7–13 de setembro de 2026
A semana que passou produziu um conjunto particularmente interessante de textos sobre Jesus, judaísmo, cristianismo antigo, cânon, império, memória e interpretação. O que chama atenção, porém, não é apenas a variedade dos assuntos. Quando colocados lado a lado, esses textos revelam uma questão mais profunda: como comunidades antigas e modernas constroem autoridade — sobre Jesus, sobre os textos, sobre a memória, sobre o império e sobre a própria identidade cristã.
É esse movimento que interessa ao Radar. Não se trata de estabelecer um ranking dos melhores textos da semana, mas de acompanhar aquilo que a biblioblogosfera está pensando, discutindo e recolocando em circulação.
01 — Bart Ehrman
Interesting Questions on the Teachings of the NT
The Bart Ehrman Blog — 9 de setembro de 2026
O blog de Bart Ehrman continua sendo um dos espaços pessoais mais consistentes para acompanhar a pesquisa histórica sobre Novo Testamento e cristianismo primitivo. O próprio site define sua proposta como uma exploração do Novo Testamento e do cristianismo antigo a partir de uma perspectiva acadêmica e não sectária, abrangendo Jesus histórico, Paulo, manuscritos, perseguições, apócrifos, judaísmo e formação do cânon. Entre as publicações da semana está Interesting Questions on the Teachings of the NT, de 9 de setembro.
O interesse do texto para o AD CUMMULUS está menos em qualquer resposta isolada e mais no problema que a pergunta histórica sempre impõe: o que exatamente estamos fazendo quando tentamos reconstruir aquilo que Jesus ou os primeiros cristãos ensinaram? A distância entre acontecimento, tradição e registro literário impede que o historiador trate os Evangelhos como gravações transparentes de uma voz passada, mas também impede que simplesmente abandone a possibilidade de reconstrução.
É justamente nesse intervalo que o trabalho histórico ganha importância. O Jesus reconstruído pelo historiador não é simplesmente o Jesus narrado pelo Evangelho, mas também não pode ser reduzido àquilo que o intérprete contemporâneo gostaria que ele tivesse sido. A questão é encontrar procedimentos capazes de testar hipóteses sem transformar o texto em testemunha automática nem a crítica em licença para qualquer reconstrução.
Por que entra no Radar: porque Ehrman recoloca no centro uma pergunta fundamental para toda pesquisa sobre Jesus: como passar da tradição que temos ao passado que pretendemos conhecer?
02 — Nehemia Gordon
Tanakh and the New Testament: Myth or History? Part 2
Nehemia's Wall — 9 de setembro de 2026
Nehemia Gordon publicou em 9 de setembro a segunda parte de sua conversa com Marc Brettler sobre uma questão espinhosa: quais partes da Bíblia foram concebidas como registro histórico e o que acontece com seu valor quando determinada narrativa não pode ser classificada simplesmente como história? A terceira parte veio no dia seguinte, mostrando que a discussão continuou imediatamente.
O mérito do tema está na recusa de uma alternativa simplista entre “a Bíblia é história” e “a Bíblia é ficção”. Textos antigos podem preservar memória, interpretar acontecimentos, construir identidade e elaborar teologia simultaneamente. O problema histórico não desaparece por causa disso; ele se torna mais complexo.
Essa discussão toca diretamente uma questão que atravessa MEMÓRIA: um texto pode ser historicamente significativo sem ser uma reportagem do acontecimento que descreve. A memória não é o oposto da história. Ela é também um dos objetos da história.
O interesse aumenta porque a conversa coloca Tanakh e Novo Testamento no mesmo problema hermenêutico. Isso impede que se crie uma exceção metodológica para um corpus e outra para o outro.
Por que entra no Radar: porque a discussão desloca a pergunta de “isto aconteceu exatamente assim?” para uma pergunta mais produtiva: que tipo de relação um texto estabelece com aquilo que pretende recordar, interpretar ou explicar?
03 — Andy Le Peau
How Could Early Jewish Monotheists Believe Jesus was God?
