Estudos sobre Religião - Biblioblog

segunda-feira, 12 de outubro de 2026

Em nossa série sobre a difusão e capilaridade do cristianismo, falamos não da sua expansão na sociedade romana, dos primeiros convertidos da elite no século I, chegando na própria "Casa de César", atingindo libertos influentes da Casa Imperial, no final do século seguinte,  entre a burocracia imperial e o exército, na (possível) conversão precoce da corte do Rei Abgar VIII, no início do século III, e do Reino de Aksum (Etiópia), no século IV. Neste post, o assunto será a conversão dos antigos Reinos da Colquida (ou Lazica) e Ibéria (que compõem a atual Georgia), um dos primeiros estados a se converter ao cristianismo.

A Conversão da Georgia (Ibéria) 

A Georgia se localiza no Cáucaso, e faz fronteira com a Rússia, Turquia, Armênia e Azerbaijão. Anexada em 1801 ao Império Russo, foi uma das repúblicas da antiga URSS, até sua dissolução, em 1991, se tornando novamente independente. Na antiguidade, em linhas gerais, a parte ocidental, as margens do Mar Negro, formava o antigo Reino da Colquida, enquanto a parte central e oriental constituíam o Reino da Ibéria (ou Kartli). 

Na Cólquida, havia colônias gregas nas margens do Mar Negro, e algumas fortalezas romanas. O território foi reorganizado por Roma no ano 131, sob o nome de Lazica, que, na prática, era uma confederação de tribos, sem um estado centralizado.

Na Ibéria, de forma mais ou menos paralela a conversão de Constantino I, no Império Romano, da Armênia, com Tiridates III, e de Aksum (Etiópia), com Ezana, o Rei Miriam III (ou Meribanes III) declarou a conversão de seu país ao cristianismo por volta do ano 330 DC (há debate se no ano 337, 326 ou 319, conforme veremos a seguir). Naquele tempo, a Ibéria era um dos pequenos reinos que se localizava entre duas superpotências, o Império Romano e o Império Sassânida (atual Irã). A casa real a qual pertencia o Rei Miriam, os Cosroídas, descendia de nobres iranianos. Na metade do século III DC, a Ibéria se submeteu a suserania dos Sassânidas, mas isso foi revertido em 299 DC, através da Paz de Nisibis, em que as duas potências reconheceram o domínio romano sobre a região (que perdurou até o ano 363). Sendo assim, a Ibéria era governada, por ocasião de sua conversão, por uma casa real de origem iraniana que foi trazida a esfera de influência dos imperadores romanos. No período, Roma passou de promotora de uma grande perseguição ao cristianismo, para imperadores que abertamente o favoreciam. No período anterior, sobre influência persa, a Ibéria foi objeto de ampla atuação de missionários zoroastristas. A esse pano de fundo, se somam os relatos e evidências materiais muito anteriores da expansão orgânica do cristianismo na região, inicialmente na Cólquida. 

Professora Fracoise Thelamon (Universidade Rouen), resume os eventos que levaram a conversão dos reinos do Cáucaso, e a evangelização da Georgia em particular.

A despeito de uma tradição que atribui ao apóstolo André a evangelização da Georgia Ocidental, ignora-se como ela se iniciou; um bispo de Pitionte, no mar Negro, esteve presente no Concílio de Niceia, e vestígios de igrejas do século V foram encontrados. O sul da região, assim como a Albânia, a leste (Azerbaijão), foram alcançados por missionários enviados por Gregório, o Iluminador, e por outros vindos da Síria. Mas foi nas primeiras décadas do século IV, sob Constantino ou pouco depois da sua morte, em 337 ou 338, que a Ibéria do Cáucaso (Geórgia central e oriental) foi convertida ao cristianismo. Os georgianos chamam de Kartli esse reino de que Mtskheta (a oeste de Tbilisi) era a capital. Sua sorte estava ligada às lutas entre romanos e persas. No início do século IV, está sob protetorado dos romanos, que nomeiam o rei.  

Enquanto as fontes escritas georgianas são todas muito posteriores, a mais antiga relação escrita da conversão dos iberos foi redigida em latim, em 402-403, pelo historiador Rufino de Aquiléia, segundo o testemunho do personagem ibero Bacurius (Bacur) então oficial do exército romano: uma mulher "cativa" - deve-se entender "cativa de Deus" ou "cativa de Cristo", e não "prisioneira de guerra" - revela o nome do Deus que ela venera e que efetua as curas por seu intermédio: Cristo. A rainha, depois o rei e, por eles, o povo se convertem [1] .

 

Reinos da Colquída e Ibéria (atual Georgia), 150 AC a 600 DC, via wikicommons

Como veremos a seguir, há evidências da chegada do cristianismo no reino da Ibéria no século II e III, sendo cristãos locais mencionados em documentos da religião maniqueista, bem como a existência de tumbas cristãs. Entretanto, no reino ocidental (Colquída), a presença cristã é ainda mais atestada, associada a colônias gregas nas costas do Mar Negro, sendo relacionados bispos da região entre os participantes do Concílio de Nicéia (325 DC). 

