada, da virgindade perpétua de Maria. No Proto-Evangelho de Tiago (cerca de 150 DC), Tiago, Simão, Judas e José são retratados como filhos do 1° casamento de José, que agora sendo um viúvo de avançada idade, se casa com Maria, uma menina, para viverem em castidade. Também na literatura não-ortodoxa, o vínculo de sangue entre Jesus e Tiago passa a ser negado, como no e Apocalipse de Tiago e o Apócrifo de Tiago. Os pais da igreja, dos séculos III e IV, como Hipólito, Clemente de Alexandria, Orígenes, Eusébio ao citar o termo bíblico os "irmãos do Senhor" se apressam a esclarecer que eles não eram irmãos de sangue, mas meio-irmãos por parte de pai. Posteriormente, Jerônimo, no final do século IV, defende vigorosamente a vingindade perpétua de Maria, e afirma que Tiago sequer era irmão de Jesus, mas apenas primo-irmão, acusando de heresia aqueles que, como Helvídio e Joviano, diziam que Maria e José tiveram filhos. Aqui podemos acrescentar as observações do Prof. Bart Erhmann, da Universidade da Carolina do Norte, de que virgindade perpétua de Maria se torna desde cedo uma doutrina importante da igreja, e evidenciada pela popularidade do proto-evangelho de Tiago, com numerosos manuscritos antigos descobertos, principalmente na cristandade oriental, na área de influência da Igreja Ortodoxa Grega. Da mesma forma, no ocidente, o Proto-Evangelho de Tiago não encontrou recepção tão positiva, justamente pela força da posição de Jerônimo, que rapidamente se tornaria a posição católica-romana sancionada [12]. Em face da poderosa doutrina da virgindade perpétua de Maria, observa Whealey [13], seria quase inconcebível um cristão nos séculos IV ou V, referir-se a Tiago como irmão de Jesus, sem nenhuma ressalva, como Tiago "meio" ou "primo", arriscando-se a incorrer em heresia, por sugerir que Maria pudesse ter outro filho além de Jesus, quanto mais inserir no texto de Josefo a frase "irmão de Jesus, chamado o Cristo" sem adicionar também "primo" ou "meio" na mesma sentença. No período em que a suposta interpolação teria ocorrido, um cristão escreveria "o meio-irmão" ou o "primo-irmão" de Jesus, chamado o Cristo.


É interessante que, após o tempo de Jerônimo, poucos escritores cristãos fariam menção a essa passagem de Josefo, possivelmente por implicar que Jesus e Tiago eram irmãos de sangue, o que contrariava a visão da Igreja, tanto no oriente como no ocidente.






Objeções a autenticidade:


a) "Porque um sumo sacerdote perderia o cargo por executar o irmão de Jesus"?


De fato, uma vez que o cristianismo era um movimento marginal, visto com desconfiança pelas autoridades romanas e judaicas, a objeção faz sentido.



No entanto, observamos que, conforme pode ser visto da leitura atenta da passagem, a questão é de procedimento legal, e suas consequências. Josefo diz que Ananias, que era precipitado e muito ousado, e membro da seita dos saduceus, que mais cruéis e insensíveis no julgamento que os outros grupos, convocou o sinédrio de forma ilegal, na ausência do Procurador Romano.





O Dr.Paul Winter chama a atenção da frase "Anás (Anã) não tinha autoridade para convocar o Sinédrio sem seu consentimento":




"a queixa, embora baseada na desaprovação da execução de Tiago, irmão de Jesus, não remetia formalmente a execução em si, mas o fato de Anás II ter convocado o Conselho sem a devida autorização (...) deste modo não era permitido a Anás convocar o Conselho sem a aprovação do Governador. A ilegalidade da medida de Anás não residia no fato de ele ter executado Tiago, mas sim nas circunstâncias em que ele convocou o Conselho, sem a autorização de seus superiores políticos, nem das autoridades romanas, nem das Herodianas (...) Os romanos, em particular, teriam visto com desconfiança uma reunião do Grande Conselho durante um interregno, quando nenhum procurador estava presente na Judéia; decisões tomadas nesses períodos podiam facilmente contrariar seus interesses.


A ilegalidade da atitude de Anás não estava no fato de ele ter executado Tiago. Se fosse essa a acusação contra ele, os romanos não teriam ficado satisfeitos com a mera destituição do Sumo-Sacerdote por Agripa, Rei de Calcis, teriam-no processado bem como todos os que participaram dos procedimentos contra Tiago, por assassinato. Como nenhuma medida foi tomada contra nenhum dos membros do Sinédrio, exceto o próprio sacerdote que convocara a sessão, e como Anás II foi simplesmente afastado do seu cargo, sem nenhuma acusação contra ele ou qualquer de seus aliados, torna-se claro que os romanos não consideraram ilegal a execução de Tiago, mas fizeram objeções a convocação não autorizada do Grande Sinédrio durante a ausência do representante do Imperador [14]


Além disso podemos acrescentar, a carta de Paulo aos Galátas recorda os conflitos entre ele e os judaizantes, que insistiam que os novos convertidos gentios deviam seguir a Lei Judaica e se circuncidar. Somente com o endosso das colunas (Tiago, irmão do Senhor, Pedro e João) é que Paulo pode prosseguir com sua missão (Galatas 2:9-10). Em todo caso, o rigor de Tiago com a observância da Lei é evidenciado quando Paulo relata que teve um desentendimento com Pedro em Antioquia, por que ele (e Barnábe), que comiam com os gentios, se separaram deles quando emissários da parte de Tiago, que eram da circunsição, chegaram (2:11-12). Também o relato do Concílio de Jerusalém (Atos 15), mostra uma preocupação de Tiago, para que os crentes judeus, permanecessem na observância da Lei e da circunsição, liberando os crentes gentios dessas exigências. Por volta de 140 DC, Justino Martir nos diz que os cristãos judeus continuavam a observar a Lei Mosaica, contudo alguns não exigiam que os cristãos gentios o fizessem, enquanto outros insistiam na observância da Lei também para os gentios, referindo-se, provavelmente, a nazarenos e ebionitas, respectivamente, ambos tendo Tiago em altíssima conta, mas esses últimos aparentemente rejeitando os ensinos de Paulo.



Assim, sendo Tiago um judeu que zelosamente seguia a Lei, sua condenação pelo Sinédrio seria injusta, e só poderia ser explicada por ele ser irmão de Jesus de Nazaré. A exasperação de alguns mestres da lei, pode ser resultado dessa percepção, talvez Tiago até merecesse um castigo, um corretivo, mas a execução combina com o rigor dos saduceus, "mais insensíveis que outros judeus quando julgam". No entanto, mesmo que esses cidadãos zelosos com a Lei tenham ficado aborrecidos, o fato é que, a princípio, se limitaram a exigir que "Anás desistisse de outras ações", como aquela, uma atitude do tipo "o que passou, passou, mas não faça isso de novo, por favor". Apesar da exasperação dos que eram zelosos da Lei, nada se diz sobre o caráter das vitimas, não se diz se a execução era injusta ou apenas exagerada. Alguns outros fazem uma queixa aos romanos, mas não dizem que Anás mandara executar um homem justo, mas que convocara o Sinédrio sem autorização. Em suma, o senso de que Anás exagerara no castigo possivelmente se combinou a deposição abrupta de seu antecessor (Jose, chamado Cabi, filho de Simão), a possibilidade de remover sua influente família do cargo (que já contara 6 sumo-sacerdócios), abrindo caminho para oligarquias não contempladas.




