Estudos sobre Religião - Biblioblog

quarta-feira, 4 de novembro de 2026

(Observação: aqui será postada a primeira parte do ensaio até o fim da sessão 4. Em breve será postada a continuação, da sessão 4 ao final da sessão 7; depois, da sessão 8 ao final da sessão 9; por fim, da sessão 10 ao desfecho, com as referências).


Introdução: por que o sepultamento é um segundo caso de teste

O sepultamento de Jesus por José de Arimateia põe o método integrado à prova em condições quase inversas às da purificação do Templo. Naquele caso, havia uma ação pública de Jesus descrita por quatro evangelhos; aqui o agente central está morto, o evento não teve como espectadores os discípulos, que segundo Mc 14:50 haviam fugido. E a figura-chave só aparece na tradição evangélica, jamais nomeada por Paulo. O caso obriga, por isso, a mostrar o que o método consegue fazer quando Jesus deixa de ser sujeito da ação e passa a objeto de ações alheias, e obriga também a perguntar por quem carregou essa tradição até Marcos, pergunta que a hipótese de Bauckham (2006) tornou central ao notar que José é um dos poucos nomes que Mateus e Lucas conservam de Marcos. Há ainda uma razão de contexto: como lembra Meier (1998), a fórmula pré-paulina de 1Cor 15:3–5 já faz do sepultamento a confirmação da realidade da morte, de modo que o episódio se situa no ponto em que a tradição mais antiga e a narrativa da Paixão se tocam.

Três razões fazem do episódio um bom segundo caso. A primeira é que ele reúne três estruturas que o realismo crítico trata como mecanismos de efeito condicional, e não como leis: o poder discricionário do prefeito romano, a norma judaica de sepultar o executado antes do anoitecer (Dt 21:22–23) e a economia de honra e vergonha que distingue sepulturas honrosas de desonrosas. A segunda é que as fontes variam de modo sistemático, variação que a Análise Crítica do Discurso (ACD) pode explorar, porque José passa de "membro respeitado do conselho" em Marcos a "discípulo" em Mateus e João e a "amigo de Pilatos e do Senhor" no Evangelho de Pedro, ao passo que o nome de José, retido por Mateus e Lucas, permanece como um dos raros fios de continuidade com que Bauckham sustenta a presença de testemunhas na tradição. A terceira é que o debate historiográfico é intensamente polarizado, o que torna indispensável a metacrítica simétrica proposta no ensaio anterior.

Nosso ensaio não trata do túmulo vazio nem da ressurreição. Trata de quatro perguntas que a literatura costuma misturar: se Jesus foi sepultado, quem o fez, em que tipo de sepultura (honrosa ou desonrosa) e qual a historicidade e a função da figura de José. A separação é defensável porque o túmulo vazio pressupõe o sepultamento e não o inverso, embora nunca seja perfeita na prática, já que cada campo do debate tem razões para pesar o sepultamento em função do desfecho que deseja sustentar; esse condicionamento é tratado como dado metacrítico na seção 10.

Em continuidade com o ensaio anterior, a pergunta não é se o relato é "autêntico", e sim que combinação de acontecimentos, estruturas, mecanismos de memória e práticas discursivas explica melhor a presença, em todos os evangelhos, de um sepultamento mediado por José, as diferenças entre as versões, a convergência mínima com a fórmula pré-paulina "foi sepultado" (1Cor 15:4) e a conservação do nome de José quando outros nomes da cena da Paixão se perdem.

O Plano do estudo - A seção 2 retoma o arcabouço, corrige pontos que o primeiro ensaio deixou imprecisos e situa a hipótese testemunhal de Bauckham entre os mecanismos de transmissão. A seção 3 mapeia o debate e as seções 4 a 6 distribuem o caso pelos domínios empírico, efetivo e real. A seção 7 aplica as escalas de Sawyer articuladas ao ciclo de Archer, a seção 8 faz a análise discursiva das fontes e a seção 9 compara as hipóteses pelo Argumento para a Melhor Explicação (ABE), com a proveniência da tradição em 9.7. A seção 10 desenvolve a metacrítica, a seção 11 sintetiza e a seção 12 reúne as referências, com notas de conferência.