Fontes literárias

O relato disponível mais antigo da conversão da Ibéria/Georgia foi feito na História Eclesiástica de Rufino de Aquiléia, entre os anos 401-402 DC. Rufino traduziu os 10 livros da História Eclesiástica de Eusébio de Cesareia para o latim, convertendo em 9 livros. Faz isso omitindo boa parte do livro X da obra original e incluindo o restante no livro IX.  Rufino então acrescenta os livros X e XI, que descrevem  os eventos ocorridos após a conclusão da História de Igreja de Eusébio até a morte de Teodósio (ano 395), cobrindo cerca de 70 anos. 

Entre os fatos novos, estão a conversão da Ibéria. Rufino tem como fonte Bacúrio (morto ano 394), membro da família real Ibera e general respeitado do exército romano, que havia combatido em batalhas como Adrianópolis comandando tropas de cavalaria (conforme Amiano Marcelino), e que ele havia conhecido alguns anos antes servindo como comandante militar na Palestina. É possível que outra fonte seja a História de Gelasio de Cesareia (335-395 DC), escrita cerca de 20 anos antes, mas dos quais apenas fragmentos chegaram aos nossos dias.   

Rufino em seu relato da "conversão dos ibérios, que viviam na região no Ponto", através de uma "mulher cativa" (não cita seu nome): 

Uma mãe desesperada levou seu filho moribundo até ela, perguntando-lhe se conhecia algum remédio para sua doença. Ela respondeu que não conhecia remédio humano, mas declarou que Cristo, seu Deus, a quem adorava, poderia conceder a cura que os homens julgavam impossível. E, depois de colocar a criança sobre o seu cilício e elevar ao Senhor a sua oração, devolveu o bebê à mãe, restabelecido em sua saúde. [2] 

A notícia se espalhou e chegou a Rainha Nana, que estava desenganada, a ponto de morrer. Nana foi até a cabana da "mulher cativa" e

Tendo-a colocado também sobre o seu cilício e invocado o nome de Cristo, mal terminara a oração, fez com que ela se levantasse sã e vigorosa; ensinou-lhe que fora Cristo — Deus e Filho do Deus Altíssimo — quem lhe concedera a cura, e aconselhou-a a invocar Aquele a quem deveria reconhecer como o Autor da vida e do bem-estar, pois era Ele quem distribuía reinos aos reis e a vida aos mortais.[2]

Curada, a Rainha retorna ao Palácio, e traz a notícia ao seu marido. O Rei Mirian III decide inicialmente presentear a "mulher cativa", mas a rainha insiste que o único presente que a mulher receberia seria a conversão da família real. Certa dia, porém, participa de uma caçada, e se perde:

O rei, contudo, hesitou e adiou a decisão por algum tempo. Certo dia, enquanto caçava na floresta com seus companheiros, uma densa escuridão caiu sobre o lugar; sem luz, não havia mais como ele guiar seus passos cegos através da noite sombria e aterradora. Seus companheiros dispersaram-se em direções diferentes, enquanto ele, deixado sozinho na espessa escuridão que o cercava, não sabia o que fazer nem para onde ir. Foi então que, em seu coração — já quase sem esperança de salvação —, surgiu o pensamento de que, se o Cristo pregado à sua esposa pela mulher cativa fosse realmente Deus, poderia libertá-lo daquela escuridão, permitindo-lhe, dali em diante, abandonar todas as outras divindades e adorá-Lo. Mal havia ele feito esse voto — não em palavras, mas apenas em pensamento —, quando a luz do dia retornou ao mundo e guiou o rei em segurança até a cidade.[2]

O Rei retornou a seu palácio, e convocou "a mulher cativa", para declarar que, daquele momento em diante seu Reino serviria a Cristo como seu Deus, e ela o instruiu sobre a fé cristã.

O rei retornou à sua esposa e imediatamente mandou chamar o cativo, declarando que, dali em diante, não veneraria outro Deus senão Cristo. O cativo instruiu-o ainda mais sobre como dirigir súplicas e prestar reverência a Deus, e aconselhou que se construísse uma igreja. Então, o rei convocou o seu povo e fez com que também eles aceitassem a Cristo.[2]

O Rei ordenou a construção da primeira igreja. Foram postas as paredes externas, a primeira e segunda coluna. Na terceira, porém, os bois não conseguiram ergue-la, dada a inclinação. Nesse momento, mais um milagre é relatado pela intercessão da "mulher cativa":

Mas, quando caiu a noite e todos se retiraram, cessando os trabalhos humanos, a mulher cativa permaneceu sozinha no interior, passando a noite em oração. E, quando o rei, apreensivo, entrou pela manhã acompanhado de seu povo, viu a coluna — que tantas máquinas e pessoas não haviam conseguido mover — suspensa na vertical, logo acima de sua base: não apoiada sobre ela, mas pairando a cerca de um pé de altura no ar. Então, todos os presentes glorificaram a Deus e reconheceram, diante daquele milagre, a veracidade da fé do rei e da religião da cativa. E eis que, enquanto todos ainda estavam tomados de assombro e admiração, a coluna — sem que ninguém a tocasse — desceu gradualmente e com perfeito equilíbrio, assentando-se sobre a base. Depois disso, as demais colunas também foram erguidas e construiu-se uma igreja magnífica [2].

Mirian III, maravilhado, envia embaixadores ao Imperador Constantino para providenciasse sacerdotes para concluir a evangelização e organizar a igreja da Ibéria.