(acrescentado em 23.02.2011) [Alías, o uso de um deslize de uma figura poderosa, como pretexto para enfrace-lo, por seus adversários políticos não é algo incomum seja na Antiguidade quanto no presente. O fato de que Josefo, explicitamente, começa seu relato afirmando que Anás era saduceu, enquanto que indica que a ação para contesta-lo teve origem nos que eram "zelosos observadores da Lei" (fariseus), é forte indício de que o ato precipitado de Anás foi visto por alguns como uma oportunidade para indispor ele e sua poderosa família com os romanos, dando chance a um novo equilibrio de poder. Assim, a pressa de alguns desses zelosos observadores da Lei em encontrar Albino ainda no caminho de Alexandria, não se deu tanto em razão de sua angustiados pela execução de Tiago e seus companheiros, ou porque estivessem preocupados com minúcias do direito romano, mas porque a ação precipitada e inusitadamente ousada do Sumo Sacerdote, usurpando poderes formais do Procurador, abriu uma avenida de oportunidades para seus adversários políticos.

Tenos exemplos na obra de Josefo. Geza Vermes observa um outro caso semelhante, envolvendo um revolucionário galileu no tempo de Herodes:
"Ezequias, o capitão ladrão, foi o líder de um bando de soldados que vagavam pela Galiléia quando o futuro Rei herodes, o Grande, então com cerca de 25 anos de idade, era seu Governador em meados do século I AC. Tudo o que sabemos com certeza é que Ezequias foi capturado e condenado a morte por Herodes . Mas, ao invés de ser cumprimentado por livrar a província de bandidos, Herodes foi levado perante o Sinédrio e julgado por execuções sumárias depois que as queixas das mães dos executados foram ouvidas por Hircano II, Sumo Sacerdote e Etnarca" [15]



"Herodes derrotou, capturou e executou Ezequias, o capitão ladrão revolucionário galileu, e alguns de seus seguidores. Herodes foi convocado perante o Sinédrio por execuções ilegais, mas escapou impune graças a interferência do Sumo sacerdote Hircano II" [15]

O episódio é relatado em Antiguidades 14:9:3-5 (§163-177). Da mesmo forma, é pouco provável que o Sinédrio tenha ficado tão enfurecido "apenas" por Herodes ter livrado a Galíleia de bandidos, capturando e executando o "arqui-ladrão" Ezequias. Josefo escreve que os "principais lideres dos judeus" (§163) ficaram exasperados com a crescente influência da Herodes, seus irmãos e seu pai Antipatro, e crescentemente atemorizados porque percebiam que Herodes era "um homem violento e atrevido, e dado a agir tiranicamente", e portanto utilizaram o fato de Herodes ter executado Ezequias por conta própria, sem leva-lo a julgamento ao Sinédrio, como pretexto para eliminar a crescente ameaça representada por Herodes. Aqui, como no caso de Anás, adversários politicos preocupados com o poder crescente concentrado sob um jovem de temperamento ousado, e dado a violência e crueldade, utilizam um erro processual para tentar se livrar dele.

(Mesmo Julio César não esteve livre desse tipo de "ardil". O Professor Adrian Goldsworthy, observa que Catão, o Jovem, propôs ao Senado que Cesar fosse processado porque havia atacado bárbaros na Galia durante uma tregua [16]. Obviamente, bem estar dos barbáros, sejam gauleses, tradicionais inimigos de Roma, ou germânicos era basicamente um pretexto utilizado por Catão e outros Senadores para tentar destituir, o arrojado e crescentemente poderoso, Júlio César de seus poderes, bem como seus exércitos.) ]



Para os romanos, como diz Winter, o ponto é direto. Anás poderia estar certo em executar Tiago, e nada se objetaria a isto, em condições normais. Mas se ele convocou o Grande Conselho, com o Procurador ausente, para julgar Tiago e seus amigos, poderia te-lo feito para coisas que contrariassem o interesse de Roma, ou mesmo dele, Albino (vale lembrar, conforme Ant. 18:85-89, 30 anos antes, o Senado samaritano se reuniu e articulou a deposição do Governador Pôncio Pilatos junto ao seu chefe, o legado romano na Síria).







b) A identificação do Tiago em questão foi alterada: Embora não tenha visto essa objeção na literatura acadêmica, já a vi na wikipedia e outros sites na internet. Argumenta-se aqui, que ao invés de "irmão de Jesus chamado Cristo" era "irmão de Jesus, filho de Damneu (ou Damasco)". Vários problemas acompanham essa hipótese, em primeiro lugar todos os manuscritos e versões da obra de Josefo disponíveis apresentam "irmão de Jesus chamado Cristo", e por natureza a hipótese é especulativa ; Segundo, nem Josefo e nenhum fonte antiga mencionam um Tiago, filho de Damneu ou Damasco, então teríamos que especular sobre a existência de um personagem hipotético, não atestado em lugar nenhum, para aceitar essa objeção; Terceiro, se o Tiago em questão era o irmão de Jesus, filho de Damasco, que se tornou Sumo-Sacerdote, então seria um ultraje nunca visto a execução de um membro de uma família tão ilustre e aristocrática, principalmente em um julgamento apressado com procedimentos ilegais. Poderíamos nos questionar como o Sinédrio condenaria alguém de tão nobre estirpe nessas condições, e mais ainda como Josefo nada fala sobre seu caráter e origem, e seria inconcebível os anciãos, ainda que indignados, se limitarem a exigir que Anás "se abstivesse de outras ações" pois não fora "correto em seu 1° passo". E mesmo aqueles que foram encontrar-se com Albino não terem mencionado que, além do julgamento ter sido ilegal, o fato de que Anás ter mandado executado Tiago, um nobre, membro de uma família ilustre, aristocrática. Em Quarto, e último, se o irmão de Jesus, filho de Damneu foi o executado, de forma precipitada, injusta, desnecessária e ilegal, não faz sentido, como Josefo relata no paragrafo seguinte a tragédia, que após sua deposição, Anás tenha sido bem sucedido em cultivar "a amizade de Albino e do Sumo Sacerdote (Jesus), lhes dando presentes" Antiquidades 20:9:2 (§205).




Conclusão


Certeza é algo que é raramente obtido em história. Mas, pelo que vimos acima, não há razão para questionar o quase consenso dos estudiosos da matéria, de que Josefo mencionou Jesus, chamado o Cristo em conexão com seu irmão Tiago. Desta forma , se seguirmos o entendimento (quase) universal dos estudiosos, e aceitarmos a autenticidade da passagem sobre Tiago, Josefo já nos dá, no mínimo, uma evidência independente da existência de Jesus.




