Há alguma coisa estranha na maneira como Jesus fala com o Pai. Não apenas porque fala com Deus, mas porque fala com Deus como quem pertence a Deus e, ao mesmo tempo, como quem precisa dirigir-se a Deus. Diante daqueles que o crucificam, pede ao Pai que perdoe (Lc 23,34); em outros momentos, fala de uma unidade tão radical que chega a dizer: “Eu e o Pai somos um” (Jo 10,30). A tensão não está apenas na teologia posterior. Ela já está dentro das cenas. Jesus pede, agradece, sofre, obedece, intercede. E, ao mesmo tempo, fala e age como aquele cuja relação com o Pai parece ultrapassar a relação de qualquer outro ser humano com Deus. Antes de perguntar o que a cristologia diz sobre ele, precisamos suportar aquilo que ele próprio diz.
A questão se torna ainda mais estranha quando pensamos na linguagem da intercessão. Pedro ouve Jesus dizer que orou por ele: “eu, porém, orei por ti, a fim de que tua fé não desfaleça. Quando, porém, te converteres, confirma teus irmãos” (Lc 22,32). Em João, Jesus afirma que não roga apenas pelos discípulos, mas também “pelos que, por meio de sua palavra, crerão em mim” (Jo 17,20). E a Primeira Carta de João, já em outro registro, diz: “Meus filhinhos, isto vos escrevo para que não pequeis; mas, se alguém pecar, temos como advogado, junto do Pai, Jesus Cristo, o Justo” (1Jo 2,1). O vocabulário é claro: alguém fala por alguém diante de Deus. Alguém ocupa uma posição que permite levar a voz dos outros até o Pai. Mas, se esse alguém é o Filho, surge uma pergunta incômoda: por quem o Filho fala? Se ele fala pelos homens, fala também por si mesmo? E se fala diante do Pai, como compreender que aquele que fala diante de Deus seja também aquele que, segundo João, participa da própria identidade divina?
O Evangelho de João empurra a questão ainda mais longe. Jesus pode dizer: “tudo o que é meu é teu, e tudo o que é teu é meu” (Jo 17,10). Pode responder a Filipe: “Quem me viu, viu o Pai” (Jo 14,9). Pode acrescentar: “Eu estou no Pai, e o Pai está em mim” (Jo 14,10). A linguagem já não descreve simplesmente um mensageiro que leva uma mensagem de uma parte a outra. O mensageiro parece pertencer aos dois lados de uma maneira que ameaça a própria ideia de lados. Se há uma distância entre Deus e a humanidade, o mediador deveria estar entre os dois. Mas o que acontece quando aquele que está “entre” também está no Pai e o Pai está nele? A mediação começa a perder sua geometria. O “entre” deixa de ser uma posição intermediária e começa a parecer um lugar de encontro.
Na teologia de Atanásio, o Filho, sendo o Verbo, assume aquilo que pertence à condição humana e torna possível a comunhão entre Deus e os homens. A imagem funciona nos dois sentidos. O Filho recebe a fome, o cansaço, as lágrimas, a fragilidade e a morte; aquilo que pertence à nossa condição não é descartado como uma aparência inconveniente, mas assumido. Ao mesmo tempo, por ele chegam a nós a vida, a comunhão e os dons de Deus. O mediador não parece apenas transportar uma mensagem. Ele transporta a própria condição daqueles que representa. A mediação, que deveria simplificar a relação, começa a parecer uma circulação: Deus para nós, nós para Deus, e o Filho presente nos dois movimentos. Atanásio não está interessado em uma metáfora confortável. Seu Cristo torna o problema mais espesso porque a representação não acontece à distância. O Filho leva consigo aquilo que somos.
Irineu torna o problema maior, porque seu Cristo não apenas representa os homens: ele os carrega. Em Adversus Haereses V.17–18 e V.21, a encarnação aparece dentro da lógica da recapitulação. Cristo reúne em si a história humana, refaz o caminho de Adão, assume aquilo que precisava ser assumido e conduz a humanidade para aquilo que ela não poderia alcançar por si mesma. O mediador, então, não é um observador situado entre dois mundos. Ele participa daquilo que reconcilia. A representação se torna participação. O que ele faz pelos homens não pode ser separado daquilo que ele é em relação a eles. E isso torna a pergunta ainda mais difícil: se o Filho nos representa porque nos assume, onde termina aquele que representa e onde começam aqueles que são representados?
