Estudos sobre Religião - Biblioblog

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Faz algum tempo, em nossa série sobre Jesus na Escala Richter de Impacto Histórico, abordamos algumas das principais objeções a autenticidade (parcial) do Testemunho Flaviano. No entanto, "por falta de espaço", duas ficaram faltando i) A de que Jesus e os cristãos não são citados por Josefo quando ele descreve os grupos religiosos tradicionais (ou peculiares) aos judeus ii) Jesus e os cristãos terem crenças messiânicas e apocalípticas, e portanto Josefo os abominaria.

Refletindo sobre essas questões, e já que falamos de seitas judaicas, messianismo, apocaliptismo, acho interessante aumentar o escopo da discussão. A questão das objeções ao Testemunho Flaviano servirá então como ponto de partida, para uma discussão mais ampla de como Jesus e os cristãos se inserem na "panela de pressão" da Palestina do Século I.

Os cristãos no Judaísmo: Josefo afirma que os judeus por muito tempo tiveram três filosofias peculiares. Os essênios, os saduceus e os fariseus. O esboço abaixo é baseado nas descrições de Josefo em várias partes da sua obra, sintetizadas pelos Professores Gerd Thiessen, da Universidade de Heildelberg, e Annete Merz , da Universidade de Utrecht [1]

Os saduceus, segundo Josefo, não acreditavam na imortalidade da alma e negavam penas ou recompesas depois da morte. Em sua visão, o homem é responsável pelo seu próprio destino. Seguiam apenas aLei Mosaica e rejeitavam a tradição dos pais. Debatiam entre si frequente e calorosamente, mesmo com seus mestres. No entanto, sua doutrina era aceita por poucos, ainda que esses poucos fossem influentes e poderosos. Por causa disso, quando assumiam o poder, "emprestavam" idéias e conceitos farisaicos, pois, de outra forma, não teriam suporte popular.

Os fariseus acreditavam na imortalidade da alma, que Deus puniria dos ímpios e recompensaria os justos, na ressureição dos mortos, que ressuscitariam. Eram sinergistas, istoé, acreditavam que os acontecimentos decorriam vontade divina em cooepração/conflito com os atos humanos. Seguiam a escritura e a tradição oral, acrescentando mandamentos as leis dos pais. Os mestres mais experientes entre eles eram muito honrados, e, diferentemente dos saduceus, apreciavam a harmonia entre si. Eram próximos do povo, que aceitava amplamente seus preceitos e estaria mais inclinado a seguir sua liderança do que os outros grupos.

Os essênios acreditavam na imortalidade da alma, no castigo dos maus e que os justos seriam recompensados com uma vida de alegrias, fora do corpo. Eram deterministas, o destino dos homens dependia da vontade de Deus. Viviam em comunidades separadas, eram celibatários, dividiam seus bens entre si, não possuiam servos, e se abstiveram do serviço do Templo de Jerusalém. Tinham livros e ensinos secretos.

Josefo descreve ainda uma quarta escola ou filosofia, aquela inspirada por Judas Galileu, que seguiam em tudo as doutrinas e concepções farisaicas, "mas possuiam um vinculo inquebrantável com a liberdade, e diziam que Deus era o seu único Senhor e Rei". Sua valentia era tanta que não davam valor a suas vidas, nem dos seus parentes e amigos. Não aceitavam ser súditos de homem algum. A ação e influência desses agitores e a inépcia dos goverdores romanos foi a causa dos tumultos e da Guerra, conforme Josefo.

Quanto ao Testemunho Flaviano, a implicação deste fato é pouco relevante para a questão da autenticidade. Um dos motivos é que Josefo descreve os fariseus, saduceus e essênios, sem citar as origens, os fundadores ou principais líderes destes grupos. Portanto, não haveria porque, necessariamente, citar a origem, fundador e lideres dos cristãos. O único dos quatro grupos que Josefo menciona o fundador, foi o dos revolucionários que seguiam a filosofia de Judas Galileu. Mas esses eram uma facção do grupo farisaico no aspecto religioso, tendo porém concepções políticas diferenciadas. E mesmo assim, é questionavel que figuras tão diferentes como Teudas, o profeta egípcio, e Menahem possam ser postos no mesmo bolo. O mais provável é que Josefo, convenientemente, classifica esses "renegados" como um nova escola, os isolando de outros grupos, mais antigos e venerandos. Assim, foi uma filosofia nova, recente, e não os preceitos tradicionais, combinado a governadores romanos ineptos (e não o domínio romano em si) que incitou a nação e a levou a revolta. Judas Galileu é importante também não só por seu ensino mas porque muitos de seus descendentes estiveram envolvidos em momentos decisivos de agitação revolucionária. Em 47 DC, os Tiago e Simão, filhos de Judas, foram executados pelo Procurador Tibério Alexandre (Ant. 20.100-103), em um momento em que o país passava por uma grande fome (o que pode ter sido utilizado por eles para fomentar a rebelião). Durante a Guerra Judaica, Menaem, descendente de Judas, proclamou-se Rei. Quando Jerusalem caiu, Eleazar ben Jair, primo de Menahem (e portanto parente de Judas), foi um dos líderes da resistência em Massada. A menção a Judas Galileu e sua família são essenciais para as finalidades apologéticas da narrativa de Josefo junto a seus leitores da aristocracia romana. As inovações de Judas teriam iludido e desencaminhado a nação, pois seus ensinos "alteraram o modo de vida de nossos pais, de tal maneira, que pesaram decisivamente para trazer tudo para a destruição" (Ant. 18:9), o legado de sua loucura foi de agitação, fome, destruição das cidades e do Templo de Deus (18:7-8). Judas Galileu e sua escola são o bode expiatório perfeito para Josefo, e caem como uma luva para sua narrativa.

Mas se a menção da seita por Josefo não implica, necessariamente, em citar seus fundadores, - e a excessão no caso de Judas Galileu e sua escola é explicada pela seu papel relevante nos tumultos do seculo I DC e na Guerra Judaica, e consequente destruição de Jerusalém e do Templo - porque Josefo não relaciona os cristãos entre as seitas judaicas? Essenios, Fariseus e Saduceus eram grupos antigos e tradicionais que existiam desde meados do II seculo AC, e os revolucionários são importantes por sua função na narrativa de serem a razão da ruína da nação, assim os outros grupos e facções podem não ter sido citados simplesmente por não serem importantes e/ou tradicionais o suficiente. Seu eu digo que os britânicos estão divididos entre conservadores, trabalhistas e liberais democratas, ou os americanos entre Democratas e Republicanos, isso não quer dizer que não existam partidos menores, ou subgrupos e movimentos relevantes cuja influência se estende tanto fora como dentro desses partidos. O mesmo pode ser dito ao mencionar PT, PSDB, PMDB, DEM e PP como as forças políticas tradicionais no Brasil, sem citar os inúmeros partidos e movimentos parlamentares menores. De fato, em uma passagem do Talmude de Jerusalem, o Rabi Yehoanam (século III DC) afirma que existiam 24 seitas entre os judeus [2]. Isoladamente, a confiabilidade desta tradição é duvidosa, porém varios textos e materiais datáveis dos séculos I AC e sec I DC indicam a existência de outros grupos. Em geral, os estudiosos concordam que existiam mais grupos religiosos além de essênios, fariseus e saduceus nos anos anteriores a destruição do Templo (70 DC) [3]. Existe também um consenso de que esta esquematização, é anacrônica e exclui importantes grupos como os samaritanos, zelotes, sicários, grupos batistas, enoquianos, judeus seguidores de magia, betusianos, escribas, milagreiros galileus, simpatizantes romanos, e muitos outros que reivindicavam ser judeus seguidores da Lei, e obviamente, os seguidores de Jesus na Judeia. [3]

Assim, independente da autenticidade do Testemunho Flaviano, o fato é que os cristãos existiam na Judéia como demonstram o complexo relacionamento entre Paulo e a Igreja de Jerusalém (Gl. 1:18-22 e 2:1-5; Rom. 15:26; I Tes. 2:14-16; I Cor. 16:1-4), e o fato de ser de conhecimento público entre os leitores de Josefo de que os cristãos - perseguidos em Roma desde o tempo do Imperador Nero (Tacito, Anais 15:44; Suetonio, De Vita Nero, 16:2) - eram originários da Judéia. Isso é consistente com o fato de Josefo não oferecer uma descrição dos cristãos entre os grupos tradicionais entre os judeus - existentes a mais de 250 anos e atores principais dos acontecimentos - e os cita (provavelmente) brevemente como uma seita sem muita importância que, surpreendentemente, ainda não se extinguira 60 anos após a morte de seu fundador.

Apocaliptismo, Messianismo, os Cristãos, Jesus e Josefo: Deve ser observado que as seitas judaícas, de modo geral, eram messiânicas. Inclusive os fariseus, grupo a qual Josefo se identificava. Além disso, as crenças messiânicas e apocalipticas estavam no auge entre o povo, e somadas a condições econômicas, sociais e políticas bastante específicas, exerceram grande pressão na palestina no período. Entre a morte de Herodes (4 AC) e a derrota de Simão Bar Kokhba (135 DC) a Judéia foi envolvida por três grandes rebeliões e vários tumultos, enquanto que nos séculos anteriores de domínio persa, helenista e herodianos so há registro de uma única grande rebelião (a dos macabeus). Portanto, para entender essas tensões vamos analisar agora as crenças desses grupos.

Josefo descreve os essênios em sua obra, com palavras de admiração e louvor:
"Merece nossa admiração quanto aos essênios que superaram todos os outros homens que se dedicavam a virtude , e o faziam com retidão e de tal forma que jamais aconteceu entre outros homens, nem gregos, nem judeus". (Antiguidades Judaicas 18:21)
"Há mesmo entre eles os que se tornam capazes de prever o futuro, exercitados que são no estudo dos livros santos, dos escritos sagrados e das sentenças dos profetas; e é raro que aconteça de se enganarem em suas predições" (Guerras Judaicas 2:159)

Filo também faz observações semelhantes em Hipotética 11:14-17.
Mas o que sabemos sobre os essênios, e suas crenças?

Professor David Flusser, da Universidade Hebraica:
"Ja os essênios eram de outra espécie. Originalmente, formavam um movimento revolucionário apocaliptico, que desenvolveu uma amálgama ideológica de pobreza e predestinação dupla. Eram os verdadeiros filhos da luz, os pobres divinamente eleitos. No iminente fim dos dias, pelo poder das armas e assistência das hostes celestiais herdariam a terra e conquistariam o mundo. Os filhos das trevas - o resto de Israel, os gentios e os poderes demoníacos que governam o universo - seriam aniquilados" [4]

Surpresa!!! Os essênios também eram messiânicos e apocalípticos. O que pode ser demonstrado analisando os Manuscitos do Mar Morto. Na opinião da grande maioria dos estudiosos, a maior parte desses textos seriam de autoria de uma comunidade de essênios, radicados em Quram, atual Jordânia [5]. De fato, os autores dos manuscritos do Mar Morto tem uma concepção apocaliptica muito agressiva. Professor Geza Vermes , da Universidade de Oxford, observa:

"A oração conhecida como a benção do Príncipe da Congregação, o futuro chefe militar da Comunidade de Qumrã, concebe uma figura guerreira semelhante dotada com características de sabedoria divina:
O Mestre abençoará o Principe da Congregação
Que há de Estabelecer o seu reino para sempre
Que o Senhor o erga a alturas perpétuas como uma torre fortificada
[Que derrotes os povos] com o poder de tua mão e devastes a terra com seu cetro
Que tragas a morte para o incréu com o hálito dos teus lábios
[Que ele derrame sobre ti o espirito do conselho] e o poder eterno do Espirito do conhecimento e o temor de Deus (1 QS 5:20-25)


Admitidamente, essa oração não contém o termo "Messias" propriamente, mas outras passagens do Mar Morto vêm em nosso socorro e esclarecem a questão. Eles fazem referência, por exemplo, ao "Messias dos Justos" a descendência de Davi (4 Q252 6 sobre Genêsis 49:10) ou descrevem o último Príncipe da Congregação como "Descendência de Davi e que derrotará os Cetim - Romanos (4Q285). [6].