Referencias Bibliograficas
[1] Louis Feldman & Gohei Hata (1989), "Josephus, Judaism, and Christianity", pagina 56


[2] Paul Winter (1968), "Excursus II -Josephus on Jesus and James," in E. Schurer, The History of the Jewish People in the Age of Jesus Christ, rev. and ed. by G. Vermes and F. Millar, fl 430. Paul Winter cita os trabalhos de Benedict Niese (1893), Emil Schurer (1901), G. Holscher (1904) e J. Juster (1914) como aqueles que rejeitaram tanto o Testimonium Flavianum quanto a referência a Tiago, "irmão de Jesus, chamado o Cristo" como interpolações. Posteriores a I Guerra Mundial, e até a conclusão do estudo de Winter, temos Solomon Zeitlin (1928). Observamos, por relevante, que todos esses autores acreditavam na existência e influência de Jesus.


[3] John Painter (2004) "Just James: The Brother of Jesus in History and Tradition", fl. 134


[4] Gerd Thiessen e Annete Merz (1996), O Jesus Histórico, um Manual, fl. 85
[5] John P. Meier (1991), Um Judeu Marginal, Volume 1, fl 67.
[6] Geza Vermes (2010), "Jesus in the Eyes of Josephus", Staindpoint mag, jan/fev. 2010, http://www.standpointmag.co.uk/node/2507/full, acessado em 08.02.2010

[7] Paul Winter (1968), "Excursus II -Josephus on Jesus and James," in E. Schurer, The History of the Jewish People in the Age of Jesus Christ, rev. and ed. by G. Vermes and F. Millar, fl 432

[8] Alice Whealey (2005), "Josephus, Eusebius the Ceasarea, and the Testimonium Flavianum" in Christfried Bottrich, Jens Herzer, Torsten Reiprich eds. (2007), Josephus und das neue Testament, Wechselseitige Wahrnehmungen II, fls. 108-109.

[9] James Tabor (2006), A Dinastia de Jesus, fl. 300

[10] Alice Whealey (2005), "Josephus, Eusebius the Ceasarea, and the Testimonium Flavianum" in Christfried Bottrich, Jens Herzer, Torsten Reiprich eds. (2007) .... fls. 110-111.

[11] Alice Whealey (2005), "Josephus, Eusebius the Ceasarea, and the Testimonium Flavianum" in Christfried Bottrich, Jens Herzer, Torsten Reiprich eds. (2007) .... fls. 112-113.

[12] Bart Erhmam, (2003) "Evangelhos Perdidos: As Batalhas pela Escritura e os Cristianismos que não chegamos a conhecer", fl. 210.

[13] Alice Whealey (2005), "Josephus, Eusebius the Ceasarea, and the Testimonium Flavianum" in Christfried Bottrich, Jens Herzer, Torsten Reiprich eds. (2007) .... fl. 114.

[14] Paul Winter (1961), Sobre o Processo de Jesus, fls. 55-57

[15] Geza Vermes (2005), Quem é Quem na època de Jesus, fls. 107 e 131

[16] Adrian Goldsworthy (2002), Caesar's civil war, 49-44 BC, fl. 29; Ver também Luciano Canfora, Julius Caesar, The People's Dictator, fl. 122. Julio César, A Guerra Civil, 4:12-15, bem como Plutarco, Cesar, 22:4 e Catão, o Jovem, 51.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010


Eu acredito que uma das principais funções dos biblioblogs e prestar, por assim dizer, um serviço público. Ser fonte de informação confíável em relação aos temas de historia bíblica e estudo das religiões, de forma a permitir o acesso do público leigo. A Internet torna possível compartilhar e transmitir informação com muita facilidade, boa ou má. Permite, com frequência que se desimforme e se deseduque, que se ressuscite teses estapafúrdias, há muito refutadas.

É problemático porque as pessoas lêem, e de boa fé acham que estão aprendendo, passam adiante, e estão recebendo informação, na melhor da hipóteses desatualizada, e na maioria das vezes errada.

Por exemplo, o filme feito para internet, Zeitgeist, muito popular no youtube, faz as seguintes afirmações.

"Além disso, há alguma evidência extra-bíblica de um certo Jesus, o Filho de Maria, que viajou com 12 seguidores, curando pessoas e tudo mais? Existiram numerosos historiadores que viviam no Meidterrâneo e arredores, tanto durante, quanto logo após a presumida vida de Jesus. Quantos desses historiadores se referiram a esta figura? Nenhum. Entretanto para ser justo, não quer dizer que os defensores do Jesus Histórico não tenham dito o contrário. Quatro historiadores são tipicamente citados para demonstrar a existência de Jesus. Plínio o Jovem, Suetonio, Tacito são os três primeiros. Cada um dessas referências consiste de um poucas frases e na melhor hipóteses referem apenas a Christus ou Cristo, o que de fato não é um nome, mas um título. Significa "ungido". A quarta fonte é Josephus, e esta já foi provado ser uma fraude a centenas de anos. Tristimente, é ainda citado como verdade
".[1]

Esse argumento é apresentado as vezes de outra forma, apresenta-se uma lista de autores, (em uma das versões chega a 31), que viviam no Império Romano nos 100 ou 150 anos seguintes a morte de Jesus, e pergunta-se "se Jesus existiu, se realizou tão grandes feitos, como pode não ter sido notado por esses escritores? Como pode ter sido mencionado apenas por 4 ou 5 autores, em textos que não maiores que um parágrafo?"

Uma dessas listas, encontrada em inúmeros sites, foi elaborada no final do séc. XIX pelo escritor Jonh Remsburg, afirmando que só uns quatro ou cinco mencionaram Jesus (deve ser observado que o próprio Remsburg, acreditava na existência histórica de Jesus de Nazaré).

Lista de Remsburg: Josefo, Filo, Seneca, Seneca, Plínio Velho, Suetônio, Juvenal, Martial, Persius, Plutarco, Justo de Tiberias, Apolônio, Plínio o Moço, Tacito, Quintiliano, Lucano, Epicteto, Silius Italicus, Statius, Ptolemy, Hermogones, Valerius Maximus, Arrio, Petronio, Dion Pruseus, Veleio Paterculo, Apio, Teon de Esmirna, Flegon, Pompon Mela, Quintius Curtius, Luciano, Pausanias, Valerius Flaccus, Florus Lucius, Favorinus, Faedro, Damis, Aulus Gellius, Columella, Dio Crisostomo, Lisias, Apio de Alexandria.

Antes de tudo, vamos pensar: dos autores citados por Remsburg, alguns escreveram fábulas (como Faedro), outros eram poetas (como Marcial e Statius), outros escreveram sobre mitologia, e filosofia. Quantos deles mencionaram os assuntos da Judéia do sec. I? A maioria escrevia para um público da elite grega e romana, senadores, magistrados, nobres de cidades como Roma, Atenas ou Alexandria. Lugares como Galiléia eram tão remotos como o sertão da Paraíba ou do Ceará para um alemão ou canadense. E como se eu fosse a Nova York, entrasse em um livraria, pegasse aleatoriamente livros de 40 autores diferentes (de filosofia, politica, geografia, ciências e historia) e se 4 ou 5 mencionassem Padre Cícero, Antônio Conselheiro, Tiradentes ou o Negro Cosme, eu concluisse que eles não existiram, ou foram irrelevantes.

