Estudos sobre Religião - Biblioblog

sexta-feira, 15 de maio de 2009

No post anterior analisamos a imagem de Jesus como um mestre e homem sábio na principal fonte não-cristão, Flávio Josefo. Agora vamos continuar a contextualizar a visão de Jesus como homem sábio(...) mestre de pessoas que recebem a verdade com prazer", utilizando uma fonte um tanto desprezada, mas que pode bem ser a mais antiga referência não-cristã a Jesus. A Carta do estóico sírio Mara Bar Serapion.

Mara Bar Serapion (73 DC - 150 DC)

A (provável) menção a Jesus se dá em uma carta de exortação a excelência da sabedoria que sobrevive mesmo com as injustiças e eventual morte que sofre o sábio. Jesus é comparado a Pitágora e Sócrates.

"O que diremos, quando os sabíos são arrastados pelas mãos dos tiranos, e sua sabedoria os leva a perda da liberdade, e são despojados por causa de sua inteligência superior,sem a oportunidade de se defender? Mas eles não devem ser objeto de pena. Pois qual benefício obtiveram os atenienses por condenarem Socrátes a morte, uma vez que eles receberam em troca fome e peste? Ou os cidadãos de Samos por lançar Pitágoras as chamas? Num instante seu território se viu coberto de areia. Que vantagem obtiveram os judeus matando seu sábio Rei. Logo depois, seu reino foi destruido. Pois com justiça Deus vingou esses três sábios. Pois os atenienses morreram de fome, o povo de Samos foi coberto pelo mar, e os judeus, desolados e expelidos de seu reino, vagam dispersos por todas as terras. Socrates não morreu, por causa de Platão, ou Pitagoras, por causa da Estátua de Hera, nem tampouco o Sábio Rei, continuou a viver nos ensinamentos que transmitiu." [14]

Professor Gerd Theissen , da Universidade de Heidelberg (Alemanha), e Professora Annete Merz, Universidade de Utrecht (Holanda), fazem uma descrição da fonte:
"Curiosamente, o testemunho pagão supostamente mais antigo sobre Jesus é pouco conhecido. Encontra-se numa carta pessoal do estóico sírio, originário de Samosata, Mara Bar Serapion, que escreveu de uma prisão romana (em lugar desconhecido) ao filho Serapion. A carta tem por conteúdo numerosos conselhos e advertências que Mara faz ao filho em face de sua possível condenação" [15]

Theissen e Merz [15] observam que a datação da carta é controversa. A referência a dispersão dos judeus pode ser encaixada na Revolta de Bar Kochba (135 DC), ou na destruição de Jerusalém (70 DC). Ele acrescenta, que há na carta uma menção a fuga dos cidadãos anti-romanos da cidade de Samosata para Selêucia, que parece ser idêntico ao da destruição e expulsão do Rei Antioco IV de Comagene (que tinha por capital Samosata) pelos romanos no ano de 73 DC, relatado do Josefo em Guerras Judaicas 7:219-243.

Ainda segundo Theissen e Merz [15], "os dados sobre Pitagoras, os sâmios e os atenienses são historicamente muito imprecisos. Talvez Mara considere o filósofo e o escultor Pitagorá a mesma pessoa".

Mara não menciona Jesus pelo nome. A associação é feita baseada nas características:
1) Ele era judeu
2) Era um sábio
3) Ele era um "Rei"
4) Ele continuou vivo por meio de seus ensinamentos
5) Ele foi morto por seu povo
6) O reino judeu foi destruído após sua morte.

1) Jesus era judeu;
2) Era considerado como um sábio ou filósofo (Luciano; Evangelho de Tomé 13: Tu és como um sábio filósofo);
3) Era o "Rei dos Judeus"; (Titulus Crucis nos quatro evangelhos)
4) Seus seguidores mantiveram vivo seus ensinamentos após sua morte, e mesmo depois da destruição de Jerusalém. Trinta anos após a morte de Jesus, estavam solidamente estabelecidos em Roma ( Tácito, Suetônio).
5) Jesus foi morto sob Pôncio Pilatos, mas as autoridades do Templo exerceram uma papel importante. De qualquer forma, a pregação cristã logo tendeu a minimizar a responsabilidade romana e enfatizar a judia.
6) Cerca de 40 anos depois da morte de Jesus, Jerusalém foi destruida. (Elemento também presente na pregação cristã).

A identificação do sábio Rei referido por Mara com Jesus de Nazaré não é completamente certa. Contudo, que outro "candidato" preenche esses requisitos? Josefo lista quase uma dezena de pretendentes messiânicos, mas eles foram mortos pelos romanos, e seus ensinamentos, quando existiram, não sobreviveram a sua morte. Judas Galileu, inspirador dos zelotes e outros radicais anti-romanos, manteve seguidores após sua morte. Contudo, até onde se sabe, se ele foi executado, o foi pelos romanos e não pelos judeus; não foi chamado de "Rei dos Judeus"; e seu movimento não sobreviveu a queda de Jerusalém e, portanto, a época em que Mara escreveu.

Como observa FF Bruce (1910-1990), ex-Professor das Universidades de Sheffield e Manchester:
"Este escritor dificilmente poedria ter sido cristão; tal fosse o caso , haveria declarado que o Cristo continuou vivo e que ressuscitou dos mortos. Maior probabilidadee há de que fosse um filósofo gentio, pioneiro no que se veio depois tornar rotina comum - colocar Jesus em pedestal de igualdade com os grandes sábios de antanho"[16]

Tudo indica que Mara foi influênciado pela pregação cristã, embora se mantivesse como pagão pois faz referência em alguns lugares da carta a "nossos deuses". Era, possivelmente, um simpatizante do cristianismo.

Theissen e Merz [17], observam que as afirmações de Mara são parcialmente dependentes dos evangelhos. Primeiro, apenas os judeus são responsabilizados (ver I Tes. 2:15; Atos 4:10). Segundo, a derrota judaica perante os Romanos é resultado da crucificação de Jesus (cf Mt 22:7; 27:25). Terceiro, Jesus é chamado de Rei Sábio (ver Mt 2:6).

Thiessen e Merz complementam,
"Mara permite reconhecer em alguns pontos uma perspectiva externa em sua avaliação de Jesus e do cristianismo:
Na série de paradigmas de Mara, Jesus aparece como um de três sábios Mara não sabe nada da ressureição de Jesus, ou a reinterpreta tacitamente no sentido de sua cosmovisão caracterizada em sua carta da seguinte forma "A vida do homem, meu filho, sai do mundo, seu louvor e seus dons permanecem na eternidade". Isso se aplica da mesma forma a Socrátes como a Jesus. Para Mara, Jesus é importante sobretudo como novo legislador. Ele continua a viver em suas leis. Ao que parece, Mara vê os cristãos como aqueles que vivem segundo a lei do Rei Sábio, o que explica bem a postura do estóico em relação a eles" [17]

Professor Robert Van Voorst, Western Theological Seminary, acrescenta:
"A mais antiga referência filosófica ao cristianismo de que se tem conhecimento, a carta de Mara Bar revela a atração que o cristianismo era capaz de exercer sobre alguns intelectuais. As observações positivas a Cristo e ao Cristianismo, no entanto, não devem ser lidas como um endosso, da mesma forma como sua menção a Sócrates e Pitágoras significam que ele era adepto de suas respectivas escolas filosóficas" [18]

Admitindo a provável menção a Jesus de Nazaré como sábio Rei em Mara Bar Serapion, temos um retrato que é semelhante a descrição de Galeno e, até mesmo, com o de Luciano de Samosata (Samosata, inclusive, fica na mesma região daonde Mara é proveniente). Jesus é visto como um filósofo, que deixou leis e ensinamentos, que foi executado, mas cujo legado permanece, tendo díscipulos que vivem segundo suas leis. Luciano interpretou essas tradições de forma depreciativa aos cristãos. Galeno de forma positiva, embora condescencente. Mara, por sua vez, também as toma de maneira positiva, mas vê em Cristo um modelo de sabedoria.

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CONTINUA

[14] Carta de Mara Bar Serapion http://www.earlychristianwritings.com/text/mara.html
[15] Gerd Thiessen e Annete Merz (1996), O Jesus Histórico, Um Manual, fl. 95
[16] F. F. Bruce (1965), Merece Confiança o Novo Testamento, fl.148-149
[17] Gerd Thiessen e Annete Merz (1996), O Jesus Histórico, Um Manual: fl. 97
[18] Robert Van Voorst (2000), Jesus Outside of the New Testament, fl. 58
Jona Lendering http://www.livius.org/men-mh/messiah/messianic_claimants00.html (excelente site!!!)

quinta-feira, 14 de maio de 2009

Jesus como homem sábio e mestre é uma das imagens mais presentes nos evangelhos. Ao fim do sermão do monte as "multidões maravilhavam-se de seu ensino porque as ensinava como tendo autoridade, e não como os escribas" (Mateus 7:27). Também na sinagoga de Cafarnaum (Marcos 1:22). Em uma das mais antigas confissões credais da Igreja Primitiva, Jesus é chamado de profeta poderoso em palavras e atos (Lucas 24:19; Atos 2:22 e 10:38). A fonte Q, assim chamada por conter material comum a Mateus e Lucas, não encontrado em Marcos, é formada basicamente por ditos e ensinos. Na literatura apócrifa temos também importantes testetemunhos dessa imagem. O Evangelho de Tomé, que data provavelmente da primeira metade do sec. II, é composto de 114 ditos e ensinos de Jesus (em significativa parte paralelos aos evangelhos sinóticos.

