Estudos sobre Religião - Biblioblog

quarta-feira, 26 de agosto de 2026

 



1 INTRODUÇÃO: UMA HISTÓRIA DE CONFLITO POR TRÁS DA ORTODOXIA

A história do cristianismo primitivo costuma ser apresentada, sobretudo nas narrativas posteriores elaboradas pela tradição eclesiástica, como se a passagem do movimento de Jesus para uma religião predominantemente gentílica tivesse ocorrido de maneira relativamente contínua e orgânica. Nessa representação, Paulo aparece como o grande responsável pela abertura do cristianismo aos gentios, Pedro como a autoridade apostólica que gradualmente reconhece essa abertura e Tiago como o dirigente da comunidade de Jerusalém, cuja função teria sido preservar a tradição judaica sem necessariamente entrar em oposição fundamental ao projeto paulino. Essa imagem, entretanto, torna-se consideravelmente mais complexa quando se confrontam as diferentes tradições preservadas no próprio Novo Testamento e, sobretudo, quando se acompanha sua recepção posterior em ambientes judaico-cristãos. O que emerge não é simplesmente uma história de expansão missionária, mas uma disputa pela definição da própria identidade do movimento de Jesus: quem poderia ser chamado de cristão, qual relação deveria existir entre Jesus e a Lei de Moisés, que autoridade possuíam os apóstolos, qual missão deveria ser dirigida aos gentios e, finalmente, quem teria o direito de definir a verdadeira tradição de Jesus. É nesse campo de disputas que a relação entre Paulo, Pedro e Tiago adquire uma importância que ultrapassa a conhecida oposição entre "judaísmo" e "cristianismo". O problema parece ter sido, desde muito cedo, uma disputa intra-cristã pela legitimidade da interpretação da tradição judaica de Jesus.

O próprio Novo Testamento conserva sinais suficientemente fortes para impedir que imaginemos uma harmonia original entre todas as lideranças do movimento. Paulo afirma ter recebido sua missão por uma revelação independente e relata que somente posteriormente foi a Jerusalém para encontrar Cefas e Tiago (Gl 1,18-19). Mais significativa ainda é sua narrativa do incidente de Antioquia, quando afirma ter resistido publicamente a Pedro porque este, inicialmente, comia com os gentios, mas posteriormente se afastou deles por receio dos "da parte de Tiago" (Gl 2,11-14). Independentemente da interpretação que se dê à passagem, ela demonstra que, na memória preservada por Paulo, havia divergência concreta sobre a convivência entre judeus e gentios dentro das comunidades de Jesus. A questão não era meramente teórica. A mesa, a alimentação, a circuncisão e a observância da Lei constituíam mecanismos concretos de organização social, demarcação identitária e pertencimento. A presença de gentios dentro do movimento de Jesus obrigava seus dirigentes a responder a uma questão que possuía consequências muito mais profundas do que uma simples discussão ritual: seria possível pertencer ao povo messiânico sem incorporar integralmente as marcas sociais da identidade judaica?

É precisamente nesse ponto que Tiago se torna uma figura fundamental. O Tiago apresentado por Paulo não é um personagem periférico. Ele pertence ao núcleo de autoridades que Paulo procura encontrar quando vai a Jerusalém e aparece associado a Pedro e João como uma das "colunas" da comunidade (Gl 2,9). Em Atos dos Apóstolos, por sua vez, Tiago ocupa uma posição ainda mais elevada na comunidade de Jerusalém, sendo aquele que formula a decisão final no chamado Concílio de Jerusalém (At 15,13-21) e que posteriormente recebe Paulo quando este retorna à cidade (At 21,18-26). É necessário, evidentemente, reconhecer que Atos e Gálatas apresentam perspectivas diferentes e que a tentativa de harmonizar automaticamente ambas as narrativas pode ocultar justamente as tensões que interessam à investigação. A questão não é decidir simplesmente qual dos dois textos "está certo", mas perceber que a própria existência de versões distintas da relação entre Paulo e Jerusalém constitui um dado histórico relevante. Se Gálatas preserva a memória de uma disputa, Atos parece trabalhar literariamente no sentido de produzir uma narrativa de conciliação. A existência dessa dupla memória sugere que a relação entre Paulo e as autoridades de Jerusalém foi suficientemente problemática para exigir, posteriormente, diferentes formas de elaboração narrativa.

O problema torna-se ainda mais interessante quando deixamos de observar exclusivamente o século I e acompanhamos a maneira como determinadas tradições cristãs posteriores reconstruíram essas figuras apostólicas. É nesse segundo momento que entram em cena as comunidades judaico-cristãs, os grupos posteriormente classificados como ebionitas e a literatura pseudo-clementina. Não devemos simplesmente identificar todos esses fenômenos como se constituíssem uma única comunidade histórica contínua. A documentação não permite semelhante segurança. O que podemos observar, contudo, é a recorrência de determinados elementos: a autoridade de Pedro, a importância de Tiago, a permanência da Lei, a desconfiança diante de uma missão gentílica desvinculada da Lei e, em determinados textos, uma oposição explícita à autoridade de Paulo. O interesse histórico dessa recorrência é enorme. Ela sugere que a controvérsia registrada por Paulo não desapareceu com a geração apostólica. Ela foi reelaborada, reinterpretada e transformada em memória comunitária.

É nesse horizonte que as Kerygmata Petrou — as "Proclamações de Pedro" — adquirem importância extraordinária. Trata-se de um material pouco conhecido fora dos estudos especializados, mas particularmente revelador para compreender a formação de tradições cristãs alternativas àquela que posteriormente se tornaria normativa. Como observa Koester (2005, p. 224), as Kerygmata Petrou vão além de Mateus ao negar que Pedro possa ser utilizado como autoridade por aqueles que pretendem fazer dele o sucessor de Paulo em uma missão aos gentios desvinculada da Lei. A formulação é extremamente significativa: Pedro não é apresentado como aquele que legitima Paulo; ao contrário, sua autoridade é mobilizada para contestá-lo. Mais do que isso, Pedro aparece como defensor de uma missão aos gentios fiel à Lei, enquanto Tiago ocupa uma posição superior de autoridade sobre o ensinamento petrino. Nas Kerygmata, portanto, a hierarquia apostólica é reconstruída de tal maneira que Pedro e Tiago podem funcionar como instrumentos de uma crítica radical à interpretação paulina da missão.

O objetivo deste artigo não é sustentar uma genealogia simples segundo a qual Tiago teria fundado os ebionitas, os ebionitas teriam produzido as Kerygmata Petrou e a Igreja gentílica teria posteriormente eliminado essa tradição. Uma reconstrução desse tipo ultrapassaria aquilo que as fontes permitem afirmar. O objetivo é mais preciso: investigar como diferentes tradições cristãs disputaram a autoridade apostólica, a interpretação da Lei e a definição da identidade cristã, e como, nesse processo, determinadas comunidades judaico-cristãs passaram de participantes da disputa pela identidade cristã a objetos da classificação heresiológica. A hipótese central é que aquilo que posteriormente apareceu como "heresia judaica" pode ser compreendido, em perspectiva histórica, como o resultado de uma disputa assimétrica pela capacidade de definir a ortodoxia.



2 PAULO E JERUSALÉM: A CONTROVÉRSIA DENTRO DO PRÓPRIO MOVIMENTO DE JESUS

Uma leitura histórica de Gálatas impede que se trate o conflito entre Paulo e Jerusalém como mera construção de intérpretes modernos. Paulo afirma explicitamente que sua autoridade apostólica não deriva de uma transmissão humana ordinária. Seu evangelho teria sido recebido "por revelação de Jesus Cristo" (Gl 1,12), e sua primeira viagem a Jerusalém teria ocorrido apenas posteriormente. Quando chega à cidade, encontra Cefas e Tiago. O detalhe é importante porque mostra que, para o próprio Paulo, Jerusalém possuía uma autoridade que não podia simplesmente ser ignorada. Ao mesmo tempo, Paulo insiste na independência de sua missão. Ele não parece querer apresentar-se como subordinado a Jerusalém, mas também não pode ignorar o peso simbólico e comunitário das autoridades ali estabelecidas.

A situação torna-se mais clara em Gálatas 2. Paulo afirma que Tiago, Cefas e João eram reconhecidos como "colunas", mas logo em seguida relata o conflito de Antioquia. Pedro inicialmente comia com os gentios; depois, quando chegaram algumas pessoas "da parte de Tiago", afastou-se. Paulo interpreta o comportamento como incoerente com "a verdade do evangelho". A expressão revela o núcleo do problema: para Paulo, a integração entre judeus e gentios sem a plena incorporação destes últimos à identidade judaica fazia parte da verdade de seu evangelho. Para seus adversários, contudo, a questão poderia ser exatamente inversa. Se a identidade do povo de Deus continuava estruturada pela Lei, a mesa compartilhada sem as correspondentes fronteiras alimentares e sociais poderia representar uma ruptura com a própria tradição de Israel.

A historiografia especializada há muito reconhece que a controvérsia paulina sobre a Lei não pode ser reduzida a uma oposição simplista entre "religião da graça" e "religião das obras". O problema envolve identidade, etnicidade, pertencimento e organização comunitária. Dunn (1990) mostrou a importância das chamadas "obras da Lei" como marcadores identitários judaicos, enquanto Sanders (1977) demonstrou a inadequação de representar o judaísmo do Segundo Templo como uma religião baseada em uma espécie de "salvação pelas obras". O debate posterior tornou evidente que Paulo não estava simplesmente combatendo uma religião judaica supostamente legalista. Ele estava participando de uma disputa muito mais específica sobre como os gentios poderiam participar do povo messiânico.

Essa questão explica por que a controvérsia poderia assumir tamanha intensidade. Se os gentios podiam entrar no movimento de Jesus sem circuncisão, sem assumir integralmente as práticas alimentares judaicas e sem submeter-se à totalidade das prescrições da Lei, então a missão paulina alterava profundamente os mecanismos tradicionais de definição do pertencimento. A novidade não era apenas teológica. Era sociológica. Ela permitia a constituição de comunidades nas quais judeus e não judeus poderiam compartilhar uma identidade religiosa comum sem que os segundos precisassem transformar-se integralmente em judeus.

É justamente nesse ponto que podemos compreender por que determinados grupos judaico-cristãos poderiam considerar Paulo não apenas equivocado, mas perigoso. Se a Lei funcionava como estrutura de identidade, sua relativização alterava as fronteiras da comunidade. Paulo não estava simplesmente propondo uma nova interpretação de determinados mandamentos; sua missão produzia um novo modelo de comunidade. A controvérsia, portanto, não dizia respeito somente à doutrina. Tratava-se de uma disputa sobre a forma social do novo movimento.



3 TIAGO E A AUTORIDADE DE JERUSALÉM

Tiago ocupa posição particularmente interessante porque sua figura atravessa diferentes camadas da tradição. Paulo o apresenta como uma das principais autoridades de Jerusalém. Atos o transforma praticamente em árbitro da comunidade. A tradição posterior, por sua vez, faria dele uma das principais referências de um cristianismo profundamente vinculado às raízes judaicas.

Essa centralidade ajuda a explicar por que Tiago poderia tornar-se, posteriormente, uma autoridade particularmente útil para tradições anti-paulinas. Se Paulo podia reivindicar uma revelação direta de Cristo e uma missão independente, seus adversários poderiam responder utilizando uma autoridade de natureza diferente: a proximidade com Jerusalém, com os primeiros discípulos e com a própria família de Jesus. A questão deixa de ser "Paulo recebeu uma revelação?" e passa a ser "quem tem legitimidade para interpretar aquilo que Jesus realmente ensinou?"