Gregório de Nazianzo percebe a tensão de maneira particularmente aguda. Na Oratio 30, especialmente no §14, ao discutir a mediação e a linguagem sobre o Filho diante do Pai, Gregório insiste que Cristo ainda intercede como homem, mas rejeita qualquer representação servil. Há uma diferença entre imaginar o Filho como alguém que precisa convencer um Deus relutante e reconhecer nele aquele que, assumindo nossa condição, participa verdadeiramente daquilo que apresenta diante do Pai. A intercessão permanece, mas já não pode ser compreendida como a intervenção de um terceiro estranho às partes. Cristo não é um diplomata enviado entre dois soberanos que permanecem separados. Aquele que intercede pertence à relação que ele próprio torna possível.
Isso ajuda a compreender também por que a linguagem cristã sobre Satanás e o acusador é tão importante para o problema da mediação. O Novo Testamento conserva a imagem daquele que acusa, daquele que se coloca diante de Deus contra os seres humanos. O Apocalipse chama Satanás de “acusador de nossos irmãos” (Ap 12,10). Mas Bart D. Ehrman, em seus estudos sobre as origens de Satanás, lembra que o personagem que a tradição cristã posterior reconhecerá como Satanás possui uma história anterior à sua transformação em inimigo cósmico de Deus. A questão não é apenas histórica. Ela ajuda a perceber uma diferença fundamental entre acusação e intercessão. O acusador leva a culpa humana diante de Deus; o mediador leva a humanidade. Um apresenta o homem como réu. O outro apresenta o homem como alguém que pode ser reconciliado. Mas, novamente, a imagem se complica porque o próprio Cristo será simultaneamente apresentado como aquele que intercede, aquele que sofre e aquele a quem o julgamento é confiado.
E então aparece uma pergunta ainda mais perturbadora: se o Pai envia o Filho, quem precisa convencer quem? O Evangelho afirma: “Deus amou tanto o mundo que entregou o seu Filho único” (Jo 3,16). A iniciativa é do Pai. O Filho não precisa persuadir um Deus indiferente a amar a humanidade, porque o amor já está na origem do envio. A intercessão não é uma tentativa de alterar a disposição de Deus. Mas, se é assim, por que o Filho precisa orar? Por que, no Getsêmani, ele diz: “Pai, se queres, afasta de mim este cálice; contudo, não a minha vontade, mas a tua seja feita” (Lc 22,42)? E os Evangelhos que conservam essa oração também preservam, em outro registro, afirmações de uma unidade radical entre Pai e Filho. Existe uma vontade que pede e uma vontade à qual essa primeira vontade se submete. Se estamos diante de um homem que sofre, a cena é inteligível; se estamos diante do Filho eterno, a cena se torna perturbadora. A oração não destrói a unidade; tampouco a unidade elimina a oração.
Talvez seja justamente a materialidade de Jesus que impeça uma solução fácil. Jesus tem sede (Jo 19,28), chora (Jo 11,35) e morre. O cristianismo não transforma essas coisas em meras aparências sem consequências. Aquele que fala do Pai é também aquele cujo corpo experimenta exaustão, dor e morte. A leitura literária de Harold Bloom permite perceber como personagens bíblicos não se deixam domesticar facilmente pela tentativa de reduzi-los a uma única psicologia coerente. Em Jesus, a tensão é particularmente intensa: ele pode experimentar abandono (Mt 27,46; Mc 15,34) e afirmar unidade; pode pedir que o cálice seja afastado e, ao mesmo tempo, dirigir-se ao Pai como aquele cuja vontade conhece; pode morrer e ser apresentado como aquele por meio de quem a vida é dada. A personagem não se torna menos complexa quando a teologia tenta explicá-la. Talvez se torne mais.