Sessenta milhões de pessoas viviam no Império Romano no sec. I DC, e como a esmagadora maioria delas não foi citada por nenhum historiador, ou não aparece em artefatos arqueológicos, eu posso concluir então que elas não existiram?

A propósito, quem foram os comandantes de todas as legiões do Império no sec. I?

Quem foram os 600 membros do Senado Romano ou os 71 do Sinédrio Judaico, em digamos, 50 DC?


São perguntas que nós, com os registros disponíveis e fontes que chegaram até nós, não temos como responder, embora saibamos que foram pessoas influentes e poderosas.


Para se ter uma idéia, o historiador Jona Lendering observa"As mais de quarenta províncias do Império Romano eram administradas por um governador, cujo mandato durava de 12 a 36 meses. Estes homens poderosos são virtualmente desconhecidos para os historiadores modernos, que se consideram afortunados quando acontece de conhecer a identidade do oficial responsável por uma provincia em um determinado momento".[2]

Ou seja, apesar desses homens terem governado provincias com dezenas, centenas de milhares de habitantes e comandado exercítos de milhares de soldados, por anos a fio, terem construido monumentos, registrado seus feitos em inscrições, cunhado moedas, muitas vezes não sabemos o seu nome, e, em outros casos, mesmo que saibamos são apenas nomes em uma lista. Casos como Plínio, o Jovem, por sua coleção de cartas com o Imperador Trajano e uma longa inscrição que descreve sua carreira, ou de Pôncio Pilatos, que é mencionado nos evangelhos, Filo, Josefo e Tácito (ironicamente a única menção de Pilatos por uma fonte romana, mesmo assim como aquele que executou Jesus de Nazaré), além de aparecer em um inscrição fragmentária e algumas moedas, são excessões que confirmam a regra. Isso ocorre porque apenas um pequena parte dos textos escritos no período e dos potenciais artefatos arqueólogicos sobreviveram até nosso tempo.

Em 24 de agosto do ano de 79 DC, o Monte Vesúvio, nas proximidades de Nápoles, entrou em erupção. A região, como hoje, era densamente povoada, e a cidade de Pompéia (onde viviam cerca de 20 mil pessoas) e a vizinha Herculano foram completamente destruidas. O célebre escritor e magistrado romano Plínio, o Velho, morreu naquela tragédia, tentando resgatar sobreviventes. Uma tragédia. Milhares morreram, e os sobreviventes ficaram sem teto. Mas quantos relatos de testemunhas oculares, de fontes primárias ou secundárias, nós temos disponíveis. UM. ISSO MESMO UM. Plínio, o Jovem, sobrinho do outro Plínio que morreu na erupção, que descreveu a tragédia a pedido de seu amigo Tácito (a parte em que o relato foi provavelmente inserido esta perdida) [3] . Temos algumas outras referências, escritas algumas décadas depois do fato, pelo poeta Statius (95 DC), o historiador Flávio Josefo ( 93-95 DC), e Suetônio (125 DC) [4], geralmente curtas e não maiores que alguns parágrafos, ainda que dezenas de escritores tenham vivido no período. Isso porque foi um evento que, se fosse hoje, faria o "breaking news" da CNN e meses depois viraria filme para televisão "baseado em uma história real". Felizmente, erupções vulcânicas deixam para trâs uma quantidade enorme de artefatos arqueológicos, que permitem não só entender o evento, mas reconstruir a vida de uma cidade romana do sec I DC.

Outro exemplo de como esse modus operandi em relação a Jesus no âmbito da história antiga pode levar a conclusões absurdas é a do próprio Imperador Trajano. Trajano governou o Império entre 98-117 DC, e em seus vinte anos de reinado foram talvez os mais gloriosos da História de Roma, de tal forma que, mesmo no final do IV século, os novos imperadores recebiam os votos "felicior Augusto, melior Traiano", ("que seja mais bem afortunado que Augusto e melhor que Trajano"). Herbert W. Benario, Professor Emérito de História Clássica da Emory University, observa que:

"Trajano foi das figuras mais admiráveis da Roma Antiga. Um homem que mereceu o reconhecimento e renome que gozou em sua vida e das gerações seguintes [5].

No entanto, surpreendentemente,
"as fontes para o homem e seu principado são desapontadoramente escassas. Não há um historiador contemporâneo que possa iluminar o período. Tácito o menciona apenas ocasionalmente, Suetônio não escreveu sua biografia, e nem mesmo o autor da muito posterior e largamente fraudulenta História Augusta. (...) Plínio, o Jovem, é nossa principal fonte literária, em seu Pannegyricus - seu longo discurso de agradecimento ao Imperador, após assumir o Consulado no final do ano 100 DC - e suas cartas (...) Cassio Dio, que escreveu na decada de 230 DC, elaborou uma longa história imperial a qual, para o periodo Trajanico, sobreviveu somente em forma abreviada no livro LXVIII. O retoricista Dio de Prusa, um contemporâneo do Imperador, oferece muito pouco de valor. As epitomes de Aurélio Vitor e Eutrópio, do IV século, oferecem algumas informações úteis. Inscrições, moedas, papiros, e textos legais são os mais importantes. Uma vez que Trajano construiu muitos projetos de significância, a arqueologia contribui poderasomente para nossa compreensão do homem [5].

Ou seja, ainda que "numerosos historiadores vivessem no, e em volta do Mediterrâneo" no tempo do Imperador Trajano, nossas fontes literárias sobre seus 20 anos de reinado são extremamente escassas, e não temos disponível nenhuma biografia escrita por um autor contemporâneo, embora tenhamos dezenas de escritores no período. No entanto, sabemos da existência e importância de Trajano pelas menções breves de Suetônio e Tácito, a correspondência de Plínio, a biografia escrita por Cassio Dio mais de 100 anos depois de sua morte, e principalmente, moedas, inscrições, monumentos e obras públicas. Se essas são as fontes para o Imperador, que regia os destinos de 60 milhões de pessoas, o que devemos esperar do carpinteiro galileu, que segundo os próprios discipulos "foi crucificado pelos poderes da época, que não o compreenderam" e cujo movimento cerca de 100 anos após sua morte, contava, no maximo, com cerca de 10 a 15 mil seguidores (que não cunhavam moedas, nem elaboravam documentos oficiais, nem construiam estradas, pontes, ou monumentos) ?.

(Também aqui vale observar que apenas uma "pequena parte do que foi escrito na Antiguidade chegou até nós, e que muito do que foi escrito sobre Trajano (ou da destruição de Poméia), por seus contêmporâneos foi perdido. Da mesma forma, o mesmo ponto se aplica a Jesus).

