Estudos sobre Religião - Biblioblog

domingo, 7 de julho de 2019


A Cura dos Leprosos de Cafarnaum
James Tissot, 1886, Brooklin Museum
O cristianismo se inicia como um movimento de judeus discípulos de Jesus de Nazaré, por volta do ano 30. De pouco mais que uma centena de seguidores, se expandiu por todo o Império Romano, de forma continua e gradual ao longo dos 300 anos seguintes até atingir milhões de pessoas na época de Constantino. 

Este desenvolvimento produziu um vibrante e impressionante volume de literatura, não só o Novo Testamento, como os vários volumes dos Pais da Igreja, livros apócrifos,  e heterodoxos. O consenso histórico-critico é que os livros do NT e alguns apócrifos, como o evangelho de Tomé, o Didaquê, e a carta de Clemente, foram escritos entre 50 a 130 DC. No final do século I e início do  II DC, o cristianismo começa a chamar a atenção de observadores externos, como Flávio Josefo, Tácito, Plínio e SuetônioOs primeiros artefatos conhecidos são manuscritos, como o P52 e P90, geralmente datados por volta de 150 DC. Inscrições e estruturas claramente ligados ao movimento surgem a partir do início do século III, como a Igreja de Dura Europos, na Síria. 

Há porém uma outra candidata ao posto de primeira igreja e mais antiga estrutura associada ao cristianismo. Localizada em Cafarnaum, na mesma Galileia em que Jesus atuou a maior parte de seu ministério, há uma casa que pode ter sido usada desde o primeiro século como santuário e pertencido ao próprio Apóstolo Pedro.

Casa de Pedro: No ano 383, uma peregrina chamada Egéria, escreveu um detalhado relato de suas viagens aos lugares sagrados do oriente. Proveniente, provavelmente, do norte da Espanha ou sul da França,  chegou a Constantinopla em 381, e de lá foi para a Palestina, visitando Jerusalém, Jericó, Nazaré, e Cafarnaum. Se dirigiu ao Monte Sinai, Alexandria, Tebas e o Mar Vermelho, no Egito. Conheceu também Antioquia na Síria, "esticando" para Edessa e o Rio Eufrates. Junto com Descrições da Grécia, de Pausanias, a "Peregrinação de Egéria" é um dos mais interessantes exemplos de "roteiro de viagem" do mundo antigo, e mais ainda por ter sido um dos raros casos na antiguidade de literatura escrita por uma mulher.  De Cafarnaum, Egeria escreveu:

"Em Cafarnaum a casa do Príncipe dos Apóstolos foi transformada em uma Igreja, mas suas paredes originais ainda permanecem. Foi lá que o Senhor curou o paralítico"  
No século V, uma Basílica foi construída no lugar atribuído a "Casa de Pedro". No entanto, além do relato de Egeria, 350 anos depois do tempo de Jesus e Pedro, e a Basílica construída 400 anos mais tarde, existe evidência da associação da estrutura com o famoso apóstolo?


A associação de artefatos e estruturas ao ministério de Jesus e seus apóstolos é uma constante desde os primeiros séculos do cristianismo, frequentemente sob bases inexistentes ou extremamente frágeis. No entanto, como observam os Professores John Dominic Crossan, e Jonathan Reed, da Universidade La Verne, a casa é uma candidata promissora:


Presume-se que tenha pertencido à família de Pedro e que seria o lugar onde sua sogra fora curada de severa febre, segundo Marcos 1:29-31. Trata-se, na verdade, de uma das poucas localizações plausíveis na tradição do Novo Testamento [1]

Professor  James Charlesworth, do Seminário Teológico de Princeton, descreve a estrutura e a natureza de sua associação ao cristianismo:


A casa do primeiro século recentemente escavada em Cafarnaum por baixo da igreja octogonal de São Pedro pode até ser a casa que Pedro possuiu (Marcos 1:29; Mateus 8:14; ver ilustração 6) e a casa-igreja em que os primeiros seguidores de Jesus reuniam-se para devoção e estudo. Essa possibilidade é tão notável que pode levar as pessoas a serem acusadas de esquecer os rigores da erudição e cair no sensacionalismo. Contudo, não é essa possibilidade, mas sim a descoberta, que é sensacional.[2]
.

Um princípio fundamental da arqueologia é que as várias camadas de ocupação humana, os contextos, vão se sobrepondo a medida que o tempo vai passando, de forma  que é possível inferir a história da ocupação do sítio em função de sua estratigrafia. Utilizando este princípio para santuários antigos, é de sua natureza serem construídos, reformados, reconstruídos ao longo dos anos, sobre o mesmo espaço. Aqui no adcummulus, por exemplo, já falamos sobre isso quando descrevemos o provável sepulcro do apóstolo Felipe, sobre o qual foi construída uma Igreja, conforme proposta do professor Francesco D'Andria. No caso da "Casa de Pedro". A história de ocupação do sítio, conforme os Professores Gerd Thiessen, da Universidade de Heildelberg, e Annete Merz, a Universidade de Utrecht, indica que:

 "(...)  Sob uma esplendorosa igreja octogonal do período bizantino foram encontrados restos de habitações - casas pobres que remontam ao séc. I AC. Anzóis encontrados dão a entender que os habitantes eram pescadores. Uma dessas pobres casas foi evidentemente "restaurada" entre 50 e 100 DC. Suas paredes rústicas foram rebocadas, seu chão coberto com várias camadas de cal. No reboco que caiu há símbolos e inscrições que apontam uma congregação doméstica cristã. Jesus é mencionado várias vezes com títulos honoríficos, e o nome de Pedro possivelmente também ocorre. Tudo indica que a casa de Pedro foi localizada aqui  já -no século I- possivelmente por causa de uma tradição local acurada. Será então que encontramos a casa de Pedro? [3].

A basílica do tipo octogonal, um martírio, é um tipo de estrutura associada a lugares como a paixão de Cristo ou seus mártires, como a Igreja do Santo Sepulcro, em Jerusalém, o Martírio de Filipe, em Hierapolis, ou a Basílica de São Pedro, em Roma. Estas basílicas foram construídas nos lugares em que se acreditava que Jesus, Felipe e Pedro teriam sido sepultados. A basilica em Cafarnaum é do período bizantino, mas sabemos que o local possuía uma igreja que  recebia peregrinos no século IV. Contudo, o mais relevante é que abaixo destas estruturas existe o que pode ser um santuário do século II, ou final do século I, e uma casa de pescador no início da era cristã.

