Estudos sobre Religião - Biblioblog

terça-feira, 29 de setembro de 2026






21–27 de setembro de 2026

A semana que passou reuniu textos sobre Paulo, Jesus, judaísmo do Segundo Templo, cristologia, intertextualidade, arqueologia, manuscritos, história de Israel e cultura material. São temas diferentes, trabalhados a partir de perspectivas igualmente diversas, mas que, quando aproximados, revelam uma preocupação comum: compreender como reconstruímos o passado a partir de documentos que sobreviveram de maneira fragmentária e de tradições que foram continuamente recebidas, transformadas e reinterpretadas.

A edição desta semana acompanha esse movimento sem procurar reduzir os textos a uma única chave interpretativa. O interesse está nas relações que surgem entre eles: a maneira como a autoridade é construída e contestada dentro das comunidades, como a identidade de Jesus é interpretada dentro do horizonte judaico, como textos posteriores reelaboram tradições anteriores, como manuscritos condicionam nossa reconstrução histórica e como a arqueologia transforma vestígios materiais em narrativas sobre sociedades antigas.

A seleção principal respeita a janela de 21 a 27 de setembro de 2026. Ao final, acrescentamos ainda dois materiais recentes da FAJE, publicados ou realizados anteriormente no mês, mas que merecem registro pelo interesse que apresentam para nossas pesquisas. A distinção cronológica é mantida deliberadamente: os materiais da FAJE são apresentados como acréscimos recentes, e não como itens pertencentes à semana propriamente dita.


01 — Paul B. Duff

Paul’s Relationship with the Corinthians

Bible Interpretation — setembro de 2026

Paul B. Duff retoma a relação entre Paulo e a comunidade de Corinto a partir das cartas, das visitas e dos conflitos que marcaram a trajetória dessa comunidade. O problema envolve uma correspondência provavelmente mais extensa do que aquela preservada no cânon, diferentes momentos de tensão e a contestação da autoridade paulina por grupos ou indivíduos dentro da comunidade. A reconstrução proposta procura acompanhar a relação entre Paulo e os coríntios como uma história concreta de autoridade, conflito, negociação e recomposição.

O interesse histórico está justamente na necessidade de reconstruir essa relação sem transformar as cartas em uma narrativa contínua já pronta. Cada documento possui sua própria situação comunicativa, e a sequência dos acontecimentos precisa ser reconstruída a partir de evidências que não foram preservadas como uma cronologia completa. O resultado é necessariamente uma reconstrução argumentada, e não uma transcrição direta dos acontecimentos.

Para o AD CUMMULUS, a discussão toca problemas que atravessam a Tetralogia, sobretudo a relação entre autoridade, comunidade, conflito e legitimação. Paulo aparece aqui menos como personagem isolado e mais como agente inserido em uma disputa concreta pela determinação da comunidade.

Bible Interpretation — Paul’s Relationship with the Corinthians


02 — Jason A. Staples

Did Jesus Heal the Centurion’s Son, Slave, or Lover?

Jason Staples — 21 de setembro de 2026

Jason A. Staples examina a diferença entre Mateus e Lucas no episódio da cura do servo do centurião e concentra sua análise na ambiguidade do termo grego παῖς (pais, jovem, criança ou servo). A discussão procura determinar o que pode ser estabelecido linguisticamente e narrativamente a respeito da pessoa que recebe a cura, evitando transformar uma possibilidade semântica em conclusão histórica automática.

O episódio possui uma importância particular porque reúne vários elementos que nos interessam: autoridade, cura, comando, reconhecimento e relação com o mundo romano. A autoridade do centurião é apresentada mediante uma linguagem de comando que remete à estrutura militar, enquanto a autoridade de Jesus aparece no relato pela capacidade de produzir a cura sem a necessidade de contato físico. A narrativa, portanto, não apresenta simplesmente uma cura, mas uma confrontação entre diferentes formas de autoridade.

Para nossa pesquisa sobre o pacote messiânico, o texto é especialmente útil porque permite observar a cura não como atividade isolada, mas dentro de uma configuração narrativa em que autoridade, doença, reconhecimento e restauração se articulam.

Jason A. Staples — Did Jesus Heal the Centurion’s Son, Slave, or Lover?


03 — James F. McGrath

Exalting Jesus—Did Early Christians Abandon Monotheism?