"Jesus o Homem Sábio": Flávio Josefo (93 DC)

Entre as fontes não-cristãs, a mais importante, sem dúvida, é a referência encontrada em Antiguidades Judaicas 18:63-64, do escrito judeu Flavio Josefo, texto conhecido como Testemunho Flaviano:

"Por esse tempo apareceu Jesus, um homem sábio, se na verdade podemos chama-lo de homem. Pois ele foi o autor de feitos surpreendentes, um mestre de pessoas que recebem a verdade com prazer. E ele ganhou seguidores tanto entre muitos judeus, como dentre muitos de origem grega. Ele era [o] Cristo [Messias], E quando Pilatos, por causa de uma acusação feitas pelos nossos homens mais proeminentes, condenou-u a cruz, aqueles que o haviam amado antes não deixaram de faze-lo. Pois ele lhes apareceu no terceiro dia, novamente vivo, exatamente como os profetas divinos haviam falado deste e de incontáveis outros fatos assombrosos sobre ele. E até hoje a tribo dos cristãos, que deve esse nome a ele, não desapareceu"(Antiguidades Judaicas, 18:63-64) [1]

O texto como está hoje é tão bom que levanta suspeita. Como Flavio Josefo, que se dizia fariseu, e que passou os anos finais de sua vida na corte dos Imperadores Romanos, poderia se referir a Jesus como o "Messias" ou que ele havia aparecido ao terceiro dia, ressureto? Isso levou muitos críticos a negarem a autoria josefana da passagem, afirmando que o texto seria uma interpolação cristão posterior.

Embora no século XIX e início do século XX a maioria dos estudiosos estivesse inclinado a crer na hipótese da interpolação total, desde a 1ª Guerra Mundial o consenso vem se alterando dramaticamente, devido a estudos linguísticos, uma nova compreensão da relação entre os primeiros cristãos, os fariseus e o Império Romano, e principalmente o estudo de versões latinas, síriacas, eslavas e árabes, a posição dominante hoje é que o texto é parcialmente autêntico e parcialmente interpolado. Haveria um texto originalmente de Josefo, que foi "embelezado" ou "turbinado" por escribas cristãos posteriores.

Alice Whealey, de Berkeley, no artigo "The Testimonium Flavianum controversy from Antiquity to the present", publicado e apresentado no Josephus Seminar em 2000, que reune alguns dos principais estudiosos de Josefo do mundo:

Fez um "review" da literatura sobre o Testemunho Flaviano, e concluiu:
"A controvérsia sobre o Testemunho Flaviano ao longo do século XX pode ser diferenciada da que houve no início do período moderno, por ser, em geral, mais acadêmica e menos sectária. (...) Em geral, pesquisadores protestantes, católicos, judeus e secularistas tem convergido em suas posições, com uma grande tendência de estudiosos, independentemente de sua filiação religiosa, de considerar o texto como majoritariamente autêntico. [2]

O estudiosos judeu Geza Vermes, Professor Emérito de Judaismo Antigo da Universidade de Oxford, e uma das maiores autoridades vivas em judaismo do 2º Templo, cristianismo primitivo e Jesus Histórico observa:

"Estudiosos hipercríticos consideram a passagem totalmente espúria, isto é, um comentarista cristão inseriu nas Antiquidades para dar uma prova judaica do sec. I da existência de Jesus, que era o messias. Reconhecidamente, no pé em que se encontram as coisas, é improvável que o texto tenha se originado da pena de Flávio Josefo. As afirmações positivas, 'Ele era o Cristo" e de que sua ressurreição ao terceiro dia cumpria a predição dos profetas são estranhas a Josefo e devem proceder de um editor cristão posterior das Antiquidades. Não obstante, declarar que toda a notícia é uma falsificação significa jogar fora o bebê junto com a água suja do banho. De fato, nos anos recentes, a maioria dos especialistas, eu inclusive, tem adotado uma atitude branda, aceitando que parte do relato é autêntica" [3] (grifo nosso).

O Professor Louis Feldman, da Yeshiva University, decano dos estudos sobre Flavio Josefo, afirma categoricamente:

"Quanto ao celebrado Testemunho Flaviano (Ant. 18:63-64) a grande maioria dos estudiosos o consideram como parcialmente interpolado, sendo esta também a minha conclusão. Que o núcleo básico é autêntico é reforçado pelo fato de que aparece em todos os manuscritos (ainda, que o mais antigo destes seja datado do XI século) e todas as versões, incluindo as traduzidas pelo latim pela Escola de Cassiodorus no século VI" [4].

Peter Kirby cita uma análise de Louis Feldmann, já mencionado, que revisou a literatura relevante sobre Josefo entre 1937 e 1980, em seu livro "Josephus and Modern Scholarship"[5].

Dos 52 estudiosos que analisaram o Testemunho Flaviano no período (1937-1980)
4 (8 %) o consideraram totalmente autêntico,
6 (12 %) basicamente autêntico
20 (40 %) autêntico em parte, com algumas interpolações
9 (18 %) autêntico em parte, com várias interpolações
13 (25 %) totalmente falso

Desta forma, poucos aceitam a autênticidade total da passagem, e somente alguns crêem que ela seja uma interpolação completa. Assim, no período, 3 em cada 4 estudiosos creêm em uma menção a Jesus nessa passagem, sendo que a posição dominante (70 %) vê a passagem escrita por Josefo sobre Jesus alterada ou revisada por cristãos. Kirby, "completa" o trabalho Feldmann, de 1980 até 1996. Em sua própria leitura, o "placar" estaria em 10 a 3, favoravel a autencidade parcial [6]. Christopher Price [7] chega a um "placar" parecido, 15 a 1 favorável a autenticidade parcial.

Aceitando que Josefo escreveu algo sobre Jesus, o próximo passo é tentar descobrir o que ele possivelmente escreveu. A descoberta de uma versão em árabe do Testimonium, citada pelo Bispo cristão Agapio, no século X, fornece um interessante controle. Estudos de vocabulario e estilo são citados por G.J Goldberg:

"A passagem como um todo mostra vários exemplos de vocabulario e estilo que são típicos de Josefo, como discutido por Thackeray, Martin, Winter, e, com ajuda da concordância de Rengstorf, por Birdsall e, mais recentemente, por Meier. Destes, somente Birdsall acredita que a passagem foi completamente interpolada. Recentemente, entre os estudiosos cujos trabalhos favorecem a tese que o Testimonium é basicamente autêntico, estão John Dominic Crossan, Raymond Brown e James Charlesworth" [8].

Em vista dos estudos acima, e da tendência acadêmica recente, uma reconstrução que encontrou significativa aceitação, é a do estudiosos católico John P. Meier (que segue, de modo geral, a proposta dos acadêmicos judeus Joseph Klausner e Paul Winter). O texto proposto por Meier segue abaixo:

"Por esse tempo apareceu Jesus, um homem sábio. Pois ele foi o autor de feitos surpreendentes, um mestre de pessoas que recebem a verdade com prazer. E ele ganhou seguidores tanto entre muitos judeus, como dentre muitos de origem grega. E quando Pilatos, por causa de uma acusação feitas pelos nossos homens mais proeminentes, condenou-u a cruz, aqueles que o haviam amado antes não deixaram de faze-lo. . E até hoje a tribo dos cristãos, que deve esse nome a ele, não desapareceu" (versão de Meier) [9]

A versão acima é aceita por estudiosos de várias orientações religiosas como o protestante N. T. Wright, o católico (bem) liberal John Dominic Crossan (De Paul University, EUA), a judia Paula Frederiksen (Boston University) e o agnóstico Bart Erhmann (Universidade da Carolina do Norte) [10] entre outros. Geza Vermes, de forma independente, chegou a conclusões similares as de J.P. Meier, e enfatiza os adjetivos "homem sábio" e "realizador de feitos controversos", além do relato da crucificação por Pôncio Pilatos e não extinção do movimento cristão, como sendo autênticamente de Josefo [11].

Considerando agora a proposta de Meier. O texto reconstituído poderia mesmo ter sido escrito por Josefo? Que haja uma referência a crucificação de Jesus por Pôncio Pilatos, e de que ele foi o fundador do movimento cristão, que sobreviveu a sua morte, não parece estranho. Tácito nos diz a mesma coisa. Que Josefo diga que Jesus realizou feitos surpreendentes, no sentido de milagrosos, não é tão problemático como pode parecer a primeira vista, uma vez que a palavra utilizada, paradoxa, é ambigua (espetaculares, surpreendentes ou controversos). No século II, mesmo Celso, um violento crítico do cristianismo, não nega Jesus era capaz de realizar tais feitos, mas relata que fontes judaícas afirmavam que Jesus fazia seus paradoxa através do conhecimento de artes mágicas que adquiriu no Egito (Contra Celso 1:6; 16-17), assim como alguns rabinos posteriores no Talmude (bSanhedrin 43b) [12]. Em meados do século II, Justino e Tertuliano defendem Jesus da acusação de ser um mágico [13]. Mesmo entre os mais ferrenhos adversários do cristianismo, a linha de ataque mais comum não era negar a capacidade de Jesus de fazer milagres, mas atribui-los a um suposto conhecimento de mágica e associação com poderes demoníacos.

Mas como Josefo poderia dizer que Jesus era um homem sábio, (...) e mestre de pessoas que recebiam a verdade com prazer?

Será que Josefo ficou maluco? Será que os distintos "scholars" ficaram malucos? Ou será que era realmente possível que um membro da aristocracia romana e judaíca pudesse ter um opinião neutra, ou até ligeiramente positiva de Jesus?

O que segue nos próximos posts é uma análise das opiniões de observadores não cristãos (Mara Bar-Serapion, Luciano e Galeno), no século II, a respeito de Jesus. E como ele e seus ensinos foram considerados de certo valor nos círculos instruidos, nos permitindo entender como Josefo poderia ter admirado Jesus, sem se tornar cristão.