Mas, já que comecei a escrever, podemos aproveitar para avançar para coisas mais úteis. Além de analisar os relatos (ou falta deles) para pessoas e eventos contemporâeos a Jesus (um século antes e depois de sua morte), vamos comparar o impacto e atestação deixado por esses eventos e pessoas nas fontes literárias, com aquele deixado por Jesus de Nazaré. Uma espécie de "Escala Richter de Impacto Histórico". Veremos que o mais surpreendente não foi Jesus ter sido mencionado por apenas quatro ou cinco escritores mas o fato dele ter sido citado, e por tantos autores não cristãos. Mas, antes, abordaremos algumas questões preliminares, como o (quase) consenso da comunidade acadêmica favorável a historicidade de Jesus, sobre as menções a Jesus nos autores não-cristãos (mostrando, por exemplo, que a posição dominante entre os estudiosos é que Josefo se referiu a Jesus), e o porque da maioria dos escritos da Antiguidade não terem chegado até nós.

1ª Preliminar: Como os estudiosos analisam a historicidade de Jesus

Jesus de Nazaré é objeto de devoção e fé de centenas milhões de seguidores no mundo inteiro.

a) Os historiadores e Jesus
Não obstante, muitos fazem de sua vida o seu ganha-pão. Milhares de historiadores, arqueólogos, estudiosos bíblicos e especialistas em judaísmo antigo, buscam nos textos bíblicos e extra-bíblicos, nos escritos dos primeiros cristãos, na análise do contexto social, político e econômico da Judéia e do Império Romano no século I, e se propõem a chamada "busca" pelo Jesus Histórico.

Alguns desses estudiosos são cristãos, liberais ou conservadores, outros são judeus, outros ateus, outros místicos, "espirituais mas não religiosos". Suas interpretações como a visão mais próvavel do curso do Ministério de Jesus e início do cristianismo variam bastante. Mas, existem algum as certezas compartilhadas por todos, ou quase todos, entre elas é que a muito poucos motivos para duvidar da existência histórica de Jesus:

Professor judeu Geza Vermes, Professor de Judaismo Antigo na Universidade de Oxford, com cerca de 60 anos de dedicação a pesquisa do judaismo do 2° Templo, Jesus Histórico e Cristianismo primitivo afirma:

"Na verdade, com excessão de um punhado de céticos inveterados, a maioria dos estudiosos de hoje parte para o extremo oposto e considera existência de Jesus tão garantida que não se dá ao trabalho de questionar o significado de historicidade" [6].

Também o Professor da Universidade Hebraica David Flusser (1917-2000), que foi membro da Acadêmia de Ciências de Israel por sua contribuição no campo da História Clássica e Judaísmo Antigo, em cinquenta anos de trabalho, escreve:

"Realmente, possuimos registros mais completos sobre a vida dos imperadores seus contemporâneos e de alguns poetas romanos. Entretanto a excessão do historiador judeu Flávio Josefo, e possivelmente de São Paulo, Jesus é o judeu, de épocas posteriores ao Antigo Testamento, sobre quem nós mais sabemos" [7]

John Dominic Crossan, Professor da DePaul University, e uma das principais figuras a frente do Jesus Seminar, fez as seguintes observações, em um Seminário On-line na lista acadêmica de discussão "Crosstalk", quando perguntado em relação a tese da não existência de Jesus, faz a comparação (muito exagerada, ao nosso ver) entre essa tese com aqueles que negam que os americanos pousam na lua:

"(...) Eu não estou certo, como já havia dito antes, que alguém possa persuadir outras pessoas que Jesus nunca existiu se não for capaz de explicar todo o fenômeno de Jesus histórico e cristianismo primitivo, seja como um trapaça ou uma parábola santa. Eu tinha um amigo na Irlanda, que não acreditava que os americanos pousaram na lua, mas que tinham criado a coisa inteira para reforçar sua imagem de guerra fria contra os comunistas. Eu não consigo argumentar com ele. Portanto, não estou de todo certo que eu possa provar que o Jesus histórico existiu contra esse tipo de hipótese e, provavelmente, para ser honesto, não estaria mesmo interessado em tentar.
No entanto, tomei a hipótese não como uma conclusão pré-estabelecida , mas como uma simples questão que estava por trás das primeiras páginas de BofC [Birth of Christianity] quando eu mencionei Josefo e Tácito. Eu não acredito que tanto um quanto o outro tenham checado os arquivos romanos ou judaicos sobre Jesus. Eu creio que eles expressaram o conhecimento público, comum, sobre aquele estranho grupo chamdo cristãos, e seu não menos estranho fundador chamado Cristo. A existência, não apenas dos textos cristãos mas destas fontes não cristãs é suficiente para me convencer que estamos lidando com um indíviduo que existiu na história. Além disso, a despeito das inúmeras formas em que os oponentes criticaram o cristianismo, ninguém nunca sugeriu que tudo tinha sido inventado. Isso é suficiente para mim.
e
(...) que esta pessoa existiu é uma conclusão histórica para mim, e não um postulado dogmático ou pressuposição teológica. De modo geral, meus argumentos são: (1) a existência é dada em fontes cristãs, pagãs e judaicas; (2) Não é negada até mesmo pelos críticos mais hostis do cristianismo primitivo (Jesus é um bastardo e um tolo mas nunca uma ficção ou um mito!); (3) Até onde eu sei, não há paralelo daquela época e período que me permita compreender uma invenção desse tipo [8].

A grande questão é que independente dos testemunhos não-cristãos, sempre bem-vindos pelos estudiosos, a grande maioria das informações sobre Jesus virá, sempre, do Novo Testamento, e de alguns outros textos considerados antigos, como o evangelho de Tomé e de Pedro. Como observa o Professor Steve Mason, da Universidade York [9], se por um lado não se deve esperar do historiador "tratamento especial" para as narrativas evangélicas, o ceticismo radical que agressivamente recusa, a priori, qualquer informação histórica é equivocado. Segundo Mason, devem ser utilizados os mesmos critérios de análise crítica adotados para reconstruir o passado a partir de narrativas de historiadores antigos como Livio, Josefo e Tacito.

b) Critérios de autenticidade e fontes cristãs primitivas: estabelecendo um esboço da figura de Jesus

De fato, durante quase 200 anos de pesquisa, os acadêmicos criaram critérios para analisar os evangelhos como fontes historicas, e os ditos e feitos atribuídos a Jesus. Para exemplificar, podemos utilizar um desses critérios, como o do embaraçamento, se refere a ditos e feitos atribuidos a Jesus que criariam dificuldade para igreja primitiva, e enfraqueceriam sua posição diante de oponentes, e que dificilmente teriam sido inventados. Um exemplo de fato autenticado por este critério é a crucificação de Jesus sob a acusação de ser o Rei dos Judeus.