Agostinho percebeu a dificuldade e tentou preservar os dois lados da questão. Em De Trinitate IV.8–9, o Filho aparece como mediador entre Deus e os homens, igual ao Pai quanto à divindade e participante da humanidade, intercedendo por nós como homem e permanecendo, ao mesmo tempo, um com o Pai. A palavra “mediador” parece funcionar porque há realmente algo que Cristo faz por nós. Mas a palavra começa a falhar quando tentamos transformá-la em uma localização. Onde está o mediador? Está entre Deus e os homens? Está com Deus? Está conosco? Se respondermos “nos dois lugares”, a geometria espacial já não ajuda muito. Se respondermos “em ambos”, a palavra “entre” começa a significar outra coisa.
Gregório de Nissa leva essa lógica ainda mais longe. Em Contra Eunomium II.12, Cristo aparece como mediador entre Deus e os homens precisamente porque é verdadeiro Deus e verdadeiro homem, unindo em si aquilo que a linguagem comum tende a separar. O mediador não funciona como uma peça intermediária colocada entre duas peças maiores. Ele é o próprio vínculo. A humanidade é ligada à divindade por meio daquele em quem as duas realidades estão unidas. A mediação, portanto, já contém em si uma espécie de paradoxo: para ser plenamente mediador, Cristo precisa pertencer verdadeiramente aos dois lados; mas, quanto mais plenamente pertence aos dois, menos sentido faz tratá-lo como um terceiro elemento situado entre eles.
Cirilo de Alexandria enfrenta a mesma dificuldade em seu Commentary on John, especialmente na discussão de João 17. Cristo pode falar ao Pai, pedir, obedecer e interceder, sem que isso implique a existência de dois sujeitos independentes. Cirilo procura preservar uma única identidade sem destruir as diferenças entre divindade e humanidade. Mas a solução não elimina o problema narrativo. Pelo contrário: ela o torna mais preciso. Quem fala quando Jesus diz “Pai”? Quem sofre quando Jesus chora? Quem pede quando Jesus ora? Quem morre quando Jesus é crucificado? A resposta cristológica precisa afirmar que é o mesmo Cristo em todas essas cenas. A unidade do sujeito não apaga a diversidade das experiências; é justamente aquilo que torna possível dizer que uma única pessoa atravessa experiências que, isoladamente, pareceriam pertencer a sujeitos diferentes.
Leão Magno, especialmente na Epistula 28, formula com grande precisão a distinção que se tornaria decisiva na recepção latina da cristologia. O mesmo Cristo é verdadeiro Deus e verdadeiro homem; as duas naturezas permanecem sem que uma seja transformada na outra. A fórmula protege a cena. Não a substitui. Ela impede que a humanidade seja dissolvida na divindade e impede também que a divindade seja reduzida à humanidade. Mas o problema literário permanece: aquele que pede é o mesmo que, segundo a fé cristã, participa da identidade divina; aquele que sofre é o mesmo que é confessado como Filho; aquele que morre é o mesmo que será anunciado como vencedor da morte.
É precisamente esse problema que a fórmula de Calcedônia procura conter quando afirma que o único e mesmo Cristo deve ser reconhecido “sem confusão, sem mudança, sem divisão e sem separação”. A fórmula é extraordinariamente cuidadosa. Ela sabe o que precisa negar. Não permite confundir as naturezas, nem separá-las. Mas a sua própria precisão mostra a dimensão da dificuldade. Quanto mais cuidadosamente a tradição define a relação entre divindade e humanidade, mais evidente se torna que o problema não é apenas descobrir o que Cristo possui, mas compreender quem ele é enquanto vive, sofre, fala, ora e age. A cristologia não nasce de uma equação abstrata. Nasce da necessidade de dizer quem é aquele que aparece nas cenas.
E então a mediação encontra outro obstáculo: o tribunal. João afirma que “o Pai a ninguém julga, mas confiou ao Filho todo julgamento” (Jo 5,22). Mas, no relato da paixão, Jesus está diante de Pilatos. O governador pergunta: “Não sabes que tenho poder para te libertar e poder para te crucificar?” (Jo 19,10). Jesus responde: “Não terias poder algum sobre mim, se não te fosse dado do alto” (Jo 19,11). A cena produz uma inversão quase impossível. Aquele que parece estar diante do tribunal humano é também aquele a quem o julgamento foi confiado. O réu será juiz. O condenado será aquele diante de quem a humanidade será julgada. O prisioneiro redefine a autoridade do juiz. A mediação, que parecia exigir uma posição intermediária, passa a atravessar a própria estrutura do julgamento.