CONTINUA
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BIBLIOGRAFIA E REFERÊNCIAS
[1] Flavio Josefo, Antiguidades Judaicas, 18:63-64
[2] Alice Whealey (2000), 'The Testimonium Flavianum controversy from Antiquity to the Present", fl. 9 http://pace.mcmaster.ca/media/pdf/sbl/whealey2000.pdf
[3] Geza Vermes (2000), As Varias Faces de Jesus, fls 305-306
[4] Louis H Feldman, Flavius Josephus Revisited, The man, His Writings, and his significance, In Wolfgang Haase & Temporini; Aufstieg und Niedergang der römischen Welt (1984),page 822
[5] Louis H Feldmann, Josephus and Modern Scholarship (1987), in Peter Kirby, Testimonium Flavianum (2001) http://www.earlychristianwritings.com/testimonium.html , acessado em 31.03.09
[6] Peter Kirby (2001), Testimonium Flavianum http://www.earlychristianwritings.com/testimonium.html
[7] Christopher Price (2004), Did Josephus Refer to Jesus? http://www.bede.org.uk/Josephus.htm
[8] Gary G. Goldberg (1995), "The Coincidences of the Emaus Narrative of the Luke and the Testimonium of Josephus" The Journal for The Study of the Pseudepigrapha 13, pp- 59-77.
http://www.josephus.org/GoldbergJosephusLuke1995.pdf
[9] John P. Meier (1991), Um Judeu Marginal, Volume 1, fl.69
[10] ver John D. Crossan (1994), Jesus uma Biografia Revolucionária, fl. 172; Paula Frederiksen (1999), Jesus of Nazareth, King of the Jews, fl. 249; Bart Erhmann (1999) Jesus, apocalyptic prophet of the new millennium, fl. 59-62;
[11] Geza Vermes (2003), Jesus in his Jewish Context, fls. 93 a 95
[12] Geza Vermes (2000), As Varias Faces de Jesus, fl. 306, nota
[13] Justino, Dialogo com Trifo, 69:5 "Eles atribuiram [os milagres] a utilização de poderes mágicos, porque eles se atreveram a dizer que Jesus era um mágico e enganador do povo"; Tertuliano, Apologetica 21:17 "Assim, então, sob a força de sua rejeição se convenceram a si próprios desse seu baixo procedimento: que Cristo não foi mais do que um homem, seguindo-se, como conseqüência necessária, que tivessem Cristo na conta de mágico, devido aos poderes que demonstrou".

Ver Também:
Ben C Smith: "Josephus on the Carreer and execution of Jesus" (citações do Testimonium por vários autores da antiguidade) http://www.textexcavation.com/josephustestimonium.html

terça-feira, 12 de maio de 2009


Embora se trata de algo algo bem estabelecido nos círculos ou entre pessoas mais informadas desse contexto histórico, ainda é muito comum encontrarmos declarações no sentido de que o Imperador Constantino teria oficializado o cristianismo. Apesar do apoio pró-ativo deste, em questões como devolução das terras confiscadas, e seu interesse maior em trabalhar a questão religiosa para promover a unidade no império, tal informação é improcedente. O dito foi feito pelo Edito de Teodósio I, em 380 d.C., 47 anos após o Edito de Milão.

Qual foi então, a orientação do famoso Edito de Milão?

Nós, Constantino e Licínio, Imperadores, encontrando-nos em Milão para conferenciar a respeito e da segurança do império, decidimos que, entre tantas coisas benéficas à comunidade, o culto divino deve ser a nossa primeira e principal preocupação. Pareceu-nos justo que todos, cristãos inclusive, gozem da liberdade de seguir o culto e a religião de sua preferência. Desta forma o Deus, que mora no céu, ser-nos-á propício a nós e a todos os nossos súditos. Decretamos, portanto, que, não obstante a existência de instruções anteriores relativas aos cristãos, os que optarem pela religião de Cristo estão autorizados a abraçá-la sem estorvo ou empecilho, e que ninguém absolutamente os impeça ou moleste...Observai, outrossim, que também todos os demais terão garantida a livre e irrestrita prática de suas respectivas religiões, pois está de acordo com a estrutura estatal e com a paz vigente que asseguremos a cada cidadão liberdade de culto, segundo sua consciência e eleição. Não pretendemos negar a honra devida a qualquer religião e a seus adeptos. Outrossim, com referência aos cristãos, ampliando normas já estabelecidas sobre os lugares de seus cultos, é-nos grato ordenar, pela presente, que todos os que compraram esses locais os restituam aos cristãos sem qualquer pretensão a pagamento...

Use-se da máxima diligência no cumprimento das ordenanças a favor dos cristãos e obedeça-se a esta lei com presteza, para se possibilitar a realização de nosso propósito de instaurar a tranqüilidade pública. Assim continue o favor divino, já experimentado em empreendimentos momentosíssimos, outorgando-nos o sucesso, garantia do bem comum.

Há ainda uma observação constante no Edito:
As igrejas recebidas como donativo e os demais lugares que antigamente pertenciam aos cristãos deviam ser devolvidos. Os proprietários, porém, podiam requerer compensação.


Houvera uma Grande Transformação, no cristianismo, após o referido Edito?

Pra mim, O Grande Impacto seria, em termos relativos, para com sua postura ante seu papel social e a cultura. Busco aportes aqui em um constructo articulado pelo sociólogo espanhol Manuel Castells, no livro O Poder da Identidade, com os conceitos:

- Identidade legitimadora: introduzida pelas instituições da sociedade no intuito de expandir e racionalizar sua dominação em relação aos atores sociais ;

- Identidade de resistência: criado por atores que se encontram em posições/condições desvalorizadas e/ou estigmatizadas pela lógica da dominação;

- Identidade de projeto: quando os atores, utilizando- se de qualquer tipo de material cultural ao seu alcance, constroem uma nova identidade capaz de redefinir sua posição na sociedade.

Diria que o cristianismo, que até então se constituía em termos das duas últimas, passou a se ver e portar-se, essencialmente, como uma Identidade legitimadora. É claro que temos que enxergar isso relativamente, tendo em vista que o autor elaborara tais conceitos estudando os movimentos sociais e culturais do período moderno, com ênfase no final do século XX, e a realidade antiga possuía contornos diferentes da modernidade, e assim, não se faz uma transposição automática dessas ferramentas analíticas. Outrossim, podemos ver manifestações no cristianismo antigo também de preocupações com a ordem social enquanto possibilitadora da vida em comum –Romanos 13 – embora seja secundária para com seu ethos e com sua perspectiva cristológica e escatológica que se chocavam com as reivindicações e discursos legitimadores do império, e sua lógica de poder. Também, secundariamente, permaneceram neste período posterior posturas como identidade de resistência - sobretudo nos âmbitos monásticos - e identidade de projeto - Cidade de Deus, de Santo Agostinho.

Uma certa empatia para se compreender a atitude das pessoas no contexto também é importante nesse caso, ou seja, a preocupação de se olhar o passado com uma aproximação das lentes de quem o viveu – sabendo que uma identificação correspondencial é sobremaneira limitada, talvez impossível, podendo levar à megalomania. A discussão do antropólogo Geertz, para com a Fenomenologia da Cultura, pra mim é o que desenvolve melhor a perspectiva de buscar se interagir com o processo, comportamento e fenômeno cultural estudado, com aproximação hermenêutica, sem se pautar pelo relativismo filosófico, debruçando o olhar sobre o entendimento de um tráfego simbólico nas culturas diante dos processos históricos em que estão envolvidas, e sob essa lente entender suas respostas.

Poucos anos antes do Edito de Milão, houvera uma das maiores perseguições, a de Diocleciano, sendo que mal se teve tempo de recuperar das perseguições atrozes de Valeriano e antes, da de Décio. A memória dos cristãos estava impregnada de décadas e décadas de óleos ferventes, crucificações, feras, gladiadores, degolas, esquartejamentos, flagelos.

Pouco depois de Constantino, houvera o Imperador Constâncio, um imperador ariano que perseguia os não-arianos. Constâncio, ainda, ao condenar Anastásio em Milão – 355 – expôs sua concepção sobre igreja/estado, para a Igreja:

Aceite-se minha vontade entre vós e seja ela vossa lei como é lei para os bispos sírios (arianos).


Nesse tempo, Ósio, bispo de Córdoba (256-357 d.C.) redigiu para Constâncio o que poderia ser considerado o primeiro manifesto, melhor, um protótipo, para a autonomia das esferas:

(...) Abandonai, suplico-vos, os vossos procedimentos. Lembrai que também vós sois mortal; temei o dia do juízo e guardai-vos puro na perspectiva daquele dia. Não interfirais em matérias eclesiásticas, nem nos instruas em semelhante questões, mas a respeito delas aprendei de nós. Deus colocou em vossas mãos o império, mas as coisas de Sua Igreja confiou a nós. Se alguém vos arrebatais o império, resistiria à ordem divina; do mesmo modo, deveríeis, vós e os vossos, temer que, assumindo o governo da Igreja, vos torneis réus de ofensa grave. Daí a César o que é de César e a Deus o que é de Deus. Nós não temos permissão para exercer o poder humano e vós, César, não tendes autoridade para queimar incenso. Assim vos escrevo por se tratar de vossa própria salvação.


Pena que, posteriormente, tal interpelação não tenha vingado...

quinta-feira, 7 de maio de 2009




Dinheiro, riqueza e sustento das comunidades entre o Novo Testamento, Qumran, os Terapeutas e a patrística até o início do século III


INTRODUÇÃO

Poucas questões são tão reveladoras das transformações sofridas pelo cristianismo quanto a maneira pela qual suas comunidades compreenderam a riqueza, a posse dos bens e a circulação do dinheiro. A pergunta parece inicialmente simples: como os primeiros cristãos obtinham recursos para sobreviver, sustentar suas comunidades e atender aos pobres? Entretanto, quando deslocamos a questão de uma perspectiva puramente institucional para uma perspectiva histórica, econômica e antropológica, ela se torna consideravelmente mais complexa. Não estamos diante apenas de uma história das contribuições religiosas, nem diante daquilo que hoje chamaríamos de “financiamento da Igreja”. Estamos diante da formação progressiva de formas de organização econômica inseridas no interior de sociedades antigas estruturadas por relações de patronagem, honra, reciprocidade, dependência, propriedade e desigualdade. A questão, portanto, não consiste simplesmente em descobrir se os cristãos “davam dinheiro”, mas em compreender qual era a lógica social que organizava a circulação dos bens dentro dessas comunidades. A documentação cristã mais antiga permite perceber, com relativa clareza, uma tensão fundamental: de um lado, a riqueza aparece como um bem profundamente problemático, sobretudo quando acumulada, utilizada como marcador de status ou transformada em instrumento de dominação; de outro, os recursos materiais são absolutamente necessários para a sobrevivência das próprias comunidades, para a alimentação de seus membros, para o cuidado de viúvas, órfãos, enfermos, estrangeiros e presos e, posteriormente, para a manutenção de ministros e estruturas comunitárias. Essa tensão não constitui uma contradição acidental. Ela é precisamente um dos elementos que nos permitem compreender a economia cristã primitiva.