Crossan e Reed descrevem de forma mais detalhada o sítio:


Arqueólogos franciscanos, trabalhando em volta deste sítio entre 1968 e 1985, descobriram três camadas ou strata: a igreja octogonal do quinto século (classificada por eles como stratum III), uma casa-igreja ou santuário do século quarto (stratum II) e uma casa que teria sido habitada desde o primeiro século  A.C (stratum I). Os oito lados concêntricos da Igreja abrigavam outro octógono interno cujo teto era apoiado por oito colunas. Podia-se entrar neste espaço por diversos lados. Mosaicos decorados com desenhos geométricos simples e flores de lótus nas margens decoravam o piso entre as duas estruturas em forma de pórtico. A sala central já havia sido separada do resto, no quarto século, quando a parede quadrilátera de 80 por 80 pés isolava o local para uso sagrado. O teto apoiado por um arco cobria o recinto que fora foco de atenção possivelmente desde o século II.O piso e as paredes haviam sido reparadas constantemente em contraste com resto do edíficio. As paredes ostentavam centenas de inscrições semelhantes a grafites - em grego, siríaco, hebraico e latim. [4]

Pedro e João correm para o Sepulcro, Eugene Burnand, 1898
Museu D'Orsay, via wikicommons
Melhor descrevendo, a história de ocupação do sítio indica que uma casa comum do século I AC, semelhante as outras casas da vila no período,  sofreu alterações em sua função, a partir do final do século I, sendo adaptada como congregação e santuário cristão, como indicam os grafites , em várias línguas, e símbolos em suas paredes, até ser convertida em uma igreja propriamente dia, no século IV, que continuou sua expansão tornando-se uma monumental basílica no século V. 


Essa evolução é descrita de uma forma  mais detalhada pelo Professor Charlesworth:


Sete estágios das pesquisas levam a conclusão de que a Casa de Pedro possa ter sido descoberta. 
Primeiro, os peregrinos antigos, como Egeria, que visitou Cafarnaum entre 381 e 384 E.C. identificam o lugar como sítio da Casa de Pedro e dos primeiros cultos cristãos. 
Em segundo lugar, a casa contém cruzes gravadas, um barco e mais de uma centena de grafitos gregos, aramaicos, siríacos, latinos e hebreus de cristãos dos séculos segundo e terceiro que veneravam o lugar.
Em terceiro lugar, a casa está situada sob uma igreja octogonal do século V, um tipo de arquitetura especialmente usado para venerar lugares sagrados mais antigos (uma igreja octogonal foi construída por ordem de Constantino sobre o sítio celebrado como sendo o local de nascimento de Jesus, em Belém). E
Em quarto lugar, a casa pode ser retraçada ao primeiro século A.E.C (foi provavelmente construída entre 100 a 60 A.E.C) por causa das condições estratigráficas e da recuperação de antigas candeias e moedas herodianas.
Em quinto lugar, foram achados anzóis debaixo do pavimento do que é identificado como sendo uma casa-igreja; por isso é concebível que ali tenha vivido um pescador.
Em sexto lugar, é evidente um pavimento antigo, notadamente o Pavimento Romano B, mas o mais notável é a descoberta que o chão e as paredes da casa foram argamassados não menos que três vezes, a partir de meados do primeiro século E.C. 
Em sétimo lugar, o grande aposento, depois de argamassado, foi provavelmente convertido numa "casa-igreja" (em Cafarnaum não foram encontradas outras casas com argamassa). Nesse aposento amplo só foram desenterrados grandes jarros para armazenamento e candeias a óleo; não se recuperou qualquer cerâmica de uso doméstico [5]


Nenhuma das evidências apontadas, isoladamente, é prova de que a casa pertencia a Pedro. Mesmo que fosse possível demonstrar que o proprietário da casa no século I se chamava Simão, não seria incontestável que seria o mesmo Simão que procuramos, já que se estima que esse era o nome de 1 em cada 11 homens judeus no século I [6]. Na verdade, é o conjunto de evidências circunstanciais   que importa. O fato de que o lugar era venerado nos séculos IV/V como "Casa de Pedro", é corroborado pelo fato de que nas camadas arqueológicas mais antigas encontramos grafites de conteúdo cristão, em várias línguas (grego, aramaico, siríaco, latim e hebreu), utensílios  cerâmicos no cômodo principal que não são compatíveis com uso doméstico,mas típicos de um lugar de culto e peregrinação, e que essas características  coincidem com  uma série de intervenções estruturais na casa (chão e paredes argamassados pelo menos 3 vezes) a partir de meados do século I, diferenciando-se das demais da vila, sendo que, anteriormente seu uso era compatível com o lar comum de um pescador. Desta forma, a interpretação de que a casa do Apóstolo Pedro foi convertida em santuário e local de peregrinação a partir do final do século I, se torna altamente plausível, mesmo que não se concorde totalmente com a interpretação que os arqueólogos franciscanos deram aos achados. Como observam Crossan e Reed:  

Algumas frases parecem ter saído das mãos de visitantes e de peregrinos cristãos, embora quase sempre ilegíveis  e até mesmo de origem profana. Os grafites são importantes mesmo, mesmo se as transliterações exageradamente tendenciosas e piedosas dos escavadores franciscanos, envolvendo teorias sobre a existência de uma comunidade judeo-cristã e incluindo elaboradas especulações a respeito de simbolismos e acrósticos, não sejam persuasivas. Os grafites nas paredes e as diversas camadas de reboco mostram que se tratava de lugar singular em Cafarnaum e mesmo na Galiléia toda, e demonstra que fazia parte de uma residência particular considerada muito especial por diversas pessoas apenas um século depois das atividades de Jesus na Galiléia. [7].

Os grafites nas paredes apresentam claro caráter cristão.  "A maioria das inscrições dizem coisas como "Senhor Jesus Cristo ajuda teu servo", "Cristo tem piedade", e foram escritas em grego, siríaco, e hebreu, algumas vezes acompanhadas por incisões de pequenas cruzes e até um barco. Os arqueólogos alegam que o nome de Pedro é mencionado em vários grafites, embora muitos estudiosos contestem essa leitura, [8]


James Charlesworth apresenta outra interessante evidência, desta vez associando o relato do evangelho de Marcos com os dados arqueológicos relativos a casa.

(...)  As paredes da casa, levantadas no primeiro século, são demasiado fracas para sustentar um teto de telhas, como em Roma ou Pompéia. O teto teria sido construído com três galhos cobertos por folhas de palmeira e barro cozido. Os especialistas refletiram corretamente sobre o seguinte episódio: [9]

Cita Marcos 2:1-5:

Poucos dias depois, tendo Jesus entrado novamente em Cafarnaum, o povo ouviu falar que ele estava em casa. Então muita gente se reuniu ali, de forma que não havia lugar nem junto à porta; e ele lhes pregava a palavra. Vieram alguns homens, trazendo-lhe um paralítico, carregado por quatro deles. Não podendo levá-lo até Jesus, por causa da multidão, removeram parte da cobertura do lugar onde Jesus estava e, pela abertura no teto, baixaram a maca em que estava deitado o paralítico. Vendo a fé que eles tinham, Jesus disse ao paralítico: “Filho, os seus pecados estão perdoados”. 
A "Casa de Pedro", no estrato relativo ao primeiro século, apresenta paredes que não suportariam o peso de um teto convencional. Desta forma, possuía uma cobertura que poderia ser removida, como no relato evangélico. Tal característica era extremamente comum nas casas da Galiléia, mas não era o padrão em outras partes do Império Romano. No entanto, como Marcos, vivendo em Roma ou na Síria, saberia que as casas em Cafarnaum que não tinham cobertura fixa? Possivelmente, porque tinha acesso a uma memória histórica que remonta a Cafarnaum dos anos 30 DC.