Talvez por isso a imagem da ponte seja insuficiente. Uma ponte liga duas margens, mas continua sendo uma coisa distinta das duas margens. Cristo, porém, não é apresentado apenas como uma estrutura que permite a passagem. Ele diz: “Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida. Ninguém vem ao Pai a não ser por mim” (Jo 14,6). E, poucos versículos depois: “Eu estou no Pai, e o Pai está em mim” (Jo 14,10). Se ele é o caminho, não é simplesmente aquele que indica o caminho. Se ele é a vida, não é apenas aquele que entrega uma mensagem sobre a vida. Se ele é o lugar pelo qual se chega ao Pai e, simultaneamente, aquele que está no Pai, a mediação deixa de ser uma operação externa e passa a ser uma forma de presença.
A própria linguagem de João 12 e 16 acentua essa tensão. Jesus diz: “Pai, glorifica o teu nome” (Jo 12,28), e a voz responde. Mais tarde, afirma: “Eu saí do Pai e vim ao mundo; agora deixo o mundo e vou para o Pai” (Jo 16,28). Há movimento, envio, retorno. A linguagem parece preservar uma distância. Mas essa distância não é a de dois seres estranhos. É uma distância dentro de uma relação que o próprio Evangelho descreve como unidade. O Filho vem do Pai, fala do Pai, revela o Pai, retorna ao Pai e, no entanto, diz que quem o vê vê o Pai. A mediação parece exigir distância suficiente para tornar possível o encontro e proximidade suficiente para tornar possível a revelação. Talvez seja justamente essa combinação que torne o problema insolúvel.
Os Padres podem ser lidos, então, não como uma fila de soluções, mas como uma longa discussão diante da mesma personagem. Irineu enfatiza a recapitulação; Atanásio, a encarnação do Verbo; Gregório de Nazianzo, a intercessão; Agostinho, a posição do mediador entre Deus e os homens; Gregório de Nissa, a união; Cirilo, a unidade do sujeito; Leão, a distinção das naturezas; Calcedônia, a necessidade de preservar simultaneamente essas afirmações. Cada formulação impede um erro. Nenhuma elimina completamente a cena que deu origem à pergunta. O problema não é que os Padres tenham fracassado em encontrar uma resposta. Talvez seja que a pergunta seja maior do que qualquer resposta isolada.
É aqui que a leitura de Bloom se torna particularmente sugestiva. A personagem bíblica não precisa obedecer à coerência psicológica que esperamos de um personagem moderno. Ela pode conter tensões que não se resolvem em uma única perspectiva. Jesus pode dizer que ninguém vem ao Pai senão por ele e, ao mesmo tempo, orar ao Pai. Pode afirmar que o Pai está nele e pedir que o Pai afaste o cálice. Pode experimentar abandono e falar da unidade. Pode ser aquele que intercede e aquele a quem o julgamento foi confiado. A tensão não é necessariamente um defeito do texto. Pode ser o próprio modo pelo qual o texto preserva a grandeza da personagem.
Talvez seja possível reunir os diferentes sentidos da mediação sem reduzi-los a um único mecanismo. Cristo representa porque participa. Participa porque assume. Assume para revelar. Revela porque é caminho. É caminho porque conduz ao Pai. Conduz ao Pai porque, de algum modo, está unido ao Pai. E, ao mesmo tempo, permanece aquele que pode falar com o Pai, pedir ao Pai, obedecer ao Pai e entregar-se ao Pai. Cada afirmação parece abrir a próxima. Cada resposta cria uma nova pergunta. A mediação se torna representação; a representação se torna participação; a participação se torna comunicação; a comunicação se torna revelação; a revelação se torna presença; a presença se torna união. E, quando chegamos à união, a palavra “entre” começa a perder sua função.