Em seguida, enviou-se uma embaixada ao imperador Constantino para relatar o ocorrido e solicitar o envio de sacerdotes, pedido que o imperador atendeu com alegria [2].

Nos anos seguintes, outras autores, que tal como Rufino, se propuseram a fazer continuações da História da Igreja de Eusébio, e reproduziram, com algumas variações, o relato acima. Assim, Socrátes de Constantinopla (370-439), acrescenta o detalhe que a criança curada era na verdade o filho do Rei Mirian [3]. Já Teodoreto de Chipre (393-466), inclui maiores informações sobre a embaixada dos Ibérios a Constantino, que teria se comprometido com o Rei Mirian em estender a proteção de Roma aos cristãos [4]. Por fim, Sozomen enfatiza a resistência do Rei em seguir sua esposa na conversão a nova fé [5]. Em todos esses relatos, o nome da mulher que leva a conversão do Reino não é citado.

É na vizinha Armênia, que Moisés de Corene (ou "Khorenatsi", tradicionalmente ano 410 - 490), ao escrever sua "História dos Armênios" relata que Nino (Santa Cristiana) é o nome da missionária que converteu a família real da Georgia. Moisés se identifica como discípulo de Mesrop, que criou o alfabeto armênio. Segundo Moisés, Nino atuava anteriormente na Armênia, acompanhando a Santa Ripsíma e outras mulheres, que foram perseguidas e executadas pelo Rei Tiridates III (que anos depois se converteria ao cristianismo). Nino fugiu para a Ibéria, onde continuou seu ministério. Moisés relata também que, anos depois, depois de converter o Rei Mirian, Nino enviou discípulos a Armênia e solicitou o auxílio de Gregório, o Iluminador (que havia convertido aquele país).  [6]. A "História dos Armênios", é um trabalho fundacional para a cultura daquele país, sendo tradicionalmente datada do século V, mas a opinião majoritária entre os estudiosos atribui uma data bem mais tardia, no final do século VIII.  Há também algumas versões da Vida de Gregório Iluminador, de Agatângelo (outro texto fundamental da literatura armênia) que afirmam que os reis da Ibéria e Albânia (atual Azerbaijão) foram batizados pelo próprio Gregório, sem participação de Nino (e mesmo aquelas versões que não mencionam o batismo desses reis, também não citam Nino). A Vida de Gregório Iluminador é geralmente datada do final do século V [7 ]. Moisés de Corene combinou o relato de Rufino com a Agatângelo.


Lenda da Coluna Viva. Catedral de Mtskheta
(Santa Nino), via wikicommons, 
 
Uma biografia detalhada de Nino nos é trazida por uma obra  muito importante na identidade georgiana medieval, a Conversão de Kartli, que na verdade é uma composição de pelo menos dois trabalhos distintos. Como descreve o Professor Nikoloz Aleksidze, da Universidade Livre de Tbilisi (Georgia), um desses documentos é a "conversão" propriamente dita  que é uma crônica que esboça de forma resumida a história da Iberia (Kartli) do tempo de Alexandre, o Grande até o Imperador Heráclio, no século VII, abrangendo um período de 1000 anos, aproximadamente, e descreve de forma mais detalhada a conversão da família real ao cristianismo, e o outro é a Vida de Santa Cristiana propriamente dita [8]. A primeira obra pode ser datada do século VII, e a segunda até o século IX, com a forma final do texto no século X. O texto expande o relato básico de Rufino, acrescentando que Nino era proveniente da Capadócia (atual Turquia), tinha por pais Susana (irmã do Patriarca Juvenal de Jerusalém) e o oficial romano Zebulon (amigo e camarada de São Jorge). Descreve também que a família de Nino se mudou para Jerusalém quando ela tinha 12 anos, e passaram a servir com seu tio. Lá, certo dia, uma nobre senhora, proveniente de Éfeso, veio visitar os lugares santos. Naquela noite,  Nino vivenciou uma Aparição Mariana, em que Virgem Maria, a ordenava a converter as "terras do norte". Diante da sua hesitação, e dúvidas sobre sua capacidade, ela lhe deu uma cruz de videira, e disse "que isto seja a sua proteção, através dela, pregarás a palavra e vencerás os que se opõem. Eu estarei contigo e não te abandonarei". 

"A Santa Virgem abençoa Santa Nino", de Mikhail Sabinin, 1882, via wikicommons 

Depois, Nino pediu a seu tio para acompanhar a nobre de Éfeso, e, lá chegando, conheceu Ripsima, uma princesa que servia a Deus em um convento, e sua mãe adotiva Gaiana. Enquanto isso, o Imperador Diocleciano buscava uma noiva, e se apaixonou pela belíssima Ripsima, que se manteve fiel a seus votos, e foge com Nino e outras companheiras de fé para a Armênia. Lá, o Rei Tiridates III também se sentiu atraído por Ripsima, e quis força-la a ser sua esposa, e por sua recusa, o Rei a martiriza, junto com Gaiana e várias de suas companheiras. Nino, porém, consegue fugir para a Ibéria/Georgia. Na capital, Mtskheta, Nino conhece o sacerdote judeu Abiatar e sua filha Sidônia, que se convertem ao cristianismo. Após três anos de ministério, tendo feito alguns convertidos, encontra a mãe desesperada e seu filho doente e a partir daí a narrativa segue, e expande em linhas gerais, o relato de Rufino. 