A Cura do Paralítico, James Tissot, 1890
Brooklin Museum, via wikicommons

Nessa linha, o Professor Maurice Casey,(1942-2014), da Universidade de Nottingham, pondera entre uma diferença relevante entre o relato de Marcos e Lucas quanto ao teto da casa, que reforça ainda mais a possibilidade de uma memória histórica:
 "(...) a evidência arqueológica é clara de que as casas de Cafarnaum não foram construídas para suportar um segundo andar. As paredes das casas eram construídas com basalto negro colado com argila, não possuindo suficiente resistência para suportar o peso de um segundo andar. Telhados eram edificados com vigas de madeira intercaladas e cobertas com ramos, caniços e argila. (...) Lucas porém altera o relato. Ele retira a parte de descobrir o telhado, e afirma que ele desceram o paralítico por entre as telhas (Lucas 5:19). Nas cidades helenístics que Lucas conhecia, o teto das casas era coberto com telhas. [10]

Fotos de reconstituições de telhados de casas da Galileia do século I podem ser visualizadas aqui. Lucas utiliza o termo Keramos  que geralmente é a associado a cerâmica, uma cobertura de telhas, incomum entre nas vilas da Palestina do século I, mas o padrão nas cidades helenísticas. Marcos, por sua vez, relata que os quatro amigos do paralítico fizeram uma abertura no telhado, por entre os ramos, caniços e argila. Como pontua o Professor Douglas R Edwards, da Universidade de Puget Sound  "(...) O relato marcano reflete o tipo de telhado encontrado em vilas e cidades do período romano. Este tipo de telhado está presente nas estruturas de Séforis, e nas vilas de Jotapata e Khirbet Cana. As coberturas de telhas, do relato de Lucas, contudo, são uma estória diferente. Na Galileia a evidência para coberturas de telhas no período romano, principalmente em vilas e pequenas cidades é praticamente inexistente até o segundo século depois de Cristo (...)" [11].  Assim, Lucas, que usou o relato de Marcos, "corrigiu" sua fonte nesse ponto, pois em sua experiência uma "perfuração" ou afastamento da cobertura do teto da casa se faria pela retirada das telhas, sem saber que esse tipo de telhado não existia na Galileia do primeiro século, e que o relato de Marcos corresponde precisamente a realidade histórica e arqueológica.

Além disso, no mesmo episódio, Maurice Casey identificou outra evidência de memória histórica, pois a passagem seria um dos textos em que pode ser utilizado o critério de traços do aramaico (como já discutimos aqui no adcummulus), a qual é um dos principais proponentes. Casey descreve a crença comum na época que culpa causada pelo pecado causaria doenças físicas, conforme interpretação do Salmo 32, "(...) Enquanto escondi os meus pecados, o meu corpo definhava de tanto gemer. Pois de dia e de noite a tua mão pesava sobre mim; minha força foi se esgotando como em tempo de seca (....)", e dos rabinos Hyya Bar Abba e Alexandri,  discutindo o Salmo 103:3, "uma pessoa doente não se levanta de sua enfermidade até que todos os seus seus pecados sejam perdoados".[12]

Casey faz uma comparação entre esse "modelo explanatório" de enfermidades no tempo de Jesus com casos relatados na literatura médica de "transtornos de conversão"  associados a paralisia histérica; como a de uma mulher que ficou paralisada por dois anos após testemunhar um crime violento, e que se sentiu curada após ser convencida de que não tinha nenhuma culpa do ocorrido, e de um homem que era despertado de seu estado de paralisia ao ouvir "levante". Casey observa no verso 9 a pergunta de Jesus "O que é mais fácil dizer ao paralítico: “Os seus pecados estão perdoados” ou “Levante-se, pegue a sua cama e ande”?" que o termo grego para o comparativo mais fácil (eukopoteron), não tem correspondente em aramaico. O termo aramaico qalltl equivale a, literalmente, a "mais leve" (em peso). Em sentido figurativo, porém, era utilizado para mandamentos e julgamentos legais no sentido de menos importante, insignificante, ou leniente. Segundo Casey, diante de escribas e fariseus, Jesus teria utilizado o sentido figurativo de qalltl para questionar qual das ações propostas - declarar a liberação do pecado ou ordenar que o paralítico se levantasse - era de menor importância. Assim, propõe Casey, o atual texto de Marcos traduziu para o grego um relato original em aramaico de que ao retirar o peso da culpa e do pecado sobre o paralítico, ele se torna "leve", e capaz de superar sua enfermidade.[12].



Os estudos que indicam evidências arqueológicas e textuais em favor da "Casa de Pedro", porém, devem ser avaliadas em conjunto com aqueles que chegam a conclusão opostas. A professora Joan Taylor, da Universidade de Londres, apresentou uma consistente crítica na cronologia dos estratos da casa antes do IV século, contestando em primeiro lugar, a interpretação de que a casa foi utilizada como igreja antes do IV século, uma vez que os grafites, em sua grande maioria em grego, e objetos encontrados sugeririam um uso como local de peregrinação e"museu". Além disso, Taylor revisa em quase 150 anos as datas em que foram efetivadas, as reformas da casa, como a colocação do reboco e piso calcário, do final do primeiro e início do segundo século, para o início do terceiro e meados do querto século DC. Ela também associa o início, ou pelo menos a consolidação da associação da casa ao Apóstolo Pedro com a atividade de José de Tiberias, um estudioso judeu convertido ao cristianismo, que teria sido membro do Sinédrio, e que recebeu do Imperador Constantino a incumbência de supervisionar e construir igrejas na Galiléia [13].

Professor Anders Runesson, da Universidade de Oslo, contudo, considera que se de um lado "Taylor enfatizou corretamente a falta de provas conclusivas de uma comunidade judaico cristã venerando a casa e a domus-eclesia anteriores a igreja ortogonal", por outro lado "quanto todas as evidências são consideradas, inclusive circunstanciais e literárias, a balança de evidências favorece a reconstrução  feita pelos escavadores do sítio"[14]. Runesson, pontua ainda que, em parte, a crítica de Taylor a interpretação tradicional do sítio já havia sido trazida nos anos de 1970/1980 pelo Professor James Strange, da Universidade do Sul da Florida, que, contudo, considerou também o efeito cumulativo dos vários indícios arqueológicos e literários afirmando que "(...) prova conclusiva ainda não foi encontrada, e possivelmente nunca será, mas todos os indícios apontam como provavel que  a Casa de São Pedro, onde Jesus se hospedou, perto da famosa sinagoga de Cafarnaum, seja uma reliquia autêntica", e esta é "(...) provavelmente a casa de São Pedro onde Jesus ficou quando esteve em Cafarnaum (...)". [14].

Professor Cilliers  Breytenbach, da Universidade Humboldt de Berlim, argumenta, por sua vez, que mesmo que a conclusão de Joan Taylor seja aceita, o relato de Egeria indica que "(...) as paredes da casa do príncipe dos apóstolos eram, em seus dias, como sempre foram (...)", e, principalmente, a casa de Pedro e André é o centro espacial do relato de Marcos na primeira parte de seu evangelho. A casa de Pedro é mencionada em Mc 1:29-35, 2:1-12; 3:20-35, 9:33-34 e, talvez, em 7:17. Desta forma, observa Breytenbach, "(...) cura e especialmente ensino dos discipulos? Muito provavelmente porque a casa de Pedro e André já se tornara um centro de reunião e ensino desde antes do evangelho ser escrito"(...)" [15].