É importante não transformar essa reconstrução posterior em descrição direta do Tiago histórico. Não possuímos documentação suficiente para afirmar que Tiago tenha desenvolvido exatamente a teologia que encontramos séculos depois nos textos pseudo-clementinos. O que podemos afirmar é que a memória de Tiago podia ser mobilizada para representar uma forma de cristianismo em que a continuidade com Israel, a Lei e a tradição apostólica de Jerusalém ocupavam posição central.

Essa distinção é essencial. A história das ideias não precisa pressupor uma cadeia institucional contínua para reconhecer uma continuidade de problemas. Pode haver continuidade temática sem continuidade institucional. O Tiago histórico do século I e o Tiago literário dos textos pseudo-clementinos pertencem a momentos diferentes; o segundo, porém, demonstra que a autoridade atribuída ao primeiro continuava sendo disputada séculos depois.

O mesmo fenômeno ocorre com Pedro. No cristianismo que se tornou majoritário, Pedro poderia ser apresentado como fundamento da Igreja e como autoridade apostólica universal. Nas Kerygmata Petrou, entretanto, sua autoridade é mobilizada de maneira diferente. Pedro aparece como alguém que preserva uma tradição fiel à Lei e que rejeita a ideia de ter pregado sua abolição. A autoridade petrina, em vez de legitimar a expansão paulina, é colocada contra ela.

É aqui que a disputa pela memória apostólica se torna decisiva. Não bastava afirmar que Paulo estava errado. Era necessário mostrar que uma autoridade apostólica maior apoiava a interpretação oposta. Pedro e Tiago ofereciam exatamente esse recurso simbólico.



4 AS KERYGMATA PETROU: PEDRO CONTRA PAULO

As Kerygmata Petrou representam provavelmente uma das manifestações mais contundentes dessa disputa. Koester (2005, p. 224) observa que Pedro está constantemente presente como defensor de uma missão aos gentios fiel à Lei, superior à missão atribuída a Paulo. As Kerygmata rejeitam explicitamente a ideia de que Pedro pudesse ter pregado a abolição da Lei. Seu ensinamento verdadeiro encontra-se registrado em suas palestras e é submetido à autoridade de Tiago de Jerusalém; na Contestatio, esse ensinamento é formalmente aprovado por Tiago. Tiago aparece, assim, como a autoridade inequívoca de um cristianismo fiel à Lei.

A construção literária é extraordinariamente reveladora. O problema não é apenas que a comunidade preserve a Lei. O problema é que ela reivindica para essa posição a autoridade dos próprios apóstolos. A tradição não se apresenta como inovação judaizante posterior. Ela procura mostrar que sua posição é justamente a forma original do ensinamento apostólico. Paulo, ao contrário, é representado como aquele que introduziu uma novidade ilegítima.

Essa inversão é fundamental. Na tradição que acabou prevalecendo, Paulo poderia ser celebrado como aquele que levou o evangelho aos gentios. Nas Kerygmata, a mesma missão pode ser apresentada como corrupção da tradição apostólica. A disputa, portanto, não se limita ao conteúdo doutrinal. Ela envolve a propriedade simbólica do passado cristão. Quem controla a memória de Pedro controla uma parte fundamental da legitimidade apostólica.

As Kerygmata vão ainda mais longe. Segundo Koester (2005, p. 224-225), a Lei não é apresentada simplesmente como conjunto de prescrições rituais. Ela funciona como princípio crítico mediante o qual a revelação pode ser compreendida. Isso significa que a discussão sobre a Lei é, simultaneamente, uma discussão sobre hermenêutica. A questão fundamental passa a ser: como distinguir a revelação verdadeira das alterações posteriores introduzidas na tradição?

A resposta oferecida pelo texto é particularmente interessante. Existem "perícopes falsas" que foram interpoladas nas Escrituras de Israel. A tradição judaica, por sua vez, não teria sido inteiramente confiável na transmissão desses materiais. O verdadeiro profeta, manifestado em Jesus, permitiria distinguir o que é verdadeiro do que é falso. A Lei, portanto, não é simplesmente descartada; ela é submetida a um processo de discernimento.

A consequência é importante para nossa investigação. A oposição entre cristianismo paulino e cristianismo judaico-cristão não pode ser descrita adequadamente como uma oposição entre "Lei" e "não-Lei". Trata-se, antes, de duas formas diferentes de reivindicar a verdadeira interpretação da revelação. A questão passa da prática para a epistemologia religiosa.

Paulo teria "insanamente" rejeitado o direito de apelar à Lei ou aos ensinamentos de Jesus, segundo a caracterização preservada por Koester (2005, p. 224-225). O vocabulário é obviamente polêmico e pertence à construção literária posterior. Seu valor histórico está justamente na intensidade da acusação. Paulo não aparece simplesmente como um intérprete alternativo; ele é apresentado como alguém que rompeu com a própria tradição de Jesus.



5 A "NOVIDADE" DE PAULO E A MEMÓRIA DA TRADIÇÃO

Moreschini e Norelli (1996, p. 274) observam que a obra parece assumir como valor positivo a censura de "novidade" frequentemente dirigida contra o cristianismo. Esse elemento é decisivo para compreender o funcionamento da polêmica.

"Novidade" é uma categoria particularmente poderosa em sociedades nas quais a antiguidade constitui fonte de autoridade. Se a verdade está associada à tradição recebida, o inovador pode ser acusado de falsificação. O problema é que o cristianismo, desde sua origem, apresentava uma situação paradoxal: proclamava a novidade escatológica de Jesus e, simultaneamente, precisava demonstrar continuidade com Israel e com as Escrituras.

As Kerygmata Petrou resolvem essa tensão deslocando a acusação de novidade para Paulo. A novidade não está na tradição judaico-cristã; está precisamente na interpretação paulina. A comunidade que guarda a Lei pode apresentar-se como conservadora, enquanto Paulo aparece como o inovador.

Esse mecanismo é sociologicamente relevante. Em uma disputa entre grupos religiosos, a acusação de inovação funciona como estratégia de deslegitimação porque transforma a reivindicação do adversário em ruptura com a tradição. Ao mesmo tempo, permite que o próprio grupo se apresente como guardião da continuidade.

Assim, encontramos uma inversão completa da narrativa que posteriormente se tornaria dominante. O cristianismo paulino poderia dizer: "Paulo libertou o evangelho das restrições da Lei". A tradição das Kerygmata poderia responder: "Paulo libertou-se da própria tradição de Jesus".

A controvérsia não poderia ser mais profunda.



6 OS EBIONITAS E O PROBLEMA DAS FONTES HERESIOLÓGICAS

É nesse ambiente que aparecem os chamados ebionitas. O primeiro cuidado metodológico é não tratá-los como se constituíssem uma comunidade perfeitamente homogênea, claramente identificável e diretamente descendente da comunidade de Jerusalém. O termo "ebionita" chega até nós principalmente por meio de autores cristãos que classificaram diferentes grupos como heréticos. Isso significa que nossa principal documentação sobre eles é, em grande medida, documentação produzida por seus adversários.

Ireneu de Lião já apresenta, no final do século II, grupos que reconhece como ebionitas e que mantêm forte vínculo com a Lei. Mais tarde, Epifânio de Salamina, no Panarion, oferece uma descrição muito mais detalhada. Segundo seu relato, aqueles que ele identifica como ebionitas estavam associados às regiões da Transjordânia, incluindo Gilead e Bashan. Eram apresentados como descendentes de Israel, circuncidados e observantes do sábado. O quadro descrito por Epifânio inclui ainda práticas alimentares particulares e uma relação muito peculiar com o Pentateuco.

É necessário, contudo, evitar uma formulação simplista segundo a qual "os ebionitas rejeitavam a Lei". O material atribuído a eles por Epifânio parece envolver uma distinção entre uma Lei verdadeira e uma tradição mosaica textual considerada posteriormente corrompida. O ponto fundamental, novamente, não é a simples negação da Lei, mas a disputa pela autenticidade da Lei.

Essa distinção aproxima estruturalmente o material ebionita das Kerygmata Petrou. Não porque possamos demonstrar que ambos pertenciam à mesma comunidade ou constituíssem uma única tradição histórica contínua, mas porque ambos participam de um universo no qual a autoridade da Lei continua sendo fundamental e a transmissão posterior da revelação pode ser questionada.

A utilização de Epifânio exige, entretanto, cautela adicional. O bispo de Salamina escreve em um contexto muito posterior aos acontecimentos do século I e possui uma finalidade explicitamente heresiológica. Sua descrição não deve ser tratada como fotografia sociológica dos grupos que identifica. Ela é, antes, uma representação construída do adversário.

Esse aspecto é decisivo para a nossa investigação porque a história dos grupos judaico-cristãos precisa ser escrita simultaneamente em dois níveis: de um lado, aquilo que conseguimos reconstruir sobre suas crenças e práticas; de outro, aquilo que seus adversários precisavam dizer sobre eles para classificá-los como desviantes.






7 DA DIVERGÊNCIA À HERESIA: A TRANSFORMAÇÃO DO ADVERSÁRIO

A história da marginalização do cristianismo judaico pode ser compreendida, portanto, como um processo gradual de transformação da posição do adversário. Enquanto diferentes grupos disputavam a definição do movimento cristão, a existência de posições divergentes não significava necessariamente que uma delas estivesse fora do cristianismo. A questão decisiva surge quando uma determinada configuração institucional e teológica adquire capacidade suficiente para transformar sua própria posição em norma e a posição concorrente em desvio.

Essa perspectiva ajuda a compreender a literatura heresiológica. O heresiólogo não apenas descreve uma comunidade. Ele produz uma classificação. Ao chamar determinado grupo de ebionita, judaizante ou herege, ele estabelece fronteiras. A classificação possui uma dimensão social: define quem pertence e quem não pertence; quem preserva a tradição e quem a corrompe; quem pode falar em nome dos apóstolos e quem perdeu esse direito.

É precisamente aqui que a história das Kerygmata Petrou se torna particularmente reveladora. O texto preserva uma forma de cristianismo na qual Pedro e Tiago podem ser mobilizados contra Paulo. Se posteriormente a tradição cristã dominante passou a apresentar Paulo como autoridade apostólica fundamental para a missão gentílica, a tradição pseudo-clementina demonstra que essa interpretação não era inevitável.

Walter Bauer (1971) tornou-se especialmente importante para esse problema ao questionar o modelo segundo o qual ortodoxia e heresia teriam existido desde o princípio como entidades claramente separadas, com a ortodoxia simplesmente preservando a tradição original enquanto a heresia dela se afastava. Sua investigação chamou atenção para a possibilidade de que aquilo que posteriormente foi chamado de "heresia" pudesse, em determinados contextos regionais, representar uma das formas mais antigas ou influentes do cristianismo.

Isso não significa aceitar sem reservas todas as reconstruções de Bauer. A historiografia posterior demonstrou que sua oposição entre ortodoxia e heresia precisa ser qualificada. Mas seu insight fundamental continua metodologicamente fecundo: a categoria de heresia é também resultado de uma história de disputas pelo poder de definir a ortodoxia.

No caso das tradições judaico-cristãs, esse processo produz uma situação particularmente paradoxal. Esses grupos reivindicavam continuidade com Israel, com a Lei, com Jesus e com os primeiros apóstolos. No entanto, precisamente porque sua interpretação dessas autoridades entrava em conflito com a forma de cristianismo que progressivamente se tornou dominante, sua reivindicação de continuidade passou a ser apresentada como sinal de desvio.

O que se modifica, portanto, não é apenas a doutrina. Modifica-se a posição social da doutrina.

Uma posição que anteriormente podia participar da disputa pela identidade do movimento passa, posteriormente, a ser descrita como resíduo. Uma comunidade que reivindicava ser guardiã da tradição passa a ser caracterizada como judaizante. Um cristianismo que afirmava seguir Pedro e Tiago passa a ser descrito como uma aberração que não compreendeu o verdadeiro evangelho.