O próprio Paulo diz aos Corintíos que a cruz era escândalo para os judeus e loucura para os gregos (I Cor. 1:23). De fato, os evangelhos usam intensamente as escrituras para provar que Jesus era o Cristo, mas esta diz "Se um homem tiver cometido um pecado digno de morte, e for morto, e o tiveres pendurado num madeiro, o seu cadáver não permanecerá toda a noite no madeiro, mas certamente o enterrarás no mesmo dia; porquanto aquele que é pendurado é maldito de Deus. Assim não contaminarás a tua terra, que o Senhor teu Deus te dá em herança.(Dt 21:22-23)". Os oponentes e adversários dos cristãos usavam a crucificação como a maior prova de que Jesus não foi o Messias, como o judeu Trifo, rebatendo o uso de Dan. 7 por Justino Martir "Estas mesmas escrituras, meu caro, nos ordenam esperar aquele que, como Filho do Homem, receberá do Ancião de Dias o Reino Eterno. Mas este que vocês chamam de Cristo não teve honra ou glória, tanto assim que a maldição contida na Lei de Deus caiu sobre ele, porque foi crucificado" (Dialogo com Trifo, Capítulo 32). Também os rabinos, no Talmude, mostram como a crucificação poderia acabar com a "carreira" de pretendente messiânico "Rabi Meir costumava ensinar 'Qual o significado (do verso), "Aquele que for pendurado no madeiro é maldito de Deus" (Dt 21:23)? Havia dois irmaos gêmeos que eram parecidos. Um reinava sobre o mundo todo e outro se tornou um ladrão. Após um tempo, o que era bandido foi pego e então crucificado em um madeiro. Todos que passavam e viam, diziam "parece que o Rei foi crucificado" (bTalmude, Sinédrio 9:7). A cruz era escândalo, porque um Messias digno de seu "cargo" não poderia ser crucificado.

Tanto é que Celso, o fílosofo pagão de sec. II que escreveu contra Cristo e os Cristãos, os acusa de serem culpados de um sofisma ao afirmarem que o "Filho de Deus é o próprio Logos", porque ao dizerem "que o Logos é o Filho de Deus, não apresentam um Logos puro e imaculado, mas um homem dos mais degenerados, pois foi açoitado e crucificado" (Contra Celso, II.31), ridicularinzando-os por transformarem um criminosos em Deus "Se, após inventar defesas que são absurdas, e pelas quais vocês são ridiculamente enganados, ainda que imaginando que vocês realmente fizeram uma boa defesa, porque vocês não consideram aqueles outros individuos que também foram condenados, e sofreram uma morte miserável, como maiores e mais divinos mensageiros dos céus (que Jesus) ? (Contra Celso, II.44)"

O fato de que a cruz era escândalo e loucura, é evidenciado ainda na forma como alguns grupos cristãos chegaram a afirmar que Jesus não foi realmente crucificado. O Professor AKM Adam, da Universidade de Glasgow, observa que Irineu, em seu Tratado "Contra Todas as Heresias" critica os seguidores de seguidores de Cerinto, que acreditavam que Cristo desceu ao mundo e entrou no corpo do homem Jesus em seu batismo, mas o deixou em sua crucificação, de forma que embora Jesus tenha nascido, sofrido e morrido, Cristo permaneceu espiritual e intocado pelo sofrimento. Relata que os discípulos de Simão, o Mago, afirmavam que embora parecesse que Jesus havia padecido na cruz, ele não havia sofrido de fato. Basilides, pregava que Jesus não poderia realmente sofrer ou morrer, mas trocou de lugar com Simão de Cirene, que foi transfigurado para parecer com Jesus e crucificado, enquanto o verdadeiro Jesus via de longe e ria. Marcião e outros ensinavam que Logos/Cristo desceu sobre Jesus em forma de pomba e ascendeu aos céus antes de sofrer na cruz. Cristo apenas parecia ter um corpo físico, e ter sofrido e sido crucificado, mas ele era na verdade incorpóreo, um espírito puro, e assim não poderia sofrer [10]. Os próprios cristãos, percebiam quanto a crucificação era degradante e embaraçosa, tanto que que alguns deles chegaram a afirmar que Cristo, o Messias, não poderia ser realmente submetido a ela, e seu suplício só poderia ter sido aparente, ou ele teria sido substituído por alguém que foi transfigurado para parecer com ele. Isso reforça a percepção que a crucificação de Jesus não foi inventada pelos cristãos, mas um fato traumático que eles buscaram lidar de diferentes formas.

Por fim, a crucificação de Jesus e sob a acusação de ser o Rei dos Judeus era muito perigosa para os primeiros cristãos dado seu status legal precário no Império Romano. Os evangelhos foram escritos, provavelmente, entre a 1ª Guerra Judaica (66-73 DC) e 2ª Guerra Judaica (132-135 DC). No primeiro século DC e início do secundo, houveram inúmeras revoltas, provocadas por auto-proclamados "Reis dos Judeus" e "Messias", que causaram a morte de (dezenas de) milhares de pessoas, dentre os quais milhares de bons soldados e cidadãos de Roma. No mesmo período, a igreja era perseguida e o cristianismo era uma seita ilegal, sendo que alguns oficiais e magistrados suspeitavam que o grupo era formado por agitadores, desleias a Cesar e a Roma. De fato, Aristides, Quadrato, Justino Martir, Melito, Apolinario, e outros, escreveram ao Imperador da época buscando incessantemente provar que os cristãos eram leais, pacíficos e produtivos e perfeitos súditos do Império. Porque, nessas circunstâncias, os cristãos inventariam que seu líder tinha sido um Messias Crucificado, executado como um criminoso político, por magistrados romanos, sob a acusação de Alta Traição? Certamente porque Jesus foi realmente crucificado, por ter sido acusado (justa ou injustamente) de se auto-proclamar "Rei dos Judeus", e essas coisas eram fatos bem conhecidos (e problemáticos) que os cristãos tinham que explicar.

Os critérios como embaraçamento, dissimilaridade, múltipla atestação e outros apresentam limitações, mas permitem, no caso de Jesus, estabelecer, no mínimo, um esboço de sua figura. E o que observa o Prof. Alan Segal, da Universidade de Colúmbia:

"Desde o Iluminismo, as histórias do Evangelho sobre a vida de Jesus tem sido postas em dúvida. Intelectuais, naquele tempo e agora, perguntam: "O que torna as histórias do Novo Testamento historicamente mais prováveis do que fábulas de Esopo ou contos de Grimm?" Os críticos podem ser respondidos de forma satisfatória, mas os argumentos que eles apresentam são corrosivos à fé ingênua"[11]

Segal observa que muitos estudiosos são céticos quando as narrativas de infância de Jesus, considerando como lendários os relatos dos anjos aparecendo aos pastores, a matança dos inocentes, a estrela de Belém e os magos do oriente. Pondera a falta de registros históricos escritos durante a vida de Jesus. No entanto, ele afirma, isso não invibiabiliza a pesquisa histórica sobre a vida de Jesus, pois entre os critérios estabelecidos pelos historiadores, o do embaraçamento estabelece um padrão muito rigoroso que, se por um lado, é tão severo que vai lançar fora até mesmo ditos e feitos de Jesus autênticos, por outro, justamente por seu rigor, dá aos estudiosos fatos indisputáveis que permite verificar que as narrativas são, pelo menos em parte, históricas. Segal então continua:

"Pelo grande rigor com que foi definido, o critério [do embaraçamento] demonstra que Jesus existiu. Aqui estão alguns fatos nos evangelhos que a igreja foram embaraçosos para a Igreja Primitiva: Jesus foi batizado por João (um grande problema teológico). Ele pregou o fim do mundo (que não veio). Ele se opôs ao Templo de alguma forma (e esta oposição o levou diretamente para a morte). Ele foi crucificado (uma maneira desonrosa de morrer). A inscrição na cruz "Jesus de Nazaré, Rei dos Judeus" (a Igreja nunca pregou este título para Jesus e logo perdeu o interesse em converter judeus). Ninguém, de fato, viu quando ele ressuscitou (embora, evidentemente, seus discípulos, quase que imediatamente perceberam que ele estava vivo). Ironicamente, é a natureza embaraçosa desses fatos que nos garante que são autenticos (...).
O critério de dissimilaridade nos coloca em uma posição melhor no que diz respeito à vida de Jesus no que estamos no que se refere aos grandes acontecimentos da história israelita [11].

O Prof. James McGrath, da Butler University, disponibilizou em seu site, uma compilação de listas dos Prof. Norman Perrin, E.P Sanders, e N.T Wright, que apresentam ditos e feitos de Jesus que são considerados como (quase) indisputavelmente autênticos.
[Adicionado em 16.06.2011: Uma análise mais ampla da utilização dos critérios do constrangimento e dissimilaridade e seus análogos em outras áreas da pesquisa histórica é feita na série de posts "Os Critérios do Constrangimento e da Diferença e seus análogos fora da Pesquisa Histórica do Novo Testamento"]:


c) Avaliação dos evangelhos como relatos históricos, data de autoria e genero literário.

Segundo a posição amplamente dominante entre os historiadores do cristianismo primitivo os quatro evangelhos foram compostos pelas 2ª e 3ª geração de cristãos, entre 70 e 110 DC, havendo possibilidade de variação de 15 ou 20, para mais ou para menos, para um ou outro evangelho individual [12]. É uma distância comparavel, em nossa perspectiva, a acontecimentos como a ida do homem a lua (1968) e Copa do Mundo de 1970, de um lado, e a crise de 1929 ou a subida de GetúlioVargas ao poder (1930) de outro. Ou seja, é bem provável que pelo menos Marcos (65-80 DC) ou Mateus (80-100 DC), tenham sido finalizados em uma época que testemunhas oculares de Jesus ainda estivessem vivas. Lembrando sempre que essa é a data de composição final, uma vez que os estudiosos identificam fontes escritas mais antigas, como Q (fonte de ditos), como servindo como base a composição evangélica.

Ainda, do ponto de vista do gênero literário, muitos, se não a maioria dos estudiosos atualmente aceitam a tese proposta pelo Prof. Charles Talbert, (Baylor University) e desenvolvida pelo Prof. Richard Burridge (Kings College), - de que cada um dos quatro evangelhos podem ser classificados na categoria das biografias greco-romanas (bioi ou vitae, que apresentam características bem distintas das atuais biografias), como Vidas Paralelas de Plutarco e Agrícola de Tácito -, a partir da analise das caracteristicas mais importantes desse tipo de trabalho (apresentação, assunto, características internas e externas, além de próposito e recepção pelos leitores), no periodo entre 500 AC a 300 DC [13]. Conforme Burridge, existiria, por convenção um contrato informal entre as partes, que "define uma série de expectativas no leitor a respeito das intenções do autor, ajudando na construção do significado do texto, bem como na reconstrução do significado original do autor, assim como na interpretação e avalaição da comunicação contida na obra literária".

A definição de genero é importante, pois, certamente, usando um exemplo atual, nossas expectativas e nossa forma de compreender uma narrativa são diferenciadas, digamos, diante de uma descrição de um assassinato numa página policial de um jornal ou o notíciário na TV, em comparação a de um livro de Agatha Christie ou numa série de ficção como CSI Miami. Ao situarmos os evangelhos na mesma categoria de escritos como as biografias de Alexandre, O Grande e Julio César, a implicação é que Marcos, Mateus, Lucas e João buscaram relatar os ditos, feitos e a significância de Jesus, e, como era extremamente comum entre as bioi, tinham a intenção de que suas obras tivessem finalidade didática em relação as crenças dos cristãos e seu fundador. Obviamente, o reconhecimento em um certo gênero literário diz mais sobre a intenção presumida do autor do que o resultado final de sua obra. O fato de serem bioi ou vitae não "prova" que a "Bíblia tinha Razão" ou estabelece o nível de confiabilidade historica dos evangelhos - ponto diverso que deve ser analisado separadamente - pois também para Cesar, Alexandre e Augusto existiram bons e maus biografos - apenas indica ao estudioso a intenção pela qual foram escritos e forma como foram originalmente lidos.

Outros, como Geza Vermes [14], acreditam que os evangelistas, embora não fossem historiadores profissionais atuaram como narradores populares da história de Jesus de Nazaré. Em ambos os casos, seja como for, os evangelistas teria buscado narrar a vida, idéias, atividades, magistério e morte de Jesus, e usaram estes acontecimentos para compartilhar sua Fé na sua ressureição e de que ele era o Cristo, conforme as escrituras. Observe-se que, mesmo aqueles estudiosos que não concordam com a classificação dos evangelhos como escritos históricos ou bioi, stricto-sensu, como John Dominic Crossan, acreditam que é possivel utiliza-los como fontes históricas, obtendo informações sobre Jesus e os primeiros cristãos [15].

d) Resultados. Como os estudiosos avaliam os evangelhos



Os resultados variam muito, havendo aqueles como F.F Bruce e Craig Bloomberg que defendem a aceitação da tradição evangélica como confíavel até aqueles como Burton Mack que defende uma visão muito mais cética, considerando que cerca de 10 % do que é atribuido a Jesus nos evangelhos teria sido provavelmente dito ou realizado por ele [16]. Seja como for - uma vez que, segundo John D. Crossan, são atribuidos pouco mais de 500 ditos e feitos de Jesus nos evangelhos e outras fontes cristãs escritas até cerca de 100 anos após a morte de Jesus [17] - mesmo nessa visão bem minimalista teriamos por volta de 50 feitos e ditos de Jesus considerados como provavelmente autênticos, mesmo utilizando os critérios históricos de forma extremamente rigorosa. Considerando que, temos apenas quatro ditos associados a uma figura da importância de Hanina Ben-Dosa [18], por exemplo, mesmo antes de qualquer análise crítica, não é díficil entender porque o Professor Flusser nos diz que sabemos mais sobre Jesus do que quase todos seus outros contemporâneos. Alías se considerarmos que existem dezenas de evangelhos e outros textos cristãos, além do NT, tais como os de Nag Hammadi, ai que percebemos que o problema não é a falta de fontes, mas justamente seu excesso.