É possível responder que Cristo é mediador porque possui duas naturezas. Mas isso descreve uma condição; não explica o movimento da mediação. É possível dizer que ele representa a humanidade diante de Deus. Mas então precisamos perguntar como aquele que representa permanece simultaneamente unido àqueles que representa. É possível dizer que ele revela Deus aos homens. Mas, se ele é aquele em quem Deus está presente, a revelação deixa de ser apenas transmissão de informação. É possível dizer que ele é o caminho. Mas, se o caminho é uma pessoa, então a passagem não ocorre simplesmente através de uma instrução. O próprio mediador se torna o lugar da passagem.
A teologia cristã possui respostas para cada uma dessas questões, e seria injusto tratá-las como se fossem meros jogos de palavras. Elas surgiram de séculos de reflexão e de uma tentativa rigorosa de preservar simultaneamente afirmações que pareciam incompatíveis. O problema está em outro lugar. Cada resposta verdadeira conserva dentro de si uma tensão que nenhuma fórmula consegue eliminar completamente. O Filho é Deus e homem. É enviado e aquele que envia. É aquele que intercede e aquele a quem se confia o julgamento. É aquele que fala com o Pai e aquele que diz estar no Pai. É aquele que assume aquilo que somos e aquele por meio de quem recebemos aquilo que não somos.
Talvez seja justamente por isso que o mediador não possa ser imaginado como um diplomata. Um diplomata pertence a um lado e representa esse lado diante do outro. Um mensageiro leva uma mensagem que continua sendo distinta daquele que a recebe. Uma ponte permanece diferente das margens que conecta. Uma terceira coisa pode ocupar o espaço entre duas coisas sem pertencer integralmente a nenhuma delas. Nada disso parece suficiente para Cristo. A mediação cristã não acontece porque existe um terceiro que permanece exterior aos dois. Ela acontece, paradoxalmente, porque aquele que medeia está profundamente implicado nos dois polos que a mediação pretende aproximar.
Então a pergunta muda. Já não é simplesmente: como Cristo faz a mediação? A pergunta passa a ser: o que significa chamar de mediação aquilo que acontece nele? Se Cristo é apenas aquele que transmite algo, a pergunta é relativamente simples. Se ele é aquele em quem acontece o encontro entre Deus e humanidade, a palavra “mediação” já não descreve uma função externa. Ela começa a descrever uma condição de existência. O mediador não apenas realiza a passagem. Ele é o lugar em que a passagem se torna possível.
O Getsêmani retorna aqui como uma espécie de teste. Jesus está sozinho, diante da morte, e ora. A cena parece exigir distância: ele fala com outro. Mas a teologia cristã insiste em uma unidade que impede que esse outro seja simplesmente um segundo ser separado. A oração, então, não desaparece. Ela se torna ainda mais estranha. O Filho fala ao Pai. O Filho obedece ao Pai. O Filho está no Pai. O Pai está no Filho. Não há uma resposta que faça uma dessas afirmações desaparecer sem mutilar as outras. Talvez a força da cena esteja justamente aí.
A palavra retorna uma última vez. Mediador. Entre quem e quem? A resposta antiga permanece: entre Deus e os homens. Mas agora ela soa diferente. O Filho está diante do Pai e, no entanto, diz que está no Pai. Está conosco e, no entanto, nos conduz ao Pai. Fala por nós e fala com Deus. Recebe aquilo que somos e nos comunica aquilo que Deus é. É o caminho e é aquele por quem caminhamos. É aquele que julga e aquele que é julgado. É aquele que intercede e aquele a quem o julgamento foi confiado. Quanto mais tentamos localizar o mediador, mais ele parece escapar da geografia da pergunta.
A pergunta não precisa ser encerrada. Cada resposta verdadeira conserva dentro de si uma tensão que nenhuma fórmula pode eliminar. O Filho não é simplesmente uma ponte. Não é apenas um advogado. Não é somente um mensageiro. Não é uma terceira coisa colocada entre duas realidades. Ele é, na linguagem da tradição cristã, aquele em quem Deus e humanidade se encontram. E quando chegamos a esse ponto, descobrimos que a pergunta que parecia ser sobre a função do mediador era, desde o princípio, uma pergunta sobre quem ele é.
Se o mediador é também aquele em quem Deus e humanidade se encontram, quem está mediando quem?
Referências bibliográficas
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