A expressão "cristãos de segunda categoria", portanto, deve ser entendida aqui como uma categoria analítica, não como designação utilizada literalmente pelas fontes. Ela descreve a posição progressivamente subordinada que determinados grupos judaico-cristãos passaram a ocupar dentro da memória cristã dominante.



8 CONCLUSÃO: OS VENCEDORES ESCREVEM A HISTÓRIA DA ORTODOXIA

Quando observamos em conjunto Gálatas, Atos, as tradições sobre Tiago e Pedro, as Kerygmata Petrou e os testemunhos patrísticos sobre grupos judaico-cristãos, surge uma imagem muito diferente daquela de uma passagem tranquila do judaísmo para o cristianismo gentílico. O que encontramos é uma longa disputa pela definição da tradição de Jesus. No centro dessa disputa estavam questões aparentemente distintas — a Lei, a circuncisão, a alimentação, a missão aos gentios, a autoridade apostólica —, mas que, observadas sociologicamente, convergem para um único problema: quem possui o direito de definir as fronteiras da comunidade cristã?

Paulo ofereceu uma resposta radicalmente nova para esse problema. Sua missão permitia integrar gentios ao movimento messiânico sem exigir deles a incorporação plena à identidade judaica. Essa solução possuía extraordinário potencial expansivo. Ela tornava possível uma comunidade transétnica na qual judeus e gentios poderiam compartilhar uma identidade religiosa sem que os últimos precisassem converter-se ao judaísmo. Mas exatamente por isso ela ameaçava formas de organização comunitária nas quais a Lei permanecia como princípio estruturante da identidade.

As tensões preservadas em Gálatas mostram que essa questão não foi uma invenção dos séculos II ou III. Havia conflitos reais no interior do movimento. A relação de Paulo com Jerusalém era suficientemente complexa para produzir memórias divergentes. Pedro aparece, em Gálatas, envolvido diretamente na controvérsia; Tiago aparece como autoridade de Jerusalém; e, posteriormente, ambos poderiam ser transformados em figuras de autoridade utilizadas contra Paulo.

As Kerygmata Petrou são particularmente importantes porque tornam explícita uma possibilidade que a tradição posterior dominante tornou progressivamente difícil de perceber: Pedro poderia ser lembrado não como aquele que confirmou a missão paulina, mas como aquele que a contradisse. Mais ainda, sua autoridade poderia ser subordinada à de Tiago, cuja memória servia para legitimar um cristianismo fiel à Lei. Nesse universo, Paulo aparece não como o grande intérprete da universalidade cristã, mas como o responsável por uma ruptura com a tradição de Jesus.

A importância histórica dessa literatura não reside, portanto, em provar que as Kerygmata Petrou registram literalmente o pensamento de Tiago ou Pedro. Elas não o fazem. Sua importância reside em mostrar que, em determinado ambiente cristão posterior, era possível construir uma memória apostólica inteiramente diferente daquela que acabaria prevalecendo.

Os ebionitas devem ser compreendidos dentro desse problema, embora não seja possível simplesmente identificá-los com a comunidade das Kerygmata. O material preservado por Ireneu e, sobretudo, por Epifânio mostra que existiam grupos cristãos que continuavam a interpretar sua identidade em estreita relação com Israel, com a circuncisão, com o sábado e com a Lei. Seus adversários os classificaram progressivamente como desviantes. A partir daí, aquilo que para esses grupos podia representar fidelidade à tradição tornou-se, na literatura heresiológica, sinal de heresia.

A história produzida posteriormente pela cristandade majoritária tende, assim, a esconder uma característica essencial do cristianismo primitivo: a ortodoxia não existiu desde o início como uma realidade absolutamente definida contra a qual as demais comunidades simplesmente se rebelaram. Ela foi construída através de disputas, negociações, exclusões, apropriações e redefinições de autoridade. O triunfo de uma forma de cristianismo transformou outras formas de cristianismo em "heresia".

Isso explica o caráter paradoxal da sobrevivência das tradições judaico-cristãs. Elas não desapareceram simplesmente porque eram intelectualmente incapazes de competir com Paulo. Em muitos casos, conservaram uma reivindicação extremamente poderosa: nós somos os verdadeiros herdeiros de Jesus, de Pedro, de Tiago e de Israel. O problema é que essa reivindicação se tornou progressivamente incompatível com a estrutura religiosa, social e institucional de um cristianismo cada vez mais gentílico.

É nesse sentido que a história do cristianismo judaico pode ser lida como uma espécie de história oculta da construção da ortodoxia. Não uma história oculta porque tenha sido deliberadamente apagada por uma conspiração, mas porque a vitória de uma tradição possui precisamente o efeito de tornar as tradições derrotadas menos visíveis. O vencedor não apenas ocupa o espaço institucional; ele também passa a controlar as categorias através das quais o passado será lembrado.

Paulo tornou-se, para a tradição cristã dominante, o grande apóstolo dos gentios. Pedro tornou-se fundamento da Igreja. Tiago permaneceu como figura venerável da Jerusalém apostólica. Mas as Kerygmata Petrou preservaram outra possibilidade: Pedro contra Paulo e Tiago acima de Pedro, em defesa de um cristianismo fiel à Lei. Os testemunhos sobre os ebionitas preservaram outra: comunidades que continuavam a reivindicar a continuidade entre Jesus e Israel. A literatura patrística, por sua vez, transformou progressivamente essas posições em objeto de classificação e refutação.

O resultado foi uma assimetria histórica extraordinária. A tradição que venceu pôde apresentar-se como "ortodoxia"; as tradições que perderam passaram a ser lembradas principalmente através das descrições produzidas por seus adversários. É justamente por isso que a investigação histórica precisa voltar a essas fontes não para simplesmente substituir uma ortodoxia por outra, nem para transformar os grupos judaico-cristãos em heróis retrospectivos, mas para reconstruir a disputa social pela autoridade de definir o cristianismo.

A questão fundamental, portanto, não é simplesmente saber se Paulo estava certo ou se Tiago estava certo. A questão historicamente mais produtiva é perguntar por que determinada interpretação da tradição apostólica conseguiu sobreviver, expandir-se e tornar-se normativa, enquanto outras interpretações — algumas delas igualmente antigas e igualmente capazes de reivindicar Pedro, Tiago, Jesus e as Escrituras de Israel — foram progressivamente empurradas para as margens da história cristã.

É nessa passagem — da divergência à marginalização, da marginalização à heresiologia e da heresiologia ao esquecimento — que se encontra uma das histórias mais fascinantes do cristianismo primitivo.



REFERÊNCIAS

BAUER, Walter. Orthodoxy and heresy in earliest Christianity. Philadelphia: Fortress Press, 1971.

DUNN, James D. G. Jesus, Paul and the Law: studies in Mark and Galatians. Louisville: Westminster/John Knox Press, 1990.

EPIFÂNIO DE SALAMINA. Panarion: against the Ebionites. In: WILLIAMS, Frank (trad.). The Panarion of Epiphanius of Salamis. Leiden: Brill, 1987.

IRENEU DE LIÃO. Contra as heresias. São Paulo: Paulus, 1995.

KOESTER, Helmut. Introduction to the New Testament: history and literature of early Christianity. 2. ed. Berlin: de Gruyter, 2005. v. 2.

MORESCHINI, Claudio; NORELLI, Enrico. História da literatura cristã antiga grega e latina. São Paulo: Loyola, 1996.

SANDERS, E. P. Paul and Palestinian Judaism: a comparison of patterns of religion. Philadelphia: Fortress Press, 1977.

THE HOLY BIBLE. Bíblia de Jerusalém. São Paulo: Paulus, 2002.




APÊNDICE ANALÍTICO

Paulo, Tiago, Pedro e a construção das fronteiras do cristianismo

Nota metodológica: as tabelas e diagramas abaixo não pretendem representar uma genealogia institucional linear entre as comunidades do século I, as Kerygmata Petrou e os grupos posteriormente classificados como ebionitas. Eles organizam comparativamente tradições, testemunhos e problemas historiográficos que apresentam afinidades temáticas. As linhas de continuidade devem ser entendidas como hipóteses de reconstrução, não como sucessões institucionais demonstradas.



TABELA 1 — AS PRINCIPAIS AUTORIDADES EM DISPUTA

AutoridadeFonte principalFunção na tradiçãoRelação com a LeiRelação com a missão aos gentiosProblema historiográfico
PauloGálatas; 1 Coríntios; RomanosApóstolo dos gentiosReinterpretação da função da Lei diante da fé em CristoUniversalização da comunidade sem necessidade de circuncisãoAté que ponto sua posição representa uma ruptura ou uma reconfiguração do judaísmo?
Pedro/CefasGálatas; Atos; tradição posteriorPrincipal autoridade apostólicaRelação ambígua nas fontesParticipa da controvérsia sobre a mesa com gentiosA tradição petrina foi posteriormente apropriada por correntes diferentes
TiagoGálatas; Atos; tradição posteriorAutoridade de JerusalémForte associação com a continuidade judaicaAtua no problema da incorporação dos gentiosA imagem posterior de Tiago deve ser distinguida do Tiago histórico
JesusEvangelhos canônicos; tradições judaico-cristãsFonte última da autoridadeLei reinterpretada dentro do movimento messiânicoOrigem da questão sobre Israel e os gentiosDiferentes comunidades reivindicam sua autoridade para posições incompatíveis
Moisés/LeiEscrituras de Israel; tradições cristãsFundamento da revelaçãoPrincípio normativo ou objeto de releituraDefine originalmente as fronteiras de IsraelA disputa passa a envolver também a autenticidade da própria tradição textual

Leitura analítica

A tabela torna visível uma questão central do artigo: o conflito não era simplesmente Paulo contra a Lei. Tratava-se de uma disputa entre diferentes formas de reivindicar autoridade sobre a interpretação da Lei, de Jesus e da tradição apostólica.



TABELA 2 — O CONFLITO PAULO–JERUSALÉM NO NOVO TESTAMENTO

QuestãoPaulo em GálatasJerusalém/Tiago em AtosSignificado histórico
Origem da missão de PauloRevelação de Jesus CristoMissão reconhecida no contexto apostólicoTensão entre autonomia e reconhecimento institucional
Relação com JerusalémPaulo insiste em sua independênciaJerusalém aparece como centro decisórioDiferentes modelos de autoridade
TiagoUma das "colunas"Principal figura na assembleia de JerusalémForte autoridade de Jerusalém
PedroCefas, autoridade apostólicaFigura central da comunidadeAutoridade compartilhada e disputada
GentiosPodem integrar-se sem tornar-se judeusProblema central do debateQuestão de identidade comunitária
Mesa comumPaulo defende coerência entre judeus e gentiosQuestão disciplinar e comunitáriaA controvérsia possui dimensão social
LeiReinterpretada em função de CristoMantém papel importante na comunidade judaicaDiferentes modelos de pertencimento
AntioquiaConfronto público com PedroNão aparece da mesma forma em AtosMemórias divergentes sobre o conflito

Observação: esta tabela deve ser lida comparativamente. Não se deve pressupor que Atos simplesmente "corrija" Gálatas ou que Gálatas seja uma transcrição neutra dos acontecimentos. Os dois textos são fontes situadas e possuem estratégias narrativas próprias.



TABELA 3 — A EVOLUÇÃO DO PROBLEMA DA LEI

EtapaProblemaPergunta central
Movimento de JesusRelação entre Jesus e a tradição judaicaJesus rompeu com a Lei ou a reinterpretou?
Primeiras comunidadesEntrada de gentiosO gentio precisa tornar-se judeu?
PauloFé em Cristo e pertençaCircuncisão e observância da Lei são necessárias para os gentios?
JerusalémOrganização comunitáriaComo judeus e gentios podem coexistir?
Tradições judaico-cristãsContinuidade com IsraelComo preservar Jesus sem abandonar a identidade judaica?
Kerygmata PetrouAutoridade apostólicaPedro e Tiago podem ser utilizados contra Paulo?
Ebionitas segundo os heresiólogosLei e identidadeQuem possui a verdadeira interpretação da tradição mosaica?
PatrísticaOrtodoxia e heresiaQuando a divergência passa a ser classificada como heresia?