É importante, antes de tudo, estabelecer uma distinção metodológica. Não devemos transportar para o século I ou II categorias econômicas contemporâneas como “socialismo”, “capitalismo”, “cooperativismo”, “Estado de bem-estar” ou mesmo “economia comunitária” como se fossem categorias nativas dos próprios grupos antigos. O conceito de “comunitarismo econômico” empregado neste ensaio possui caráter analítico. Ele procura descrever práticas nas quais bens sob controle individual eram colocados, em alguma medida, à disposição da comunidade, recursos eram redistribuídos segundo necessidades reconhecidas e determinadas categorias de pessoas recebiam assistência. Não significa que as comunidades cristãs primitivas tenham abolido universalmente a propriedade privada, nem que constituíssem comunidades economicamente autossuficientes. Tampouco significa que todos os cristãos vivessem segundo um único modelo econômico. O que podemos identificar é algo mais específico e, ao nosso ver, historicamente mais interessante: a construção progressiva de mecanismos de redistribuição comunitária que relativizavam a propriedade individual em favor das obrigações econômicas produzidas pela pertença ao grupo. Não pretendemos, com isso, atribuir uniformidade às diferentes comunidades ou supor que todos esses mecanismos funcionassem segundo as mesmas regras. Procuramos, antes, observar uma direção comum: a posse dos bens deixa de ser tratada como uma esfera moralmente independente quando confrontada com a necessidade do outro. (STEGEMANN; STEGEMANN, 2004; FINLEY, 1999).

O corpus aqui reunido é deliberadamente heterogêneo quanto à origem, datação, localização e gênero literário. Essa aproximação não pretende pressupor uma uniformidade institucional ou doutrinária entre essas experiências. Procuramos, antes, acompanhar a recorrência de determinados princípios relativos à posse, à partilha, à assistência e à circulação de recursos, verificando como eles aparecem em contextos distintos e quais limites devem ser reconhecidos em cada caso. Qumran, os Terapeutas, os textos do Novo Testamento, a Didaché, Justino e Tertuliano não constituem uma única tradição econômica nem devem ser tratados como se constituíssem uma linha institucional contínua. É justamente por isso que a comparação precisa ser feita com alguma cautela. Não pretendemos demonstrar uma genealogia direta entre essas experiências. O que nos interessa é perceber um campo cultural no qual diferentes comunidades religiosas do Mediterrâneo antigo puderam desenvolver formas de relativização da autonomia patrimonial e de reorganização da circulação dos bens. A comparação é, nesse sentido, um instrumento para identificar problemas e recorrências, e não para fabricar uma cadeia de transmissão onde as fontes não a demonstram.

É justamente nesse ponto que a crítica contemporânea à chamada Teologia da Prosperidade pode encontrar um fundamento histórico mais consistente do que uma simples condenação moral. A crítica não precisa depender da afirmação apologética de que “os primeiros cristãos eram pobres” ou de que “a Igreja antiga não possuía dinheiro”. Ambas seriam historicamente frágeis. Os cristãos possuíam propriedades, recebiam recursos, administravam dinheiro, realizavam coletas e, progressivamente, constituíram estruturas econômicas relativamente complexas (BROWN, 2012; STEGEMANN; STEGEMANN, 2004). O ponto decisivo é outro. A documentação mais antiga não apresenta a prosperidade material individual como sinal necessário da bênção divina, nem apresenta a contribuição financeira como mecanismo pelo qual o fiel compra, reivindica ou produz a própria prosperidade. Ao contrário, a riqueza é constantemente submetida a uma lógica de responsabilidade, partilha, esmola, hospitalidade e cuidado comunitário. O dinheiro circula; mas a direção dessa circulação é fundamental. O problema não é apenas quanto entra na comunidade, mas para onde vai aquilo que entra. É nesse deslocamento que encontramos uma das diferenças mais importantes entre a economia moral do cristianismo primitivo e determinadas formas modernas da religião de prosperidade.

Nota metodológica: As citações bíblicas e das fontes antigas apresentadas neste artigo foram traduzidas para o português a partir das edições indicadas nas referências, salvo indicação em contrário.


1. A RIQUEZA NO ENSINAMENTO DE JESUS: O PROBLEMA NÃO É A POBREZA, MAS A ACUMULAÇÃO

Nos Evangelhos, a riqueza aparece menos como uma categoria econômica abstrata do que como uma questão relacionada à orientação moral da existência. O episódio do homem rico é particularmente significativo. Em Marcos 10:21, Jesus lhe diz:

“Vai, vende tudo o que tens, dá aos pobres, e terás um tesouro no céu; depois vem e segue-me.”

A formulação da passagem envolve ações econômicas concretas: vender, distribuir e transferir. O problema não é apenas possuir, mas aquilo que a posse produz quando se transforma em retenção. O dinheiro acumulado deixa de ser moralmente neutro quando se torna obstáculo à relação com o outro. O texto não permite, contudo, concluir que Jesus tenha estabelecido uma regra universal segundo a qual toda propriedade privada deveria ser imediatamente abolida. A própria tradição evangélica contém referências a pessoas que possuem casas, recursos e propriedades. A questão parece ser outra: a propriedade não pode reivindicar autonomia diante da necessidade humana. Em Lucas 6:30, Jesus afirma: “Dá a todo aquele que te pedir”. Em Lucas 12:33: “Vendei os vossos bens e dai esmola”. E, na parábola do rico insensato, o problema não é simplesmente a existência de uma colheita abundante, mas a decisão de acumular indefinidamente sem considerar a dimensão social da riqueza.

A parábola de Lucas 12 é particularmente reveladora porque o homem rico não é condenado por ter produzido riqueza, mas por organizar sua existência inteiramente em torno da acumulação. “Derrubarei meus celeiros e construirei maiores” constitui, no interior da narrativa, uma espécie de programa econômico. A riqueza deixa de ser meio e converte-se em finalidade. A crítica de Jesus incide precisamente sobre essa inversão. O mesmo princípio aparece em Mateus 6:19-21:

“Não acumuleis para vós tesouros na terra, onde a traça e a ferrugem os consomem e onde os ladrões arrombam e roubam. Acumulai para vós tesouros no céu.”

A oposição não é simplesmente entre dinheiro e espiritualidade. Trata-se da oposição entre duas formas de acumulação. O “tesouro na terra” representa uma riqueza encerrada em si mesma; o “tesouro no céu” desloca o centro de gravidade da posse. O problema, portanto, não é a existência dos bens, mas o lugar que eles ocupam na arquitetura moral da vida. Não se trata, portanto, de afirmar que o cristianismo primitivo desconhecia a economia. O que encontramos é algo diferente: uma tentativa de subordinar a economia a uma ordem moral comunitária. A posse não desaparece simplesmente; sua autonomia moral é que passa a ser questionada. É exatamente aqui que a chamada Teologia da Prosperidade entra em tensão com a matriz evangélica. A questão não é afirmar que toda riqueza seja pecaminosa. Essa leitura seria igualmente simplificadora. O problema consiste em transformar a riqueza em critério de confirmação espiritual. Quando a posse material passa a funcionar como evidência de favor divino, o argumento de Jesus é invertido (BROWN, 2012).

Nos Evangelhos, o rico precisa perguntar o que fará com aquilo que possui; em determinadas formulações da Teologia da Prosperidade, o problema pode ser transformado em “como obter aquilo que Deus deseja me conceder”. No primeiro caso, a riqueza produz responsabilidade; no segundo, pode converter-se em reivindicação.





2. QUMRAN, OS TERAPEUTAS E OS ANTECEDENTES JUDAICOS DO COMUNITARISMO ECONÔMICO

A ideia de submeter a propriedade individual às necessidades da comunidade não surgiu com o cristianismo. No judaísmo do Segundo Templo encontramos diferentes experiências de organização comunitária nas quais a posse, o trabalho e a distribuição dos recursos eram subordinados a princípios religiosos. Qumran constitui um dos exemplos mais importantes, embora seja necessário evitar qualquer identificação direta entre a comunidade de Qumran e os primeiros cristãos. A Regra da Comunidade (1QS VI, 18-22) descreve um processo gradual de integração econômica. O indivíduo que ingressava na comunidade não entregava imediatamente todos os seus bens para consumo comum. Depois de um primeiro período de prova, seus bens e rendimentos eram entregues ao responsável pela comunidade e registrados; somente após etapas posteriores de exame e plena admissão os recursos passavam a integrar efetivamente a propriedade comum. O procedimento demonstra que havia uma relação entre pertencimento religioso e reorganização patrimonial, mas também revela a existência de regras, etapas e mecanismos de controle. Essa precisão é importante. Não estamos diante de uma simples “abolição da propriedade”. O que aparece é uma transformação do estatuto social dos bens. A propriedade individual não é necessariamente negada desde o primeiro momento; ela é progressivamente submetida à comunidade e à autoridade comunitária. O ingresso religioso produz, portanto, consequências econômicas (GARCÍA MARTÍNEZ, 1994; VERMES, 2004).