O texto é radicalmente apocalíptico. Mas, como já dissemos, o apocaliptismo e o messianismo não são uma característica apenas dos sectários essênios. Na verdade, esses traços permeavam em maior ou menor grau todo o judaísmo, antes e depois da 1ª Guerra Judaico Romana (66-73 DC).

"Eis que o machado esta posto sobre a raiz das árvores" - O apocaliptismo e messianismo no Judaismo do Segundo Templo: O Professor Vermes também analisou as crenças apocalipticas e messiânicas dos essênios em contexto mais amplo, a luz das crenças comuns do judaismo do tempo de Jesus, tendo em vista das orações do povo judeu.

"As orações são provavelmente a melhor fonte a consultar para tentarmos descobrir que tipo de libertador a gente comum esperava. Os Salmos de Salomão (17 e 18), do século I AC, bem como a maior parte dos textos messiânicos entre os manuscristos do Mar Morto de data semelhante, juntamente com a famosa oração sinagogal das dezoito bençãos, em substância atribuiveis ao século I DC, transmitem-nos um quadro vivo do esperado Messias real. Eis o governante ungido dos Salmos de Salomão (17:23-24), poderoso justo e sagrado

Vê Senhor, e erige-lhes o seu rei, o Filho de Davi...
E cinge-o de força para que possa abalar os regentes injustos
E ele congregará um povo santo...
E servirá as nações pagãs sob seu jugo...
E será o Rei justo ensinado por Deus...
E não haverá injustiça nenhuma em seu meio no seus dias
Pois todos serão santos e seu Rei o ungido [do] Senhor"
[6]

As dezoito bençãos, como veremos adiante, eram recitadas diariamente nas sinagogas judaicas, não só em Israel, mas em todo Império. Os Salmos de Salomão também refletem também uma concepção judaica tradicional e popular do Messias.

Vermes observa também:
"Finalmente, talvez a mais influente de todas as orações judaicas, as dezoito bençãos, aqui citada a partir de sua versão palestina, também dá testemunho da esperança central da vinda de um rei ungido justo.
"Sejas bondoso, ó Senhor, Nosso Deus, conforme as tuas grandes mercês.
Para com Israel, o teu povo, e Jerusalém, a tua cidade, e a Sião, a residência da sua glória
e para com teu Templo e altar
e o reino da casa de Davi, o teu virtuoso Messias""
[6]

Professor Jona Lendering [7], observa que a literatura acadêmica distinguiu quatro tipos messiânicos no I século DC: o Messias Militar, um Rei Guerreiro, na semelhança e descendência de Davi, que derrotará as nações impías; o Messias Sábio, um mestre capaz de interpretar as escrituras de maneira correta, curar os enfermos e predizer o futuro (que também era chamado Filho de Davi); o Messias Sacerdotal, que derrota os inimigos de Israel (em um sentido mais afeito as forças malignas, demoniácas), traz boas novas de salvação, seria sacerdote para sempre, restabeleceria o culto verdadeiro e julgaria as nações; e o Messias "profeta como Moisés", que apareceria para guiar o povo e seria investido da autoridade que Moisés teve. A maioria das pessoas acreditava que o Messias combinaria todos os pelo menos alguns desses aspectos. Por exemplo, João Batista pode ter sido visto como um "profeta como Moisés" e Jesus de Nazaré é descrito nos evangelhos principalmente como um "messias sábio" (alguém que traz novas leis, cura, e profetiza), mas também como um Messias sacerdotal e um "profeta como Moisés". A idéia de um Messias Militar é claramente rejeitada nos evangelhos.

O professor Louis Feldman , da Yeshiva University, levanta mais alguns pontos, observando a prevalência das crenças messiânicas entre fariseus e rabinos posteriores
"Zeitlin observa que tanto na obra de Filo, quanto na de Josefo, não há qualquer menção ao Messias ou a expectativas messiânicas (Zeitlin não aceita a afirmação de que Jesus era o Messias em Antiguidades 18:63 como autêntica), e que essa omissão não se deve ao temor de seus benfeitores [de Josefo], os flavianos, mas ao fato dele não compartilhar essa crença. Nos podemos, entretanto, observar que, uma vez que Josefo se declara um fariseu (Vita, 12) é díficil acreditar que ele não aceitasse uma crença tão crucial entre os fariseus. Rivkin, deve ser dito, com base em Josefo, conclui que nem os fariseus, nem a maioria do povo judeu estava esperando o Messias; mas essa opinião esta em desacordo com o sentimento generalizado e esmagador do Talmude, e o fato de que, com excessão de Hilel II, no quarto século, nenhum outro rabino é citado como sendo cético da vinda do Messias" [8]

Desta forma, mesmo que se rejeite a autoria essênia dos manuscritos do Mar Morto, o fato é que o judaismo do I Século esta permeado dessas concepções, pedindo a Deus todos os dias pelo "reino da casa de Davi seu servo" e o "teu virtuoso Messias". E seus rabinos, nos séculos posteriores, discutiriam sobre o Messias e seu advento, como pode ser visto no Talmude. Desta forma, podemos dizer que os cristãos partilhavam uma crença judaica comum generalizada no apocalipse e no Messias. Essas crenças estavam firmemente enraizadas no judaismo em geral, e fazia parte do imaginário do povo e das elites, de uma ou de outra forma, com maior ou menor intensidade. Não se discutia se haveria ou não um Messias, mas sim como seria o seu advento, e a natureza de sua manifestação (se sacerdotal, ou militar, sabio/filosofo/milagreiro ou profética) .
É relevante que ainda que a identificação dos manuscritos do Mar Morto com os essênios seja equivocada, o ponto de vista da prevalência de crenças messiânicas entre os judeus do I século não é prejudicado, em vista das hipóteses concorrentes a posição dominante. Professor James Vanderkam, da Universidade Notre Dame, cita duas teorias alternativas a hipótese essênia dignas de alguma consideração [9]. O Prof. Norman Golb, da Universidade de Chicago, propõe que os manuscritos não foram compostos em Quram, mas em Jerusalém - por judeus de várias correntes religiosas, bem como sacerdotes do Templo - e que foram escondidos lá por refugiados da Guerra Judaico-Romana, Quram seia na verdade uma fortaleza. Já a segunda hipótese alternativa, é a do Professor Lawrence Schiffman (New York University), que o grupo de Quram e os textos escritos lá eram de origem saducaica. O termo saduceu, na teoria de Schiffman, merece algumas qualificações. Para ele tanto os saduceus da elite do Templo (mencionados no Novo Testamento e Josefo), quanto os essênios, tiveram uma origem comum, um grupo de sacerdotes do Templo do século II A.C, que se auto-denominava Filhos de Zadoque, ou Zadoqueus. Mas que, nos séculos seguintes, os dois grupos tomaram caminhos bastante distintos (e, certo sentido, como nas crenças de anjos e predestinação, seu oposto). Mas, como observa Vanderkam, a teoria de Schiffman não é, na verdade, uma negação da identificação com essênios, mas uma tese sobre uma origem comum deles com os saduceus [9]. E ainda que aceitemos a teoria de Golb, se torna ainda mais claro que o messianismo e apocaliptismo estavam entranhados no imaginário e convicções judaicas (até mesmo entre sacerdotes da elite do templo da classe saduceia dominante).

Flusser observa que "seitas radicais podem, com frequência, ser bastante afáveis"[10]. Ao longo de sua história o fervor apocalíptico dos essênios foi se amainando, e isso talvez explique o retrato como "monges" tranquilos, serenos, contudo arredios que fascinou Josefo, Filo e mesmo o romano Plinio, o Velho. De fato, apesar dos vários escritos apocalípticos, messiânicos, que previam a derrota dos impíos e a destruição de seu poder, que, obviamente, implicava na derrocada dos romanos, não há registro de envolvimento dos essênios nos numerosos tumultos e rebeliões ocorridos, excetuando-se a Guerra Judaica-Romana de 66-73 DC, quando os país inteiro se levantou contra os romanos.

Bandidos, Profetas e Messias: Josefo também descreve João Batista com algumas similaridades com os essênios (um profeta, que vivia no deserto, se dedicava a virtude, fazia banhos de purificação...). João Batista atrai multidões e causa alvoroço. Herodes Antipas fica alarmados, e tentam (e, efetivamente conseguem), silencia-lo. A acusação ou motivo da execução é a possibilidade de que as massas, excitadas pela pregação de João, fossem induzidas a rebelião (contra os Herodianos, e, em todo caso, contra Roma).

Falando sobre os efeitos da pregação de João sobre as massas, Professor John Dominic Crossan observa:
"De repente, tudo muda, mas sem qualquer explicação. Quem são esses outros, porque são tão incitados, qual é o conteúdo desses sermãos , onde João levaria aqueles que o obedecem em tudo o que faziam e como poderia tudo isso levar a alguma forma de sedição ou mesmo a uma sublevação? Depois de ler esta segunda parte, não surpreende que Antipas tenha rapidamente decidido eliminar João" [11]

A possibilidade, ainda que remota, de que João Batista se torne o líder de uma revolta (para se tornar rei?), leva a sua execução. Como diz Crossan, é possível que Josefo não tenha contado toda a história em relação a João Batista, deliberadamente relatando menos que sabia, para que os detalhes não ferissem suscetibilidades de seus leitores da elite greco-romana . É concebível que em seus sermões pudessem ser interpretados de forma revolucionárias.É pouco provável que multidões se deslocassem de seus lares apenas para ouvir homílias abstratas sobre a virtude, e mesmo se o fizessem, é inverossímil que tais sermões os deixassem "excitados" a tal ponto que uma raposa como Herodes Antipas viesse a temer uma rebelião. A pregação de João era certamente virtuosa, mas, com toda probabilidade, revolucionária. Provavelmente não da forma de um Judas Galileu, mas algo como um dos profetas do Velho Testamento. Josefo sabia mais sobre João do que ele conta. É bem provável que isso também se aplique aos essênios. No seu afã de tentar provar a seus leitores romanos e gregos que existiam grupos e profetas judeus que pregavam a virtude e não seguiam a quarta filosofia, ele torce os fatos. Nem João era um simples pregador da virtude, nem os essênios eram monges inofensivos (o que é um elemento que reforça a tese de que na parte josefana do Testemunho Flaviano, ele chamou Jesus de "homem sábio" e "realizador de feitos maravilhosos", ocultando o conhecido fato de que Jesus foi executado como "Rei dos Judeus").