Essa sequência é particularmente importante porque impede uma leitura anacrônica. A questão inicial não era "cristianismo versus judaísmo". Era uma disputa ocorrida dentro de um movimento originariamente judaico acerca de como sua mensagem messiânica deveria relacionar-se com Israel e com os gentios.



TABELA 4 — AS KERYGMATA PETROU COMO CONTRAMEMÓRIA

ElementoTradição paulina dominanteKerygmata Petrou
PauloApóstolo dos gentiosFigura submetida à crítica
PedroAutoridade apostólica fundamentalDefensor de uma missão fiel à Lei
TiagoAutoridade de JerusalémAutoridade superior que confirma Pedro
GentiosIncorporados sem circuncisãoMissão aos gentios permanece vinculada à Lei
LeiReinterpretada em CristoPrincípio crítico da revelação
JesusFundamento do evangelho paulinoVerdadeiro profeta que permite discernir a tradição
EscriturasBase da interpretação cristãAlgumas passagens podem ser consideradas falsas/interpoladas
"Novidade"Pode representar expansão do evangelhoPode ser argumento contra Paulo
AutoridadeRevelação apostólica de PauloTradição de Pedro e Tiago
ResultadoUniversalização gentílicaDefesa de um cristianismo fiel à Lei

Ponto fundamental

A coluna da direita não deve ser entendida como "o pensamento histórico de Pedro e Tiago". Ela representa a construção literária de uma memória de Pedro e Tiago. É justamente isso que torna as Kerygmata historicamente importantes.



TABELA 5 — DO CONFLITO À HERESIOLOGIA

Momento históricoSituaçãoCategoria predominante
Século IDiversidade dentro do movimento de JesusDivergência
Final do século I / início do IIConsolidação de diferentes tradições cristãsCompetição
Século IIDisputas sobre apostolicidade e doutrinaControvérsia
Séculos II–IIIFormação mais definida de fronteiras comunitáriasSeparação
Literatura heresiológicaClassificação dos adversáriosHeresia
Cristianismo majoritárioConsolidação institucional e doutrinalOrtodoxia
Memória posteriorTradições derrotadas passam a ser conhecidas sobretudo por seus adversáriosMarginalização

Esta tabela representa uma das teses sociológicas centrais do artigo:

divergência → competição → delimitação → classificação → marginalização.

Não significa que todas as comunidades tenham passado exatamente pelas mesmas etapas ou na mesma cronologia. Trata-se de um modelo analítico.



TABELA 6 — FONTES E GRAUS DE PROXIMIDADE COM O FENÔMENO ESTUDADO

FonteData aproximadaNaturezaO que permite investigarPrincipal cautela
Gálatasdécada de 50Carta paulinaConflito Paulo–Pedro–TiagoÉ a perspectiva do próprio Paulo
1 Coríntiosdécada de 50Carta paulinaAutoridade, divisões e identidade comunitáriaContexto específico de Corinto
Atosfinal do séc. I / início do IINarrativa historiográfica-teológicaJerusalém, Tiago, Pedro e PauloTendência a construir unidade apostólica
Evangelhos canônicosséc. INarrativas de JesusLei, identidade judaica e gentiosDistância temporal e elaboração teológica
Kerygmata Petroudatação discutidaLiteratura pseudo-clementinaContramemória petrina e crítica a PauloTradição literária complexa e estratificada
Ireneufinal do séc. IIHeresiologiaPrimeiros testemunhos sobre ebionitasFonte adversária
Epifânioséc. IVHeresiologiaDescrição detalhada dos ebionitasGrande distância temporal e finalidade polêmica
Bauerséc. XXHistoriografia modernaModelo ortodoxia/heresiaTese posteriormente bastante debatida
Koesterséc. XXIHistória do cristianismo primitivoRelação entre Kerygmata, Pedro, Tiago e PauloReconstrução historiográfica



DIAGRAMA 1 — O NÚCLEO DA CONTROVÉRSIA

                         JESUS
                           │
                           ▼
                  ┌─────────────────┐
                  │  Tradição judaica│
                  └────────┬────────┘
                           │
                           ▼
                    MOVIMENTO MESSIÂNICO
                           │
             ┌─────────────┴─────────────┐
             │                           │
             ▼                           ▼
      JERUSALÉM                      PAULO
             │                           │
       Tiago + Pedro              Missão aos gentios
             │                           │
             │                     sem plena
             │                  incorporação judaica
             │                           │
             └─────────────┬─────────────┘
                           ▼
                    CONFLITO SOBRE
                    A IDENTIDADE
                    DA COMUNIDADE
                           │
                           ▼
              ┌─────────────────────────┐
              │ Quem define a verdadeira│
              │ tradição de Jesus?      │
              └─────────────────────────┘

Este é provavelmente o diagrama central do artigo.



DIAGRAMA 2 — A DISPUTA PELA AUTORIDADE APOSTÓLICA

                    AUTORIDADE DE JESUS
                           │
                           ▼
                 ┌──────────────────┐
                 │   APOSTOLICIDADE │
                 └────────┬─────────┘
                          │
             ┌────────────┼────────────┐
             │            │            │
             ▼            ▼            ▼
           PAULO         PEDRO        TIAGO
             │            │            │
             │            │            │
             ▼            ▼            ▼
        Revelação      Tradição      Jerusalém
        e missão      apostólica    e tradição
        aos gentios
             │            │            │
             │            └─────┬──────┘
             │                  │
             ▼                  ▼
       Interpretação      Fidelidade à Lei
       da missão          e tradição judaica
             │                  │
             └────────┬─────────┘
                      ▼
               DISPUTA PELA
               LEGITIMIDADE

A função deste diagrama é mostrar que a controvérsia não era simplesmente doutrinária. Cada lado precisava construir uma genealogia de autoridade.



DIAGRAMA 3 — A CONTRAMEMÓRIA DAS KERYGMATA PETROU

              TRADIÇÃO APOSTÓLICA
                       │
                       ▼
                  PEDRO
                       │
             fiel à Lei de Deus
                       │
                       ▼
                    TIAGO
                       │
              autoridade superior
                       │
                       ▼
             VERDADEIRO ENSINAMENTO
                       │
                       ▼
             MISSÃO AOS GENTIOS
                  FIEL À LEI
                       │
                       ✕
                       │
                 PAULO
                       │
                       ▼
              "NOVIDADE" / RUPTURA
                       │
                       ▼
          REJEIÇÃO DA LEI E DA
          AUTORIDADE DOS ENSINAMENTOS
                  DE JESUS

Nota: este diagrama reproduz a lógica argumentativa atribuída às Kerygmata na reconstrução de Koester, não uma descrição historiográfica do pensamento real de Pedro ou Tiago.



DIAGRAMA 4 — DA DIVERSIDADE À MARGINALIZAÇÃO

Este talvez seja o diagrama mais importante sociologicamente para a conclusão do artigo:

                 MOVIMENTO DE JESUS
                         │
                         ▼
              DIVERSIDADE INTERNA
                         │
          ┌──────────────┴──────────────┐
          │                             │
          ▼                             ▼
     TRADIÇÕES DE                    TRADIÇÕES
     JERUSALÉM                       PAULINAS
          │                             │
          │                             │
          ▼                             ▼
     Tiago / Pedro                 Missão gentílica
     Lei / Israel                  universal
          │                             │
          └──────────────┬──────────────┘
                         ▼
                    CONTROVÉRSIA
                         │
                         ▼
              COMPETIÇÃO POR AUTORIDADE
                         │
                         ▼
                DIFERENCIAÇÃO DOS GRUPOS
                         │
                         ▼
              CONSOLIDAÇÃO DE FRONTEIRAS
                         │
                         ▼
                 HERESIOLOGIA
                         │
                         ▼
                    "HEREGES"
                         │
                         ▼
                 MARGINALIZAÇÃO
                         │
                         ▼
               ESQUECIMENTO HISTÓRICO
                         │
                         ▼
       SOBREVIVÊNCIA DA MEMÓRIA ATRAVÉS
             DOS TEXTOS DOS ADVERSÁRIOS

Aqui aparece com clareza a tese mais ambiciosa do artigo: a história da ortodoxia é também a história da produção de uma periferia cristã.



QUADRO-SÍNTESE — O ARGUMENTO CENTRAL DO ARTIGO

DimensãoPerguntaResposta construída pelo artigo
HistóricaHouve conflito entre Paulo e Jerusalém?Gálatas preserva evidências importantes de conflito e divergência
ApostólicaQuem possuía autoridade?Paulo, Pedro e Tiago representam diferentes formas de autoridade
SociológicaO que estava em jogo?A definição das fronteiras de pertencimento
TeológicaQual era o problema da Lei?Não apenas observância, mas interpretação da revelação
MissionáriaQuem poderia integrar-se ao movimento?Principalmente a questão da incorporação dos gentios
MemorialQuem controlava o passado?Diferentes grupos reivindicavam Jesus e os apóstolos
LiteráriaO que fazem as Kerygmata?Constroem uma contramemória petrina anti-paulina
HeresiológicaO que ocorre posteriormente?Divergências são progressivamente classificadas como heresias
SociopolíticaQuem ganha?A tradição capaz de estabelecer suas categorias como normativas
HistoriográficaO que resta dos derrotados?Frequentemente, sua própria voz é preservada de maneira fragmentária ou através dos adversários



UMA ÚLTIMA FIGURA CONCEITUAL

Eu acrescentaria ainda, ao final do apêndice, uma pequena figura que resume todo o artigo:

             JESUS E O JUDAÍSMO DO SÉCULO I
                         │
                         ▼
                MOVIMENTO MESSIÂNICO
                         │
                         ▼
                 DIVERSIDADE INTERNA
                         │
          ┌──────────────┴──────────────┐
          │                             │
          ▼                             ▼
      JERUSALÉM                       PAULO
    Tiago / Pedro                  Gentios / fé
          │                             │
          └──────────────┬──────────────┘
                         ▼
                 DISPUTA APOSTÓLICA
                         │
                         ▼
                  DISPUTA PELA LEI
                         │
                         ▼
              DISPUTA PELA IDENTIDADE
                         │
                         ▼
              DISPUTA PELA MEMÓRIA
                         │
                         ▼
                DISPUTA PELO PODER
                         │
                         ▼
              ┌─────────────────────┐
              │ CONSOLIDAÇÃO DE UMA │
              │ TRADIÇÃO DOMINANTE  │
              └──────────┬──────────┘
                         │
              ┌──────────┴──────────┐
              ▼                     ▼
         "ORTODOXIA"             "HERESIA"
              │                     │
              ▼                     ▼
       memória dominante      memória marginal
                                    │
                                    ▼
                          JUDEU-CRISTIANISMO
                                    │
                                    ▼
                          EBIONITAS / TRADIÇÕES
                           JUDAICO-CRISTÃS

 





1 ESTÁTUAS DE DEUSES

Quando pensamos nos deuses do antigo Oriente Próximo, quase sempre os imaginamos acompanhados de suas imagens. E, de fato, as fontes arqueológicas provenientes das sociedades do antigo Levante apresentam uma quantidade significativa de estátuas, relevos, figuras de terracota e outros objetos relacionados ao culto. É importante, entretanto, fazermos uma primeira distinção. A imagem de uma divindade no mundo antigo não deve ser entendida simplesmente como um “retrato”, no sentido moderno do termo. Trata-se de uma forma material de representação que poderia estar relacionada ao culto, à presença, aos atributos ou à manifestação da própria divindade. A imagem, portanto, não era necessariamente uma tentativa de reproduzir a aparência física de um deus. Ela participava de uma determinada concepção religiosa acerca da relação entre o mundo divino e o mundo humano. Neste sentido, a iconografia do antigo Oriente Próximo não constitui apenas um capítulo da história da arte. Ela integra a própria linguagem através da qual aquelas sociedades pensavam, expressavam e materializavam sua relação com o divino. É precisamente essa relação entre imagem, símbolo e pensamento religioso que Othmar Keel procura recuperar ao aproximar a iconografia do antigo Oriente Próximo do mundo simbólico da Bíblia. Para Keel (1997), as imagens não devem ser tratadas como simples ilustrações de textos, mas como parte de um sistema cultural mais amplo, capaz de iluminar categorias simbólicas presentes na tradição bíblica.