 

 
2. Retomada do arcabouço e ajustes necessários

O caso herda o arcabouço da série de ensaios ensaio anterior (contextualismo linguístico, Nova Biografia Histórica, memória social, Realismo Crítico e ACD), mas seis ajustes são necessários antes de aplicá-lo.

2.1. Duas tradições de "realismo crítico". O realismo crítico dos estudos do Novo Testamento vem de Lonergan e Meyer, passa por Wright e chega a Bernier, que trabalha explicitamente com o realismo crítico de Lonergan (BERNIER, 2016). O realismo crítico usado aqui vem de Bhaskar, Archer e Fairclough. São projetos diferentes: o primeiro é uma teoria cognitiva do ato de conhecer (experiência, compreensão, julgamento); o segundo é uma ontologia estratificada de estruturas e mecanismos.

Nosso método adota a segunda e reconhece que a recepção crítica do campo se concentrou na primeira, acusada de pressupor uma epistemologia internalista datada (PORTER; PITTS, 2015) e de carregar pressupostos teológicos implícitos. A escolha por Bhaskar demonstra, não apenas declara, que a ontologia estratificada não depende desses pressupostos.

2.2. Domínios e escalas. Empírico, efetivo e real são domínios da realidade (o real inclui os demais). Os níveis A–E de Sawyer são escalas de organização social. No texto evitamos falar em "eventos possíveis" no domínio efetivo: o que pertence a ele ocorreu; o que é possível pertence às hipóteses.

2.3. Archer e Sawyer. Archer fornece o condicionamento estrutural prévio à interação (ciclo morfogenético). Sawyer fornece a explicação da emergência de propriedades coletivas a partir das interações. No caso do sepultamento, a distinção é decisiva, porque as estruturas relevantes (poder romano, norma de sepultamento, honra e vergonha) preexistem à cena e condicionam o que Pilatos e José podiam fazer. Sawyer explica o que emerge da cena; Archer explica o que a cena encontra.

2.3.1. Jesus como paciente, não como agente. No caso do Templo, o nível A era ocupado por Jesus. Aqui o corpo de Jesus é objeto de ações de terceiros (Pilatos, José, as mulheres, as autoridades). O arcabouço continua aplicável, mas as intenções reconstruídas são as de Pilatos e de José, não as de Jesus.

2.4. ABE com rivais explícitos. Os cinco critérios (escopo explicativo, poder explicativo, plausibilidade, menor número de hipóteses ad hoc, iluminação) são os de McCullagh, na formulação de Licona (2010), e são citados como tal. O ABE só identifica a melhor explicação entre as consideradas (van Fraassen), de modo que cada hipótese é formulada como seus defensores a formulariam. Incorpora-se uma disciplina bayesiana qualitativa (separar o que pertence ao conhecimento de fundo do que pertence à verossimilhança de cada dado sob cada hipótese), sem atribuir probabilidades numéricas, e utiliza-se o critério de plausibilidade histórica de Theissen e Merz, com suas duas faces (plausibilidade contextual e plausibilidade de efeitos), como refinamento do critério de plausibilidade. Os critérios de autenticidade de Meier (vol. 1) permanecem como contraponto e heurística, e não como filtro. Os graus empregados ao longo do ensaio (alto, moderado, fraco; confiável, pouco confiável) não qualificam o grau de realidade do que ocorreu, e sim o grau de atestabilidade que o domínio empírico oferece a cada afirmação: o quanto as evidências disponíveis podem ser confrontadas com as previsões de cada hipótese e submetidas a controle. Essa distinção tem consequência direta. O realismo crítico contesta a falácia epistemológica, isto é, a redução do que existe ao que podemos saber a respeito. Por isso, dizer que o sepultamento ocorreu é uma afirmação sobre o domínio efetivo, e dizer que essa afirmação tem confiança moderada é uma afirmação sobre o domínio empírico.