O livro de Atos apresenta uma imagem semelhante, embora em contexto diferente. Em Atos 4:32, lemos:

“Da multidão dos que haviam crido, o coração e a alma eram um só; ninguém dizia que aquilo que possuía era seu, mas tinham tudo em comum.”

E, poucos versículos depois:

“Não havia entre eles necessitado algum.”

A passagem é extraordinariamente importante, mas precisa ser lida como representação narrativa da comunidade idealizada pelo autor de Atos, e não como estatística econômica capaz de demonstrar a eliminação efetiva da pobreza entre todos os cristãos de Jerusalém. O texto expressa um ideal de comunhão patrimonial e de redistribuição que deve ser compreendido dentro da construção teológica da narrativa. Outro testemunho relevante encontra-se em Fílon de Alexandria, ao descrever os chamados Terapeutas em De vita contemplativa. Fílon afirma que eles abandonavam suas propriedades e organizavam a existência em torno de uma vida comunitária de oração, estudo e refeições comuns. O texto não permite reconstruir automaticamente uma estrutura patrimonial idêntica àquela de Qumran ou de Atos, e sua própria natureza literária exige cautela. Ainda assim, ele demonstra que, no Mediterrâneo judaico do período, formas de abandono da propriedade e de organização material da vida religiosa faziam parte do repertório disponível (FÍLON DE ALEXANDRIA, 2005).

Não é necessário supor uma linha direta de transmissão entre Qumran, os Terapeutas e o cristianismo. O cristianismo surgiu nesse universo cultural e desenvolveu mecanismos próprios. O interesse histórico da comparação está justamente em mostrar que a relativização da autonomia patrimonial não era uma invenção isolada, mas uma possibilidade existente em determinados ambientes religiosos judaicos. É nesse ponto que aparece uma das características mais interessantes do cristianismo primitivo: a coleta intercomunitária.


3. A ECONOMIA PAULINA: COLETA, REDISTRIBUIÇÃO E SOLIDARIEDADE ENTRE COMUNIDADES

Com Paulo, a economia comunitária adquire uma dimensão que ultrapassa os limites da congregação local. A coleta destinada aos pobres de Jerusalém constitui um dos exemplos mais importantes de circulação econômica organizada entre diferentes comunidades cristãs. Em 1 Coríntios 16:1-3, Paulo estabelece um procedimento:

“Quanto à coleta para os santos, fazei também vós como ordenei às igrejas da Galácia. No primeiro dia da semana, cada um de vós ponha de lado, em sua casa, aquilo que puder ajuntar, para que não se façam coletas quando eu chegar.”

A passagem demonstra que a contribuição não era pensada como ato puramente espontâneo e ocasional. Existiam periodicidade, planejamento e administração. A economia da comunidade começava a adquirir uma dimensão organizacional. Em 2 Coríntios 8:13-14, Paulo explicita a lógica que pretende atribuir à coleta:

“Não se trata de aliviar os outros fazendo-vos sofrer, mas de estabelecer igualdade: no presente momento, a vossa abundância supre a falta deles, para que também a abundância deles venha a suprir a vossa falta, e assim haja igualdade.”

A palavra “igualdade” não deve ser transportada automaticamente para o sentido moderno de igualdade econômica ou nivelamento patrimonial. O argumento paulino aponta para uma relação de equilíbrio e mutualidade entre comunidades que possuem recursos em proporções diferentes. A riqueza de uma comunidade pode responder à necessidade de outra. Paulo reforça esse princípio recorrendo ao episódio do maná:

“Aquele que muito recolheu não teve demais, e aquele que pouco recolheu não teve de menos” (2 Coríntios 8:15).

A economia cristã paulina, portanto, não se reduz à esmola individual. Ela envolve uma circulação intercomunitária de recursos. A coleta estabelece uma relação entre comunidades geograficamente separadas e transforma a contribuição econômica em expressão material de koinonia. Essa dimensão foi destacada por Julien M. Ogereau ao analisar a linguagem de koinonia associada à coleta de Jerusalém. Sua interpretação enfatiza as implicações socioeconômicas e políticas do projeto paulino e sua capacidade de produzir solidariedade entre comunidades que atravessavam diferenças sociais, culturais e étnicas (OGEREAU, 2012, p. 360-378).

É importante, contudo, não confundir as diferentes fontes que tratam do tema. A narrativa de Atos e as cartas paulinas devem ser analisadas segundo seus próprios contextos e objetivos. David J. Downs chamou atenção justamente para o risco de utilizar Atos simplesmente como fonte complementar para reconstruir historicamente a coleta paulina descrita nas cartas. Sua análise sustenta que Atos deve ser lido em seus próprios termos narrativos, sem impor automaticamente a ele informações provenientes das epístolas (DOWNS, 2006, p. 50-70). Essa cautela não diminui a importância da coleta. Pelo contrário, torna sua interpretação historicamente mais segura. Nas cartas paulinas, temos evidência direta de uma iniciativa econômica translocal; em Atos, temos uma narrativa que constrói determinadas imagens de partilha e cuidado comunitário. São testemunhos relacionados por tema, mas não necessariamente intercambiáveis como evidência histórica. A economia paulina, nesse sentido, é uma economia de circulação. Aquele que possui hoje pode suprir aquele que necessita hoje; essa relação não precisa ser reduzida a uma devolução contratual equivalente no mesmo momento, embora o próprio argumento paulino contemple a possibilidade de reciprocidade futura. O princípio fundamental está na responsabilidade produzida pela pertença comum.





4. O NOVO TESTAMENTO CONTRA A LÓGICA DA PROSPERIDADE

A crítica à riqueza permanece presente em outras tradições do Novo Testamento. Na Primeira Carta a Timóteo — tradicionalmente atribuída a Paulo, embora sua autoria paulina seja discutida na pesquisa moderna — encontramos uma advertência particularmente severa:

“Os que querem enriquecer caem em tentação, em laço e em muitos desejos insensatos e nocivos, que mergulham os homens na ruína e na perdição. Porque a raiz de todos os males é o amor ao dinheiro” (1 Timóteo 6:9-10).

O texto não afirma que o dinheiro, enquanto objeto material, seja a raiz de todos os males. O alvo é o desejo de enriquecer e, sobretudo, a transformação do dinheiro em objeto de amor. Mais adiante, a mesma carta apresenta uma orientação dirigida aos ricos:

“Aos ricos deste mundo, ordena que não sejam orgulhosos, nem depositem sua esperança na incerteza da riqueza, mas em Deus, que nos proporciona abundantemente todas as coisas para delas desfrutarmos. Que pratiquem o bem, sejam ricos em boas obras, generosos e prontos a repartir” (1 Timóteo 6:17-18).

A passagem é reveladora porque não determina simplesmente que os ricos deixem de ser ricos. Ela modifica o significado moral da riqueza. O rico deve ser “rico em boas obras”, generoso e disposto a repartir. A riqueza permanece, mas perde sua autonomia. A Carta de Tiago radicaliza essa crítica. Em Tiago 5:1-3, lemos:

“E agora, ricos, chorai e lamentai-vos por causa das desgraças que vos sobrevirão. Vossas riquezas estão apodrecidas e vossas roupas comidas pelas traças. Vosso ouro e vossa prata estão enferrujados.”

E, logo depois:

“Eis que o salário dos trabalhadores que ceifaram vossos campos, que foi retido por vós, clama, e os gritos dos ceifeiros chegaram aos ouvidos do Senhor dos Exércitos” (Tiago 5:4).

Aqui a riqueza deixa de ser uma questão exclusivamente individual. O problema passa a ser a relação entre riqueza e exploração. O dinheiro acumulado contém uma história social: alguém trabalhou, alguém recebeu, alguém reteve.

Lucas 12 oferece uma formulação semelhante:

“Vendei os vossos bens e dai esmola. Fazei para vós bolsas que não envelheçam, um tesouro inesgotável nos céus” (Lucas 12:33).

É preciso, entretanto, evitar uma falsa oposição. As tradições cristãs antigas também conhecem a linguagem da recompensa: existe o “tesouro no céu”, existe a promessa de “verdadeira vida”, existe uma expectativa de recompensa escatológica. A diferença não está, portanto, na presença ou ausência de expectativa de recompensa — que também existe nas tradições cristãs antigas —, mas na natureza dessa recompensa e na direção social atribuída à riqueza. Nas fontes aqui examinadas, a recompensa cristã antiga é predominantemente apresentada em categorias escatológicas, espirituais e morais. Isso é diferente de transformar a contribuição financeira em mecanismo necessário de obtenção de prosperidade material individual. A diferença não é entre uma religião “sem recompensa” e outra “com recompensa”, mas entre diferentes economias morais da recompensa.


5. A DIDACHÉ E A ECONOMIA DA RECIPROCIDADE

A Didaché fornece outro testemunho particularmente interessante porque revela a preocupação das comunidades cristãs com o uso econômico da hospitalidade e da autoridade religiosa. O texto estabelece critérios para distinguir o verdadeiro apóstolo ou profeta do impostor. Em Didaché 11.4-6, encontramos uma orientação segundo a qual o visitante deve ser recebido, mas não pode permanecer indefinidamente às custas da comunidade. O texto estabelece:

“Se aquele que vem for um viajante, ajudai-o quanto puderdes; porém ele não deve permanecer convosco mais de dois ou três dias, se houver necessidade. Se quiser ficar entre vós e tiver uma profissão, que trabalhe e coma. Se não tiver profissão, providenciai segundo vosso entendimento, para que nenhum cristão viva entre vós na ociosidade. Mas, se ele não quiser fazer isso, está negociando com Cristo. Cuidado com esses homens.”

A economia aparece aqui associada à autenticidade religiosa. A comunidade não deve ser explorada por indivíduos que utilizam a linguagem religiosa para obter sustento sem oferecer uma contribuição correspondente à vida comunitária. A Didaché chega a estabelecer uma distinção ainda mais explícita em 11.12:

“Mas se ele disser: ‘Dai-me dinheiro’, não lhe obedeçais. Se, porém, disser que se dê dinheiro a outros que estão necessitados, ninguém o julgue.”