E no que se refere aos cristãos, o único caso de sedição atribuído a eles, o incêndio de Roma em 64 DC, relatado por Tácito, que claramente afirma que eles foram utilizados como bode expiatório por um governante insano, Nero. Diferentemente do que a maioria dos pretendentes messiânicos a qual Josefo menciona - como Atronges, Judas Galileu, o profeta egípcio, Menaem e Simão Bar Giora - que invariavelmente se envolviam em rebeliões, e, conforme Josefo, "agiam pretensamente a título do bem público, mas na realidade com esperança de ganho pessoal, fomentando a sedição, e causando mortícinios". [Ant. 18: capítulo 1, seção 1 (§ 7-9)]

Mas mesmo a respeito desses messianistas revolucionários, Josefo reflete alguma ambiguidade. A passagem citada acima é de Antiguidades Judaicas (cf Ant. 18:4-9 e 23), e basicamente reitera, nesta parte do texto, o que ele havia escrito 15 anos antes em Guerras Judaicas. Contudo, segundo o Professor Giorgio Jossa, da Universidade Federico Napolitano (Itália), em Antiguidades, Josefo também parece indicar uma mudança de julgamento em relação a Judas Galileu, o inspirador desses rebeldes, e seus seguidores [12]. Jossa observa que em Guerras, Judas Galileu é mestre de uma escola "peculiar, e totalmente estranha as outras" (Guerras 2:118). Já em Antiguidades, Judas (junto com o fariseu Zadoque) é referido como fundador de uma nova filosofia - junto com as tradicionais dos saduceus, essênios e fariseus - similar em suas concepções a dos fariseus (Ant. 18:23), grupo a qual Josefo diz pertencer, e difere deste grupo apenas em seu apaixonado amor pela liberdade e por não admitir nenhum outro Senhor, se não Deus [12]. Prof. Jossa aponta também o fato de que Josefo agora admite que Judas e seu grupo conquistaram a admiração da população (Ant. 18:6) - e não apenas de um grupo de fanáticos, como em Guerras Judaicas [12]. Em suma, Josefo chega perto de elogiar Judas Galileu (Geza Vermes usa o termo bajular) [13]. Agora ele não é apenas um bandido disposto a insuflar as massas para o ganho pessoal, mas também um mestre tão apegado a liberdade, e tão cioso da devoção exclusiva de Deus sobre o povo judeu, que não aceita o domínio romano. Josefo reitera sua palavras de reprovação a esse grupo, mas a descrição muda significativamente.

Ou seja, mesmo em Antiguidades, até os "bad boys", os messianistas fanáticos, tem sua avaliação melhorada. Desta forma, se Josefo diz que um perigosos revolucionário - cujos os ensinos levaram a nação a catástrofe - era também um filosofo fundador de um escola, um amante inveterado da liberdade, que acreditava que o único Senhor era Deus, porque não pode chamar Jesus de homem sábio e realizador de feitos surpreendentes?

Assim, como os essênios (e o judaismo do I seculo em geral) os cristãos eram messiânicos. Tinham crenças apocalipticas. E seus textos evidenciam isso. Entretanto, apesar dessas crenças, Josefo pode apresentar um retrato extremamente favorável dos essênios, ainda que ele mesmo fosse fariseu. De fato, ele não poderia ignorar as crenças igualmente messiânicas e apocalipticas de seus companheiros fariseus. Provavelmente, as crenças apocaliptícas cristãs não destoavam tanto assim do que o restante dos judeus acreditava, e possivelmente fossem até bastante moderadas, se considerarmos o sucesso que as idéias de messianismo radical do fariseu Zadoque e Judas Galileu tiveram entre a população, como admite Josefo. Em suma, é razoavel que Josefo tivesse uma opinião neutra ou ligeiramente favoravél de Jesus, a despeito das crenças messiânicas e apocaliptícas de seus seguidores, pois mesmo quando descreve os perigosos messianistas radicais, ele tem algumas coisas boas a dizer. Além disso, o messianismo cristão não era o único, fariseus e essênios também criam no advento do "reino da casa de Davi, o teu virtuoso Messias".

Referência Bibliográficas
[1] Descrição baseada em Gerd Thiesen e Annete Merz (1996), O Jesus Histórico, Um Manual, fl. 159 que esquematiza também em Antiguidades Judaicas 18: capitulo 1, (§ 11-25), Antiguidades Judaicas 13, capítulo 5, seção 9 e capítulo 10, seção 5 (§ 171-173 e 297), Guerras Judaicas 2, capítulo 8 (§ 118-166)
[2] Talmude de Jerusalem, Tratado Sinédrio 10.6.29.c. Ver também Louis Feldman (1996) Jewish life and thought among Greeks and Romans: primary readings
[3] James H. Charlesworth (2006), "The Dead Sea Scrolls: Their Discovery and Challenge to Biblical Studies," in The Bible and the Dead Sea Scrolls: Vol 1: Scripture and the Scrolls ed. J.H. Charlesworth, p.7
[4] David Flusser (1998), "Jesus", fls. 70-71
[5] James Tabor, "Getting all the facts wrong: Time Magazine on the Dead Sea Scrolls", em http://jamestabor.com/2009/03/17/getting-all-the-facts-wrong-time-magazine-on-the-dead-sea-scrolls/, acessado em 17.03.2009
[6] Geza Vermes (2000), "As Várias Faces de Jesus", fls 213-214
[7] Jona Lendering, "Messiah, From 'anointed one' to 'eschatological king'", artigos 7, 8, 9 e 10,
http://www.livius.org/men-mh/messiah/messiah00.html#overview, acessado em 17.01.2011
[8] Louis Feldman (1984), Flavius Josephus Revisited, In Wolfgang Haase & Temporini; Aufstieg und Niedergang der römischen Welt, fl. 828
[9] David Flusser (1998), "Jesus", fls. 70-71
[10] James Vanderkam (2010), The Dead Sea Scroll Today, fls. 119 a 124
[11] John D. Crossan (1994), Jesus uma Biografia Revolucionária, fl. 50
[12] Giorgio Jossa (2005), Jews, Romans and Christians, from the Bellum Judaicum to Antiquities In Joseph Sievers & Gaia Lembi (2005): Josephus and Jewish History in Flavian Rome and Beyond, fls. 335-337
[13] Geza Vermes (2005), Quem e Quem na época de Jesus, fls 192-193

domingo, 2 de janeiro de 2011

Para aqueles que gostam de saber como a bíblia trata da temática do vinho, elaborei um texto com todas as citações bíblicas referentes ao tema. Elas foram agrupadas por tipos de referência, quer neutras, quer condenando o excesso ou tecendo elogiosos comentários sobre o bebida. O texto traz ainda uma apreciação sobre as palavras hebraicas e gregas referentes ao vinho, tendo por fim uma breve explicação sobre o processo de fermentação e produção vinícula na antiga Palestina. Recomendo e muito a leitura dos versículos >!


Is 25,6: “Iahweh dos Exércitos prepara para todos os povos, sobre esta montanha, um banquete de carnes gordas, um banquete de vinhos finos, de carnes suculentas, de vinhos depurados.”



Para uma leitura adequada, clicar logo abaixo da caixa no ícone onde está escrito FULL



quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Ainda, na virada para 2011, o quadro no Brasil em termos de trabalhos, leituras, publicações e pesquisas, mesmo interesse, acerca do campo de estudos históricos positivos de Jesus e das origens cristãs está num estágio incipiente e com um número relativamente pequeno de pessoas engajadas. Torcemos e buscamos contribuir para difundir este importante campo das humanidades, transdisciplinar por excelência, que abarca a arqueologia, antropologia, história, lingüística, literatura, sociologia, teologia, etc.

Temos alguns espaços com abertura e apoio à pesquisa, como na UFRJ, a Universidade Metodista em SP, a EST de São Leopoldo,algumas PUC’s, como a de Goiás, a UFJF, a UNB dentre outras cujo espaço não permite esgotar.


Agora, infelizmente, nos deparamos sobretudo na internet com algumas declarações que, numa atitude oportunista diante deste cenário, buscam querer imputar às suas posições particulares o caráter de ser “o estado da arte” dos estudos, e muitas vezes, fanfarronices que desrespeitam as demais pessoas que buscam acompanhar o campo de estudo, como se pensassem “estou numa terra de cegos, vou ser o rei de um olho a me lambuzar no melado”.


Com todo o respeito ao esforço do professor da UFRJ André Leonardo Chevitarese, ele é um que tenho visto em menções na internet exemplificar este tipo de atitude, e meu artigo aqui visa contribuir para que estas coisas tenham fim no Brasil. Para tanto, vou trabalhar em cima de um caso em que tal comportamento foi gritante.


Nesta resenha do livro “A Gruta de São João Batista”, ele trata de desancar o professor de arqueologia na Universidade da Carolina do Norte, Shimon Gibson, porque este apresentara posições contra as quais o prof. André tem um antagonismo passional e teleológico. Ele se esquiva e perde o foco em relação a matéria arqueologica propriamente dita.

O professor Gibson é mundialmente renomado, autor de uma prolífica publicação científica no campo, e referência em arqueologia de Jerusalém. Um de seus livros é o aclamado “Archaeological Encyclopedia of the Holy Land”. Acompanhou e participou em primeirão mão de muitas escavações e pesquisas de primeira magnitude no campo arqueológico.  Foi diretor do Departamento de Relatórios Científicos e de Pesquisa na Autoridade para Antiguidades de Israel, de 1995 a 1999.

Um curriculo assim, impressionante posta em paralelo com a do nosso professor André, já serviria para ele, pelo menos, ser mais comedido em críticas, e evitar o ad homine, em nome da respeitabilidade do debate acadêmico.


Chevitarese coloca:
Apesar das discussões trazidas por Gibson, como por exemplo, acerca dos rituais de limpeza judaicos ou sobre o culto em torno das imagens de um pé ou de pés no Oriente Próximo, sempre seguidas de indicações bibliográficas, verifica-se, de forma sistemática, o seu tratamento acrítico em relação à documentação neotestamentária (...)Pode-se mesmo dizer que lhe falta o equilíbrio.

A sobriedade levaria alguém a refletir que, uma pessoa capaz de dar tal tratamento, poderia ter suas posições não acríticas, mas com algum embasamento, ainda que discordantes da do prof. André. Nenhuma pessoa desanca a outra assim de forma tão descuidada, sem lhe dar o bônus da dúvida. Pode ser que André acredite que o minimalismo com relação ao N.T. seja a posição correta, contudo, não pode tropeçar nas suas próprias palavras, e “explorar ao máximo o seu lado sensacionalista, aproveitando a “infantilidade” do leitor para tudo o que diz respeito à religião, independentemente dos campos de experimentação”, buscando incutir que todos os grandes analistas seguem sua tendência, e não há aqueles que divergem dela.

Ele dá vários exemplos de como fica indignado com um tratamento não-minimalista. Não é de nosso interesse aqui discutir todos eles, mesmo porque não acompanho necessariamente o prof. Gibson em todos.

Há bons motivos para ser cauteloso e crítico quanto à narrativa do massacre das crianças por Herodes em Mateus. Mas o prof. André age como um amador apressado em se apoiar nisso:

Pode parecer incrível, mas em nenhum momento o autor se perguntou acerca do paralelismo entre esta história evangélica e aquela referente a Moises, contida no livro de Êxodo; esta relação seria obra do acaso ou uma clara intenção de Mateus em ler Jesus como sendo o novo Moises?

Primeiramente, o paralelo mais próximo a natividade de Mateus não é a história do Êxodo em primeira instância, mas de forma mais afastada. Jesus na narrativa da natividade não é um adulto com protagonismo nas ações, mas uma criança e agente passivo. Não faz nem realiza nada. Está ao reboque dos pais. Não é definitivamente, como Moisés na epopéia. Alguém pode considerar que o paralelo concentra no massacre das crianças - que pode ser lendário ou não. Seria como o eixo em que o resto se encaixa numa engrenagem a girar o mecanismo do "novo Moisés". Seria uma imagem tal qual os eixos das figuras das visões de Ezequiel. Ainda que forneça materiais para a psicanálise se debruçar que de um cesto no rio seguido por uma irmã e encontrado por uma egípcia emane uma família andando num camelo, temos que criar muitas hipóteses ad hoc para confabular uma saga de milhares de crianças massacradas em todo império, potenciais mão-de-obra para um faraó calculista preocupado com exércitos, com um punhado numa vila num momento em que Herodes estava massacrando inimigos até nos sonhos. Está para com isso o mesmo tanto que o peso da estadia e formação no Egito esteve para o Moisés da narrativa quanto o silêncio e mesmo desimportância da estadia do bebê Jesus no Egito em que mal sabemos se influenciou o próximo espirro que deu.