Desta forma, concluimos que a correção de Joan Taylor a interpretação de Corbo e Loffreda é correta no sentido de que não há prova definitiva de que a estrutura em Cafarnaum seja a casa de Pedro. Contudo, mesmo que não se possa afastar a dúvida na identificação, o balanço das evidências arqueológicas e literárias, quando tomadas em conjunto, indicam que a casa é a mesma descrita no evangelho de Marcos. 

Referências Bibliográficas:

[1]  John Dominic Crossan e Jonathan L Reed (2001), Em Busca de Jesus, Debaixo das Pedras, atrás dos textos, Edições Paulinas, 2007, fl. 130
[2] James Charlesworth (1988), Jesus Dentro do Judaísmo, Editora Imago, 3ª edição, 1992, fls. 118-119.
[3] Gerd Theissen e Annete Merz (1996), Jesus Histórico, Um Manual, Edições Loyola, fls 188-189.
[4] John Dominic Crossan e Jonathan L Reed (2001), Em Busca de Jesus, Debaixo das Pedras, atrás dos textos, Edições Paulinas, 2007, fl. 130-131
[5] James Charlesworth (1988), Jesus Dentro do Judaísmo, Editora Imago, 3ª edição, 1992, fls. 118-119
[6] Richard Bauckham (2007), Jesus and Eyewitness, fls 70-71
[7] John D Crossan e Jonathan L Reed (2003) Em Busca de Jesus - Debaixo das Pedras, atrás dos textos, fl. 130-131.
[8] Bible History Daily (2018), The House of Peter: The Home of Jesus in Capernaum? 22.04.2018,https://www.biblicalarchaeology.org/daily/biblical-sites-places/biblical-archaeology-sites/the-house-of-peter-the-home-of-jesus-in-capernaum/,
[9] James Charlesworth (1988), Jesus Dentro do Judaísmo, 1988, Editora Imago, 3ª edição, 1992, fl. 125)
[10] Maurice Casey (2010) Jesus of Nazareth: An Independent Historian's Account of His Life and Teaching, fl 126.
[11] Douglas R. Edwards (2009) Walking the Roman Landscape in Lower Galilee: Sepphoris, Jotapata e Khirbet Cana, In Zuleika Rodgers, Margaret Daly Denton, Anne Fitzpatrick McKinley (ed) A Wandering Galilean: Essays in Honour of Seán Freyne, fl 225-226.
[12] Maurice Casey (2010) Jesus of Nazareth: An Independent Historian's Account of His Life and Teaching, fls. 259-260
[13] Joan E Taylor (1990) Capernaum and its 'Jewish-Christians': A Re-examination of the Franciscan Excavations,Bulletin of the Anglo-Israel Archaeological Society, Volume 9, fls 7-28 
[14] Anders Runesson (2007), Architecture, Conflict, and Identity Formation, In Jurgen Zangenberg, Harold W Attridge e Dale Martin, Religion, Ethnicity, and Identity in Ancient Galilee: A Region in Transition, fl.242
[15] Cilliers Breytenbach (1997), Mark in Galilee: Text world and History World In Eric M Meyers: Galilee Through the Centuries: Confluence of Cultures, fl, 82-84
Pois de dia e de noite a tua mão pesava sobre mim; minha força foi se esgotando como em tempo de seca

Salmos 32:3,4
Enquanto escondi os meus pecados, o meu corpo definhava de tanto gemer.
Pois de dia e de noite a tua mão pesava sobre mim; minha força foi se esgotando como em tempo de seca

Salmos 32:3,4

Enquanto escondi os meus pecados, o meu corpo definhava de tanto gemer.
Pois de dia e de noite a tua mão pesava sobre mim; minha força foi se esgotando como em tempo de seca

Salmos 32:3,4Enquanto escondi os meus pecados, o meu corpo definhava de tanto gemer. Pois de dia e de noite a tua mão pesava sobre mim; minha força foi se esgotando como em tempo de seca

domingo, 25 de novembro de 2018

Samuel unge Davi. Painel interior da Sinagoga de Dura
Europos. Siria. Século III DC, via wikicommons
Em novembro de 2010, escrevendo sobre "o critério do constrangimento e da diferença e seus análogos fora da pesquisa histórica do Novo Testamento", foi utilizado como exemplo as narrativas integrantes da obra deutoronomista correspondente aos livros de Josué, Juízes, I e II Samuel e I e II Reis. A reflexão foi interessante, mas nunca tivemos a oportunidade de retornar a ela, mais ainda, nos seus próprios termos. O que vai abaixo é expansão daquelas reflexões, abordando alguns os artefatos arqueologicos associados a Israel e Judá, em dialogo com o texto bíblico. Mencionamos naquele post as Inscrições do Templo de Karnak, celebrando a campanha do Faraó Sisaque na Palestina, a Estela de Mesha, rei moabita que desafiou o rei de Israel, o prisma de Taylor, que narra o cerco do assírios ao Rei Ezequias, e acrescentaremos a Estela de Tel Dan, que menciona a casa de Davi. Inicialmente, pretendemos dois posts.

Uma preliminar importante é o uso da Bíblia como fonte histórica. Como exposto aqui no adcummulus anteriormente vamos ouvir com frequência os termos maximalista e minimalista, que descrevem uma postura geral dos estudiosos quanto a confiabilidade histórica dos textos bíblicos. Como observa o Professor Airton José da Silva, 
  "(...) controvérsia existente entre a postura maximalista que defende que tudo nas fontes que não pode ser provado como falso deve ser aceito como histórico e a postura minimalista que defende que tudo que não é corroborado por evidências contemporâneas aos eventos a serem reconstruídos deve ser descartado. [1]

Esclarecemos também, naquela ocasião,  a opção "maximalista" ou "minimalista" não necessariamente reflete a visão religiosa ou teológica do pesquisador (existem ateus e agnósticos identificados com os"maximalistas", como o arqueólogo William Dever; assim como existem judeus praticantes e cristãos minimalistas), e que tais tais definições demarcam os extremos. A esmagadora maioria dos arqueólogos, historiadores e biblistas se posiciona entre um e outro polo, combinando diferentes proporções das duas posturas, formando um espectro. É comum uma abordagem basicamente minimalista para alguns períodos (como os patriarcas, êxodo e conquista) e maximalista para outros (monarquia unida e reinos de Israel e Judá), sendo o foco da discussão deslocado para definir a "fronteira" em que se vai adotar cada uma das posturas. Assim, uma visão típica do "centro" do espectro considera que a obra deuteronomista foi concluída no reinado do Rei Josias, no final do século VII AC, mas que incorpora material de crônicas reais e sacerdotais e tradições populares, que sofreram um profundo processo de reinterpretação teológica. Assim, o deuteronomista nos daria corretamente o "fluxo geral" e um esboço dos acontecimentos históricos.