A partir disso, a questão de Israel adquire especial importância. Se as divindades que pertenciam ao mesmo ambiente cultural de Israel podiam receber representação material, seria possível afirmar que a religião israelita tenha sido, desde suas origens, radicalmente diferente nesse aspecto? É justamente neste ponto que devemos evitar a tendência de projetar sobre as fases mais antigas da religião de Israel uma concepção de Deus que somente se consolidaria posteriormente. O fato de a tradição bíblica condenar imagens de Deus não significa, por si só, que todas as formas anteriores de yahwismo tenham compartilhado exatamente a mesma concepção. A história religiosa de Israel foi longa e esteve marcada por transformações, disputas, continuidades e reelaborações. Sendo assim, antes de perguntarmos por que Yahweh “não tinha imagem”, talvez devêssemos formular a questão de outra maneira: em que momento e sob quais condições a representação visual de Yahweh passou a ser considerada incompatível com determinada concepção da religião de Israel?

Para compreendermos melhor essa questão, devemos começar por El. A figura tradicionalmente associada a El, proveniente de Ugarit, remete a uma importante tradição religiosa do antigo Levante. Os textos ugaríticos apresentam El como uma das grandes divindades daquele mundo, associado à autoridade suprema e ao conselho divino. A própria identificação de determinadas representações iconográficas de El, entretanto, permanece objeto de discussão entre os pesquisadores. Não precisamos destrinchar aqui essa questão específica. O que nos interessa é algo mais amplo: El estava inserido em uma tradição religiosa na qual a representação visual das divindades era possível. A contribuição de Keel (1997) é importante precisamente porque permite situar essa possibilidade dentro do ambiente iconográfico do antigo Oriente Próximo, sem estabelecer uma correspondência automática entre determinada imagem e determinada divindade bíblica. Não se trata, evidentemente, de estabelecer uma relação direta entre cada imagem encontrada no antigo Oriente e uma passagem bíblica específica, mas de reconhecer que textos e imagens participavam de um mesmo ambiente cultural e, muitas vezes, compartilhavam categorias simbólicas.

E aqui encontramos um elemento que aproxima El da tradição bíblica mais do que poderia parecer à primeira vista. El — אֵל — é uma antiga designação semítica para “deus” e aparece também no hebraico bíblico, inclusive em expressões como El Elyon, El Shaddai, El Olam e El Roi, além de integrar numerosos nomes próprios hebraicos. Isso não significa, de forma alguma, que possamos simplesmente identificar o El de Ugarit com Yahweh. Uma identificação dessa natureza desconsideraria a complexidade do processo de formação da religião israelita. Significa, porém, que a linguagem religiosa de Israel se desenvolveu dentro de um ambiente semítico no qual El era uma divindade conhecida, cultuada e passível de representação. A proximidade cultural, portanto, não autoriza uma identificação automática, mas também não permite que imaginemos Israel como uma tradição religiosa completamente isolada de seu ambiente histórico.


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É nesse ponto que surge uma questão inevitável: e Yahweh? Se divindades como El e Baal podiam receber representação visual, e se as divindades femininas do antigo Levante também podiam ser representadas, seria possível que Yahweh tivesse recebido alguma forma de representação visual? Durante muito tempo, a resposta pareceu evidente: não. Afinal, a tradição bíblica condena explicitamente a fabricação de imagens de Deus. O segundo mandamento é bastante conhecido: “Não farás para ti imagem esculpida” (ÊXODO, 20,4). Ora, a questão se torna menos simples quando observamos a própria maneira pela qual Yahweh é descrito na Bíblia. Yahweh possui olhos, ouvidos, boca, mãos, braços, pés e rosto; ele caminha, desce, sobe, senta-se, fala e vê. Se a linguagem bíblica utiliza de maneira tão recorrente categorias corporais para falar de Yahweh, a questão de sua possível representação visual não pode ser simplesmente afastada. Theodore J. Lewis chama atenção precisamente para esse problema ao observar que as representações antropomórficas de Yahweh aparecem “on almost every other page of the Hebrew Bible” (LEWIS, 2015, p. 510). A afirmação não significa que a Bíblia esteja descrevendo um corpo divino no sentido biológico moderno. Significa, antes, que o discurso sobre Yahweh é profundamente antropomórfico e que, neste sentido, é legítimo perguntar se essa linguagem teria coexistido, em algum momento, com formas materiais de representação.

De qualquer forma, encontramos aqui uma dificuldade fundamental. Não possuímos uma estátua arqueológica que possamos apresentar e afirmar, sem maiores ressalvas: “este é Yahweh”. O que temos são vestígios materiais, inscrições e representações cuja interpretação permanece aberta. E é justamente neste ponto que a questão se torna mais interessante, pois a ausência de uma imagem identificável de Yahweh não resolve o problema; apenas nos obriga a trabalhar com fontes fragmentárias e com diferentes possibilidades de reconstrução histórica.


2 KUNTILLET ʿAJRUD

Um dos conjuntos de fontes mais importantes para essa discussão encontra-se em Kuntillet ʿAjrud, sítio arqueológico localizado no nordeste do Sinai. Ali foram encontrados objetos do século VIII a.C. contendo inscrições que mencionam Yahweh. Entre elas está a famosa expressão normalmente traduzida como “Yahweh e sua Asherah”. A inscrição provocou ampla discussão porque parece testemunhar uma forma de religião yahwista que não corresponde integralmente às formulações teológicas presentes nas tradições bíblicas posteriores. A própria expressão “sua Asherah”, entretanto, permanece controversa. Alguns pesquisadores entendem asherah como referência à deusa Asherah; outros consideram mais provável que o termo designasse um objeto, símbolo ou elemento cultual associado ao culto de Yahweh. Judith M. Hadley (2000), ao reconstruir o culto de Asherah em Israel e Judá, utiliza precisamente as evidências de Kuntillet ʿAjrud e Khirbet el-Qom para questionar concepções excessivamente simples acerca da religião israelita. A importância de sua contribuição está em mostrar que a presença do termo asherah não pode ser isolada do contexto arqueológico e religioso mais amplo no qual essas inscrições aparecem. A discussão, portanto, não se resume a decidir se “Asherah” era ou não uma deusa, mas envolve a própria diversidade das formas pelas quais o culto israelita se relacionava com Yahweh e com elementos femininos do divino.


Mas o que torna Kuntillet ʿAjrud importante para nossa investigação são os desenhos que aparecem nos mesmos objetos. Algumas dessas figuras foram interpretadas por pesquisadores como possíveis representações de Yahweh e Asherah. A hipótese é significativa porque, se estivesse correta, teríamos uma representação visual relacionada ao próprio nome de Yahweh. No entanto, é precisamente aqui que devemos evitar uma conclusão precipitada. Brian B. Schmidt formulou a questão de maneira direta ao perguntar: “Did the Israelites and Judahites of the Iron Age visually represent their gods?” (SCHMIDT, 2002, p. 91). Para Schmidt, a relação entre os desenhos e as inscrições merece ser considerada conjuntamente, pois o significado das figuras não pode ser estabelecido apenas pela aparência isolada dos personagens. Sua análise procura justamente reconstruir a possibilidade de que as imagens e os textos tenham sido produzidos como partes relacionadas de uma mesma composição religiosa. A questão, portanto, não é simplesmente identificar figuras, mas compreender o modo como imagem e inscrição poderiam produzir conjuntamente determinado significado.

O problema é que as figuras podem não ser Yahweh. A interpretação atualmente bastante difundida identifica as duas figuras de pé como representações do deus egípcio Bes, enquanto a figura sentada seria um músico. Outros pesquisadores, entretanto, continuam discordando dessa identificação e sustentam que os personagens podem estar relacionados, de alguma maneira, a Yahweh e Asherah. Temos, portanto, uma situação instrutiva para a reconstrução histórica: a mesma fonte material pode produzir interpretações diferentes, dependendo da maneira como se relacionam imagem, inscrição e contexto. Não podemos, por isso, simplesmente colocar uma legenda sobre a figura e escrever “Yahweh”. O procedimento mais adequado é reconhecer a controvérsia e perguntar o que cada interpretação consegue explicar. A dúvida, portanto, faz parte da própria história da fonte.

Neste sentido, Kuntillet ʿAjrud não nos permite afirmar que encontramos a imagem de Yahweh. Permite algo mais modesto e, talvez, historicamente mais importante: mostra que a religião yahwista do século VIII a.C. estava inserida em um ambiente no qual nomes de divindades, fórmulas cultuais e imagens podiam aparecer associados no mesmo espaço material. A fonte não resolve a questão da iconografia de Yahweh, mas torna muito mais difícil sustentar, sem qualificações, a ideia de que a religião de Israel tenha sido, desde suas origens, absolutamente impermeável à representação visual do divino.



3 YAHWEH E O TOURO

Existe ainda outra possibilidade iconográfica que merece ser considerada: o touro. Algumas imagens bovinas encontradas em contextos relacionados à religião israelita antiga foram associadas, por determinados pesquisadores, à representação de Yahweh. A hipótese merece atenção porque a própria Bíblia preserva a memória dos bezerros de ouro associados a Betel e Dã. A leitura tradicional desses episódios é conhecida: Israel teria abandonado Yahweh para adorar uma divindade diferente. Entretanto, a questão histórica pode ser mais complexa. Alguns pesquisadores perguntaram se a imagem bovina não poderia, em determinados contextos, ter funcionado como símbolo, veículo ou mesmo forma teriomórfica de representação do próprio Yahweh. Não se trata, portanto, simplesmente de substituir um deus por outro, mas de perguntar se o touro poderia ter constituído uma forma através da qual Yahweh era visualmente representado.

De qualquer forma, devemos estabelecer aqui uma distinção fundamental. Não existe uma inscrição arqueológica que nos permita afirmar: “este touro é Yahweh”. A hipótese não pode ser transformada em certeza. O que existe é um conjunto de fontes que permite levantar a possibilidade de formas teriomórficas de representação de Yahweh. Thomas Römer, em estudo publicado em 2023, formula essa questão de maneira importante ao afirmar que “one should not speak of an ‘original aniconism’ in the cult of Yhwh” (RÖMER, 2023, p. 385). Sua reconstrução admite a possibilidade de representações antropomórficas e teriomórficas de Yahweh em fases antigas da religião israelita, antes que determinadas formas de aniconismo adquirissem maior força no desenvolvimento posterior do monoteísmo. O ponto central de Römer, portanto, não é provar que uma determinada imagem bovina represente Yahweh, mas questionar a própria premissa de que o culto de Yahweh teria sido originalmente caracterizado pela rejeição absoluta das imagens.

É justamente essa hipótese que nos obriga a deslocar a pergunta. Em vez de partirmos da premissa de que Israel não possuía imagens e procurarmos explicar essa suposta excepcionalidade, podemos perguntar quando determinadas formas de representação de Yahweh deixaram de ser aceitáveis e quais transformações históricas e religiosas contribuíram para esse deslocamento. A questão deixa, pois, de ser simplesmente a ausência da imagem e passa a envolver o processo histórico através do qual determinadas imagens, práticas e formas de representação foram sendo recusadas, reinterpretadas ou progressivamente excluídas do culto. É uma diferença importante. Uma coisa é afirmar que uma religião nasceu anicônica e permaneceu fiel a esse princípio. Outra, bastante diferente, é admitir que o aniconismo tenha resultado de uma longa transformação da maneira pela qual determinada tradição compreendia a presença e a representação de seu Deus.