2.5. ACD. A ACD de Fairclough é construída sobre o realismo crítico, o que sustenta sua articulação aqui. Para a análise das fontes usam-se as categorias da abordagem histórico-discursiva (WODAK; REISIGL, 2001): nomeação, predicação, argumentação, perspectivização, intensificação e mitigação.

2.6. Metacrítica simétrica. A suspeita se aplica igualmente às leituras apologéticas, às céticas e às que invocam o "contexto judaico" como estrutura da qual se deduz a ação. A genealogia ideológica do "Jesus judeu", desenvolvida no ensaio anterior, é retomada na seção 10 em sua versão para este caso.

2.7. Testemunho ocular e memória. A hipótese de Bauckham (2006) entra no arcabouço como uma segunda família de mecanismos de transmissão, distinta da memória social de Keith e Le Donne: enquanto esta enfatiza a refração comunitária, aquela enfatiza a presença contínua de testemunhas nomeadas nos círculos em que a tradição circulou, ideia que a resenha de Parks-Ricker apresenta como a "melhor prática" historiográfica de Byrskog transposta para os evangelhos. Em termos de realismo crítico, trata-se de hipóteses sobre o mecanismo na escala D (quem portava a tradição e com que controle), e não sobre o evento em B, e elas só funcionam como evidência quando especificam previsões. Por isso Bauckham reaparece ao longo do ensaio, nos dados sobre nomes (4.3), nos mecanismos de memória (6), na leitura discursiva das caracterizações de José (8) e na avaliação da proveniência (9.7), em vez de ocupar uma seção isolada.

3. O debate: um mapa por dimensões

A literatura costuma apresentar o problema como uma disputa única ("Jesus foi sepultado por José?"), embora misture quatro perguntas cujas posições só se tornam comparáveis quando separadas por dimensão: existência do sepultamento, identidade do agente, tipo de sepultura e historicidade de José. O quadro abaixo resume as posições dos autores discutidos; as células refletem o que foi possível verificar, e o que não foi confirmado vem marcado. Duas leituras gerais atravessam o quadro sem constar dele como linhas próprias. A primeira é a de Meier (1998), que lê o "foi sepultado" de 1Cor 15:3–5 como parte de uma fórmula pré-paulina em que o sepultamento confirma a realidade da morte e que descreve Marcos, com Kähler, como uma narrativa da Paixão com longa introdução, o que desloca o peso do debate para a pré-história dessa narrativa. A segunda é a de Bauckham (2006), para quem os nomes conservados nos evangelhos, entre eles o de José, indicam pessoas que permaneceram como testemunhas nos círculos de transmissão, tese que a seção 3.1 examina.

Autor (obra)  

Existência e agente  

Tipo de sepultura  

Veículo e posição  

Brown (CBQ 1988; The Death of the Messiah, 1994)  

Aceita o núcleo do relato de Marcos; José é membro (provável) do conselho, piedoso, não necessariamente discípulo; a leitura de José como discípulo é desenvolvimento posterior  

Discute com detalhe a distinção entre sepultura honrosa e desonrosa (DM, pp. 1209–10); em 1988, segundo a resenha de Shea, sustentou sepultura ignominiosa; posição final em DM a conferir  

Católico; exegese histórico-crítica  

Theissen e Merz (O Jesus histórico, ed. bras. 2002)  

Advogam a intervenção de José de Arimateia  

Corpo recolhido e depositado de maneira rápida e digna em um túmulo rochoso  

Manual de síntese; propõem o critério de plausibilidade histórica (contexto e efeitos)  

Meier (A Marginal Jew)  

Defende o papel ativo de José de Arimateia  

Sepultamento formal  

Católico; critérios de autenticidade (vol. 1)  

Allison (Resurrecting Jesus, 2005)  

Trata a historicidade do sepultamento por José em excurso   

Honroso  

Declara posição não apologética nem polêmica (2021)  

McCane (2000; 2003)  