A diferença é decisiva. Pedir dinheiro para si pode ser sinal de exploração; solicitar recursos para atender pessoas necessitadas pode ser legítimo. A questão não está simplesmente no ato de pedir, mas na finalidade econômica do pedido. A mesma preocupação aparece em Didaché 4.8:

“Não hesites em dar, nem murmures quando deres.”

A economia comunitária não é apresentada como simples obrigação fiscal. O ato de dar é incorporado à formação moral do indivíduo. O dinheiro precisa circular, mas a própria disposição daquele que dá também precisa ser transformada. A comunidade, neste sentido, não elimina a economia. Ela reorganiza seus critérios. O problema passa a ser distinguir entre circulação legítima e exploração, entre hospitalidade e parasitismo, entre assistência e manipulação religiosa.


6. JUSTINO E TERTULIANO: O CAIXA COMUM E A ECONOMIA DA ASSISTÊNCIA

No século II, Justino Mártir oferece uma descrição particularmente clara da organização econômica das comunidades cristãs. Na Primeira Apologia 67, ele explica que aqueles que possuem recursos e desejam contribuir oferecem aquilo que consideram apropriado, sendo os valores reunidos entregues ao responsável pela comunidade. Justino afirma:

“Os que possuem bens e querem fazê-lo dão o que desejam, cada um segundo sua vontade; e aquilo que é recolhido é depositado junto ao presidente, que socorre os órfãos e as viúvas, os que estão doentes ou por alguma outra causa necessitados, os que estão presos, os estrangeiros que chegam de longe.”

A passagem demonstra a existência de recursos reunidos e administrados comunitariamente. Não se trata necessariamente de um “fundo” no sentido administrativo moderno, mas de uma reserva comum cuja função principal é assistencial. A lista de Justino é reveladora. A comunidade não atende apenas seus membros economicamente produtivos. Ela inclui órfãos, viúvas, enfermos, presos e estrangeiros. A circulação dos recursos é orientada para categorias socialmente vulneráveis (JUSTINO MÁRTIR, 1995).

Tertuliano apresenta uma estrutura semelhante em seu Apologeticum, escrito por volta do final do século II. Ao responder às acusações feitas contra os cristãos, descreve aquilo que chama de uma espécie de “caixa” comunitária:

“Há uma espécie de caixa comum, que não é constituída por taxas obrigatórias, como se fosse pagamento por uma religião. Cada um contribui uma vez por mês, ou quando quiser, se quiser e se puder.”

O ponto importante está na qualificação. Tertuliano descreve uma possível regularidade, mas não uma obrigação universal. A contribuição depende da vontade e da capacidade do indivíduo. Ele explica ainda a finalidade desses recursos:

“Não são gastos em banquetes, nem em bebidas, nem em prazeres; mas para alimentar e sepultar os pobres, para socorrer meninos e meninas sem recursos e sem pais, para ajudar os idosos confinados em casa, os náufragos e os que trabalham nas minas, os exilados e os presos.”

A lista é novamente significativa. A economia comunitária aparece vinculada à assistência social. Os recursos não são justificados pela expansão patrimonial da instituição, mas pelo atendimento de pessoas em situação de vulnerabilidade. Há aqui uma característica que atravessa os testemunhos anteriores: regularidade possível, compulsoriedade ausente. A comunidade precisa de dinheiro, mas a contribuição não é apresentada como imposto religioso. A autoridade econômica existe, mas é moralmente limitada por sua finalidade (TERTULIANO, 1997).


7. O COMUNITARISMO ECONÔMICO COMO SISTEMA DE RECIPROCIDADE

Quando observamos conjuntamente esses testemunhos, emerge um padrão que pode ser descrito, em termos analíticos, como uma economia de reciprocidade generalizada. A formulação não significa que toda assistência produzisse uma devolução direta entre quem dava e quem recebia. Viúvas, órfãos, presos e estrangeiros não constituem necessariamente parceiros de uma troca bilateral. A reciprocidade aqui deve ser compreendida em sentido mais amplo: como sistema de responsabilidades e circulação de recursos produzido pela pertença a uma comunidade. É nesse ponto que as contribuições de Marcel Mauss e Karl Polanyi podem funcionar como instrumentos heurísticos. A dádiva, em Mauss, demonstra que a circulação de bens pode produzir vínculos sociais que ultrapassam a equivalência imediata entre objetos e valores. Polanyi, por sua vez, permite pensar economias nas quais a circulação dos recursos está integrada a relações sociais e institucionais mais amplas. Nenhum dos dois autores deve ser utilizado como prova direta sobre as comunidades cristãs antigas. Suas categorias servem aqui para interpretar uma documentação que apresenta práticas econômicas inseridas em relações de pertencimento (MAUSS, 2003; POLANYI, 2000).

O cristianismo primitivo não aboliu necessariamente a propriedade individual. O episódio de Ananias e Safira, em Atos 5, é particularmente importante porque Pedro afirma:

“Conservando-o, não permaneceria teu? E, vendido, não estava em teu poder?”

A frase é decisiva para compreender o problema. A propriedade continua sendo reconhecida como pertencente ao indivíduo. O pecado de Ananias não consiste simplesmente em não entregar toda a propriedade, mas em mentir sobre aquilo que decidiu entregar. A propriedade existe; o que muda é sua posição moral. Ela deixa de ser uma esfera completamente autônoma. O proprietário pode decidir sobre seus bens, mas a comunidade estabelece expectativas morais sobre o modo como esses bens são utilizados quando o indivíduo se apresenta como participante de uma comunidade fundada na partilha.

É por isso que o conceito de comunitarismo econômico precisa ser utilizado com precisão. Não estamos descrevendo uma economia sem propriedade, nem uma igualdade patrimonial absoluta. Estamos descrevendo uma economia na qual a propriedade individual é moralmente subordinada às relações de pertencimento, às necessidades dos outros e à responsabilidade comunitária.



8. A ECONOMIA CRISTÃ PRIMITIVA CONTRA A TEOLOGIA DA PROSPERIDADE

É nesse ponto que a comparação com determinadas formas contemporâneas da chamada Teologia da Prosperidade pode ser historicamente produtiva, desde que não seja transformada em uma genealogia direta nem em uma caricatura do fenômeno contemporâneo. A chamada Teologia da Prosperidade não constitui um bloco homogêneo. Existem formulações mais “duras”, nas quais a contribuição financeira é explicitamente associada à expectativa de retorno material, e formulações mais “suaves”, nas quais a prosperidade é apresentada de maneira menos transacional. A comparação aqui proposta é, portanto, histórica e analítica. O problema fundamental está na direção da circulação econômica.

Nas fontes cristãs antigas examinadas neste artigo, encontramos repetidamente uma lógica semelhante:

riqueza → comunidade → necessitado

O indivíduo possui recursos; esses recursos são colocados, voluntariamente ou segundo determinadas obrigações comunitárias, em circulação; a comunidade os administra; aqueles que se encontram em situação de necessidade recebem assistência. Em determinadas formulações da Teologia da Prosperidade, pode aparecer uma lógica diferente:

necessidade → contribuição → instituição/líder → promessa de prosperidade → indivíduo

Não se trata de afirmar que todas as comunidades contemporâneas funcionem exatamente segundo esse esquema. Trata-se de identificar uma inversão possível da direção econômica. Na primeira estrutura, a riqueza do indivíduo é deslocada em direção à comunidade e ao necessitado. Na segunda, a contribuição pode ser apresentada como instrumento pelo qual o indivíduo espera obter retorno material. A diferença é historicamente significativa. No primeiro modelo, a riqueza gera responsabilidade. No segundo, a contribuição pode ser interpretada como mecanismo de reivindicação de uma bênção.

Isso não significa que os cristãos antigos desconhecessem a recompensa. Como já vimos, a promessa do “tesouro no céu” está profundamente presente na tradição evangélica. O que muda é o objeto da expectativa e a forma pela qual a economia é integrada à teologia. A recompensa não é necessariamente negada; ela é deslocada para outra ordem. Também não se deve afirmar que toda contribuição financeira contemporânea seja uma operação de compra de prosperidade. Tal afirmação reduziria a diversidade do fenômeno e comprometeria a comparação. O argumento é mais restrito: determinadas formas de Teologia da Prosperidade podem transformar a contribuição em mecanismo religioso de expectativa de retorno material individual, enquanto as fontes antigas aqui examinadas apresentam com maior frequência a contribuição como mecanismo de assistência, comunhão e redistribuição.

O contraste, portanto, não está entre uma economia cristã antiga “sem dinheiro” e uma economia religiosa moderna “com dinheiro”. Ambas conhecem o dinheiro. Ambas conhecem a contribuição. Ambas conhecem a linguagem da recompensa. A diferença está na arquitetura moral que organiza a circulação dos recursos. Na economia comunitária antiga, o dinheiro deve servir ao pertencimento. Na lógica da prosperidade, em suas formas mais transacionais, o pertencimento religioso pode ser convertido em mecanismo de obtenção individual de prosperidade. É essa inversão que permite compreender por que a crítica à Teologia da Prosperidade pode ser construída historicamente sem recorrer a uma idealização do cristianismo primitivo.


CONCLUSÃO: UMA ECONOMIA DO PERTENCIMENTO

A análise realizada permite retornar à questão inicial: como os primeiros cristãos obtinham recursos para sustentar suas comunidades e cuidar de seus membros? A resposta não pode ser reduzida a uma única fórmula. Encontramos propriedades individuais, contribuições voluntárias, coletas regulares, recursos administrados comunitariamente, hospitalidade, assistência aos pobres e circulação de bens entre comunidades. Encontramos também diferentes graus de organização e diferentes concepções sobre a propriedade. Qumran demonstra que comunidades judaicas do período do Segundo Templo podiam submeter progressivamente a propriedade individual às exigências da pertença comunitária. Os Terapeutas testemunham outra forma de organização material da vida religiosa, marcada pelo abandono da propriedade e pelas refeições comuns. Os textos cristãos, entretanto, não devem ser compreendidos simplesmente como reprodução dessas experiências. O cristianismo surgiu nesse universo cultural e desenvolveu mecanismos próprios de partilha, assistência e circulação dos recursos.