4 QUANDO YAHWEH PERDEU SUA IMAGEM?

O próprio título desta seção precisa ser tratado com cautela. Ao perguntarmos “quando Yahweh perdeu sua imagem?”, não estamos afirmando que tenha existido uma única tradição iconográfica de Yahweh que posteriormente foi simplesmente abandonada. Não sabemos se houve uma forma única de representação, nem se as diferentes manifestações materiais atribuídas a Yahweh pertenceram a uma mesma tradição. A pergunta funciona, antes, como uma hipótese de investigação: se determinadas formas de representação de Yahweh podem ter existido em períodos antigos, quando e por que elas deixaram de ocupar o mesmo lugar no imaginário religioso de Israel?

É neste ponto que devemos retomar a proposta de Thomas Römer. Segundo o autor, não deveríamos falar de um “aniconismo original” no culto de Yahweh. Representações antropomórficas e teriomórficas poderiam ter existido no Reino do Norte e durante o período do Primeiro Templo, enquanto as proibições explícitas contra imagens teriam adquirido maior força em contextos posteriores, sobretudo nas transformações religiosas associadas ao período pós-exílico e ao desenvolvimento de uma concepção mais estritamente monoteísta de Yahweh (RÖMER, 2023). Isso não significa, evidentemente, que todos os pesquisadores concordem com essa reconstrução. Tampouco significa que possamos simplesmente afirmar que “os israelitas adoravam estátuas de Yahweh”. A questão é mais delicada. O que as fontes permitem sustentar é a possibilidade de que iconismo e aniconismo tenham coexistido em diferentes momentos e contextos, e que a relação entre uma imagem e a divindade representada não fosse necessariamente compreendida pelos antigos da mesma maneira como hoje tendemos a imaginá-la.

Neste sentido, talvez seja mais adequado falar em transformação do lugar da imagem do que em simples desaparecimento da imagem. Uma tradição religiosa pode recusar determinado tipo de representação sem, por isso, abandonar completamente a linguagem da representação. Pode rejeitar a estátua e conservar a ideia de presença. Pode condenar a fabricação de uma imagem cultual e, ao mesmo tempo, utilizar imagens metafóricas, corporais ou simbólicas para falar de Deus. Pode, enfim, deslocar a própria função representativa para outro lugar. É justamente neste ponto que a formulação de Gênesis 1,26-27 ganha importância para nossa investigação.

“Façamos o homem à nossa imagem, como nossa semelhança” (GÊNESIS, 1,26).

E logo depois:

“Deus criou o homem à sua imagem; à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou” (GÊNESIS, 1,27).

A palavra hebraica utilizada para “imagem” é ṣelem — צלם. É importante não atribuir automaticamente ao termo o sentido de um retrato físico de Deus. Seu campo semântico pode envolver a ideia de imagem, representação e correspondência. Entretanto, a formulação continua sendo significativa quando colocada dentro do ambiente religioso do antigo Oriente Próximo. Em uma cultura na qual as divindades podiam ser representadas materialmente, o texto de Gênesis afirma que o ser humano é criado “à imagem” de Deus. Não precisamos sustentar que o autor de Gênesis estivesse conscientemente respondendo a uma determinada estátua de El ou de Yahweh. Não temos fontes que permitam uma afirmação tão específica. Podemos, entretanto, perceber que o texto utiliza deliberadamente a linguagem da imagem e da representação para falar da humanidade.

É justamente nesse ponto que ocorre uma inversão importante. Durante toda a nossa investigação procuramos a imagem de Deus. Procuramos em Ugarit e encontramos El; procuramos nas fontes provenientes de Israel e encontramos objetos, inscrições e figuras cuja identificação permanece discutida; procuramos especificamente por Yahweh e não encontramos uma estátua que possamos identificar com segurança. E então Gênesis parece responder de uma maneira inesperada: a imagem de Deus é o ser humano. A questão deixa de ser simplesmente saber se existiu uma estátua de Yahweh e passa a envolver a própria transformação do conceito de representação divina. A imagem que procurávamos no objeto passa a ser encontrada na humanidade. O objeto colocado diante do homem deixa de ser o único lugar possível da representação e o próprio homem passa a ocupar uma função representativa diante do mundo.

É neste sentido que a leitura de J. Richard Middleton sobre a imago Dei é importante. Middleton (2005) interpreta a imagem de Deus em Gênesis em relação à função representativa e à vocação humana no mundo, deslocando a interpretação de imago Dei de uma compreensão exclusivamente física para uma compreensão que envolve também função, autoridade e representação. O ser humano não é chamado apenas a “parecer” com Deus; ele é colocado no mundo como aquele que representa, de alguma maneira, a autoridade divina sobre a criação. E aqui a antiga questão da iconografia ganha uma dimensão inesperada: a imagem deixa de ser apenas aquilo que reproduz visualmente uma divindade e passa a ser aquilo que a representa no mundo.

A partir deste momento, a pergunta inicial precisa ser reformulada. Talvez não seja suficiente perguntar se Yahweh tinha uma estátua. Devemos perguntar também o que significava, para a tradição bíblica, ser uma “imagem” de Deus. Se o ṣelem de Gênesis não precisa ser compreendido como um retrato físico de Yahweh, então a linguagem da imagem pode ter sobrevivido à rejeição de determinadas formas materiais de representação. A estátua poderia ser recusada sem que a ideia de representação fosse eliminada. O que teria mudado, portanto, seria o próprio lugar onde deveríamos procurar essa representação.

Não sabemos qual era o rosto de Yahweh, e talvez nunca saibamos. Algumas das imagens propostas como possíveis representações dele podem realmente estar relacionadas ao antigo culto yahwista; talvez não. As figuras de Kuntillet ʿAjrud podem estar relacionadas a Yahweh e Asherah, mas também podem representar Bes e um músico. O touro pode ter participado de uma antiga iconografia yahwista, mas essa interpretação permanece uma hipótese. A pesquisa continua discutindo tais possibilidades. E justamente por isso não precisamos transformar uma conjectura em certeza para perceber a importância histórica do problema.

De qualquer forma, o que podemos afirmar com maior segurança é que a religião de Israel se desenvolveu dentro de um mundo no qual as divindades podiam receber representação visual; que El estava inserido em uma tradição iconográfica do antigo Oriente Próximo; que Yahweh é descrito na Bíblia por meio de uma linguagem profundamente antropomórfica; e que existem fontes arqueológicas que alimentaram uma discussão séria sobre a possibilidade de sua representação visual. A partir dessas fontes, porém, não podemos reconstruir um “rosto de Yahweh” com segurança. A arqueologia nos oferece vestígios, possibilidades de interpretação e pontos de tensão entre diferentes reconstruções históricas. E talvez seja justamente aí que esteja a importância histórica da questão: não sabemos exatamente qual imagem existiu, mas podemos investigar historicamente as transformações que fizeram com que determinadas imagens deixassem de ocupar o lugar que anteriormente poderiam ter ocupado.

A questão histórica, portanto, não é mais simplesmente “Israel tinha ou não tinha imagens?”. A questão passa a ser outra: como e quando determinadas formas de representação de Yahweh foram sendo rejeitadas, e de que maneira essa transformação se relacionou ao desenvolvimento de uma concepção cada vez mais transcendente e anicônica de Deus? Não sabemos se houve um único momento em que Yahweh “perdeu” sua imagem. O mais provável é que estejamos diante de um processo histórico longo, no qual diferentes tradições, práticas e concepções sobre a presença divina foram disputando espaço até que determinadas formas de representação se tornassem incompatíveis com a identidade religiosa dominante.

E aqui retornamos à formulação de Gênesis.

Durante toda a nossa investigação procuramos uma imagem de Deus. Encontramos vestígios no mundo material, encontramos inscrições cuja interpretação continua aberta, encontramos possíveis imagens que talvez sejam de Yahweh e talvez não sejam. Encontramos, entretanto, também uma formulação bíblica na qual o problema da imagem é deslocado para a própria humanidade. Talvez Deus não tenha simplesmente perdido a imagem. Talvez a imagem tenha mudado de lugar.

Saiu da pedra. Saiu da estátua. Saiu do templo.

E, na linguagem de Gênesis, ganhou pernas.

Começou a andar.

“Deus criou o homem à sua imagem.”

Pois é isso.

“Deus” tem cara.

Não porque conheçamos o rosto de Yahweh, mas porque, na formulação de Gênesis, a humanidade foi colocada no mundo como sua imagem.



REFERÊNCIAS

HADLEY, Judith M. The cult of Asherah in ancient Israel and Judah: evidence for a Hebrew goddess. Cambridge: Cambridge University Press, 2000.

KEEL, Othmar. The symbolism of the biblical world: ancient Near Eastern iconography and the Book of Psalms. Translated by Timothy J. Hallett. Winona Lake: Eisenbrauns, 1997.

LEWIS, Theodore J. Art and iconography: representing Yahwistic divinity. In: COOGAN, Michael D.; EXUM, J. Cheryl; STOUT, Jordan (ed.). The Wiley Blackwell companion to ancient Israel. Chichester: Wiley Blackwell, 2015. p. 510-533.

MIDDLETON, J. Richard. The liberating image: the imago Dei in Genesis 1. Grand Rapids: Brazos Press, 2005.

RÖMER, Thomas. Biblical aniconism? Representing the gods of ancient Israel and Judah. In: When children draw gods: exploring the cognitive foundations of religion. Cham: Springer, 2023. p. 385-395. DOI: 10.1007/978-3-030-94429-2_14.

SCHMIDT, Brian B. The Iron Age pithoi drawings from Horvat Teman or Kuntillet ʿAjrud: some new proposals. Journal of Ancient Near Eastern Religions, Leiden, v. 2, n. 1, p. 91-125, 2002. DOI: 10.1163/156921202762733905.









 





A questão que orienta este ensaio surgiu com uma observação aparentemente simples, mas que nos parece suficientemente interessante para merecer uma investigação mais cuidadosa. Algumas formulações encontradas nas cartas paulinas apresentam paralelos surpreendentemente próximos com determinados logia preservados pelo Evangelho de Tomé. O caso mais conhecido é a relação entre 1 Coríntios 2,9 e Tomé 17. Paulo escreve: “O que os olhos não viram, os ouvidos não ouviram e o coração do homem não percebeu, isso Deus preparou para aqueles que o amam”. Em Tomé 17, encontramos Jesus dizendo: “Dar-vos-ei o que olho não viu, o que ouvido não ouviu, o que a mão não tocou e o que nunca entrou no coração do homem”. A proximidade é evidente e não se trata, portanto, de uma associação criada artificialmente para aproximar Paulo de Tomé. O paralelo vem sendo discutido há décadas pela pesquisa, inclusive em estudos especificamente dedicados às possíveis relações entre as cartas paulinas e o Evangelho de Tomé (TUCKETT, 2003; ANNESE, 2018).

A questão, entretanto, começa justamente onde termina a constatação da semelhança. Quem depende de quem? Teria Paulo conhecido uma tradição semelhante àquela posteriormente preservada em Tomé? Teria o redator de Tomé conhecido alguma tradição paulina? Ou estaríamos diante de uma tradição anterior aos dois documentos, que circulou em diferentes comunidades cristãs e acabou recebendo formulações distintas? A pergunta se torna ainda mais interessante quando observamos que Tomé não é o único texto que apresenta aproximações com esse universo de ditos. Existe um segundo conjunto documental que precisa ser colocado sobre a mesa: aquilo que os pesquisadores convencionaram chamar de Q, a hipotética coleção de ditos utilizada por Mateus e Lucas. A comparação entre Q e Tomé é antiga e bastante conhecida. William Arnal, por exemplo, chama atenção para o número expressivo de correspondências entre os dois conjuntos, observando que aproximadamente quarenta ditos podem ser colocados em paralelo e que uma parcela significativa das parábolas atribuídas a Q possui correspondentes em Tomé (ARNAL, 1995). Não estamos, portanto, diante de uma única coincidência entre dois textos. Há um campo mais amplo de circulação de tradições que começa a aparecer quando colocamos Paulo, Q e Tomé lado a lado.