O leitor atento, pela descrição acima, pode ter percebido alguns dos vários problemas, inconsistências e anacronismos nesse relato mais tardio. Juvenal de Jerusalém, que teve atuação decisiva no Concílio de Calcedônia, viveu mais de um século após Nino. Incidentes pertencentes ao reino de Diocleciano são transpostos para o de Constantino para permitir que Nino seja incluída como uma das companheiras de Santa Ripsínia [9]. 

Um elemento importante é que conforme as fontes gregas, foi enviada uma embaixada a Constantinopla, enquanto Moisés de Corene indica uma solicitação a Gregório, o Iluminador, na Armênia (e a própria missão de Santa Nino seria uma continuação de sua missão lá). Na parte oriental do império romano, e nas igrejas orientais, o Concílio de Calcedônia (451 DC) levou a intensas lutas, divisões e debates. Tentativas de pacificar a situação, como o Henotikon, do Imperador Zeno (476-491), não foram bem sucedidas. Neste contexto, marcado também pela necessidade de manter uma aliança entre os reinos do Cáucaso e o Império Bizantino contra os Persas, a igreja da Ibéria mantinha estreitas relações tanto com a Sé em Antioquia (Siria) quanto com a igreja da Armênia, mas no III Concílio de Dvin (607), as divisões afloraram, houve um cisma, com a Armênia mantendo um posicionamento Miafisista, enquanto a Igreja da Ibéria/Georgia aderia ao Concílio de Calcedônia, alinhando-se com os Bizantinos.

 Analisando as fontes literárias junto com o contexto e evidências arqueológicas

Sendo assim, qual seria então o núcleo histórico das narrativas de conversão (se existe algum)?

Professor David Marshall Lang (1924-1991), Universidade de Londres, fez, ainda em 1956, uma avaliação a luz do contexto histórico, social e arqueológico desse processo de conversão:

The story of St. Nino, for all its fabulous embellishments, is built on a solid foundation of fact. History, archeology and national tradition are unanimous in affiming that Iberia, as Eastern Georgia was then called, adopted Christianity as its state religion about AD 330, in the time of Constantine the Great. At this period, the Roman Empire exercised suzerainty over the neighbouring state of Armenia, where Christianity had lately thiumphed as a result of the mission of St. Gregory the Illuminator. We should also recall that by St. Nino's time Western Georgia, comprising the provinces of Colchis, Abkhazia and Lazica, had already been evangelized by missionaries active in the Greek colonies along the Black Sea coast. The Council of Nicea in the year 325 was attended by bishops from Trebizond, the principal sea port of  Lazica, and from Bichvinta, the stategic port and Metropolitan See situated on the borders of Colchis and Abkhazia. It thus becomes clear that political conditions strongly favoured the conversion of Eastern Georgia to Christianity, the new official creed of Romans. (tradução)  A história de Santa Nino, apesar de todos os seus adornos lendários, assenta-se sobre uma base sólida de fatos. A história, a arqueologia e a tradição nacional são unânimes em afirmar que a Ibéria — como a Geórgia Oriental era então chamada — adotou o cristianismo como religião oficial por volta do ano 330 d.C., na época de Constantino, o Grande. Nesse período, o Império Romano exercia suserania sobre o Estado vizinho da Armênia, onde o cristianismo havia triunfado recentemente graças à missão de São Gregório, o Iluminador. Vale lembrar também que, na época de Santa Nino, a Geórgia Ocidental — compreendendo as províncias da Cólquida, Abecásia e Lázica — já havia sido evangelizada por missionários que atuavam nas colônias gregas ao longo da costa do Mar Negro. O Concílio de Niceia, realizado no ano 325, contou com a presença de bispos de Trebizonda (o principal porto marítimo da Lázica) e de Bichvinta (porto estratégico e sede metropolitana situada na fronteira entre a Cólquida e a Abecásia). Fica claro, portanto, que as condições políticas favoreciam fortemente a conversão da Geórgia Oriental ao cristianismo, a nova fé oficial dos romanos. [9] 

Ao longo do século II e início do século III, os indícios arqueológicos passam a ser cada vez mais evidentes da presença de cristãos. Ritos funerários, por exemplo, são conservadores, e mudam de forma mais lenta que outros costumes numa sociedade, pois refletem uma mudança das concepções de mundo e crenças religiosas, não só da pessoa que falece, mas principalmente de sua família. Pois bem, ao longo do século III, houve uma alteração profunda na forma que as pessoas passaram a ser sepultadas na região. Ao invés do posicionamento dos corpos de forma lateral, em posição fetal, acompanhados de bens materiais com vistas provisão na nova vida, passou a ser cada vez mais comum os defuntos serem postos de cabeça para cima, com os braços cruzados na altura do peito, pés direcionados para o leste, na direção do Sol nascente (simbolizando a ressureição) e portando objetos como anéis com símbolos como cruzes, peixes, e âncoras e peixes (claramente cristãos) [10]. No fim do século III, metade dos novos sepultamentos no cemitério de Samtavro (necrópole ao norte da então capital Mtskheta, utilizado por milênios) já refletem essas características cristãs, e o mesmo se reflete em vários outras partes do reino nesse período, ao longo do Rio Mtkravi, até Urbnisi (segunda maior cidade do país então, à 70 km de distância da capital).  Assim, a "conversão da Casa Real Ibérica representa menos o advento do cristianismo no Reino, mas a adoção pelos monarcas de uma religião cada vez mais popular, com objetivo de ampliar a centralização do Reino, e fortalecer a mão do Rei no conflito com os nobres" [10]. Na vizinha Colquída, que não possuía, naquele momento, um estado centralizado para reprimir ou adotar o cristianismo,  também se observa uma mudança nos padrões de sepultamento no mesmo período [11], como se observa nos sepultamentos na região de Modinakhe/Sairkhe [10]