No Novo Testamento, a riqueza é repetidamente submetida a uma questão moral: o que o indivíduo fará com aquilo que possui? A coleta paulina amplia essa pergunta para além da comunidade local. A Didaché estabelece critérios para impedir que a hospitalidade seja transformada em exploração. Justino descreve recursos reunidos para atender pessoas vulneráveis. Tertuliano apresenta contribuições possíveis, regulares e voluntárias destinadas à assistência. O resultado não é uma economia sem propriedade. Tampouco é uma igualdade patrimonial em sentido moderno. É algo mais específico: uma economia do pertencimento.

Pertencer à comunidade significa adquirir responsabilidades econômicas. A propriedade continua existindo, mas já não pode reivindicar soberania moral absoluta. O dinheiro continua circulando, mas sua circulação passa a ser julgada segundo a finalidade social que assume. É por isso que o conceito de comunitarismo econômico deve ser entendido como categoria analítica e não como descrição nativa de uma instituição cristã antiga. Ele designa uma configuração na qual a autonomia patrimonial é relativizada por obrigações de partilha, assistência, hospitalidade e redistribuição.

A comparação com a Teologia da Prosperidade, por sua vez, revela uma diferença particularmente importante. O cristianismo antigo não apresenta simplesmente uma religião “contra a riqueza”. Ele apresenta uma religião que procura retirar da riqueza sua capacidade de constituir, por si mesma, um critério absoluto de valor humano ou de favor divino. A pergunta fundamental não é apenas:

“Quanto Deus pode me dar?”

Ela pode ser reformulada, dentro dessa matriz econômica e moral:

“O que farei com aquilo que Deus me permitiu possuir?”

A primeira pergunta orienta o olhar para a aquisição. A segunda desloca-o para a responsabilidade. A primeira pode transformar a fé em expectativa de benefício. A segunda transforma a posse em problema moral. Essa diferença talvez seja pequena em sua formulação verbal, mas enorme em suas consequências sociais. Porque, quando a riqueza é compreendida como sinal de sucesso individual, sua acumulação pode ser justificada como confirmação da bênção. Quando a riqueza é compreendida como responsabilidade perante a comunidade, sua retenção deixa de ser moralmente neutra.

É nesse sentido que a economia dos primeiros cristãos permanece historicamente perturbadora. Ela não oferece um modelo socialista avant la lettre, não estabelece uma abolição universal da propriedade privada e tampouco elimina o dinheiro. Ela faz algo mais sutil: desloca o centro moral da economia da propriedade para o pertencimento.

Eles não aboliram o dinheiro; procuraram abolir sua soberania.


REFERÊNCIAS

BROWN, Peter. Through the eye of a needle: wealth, the fall of Rome, and the making of Christianity in the West, 350–550 AD. Princeton: Princeton University Press, 2012.

DOWNS, David J. Paul’s Collection and the Book of Acts Revisited. New Testament Studies, v. 52, n. 1, p. 50–70, 2006. DOI: 10.1017/S0028688506000038.

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FINLEY, Moses I. The ancient economy. Berkeley: University of California Press, 1999.

GARCÍA MARTÍNEZ, Florentino. The Dead Sea Scrolls translated: the Qumran texts in English. Leiden: Brill, 1994.

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MAUSS, Marcel. Ensaio sobre a dádiva: forma e razão da troca nas sociedades arcaicas. São Paulo: Cosac Naify, 2003.

OGEREAU, Julien M. The Jerusalem Collection as Κοινωνία: Paul’s Global Politics of Socio-Economic Equality and Solidarity. New Testament Studies, v. 58, n. 3, p. 360–378, 2012. DOI: 10.1017/S0028688512000033.

POLANYI, Karl. A grande transformação: as origens de nossa época. Rio de Janeiro: Campus, 2000.

STEGEMANN, Ekkehard W.; STEGEMANN, Wolfgang. História social do protocristianismo: os primórdios no judaísmo e as comunidades de Cristo no mundo mediterrâneo. São Paulo: Paulus, 2004.

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VERMES, Geza. The complete Dead Sea Scrolls in English. London: Penguin, 2004.

THE DIDACHE. In: EHRMAN, Bart D. The Apostolic Fathers. Cambridge: Harvard University Press, 2003.



segunda-feira, 4 de maio de 2009


(...)e eis que com as nuvens do céu vinha um como Filho de Homem; ele chegou até o Ancião de Dias, e o fizeram aproximar de sua presença. E lhe foi dada soberania, glória e realeza, assim as pessoas de todos os povos, nações e línguas o serviam.

(...)
a seguir, os Santos do Altíssimo receberão a realeza, e possuirão a realeza para sempre e para todo o sempre.

(...) e o julgamento fosse dado em favor dos Santos do Altíssimo, e que chegasse o tempo e os Santos possuíssem a realeza.



A expressão Filho do Homem, aparece no Antigo Testamento em diversos contextos e sentidos. No livro de Daniel, surge com um significado especial. Uma figura que viria executar o juízo em nome do próprio Altíssimo, num julgamento em que tomarão parte os seus Santos. Está inserido em uma grande parte que trata de “visões”, ao estilo da chamada literatura apocalítica. Repercute também em diversos textos importantes da literatura apocalíptica judaica, em destaque no Apocalipse das Semanas de Enoch:

Então interroguei a um dos anjos que estava comigo e que me explicou todos os mistérios relativos ao Filho do homem. Perguntei-lhe quem era ele, de onde vinha e porque acompanhava o Ancião dos Dias. Respondeu-meo nessas palavras: 'Este é o Filho do Homem a quem toda justiça se refere, com quem ela habita, e que tem a chave de todos os tesouros ocultos; pois o Senhor dos espíritos o escolheu preferencialmente e deu-lhe glória acima de todas as criaturas. Esse Filho do Homem que viste, arrancará reis e poderosos de seu sono voluptuoso, fá-los-á sair de suas terras inamovíveis, colocará freio nos poderosos, quebrará os dentes dos pecadores. Expulsará os reis de seus tronos e de seus reinos, porque recusam honrá-lo, de tornarem públicos seus louvores e de se humilharem diante daquele a quem todo reino foi dado. Colocará tormentos na raça dos poderosos; forçá-los-á a se deitarem diante dele'.
Outros textos desse período que refletiam uma imagem semelhante são 4 Esdras ( final do século I) e o contido no papiro 11 Melquisedeque - parte dos Manuscritos do Mar Morto, aplicado ao mesmo [ a respeito das referências em correlação com o livro de Daniel, confira o capítulo "The Messianic Associations of The Son of Man", do livro Messianism among Jews and Christians: twelve biblical and historical studies de William Horbury] .

O Apocalipse das Semanas é uma composição antiga que fora incluída na "Epístola de Enoque",  pertencente ao"Livro de Enoque", que é uma compilação de materiais que vão de período posterior ao regresso judaico sob domínio persa, cerca de três séculos antes de Cristo, até a um período imediatamente anterior ao despontar de Jesus, começo do primeiro século [confira a respeito - James J. Collins, "Books of Enoch" em Dictionary of New Testament Backgrounds, eds. Craig A. Evans e Stanley Porter; também J.J. Colins, "The Apocalyptic Imagination: An Introduction to Jewish Apocalyptic Literature", pgs 177-8, 192-3] . Neste aspecto, é importante chamarmos atenção para fragmentos do material mais recente, "As Similitudes de Enoque", que foram citados no começo da postagem. A eles também se assomam:

E naquela hora o Filho do Homem foi nomeado na presença do Senhor dos Espíritos; e seu nome perante o Ancião dos Dias. Sim, antes que o sol e os sinais fossem criados, antes que as estrelas dos céus fossem formadas, seu nome foi nomeado perante o Senhor dos Espíritos. Ele será uma fortaleza para os justos,  onde poderão permanecer e não cair, será a luz dos gentios, e a esperança dos amargurados de coração.

Jesus emprega o termo O Filho do Homem, nos evangelhos em diversos sentidos, incluindo passagens que é algo que remete a uma circunlocução de auto-referência, tal como "um homem como eu" - p. ex., Mateus 8.20 e 12.32.

Contudo, essa passagem de Daniel, tomada no conjunto tendo em perspectiva todo o capítulo 7, a partir do sonho atribuído a Daniel durante o reinado de Belshasar até onde ele dá por encerrada, é retomada e/ou aludida em passagens importantes do Novo Testamento, que nos ajuda a refletir sobre a expectativa dos primeiros cristãos, sobre seu entendimento de si mesmos, de quem foi Jesus, e de Jesus sobre si mesmo e o caráter de sua missão.

Não encontramos a passagem-chave de Daniel 7.13 citada explicitamente. Mas nos evangelhos, ela ecoa bem ressonante em Marcos 13.26 Então, eles verão o Filho do Homem vir, rodeado de nuvens, na plenitude do Poder e da Glória. E toda a passagem de Marcos 13.14-27 retoma o capítulo 7 de Daniel, culminando com o vs. 27 Então ele enviará os anjos e, dos quatro ventos, da extremidade da terra à extremidade do céu reunirá seus eleitos. E retomado o tema novamente em 14.62, quando, indagado pelo Sumo Sacerdote se era o Messias, Filho do Deus Bendito, Jesus responde: Eu o sou, e vereis o Filho do Homem assentado à direita do Todo-poderoso e vindo com as nuvens do céu. O que é aparentemente paradoxal na imagem, em que ao mesmo tempo que se está sentado no trono está vindo entre as nuvens, se aclareia pelo fato que, partilhando de um substrato comum com culturas da Antiguidade no Oriente Próximo, no ideário judaico o "Trono de Deus" era também a "Carruagem" de Deus [vide o capítulo 1 e o 10 de Ezequiel, o 4 de Apocalipse, por exemplo].