A invasão de Sisaque, 925 AC


Relevo da campanha de Sisaque, via wikicommon
No quinto ano do reinado de Roboão, Sisaque, rei do Egito, atacou Jerusalém. Levou embora todos os tesouros do templo do Senhor e do palácio real, inclusive os escudos de ouro que Salomão havia feito. Por isso o rei Roboão mandou fazer escudos de bronze para substituí-los, e os entregou aos chefes da guarda da entrada do palácio real. 28 Sempre que o rei ia ao templo do Senhor, os guardas empunhavam os escudos, e, em seguida, os devolviam à sala da guarda. Os demais acontecimentos do reinado de Roboão, e tudo o que fez, estão escritos nos registros históricos dos reis de Judá. Houve guerra constante entre Roboão e Jeroboão. (I Reis 14:25-29).
Sisaque foi faraó do Egito entre 943-922 AC, e  fundou a 22ª dinastia. Por volta do ano 930 AC, Sisaque (Sesac ou Sheshonk) invadiu a Palestina e, usando as palavras do texto bíblico "tomou as cidades fortificadas de Judá e chegou até Jerusalém (II Cronicas. 12:4). A expedição vitoriosa de Sisaque foi inscrita em pedra em um portal no Templo de Ramsés II em Karnak.

Mario Liverani, Professor de História do Antigo Oriente Médio da Universidade de Roma La Sapienza, detalha os efeitos da invasão



"O período "formativo" dos reinos de Judá e de Israel se encerra com um evento traumático: a expedição do faraó Sheshonq através de toda a Palestina (c 925 AC). O evento é conhecido seja pela inscrição do faraó sobre o Templo de Karnak (cf ANET, p. 242-243, 263-264), com uma longa lista das localidades atravessadas e conquistadas  ou eventualmente destruídas, seja pela breve notícia do livro de Reis (1 Reis 14:35-38;cf 2 Cr 12:1-12) sobre o tributo pago por Roboão de Judá. A campanha teria acontecido, portanto, depois da morte de Salomão, com os reinos de Judá e Israel já separados"[2]
Amihai Mazar, Professor de Arqueologia da Universidade Hebraica de Jerusalém, aborda os efeitos da invasão do ponto de vista arqueológico na região ao sul de Jerusalém:


Esses assentamentos na região montanhosa de Negueb foram provavelmente destruídos e abandonados como resultado da campanha militar do Faraó Sesac na região cinco anos após a morte de Salomão (...). A lista topográfica de Sesac, preservada nas paredes do templo de Amon em Karnak, inclui quase setenta nomes de lugares do Negueb. Alguns deles podem ser identificadas na área de Arad e Bersabéia, mas outros estavam talvez localizados mais ao sul, na região montanhosa do Negueb. O prefixo hgr aparece e é possivelmente uma transcrição egípcia do termo hebraico hagar, "cinturão' ou "recinto, que poderia ter designado as "fortalezas' de casamatas do Negueb. (...) [3]
Mazar continua, agora seguindo o rastro da expedição do faraó no norte e centro de Israel.
Já registramos o avanço pelo sul da campanha no Negueb; as operações do norte e no centro tiveram lugar na região montanhosa, o coração do território israelita. Sesac cruzou o Sefelá via Vale de Aialon e ascendeu a Cariat-Iarim e gabaon, ameaçando assim Jerusalém a partir do nordeste. Roboão, rei de Judá, evitou que a capital sofresse um sítio egípcio pagando um pesado tributo "Apoderou-se dos tesouros do templo do Senhor e dos tesouros do palácio real; ele levou tudo, inclusive todos os escudos de ouro que Salomão mandara fazer" (I Reis 14:26). O recém-nascido Reino do Norte, Israel, sofreu consideravelmente; a incursão de Sesac espalhou-se em arco desde gabaon até Betel, passando pelo Vale do Jordão e chegando até o vale de Jezrael. Ele então varreu a rota costeira histórica ("o caminho do mar") de Meguido até Gaza. Algumas das maiores destruições desse período podem ser atribuídas à campanha de Sesac: Tamna (Tel Batash, estrato IV), Gazer (Estrato VIII), Tell el-Mazar, Tell el-Hama, Tell el Sa'idiyeh (estes três sítios no Vale do Jordão), Meguido (Estrato IVB-VA), Tell Abu Hawân )(Estrato III), Tel Mevorakh (Estrato VII), Tel Michal e Tell Qasile (Estrato VIII). Aparentemente, Meguido foi só em parte destruída - pois o portão de seis câmaras parece ter continuado em uso n período seguinte, e Sesac erigiu lá uma estela da vitória, da qual um fragmento foi achada nas escavações.[3]
  Liverani atribui um significado político mais amplo a ação de Sisaque. A idéia seria revitalizar  as antigas reinvindicações egípcias de soberania na região, evocando o período a palestina era o quintal egípcio:


Se posto num mapa, o itinerário desenha uma espécie de grande S ao contrário, que evita tocar sistematicamente os territórios de Judá e de Israel, preferindo costea-los. O interesse parece se adensar sobre zonas planas (médio Jordão, planície de Yizre'el, planície costeira), zonas a qual o Egito se vangloriava de ter uma tradicional soberania, que se tornara agora teórica, mas que sheshonq procurava revitalizar com sua expedição. Se essa interpretação está correta, parece claro que os reinos de Judá e Israel estavam então não somente separados (ou já separados, como quer o texto bíblico, ou jamais unidos antes, como é também possível), mas ambos muito pequenos, em particular o reino de Israel estava ainda separado das tribos galiléias pela permanência do corredor "cananeu" na baia de Akko´ao médio Jordão.[4] 
Kenneth Kitchen, Professor de Egiptologia da Universade de Liverpool, observa que  Sisaque não  menciona explicitamente Jeroboão ou Roboão, bem como os reinos Judá e Israel, mas isso é usual neste tipo de inscrição [5]. (A Estela do Faraó Merneptah, de cerca de 1200 AC, declara que "Israel está destruído, e sua semente já não existe mais", atesta a presença de Israel, como um entre os vários povos (e cidades estado) na Palestina). Kitchen é da opinião que as fontes egípcias e hebraicas complementam-se mutuamente, apesar das profundas diferenças de composição.

A Estela de Mesha (Pedra Moabita), 847 AC


Estela de Mesha, Rei de Moabe, via wikicommons
Mesha, rei de Moabe, tinha muitos rebanhos e pagava como tributo ao rei de Israel cem mil cordeiros e a lã de cem mil carneiros. Mas, depois que Acabe morreu, o rei de Moabe rebelou-se contra o rei de Israel.  Então, naquela ocasião, o rei Jorão partiu de Samaria e mobilizou todo o Israel. Também enviou esta mensagem a Josafá, rei de Judá: “O rei de Moabe rebelou-se contra mim. Irás acompanhar-me na luta contra Moabe?” Ele respondeu: “Sim, eu irei. Serei teu aliado, os meus soldados e os teus, os meus cavalos e os teus serão um só exército”. E perguntou: “Por qual caminho atacaremos?” Respondeu Jorão: “Pelo deserto de Edom”. (II 3:4-8)

A Estela de Mesha ou Pedra Moabita é mantida no Museu do Louvre, em Paris, e foi descoberta em 1868, por Frederik Augustus Klein, em Dibon, atual Jordânia. O Reino de Moabe, junto com Amon e Edom, fazia fronteira com Israel e Judá. Quando Mesha assumiu o trono, Moabe era um reino vassalo de Israel. A estela é um relato de como ele reverteu esse estado de coisas com ajuda de Kemosh, deus de Moabe.