Andy Unedited — 9 de setembro de 2026
Andy Le Peau parte de uma pergunta que continua sendo uma das mais difíceis para qualquer reconstrução histórica das origens cristãs: como judeus monoteístas poderiam incluir Jesus na esfera divina? O texto começa lembrando precisamente a radicalidade do monoteísmo judaico no ambiente do século I e utiliza, como imagem, o Arco de Tito.
O ponto é importante porque uma cristologia elevada não pode ser explicada simplesmente como abandono do judaísmo. Se Paulo e outros cristãos judeus continuavam operando dentro de categorias judaicas, então a inclusão de Jesus na identidade divina exige uma explicação histórica mais sofisticada.
Esse problema toca diretamente LOGOS. O quarto Evangelho leva ao extremo uma questão que já está presente anteriormente: não basta perguntar se Jesus é chamado divino; é preciso perguntar que operações conceituais tornam possível dizer isso dentro de um universo judaico monoteísta.
A pergunta também impede uma explicação excessivamente rápida baseada no “helenismo”. O ambiente greco-romano importa, mas a matriz judaica não pode ser apagada para que a cristologia faça sentido.
Por que entra no Radar: porque obriga a pensar a cristologia não como simples ruptura com o judaísmo, mas como problema interno à própria transformação das categorias judaicas de identidade, mediação e presença divina.
04 — M. David Litwa
True Testament
The Gnostic Archive — 8 de setembro de 2026
Aqui temos, provavelmente, o achado mais diretamente relacionado ao problema da autoridade textual.
M. David Litwa resenha True Testament: The Restored Marcionite Canon, de W. C. Muenchow, uma tentativa contemporânea de reconstruir o cânon das antigas comunidades marcionitas, incluindo o Evangelion e as dez cartas de Paulo. Litwa identifica explicitamente o texto em categorias como Paulo, cristianismo antigo, Evangelho, Marcião e Novo Testamento.
A importância do texto não depende de aceitar a reconstrução proposta por Muenchow. Na verdade, talvez seja justamente o contrário: o interesse está em observar o que acontece quando uma comunidade contemporânea tenta reconstruir o cânon de uma comunidade antiga.
Aqui o objeto deixa de ser apenas “qual era o cânon de Marcião?” e passa a incluir uma segunda camada: como o passado é reconstruído a partir das categorias do presente?
Isso é extremamente pertinente para o AD CUMMULUS. A história do cristianismo antigo não é apenas uma sucessão de textos preservados. É também uma história de exclusões, disputas, sobrevivências, perdas e reconstruções posteriores.
Por que entra no Radar: porque Marcião transforma o problema do cânon em problema de poder: quem decide quais textos podem representar a comunidade e quais textos precisam ser excluídos para que determinada identidade sobreviva?
The Gnostic Archive — M. David Litwa
05 — Jim Davila
Josephus and Jesus
PaleoJudaica — 10 de setembro de 2026
Jim Davila destacou em 10 de setembro uma entrevista sobre Josephus and Jesus: New Evidence for the One Called Christ, discutindo justamente a questão de Josefo como fonte não cristã para Jesus. O material aborda traduções antigas de Josefo, a maneira como escritores cristãos antigos compreenderam suas palavras e a possibilidade de diferentes fontes de informação sobre Jesus.
É um excelente tema para o Radar porque Josefo continua ocupando uma posição peculiar: sua importância não reside simplesmente em “confirmar Jesus”, como às vezes se apresenta popularmente, mas em permitir investigar como a memória de Jesus circulava fora das comunidades cristãs e como essa memória foi transmitida, traduzida e interpretada.
Aqui há uma questão que interessa diretamente ao projeto MEMÓRIA: não basta perguntar se Josefo “falou de Jesus”. É preciso reconstruir a cadeia de transmissão pela qual aquilo que Josefo escreveu chegou até nós e as transformações produzidas por essa cadeia.
O texto também ajuda a evitar uma tentação recorrente na historiografia popular: transformar uma fonte antiga em testemunha moderna.
Por que entra no Radar: porque Josefo não é simplesmente uma testemunha a favor ou contra Jesus; ele é um laboratório para estudar memória, transmissão, tradução e recepção histórica.