O paralelismo mais imediato é com a antiga Agadah da Páscoa, dos finais do século I a.C. [para conhecê-la melhor, ver L. Filkenstein: “The Oldest Midrash, Pré-Rabbinic Ideals and Teaching in the Passover Haggadah.”]. Chevitarese deveria ter conhecimento disto.

Nessa Midrash, o protagonismo é de Jacó, sendo que no início se abre com “O arameu procurou destruir meu pai”. Se faz aí um trocadilho mesmo entre Labão e Herodes, arameu e idumeu respectivamente ( com grafias parecidas, ‘rmy com ‘dmy), ambos considerados intrusos indesejados no mundo da fé.

Mas a perspectiva dentro do mundo do judaísmo diferia para os autores do evangelho e do agadah. Por exemplo, o evangelista tinha a perspectiva dos anjos como agentes mediadores para a transcedência de Deus e sua ação na Terra; o do agadah é cauteloso com a idéia – “Adonai trouxe-nos do Egito, não por meio de anjo, nem por mensageiro, mas pelo próprio Altíssimo, que seja bendito”, VII.1.

O quadro da agadah oferece a moldura para o relato de Mateus, mas não o seu conteúdo, independente do nível de historicidade que se dê para as diversas cenas da “fuga e regresso da Sagrada Família”.

Pulemos então de analisar caso por caso, para nos atermos a um panorama geral. Pois o panorama que se apresenta o tratamento do professor André ao pesquisador e membro sênior do Instituto de Pesquisa Arqueológica em Jerusalém, editor chefe por duas décadas do "Bulletin of the Anglo-Israel Archaeological Society" por adotar uma visão a qual Chevitarese tem indisposição ex ante, é absurdo. Ademais, no referido livro resenhado o professor Gibson rechaça por completo alguma historicidade na natividade de Lucas. Tal não se enquadra no retrato que de forma oportunista André quis pintar dele como um religioso acrítico por provar a Bíblia com a arqueologia.

Sofregamente, André Chevitarese chega a apelar em sua retórica a reverberando:
mantém a velha tradição editorial deste país de só publicar livros que reforcem a visão fundamentalista na forma de ler e interpretar o material neotestamentário.

Bem, fica claro para quem acompanha o professor que ele considera fundamentalista tudo o que não seja minimalista. Ainda assim, fica estranho para alguém pensar como em tal tradição se encaixa as publicações de Burton L. MackElaine Pagels, Haim Cohl, Santiago Guijarro , os diversos livros de Dominic Crossan, Bart D. Ehrman, e tantos outros? É definitivamente um apelo emocional descuidado.

O “X” da questão está na parte onde o professor André dispara agressivamente:
O clímax da superficialidade das análises documentais, acrescido da necessidade que Gibson tem de reforçar todo e qualquer vínculo entre a gruta de Suba e João Batista é atingido no seguinte ponto:
Acredito firmemente no conceito de longevidade da memória coletiva e no poder da tradição oral [...]” (página 205).        
Só mesmo os mais ortodoxos dos fundamentalistas abonariam uma posição como esta!


Nesta hora, não posso me esquivar de dizer, o professor brasileiro se comporta de forma extremamente imatura.

No livro lançado aqui “Os Últimos Dias de Jesus – A evidência arqueológica”, o professor Gibson fala de si mesmo:

Alguns leitores talvez achem presunção minha, um arqueólogo, escrever sobre o caráter, as realizações e os objetivos de uma personalidade tão importante quanto Jesus. Afinal de contas, bilhões de pessoas em todo o planeta o adoram como o Cristo, o Salvador e como o Filho de Deus. No entanto, minhas opiniões estão expressas aqui de forma sincera, com base em uma análise de dados históricos e arqueológicos a que tive acesso; não tenho interesse pessoal nem religioso de nenhuma natureza e, definitivamente, não desejo ofender ninguém, embora algumas das coisas que digo possam parecer radicais e controversas”.

Sobre os evangelho, ele apresenta sua opinião, que “foram adaptados, enfeitados e alterados pelos redatores" e, portanto, “pode ser perigoso usá-los de forma acrítica e indiscriminada”.
Pgs. 183 e 184.

O retrato que ele concebe de Jesus:
O Jesus histórico, creio eu, era um homem de família rural abastada da Galiléia, treinado em questões relativas a purificação por João Batista, alguém que acreditava em métodos de cura alternativos e talvez, até mesmo em um pouquinho de magia, alguém cujos discursos apaixonados e ensinamentos pouco convencionais assustaram as autoridades judaicas e romanas de tal maneira que estas decidiram tomar uma medida radical e executá-lo.“
Pg. 188

Somente um fundamentalista especular poderia abonar uma posição que considere tal pessoa um fundamentalista! Prof. Chevitarese acaba nos dizendo mais de si mesmo – e de seu fundamentalismo especular - do que do livro de Shimon Gibson.
 
Neste livro ainda, o professor Gibson reitera sua posição: “Pessoalmente, sou forte defensor da tradição oral (...)”. pg. 178. E ele apresenta uma referência de discussão a respeito de grande peso intelectual e insuspeita:
The Voice of the Past - Oral History”, monumental magnum opus do historiador top de linha Paul Thompson. Uma obra, excelência prima em historiografia, a qual Chevitarese nunca publicara algo que beirasse a sombra, de um historiador que, com todo respeito ao brasileiro, ele não desata as sandalhas.
Com isto, podemos concluir que a leitura de Gibson não advém de uma paixão cega para apologia – ele é cético – mas antes, de uma equilibrada e ponderada avaliação metodológica centrada. É uma perspectiva também coadunada com a obra da Jan Vansina e Maurice Halbwachs.

E se não bastasse, podemos pegar algumas referências nos campos dos estudos bíblicos neotestamentários similares, por parte de pesquisadores icontestadamente não-fundamentalistas, nem mesmo de alas mais conservadoras dentre os biblistas, consentâneos com este prospecto ante a tradição oral, obras também muito além de algo que o prof. Chevitarese tenha produzido, por parte de pesquisadores bem mais reconhecidos:

Os artigos clássicos “Middle Eastern Oral Tradition and the Synoptic Gospels”e “Informal Controlled Oral Tradition and the Synoptic Gospels” de Kenneth E. Baley.

O livro meticuloso “The past of Jesus in the Gospels”, de Eugene Lemcio.

Do prof. James D.G.Dunn, o volume 1 da monumental coleção “Christianity in the Making” – Jesus Remembered.

Por Samuel Byrskog, famoso pelo seu agudo rigor,  “Story As History, History As Story: The Gospel Tradition in the Context of Ancient Oral History”.

O respeitadíssimo professor de Cambridge Graham Stanton, “The Gospels and Jesus”.


De Richard Bauckham, o marcante “Jesus and the Eyewitnesses: The Gospels as Eyewitness Testimony.

O recente “The Historical Jesus of the Gospels”, De Craig S. Keener.

É claro que eu, um leigo, não cairei no mesmo erro de Chevitarese e dizer que quem está antenado com o mundo das pesquisas precisa ter essa perspectiva, quem não tem, não está. Ótimas obras de igualmente excelentes estudiosos discordam. Contudo, o mínimo a que se pode concluir é que no atual momento do Brasil, é preciso ser muito cuidadoso com as declarações que se lê a respeito do estudo de “Jesus histórico”. E o prof. André Chevitarese atraiu muita suspeita quanto aos seus pronunciamentos e trabalhos.

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Nos posts anteriores, analisamos as bases historiográficas dos critérios da diferença com a igreja primitiva (CDC) e do constrangimento (ou embaraçamento) utilizados na pesquisa do Jesus Histórico, e a aplicação de princípio analogo pelos historiadores na análise das narrativas da República Romana no século V AC, de duas importantes figuras contemporâneas ao grande saque de Roma pelos gauleses e 390 AC, Marcus Manlius Capitulinos e Marcus Furius Camillus, e do filósofo neo-pitagórico Apolonio de Tiana, que alguns na antiguidade consideram um rival de Jesus. Hoje, vamos concluir a série com uma miscelânia de exemplo a) A análise da autenticidade de um discurso de Constantino b) A analise de narrativas históricas da Bíblia Hebraica c) Tradições tribais de povos do centro-sul da Africa.

Exemplo 4: Avaliando a autencidade de um discurso de Constantino no Concílio de Nicéia.
Um dos maiores desafios para os historiadores da antiguidade é entender a ascensão do cristianismo. Como uma pequena seita do judaismo, conseguiu não só converter a tantos, como eventualmente se tornar a religião dominante do Império.

Uma analogia poderia ser traçada imaginando um grupo de extraterrestres de um planeta distante, em visita de exploração a Terra por volta do ano 30 DC. Disfarçados de cidadãos do Império Romano, eles visitariam grandes cidades como Roma, Atenas, as ruínas de Tróia, Éfeso, Antioquia e Alexandria. De Alexandria, talvez tivessem decidido "esticar" até Babilônia, e depois, quem sabe Persia, India e até a China. Mas, ainda, no caminho para Babilônia, passaram pela Judéia e por Jerusalém, que, diziam, eram lar de um povo, os judeus, com idéias religiosas muito particulares, crendo em um único Deus que não era representado por figuras humanas. Chegando a Jerusalém, encontraram a cidade pronta para um grande festival, a Páscoa e, resolveram aproveitar a hospitalidade local. Não sem antes ficarem chocados com a execução de três homens por crucificação, um deles acusado de se proclamar o "Rei dos Judeus". Ainda um tanto perturbados com aquelas execuções bárbaras, mas aproveitando a festa mesmo assim, os viajantes ficaram mais surpresos ainda quando boatos começaram a circular que, um dos crucificados, chamado Jesus, um galileu (como os locais chamavam os habitantes do norte daquele país) conhecido como pregador e realizador de milagres, e que havia sido acusado de ser o "Messias" e de buscar ser o Rei do Judeus, e que fora enterrado em uma tumba que amanhecera domingo vazia, havia ressuscitado dos mortos. Como o tempo era curto, nossos exploradores tiveram que seguir viagem, e eventualmente a seu planeta, levando um tanto de curiosidade com o que aconteceu depois.

Voltando das dezenas de anos luz que separa seu planeta a Terra, os tataranetos dos nossos imaginários viajantes, resolvem reviver a aventura de seus ancestrais. Chegando a Terra em 330 DC, descobririam rápido que muita coisa havia mudado. Os deuses mencionados no diário de bordo de seus tataravós agora eram eclipsados por um certo Jesus Cristo. O Imperador, chamado Constantino, era um seguidor de Jesus, um cristão, como chamavam. Chegando a Jerusalém, encontraram um grande Templo recém construido, próximo ao lugar onde seus tataravós escreveram, quase como uma nota de rodapé, que os três homens haviam sido crucificados. A surpresa seria ainda maior quando descobrissem que o Jesus, que havia sofrido morte humilhante 300 anos antes, era o mesmo que o Imperador adorava como Deus, e que aquela grande Igreja (como chamavam o edíficio) teria sido construída no mesmo lugar em que ele havia sido sepultado (o Santo Sepulcro).

Ou seja, na verdade a ascensão do cristianismo envolve três questões, como a pequena seita do Judaísmo, perseguida, converteu alguns milhões de seguidores em pouco mais de dois séculos; porque Constantino, diante de um grupo que congregava menos de 10 % da população do Império, decidiu se tornar cristão; e as razões da obra de Constantino terem sido tão avassaladoras e terem perdurado tanto tempo (ao contrário, por exemplo, de inovações como as produzidas pelo faraó Akenaten, no Egito, milhares de anos antes).

Professor Paul Veyne, do Collège de France, em seu recente livro, "Quando Nosso Mundo se Tornou Cristão" procura abordar essa questão, considerando a conversão de Constantino, o momento dramático de toda essa mudança. Veyne, tenta entender as motivações e pensamentos do Imperador, e para isso utiliza um discurso que ele teria proferido no Concílio de Nicéia, 325, em que Constantino expressa o seu entendimento de sua missão e papel na História.