Eu Mesha, filho de Kemosh [...], Rei de Moabe, o dibonita – o meu pai reinou sobre Moabe 30 anos e eu reinei depois do meu pai – fiz este lugar alto para Kemosh, Qarhoh, porque ele me salvou de todos os reis e me fez triunfar de todos os meus adversários. No que toca a Omri, Rei de Israel, este humilhou Moabe durante muito tempo, porque Kemosh estava irritado com sua terra. E o seu filho seguiu-o e disse também: Hei de humilhar Moabe. No meu tempo ele o disse, mas eu triunfei sobre ele e a sua casa, enquanto Israel tinha perecido para sempre! Omri tinha ocupado a terra de Mádaba e Israel tinha habitado lá no seu tempo e durante metade do tempo do seu filho, por 40 anos; mas Kemosh habitou ali, no meu tempo. Eu construi Baal Meon, e nela construi um tanque. Eu construi Kirjathan. Os gaditas tinham habitado na terra desde tempos antigos, e o rei de Israel tinha constrido para si Ataroth. Eu guerriei, porém, contra a cidade e a tomei.
A inscrição nos informa que Moabe foi dominado pelo Reino de Israel do Norte, a partir do reinado de Omri, e que a situação perdurou sobre Acabe. Após a morte deste, Mesha se revoltou, e foi bem sucedido, recuperando os antigos territórios de Moab, e derrotando não só Israel, mas Edom, e Judá. 

Conforme o relato bíblico, os Reis de Israel, Judá e Edom marcharam contra Mesha, e o cercaram em sua capital, Dibon. Contudo, ao verem o Rei sacrificar seu próprio filho para Kemosh, ficaram ultrajados e se retiraram.

Professor Kenneth Kitchen, compara a versão de Mesha com o relato bíblico:


Here there is overlap with the Hebrew account, but also additional information(just as in Shoshenq's case) Both accounts agree in portraying the basic situation; namely, that the Omride Dynasty in Israel had suceed in imposing its overlordship upon Moab, turning the Moabite Kingdom into a tribute-paying vassal, and that for a clear span of years, not just the odd year or two. That situation began under Omri and contnued under Ahab until his death. But under Joram, the Moabite King rejected vassal status and rebelled. (TraduçãoAqui há sobreposição com o relato hebraico, mas também informações adicionais (assim como no caso de Shoshenq) Ambos relatos concordam em retratar a situação básica; ou seja, que a Dinastia Omrida em Israel tinha imposto sua soberania sobre Moabe, transformando o Reino Moabita em um vassalo pagador de tributo, e isso por um período de muitos anos e não apenas em ano ou dois . Essa situação começou sob Omri e contida sob Acabe até a sua morte. Mas sob Jorão, o Rei de Moabe rejeitou o status vassalo e rebelou-se. [5]
O movimento de Mesha deve ser analisado em um contexto mais amplo. Há indícios de mudanças profundas nas estruturas sociais e econômicas de Moabe, permitindo a Mesha acumular recursos para ser mais que um criador de rebanhos para os reis omridas. Mario Liverani aponta os resultados das escavações arqueológicas na região:


Houve um extraordinário desenvolvimento sóciopolítico pela metade do século IX, e a estela de Mesha (SSI I 16) fornece úteis indicações a ser integradas aos dados arqueológicos. Deve se presumir que durante a primeira metade do período do Ferro Moabe tenha tido uma estrutura tribal muito dispersa, que se coadunava bem com uma economia agropastoril praticada nas zonas mais favorecidas (...) Mas na epoca de Mesha completa-se um processo de unificação, induzido pelas necessidades de competir com os Estados mais fortes e organizados que tinham se formado a norte e a oeste. O fato é que o reino de Mesha se caracteriza pela unificação politica em torno da capital Dibon (...) a existência de capitais cantonais como Madaba, Atarot, Yahas, a construção de cidades fortificadas (...) [6].
Em 1994, O Professor André Lemaire, professor da Ecole Pratique des Hautes Etudes, propos a leitura da linha 32 da Estela como se referindo a Casa de David. Desde então, sua proposta tem alcançado significativa aceitação pelos estudiosos, tais como Kenneth Kitchen e Israel Finkelstein [7][8]. Seria também a primeira menção extrabíblica a Dinastia de David. 

Da mesma forma, a menção a Omri na estela de Mesha é uma das duas primeiras a reis israelitas em fontes extrabíblicas. Em 853 AC, Acabe, filho de Omri, é mencionado numa Estela de Salmaneser III, da Assíria, como um dos doze reis que teriam sido derrotados por ele na Batalha de Quarquar (os assírios reinvidicaram vitória, mas o embate foi provavelmente não conclusivo). Salmaneser relata que "Acabe, o Israelita" compareceu a batalha com um força considerável de 2 mil carruagens e  10 mil homens, representando um dos maiores exércitos da coalizão. Em conjunto, as inscrições evidenciam o grande poder da disnatia Omrida.


A Estela de Tel Dan, 840 AC


Estela de Tel Dan, Museu de Israel, via wikicommons
No décimo segundo ano do reinado de Jorão, filho de Acabe, rei de Israel, Acazias, filho de Jeorão, rei de Judá, começou a reinar. Ele tinha vinte e dois anos de idade quando começou a reinar, e reinou um ano em Jerusalém. O nome de sua mãe era Atalia, neta de Onri, rei de Israel. Ele andou nos caminhos da família de Acabe e fez o que o Senhor reprova, como a família de Acabe havia feito, pois casou-se com uma mulher da família de Acabe.Acazias aliou-se a Jorão, filho de Acabe, e saiu à guerra contra Hazael, rei da Síria, em Ramote-Gileade. Jorão foi ferido e voltou a Jezreel para recuperar-se dos ferimentos sofridos em Ramote[c], na batalha contra Hazael, rei da Síria.(II Reis 8:28-29)

Qualquer relação das maiores descobertas arqueológicas recentes, fará justiça a Estela de Tel Dan. Descoberta pelo Professor Avraham Abiram e sua equipe, em escavações no norte de Israel entre 1993 e 1994. A inscrição real é do século IX AC, e dela restaram três fragmentos. Embora o Rei que comissionou a estela não seja identificado, as informações constantes no artefato e contexto histórico apontam para Hazael, Rei da Síria.