Sepultamento conforme costumes de sepultura desonrosa para condenados  

Não em túmulo familiar; sem luto público; "onde ninguém fora posto" lido como índice de vergonha  

Arqueólogo e historiador de ritos funerários  

Cook (NTS 2011)  

Textos greco-romanos mostram que alguns crucificados eram deixados a decompor-se e outros eram sepultados; o relato de José seria compreensível a um leitor greco-romano  

Sepultamento digno, não formal  

Periódico revisado; circunspecto  

Evans (JSHJ 2005; 2014)  

Sepultamento quase certo; núcleo do relato de José plausível; José pode ter se voluntariado ou sido designado  

Túmulo conhecido, em conformidade com costumes judaicos  

Estudioso evangélico; 2014 é resposta a Ehrman  

Bird (2014; Substack 2024)  

Seis razões: 1Cor 15:4, relato primitivo, Dt 21 e fontes, remoções a pedido, arqueologia, improbabilidade de ficção sobre sanedrita generoso  

Honroso, em túmulo  

Estudioso evangélico; texto de blog  

Crossan (Jesus: A Revolutionary Biography, 1994)  

Segundo Cook, supõe que a comunidade inventou José, sem argumentação específica; enfatiza a prática de deixar corpos sem sepultura  

Vala comum ou sem sepultura  

Jesus Seminar  

Ehrman (How Jesus Became God, 2014)  

Diz não sabermos o destino do corpo; duvida de sepultura decente e de José especificamente  

Sem sepultura ou vala comum  

Cético público; alvo da resposta de Evans e Bird  

Kirby (2001; 2005)  

Pilatos deveria ter ordenado sepultura desonrosa; José tem traços de deus ex machina; em 2005 argumenta que o relato do túmulo vazio é invenção de Marcos  

Cova de criminosos ou fossa  

Autor independente; Secular Web e coletânea organizada por céticos  

Três constatações estruturais.

  1. A questão é multidimensional. A tese de que Jesus foi sepultado é independente da tese de que o foi por José e da tese de que o foi honrosamente. Muitos argumentos (Evans, Bird) sustentam diretamente a primeira e apenas indiretamente as outras duas; muitos contra-argumentos (Kirby, Ehrman) atacam a terceira para derrubar as duas primeiras.

  1. Quase todos concordam que a prática romana era variável. Cook sintetiza a evidência assim, e mesmo Kirby e Ehrman admitem exceções. A divergência é de ponderação: se o caso de Jesus (condenado por pretensa realeza, em Páscoa, em Jerusalém) se aproxima das exceções ou da regra.

  1. Ambos os campos usam argumentos funcionais simétricos.  Defensores argumentam pela improbabilidade de uma ficção cristã com um sanedrita generoso; céticos argumentam pela necessidade narrativa de uma figura que ligue a cruz ao túmulo. As duas operações são legítimas como hipóteses, mas nenhuma decide por si, como mostra a seção 9.

3.1. Nomes, testemunhas e a tradição de José

Bauckham defende no cap. 3, "Names in the Gospel Traditions", que muitas das pessoas nomeadas nos evangelhos, excluídos os Doze e as figuras públicas, foram testemunhas oculares que originaram as tradições a que seus nomes se ligam e que permaneceram vivas nos círculos em que essas tradições circularam. A explicação geral do capítulo é que, salvo o pai de Jesus e os nomes da narrativa lucana da infância, tais pessoas ingressaram no movimento cristão e eram conhecidas de quem transmitia a tradição (p. 45, segundo a resenha de Godfrey). A tese se apoia, no cap. 4, em um levantamento dos nomes palestinos que a resenha de Parks-Ricker destaca como coleta sistemática de dados, e se completa, no cap. 8, com a hipótese de que Marcos omitiu por prudência os nomes de pessoas ainda expostas às autoridades, que João, escrevendo depois, pôde nomear (Pilatos podia ser nomeado porque a diplomacia não o protegia, p. 187).