"Desde o momento em que aqueles dois seres, criados na origem, não observaram o decreto (grego: prostagma), santo e divino, tão escrupulosamente como seria conveniente, nasceu a (má) erva (da ignorância de Deus) que acabo de citar, ela se manteve, multiplicou-se desde que o casal a quem me refiro foi expulso sob uma ordem de Deus. Essa (má) matéria foi tão longe, com a perversidade humana, que, do levante as regiões do poente, as fundações (da humanidade) foram condenadas; a dominação do poder inimigo apoderou-se dos homens e os sufocou. Mas o Decreto (divino) comporta também, santa e imortal, a inesgotável comiseração do Deus Todo Poderoso. Na verdade, quando, ao longo de todos os anos, de todos os dias transcorridos, massas incontáveis de povos tinham sido reduzidas a escravidão, Deus os libertou desse fardo através de mim, seu servidor, e os conduzirá ao brilho completo da luz eterna. Eis porque, meus querídissimos amigos, acredito (grego: pepoitha), com a mais pura confiança (pistis) em Deus, ter sido de agora em diante particularmente distinguido (episemoteis, no comparativo), por uma decisão especial (oikeiotera, igualmente no comparativo) da providência e pelos benefícios brilhantes de nosso Deus [1] "

Alguns historiadores tem questionado a autenticidade do discurso. Veyne o defende, com base em argumentos de dissimilaridade ou diferença, istoé, de que o conteúdo do discurso não atende os interesses dos vários grupos cristãos existentes, dos pagãos, ou inimigos do Imperador, e de constrangimento, no sentido de que o conteúdo do discurso é estranho e o grego de díficil compreensão, o que implica, para o Prof. Veyne que além de ser improvável termos um suposto falsificador de "muita imaginação para forjar um texto tão estranho", este certamente teria escrito em um grego melhor".

"Gelázio de Cízico, História Eclesiastica, II, 7, 38 (Migne, PG, vol. LXXXVi, col 1239). Os argumentos de C.T.H.R. Eberhardt conta a autenticidade (Constantinum documents in Gelasius of Cyzicus, em Jarbuch fur Antike und Christentum, 23,1980, p. 48) não me convenceram. Um falsário precisaria de muita imaginação para forjar um texto tão estranho. Não se percebe a quem aproveitaria tal falsificação; nem aos pagãos, nem aos panegiristas, nem aos inimigos de Constantino (que achariam motivos de queixas menos sutis e menos pessoais), nem aos ortodoxos, nem aos arianos. Nenhuma palavra forma epigrama contra quem quer que seja. Ora, um falsário raramente resiste à tentação de fazer um epigrama que ironize sua vítima. E as estatísticas de vocabulário desconhecem que esse texto não passa de uma tradução e testemunham o vocabulário do tradutor e não o do Imperador (segunda o testemunho de Eusébio, Constantino, por falta de cultura ou como bom imperador romano, só utilizava o latim nas ocasiões oficiais e o fazia traduzir para o grego). Esse latim dos Césares, o dos preâmbulos das leis era muito empolado (um édito de Nerva citado por Plínio, o Jovem, já era pouco compreensível) e o tradutor, embaraçado, transformou esse latim empolado em um grego ruim, que vale como testemunho de autenticidade, um falsificador teria escrito num grego melhor. [1].

Exemplo 5: Narrativas dos livros históricos do Antigo Testamento

As narrativas do Velho Testamento, ou Biblia Hebraica, ocupam um papel extremamente relevante na cultura ocidental, e na visão religiosa judaica-cristã. Uma parte significativa é formada pela narrativa do povo judeu, seu surgimento, desenvolvimento, conquista, reino unido, os reinos de Israel e Judá, a cativeiro assírio e babilônico, a volta para a terra prometida e suas consequências, e, no caso da Septuaginta e da Bíblia Católica, o período dos Macabeus.

Especificamente, a chamada obra deuteronomista, correspondente aos livros de Josué, Juízes, I e II Samuel e I e II Reis, mencionam acontecimentos, batalhas, reis, (tanto de Israel/Judá qunato dos povos vizinhos), e descrevem tensões sociais e problemas econômicos. A narrativa apresenta forte caráter reflexivo, relacionando os fracassos e sucessos, bem como o fluxo dos acontecimentos a como o povo de Israel e Judá, e seus Reis, se relacionavam com Deus.


Diante dessa riqueza de dados, a questão do uso da Bíblia como fonte histórica, é uma questão muito discutida. Um aspecto importante do debate é a datação dos textos, uma vez que os livros não mencionam seus autores e quando foram escritos, a interpretação da evidência arqueológica também suscita controvérsias. Em relação a certos relatos temos evidência extra-bíblica indiscutível que corrobora o texto bíblico, por exemplo, Sheshonk I, que é identificado com o faraó Sisaque, em um relevo e inscrições no Templo de Karnak, faz um relato paralelo a I Reis 14:25, com uma lista de cidades saqueadas e subjugadas por ele. Também a Estela de Mesha, relata como os moabitas se libertaram do jugo israelita, e confirma, em linhas gerais, a situação geral e os personagens mencionados em II Reis 3. Outro caso em que "A Bíblia tinha razão", é o cerco de Jerusalém pelo Rei Senaqueribe. Através do "Prisma de Taylor", um artefato arqueológico que narra as campanhas do Rei da Assiria, e que relata, em sua coluna 3, como ele conquistou as cidades fortes de Judá, cercando o Rei Ezequias - que havia se revoltado, possivelmente contando com o suporte do Egito - "como um pássaro em uma gaiola", e como o rei judeu foi forçado a pagar um vultoso tributo. No entanto, Senaqueribe não menciona ter capturado Jerusalém. Em linhas gerais, o fluxo dos acontecimentos é similar ao de I Reis 18-19 e Isaias 36-37, com excessão de que o texto bíblico afirma que os assírios não conquistaram Jerusalém devido a seu exército ter sido destruído "pelo anjo do Senhor", em seu acampamento (uma peste ou epidemia, provavelmente). è interessante observar que o historiador grego, Herodoto (cerca de 450 AC), relata que os egípcios diziam que o acampamento do exército de Senaqueribe foi atacado por uma multidão de ratos, que roeram as cordas dos escudos e os cestos de flechas dos arqueiros, forçando-o a retirar-se (Historias 2.141). Existem, porém, situações em que não foram encontradas evidências externas de eventos bíblicos, ou esta é contraditória, como a peregrinação no deserto e a conquista de Jericó e Ai.

Assim, vamos ouvir com frequência os termos maximalista e minimalista, que descrevem uma postura geral dos estudiosos quanto a confiabilidade histórica dos textos bíblicos. Gary Rensburg, Professor de História Judaica da Rutgers University (Universidade do Estado de Nova Jersey) observa que a postura maximalista pressupõe que, "uma vez que uma parte significativa do relato bíblico encontra confirmação arqueológica e em outras fontes externas do oriente média antigo, por exemplo, a já mencionada Estela Mesha, então, mesmo quando não se têm evidência corroborativa externa, podemos assumir que o texto bíblico relata fatos históricos, a menos que se possa provar o oposto" [2]. Por outro lado, o enfoque minimalista vai na direção oposta, "uma vez que muitas coisas relatadas na bíblia estão em contradição com a arqueologia e outras fontes de oriente médio antigo, tais como, a falta de evidência para as conquistas de Jericó e Ai, devemos assumir que o relato bíblico é fictício a menos que se prove o contrário". [2]


[Deve ser observado, que, a opção "maximalista" ou "minimalista" não necessariamente reflete a visão religiosa ou teológica do pesquisador. Existem ateus e agnósticos identificados com os"maximalistas", como o arqueólogo William Dever; assim como existem judeus praticantes e cristãos minimalistas]

Na verdade, tais definições demarcam os extremos. A esmagadora maioria dos arqueólogos, historiadores e biblistas se posiciona entre um e outro polo, combinando diferentes proporções das duas posturas, formando um espectro. Ainda, é comum uma abordagem basicamente minimalista para alguns períodos (como os patriarcas, êxodo e conquista) e maximalista para outros (monarquia unida e reinos de Israel e Judá), sendo o foco da discussão deslocado para definir a "fronteira" em que se vai adotar cada uma das posturas. Assim, uma visão típica do "centro" do espectro considera que a obra deuteronomista foi concluída no reinado do Rei Josias, no final do século VII AC, mas que incorpora material de crônicas reais e sacerdotais e tradições populares, que sofreram um profundo processo de reinterpretação teológica. Assim, o deuteronomista nos daria corretamente o "fluxo geral" e um esboço dos acontecimentos históricos [3].

Mas, se caminharmos do "centro" com direção ao lado minimalista do espectro, vamos ter os minimalistas moderados e os mais radicais (o Professor José Airton da Silva, faz uma excelente análise sobre o minimalismo e os minimalistas, e seus posicionamentos em seu site). Uma vez que são estudiosos com um grau maior de ceticismo quando ao valor histórico do texto bíblico, os critérios que utilizam identificar e extrair um eventual núcleo histórico das narrativas é de especial importância. De modo geral, os minimalistas mais radicais tendem a considerar que ainda que existam elementos históricos, sua identificação é quase impossível, em virtude, entre outras razões, do tempo transcorrido entre o evento e a narrativa (os estudiosos dessa corrente tendem a data o deutoronomista no período persa ou mesmo helenistico, cerca de 400 a 200 AC). Já os minimalistas mais moderados acreditam que é possível localizar esse núcleo histórico, e, como veremos, utilizam critérios muito semelhantes ao da diferença e do constrangimento da pesquisa neotestamentaria.

O Professor Lester L Grabbe, da Universidade de Hull, é uma autoridade em judaísmo antigo, e foi organizador do Seminario Europeu de Metodologia Histórica, que, em suas primeiras edições, reuniu os principais expoentes do movimento minimalista. Os trabalhos apresentados na 1ª edição do Congresso, ocorrido em Dublin (Irlanda), em 1996, formaram o livro "Can a History of Israel be Written", publicado em 2005. Nesse livro, Professor Grabbe defende a utilização de alguns critérios para identificar elementos históricos na obra deuteronomista, dentre os quais:

"Hints in the text which go contrary to its overall bias suggest some authentic information has survived the editorial process" [4]
(tradução) "Indicações no texto, que vão contra a sua tendência global sugere que alguma informação autêntica sobreviveu ao processo editorial"

Ou seja, o critério é definido de uma forma semelhante ao do constrangimento. Partes da narrativa que se opõem a tendência geral do relato, indica a existência de fatos históricos.

Mario Liverani, Professor de História do Oriente Próximo Antigo, da Universidade La Sapienza, em Roma, é outros dos estudiosos minimalistas moderados que tem proposto separar o núcleo histórico das narrativas vetero testamentárias. Ele acredita que os textos bíblicos foram compilados no período do exílio babilônico e persa. Liverani afirma que textos reais, sacerdotais, inscrições e tradições populares, provenientes principalmente do período entre a morte de Salomão e a queda de Jerusalém (587 AC), semelhantes em natureza aos registros de outros pequenos reinos da região, foi reinterpretada radicalmente de forma a dar sustentação ao programa ideológico e religioso de uma elite sacerdotal, que apresentava Israel como um povo divinamente escolhido. Assim teríamos uma história factual de pequenos reinos comuns, ordinários, "inflada" por perspectivas teológicas grandiosas.

Desta forma, Liverani utiliza um análogo do critério da diferença da igreja primitiva, agora como diferença ao viés da fonte narrativa, para analisar o período da I Idade do Ferro (Juízes e I e II Samuel). Os elementos que não atendem aos propósitos do grupo portador da tradição, não devem ter sido inventados e são provavelmente históricos.