Antes de avançarmos, entretanto, precisamos apresentar o problema em sua forma documental. Em Tomé 17 lemos: “Dar-vos-ei o que olho não viu, o que ouvido não ouviu, o que a mão não tocou e o que nunca entrou no coração do homem”. Em 1 Coríntios 2,9, Paulo escreve: “O que os olhos não viram, os ouvidos não ouviram e o coração do homem não percebeu, isso Deus preparou para aqueles que o amam”. A semelhança não é apenas temática. A sequência dos sentidos e a referência a uma realidade que ultrapassa aquilo que o homem pode perceber constituem uma aproximação suficientemente estreita para que seja legítimo perguntar pela história dessa formulação. Mas existe aqui uma dificuldade que não podemos ignorar. Paulo introduz sua frase em um contexto no qual afirma estar transmitindo uma sabedoria divina anteriormente oculta. Além disso, a investigação sobre a origem dessa fórmula mostrou que ela pode possuir uma história mais antiga do que os textos nos quais atualmente a encontramos. Claire Clivaz e Sara Schulthess, ao examinarem a tradição de 1 Coríntios 2,9, chamaram atenção justamente para a possibilidade de que a fórmula possua antecedentes escritos ou orais anteriores a Paulo, enquanto 1 Clemente 34,8 demonstra que esse tipo de linguagem continuou circulando na tradição cristã antiga (CLIVAZ; SCHULTHESS, 2018).

Isso muda um pouco a maneira como devemos olhar para o problema. Se Paulo e Tomé possuem uma formulação tão próxima, não precisamos necessariamente procurar uma linha reta entre os dois. Podemos, evidentemente, imaginar que Tomé tenha recebido a tradição de Paulo ou que alguma comunidade tenha transmitido a fórmula a partir de Paulo. Mas também podemos imaginar algo muito mais simples: Paulo e Tomé receberam uma tradição que já circulava antes deles. A semelhança deixaria, nesse caso, de ser uma evidência de dependência literária direta e passaria a ser uma pequena janela para a história da transmissão dos ditos de Jesus.

É justamente aqui que Q começa a nos interessar. Não porque possamos colocar Q entre Paulo e Tomé como se tivéssemos encontrado o elo perdido, mas porque Q representa, em nossa investigação, uma terceira testemunha de um fenômeno que parece ter sido bastante amplo no cristianismo primitivo: a circulação de tradições de Jesus em forma de ditos, aforismos, parábolas e ensinamentos sapienciais. É necessário lembrar, naturalmente, que Q não é um documento encontrado. Trata-se de uma reconstrução feita sobretudo a partir do material comum a Mateus e Lucas que não parece derivar de Marcos. Ainda assim, a quantidade de correspondências entre o material reconstruído de Q e Tomé é suficientemente expressiva para que o problema não possa ser simplesmente descartado.

Tomemos alguns exemplos. Tomé 54 diz: “Bem-aventurados os pobres, porque vosso é o Reino dos céus”, aproximando-se de Q 6,20. Tomé 69 preserva a tradição dos famintos: “Bem-aventurados os que têm fome, porque o ventre daquele que deseja será saciado”, em paralelo com Q 6,21. Tomé 34 apresenta a imagem do cego guiando outro cego, correspondente a Q 6,39. Tomé 26 conserva a conhecida imagem do cisco e da trave, em paralelo com Q 6,41-42. Tomé 20 apresenta a parábola do grão de mostarda, enquanto Tomé 96 preserva a comparação do fermento, ambas encontrando paralelos no material reconstruído de Q. A ovelha perdida aparece em Tomé 107 e em Q 15,3-7. Poderíamos acrescentar outros exemplos. Não significa que todos esses paralelos tenham necessariamente a mesma história. Significa apenas que Tomé e Q compartilham uma quantidade suficientemente grande de material para tornar plausível a existência de tradições comuns ou, pelo menos, de ambientes tradicionais muito próximos.

Mas aqui aparece uma dificuldade que considero decisiva. Se Tomé tivesse simplesmente utilizado Q, seria necessário explicar por que desmontou de maneira tão sistemática a organização que reconstruímos para essa fonte. Q, tal como aparece na reconstrução tradicional, possui agrupamentos relativamente reconhecíveis; Tomé, ao contrário, apresenta 114 logia dispostos em uma sequência bastante diferente. Poderíamos, evidentemente, imaginar que o redator de Tomé tenha desmontado deliberadamente uma coleção anterior. Mas também é possível que ambos os documentos tenham utilizado tradições que já circulavam de maneira independente. Helmut Koester chegou a considerar a possibilidade de uma relação entre Tomé e uma forma anterior de Q, mas a dificuldade de demonstrar dependência literária direta permanece considerável. O problema, portanto, não é simplesmente descobrir “quem copiou quem”, mas reconstruir, na medida do possível, como essas tradições circularam antes de serem organizadas nos documentos que chegaram até nós.

É nesse ponto que Paulo precisa voltar para o centro da investigação. As cartas paulinas são anteriores à forma final de Tomé e, naturalmente, anteriores aos evangelhos de Mateus e Lucas. As cartas autênticas de Paulo pertencem, em geral, às décadas de 50 e 60 do século I. O Evangelho de Tomé, em sua forma final, costuma ser situado posteriormente, ainda que numerosos pesquisadores reconheçam que parte significativa de seu material possa remontar a tradições bastante antigas. Isso significa que a pergunta “Paulo conheceu Tomé?” precisa ser formulada com alguma cautela. Se estamos falando do texto de Tomé que possuímos hoje, a resposta provavelmente será negativa ou, no mínimo, impossível de demonstrar. Mas se estamos perguntando se Paulo conhecia algumas das tradições posteriormente preservadas em Tomé, a questão muda completamente de natureza.

E aqui encontramos outro elemento particularmente interessante. Em 1 Coríntios 1–4, Paulo enfrenta um grupo da comunidade que parece possuir uma concepção muito peculiar de sabedoria, conhecimento e status espiritual. A ironia paulina chega ao seu ponto máximo quando escreve:

“Já estais saciados! Já vos tornastes ricos! Sem nós, vos tornastes reis! E prouvera que vos tivésseis tornado reis, para que também nós pudéssemos reinar convosco! Pois me parece que Deus nos expôs, a nós, apóstolos, em último lugar, como condenados à morte, porque nos tornamos espetáculo para o mundo, para os anjos e para os homens.” (1Cor 4,8-9).

É difícil não perceber aqui uma tensão entre duas concepções diferentes da condição cristã. Os coríntios parecem imaginar que já alcançaram uma condição de plenitude; Paulo responde ironicamente que eles já estão “saciados”, “ricos” e “reinando”. Quando colocamos esse texto ao lado de Tomé 2, a aproximação se torna curiosa:

“Aquele que busca não pare de buscar até que encontre; e quando encontrar, ficará perturbado; depois maravilhar-se-á e reinará sobre o Todo.”

Não precisamos transformar essa semelhança em identidade teológica. Paulo não é Tomé, e Tomé não é Paulo. Mas encontramos, em ambos, um vocabulário no qual busca, conhecimento, descoberta, sabedoria e reinado aparecem associados. É justamente esse tipo de aproximação que levou Stevan Davies a considerar a possibilidade de que determinados adversários de Paulo em Corinto estivessem operando com tradições de ditos de Jesus semelhantes às que posteriormente encontramos em Tomé, hipótese que foi posteriormente discutida por Stephen Patterson. O interesse dessa proposição não está em afirmar que os coríntios possuíam um “Evangelho de Tomé”, mas em perguntar se determinados ambientes cristãos anteriores à redação dos evangelhos já trabalhavam com coleções de palavras atribuídas a Jesus (DAVIES; PATTERSON).

A hipótese é ainda mais interessante quando observamos 1 Coríntios 2. Paulo fala de uma “sabedoria de Deus, misteriosa e oculta”, destinada àqueles que possuem o Espírito. E então encontramos novamente a fórmula:

“Mas anunciamos uma sabedoria de Deus, misteriosa, escondida, que Deus, antes dos séculos, de antemão destinou para a nossa glória. Nenhum dos príncipes deste mundo a conheceu; pois, se a tivessem conhecido, não teriam crucificado o Senhor da glória. Mas, conforme está escrito: ‘O que os olhos não viram, os ouvidos não ouviram e o coração do homem não percebeu, isso Deus preparou para aqueles que o amam’.” (1Cor 2,7-9).

Tomé 17, novamente, apresenta:

“Dar-vos-ei o que olho não viu, o que ouvido não ouviu, o que a mão não tocou e o que nunca entrou no coração do homem.”

A proximidade é suficientemente grande para justificar a investigação, mas não suficientemente grande para autorizar uma conclusão apressada. Christopher Tuckett examinou justamente essa relação e mostrou como é difícil estabelecer se Paulo, os coríntios ou a tradição preservada por Tomé representam aqui uma cadeia direta de transmissão. O problema aumenta porque a própria fórmula parece ter uma história anterior e porque tradições semelhantes continuam aparecendo em outros textos cristãos antigos (TUCKETT, 2003).

A meu ver, este é um daqueles casos em que a história da tradição é mais produtiva do que a simples história das fontes. Se dissermos que Tomé depende de Paulo, precisaremos demonstrar essa dependência. Se dissermos que Paulo depende de Tomé, teremos um problema cronológico ainda maior. Mas se admitirmos que ambos podem ter recebido uma tradição anterior, o problema passa a se encaixar em um cenário histórico muito mais plausível. As primeiras comunidades cristãs não precisavam possuir os evangelhos que conhecemos para conhecer palavras de Jesus. Os ditos podiam circular oralmente, em pequenas coleções, em instruções catequéticas, em tradições comunitárias e, eventualmente, em registros escritos que não chegaram até nós.

Isso nos leva novamente a Q. Talvez a maior utilidade de Q para nossa investigação não esteja em imaginá-lo como um livro intermediário entre Paulo e Tomé. Essa seria uma afirmação muito mais forte do que a documentação permite. O interesse de Q está em mostrar que o cristianismo primitivo conheceu uma circulação de tradições de Jesus que não dependia necessariamente de uma narrativa contínua sobre sua vida, paixão e ressurreição. Q, na reconstrução tradicional, é predominantemente uma coleção de ditos, ensinamentos e parábolas. Tomé é também, em grande medida, uma coleção de ditos. Paulo, embora escreva cartas e não um evangelho de palavras de Jesus, demonstra conhecer tradições atribuídas ao próprio Jesus e as utiliza em determinadas situações concretas de suas comunidades.

Nesse sentido, talvez estejamos diante de algo mais antigo do que qualquer um desses documentos. Não necessariamente de um “Evangelho de Ditos” único, perfeitamente organizado e utilizado por todos, mas de um repertório tradicional de palavras de Jesus, transmitido em diferentes comunidades e posteriormente reorganizado segundo necessidades teológicas e literárias distintas. É possível que algumas dessas tradições tenham chegado a Paulo; outras, à tradição que reconstruímos como Q; outras, ainda, ao material utilizado pelo redator de Tomé. É também possível que alguns desses conjuntos tenham se influenciado mutuamente. O que não podemos fazer, a meu ver, é transformar imediatamente qualquer paralelo em dependência.