06 — Philip Jenkins
Debunking Sacred Forgeries in the Renaissance
The Anxious Bench — 13 de setembro de 2026
Philip Jenkins encerrou nossa semana com um assunto aparentemente distante de Jesus e do Segundo Templo: as falsificações religiosas na Renascença. O texto foi publicado em 13 de setembro.
Mas justamente aí está sua utilidade.
Uma falsificação religiosa não é apenas um documento falso. É um objeto produzido para adquirir autoridade por meio de uma genealogia imaginada. O documento precisa parecer antigo, legítimo, autorizado ou transmitido por uma tradição reconhecida para cumprir sua função.
Isso desloca o problema da autenticidade para o problema da autoridade.
E aqui o texto se aproxima de uma das questões mais importantes da bibliografia do cristianismo antigo: textos não são apenas veículos de ideias; eles também são instrumentos de disputa pela legitimidade de comunidades, doutrinas e instituições.
A distância temporal entre Renascença e cristianismo antigo, portanto, não elimina a relevância metodológica.
Por que entra no Radar: porque mostra que a disputa pela autoridade de um texto não termina quando o texto é escrito. Ela continua enquanto comunidades precisam decidir quem tem o direito de falar em nome do passado.
The Anxious Bench — Philip Jenkins
07 — Nathan Albright
The Stone Cut Without Hands: Daniel 2 and 7, the Temporariness of Imperial Order, and the Inversion of Daniel by Translatio Imperii
Edge Induced Cohesion — 10 de setembro de 2026
Este talvez seja o texto mais inesperado da seleção.
Nathan Albright lê Daniel 2 e 7 como uma reflexão sobre a sucessão, transitoriedade e substituição das ordens imperiais. O elemento central de sua leitura é a pedra “cortada sem mãos”: aquilo que substitui o sistema imperial não nasce simplesmente do mesmo processo humano que produziu os impérios anteriores.
O interesse para nós é imediato.
A tese de REINO depende precisamente da distinção entre uma soberania que simplesmente disputa o poder dentro da mesma lógica e uma soberania que redefine a própria lógica da ordem.
Mais interessante ainda é que Albright chama atenção para a recepção posterior de Daniel e para o modo como a translatio imperii pode inverter o sentido de uma visão originalmente crítica dos impérios, transformando-a em justificativa para a continuidade de uma ordem imperial.
Aqui aparece um problema central do AD CUMMULUS: o mesmo texto pode ser mobilizado por projetos políticos diferentes porque sua recepção não é uma repetição de seu significado inicial.
Por que entra no Radar: porque Daniel aparece aqui como laboratório para pensar império, soberania, substituição e apropriação política da tradição.
08 — Ian Paul
The heart of forgiveness in Matthew 18
Psephizo — 8 de setembro de 2026
Ian Paul publicou em 8 de setembro uma reflexão sobre Mateus 18 e a parábola relacionada ao perdão. Seu blog se apresenta como espaço de um teólogo, autor, consultor acadêmico e pesquisador ligado aos estudos bíblicos.
À primeira vista, este poderia parecer o texto mais distante do Radar. Mas justamente por isso ele merece atenção.
Mateus 18 não está apenas interessado em uma virtude individual. O capítulo trabalha a administração das relações dentro da comunidade, a correção, a responsabilidade recíproca e a possibilidade de restauração depois da ruptura.
Isso aproxima o texto do problema mais amplo da organização comunitária. Se os Evangelhos são textos produzidos e transmitidos por comunidades que vivem sob pressão, conflito e transformação, então suas instruções sobre perdão também podem ser lidas como mecanismos de manutenção da identidade coletiva.
Não precisamos transformar isso em uma teoria sociológica totalizante. Basta reconhecer que o perdão, no texto, é uma prática que reorganiza relações rompidas.
Por que entra no Radar: porque lembra que a contestação da ordem externa não basta; comunidades também precisam construir formas internas de administrar conflito, autoridade e pertencimento.
09 — William D. Mounce
What does Your Face Tell You? (James 1:23–24)
BillMounce.com — 7 de setembro de 2026
William D. Mounce abriu a semana com uma análise de Tiago 1:23–24 centrada na linguagem do texto e na imagem do rosto no espelho. Seu site mantém uma produção pessoal dedicada ao grego bíblico e à leitura do Novo Testamento.