TheTorah.com — publicado em 17 de setembro; atualizado em 22 de setembro de 2026

James F. McGrath examina a exaltação de Jesus no cristianismo primitivo dentro do horizonte do monoteísmo judaico. O estudo questiona uma oposição demasiado simples entre “monoteísmo judaico” e “divinização cristã”, chamando atenção para tradições judaicas anteriores nas quais reis, agentes e representantes celestes podiam participar de formas especiais da autoridade divina.

O problema histórico não é apenas estabelecer se os primeiros cristãos continuaram ou abandonaram o monoteísmo, mas compreender como a identidade e a autoridade de Jesus foram formuladas dentro de um ambiente judaico no qual já existiam diferentes maneiras de falar sobre a ação de Deus por meio de agentes humanos ou celestes. Essa perspectiva impede que a cristologia seja retirada prematuramente do ambiente intelectual e religioso do judaísmo do Segundo Templo.

A discussão é particularmente próxima de REINO e LOGOS, porque toca diretamente a relação entre soberania, autoridade delegada, messianismo e identidade de Jesus. A questão decisiva permanece histórica: quais categorias estavam disponíveis aos primeiros grupos cristãos e como eles as combinaram para produzir afirmações novas sobre Jesus?

TheTorah.com — Exalting Jesus—Did Early Christians Abandon Monotheism?


04 — Lauren K. McCormick

Rings Before Marriage in Hellenistic Jerusalem?

Biblical Archaeology Society — 21 de setembro de 2026

Lauren K. McCormick apresenta um conjunto de objetos encontrados nas escavações do estacionamento de Givati, em Jerusalém, incluindo anéis de ouro, um brinco de ouro, uma conta de ouro e brincos de bronze. O material foi associado ao final do século III ou ao início do século II a.C. e levantou a hipótese de uma relação entre alguns desses objetos e práticas votivas ou rituais ligados a momentos de transição na vida.

A própria formulação interrogativa do título é importante. Os objetos constituem evidência material; a interpretação de que poderiam estar relacionados a práticas matrimoniais ou a determinadas etapas da vida permanece uma hipótese. O intervalo entre aquilo que o objeto demonstra e aquilo que podemos reconstruir a partir dele precisa permanecer visível.

O achado interessa ao estudo do judaísmo do Segundo Templo porque oferece uma pequena evidência material de práticas sociais em Jerusalém durante o período helenístico. Também demonstra como a arqueologia trabalha: um conjunto relativamente pequeno de objetos pode abrir uma hipótese histórica significativa, mas não elimina a necessidade de controles independentes.

Biblical Archaeology Society — Rings Before Marriage in Hellenistic Jerusalem?


05 — Todd Bolen

Who Conquered Samaria? Reconstructing the Northern Kingdom’s Final Years

Bible Interpretation — setembro de 2026

Todd Bolen retorna aos últimos anos do Reino do Norte e ao problema da queda de Samaria. A discussão envolve o cerco iniciado durante o reinado de Salmanasar V, a prisão de Oseias, a destruição da cidade e as reivindicações posteriores de Sargão II. A documentação assíria e o relato de 2 Reis precisam ser colocados em relação sem que um documento seja utilizado simplesmente para confirmar o outro.

A questão é exemplar para a reconstrução histórica. As fontes imperiais possuem suas próprias convenções de representação e propaganda; a narrativa bíblica possui igualmente sua arquitetura literária e teológica. Nenhuma das duas pode ser utilizada como uma janela transparente para o acontecimento. O trabalho consiste em estabelecer o que cada testemunho efetivamente permite reconstruir e onde começam as inferências.

O texto também recupera uma questão central para o AD CUMMULUS: uma derrota política pode ser historicamente determinada sem que sua interpretação posterior seja determinada pelo mesmo acontecimento. A queda de Samaria, como acontecimento, e sua memória histórica, como processo interpretativo, pertencem a níveis relacionados, mas não idênticos.

Bible Interpretation — Who Conquered Samaria?


06 — Raz Kletter

Past Perfect? The Archaeologies of Mandate Palestine 1917–1948

Bible Interpretation — setembro de 2026

Raz Kletter examina as arqueologias produzidas na Palestina durante o período do Mandato Britânico, entre 1917 e 1948. O interesse do estudo não está apenas nas escavações realizadas, mas nas instituições, interesses e modelos interpretativos que participaram da construção do conhecimento arqueológico sobre a Palestina.