Além das tumbas e evidências funerárias, a Professora Nana V. Kiladze (1943-2020), observa também a existência de manuscritos antigos da religião maniqueísta que indicam contatos desses missionários com "seguidores de Cristo da Terra de War" (istoé, Iberia). 

The Georgian Orthodox Apostolic church was established in the 330s, though the gospel was probably preached in East Georgia as early as the second or third century. Christian tombs of this period have been discovered. Further evidence is provided by a Manichean text fragment, according to which a Manichean missionary encountered followers of Christ in the land of War, i.e, Iberia (cf. Armenian Wirk = Georgia), where they must have co-existed with local paganism, Zoroastrianism and Manicheanism (...) Acceptance of Christianity as the official religion of the east Georgian kingdom of Kartli, the Iberia of classical writers, is associated in ancient Georgian, Armenian and Greek-Latin sources (Eusebius of Ceasarea, Rufinus) with the name of the prophetess Nino of Cappadocia, who came to Kartli from Jerusalem. According  of church tradition, King Mirian accepted Christianity in 326, though scholars suggest othe dates, the most plausibles being 337. (tradução) A Igreja Apostólica Ortodoxa Georgiana foi estabelecida na década de 330, embora o Evangelho provavelmente já tivesse sido pregado no leste da Geórgia ainda no século II ou III. Foram descobertos túmulos cristãos desse período. Outra evidência é fornecida por um fragmento de texto maniqueísta, segundo o qual um missionário maniqueísta encontrou seguidores de Cristo na terra de War — isto é, a Ibéria (cf. o armênio *Wirk* = Geórgia) —, onde eles devem ter coexistido com o paganismo local, o zoroastrismo e o maniqueísmo (...) A aceitação do cristianismo como religião oficial do reino georgiano oriental de Kartli — a Ibéria dos escritores clássicos — está associada, em fontes antigas georgianas, armênias e greco-latinas (como as de Eusébio de Cesareia e Rufino), ao nome da profetisa Nino da Capadócia, que chegou a Kartli vinda de Jerusalém. Segundo a tradição eclesiástica, o rei Mirian adotou o cristianismo em 326, embora estudiosos sugiram outras datas, sendo 337 a mais plausível.. [12], 

Professor Stephen Rapp, da Universidade Sam Houston, além de resume as várias dinâmicas associadas a chegada do cristianismo na Lázica/Colquída e Ibéria, acrescenta o papel de comunidades judaicas no sul e leste da Ibéria, que, por serem alvos do proselitismo cristão, podem também ter servido de base para sua propagação.  

Christianity arrived in the Georgian lands from different directions over the course of many decades, and the dynamic process of Christianization of the Georgians extended over several hundred years. The conversion events of the fourth century, which were centred upon the Christianization of the K'art'velian monarchy, ocurred as Christianity itself was moving from an often persecuted religion to the faith of the Eastern Roman Empire centred at Byzantium, newly consacrated as Constantinople. Received tradition in the Georgian Orthodox Chruch includes visits on Georgian territory from two apostles : Andrew and Simon the Canaanite. While reported apostolic visits of Black Sea coast settlements are not impossible, the sources are late and unreliable. Moreover, Jewish communities, often a focus for Christian proselyzation, existed in eastern and south Georgia, including K'art'li's capital city Mc'xet'a (Mtskheta). The sources become far more trustworthy - at least in their basic outlines - for the first half of the fourth century, when St Nino's intercession led to the baptism of King Mirian an his consort, Nana. (tradução) O cristianismo chegou às terras georgianas proveniente de diferentes direções ao longo de muitas décadas, e o processo dinâmico de cristianização dos georgianos estendeu-se por vários séculos. Os eventos de conversão do século IV, centrados na cristianização da monarquia cartveliana, ocorreram num momento em que o próprio cristianismo deixava de ser uma religião frequentemente perseguida para se tornar a fé do Império Romano do Oriente, sediado em Bizâncio — cidade recém consagrada como Constantinopla. A tradição consolidada da Igreja Ortodoxa Georgiana inclui relatos de visitas de dois apóstolos ao território georgiano: André e Simão, o Cananeu. Embora visitas apostólicas a assentamentos na costa do Mar Negro não sejam impossíveis, as fontes a esse respeito são tardias e pouco confiáveis. Além disso, comunidades judaicas — frequentemente alvo do proselitismo cristão — existiam no leste e no sul da Geórgia, inclusive em Mtskheta, a capital de Kartli. As fontes tornam-se muito mais fidedignas — pelo menos em suas linhas gerais — no que diz respeito à primeira metade do século IV, quando a intercessão de Santa Nina levou ao batismo do Rei Mirian e de sua esposa, Nana. [13]     

Santa Nino, "Igual aos Apóstolos"

Esses processos em conjunto, porém, não reduzem a importância revolucionária da mulher cativa que converteu a Casa Real. A narrativa foi expandida e incluiu numerosos elementos lendários, mas seu núcleo se baseia numa tradição provavelmente histórica. 