É o texto menos “macro-histórico” desta seleção, mas justamente por isso oferece uma escala diferente de leitura.
A interpretação histórica frequentemente trabalha com grandes categorias — judaísmo, império, cristologia, comunidade, cânon. Mounce nos devolve ao nível microscópico: uma palavra, uma construção, uma imagem e o que acontece quando uma tradução decide explicitar, omitir ou interpretar determinado elemento.
Essa escala é indispensável. Grandes teses históricas dependem de pequenas decisões textuais.
Para o Radar, a presença de Mounce também funciona como lembrete de que a biblioblogosfera não é constituída somente de debates sobre “grandes temas”. Ela inclui o trabalho aparentemente modesto de estabelecer o que o texto efetivamente diz.
Por que entra no Radar: porque antes de reconstruir uma história a partir dos textos, precisamos continuar perguntando o que exatamente está no texto.
10 — Dan Peterson
The Short and Simple Annals of the Poor
Sic et Non — 10 de setembro de 2026
Dan Peterson publicou em 10 de setembro um texto que parte de sua preparação para uma discussão sobre Miqueias, Naum, Habacuque e Sofonias. A publicação também articula esses profetas com a literatura sobre os pobres e com a ideia de que a vida de pessoas comuns frequentemente desaparece das grandes narrativas históricas.
É uma escolha deliberadamente diferente das anteriores.
O texto não pretende fazer uma nova reconstrução do Segundo Templo nem resolver um problema de crítica textual. Seu valor para o Radar está naquilo que ele coloca em primeiro plano: quem aparece na história e quem permanece invisível?
A frase que dá título ao texto — tomada de Thomas Gray — funciona como eixo para uma reflexão sobre vidas ordinárias, memória e apagamento.
Essa preocupação possui uma afinidade importante com MEMÓRIA. A história dos grandes impérios é também uma história construída a partir da sobrevivência desigual dos vestígios. A pergunta sobre quem é lembrado não é uma questão meramente sentimental; é uma questão epistemológica.
Por que entra no Radar: porque recorda que a memória histórica não preserva o passado de maneira neutra. Ela seleciona, hierarquiza e frequentemente apaga.
O mapa da semana
O que aparece quando afastamos os dez textos de seus blogs de origem?
Não aparece uma única discussão. Aparece uma espécie de cartografia da autoridade.
Ehrman começa perguntando como podemos reconstruir o ensino de Jesus. Gordon pergunta que tipo de relação os textos bíblicos estabelecem com a história. Le Peau recoloca a cristologia dentro do problema do monoteísmo judaico. Litwa mostra que a própria definição do corpus cristão é objeto de disputa. Davila leva a investigação para Josefo e para a transmissão da memória sobre Jesus. Jenkins mostra que a autoridade textual pode ser fabricada. Albright desloca o problema para Daniel e para a sucessão dos impérios. Ian Paul observa a administração do conflito dentro da comunidade. Mounce lembra que tudo isso depende de palavras concretas. Peterson termina devolvendo a discussão àqueles que a grande narrativa tende a esquecer.
Há, portanto, uma sequência possível:
quem falou → o que foi registrado → como foi interpretado → quais textos sobreviveram → quem adquiriu autoridade → como essa autoridade foi disputada → como comunidades se organizaram → como as palavras foram transmitidas → quem permaneceu na memória.
É talvez essa última questão que melhor sintetize o Radar desta semana.
A biblioblogosfera de 7 a 13 de setembro não esteve simplesmente discutindo o que a Bíblia diz. Em diferentes níveis, esteve discutindo quem tem autoridade para dizer o que a Bíblia diz, quais memórias podem ser recuperadas, quais textos podem representar uma comunidade e quais formas de poder determinam o que permanece visível.
E é exatamente aí que o Radar deixa de ser apenas uma seleção de links.
Ele passa a funcionar como aquilo que pretendemos desde o início: um instrumento para observar, em tempo real, as disputas intelectuais que continuam reorganizando nossa compreensão do judaísmo antigo, de Jesus e das origens cristãs.
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