A questão possui consequências metodológicas importantes. O objeto arqueológico não chega ao presente acompanhado de seu significado original. Ele passa por processos de escavação, classificação, conservação, publicação e interpretação. Cada etapa pode preservar informações e, ao mesmo tempo, selecionar aquilo que será posteriormente reconhecido como relevante.

Para o AD CUMMULUS, esse problema ultrapassa a arqueologia. Ele toca diretamente a relação entre vestígio, autoridade interpretativa e construção do passado. A crítica histórica não deve apenas perguntar o que uma evidência demonstra, mas também investigar as condições pelas quais determinada evidência chegou a ocupar a posição de evidência.

Bible Interpretation — Past Perfect? The Archaeologies of Mandate Palestine 1917–1948


07 — Jona Lendering

Een bijzondere scherf

Mainzer Beobachter — 23 de setembro de 2026

Jona Lendering apresenta uma pequena peça cerâmica com inscrição aramaica encontrada na região de Krefeld, nas proximidades do antigo forte romano de Gelduba, no Reno. A inscrição, associada a um contexto romano, constitui um pequeno testemunho da presença e circulação de língua e escrita aramaicas em um ambiente distante do Levante.

O interesse do objeto está precisamente em sua dimensão limitada. Uma inscrição isolada não permite reconstruir uma comunidade inteira nem estabelecer automaticamente as circunstâncias de circulação de seu autor. Ela pode, entretanto, acrescentar uma evidência concreta à história da mobilidade de pessoas, línguas e práticas escritas dentro do mundo imperial romano.

Para uma investigação histórica, pequenos vestígios como esse possuem uma virtude particular: obrigam a manter proporcionalidade entre evidência e conclusão. O objeto pode ser significativo sem precisar sustentar uma narrativa maior do que aquilo que efetivamente permite demonstrar.

Mainzer Beobachter — Een bijzondere scherf


08 — Explorator 28.40

Explorator 28.40 — September 27, 2026

Explorator — 27 de setembro de 2026

A edição 28.40 do Explorator reúne notícias e referências arqueológicas publicadas durante a semana, funcionando menos como um estudo individual e mais como um mapa de prospecção para novas pesquisas. Entre os assuntos destacados aparecem novas descobertas relacionadas ao mundo romano, conservação arqueológica e trabalhos em Jerusalém e nas proximidades do Monte do Templo.

Para o RADAR, esse tipo de publicação possui uma função específica. Nem toda notícia arqueológica merece imediatamente um lugar como evidência histórica consolidada, mas o acompanhamento sistemático dessas descobertas permite identificar materiais que posteriormente poderão adquirir importância documental. A diferença entre notícia, hipótese arqueológica, publicação preliminar e estudo consolidado precisa permanecer clara.

O Explorator entra, portanto, como instrumento de prospecção bibliográfica e arqueológica. Seu valor para nossa pesquisa está menos em uma tese específica do que na possibilidade de acompanhar o fluxo de novas evidências e localizar investigações que mereçam leitura posterior.

Explorator — September 27, 2026




FAJE — materiais recentes que merecem atenção

Como complemento ao conjunto principal desta edição, vale registrar dois materiais da Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE). Eles não pertencem à janela estrita de 21–27 de setembro de 2026. Sua inclusão ao final do RADAR tem, portanto, uma função diferente: registrar materiais recentes publicados ou realizados durante setembro que apresentam interesse específico para nossas pesquisas.


09 — José Ademar Kaefer

A missão de Udjahorresnet e missão de Esdras: a razão de seus envios pelo rei persa

Perspectiva Teológica — 31 de agosto de 2026

José Ademar Kaefer compara a missão de Udjahorresnet, sacerdote e escriba egípcio associado ao período persa, com a missão atribuída a Esdras. O estudo coloca em diálogo a documentação relacionada a Udjahorresnet com textos bíblicos como Ageu, Zacarias, Malaquias e Esdras, procurando compreender as razões políticas e religiosas pelas quais determinados agentes foram enviados pelo poder imperial para atuar em contextos de conflito e reorganização.

A comparação é especialmente interessante para o AD CUMMULUS porque aproxima autoridade imperial, missão, conflito religioso e reorganização comunitária. A analogia, naturalmente, não deve ser transformada em identidade histórica entre os dois casos. Seu valor está na possibilidade de testar se estruturas comparáveis de autoridade e delegação podem ser identificadas em contextos históricos distintos e quais são os limites dessa comparação.