David Flusser, no capítulo 4 de “O Judaísmo e as Origens do Cristianismo – vl.2” faz uma reconstrução crítica desse dito de Jesus no confronto com o Sacerdote, afirmando que Lucas 22,69 indica com maior acuidade a expressão original e direta de Jesus, ressoando assim sua carga de impacto própria. Ele reconstrói a passagem como “A partir de agora o Filho do Homem estará sentado à direita do Poder”. Acolhe a sugestão das influências do Salmo 110.1, muito utilizado pelas comunidades cristãs mais antigas (O Senhor diz ao meu Senhor: assenta-te à minha direita(...)” e 80.18 “Concede tua ajuda ao homem à tua direita, o filho do homem que tomaste como teu próprio”.

Flusser faz um minuncioso resgate de usos e termos “hipostáticos” acerca de Deus e Seus atributos, com análises de usos de rabinos, de textos na comunidade de Qumrã e comentaristas cristãos da antiguidade como Teodoreto de Ciro, dando destaque à passagem de Isaías 9,5-6, (títulos como Maravilhoso, Conselheiro, Deus Forte, Pai Eterno, Príncipe da Paz) e encontra uma visão no “Pergaminho de Ação de Graças" - encontrado entre os Manuscritos do Mar Morto (1 QH 3:2-18) -, em que a interpretação da combinação de títulos é de que o Messias seria um Maravilhoso Conselheiro do Deus Poderoso, um oráculo sobre o destino da criança. Mais adiante, esse menino é descrito numa visão como “Maravilhoso Conselheiro com Seu Poder [o de Deus]” – 1 QH 3:10. Aponta que “Poder”, do hebraico gevurah e grego dunamis, é o “Grande Poder” de Atos 8,10 – livro do mesmo autor do Evangelho de Lucas [ sendo que a hipóstase "Glória", presente em Marcos, consta no tratado de Enoque 104,1]. Flusser aponta que o hino contendo a expressão dessa interpretação esteve numa tradição que contribuíra de forma importante para o capítulo 12 de Apocalipse.

O contexto [sobre o complexo contexto e uma discussão prolífica da elaboração nos evangelhos, sugiro "The Background to the Son of Man Sayings", de F.F.Bruce] da fala dele, dada como resposta, e a reação do Sumo Sacerdote e demais, nos indicam de forma clara que Jesus referiu-se a si; provocando escândalo ao se colocar numa posição de mesmo plano para com Deus na grande epifania escatológica - sentado à direita. E sendo essa passagem retomada da outra supracitada, com a mesma aplicação e nos mesmos termos (combinando, possivelmente por releitura do evangelista, com o Salmo 110.1 (Oráculo do Senhor ao meu Senhor: Senta-te à minha direita, que eu faça dos teus inimigos o escabelo dos teus pés!) afasta a possível impressão de que na passagem do capítulo 13, Jesus se referia a uma terceira pessoa ou entidade.

Ainda no Novo Testamento, no livro de Apocalipse, podemos enxergar que os cristãos associavam a figura do Filho do Homem ao seu Senhor. Em 1.7, essa passagem de Daniel 7.13 é aludida, combinando com Zacarias 12.10 ( (...) Erguerão, então, o olhar para mim, aquele a quem traspassaram. Celebrarão o luto por ele, como pelo filho único. Chorarão amargamente como se pranteia um primogênico). Outra importante ilustração apocalítica: Ei-lo que vem entre as nuvens e todo olho o verá, até mesmo os que o traspassaram: todas as tribos da terra estarão de luto por causa dele. Fundamental notar que a passagem está integrada a (...) da parte de Jesus Cristo, a testemunha fiel, o primogênito dentre os mortos e o príncipe dos reis da terra.

Também em 1.9-11 está implícito, culminando em 1.13 imiscuído com textos diversos do Antigo Testamento: e no meio dos candelabros, um como Filho de Homem. Ele vestia uma longa túnica, um cinto de ouro lhe cingia o peito.

Observe-se o paralelo entre essa parte do evangelho de João [ que se relaciona intimamente com as perspectivas do grupo cristão oriundo dos chamados “judeus helenistas”, apresentando também uma ligação com conversos de Samaria] 5.25-27 e o quadro apocalíptico de Daniel comentadas aqui:

Em verdade, em verdade eu vos digo, vem a hora – e é agora – em que os mortos ouvirão a voz do Filho de Deus e os que tiverem ouvido viverão. Porque assim como o Pai possui a vida em si mesmo, assim também deu ao Filho possuir a vida em si mesmo; ele deu o poder de exercer o julgamento porque é o Filho do Homem.

Nesse caso, há a associação com o título messiânico – na perspectiva do messianismo de realeza [Filho de Deus]–, com a figura escatolótica.

Outra questão importante ressaltada no capítulo de Daniel é sobre a participação dos justos no julgamento. Em 7.22, o julgamento fosse dado em favor dos Santos do Altíssimo, e que chegasse o tempo e os Santos possuíssem a realeza.

Essa expectativa na escatologia, dos mártires e dos fiéis perseverantes tomando parte no Julgamento Final ecoa na perspectiva apocalítica no Novo Testamento. Paulo: Acaso, não sabeis que os santos julgarão o mundo?- I Co. 6.2. Daniel 7.18 a seguir, os Santos do Altíssimo receberão a realeza, e possuirão a realeza para sempre e para todo o sempre, ecoa em Apocalipse 5. 9-10, também nas passagens sobre herdar o reino de Deus, mesmo por contraste, como em I Co. 6.9 – referindo-se aos injustos. Ecoa também no hino de II Timóteo 2.11-14, de forma elaborada em que, de grande importância, podemos ver que a própria liturgia da Igreja assimilara a expectativa do papel de Jesus no que concebiam como a manifestação definitiva da glória de Deus e o reinado do povo eleito e a nova realidade. Reverbera também em Lucas 22.28-30, Vós sois os que perseveraram comigo nas minhas provações. E eu disponho para vós o Reino como o meu Pai dispôs dele para mim: assim, comereis e bebereis à minha mesa em meu reino, e vos assentareis sobre o trono para julgar as doze tribos de Israel, com ecos mais suaves em Mateus 19.28; 25.31. Também, a partir de uma visão maior justapondo essas três passagens, ilumina-se o olhar sobre Apocalipse 3.21, no sentido de entender a leitura escatológica da igreja primitiva.

Em destaque, Daniel 7.18 ressoa mais altissonante na leitura de Lucas 12.32: Não temas, pequeno rebanho, porque foi do agrado de vosso Pai dar-vos o Reino. E de forma mais impactante, logo no início da narrativa de Marcos, 1.15: Cumpriu-se o tempo – destacamos o impacto do termo tempo, relacionado a cumprir, em se tratando de expectativa escatológica - e o Reinado de Deus aproximou-se; convertei-vos e crede no Evangelho.

Importante refletirmos nisso tendo em mente que, no registro da concepção para com a ressurreição dos mortos tal como em II Macabeus 7.9 e 7.23, que assinala um aspecto que era decisivo na compreensão das diversas correntes do judaísmo do segundo templo: a associação da ressurreição com a justiça feita aos mortos pela causa da Aliança.

Abstemo-nos aqui de uma discussão, que para ser verdadeiramente imparcial demandaria um bom espaço, a cerca de se as passagens dos evangelhos destacadas seriam plausivelmente autênticas na atribuição a Jesus propriamente. Por um lado, reconhecemos a possibilidade de serem coloridas, trabalhadas ou elaboradas redacionalmente à luz de temáticas da pregação e crença das igrejas. Contudo, achamos, particularmente, que o critério da descontinuidade não tem valor em tal escala, para rechassar a autenticidade como apelo maior. Qualquer pessoa lúcida é capaz de compreender que ditos e ensinamentos de alguém tomado como um mestre excepcional com uma prerrogativa extraordinária tenha impactos sobre seus discípulos e nos movimentos que descendem dele, e que em certos períodos, se concentrem mais ênfase em dados aspectos, e outros, que foram menos destacados antes, podem ser retomados com mais ênfase, ou recapitulados,em outros contextos. Assim se dá com os partidos comunistas e os institutos liberais em relação à Marx e Mises.

De qualquer forma, temos elementos suficientes para depreender que: com toda a certeza, o movimento de Jesus e as igrejas cristãs ligada ao círculo de seus discípulos (assim consideramos também a(s) comunidade(s) de Hebreus e as fundadas por Paulo) lhe atribuíam o papel da figura que exercerá o Juízo de Deus. E que a expectativa deles para a definição final da História é que nesse Juízo, exercido pelo Salvador, tomarão parte os santificados e comissionados de Deus ( retomamos aqui também a reflexão sobre o papel dos 'Doze', simbolizando as doze tribos de Israel – daonde entende-se o dilema descrito em Atos para substituir Judas, só entendida a operação como legítima à luz de sua apostasia – para com os tronos falados em Daniel 7.9, o tribunal, em Daniel 7.10). E que com quase toda a certeza, isso foi consolidado a partir do que Jesus pregava, ensinava e arrogava para si e para o sentido de sua obra.

Estava no cerne da crença do cristianismo apostólico das origens que o sentido para o qual aponta o seu caminho: na consumação da História se dará o julgamento, a deslegitimação e subversão das estruturas, discursos e lógicas de dominação do mundo. Isso constantemente foi e é obnublado.

Para mais a respeito da posição do presente autor ante as controvérsias quanto aos ditos do "Filho do Homem" nos evangelhos, este está alinhado com  Delbert Royce Burkett em "The son of man debate: a history and evaluation".

Obs. citações bíblicas estão na versão da Bíblia Teológica Ecumênica - TEB

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