"Nesse estado de coisas, houve por parte dos estudiosos posições opostas. Alguns utilizaram o quadro bíblico como documento histórico, sem se por (ou pondo-se de uma maneira totalmente formal) o problema de sua credibilidade, delineando um "período de Juízes" e uma "Liga das Doze Tribos" como realidades históricas indubitáveis. Outros estudiosos, diante do grande volume de problemas da tradição textual e de reelaboração tardia dos dados preferiram renunciar totalmente o uso de tais dados e tratar a Primeira Idade do Ferro como substancialmente pré histórica.

"Todavia, as deformações e as verdadeiras invenções contidas nos textos de longa tradição historiográfica tem motivações que condizem com certos elementos da tradição e não com outros (de caráter menos signifativos em relação aos problemas dos reelaboradores). Também a tipologia das deformações e das invenções é em parte indicativa: pode-se inventar uma história com personagens e motivos literários fabulosos (e disso se tem exemplos seguros), ao passo que é difícil inventar um cenário social que não tenha existido. Pode-se retrodatar (atribuindo-os a personagens notáveis da história passada ou do mito) leis que comportam escolhas "políticas" controversas, ou direitos de propriedade (e também deles temos exemplos seguros), mas ninguém teria motivo para inventar normas de direito conseutudinário sobre assuntos neutros ou politicamente irrelevantes.[5]"

Em minha opinião, a perspectiva minimalista e demasiada cética, e com o devido respeito a estudiosos do porte de Liverani e Grabbe, e apesar de sua moderação, ainda insatisfatória. No entanto sua erudição é notavel, e seu uso desses critérios históricos é extremamente interessante quando comparada ao Novo Testamento, demonstrando que mesmo partindo de uma perspectiva de desconfiança com a fonte e seus própositos, é possível estabelecer um dialogo de forma a extrair informações históricas e um "esboço" dos acontecimentos.

Exemplo 6: Tradições Orais dos povos do Centro-Sul da Africa

A análise das tradições orais é hoje um dos campos mais vibrantes da pesquisa histórica. Em muitas sociedades há transmição de elementos culturais unicamente na forma oral, de geração em geração, até que atingam a forma escrita. Como exemplos temos as sagas escandinavas, poemas épicos como Beowulf, os poemas homéricos como a Ilíada.

Uma das aplicações mais interessantes da análise das tradições orais, é na tentativa para a história de povos colonizados, antes da chegada dos europeus, de forma complementar a arqueologia. Por exemplo, o caso dos povos indígenas das américas, ou das populações subsaarianas.

Um dos principais expoentes nesse campo, é o Professor Jan Vansina, hoje no Departamento de Historia Africana da Universidade de Wisconsim Madison. Vansina desenvolveu métodos para utilizar as tradições orais correntes nos povos do Centro-Sul da Africa (Congo, Ruanda e Burundi), para escrever uma história desses povos anterior ao estabelecimento do domínio colonial belga (final do sec. XIX).

Assim, uma vez que esses povos não possuiam registros escritos, Vansina utilizou como matéria-prima seus contos e tradições, e lhe permitiram o desenvolvimento de um esboço da história do reino das tribos Kuba, que existiu do início do sec. XVII até o ano 1900, de seus fundadores, os reis Shyaam Ambul a Ngoong e Mboon aLeeng, e de como a o sub-grupo Bushongo atingiu a proeminência entre os Kuba.

Baseado em sua experiência, Vansina escreveu um manual de método histórico chamada "Oral Tradition as History". Entre os critérios históricos utilizados por Vansina está o do constrangimento, definido de forma quase idêntica ao da pesquisa neo-testamentária.

"On the other hand, sometimes it is possible to provide proof that a given tradition is unlikely to have been falsified. A Case in point is where a tradition contains features which are not in the accord with the purpose for which it is used. Such a bushongo tale about a battle which they lost and at which one of their kings was killed; or another which tell us the death of a King called Mboong aLeeng, who was ambushed by the enemy, and killed by a poisoned arrow. In neither of these tales are the facts likely to have been falsified. They are part of the tribal tradition, but are only transmitted in secret, precisely because they go against the purpose of the tradition, which is the enhancement of national prestige"[6].

(tradução) "Por outro lado, às vezes é possível demonstrar que pouco provável que uma dada tradição tenha sido simplesmente inventada. Um caso ilustrativo é o quando a tradição contém elementos que não estão em consonância com os fins para os quais ela é usada. Tal como um conto dos bushongo sobre uma batalha que eles perderam, e na qual um dos seus reis foi morto, ou outro que nos narra a morte de um rei chamado Mboong aLeeng, que foi emboscado pelo inimigo, e morto por uma flecha envenenada. Nesses relatos é improvável que fatos teham sido falsificados. Eles são parte da tradição tribal, mas só são transmitidos em segredo, justamente porque vão contra o propósito da tradição, que é reforçar o prestígio nacional " [6].

Vansina continua e pondera a possibilidade do evento supostamente constrangedor ou embaraçoso cumprir uma função na narrativa.

A Kuba tradition tells how the mother of King Shyaam was a slave, which means (since the Kuba are matrilineal) that there is a break in the dynastic line of sucession. it is, however, possible to argue that tales of this kind do not, after all, run so very much counter to the purposes for which they are used. The lost battle was a supernatural punishment, and the death of Mboong aLeeng fits in well with the account given of his life, just as does King Shyaam's ancestry with the account given of his. Mboong aLeeng is the prototype of the warrior, an Shyaam that of magician [6].

(tradução) Uma tradição Kuba conta que a mãe do rei Shyaam era uma escrava, o que implica que (uma vez que os Kuba são matrilineares), há uma ruptura na linha de sucessão dinástica. No entanto, seria possível argumentar que os contos desse tipo não vão assim tão contrariamente aos fins para os quais eles são usados. A batalha perdida foi um castigo sobrenatural, ea morte de aLeeng Mboong se encaixa bem com o relato de sua vida, assim como faz ascendência Rei Shyaam com o relato da sua. Mboong aLeeng é o protótipo do guerreiro, e Shyaam o do mágico [6].

No entanto, mesmo levando esses elementos em consideração, Vansina conclui que o constrangimento associado a esses relatos e o fato de que se opõem fortemente a próposito das narrativas, de glorificar o passado tribal e nacional, e forte indício de sua confiabilidade.

Nevertheless, the events recorded are intrinsically incompatible with the interests the tradition in question are supposed to defend. Similar examples abound. In Rwanda, for instance, the loss of the royal drum - symbol of the country unity - is remembered, and the death of several kings. In Burundi, it is admitted that a battle was lost and a king killed, etc. Here, too, the events described are diametrically counter to the purposes the tales are meant to fulfill, and a centain amount of embarrassment is noticiable whenever events of the kind are recalled. One may take it that traditions such as these can be relied upon" [6].

(tradução) No entanto, os eventos narrados são intrinsecamente incompatíveis com os interesses que a tradição em questão busca defender. Exemplos similares abundam. Em Ruanda, por exemplo, a perda do tambor real - o símbolo da unidade nacional - é lembrada, e a morte de vários reis. Em Burundi, se admite que uma batalha foi perdida e o rei morto, etc. Aqui, também, os eventos descritos opoem-se diametricamente com o propósito que a narrativa busca demonstrar, e um certo constrangimento é perceptivel sempre que eventos desse tipo são mencionados. Podemos, assim, considerar essas tradições como dignas de confiança.

Referências Bibliográficas
[1] Paul Veyne (2007), Quando nosso mundo se tornou cristão, fl. 88, e nota 9, fl. 89
[2] Gary Rensburg (1999) Down with History, Up with Reading: The Current State of Biblical Studies, http://jewish30yrs.mcgill.ca/rendsburg/index.html, acessado em 08.11.2010
[3] James D'Avila (2005) "Evidence for the first ("Solomonic") Temple", post de 12.08.2005, http://paleojudaica.blogspot.com/2005_08_07_archive.html, acessado em 09.11.2010
[4] Lester Grabbe (1997) Are Historians of Ancient Palestine Fellow Creatures ot Different Animals? In, Lester Grabbe (2005) Can a History of Israel be Written?, fl. 30
[5] Mario Liverani (2003) Para Além da Bíblia, História Antiga de Israel, fl. 89
[6] Jan Vansina, "Oral Tradition: A Study in Historical Methodology", page 83- 84

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Nos posts anteriores, analisamos as bases historiográficas dos critérios da diferença com a igreja primitiva (CDC) e do constrangimento (ou embaraçamento) utilizados na pesquisa do Jesus Histórico, e a aplicação de princípio analogo pelos historiadores na análise das narrativas da República Romana no século V AC e de de duas importantes figuras contemporâneas ao grande saque de Roma pelos gauleses e 390 AC, Marcus Manlius Capitulinos e Marcus Furius Camillus . Neste post, vamos abordar outro exemplo: o filósofo neo-pitagórico Apolonio de Tiana.

Exemplo 3: Critério do Constrangimento na avaliação das fontes sobre Apolonio de Tiana

Apolonio de Tiana (4-96 DC) foi um filósofo neo-pitagórico, com reputação de milagreiro, proveniente da cidade de Tiana, na Capadócia (atual Turquia) de grande fama e influência no mundo romano a partir do século III. No início do século IV, o proconsul romano Sossianus Hierocles, que governou o Egito e, posteriormente, a Bitínia, escreveu um livro chamado "O Amante da Verdade", uma crítica ao cristianismo, em que comparava Apolonio de Tiana a Jesus Cristo (de forma desfávorável ao último). O livro se perdeu, mas a maior parte de seu conteúdo chegou até nós por citações de Eusébio de Cesaréia (263-339 DC), em sua refutação, chamada "Contra Hierocles"

No entanto, quase tudo que sabemos sobre o filósofo de Tiana é proveniente de uma biografia chamada a "Vida de Apolonio de Tiana", em oito "livros" (totalizando cerca de 260 paginas), escrita por Lúcio Flavio Filostrato (172 -245 DC), por volta de 217-230 DC, a pedido da Imperatriz Julia Dona, esposa do Imperador Sétimo Severo (193-211 DC), e mãe dos Imperadores Geta (211 DC) e Caracala (211-217 DC). Ao comissionar o trabalho, a Imperatriz teria entregue a Filostrato um livro de memórias de um discípulo de Apolonio, chamado Damis, que seria proveniente da cidade de "Ninos", que estava em poder de um dos parentes de Damis . Além disso, Filostrato afirma ter buscado as tradições locais correntes nas cidades de Antioquia, Tiana, Aegea, e Efeso relativas ao filosofo; consultado os livros e cartas escritas por Apolônio; bem como os livros a respeito dele que teriam sido escritos por Maximo de Aegea e Moiragenes.

Mas podemos confiar em Filostrato? A resposta, para grande maioria dos historiadores, é um sonoro não.

Revisando a literatura acadêmica, encontramos afirmações como a de que Vida de Apolônio (que chamaremos de "VA") , em virtude da "falta de conhecimento filosófico e excessiva preocupação retórica" de Filostrato é um texto "muito pouco confíavel" em relação a Apolônio [1], "tal a quantidade de invencionices, ficção e falsidade histórica contida nesse livro" [2], e que em virtude disso, e pelo fato de ser praticamente nossa única fonte "o estado de provas é tal, que não se pode ter nenhuma certeza sobre o Apolônio original e apenas argumentos de probabilidade podem ser usados" [3].