(Quando) meu pai ficou doente e foi ao encontro dos seus (antepassados)o rei de Israel veio à terra de meu pai. Mas Hadad me fez rei, e Hadad veio até mim e eu parti dos sete [...] do meu reino e eu matei set[enta r]eis que tinham preparado mi[lhares de ca]rros e milhares de cavalos. [E eu matei Yeho]ram, filho [de Acabe], rei de israel e eu matei [ahaz]yahu, filho [de Yehoram r]ei da Casa de Davi. E eu levei [à ruína a cidade deles e] a terra deles á [ desolação].
Mario Liverani descreve o contexto imediato da inscrição:

A inscrição se une intimamente à narrativa de 2 Reis 8:28-29 (que ajuda a integrar os nomes parcialmente danificados), mas traz elementos novos em relação ao texto bíblico, Vê-se claro que o rei autor da inscrição de Tel Dan é Haza'el, Rei de Damasco, que depois da vitoria pode ocupar a cidade de Dan por tempo suficiente para erigir sua estela celebrativa. E é claro que a revolta de Yehu contra Yoram/Yehoram fazia parte da ofensiva damascena , tanto que Haza'el se vangloria de ter morto ele próprio o rei de Israel e de Judá, que o livro dos Reis relata como mortos por Yehu. Yehu, posto no trono por vontade de Haza'el ou pelo menos por contragolpe da vitória de Haza'el, iniciou, portanto, o seu reino como vassalo do Rei de Damasco.[9]

A inscrição é também importante na avaliação da natureza das relações dos reinos de Israel e Judá com seus vizinhos. Anos antes, como descrito acima, uma coalização de estados médios, em que os sírios e o rei Acabe de Israel aparecem de forma proeminente, haviam conseguido se opor, e possivelmente conter, o poderoso Império Assírio. Agora, Israel e Siria estão se confrontando. Enquanto isso, os reis de Israel e de Judá estão novamente em aliança, como no conflito moabita.


Obelisco Negro de Salmaneser III, Jeú oferece tributo ao Rei
da Assiria, Museu Britãnica, via wikicommons.
Direta ou indiretamente, Hazael provoca a ascensão de Jeú ao trono israelita. Se a intenção de Hazael, porém, era fazer amigos, logo se decepcionaria. Em pouco tempo Jeú entraria em confronto com os sírios. O obelisco negro de Salmaneser III, no Museu Britânico, apresenta cinco relevos em que vários governantes, dentre eles os reis do Egito e de Israel, oferecem tributo ao soberano assírio. Jeú é representado beijando os pés de Salmaneser (literalmente), com a seguinte inscrição: "O tributo de Jeú, da Casa de Omri; dele ganhei prata, uma taça de ouro, um vaso de ouro de pontas finas, copos de ouro, baldes de ouro, estanho, um cetro real e lanças". 

A submissão ao Rei Assírio, contudo, parece não ter beneficiado Jeú tanto assim, pois II Reis 10:32-33 nos diz:


Naqueles dias , o Senhor começou a reduzir o tamanho de Israel. O Rei Hazael conquistou todo o território israelita a leste do Jordão, incluindo toda a terra de Gileade (II Reis 10:32-34).
O livro de Reis atribui o fracasso final de Jeú ao fato de não ter "obedecido de todo o coração a lei do Senhor, Deus de Israel, nem se afastou dos pecados que Jeroboão levara Israel a cometer". O texto bíblico nos diz porém que em recompensa por sua atuação contra o culto de Baal, os descendentes de Jeú reinariam a até a quarta geração.

Professor Eric H Cline, da George Washington University, observa que apesar de ter sofrido com Hazael e Salmaneser III, Jeú (e Israel) teriam cerca de cem anos de alívio (ou cerca de quatro gerações).:


Jeú, entretanto, acabou se tornando um perdedor em dose dupla, pois se tornou vassalo pagador de impostos para um Salmanasar que, de outro modo, teria sido dominado e que, provavelmente, não perdeu muito o sono quando Hazael decidiu cobrar sua vingança e atacar Jeú e destruir o reino vassalo de Israel da Assíria (fig. 3.9). Depois de Salmanassar, a ameaça assíria diminiui por quase um século, o que permitiu que o reino do norte se recuperasse, mas a tregua seria apenas temporária [11]. 

Além do contexto imediato, a inscrição é um elemento importante para avaliação do legado de Davi. 

Conforme a avaliação do Professor Israel Finkelstein, da Universidade de Tel Aviv, a inscrição é relevante tanto no contexto histórico imediato:


Through fragmentary, this inscription offered a unique perspective on the turbulent politics of the region in the ninth century B.C.E. It describes from the aramean perspective , the territorial conflict between Israel and Damascus in the ninth century B.C.E and records how an Aramean king (Hazael) launched a punishing offensive against his southern enemies (ca 840 B.C.E) in which, so he claimed - he killed the king of Israel and his ally, the king "House of David (or bytdwd). (Tradução)  Ainda que fragmentária, a inscrição oferece uma perspectiva única sobre a política turbulenta da região no século IX AC. Descreve a partir da perspectiva araméia, o conflito territorial entre Israel e Damasco no nono século AC e registra como um rei arameu (Hazael) lançou uma ofensiva punitiva contra seus inimigos do sul (cerca 840 AC) na qual, ele alegou - ter matado o rei de Israel e seu aliado, o rei da "Casa de Davi (ou bytdwd)[11].
Quanto como evidência do legado de Davi, como fundador de uma dinastia real.

This was the first time that the name "david" was found in any contemporary source outside Bible, in this case only about a century after his lifetime. Moreover, it most probably specified the names of the two later kings - Joram of Israel and Ahaziah of Judah - both of whom are mentioned in the biblical text. Most significantly, Hazael employed a common idiom of his time by naming a state (Judah) after the founding of its ruling (or dominant) dinasty, bytdwd - just as the Assyrian labeled the "Northern Kingdom as the "House of Omri" or bit omri. (tradução)  Esta foi a primeira vez que o nome" david "foi encontrado em qualquer fonte contemporânea fora da Bíblia, neste caso, apenas cerca de um século após sua vida. Além disso, ele provavelmente especificou os nomes de dois reis mais recentes - Jorão de Israel e Acazias de Judá - ambos mencionados no texto bíblico. Muito significativamente, Hazael empregou uma expressão idiomática de seu tempo nomeando um estado (Judá) em função de sua dinastia governante (ou dominante), bytdwd - assim como os assírios chamaram o reino do norte como a" Casa de Omri" ou bit omri.[11]
A prática usual daquele contexto, era nomear o reino pelo fundador da casa dominante. Ao chamarem o Reino de Judá como "Casa de Davi", Hazael entende que havia um Rei Davi que fundou aquele Reino. Não é uma informação direta sobre Davi e a natureza de seu reino, mas é forte evidência de seu legado, cercade 3 ou 4 gerações após sua morte. Das dezenas de reis que Hazael se vangloria de ter derrotado, ele devota espaço especial em sua inscrição aos reis de Israel e da Casa de Davi.

Maxi e Mini, a obra deutoronomista como fonte histórica.
A Morte do Rei Saul, Elie Marcuse, wikicommons

Desta forma, apresentamos acima vários momentos em que a evidência arqueológica acompanha o relato biblico, coincidindo em pessoas, eventos e tempo. Existem, porém, situações em que não foram encontradas evidências externas de eventos bíblicos, ou esta é contraditória, como a peregrinação no deserto e a conquista de Jericó e Ai. Além disso, muitos sítios com abundante material arqueológico tem limitada possibilidade de escavação, por serem grandes centros urbanos (ex. Jerusalém), além de guerras (Síria) e o tráfico de material arqueológico, que impede que artefatos sejam localizados em sítios sujeitos a escavações controladas cientificamente.

Israel Finkelstein tem sido bastante crítico contumaz do uso da arqueologia para "provar" a Bíblia. No Brasil, seu livro "The Bible Unearthed", foi traduzido como "A Bíblia não tinha razão". Contudo, ele é igualmente crítico da rejeição da obra deuteronomista como fonte, entendendo que é sim uma fonte rica de material histórico. 