Lang continua:

The biography of St. Nino as we have today is made up of a number of elements of varying authenticity. The basis of our knowledge of the saint's personality and mission is contained in a chapter of church history of Rufinus, composed about the year A.D 403. This chapter is based on oral informationm given to Rufinus by a Georgian prince named Bakur whom he met in Palestine about the year 395. This Bakur was a member of the royal house of Iberia, and was telling of events which had ocurred little more than half a century earlier, during of lifetime of his own parents or at least his grandparents. When due allowance is made for the pious raptures of Rufinus and his informant, there is no reason to challenge the essential accuracy of their joint account. (tradução) A biografia de Santa Nino, tal como a conhecemos hoje, é composta por elementos de autenticidade variável. A base do nosso conhecimento sobre a personalidade e a missão da santa encontra-se em um capítulo da história eclesiástica de Rufino, redigido por volta do ano 403 d.C. Esse capítulo fundamenta-se em relatos orais transmitidos a Rufino por um príncipe georgiano chamado Bakur, que ele conheceu na Palestina por volta do ano 395. Bakur pertencia à casa real da Ibéria e narrava acontecimentos ocorridos pouco mais de meio século antes — durante a vida de seus próprios pais ou, pelo menos, de seus avós. Feitas as devidas ressalvas quanto ao entusiasmo piedoso de Rufino e de seu informante, não há razão para questionar a veracidade essencial do relato conjunto que apresentaram [9].

 


"A Glória de Ivéria"
, de Mikhail Sabinin, 1882, via wikicommons
Em suma, as histórias eclesiásticas gregas e latinas reproduzem, de modo geral, o relato de Rufino. Analisando as fontes, todos esses relatos dependem de um único relato conhecido, o general Bacúrio.  Como observa o Professor Jona Lendering, discorrendo sobre o problema do Testis unus testis nullus (a testemunha única não é testemunha), que frequentemente ocorre em história antiga pois frequentemente só há uma fonte disponível [14]. Ele cita o exemplo das Crônicas de Ptolomeu III, que é o único registro da tomada de Babilônia por aquele Rei. Lendering pondera que as crônicas são quase contemporâneas com os eventos que descrevem e pertencem a uma série de textos que apresentam vários elementos verificáveis[14]. No caso de Bacúrio, a fonte é uma pessoa proveniente da Ibéria, familiar da língua e da cultura, membro da casa real e possivelmente descendente direto do rei Mirian III e da Rainha Nana, que viveu uma ou duas gerações dos acontecimentos que relata. Além disso, como discutimos acima na mudança de costumes funerários, há indícios arqueológicos de que uma parte significativa da população da Georgia, talvez a maioria, já indicava uma identidade cristã. O Império Romano estava em processo de conversão, assim como a vizinha Armênia. 

Ainda em termos de plausibilidade contextual, o processo descrito também guarda semelhanças com o processo de conversão da elite romana, ainda que de forma muito mais acelerada. Como abordamos anteriormente aqui no Adcummulus, o processo de conversão das elites de Roma teve como um de seus principais veículos os escravizados da Casa Imperial, em Roma (como evidencia uma mais antigos artefatos associados ao cristianismo, o grafite de Alexamenos), que convertidos ao cristianismo, ao obterem sua liberdade, se tornam parte da nova elite cristã. É o caso, por exemplo, de Márcia, concubina do Imperador Cômodo, de Marco Aurélio Prosenes, que exerceria vários cargos sob Cômodo e Sétimo Severo, até atingir o posto mordomo do Imperador Caracala, de um certo Próculo Torpácio que teria curado o próprio Severo, e que foi mantido por ele vitaliciamente no Palácio. Em sequência aos servos e libertos da confiança, começam, aqui e ali, a surgir relatos de conversão de membros da elite imperial, quase invariavelmente mulheres, com o possível exemplo precoce de Pompônia Grecina, (20-83 DC), ainda que possa haver dúvida dessa identidade, vários de seus descendentes  falecidos no início do século III e enterrados na catacumba de São Calisto em Roma, conforme inscrições do século III dedicadas Pomponio Basso e Pomponio Grecino. Ou seja, a inserção nas elites romanas se deu a partir de escravizados e libertos, que conseguiam converter alguns membros da família, quase sempre mulheres, que por sua vez transmitiam a fé a seus filhos e netos. No caso da Ibéria/Georgia, ao invés de um processo de 250 anos como em Roma, ocorreu em uma geração. Um paralelo possível, guardadas as devidas proporções, é a conversão dos Francos, no qual o papel da Rainha Clotilde na conversão de seu marido Clovis (466-511), foi fundamental.