O artigo foi publicado em 31 de agosto de 2026, portanto antes da janela temporal desta edição. Ele aparece aqui como acréscimo de setembro ao nosso monitoramento de produção acadêmica brasileira, e não como item pertencente à semana de 21–27 de setembro.

Perspectiva Teológica — A missão de Udjahorresnet e missão de Esdras


10 — FAJE

O Livro de Daniel

FAJE — 1º de setembro de 2026

A FAJE realizou, em 1º de setembro de 2026, uma atividade dedicada ao Livro de Daniel, dentro da programação do mês da Bíblia. Trata-se de uma atividade de formação, e não de um artigo científico; por essa razão, sua presença nesta edição possui estatuto diferente dos textos acadêmicos selecionados no corpo principal do RADAR.

Ainda assim, o material merece registro porque Daniel ocupa posição central em diversos problemas que estamos investigando em REINO: soberania imperial, sucessão dos reinos, julgamento, escatologia e a figura do Filho do Homem. O interesse para nossa pesquisa está, portanto, menos no formato da atividade e mais no lugar que Daniel ocupa no campo temático que estamos acompanhando.

Também aqui a ressalva cronológica é importante. A atividade ocorreu em 1º de setembro, quase três semanas antes da janela principal desta edição. Sua inclusão não pretende alterar o critério temporal do RADAR, mas registrar um material recente da FAJE que merece permanecer em nosso campo de acompanhamento.

FAJE — programação sobre o Livro de Daniel


O mapa da semana

Os textos desta edição não pertencem a uma mesma escola nem respondem a uma única questão. Sua proximidade aparece em outro lugar. Todos, de maneiras distintas, lidam com a distância entre uma tradição antiga e aquilo que hoje conseguimos conhecer dela.

Essa distância aparece quando diferentes tradições sobre Jesus precisam ser comparadas sem que uma reconstrução prévia determine quais delas podem ser consideradas históricas. Aparece quando a identidade de Jesus é examinada dentro do horizonte do monoteísmo judaico, quando uma narrativa joanina mobiliza convenções literárias anteriores ou quando paralelos entre diferentes literaturas levantam hipóteses que precisam ser distinguidas de demonstrações de dependência.

Ela também aparece na materialidade. Os documentos que chegaram até nós são apenas uma parcela daquilo que comunidades antigas produziram, conservaram, transportaram ou perderam. A data de um manuscrito pode alterar nossa compreensão de sua circulação; a procedência de um fragmento pode modificar sua posição na história do cânon; um objeto arqueológico pode preservar uma prática sem permitir, sozinho, reconstruir todo o sistema simbólico em que essa prática estava inserida.

A própria história da arqueologia acrescenta outra camada ao problema. O passado não chega ao presente apenas como vestígio bruto. Ele passa por escavações, classificações, instituições, publicações, museus, modelos interpretativos e disputas de significado. O trabalho histórico precisa considerar tanto aquilo que uma evidência preserva quanto as condições pelas quais ela se tornou disponível para nossa investigação.

No fundo, a semana reuniu pesquisadores interessados em uma mesma dificuldade histórica: nunca recebemos o passado diretamente. Recebemos textos, manuscritos, fragmentos, tradições literárias, inscrições, objetos, testemunhos arqueológicos e interpretações posteriores. Cada vestígio preserva alguma coisa e, ao mesmo tempo, deixa outras coisas fora de alcance.

Essa condição não diminui a possibilidade de investigação. Torna mais rigoroso o trabalho de reconstrução. Quanto mais claramente distinguimos o documento da interpretação, a semelhança da dependência, a tradição da sua reconfiguração e o vestígio daquilo que imaginamos ter existido, mais precisa se torna nossa relação com o passado.

As tradições sobrevivem, mas nunca permanecem exatamente iguais àquilo que foram. Elas passam por comunidades, textos, manuscritos, leitores e disputas de interpretação. Algumas partes são preservadas; outras desaparecem. Algumas são retomadas em novos contextos; outras só podem ser percebidas por meio de vestígios fragmentários. O trabalho histórico começa quando prestamos atenção a essas diferenças. E continua porque aquilo que sobreviveu nunca é tudo o que existiu.

Leia Também

  • Carregando sugestões...

Pesquisar este blog