O fato de ter sido escrito entre 120 a 150 anos após a morte de Apolônio não é um obstaculo intransponível para Vida de Apolônio, se as fontes fossem confíaveis. No entanto, a principal fonte, o Díario de Damis, supostamente uma testemunha ocular dos eventos, apresenta autencidade sobre severa suspeita. Uma das principais estudiosas de Apolônio, Professora Maria Dzielska, da Universidade Jagielloniana de Cracóvia (Polonia), observa em seu livro "Apolonius of Tyana in legend and History"

"The Hypomnèmata of Damis have always been a great problem in the studies of Philostratus' work. Scholars have wondered whether the memoirs were only a figment of Philostratus' literary imagination, or whether they constituted a real notebook compiled by a certain pupil of Apollonius. This question has been raised not only by specialists in literature but also by historians. The latest views on the "Damis question" I present below. On their basis I consider Damis a fictitious figure and his memoirs (or notebooks) an invention of Philostratus" [post script: texto em inglês adicionado 18.07.2011]
(tradução) A Hypomnèmata de Damis sempre foram um grande problema nos estudos sobre Filostrato. E os estudiosos tem se perguntado se são apenas produto da imaginação de Filostrato, ou realmente se trata de um livro de memórias compiladas por um díscipulo de Apolônio. Esta questão tem sido levantada não só por especialistas em literatura mas também por historiadores. O estado da arte sobre o "problema de Damis", eu apresento abaixo. Com base nesses estudos eu considero "Damis é um personagem fictício e suas memórias uma invenção de Filostrato" [4].

Dzielska observa também que "[o Diário de Damis, é ] uma ficção literária, porém planejada ao que parece com total consciência" "junto com Julia Dona (...) ele (Filostrato) criou Damis, o sírio de Ninive, a quem atribui, como a um muito fiel aluno, a autoria da história de vida do mestre Apolonio, que ele próprio havia criado"[5].

Professor John Ferguson, Open University, acompanha essa opinião, observando que o aparecimento de livros ou diários perdidos era um artifício comum de romances históricos:

"Philostratus professed to have discovered an old document by one Damis as his source, but such discoveries are the stock-in-trade of historical romances, and we can place no credence upon Damis [post script: citação em inglês adicionada em 18.07.2011]
(Tradução) Filostrato alegava ter descoberto um velho documento de um certo Damis como fonte, mas tais descobertas são os apetrechos de romances históricos, não podemos ter fé em Damis"[6]

Acima foi apresentada a posição dominante. Uma posição alternativa, embora minoritária, é apresentada pelo Professor de História Antiga da Universidade Livre de Amsterdã, Jaap-Jan Flinterman que acredita que:

Probably the most controversial part of my findings was (and still is) the conclusion that 'Damis' - the disciple of Apollonius whose memoirs Philostratus claims to have had access to - was not a Philostratean invention, but a second- or early third-century pseudepigraphon. This position is in contradiction with an almost complete scholarly consensus that 'Damis' is a literary fiction, a view powerfully argued by Ewen Bowie [in Aufstieg und Niedergang der Römischen Welt II 16.2 (Berlin/New York 1978), 1652-1699]. [7] (post script: texto em inglês adicionado em 18.07.2011)
(Tradução)"Provavelmente a conclusão mais controversa do meu trabalho foi (e ainda é) que Damis, o discípulo de Apolônio as quais as memórias Filostrato afirma ter tido acesso, não foi uma invenção de Filostrato, mas um livro pseudoepigráfico escrito no segundo, ou início do III século DC". Esta posição vai contra a quase total consenso dos estudiosos de que "Damis" é uma ficção literária, um ponto de vista defendido vigorosamente por Ewen Bowie [in Aufstieg und Niedergang der Römischen Welt II 16.2 (Berlin/New York 1978), 1652-1699] [7].

Embora concorde que os argumentos utilizados para demonstrar que memórias não foram escritas por Damis ou uma testemunha ocular são fortes, Flinterman acredita que a possibilidade de que foram escritas por outra pessoa e atribuidas a Damis é bem mais difícilo de refutar [7]. Ou seja, o que podemos dizer é que o consenso acadêmico é de que ou Filostrato inventou as memórias de Damis, ou, na melhor das hipóteses ele utilizou uma obra, pseudoepigráfica, de um falsificador anterior. Tal qual os evangelhos de "Tomé", ou "Pedro", ou "Atos de João".

Para sustentar sua posição, Flinterman utiliza dois argumentos, um deles baseado em um raciocínio análogo do critério do constrangimento:

"Meyer's contention that Philostratus' invented Damis to substantiate his own view of Apollonius founders on the fact that the author refers to 'Damis" for information he feels uncomfortable about. Meyer's argument can be inverted: if the author's attitude towards magics can be characterized as a combination of contempt and aversion, it is hardly conceivable that he would have ascribed to an invented source information which causes such uneasiness as to compel him to dissociate himself from his own invention (VA III, 41; VII 39). [7]
[Tradução] A tese de Meyer de que Filóstrato inventou Damis para justificar o seu próprio ponto de vista sobre Apolônio se baseia no fato de que o autor se refere a "Damis" para informações que ele sente pouco à vontade. O argumento de Meyer pode ser invertido: se a atitude do autor em relação a magia pode ser caracterizado como um combinação de desprezo e aversão, é dificilmente concebível que ele teria atribuído a uma fonte inventada informações que o constragem de tal forma a obrigá-lo a se dissasociar de sua própria invenção (VA III, 41; VII 39) [7]

Ou seja, uma dos temas fortes em Filostrato é a tentativa de mostrar que Apolonio de Tiana não era um mágico, mas um grande filósofo e um campeão da cultura grega. O fato de Damis, a principal fonte de Filostrato, que ele afirmava ter sido uma testemunha ocular da vida de Apolônio, indicar as vezes que Apolônio utilizava magia, evidencia de que a fonte não foi completamente inventada por ele.

Jona Lendering, que também lecionou história antiga (e metodologia histórica) na Universidade Livre de Amsterdã, concorda com Flinterman, com raciocínio semelhante:

"There are very strong indications that the "Scraps from the manger" contained information that Philostratus found embarrassing. For example, Damis mentions that Apollonius wrote a book On astrology; as we have seen above, Philostratus was skeptical about its existence, because he did not like magic (LoA 3.41). (...) Philostratus repeats his argument that Apollonius was not a wizard or a magician, but performed his supernatural acts (...) because he had a superior wisdom and deeper insights in the nature of the universe. It is obvious that Philostratus felt uncomfortable with the Scraps from the manger, and this makes it likely that a source -whatever its precise nature- did really exist.. [8] (Grifo nosso)
(tradução) Há indícios muito fortes de que "Scraps from the manger" continha informações que Filóstrato considerou embaraçosas. Damis menciona que Apolônio escreveu um livro sobre astrologia, como vimos acima, Filóstrato era cético sobre a sua existência, porque ele não gostava de magia (LOA 3,41 ) (...) Filóstrato repete seu argumento de que Apolônio não era um feiticeiro ou um mago, mas realizou sua feitos sobrenaturais (...) porque tinha uma sabedoria superior e uma compreensão profunda da natureza do universo . É obvio que Filóstrato se sentiu desconfortável com "Scraps from the manger", sendo isso torna provável que a fonte - seja qual for a sua natureza precisa - realmente existiu. [8]

Os livros de Apolônio não sobreviveram ao nosso tempo, mas além do livro sobre Astrologia, mencionado acima, ele teria escrito um livro sobre as doutrinas de Pitagoras, um Hino de Louvor a Memória, e um livro sobre Sacríficios. Professor Lendering observa que pelo menos este último livro provavelmente existiu. Ele chega a essa conclusão baseado em uma linha de raciocínio semelhante a do critério da diferença ou dissimilaridade:

"The treatise On sacrifices certainly existed. Philostratus claims to have seen it 'in several cities and in the houses of several learned men' and claims that 'if anyone should translate it, he would find it to be a grave and dignified composition' (LoA 3.41). Philostratus' confession that On sacrifices was written in Apollonius' native tongue (probably Aramaean, see note 5) is at odds with his portrait of Apollonius as a champion of the Greek culture, and this suggests that the book did really exist." [9]
(tradução) "O tratado sobre Sacrifícios certamente existiu. Filóstrato afirma ter visto isso em várias cidades e nas casas de vários homens instruidos e afirma que se alguém o traduzisse, encontraria um livro profundo e dignificante (LOA 3,41). A confissão de Filóstrato de que "dos sacrifícios" foi escrito na lingua nativa de Apolônio (provavelmente Arameu, ver nota 5) está em desacordo com o seu retrato de Apolônio como um defensor da cultura grega, e isto sugere que o livro realmente existiu" [9]

Ou seja, o fato de Filostrato mencionar um livro de Apolonio que não foi escrito em grego (mas em uma lingua "barbara"), não atende ao interesses de biógrafo de apresentar Apolonio com um campeão da cultura grega, implicando que ele provavelmente não inventou essa informação. Lendering observa também que a existência do livro é reforçada pelo fato de tanto Porfírio, quanto Eusébio de Cesaréia (que escreveram cerca de 200 anos após a morte de Apolônio), citam um paragrafo de "Dos Sacrifícios" (Da abstinência 2:34; Praeparatio Evangelica, 4:13), que é, por sinal, a única citação de Apolônio que pode ser considerada autêntica com alguma segurança [9]

Filostrato transcreve várias cartas de Apolônio em sua biografia, e uma coleção de cerca de 100 delas chegaram até nós. No entanto, a autenticidade delas esta sujeita a sérias dúvidas. De modo geral, os estudiosos tem constatado que boa parte delas são "obviamente inspiradas por Vida de Apolônio"[10], outras refletem polêmicas anti-cristãs [10], dos séculos IV e V [11], e algumas outras cartas podem ter sido "herdadas por ele [Filostratõ], de algum falsificador anterior" [11]. Como nItálicoão existem outros escritos de Apolônio, "de autenticidade confirmada, para fazermos a comparação estilística com as cartas. Sobre a maioria destas, devemos nos contentar em expor probabilidades e apresentar linhas especulativas de argumentção" [11]. Em todo caso, as cartas são "apócrifas, em sua maioria" [12], . Contudo, observa Lendering, excluidas as cartas inspiradas por Filostrato e as fabricações anti-cristãs posteriores, o restante da coleção apresenta elementos que são mais antigos que a biografia de Filostrato, e mesmo que esse núcleo mais antigo não tenha sido realmente escritas por Apôlonio (é provavel que tenham sido elaboaradas pseudoepigraficamente por volta de 140 DC, em Atenas), o simples fato de alguém as ter fabricado sugere fortemente que já em meados do século II Apolonio era considerado uma figura importante, ou seja, mesmo que sejam falsificações as cartas estam associadas a tradições muito mais antigas, que provavelmente refletem alguma informação autêntica sobre Apolônio [13]. Utilizando um raciocínio análogo ao critério do constrangimento, Lendering observa:

"Reading the letters said to be sent to the Roman philosopher C. Musonius Rufus (c.30-c.100), we get the impression that Musonius is the winner of the polemic [note 4]; this is, of course, too embarrassing to be invented by an admirer of the Tyanean. It must antedate the composition of the collection in the 140's, and may even reflect a real polemic. [10]" (tradução) Lendo as cartas que teriam sido enviadas para o filósofo romano C. Musonius Rufus (c.30-C.100), ficamos com a impressão de que Musonius é o vencedor da polêmica [nota 4], isto é, naturalmente, muito constrangedor para ter sido inventado por um admirador do Tianeu, e deve preceder a composição da coleção dos anos 140, e pode até refletir uma polêmica real. [13]

Lendering cita também duas outras cartas em que a questão da magia é abordada por Apolonio positivamente, e que, portanto, seriam constragedoras para Filostrato, não tendo sido, portanto, provavelmente inventadas por ele:

"In two letter to Euphrates,#16 e # 17, we encounter an Apollonius who would have scared Philostratus to death: the author of these letters proudly confesses he is a magician, and goes on to give a positive interpretation of that word. These letters were centainly not invented by Philostratus" [13]
(tradução) Em duas das cartas ao Eufrates, # 16 e # 17, encontramos uma Apolônio que teria deixado Filóstrato apavorado: o autor destas cartas orgulhosamente confessa que ele é um mágico, e até apresenta uma interpretação positiva da palavra. Estas cartas certamente não foram inventadas por Filóstrato" [13].