É que nos diz, em outras palavras, Michael Grant (1914-2004), Professor de História Antiga da Universidade de Edinburgo, ateu, e uma das mais respeitadas figuras em história romana:

"Se nos aplicarmos ao Novo Testamento, como nós devemos, a mesma sorte de critérios que nós devemos utilizar para outros escritos da antiguidade contendo material histórico, nós não podemos mais rejeitar a existência de Jesus sem o fazer o mesmo com um grande número de personagens pagãos cuja realidade de sua figuras históricas nunca é questionada. Certamente, existem todas aquelas discrepancias entre um evangelho e outro. Mas nós não negamos que um evento aconteceu apenas porque alguns historiadores pagãos como, por exemplo, Livio e Polibio, o descreveram de maneiras diferentes. Que houve um rápido crescimento de lendas em volta de Jesus não pode ser negado, e isso aconteceu muito rápido. No entanto, também houve um rápido desenvolvimento de lendas em torno de figuras pagãs como Alexandre o Grande, ainda que ninguém o considere completamente mítico ou fictício. No fim das contas, os métodos críticos modernos não dão suporte a teoria do Cristo Mítico. E, de novo, mais uma vez, ela foi "refutada e rejeitada pelos estudiosos de primeira linha". Nos anos recentes "nenhum estudioso sério ousou levantar a tese da não historicidade de Jesus", ou muito pouco o fizeram, e mesmo assim não conseguiram ser bem-sucedidos frente a forte e abundante evidência contrária" [19]

Por fim, observamos que tanto Vermes quanto Grant observam que existe um "punhado" ou uns "poucos" estudiosos que questionaram a historicidade de Jesus. Na atualidade, podemos citar, por exemplo, o Prof. Robert Price e o Dr. Richard Carrier, entre outros. Estes estudiosos acreditam que existem evidências que sugerem que Jesus possivelmente não teria existido, e uma das suas principais reclamações é justamente que o consenso histórico é tão forte, que suas teses não são consideradas com a seriedade devida, não sendo possível a eles sequer começar o debate acadêmico. Seja como for, não há problema em se questionar a existência de Jesus, ou seu significado, que é uma questão histórica como outra qualquer. O problema, como em casos como o do filme citado, é não informar aos leitor, principalmente os leigos no assunto, a situação atual do campo, dando a entender que justamente a situação contrária é a que ocorre.

CONTINUA

Referências Bibliograficas:

[1] Peter Joseph, "Zeitgeist, O Filme", transcrição parte 1, acessado em 30.12.2009
[2] Jona Lendering: "Pontius Pilate"http://www.livius.org/pi-pm/pilate/pilate01.htm., acessado em 28.12.2009
[3] ver John J. Butt, Greenwood Dictionary of World History (2006), "Pliny the Younger", fl. 266; Ronald Mellor (1999), Roman Historians, fl. 89. Este exemplo foi utilizado anteriormente por Gakusei Don, na analise do documentário "God who Wasn't there"
[4] Statius, Silvae 4.4; Flávio Josefo, Antiguidades Judaicas 20:7.2; Suetônio, A Vida dos Doze Césares, Tito 8:3-4.
[5] Herbert W. Benario (2000), Trajan In: De Imperatoribus Romanis:An Online Encyclopedia of Roman Rulers and their Families (http://www.roman-emperors.org/) , acessado 28.12.2009
[6] Geza Vermes (2005), Quem e Quem na Época de Jesus, fl. 23, Ed. Record, 1ª Edição
[7] David Flusser (1998), Jesus, fl .01, Ed. Perspectiva
[8] John D. Crossan (2000), Seminar on Materials & Methods in Historical Jesus Research, Seminário On-line realizado de 11 de fevereiro a 4 de março de 2000, ver mensagens 146 e 159, e também 167, de 28/02, 01/03 e 02/03/2000, respectivamente (acessado em 04.01.2010)
[9] Steve Mason, Where Jesus Was Born? O Little Town of…Nazareth?, Bible Review, Fevereiro de 2000.
[10] A.K.M. Adam, Docetism, The Ecole Initiative, http://ecole.evansville.edu/articles/docetism.html, as passagens citadas de Contra as Heresias, de Irineu de Lyon, são os Livros I capítulos 23, verso 2, e 26, verso 4; II; e Livro II 24.4, acessado 04.01.2010.


[11] Alan F. Seagal (2005), Jesus and the Gospels-What Really Happened - [1]: Believe only the Embarrassing, Slate, 21.12.2005 http://www.slate.com/id/2132974/entry/2132989/, acessado em 04.01.2010.

[12] ver Geza Vermes (2005), A Paixão, fl. 15, Editora Record, 1ª edição; John D. Crossan, Jesus, Uma Biografia Revolucionária, fl. 14, Ed. Imago, 1ª Edição; Gerd Thiessen, O Novo Testamento, fls. 71-92 e fls. 111-122; 1ª Edição.
[13] Burridge, Richard (2004): What Are the Gospels, A Comparison with Graeco-Roman Biography, 2ª edição;ver também o review por James Morrison (Bryan Mawr Classical Review 2005.05.31) e Mitchell G. Reddish (Mitchell Reddish, review of Richard A. Burridge, What Are the Gospels?: A Comparison with Greco-Roman Biography, Review of Biblical Literature). Quanto a avaliação da tese, o Professor Bart Erhmann afirma que, recentemente "tem sido aceita por muitos estudiosos" (Bart Ehrman, The New Testament: A Historical Introduction to the Early Christian Writings. 3ª edição, fl. 64-65, 2004). O próprio Burridge afirma ter ficado surpreso com a aceitação de sua tese, parecendo-lhe que a maioria dos estudiosos já classificava os evangelhos entre as bioi ou vitae no final da década de 1990 (What Are the Gospels.... fl. 253). Andrew T. Lincoln fala em consenso na comunidade acadêmica em torno da tese de Burridge (A.T. Lincoln, 'Reading John, The Forth Gospel under Modern and Post-Modern Interrogation In Stanley Porter (ed.) : Reading the Gospels Today), percepção compartilhada pelo Prof. Mitchell Reddish no review já citado.
[14] Geza Vermes (2001), As Várias Faces de Jesus, fl.177
[15] John Dominic Crossan (2004); Texto e Contexto na Metodologia dos Estudos do Jesus Histórico In Chevitarese, Corneli & Selvatici; Jesus de Nazaré, Uma outra História, fls. 169-170.
[16] Burton L Mack (1993), The Lost Gospel: The Book of Q and Christians Origins, especialmente fls. 71-105 e fls. 260-263; ver também o sumário extremamente útil de Cris Zeichmann, "Q and The Historical Jesus, Pt. 2" http://neonostalgia.com/weblog/?p=551
[17] John Dominic Crossan (1999) Birth Of the Christianity, fls. 587-596. Disponível online em http://www.jesusdatabase.org/index.php?title=Crossan_Inventory, acessado em 30.12.2009
[18] Geza Vermes (2001), As Várias Faces de Jesus, fl.
[19] Michael Grant (1979), Jesus: An Historian's Review of the Gospels, pagina 200

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