O próprio Tomé recomenda cautela. Andrea Annese chamou atenção para o caráter estratificado do evangelho e para a dificuldade de tratar seus 114 logia como se fossem provenientes de uma única fonte ou de uma única etapa histórica. Algumas tradições podem ser bastante antigas; outras podem representar desenvolvimentos posteriores; algumas podem possuir paralelos nos evangelhos sinópticos; outras não. Por isso, perguntar simplesmente se “Tomé depende de Paulo” é uma pergunta excessivamente grosseira para um documento tão complexo. A pergunta mais interessante seria outra: quais tradições preservadas em Tomé podem ter circulado antes de sua redação e podem encontrar correspondentes em Paulo, Q ou outras tradições cristãs primitivas?

Essa mudança de pergunta é importante porque nos permite olhar para os paralelos de maneira diferente. Tomé 17 e 1 Coríntios 2,9 não precisam representar dois textos que se copiaram. Podem representar duas testemunhas de uma tradição anterior. Tomé 2 e 1 Coríntios 4,8 não precisam revelar uma dependência literária direta. Podem revelar a existência de um vocabulário sapiencial que circulava em determinados ambientes cristãos. Da mesma maneira, os numerosos paralelos entre Tomé e Q não obrigam a escolher imediatamente entre “Tomé copiou Q” e “Q copiou Tomé”. Pode haver uma tradição anterior, transmitida em diferentes comunidades, que posteriormente foi organizada de maneiras distintas.

Não devemos, contudo, exagerar essa hipótese. Não temos condições de reconstruir uma coleção perdida de ditos e chamá-la de “proto-Tomé”, “proto-Q” ou qualquer outro nome que transforme uma hipótese em documento. O máximo que podemos fazer é observar os paralelos, estabelecer sua qualidade, avaliar sua distribuição e perguntar se determinadas tradições parecem possuir uma história anterior às formas literárias que conhecemos. O rigor, nesse caso, não está em oferecer uma resposta definitiva, mas em saber exatamente até onde a documentação nos permite caminhar.

É justamente por isso que considero mais interessante perguntar se Paulo, Q e Tomé preservam diferentes trajetórias de uma tradição de Jesus do que tentar estabelecer uma linha sucessória entre os três. Não seria:

Paulo → Q → Tomé.

Nem:

Tomé → Paulo.

Seria algo mais próximo de:

tradições de Jesus → diferentes trajetórias de transmissão → Paulo / Q / Tomé.


Essa reconstrução, evidentemente, continua sendo uma hipótese. Mas ela parece historicamente mais adequada ao tipo de documentação que possuímos. Paulo escreve antes de nossos evangelhos; Q é uma reconstrução e não um manuscrito preservado; Tomé, em sua forma final, é posterior, mas reúne materiais cuja antiguidade pode ser bastante desigual. Em lugar de imaginar uma sucessão linear entre documentos, talvez devamos imaginar uma circulação muito mais irregular de tradições, na qual palavras atribuídas a Jesus foram sendo transmitidas, adaptadas, agrupadas e reinterpretadas conforme atravessavam comunidades diferentes.

A questão ganha ainda maior interesse quando lembramos que Paulo nem sempre está interessado em transmitir os ensinamentos de Jesus. Sua preocupação principal é outra: resolver problemas concretos das comunidades que fundou ou às quais escreve. Mesmo assim, em alguns momentos ele recorre explicitamente a uma tradição atribuída ao Senhor. Em 1 Coríntios 7,10, por exemplo, escreve: “Aos casados ordeno, não eu, mas o Senhor...”. Em 1 Coríntios 9,14 afirma: “Assim também ordenou o Senhor aos que anunciam o Evangelho que vivam do Evangelho”. E em 1 Coríntios 11,23 declara: “Com efeito, eu mesmo recebi do Senhor o que vos transmiti”. Paulo, portanto, não desconhece uma tradição de palavras e ações atribuídas a Jesus. A pergunta histórica não é se essa tradição existia. Ela claramente existia. A questão é qual era sua extensão, como circulava e quanto dela sobreviveu nos documentos que possuímos.

É possível, então, que a importância de Tomé esteja justamente em nos permitir enxergar uma parte desse universo tradicional que os evangelhos canônicos não preservaram da mesma maneira. Isso não transforma Tomé em um “quinto evangelho” automaticamente tão antigo quanto Paulo, nem permite atribuir ao seu conjunto inteiro a mesma antiguidade. Mas impede que o tratemos simplesmente como uma elaboração tardia e isolada. A existência de numerosos paralelos com Q e de alguns paralelos particularmente interessantes com Paulo sugere que pelo menos parte de seu material deve ser estudada dentro da história mais ampla da transmissão dos ditos de Jesus.

Ao final, portanto, eu seria bastante cauteloso em afirmar que Paulo conheceu Tomé ou que Tomé dependeu das cartas paulinas. Não temos evidência suficiente para nenhuma dessas duas conclusões. O que temos é algo menos espetacular, mas talvez historicamente mais importante: Paulo, Q e Tomé parecem participar, em diferentes graus e por diferentes caminhos, de um mundo no qual tradições de Jesus circulavam independentemente das formas finais dos evangelhos. Algumas dessas tradições foram incorporadas às narrativas de Mateus e Lucas; outras sobreviveram em Tomé; algumas chegaram às cartas paulinas; outras provavelmente desapareceram.

É possível, portanto, que a verdadeira questão não seja descobrir qual documento veio primeiro, mas perceber que todos eles são apenas testemunhos tardios de uma circulação tradicional muito mais antiga. Nesse sentido, Q não precisa ser o elo perdido entre Paulo e Tomé. Ele pode ser simplesmente mais uma testemunha — ainda que hipotética — de um fenômeno que os três documentos, cada um à sua maneira, deixam entrever: antes que os evangelhos se cristalizassem nas formas que conhecemos, palavras atribuídas a Jesus já circulavam, eram agrupadas, reinterpretadas e utilizadas por diferentes comunidades cristãs.

E talvez seja justamente aí que o pequeno paralelo entre 1 Coríntios 2,9 e Tomé 17 se torne historicamente interessante. Não porque ele prove que Paulo conheceu Tomé, nem porque Tomé seja um desenvolvimento da teologia paulina, mas porque duas tradições tão diferentes preservaram uma formulação suficientemente próxima para nos lembrar de uma coisa muito simples: o cristianismo do século I era maior do que os documentos que sobreviveram. O que hoje chamamos de Paulo, Q, Mateus, Lucas e Tomé são apenas algumas das formas pelas quais uma tradição muito mais ampla chegou até nós. E é precisamente nas pequenas coincidências entre esses documentos que, às vezes, conseguimos perceber alguma coisa da história perdida que existia antes deles.


Referências bibliográficas

ANNESE, Andrea. The Sources of the Gospel of Thomas: Methodological Issues and the Case of the Pauline Epistles (With a Focus on Th 17 // 1 Cor 2:9). Annali di Storia dell'Esegesi, v. 35, n. 2, p. 323-350, 2018.

ANNESE, Andrea. The Gospel of Thomas and Paul: Status Quaestionis, Historical Trajectories, Methodological Notes. In: DESTRO, Adriana; PESCE, Mauro; BERNO, Francesco (org.). From Jesus to Christian Origins: Second Annual Meeting of Bertinoro (1-4 October, 2015). Turnhout: Brepols, 2019. p. 405-427.

ARNAL, William E. The Rhetoric of Marginality: Apocalypticism, Gnosticism, and Sayings Gospels. Harvard Theological Review, v. 88, n. 4, p. 471-494, 1995. DOI: 10.1017/S0017816000031722.

BÍBLIA. Bíblia de Jerusalém. São Paulo: Paulus, 2002.

DAVIES, Stevan L. The Gospel of Thomas and Christian Wisdom. New York: Seabury Press, 1983. A obra é particularmente pertinente porque possui inclusive um capítulo específico sobre Thomas and First Corinthians, além de discutir a estrutura e a tradição sapiencial de Tomé.

KLOPPENBORG, John S. Excavating Q: The History and Setting of the Sayings Gospel. Minneapolis: Fortress Press, 2000.

KOESTER, Helmut. Ancient Christian Gospels: Their History and Development. London; Philadelphia: SCM Press; Trinity Press International, 1990.

PATTERSON, Stephen J. The Gospel of Thomas and Jesus. Sonoma: Polebridge Press, 1993.

PATTERSON, Stephen J. Twice More—Thomas and the Synoptics: A Reply to Simon Gathercole, The Composition of the Gospel of Thomas, and Mark Goodacre, Thomas and the Gospels. Journal for the Study of the New Testament, v. 36, n. 3, p. 251-261, 2014. DOI: 10.1177/0142064X14521947.

TUCKETT, Christopher M. Paul and the Jesus Tradition: The Evidence of 1 Corinthians 2:9 and Gospel of Thomas 17. In: BURKE, Trevor J.; ELLIOTT, J. Keith (ed.). Paul and the Corinthians: Studies on a Community in Conflict: Essays in Honour of Margaret Thrall. Leiden: Brill, 2003. p. 55-73. 



Paulo, Q, Mateus-Lucas e Tomé: correspondências de tradições de Jesus

Tema / tradiçãoPauloQ reconstruídoMateus e LucasToméRelação principal
Olhos não viram, ouvidos não ouviram1Cor 2,9Q 10,23-24Mt 13,16-17; Lc 10,23-24Tomé 17Possível tradição anterior comum
Busca, descoberta e reinado1Cor 1–4; 4,8——Tomé 2Afinidade sapiencial
Pobres—Q 6,20Mt 5,3; Lc 6,20Tomé 54Paralelo tradicional
Famintos—Q 6,21Mt 5,6; Lc 6,21Tomé 69Paralelo tradicional
Perseguição1Cor 4,9-13Q 6,22-23Mt 5,11-12; Lc 6,22-23Tomé 68Tradição compartilhada
Regra de reciprocidadeCf. Rm 12,17; 13,8-10Q 6,31Mt 7,12; Lc 6,31Tomé 6Paralelo sapiencial
Cego guiando cego—Q 6,39Mt 15,14; Lc 6,39Tomé 34Paralelo muito próximo
Cisco e trave—Q 6,41-42Mt 7,3-5; Lc 6,41-42Tomé 26Paralelo muito próximo
Amar os inimigosRm 12,14.20Q 6,27-28.32-35Mt 5,44-48; Lc 6,27-36Tomé 25Forte afinidade ética
Casa sobre a rocha—Q 6,47-49Mt 7,24-27; Lc 6,47-49—Tradição de ensinamento
Grão de mostarda—Q 13,18-19Mt 13,31-32; Lc 13,18-19Tomé 20Parábola compartilhada
Fermento—Q 13,20-21Mt 13,33; Lc 13,20-21Tomé 96Parábola compartilhada
Grande banquete—Q 14,16-24Mt 22,1-14; Lc 14,16-24Tomé 64Tradição compartilhada com reelaborações
Ovelha perdida—Q 15,3-7Mt 18,12-14; Lc 15,3-7Tomé 107Parábola compartilhada
Sinal de Jonas—Q 11,29-32Mt 12,38-42; Lc 11,29-32—Tradição escatológica
Lâmpada—Q 11,33Mt 5,15; Lc 11,33Tomé 33Dito compartilhado
Árvore e seus frutos—Q 6,43-45Mt 7,16-20; 12,33-35; Lc 6,43-45Tomé 45Sabedoria proverbial
Mestre e discípulo—Q 6,40Mt 10,24-25; Lc 6,40Tomé 13Dito sapiencial
Sustento dos pregadores1Cor 9,14Possível tradição de JesusMt 10,10; Lc 10,7—Paulo atribui o ensinamento ao “Senhor”
Divórcio1Cor 7,10-11Possível tradição de JesusMt 5,32; 19,3-9; Lc 16,18—Importante testemunho paulino de tradição de Jesus
Última Ceia1Cor 11,23-26—Mt 26,26-29; Lc 22,14-20—Tradição de Jesus preservada por Paulo





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