No que se refere a atestação externa de Apolônio de Tiana, no período pré-Filostrato, existe uma unica breve menção, na obra de Luciano de Samosata (120-190 DC), chamada Alexandre, o falso profeta, escrita por volta de 85 anos após a morte de Apolônio, em cerca de 180 DC, baseada na vida do criador do culto ao deus Glicon, Alexandre de Abonoteichus (105 - 170 DC), que Luciano considerava um charlatão, e que na sua juventude teria sido discípulo de um mágico, seguidor da escola de Apolônio de Tiana (Alexandre, 5:31). O contemporâneo de Filostrato, Cassio Dio (160-230 DC), escrevendo por volta do ano 229 DC, menciona Apolônio, brevemente, duas vezes, ao descrever o assassinato do Imperador Domiciano (96 DC), ele, de uma forma um tanto zombeteira, diz que Apolônio de Tiana, fazendo um discurso em Éfeso, teve uma premonição no exato momento em que o Imperador era morto (Historia Romana, 67.18.1), episódio que Filostrato também narra (VA 8:26, baseado em uma tradição corrente em Éfeso). Dio também nos diz que o Imperador Caracala (211-217 DC) - filho de Julia Dona, "patrocinadora" de Filostrato - tinha atração por magia e coisas semelhantes, e por isso construiu um santuário para o grande mágico Apolônio em Tiana (Historia Romana 78.18.4).

Por fim, devemos citar dois tratados sobre Apolônio citados por Filostrato, mas que não sobreviveram. O primeiro é uma obra que teria sido escrita por um certo Máximo de Aegea, sobre a infância e a juventude de Apolônio naquela cidade, onde Apolonio servia no templo do deus Asclepio. De modo geral, o trabalho de Máximo contribuiria pouco para o estudo do Apolônio histórico, e "podemos comparar o livro de Máximo de Aegea com o Proto-Evangelho de Tiago: uma criação cristã do segundo século, que tinha o objetivo de complementar os evangelhos, contando da infância de Jesus. Os díscipulos de Apolonio podem ter sentido uma necessidade similar de informação sobre os primeiros dias de seu herói"[14]. De Moiragenes, e o que ele teria escrito, quase nada se sabe, Filostrato afirma que seu livro sobre Apolonio era muito pouco confíavel, e não era digno de atenção, pois ele não conhecia suficientemente Apolonio (VA 1.3). Orígenes, afirma que Moiragenes relata o debate entre Eufrates de Tiro, Apolônio e um filosofo epicureu, e retrata Apolonio como mágico e filósofo (Contra Celso 6:41). Professora Maria Dzielska, seguindo Ewen Bowie, data a obra de Moiragenes no meio do século II, anos após discipulos e admiradores de Apolonio terem supostamente fabricado as cartas entre ele e Eufrates de Tiro, (ainda quea possibilidade de Eufrates e Apolônio terem realmente se envolvido em polêmica não possa ser excluida). [15]. Moiragenes poderia ser uma fonte importante, caso sua obra tivesse sobrevivido, ou nós não tivessemos dele apenas um referência e um fragmento.

Após analisar e situar o caráter geral das fontes sobre Apololonio, o Prof. Lendering passa a avalia-las quanto as informações factuais que podem ser extraidas sobre o filosofo de Tiana. Para isso, utiliza não só o critério do constrangimento, mas também uma metologia muito similar a usada nos estudos do Jesus Histórico:

Having discussed what little we know about the pre-Philostratean traditions, we can try to add things up, using four criteria of authenticity.
Independent confirmation: when an author who is not primarily interested in Apollonius confirms something in a source on Apollonius, we may assume that we are approaching the historical truth.
Multiple attestation: when independent, pre-Philostratean traditions about Apollonius are in agreement, we may be reasonably certain that they contain some historical truth. The problem with this method is, of course, that it is not always easy to establish independence.
Embarrassment: embarrassing information about the man from
Tyana also has a claim to historical reliability.
Consistency: sometimes the truth of statement can be confirmed after other facts have been established [14].

(tradução) Tendo discutido o que pouco se sabe sobre as tradições pré-Filostrateanas, podemos tentar analisar o que temos , usando quatro critérios de autenticidade.
Confirmação Independente: quando um autor que não está interessado primeiramente em Apolônio confirma algo em uma fonte de Apolônio, nós podemos assumir que estamos nos aproximando da verdade histórica.
Múltipla Atestação: quando tradições pré-Filostrateana sobre Apolônio estão de acordo, podemos estar razoavelmente certos de que eles contêm alguma verdade histórica. O problema com este método é, naturalmente, que nem sempre é fácil estabelecer independência.
Constrangimento: informações embaraçosas sobre o homem de Tiana também podem reivindicar confiabilidade histórica.
Consistência: às vezes a verdade da afirmação pode ser confirmada após outros fatos já estabelecidos.

Com base nesses critérios, Lendering conclui que alguns elementos da tradição são quase certamente factuais, dentre os quais:

Apollonius was considered a magician. Independent confirmation: it is taken for granted by Cassius Dio, Lucian (the latter referring to a disciple) and Anastasius Sinaitica [note 8]. Fourfold attestation: to be found in the Reminiscences of Moeragenes, in the memoirs of Damis, in the Letters of Apollonius, and in the Antiochene tradition. Embarrassment: Philostratus clearly felt uncomfortable with this, and three times offers apologies. [16]
(tradução) Apolônio era considerado um mago. Confirmação independente: é aceito por Cassio Dio, Luciano (este último referindo-se a um discípulo) e Anastácio Sinaitica nota [8]. Atestação quadupla: é encontrada nas reminiscências de Moeragenes, nas memórias de Damis, nas Cartas de Apolônio, e na tradição de Antioquia. Constrangimento: Filóstrato claramente sentiu desconfortável com isso, e três vezes oferece desculpas. [16]

O fato de Luciano e Cassio Dio tenham escrito cerca de 80 a 130 anos após a morte de Apôlonio - e suas menções sejam breves, e possam refletir apenas o conhecimento comum sobre o filósofo em suas respectivas épocas - teria valor histórico limitado como testemunho independente (assim como Anastasius Sinaita, que morreu por volta do ano 700) . No entanto, ambos confirmam independentemente Apolônio como mágico, imagem também multiplamente atestada em elementos das tradições pré-filostratianas, no pseudo "Damis", na tradição local de Antioquia no século III, e em algumas cartas atribuidas a Apolônio - identificadas com base na sua resistência a tendência redacional em Filostrato, que queria apresentar Apolônio como sábio, homem divino e campeão da cultura grega, e tentou de todas as formas apagar a percepção constrangedora de Apolônio como mágico - bem como em Moiragenes. Isoladamente, as referências tardias a Apolônio e a natureza problematica das tradições pre-filostratianas tem pouca relevância do ponto de vista histórico, contudo, tomadas em conjunto com os elementos constrangedores, nos dão confiança de que esses mesmos elementos são provavelmente factuais.

Um situação semelhante nos estudos do Jesus Histórico é o fato da crucificação de Jesus. Como exercício, colocando de lado por um momento o fato aceito pela grande maioria dos estudiosos de que Josefo provavelmente se referiu a Jesus (o que nos fornece, por si só, confirmação mais do que suficiente de que ele foi crucificado por Pilatos), o fato de termos confirmação independente em Tácito e Luciano de Samosata, 80 e 140 anos após a morte de Jesus, se referirem a sua crucificação (intervalo similar ao de Apolônio), que Paulo, Marcos, João e, possivelmente, Q atestarem multiplamente esse fato, combinado com o constrangimento, pelo fato de que a crucificação era uma forma de morrer vergonhosa, um escândalo para os judeus, e vergonha para os gregos (I Corintios 1:23). Isoladamente, Luciano e Tácito contam pouco, e alguns tem adotado uma postura fortemente cética quanto as tradições evangélicas, mas, quando tomamos em conjunto com elemento constrangedor da execução vergonhosa, é muito díficil negar a factualidade da crucificação.

Apollonius wrote a book On astrology. Twofold attestation: On astrology is mentioned by Moeragenes and Damis. Embarrassment: Philostratus expresses his disbelief about the existence of On astrology [16].
(tradução) Apolônio escreveu um livro sobre astrologia. Atestação dupla: "Da Astrologia" é mencionado por Moeragenes e Damis. Constrangimento: Filóstrato manifesta sua descrença sobre a existência desse livro [16]

Aqui também a combinação de um elemento que é multiplamente atestado e a mesmo tempo criava problemas para Filostrato indica fortemente que Apolonio realmente escreveu um livro sobre Astrolgia. Um pararelo aproximado nos estudos do cristianismo primitivo, são os ditos multiplamente atestado em que Jesus prega a vinda iminente do Reino de Deus (ex. Marcos 1:15, 14:25, Lc 11:2, Mt 8:11, Lc 6:17-20), e o problema causado já na segunda e terceira gerações de cristão que não viram a manifestação vísivel desse Reino e questionavam "onde esta a promessa de sua vinda" (II Pedro 3:11), ou a explicação em João a irmãos que acreditavam que o discipulo amado não morreria até a vinda de Jesus (João 21:23).

CONTINUA
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Referências Bibliograficas
[1] Jona Lendering, Apollonius of Tyana, Parte 1: "Philostratus' Life of Apollonius", disponível em http://www.livius.org/ap-ark/apollonius/apollonius01.html#Life, acessado 20.09.2010
[2] Maria Dzielska (1986), Apollonius of Tyana in legend and history, fl. 185
[3] Ewen Lyall Bowie (1978), Apollonius of Tyana, Tradition and Reality, in ANRW, 2.16.2, fls. 1685-1686.
[4] Maria Dzielska (1986), Apollonius of Tyana in legend and history, fl. 19
[5] Maria Dzielska (1986), Apollonius of Tyana in legend and history, fl. 190-191
[6] John Ferguson (1970) Religions of Roman Empire, fl. 182
[7] Jan Jaap Flinterman, Sumário de Politiek, Paideia & Pythagorisme (1993), disponível em http://www.xs4all.nl/~flinterm/Power-Paideia-Pythagoreanism.html, acessado em 20.09.2010 [8] Jona Lendering, Apollonius of Tyana, Parte 6: "Damis of Niniveh" disponível online http://www.livius.org/ap-ark/apollonius/apollonius06.html#Damis, acessado em 20.09.2010
[9] Jona Lendering, Apollonius of Tyana, Parte 4: "Apollonius Books", disponivel online
www.livius.org/ap-ark/apollonius/apollonius04.html#Apollonius%27%20books, 20.09.2010
[10] Jona Lendering, Apollonius of Tyana, Parte 3: "Apollonius' Letters", disponivel online
www.livius.org/ap-ark/apollonius/apollonius03.html#Apollonius%27%20letters, 20.09.2010
[11] Robert J. Penella (1979) The letters of Apollonius of Tyana: a critical text with prolegomena, translation and commentary, fls 24-25 e 28.
[12] Maria Dzielska (1986), Apollonius of Tyana in legend and history, fl. 190
[13] Jona Lendering, Apollonius of Tyana, Parte 3: "Apollonius' Letters", disponivel online www.livius.org/ap-ark/apollonius/apollonius03.html#Apollonius%27%20letters, 20.09.2010
[14] Jona Lendering, Apollonius of Tyana, Parte 5: "Other Sources", disponivel online http://www.livius.org/ap-ark/apollonius/apollonius05.html, 20.09.2010
[15] Maria Dzielska (1986), Apollonius of Tyana in legend and history, fl. 45-46
[16] Jona Lendering, Apollonius of Tyana, Parte 7: "Evaluation of the sources", disponivel online http://www.livius.org/ap-ark/apollonius/apollonius05.html, 20.09.2010

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