Primeiro, ele compara os padrões de assentamento observados nas escavações arqueológicas com as vilas, cidades e distritos mencionadas no texto bíblico:


Archaelogicals excavations and surveys have confirmed that many of the Bible's geographical listings - for example, of the boundaries of the tribes and the districts of the kingdom - closely match settlement patterns and historical realities in the eight and seventh centuries B.C.E.(traduçãoEscavações e levantamentos arqueológicos confirmaram que muitas das listas geográficas da Bíblia - por exemplo, dos limites das tribos e dos distritos do reino - correspondem de perto aos padrões de assentamentos e realidades históricas nos séculos VIII e VII B.C.E.[11]
Em seguida, compara as fontes extrabíblicas, como as inscrições assírias, sírias, moabitas  etc..., citando o trabalho de Baruch Halpern, da Universidade da Georgia:
Baruch Halpern showed that a relatively large number of extra-biblical historical records - mainly Assirian -  verify ninth to seventh-century B.C.E events described in the Bible: the mention of Omri in Mesha Stele, those of Ahab and Jehu in the Shalmameser III inscriptions, Hezekiah in the inscriptions of Sennacherib, Manasseh in the records of Esarhaddon ans Ashurbanipal, and so on.(TraduçãoBaruch Halpern mostrou que um número relativamente grande de registros históricos extra-bíblicos - principalmente Assirianos - verifica os eventos do nono ao sétimo século aC descritos na Bíblia: a menção de Omri em Mesha Stele, os de Acabe e Jeú nas inscrições de Shalmameser III, Ezequias nas inscrições de Senaqueribe, Manassés nos registros de Esarhadom e Assurbanipal, e assim por diante.[11]
E, por fim, a evidência linguistica, em que Finkelstein cita o Professor Avi Hurwitz, da Universidade Hebraica de Jerusalém:


No less significant is the fact, as indicated by the linguist Avi Hurwitz, that much of the Deutoronomistic History is written in late-monarchic  Hebrew, which is different of Hebrew of post-exilic times.(Tradução) Não menos significativo é o fato, como indicado pelo linguista Avi Hurwitz, de que grande parte da História Deutoronomista é escrita em hebraico tardio monárquico, que é diferente do hebraico dos tempos pós-exílicos[11]
Pontos semelhantes são enfatizados pelo Professor James D'Avila, da Universidade de Saint Andrews, fazendo uma comparação heurística da obra deutoronomista em comparação com a obra do historiador antigo Herodoto, de um lado, e Geoffrey de Monmouth, que basicamente é um relato legendário do ciclo arturiano :
The evidence seems pretty clear to me that the Dtr is more like Herodotus' work than Geoffrey's. There is good reason to doubt much of the account of the United Monarchy under David and Solomon. Archaeological survey points toward a small population in Judah and against a state apparatus that could have supported the sort of empire described for David and Solomon. (The new excavation in Jerusalem may or may not change this perspective. It's too early to tell.) If there was a Temple built in the time of Solomon, it probably was a more modest building than what is described and which seems to have been the template for the later temples in Judah, Elephantine, and perhaps Samaria. (TraduçãoA evidência parece bastante clara para mim que o Dtr é mais parecido com o trabalho de Heródoto do que o de Geoffrey. Há boas razões para duvidar muito do relato da monarquia unida sob Davi e Salomão. Levantamentos arqueológicos apontam para uma pequena população em Judá e contra um aparato estatal que poderia ter apoiado o tipo de império descrito por Davi e Salomão. (A nova escavação em Jerusalém pode ou não mudar essa perspectiva. É muito cedo para dizer.) Se houvesse um templo construído na época de Salomão, provavelmente seria um edifício mais modesto do que o descrito e que parece ter sido o modelo para os últimos templos em Judá, Elefantina e talvez Samaria.
Apontando os vários sincronismos e confirmações com a evidência extrabíblica e arqueológica:
 All this said, the writer of the Dtr did have some good information. Quite a number of the kings of Israel and Judah are mentioned in outside sources, and in the Dtr they always appear in the proper order, at the proper time, and in relation to the proper figures in the larger ancient Near Eastern world. A few of the episodes, such as the Egyptian King Shishak's invasion of Judea in the time of Rehoboam; the destruction of Samaria by the Assyrian King Sargon II; the Assyrian King Sennacherib's invasion of Judea in the time of Hezekiah; and the Babylonian King Nebuchadnezzar's conquest of Jerusalem, receive independent verification from extrabiblical inscriptions. And the writer knows a good many details that show that some of the sources used were pretty good. For example, the denominations of weights used for commerce which are mentioned casually in the Dtr do correspond closely to the (sometimes inscribed) weights actually excavated in Judah, only in the late Iron Age II. (TraduçãoTudo isso dito, o escritor do Dtr teve acesso a algumas boas informações. Um grande número de reis de Israel e Judá é mencionado em fontes externas, e no Dtr eles sempre aparecem na ordem apropriada, no tempo apropriado, e em relação às figuras apropriadas no mundo antigo do Oriente Médio. Alguns dos episódios, como a invasão da Judéia pelo rei egípcio Sisaque na época de Roboão; a destruição de Samaria pelo rei assírio Sargão II; a invasão da Judéia do rei assírio Senaqueribe na época de Ezequias; e a conquista de Jerusalém pelo rei babilônico Nabucodonosor recebe uma verificação independente das inscrições extra-bíblicas. E o escritor conhece muitos detalhes que mostram que algumas das fontes usadas foram muito boas. Por exemplo, as denominações de pesos usadas para o comércio que são mencionadas casualmente no Dtr correspondem de perto aos pesos (por vezes inscritos) realmente escavados em Judá, apenas no final da Idade do Ferro.

Continua

Referências Bibliográficas:

[1] Airton José da Silva: "Os Minimalistas: Pode uma história de Israel ser escrita" https://airtonjo.com/site1/minimalistas.htm, acessado em 24/11/2018.
[2] Mario Liverani (2003) Para Além da Bíblia, História Antiga de Israel, fl. 137
[3] Amihai Mazar (1990) Arqueologia na Terra da Bíblia: 10000-586 AC, fls 383-385.
[4] Mario Liverani (2003) Para Além da Bíblia, História Antiga de Israel, fl. 139
[5] Kenneth Kitchen (2003) On the Reliability of the Old Testament, fls. 34-36
[6] Mario Liverani (2003) Para Além da Bíblia, História Antiga de Israel, fl. 175
[7] Kenneth Kitchen (2003) On the Reliability of the Old Testament, fl. 35
[8] Israel Finkelstein e Neil Sibermann (2002) The Bible Unearthed, fl 129
[9] Mario Liverani (2003) Para Além da Bíblia, História Antiga de Israel, fl. 151-152.
[10] Eric Cline e Mark W Graham (2011), Impérios Antigos: Da Mesopotâmia à Origem do Islã, fl. 107.
[11] Israel Finkelstein, Digging for the truth: Archaelogy and the Bible, In Schimdt (2007) The Quest for the Historical Israel, fl. 14
[12] James D'Avila (2005) "Evidence for the first ("Solomonic") Temple", post de 12/08/2005, http://paleojudaica.blogspot.com/2005_08_07_archive.html, acessado em 24/11/2018.

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