O filósofo pagão Celso, um dos primeiros a escrever uma ataque sistemático ao cristianismo, parece ter esse processo em mente, quando acusa "trabalhadores em lã e curtidores, e pessoas de caráter rústico e pouco instruído", que "não se atrevem a proferir palavra na presença de seus senhores", de aproveitar os momentos que tem acesso a mulheres e crianças, em privado, de "propagar seus maravilhosos ensinos", que "que somente eles sabem como os homens devem viver e que, se os filhos os obedecerem, também serão felizes e também farão seu lar feliz" [15]. Ou seja, os servos, escravizados e trabalhadores domésticos eram o vetor de propagação da epidemia do cristianismo nas famílias abastadas, contagiando as mentes mais fracas, mulheres e crianças. No início do século III, Tertuliano nos conta pelo menos um caso de reação violenta de um marido e pai pagão tradicionalista contra essa subversão. O governador da Capadócia, Claúdio Lúcio Herminiano (também conhecido como Claúdio Hieronimiano), cuja esposa havia se convertido, passou a perseguir violentamente os cristãos em sua província, embora, Tertuliano também afirme que, adoecido e desenganado, tenha se arrependido e morrido "quase como um cristão"  [16].

Por fim, a narrativa de conversão de Rufino e outras fontes gregas, em que uma "mulher cativa" como agente de conversão da família real, apresentava uma alto nível de constrangimento nos séculos seguintes, tanto em termos de gênero, como de status social, o que reforça ainda mais a possibilidade de um núcleo autêntico. Mesmo se adotarmos o entendimento que o termo "cativa" denote algo como "uma prisioneira do Senhor", decorrente de algum tipo de voto ou devoção religiosa, e não como uma escravização literal (como sugere acima Francoise Thelamon [1]), o fato é que os elementos disponíveis indicam um status social que não era elevado. Como pontua Irma Makaradze, pesquisadora da Universidade de Tbilisi (Georgia), "embora fontes cristãs antigas de fora da Geórgia reconheçam a atuação de uma mulher na conversão da Ibéria, a tradição escrita georgiana permanece em silêncio sobre Nino até os séculos IX e X", que "reflete a restrição gradual do papel das mulheres na vida eclesiástica a partir da Antiguidade Tardia". Makaradze observa a apologia do Patriarca da Igreja Ortodoxa Georgiana, Nikoloz Gulaberisdze (sec. XII), que se dispôs a sustentar "E, pela primeira vez, deve ter ficado claro por que Deus nos enviou uma mulher", o motivo foi fazer calar aqueles que, "maliciosa e falsamente, difamam a pregação e a conversão realizadas por uma mulher" [17]. 

Da mesma forma, Professora Andrea Sterk, da Universidade de Minnesota, ao comentar o estranho silêncio das fontes ibérias sobre sua apóstola até, pelo menos, o século VII, mesmo quando historiadores gregos e latinos, dois séculos antes, transmitam basicamente o mesmo relato na conversão da família Real Ibérica, pondera "Devemos ter em mente, no entanto, que Santa Nino enfrentava várias desvantagens no contexto da Ibéria da Antiguidade Tardia: ela era estrangeira, era cativa e era mulher", sendo assim, mesmo tomados de forma isolada " cada um desses aspectos de sua identidade a inferiorizariam aos olhos da nobreza, e tomados os 3 em conjunto foram provavelmente constrangedores para a apostola e iluminadora da Georgia [18]. Da mesma forma, Nino não tinha um comissionamento, pois não havia sido enviada por autoridades constituídas, como bispos ou o Imperador, e sua ida a Iberia não decorre de um movimento diplomático, como casamentos feitos para estreitar laços entre nações. Sterk acrescenta que quando os escritores ibérios medievais moldaram a história de cristianização de seu País, tentaram ocultar ou compensar o baixo status social de Nino, que não mais era uma simples cativa, mas a sobrinha do Patriarca de Jerusalém, que concede confirmação eclesiástica oficial para sua vocação missionária na Georgia, vários desses autores também interpretaram no relato do sonho em que Santa Nino foi comissionada, evidência bíblica de suporte de um apostolado feminino, mas em caráter único e excepcional, buscando "contrabalançar o escândalo da liderança feminina ao situar Nino em um contexto de uma ampla lista de mulheres formidáveis em condição de autoridade e influência" [18].  

Por fim, observa Nana Kiladze, que apesar de tardias, as fontes georgianas enfatizam a conexão de Santa Nino com membros da comunidade judaica na Ibéria (lá instalada muito antes da chegada do cristianismo) entre seus primeiros seguidores, , reflete possivelmente a influência desses convertidos na expansão da fé cristã. Ademais, a igreja georgiana nascente conservou muitas liturgias e práticas que a aproximavam dos judeus e da igreja de Jerusalém.     

The Life of St. Nino stresses the inherent connection between the Kartli church and Jerusalem, as well the prominent role of the Georgian Jewish community in the spread of Christianity in eastern Georgia. The first church erected by Mirian at Mtzkheta, the ancient capital of Georgia, the so-called 'lower church', later the Catedral of  Svetitzkhoveli, was known, following the tradition of Jerusalem, as 'the holy of holies'. Later the Georgian chruch created toponymic foundations in the capital alluding to the life of Christ, e.g Gethsemane, Golgotha, Bethany, Olivet and Tabor. Connections with Jerusalem can also be traced in the liturgy. During the fifht to tenth centuries, the Georgian liturgy was conducted according to Jerusalem norms. For example, a seven week cycle was used until the eight week cycle was introduced in the tenth century by bishop John  of Bolnisi   (tradução)  A *Vida de Santa Nino* enfatiza a conexão intrínseca entre a Igreja de Cártlia e Jerusalém, bem como o papel de destaque da comunidade judaica georgiana na propagação do cristianismo no leste da Geórgia. A primeira igreja erguida por Mirian em Mtskheta — a antiga capital da Geórgia —, conhecida como "igreja inferior" e que mais tarde se tornaria a Catedral de Svetitskhoveli, era chamada de "Santo dos Santos", seguindo a tradição de Jerusalém. Posteriormente, a Igreja Georgiana estabeleceu na capital topônimos alusivos à vida de Cristo, como Getsêmani, Gólgota, Betânia, Monte das Oliveiras e Monte Tabor. Conexões com Jerusalém também podem ser observadas na liturgia; entre os séculos V e X, a liturgia georgiana seguia as normas de Jerusalém. Por exemplo, utilizava-se um ciclo de sete semanas até que, no século X, o bispo João de Bolnisi introduziu o ciclo de oito semanas. [12], 

Assim, há elementos que nos permitem descrever Nino como um cativa (seja literalmente, seja por opção religiosa), de baixo status social, mas que ocupa uma posição excepcionalíssima de fundadora do cristianismo georgiano, em total dissonância com o papel que lhe era esperado como mulher, antes, durante e por muitos séculos após o tempo em que viveu. Para explicar sua atuação, os cronistas posteriores são forçados a propor uma dispensação única e especial, aplicável a ela entre quase todas as mulheres. Por outro lado, ela também se situa em um tempo de convergência de vários eventos, internos e externos, que também conduziam para a conversão do reino. Ou seja, o papel de Santa Nino parece ser o de gatilho, de estopim, do ponto de virada de uma série de outros processos que ocorriam paralelamente, como a expansão do cristianismo nas vizinhas Colquída e Armênia, a nova postura do Império Romano com Constantino, o fato da Ibéria ter saído da esfera de domínio no Império Sassânida, e a expansão da nova religião dentro do próprio reino. 

Referências bibliograficas

[1]  Francoise Thelamon (2007) "Povos Cristãos as Margem do Império Romano" in Alain Corbin, Historia do Cristianismo, fls. 134-135. Thelamon propõe que o termo "cativa", deve ser interpretado no contexto de evidências, todas bem posteriores, de que era vista como uma "Kadag", que na religião popular georgiana era vista como "escravizado" a uma divindade.  
[2]  Rufinus of Aquileia, Church History 10.11, disponível em Nikoloz Aleksidze, Cult of Saints, E01402 - Record | The Cult of Saints,  
[3] Socrates, Ecclesiastical History (1.21) Nikoloz Aleksidze, Cult of Saints, E00520 - http://csla.history.ox.ac.uk/record.php?recid=E00520
[4] Theodoret, The Ecclesiastical History, Bibliothek der Kirchenväter
[5]  Sozomenos, Ecclesiastical history; a history of the church in nine books, from A.D. 324 to A.D. 440, Work - ToposText
[6]  Movsēs Xorenac'i, History of Armenia, Book II, Chapter 8, Nikoloz Aleksidze, Cult of Saints, E00613 - http://csla.history.ox.ac.uk/record.php?recid=E00613 
[7] Jona Lendering (2019), Agathangelos - Livius
[8] Nikoloz Aleksidze (2024) Sanctity, Gender and Authority in Medieval Caucasia, fl. 81
[9] David Marshall Lang (1956). Lives and Legends of the Georgian Saints. United Kingdom: Taylor & Francis. Chapter 1, fl.5 
[10] Christopher Haas (2014), Caucasus in  WilliamTabernee (ed). Early Christianity in Contexts: An Exploration across Cultures and Continents, fls 125-127
[11] Donald Rayfield (2012). Edge of Empires : A History of Georgia. Reaktion Books,  fl. 33
[12] Nana Kiladze, The Blackwell Dictionary of Eastern Christianity (Ken Parry, David J Melling, Dimitri Brady, 2000), fl. 210
[13] Stephen Rapp e Paul Greco (ed.)  Languages and Cultures of Eastern Christianity: Georgian. (2018). United Kingdom: Taylor & Francis, fl. 45/.
[14] Jona Lendering (2009) Testis unus testis nullus, Testis unus testis nullus - Livius, consulta em 2/9/2026
[15]  Origenes, Contra Celso, Livro 3, capítulo 55
[16] Tertuliano, Ad Scapulam, Capitulo III
[17]  Irma Makaradze (2025) St. Nino and the Christianization of Kʻartli: Gender, Memory, and Mission in Medieval Georgian Tradition // European Journal of Literature and Linguistics. №3-4 . С. 25 - 32. URL: https://ppublishing.org/archive/publication/1790-st-nino-and-the-christianization-of-kartli-ge
[18] Andrea Sterk. Mission from Below: Captive Women and Conversion on the East Roman Frontiers. Church History. 2010;79(1):fl. 13

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