José de Arimateia entra nesse quadro em dois pontos. Na Tabela 5 (pp. 65–66), que lista os nomes dos quatro evangelhos e mostra uma tendência a eliminar nomes de Marcos, Mateus e Lucas retêm quatro deles, todos da cena da cruz e do túmulo: Simão de Cirene, José de Arimateia, Maria Madalena e Maria, mãe de Tiago e José. Bauckham observa ainda que Nicodemos, José, Simão de Cirene e seus filhos e outros se associam a Jerusalém e seriam facilmente conhecidos da igreja ali. No cap. 4, "José de Arimateia" figura, com Maria Madalena, Simão de Cirene e Natanael de Caná, entre os exemplos de qualificador de lugar de origem, uma das onze formas de distinguir homônimos, e a conclusão do capítulo é que a correspondência entre os nomes dos evangelhos e o repertório palestino atesta a autenticidade geral dos nomes (p. 84). Num nome tão comum, em que Simão e José somados correspondiam a 15,6% dos homens (pp. 71–72), o epíteto faz o trabalho de desambiguação que Bauckham valoriza como indício de uso real, ainda que epítetos análogos se encontrem também em personagens lendárias.

 O próprio Bauckham, porém, dá a José uma classificação mais cautelosa do que a de quem "ingressou no movimento": no grupo de residentes de Jerusalém e arredores que "apoiavam ou simpatizavam" com o movimento de Jesus (Nicodemos, José de Arimateia, Simão o leproso, Lázaro, Marta e Maria), José figura entre simpatizantes, e não entre discípulos. A observação converge com a leitura intermediária de H1a, a de um conselheiro de expectativas escatológicas próprias, favorável ao Reino que Jesus anunciava, e deixa em aberto o momento em que a simpatia se converteu em pertença. Há, contudo, uma tensão interna na fonte, que fala ao mesmo tempo de simpatia e de ingresso no movimento, sem dizer quando esse ingresso ocorreu; e é precisamente essa tensão que a hipótese intermediária explorada na seção 9.3 procura resolver.

Sobre o próprio sepultamento Bauckham discute sobretudo as mulheres, que lê como testemunhas nomeadas pela repetição de verbos de ver (cap. 3, pp. 49–51); o que se segue é, portanto, aplicação da hipótese ao caso de José, e não texto de Bauckham. Como José consta da Tabela 5, que exclui as figuras públicas, ele não é tratado como tal, e a regra geral da p. 45 implica que ele ingressou no movimento sem dizer quando, o que é compatível tanto com H1b, em que já seria discípulo, quanto com H1a seguida de adesão posterior, de modo que a tensão aparente com o silêncio de Marcos e com a leitura de Brown (1988) se dissolve. A cadeia de testemunho do sepultamento caberia às mulheres, que "observavam" (15:40) e "viram onde foi posto" (15:47), pelo que elas, e não José, seriam a fonte provável da localização, e José o agente que elas viram. O anonimato protetor, por fim, não discrimina: aplicado a um José discípulo oculto "por medo dos judeus" (Jo 19:38), preveria seu anonimato em Marcos, que no entanto o nomeia, o que favorece H1a ou a leitura de José como pessoa pública, embora uma elaboração tardia (H6) também preveja a sequência em que Marcos nomeia o agente e João revela o discipulado.

Objeções. Redman (2010) argumenta, a partir da psicologia da memória, que testemunhas confiáveis ainda reproduzem erros, que a memória de grupo incorpora cedo os erros individuais e que a presença de testemunhas não garante a exatidão do conteúdo, e McIver (2012) respondeu apontando aspectos da pesquisa psicológica que sustentam uma visão mais positiva. Godfrey, em resenha de blog sem revisão por pares, sustenta que a adesão das pessoas nomeadas ao movimento é afirmada sem evidência e que explicações literário-teológicas dos nomes seriam mais econômicas, o que identifica o ponto vulnerável da premissa da p. 45. Parks-Ricker, por sua vez, observa que Bauckham não considera a possibilidade de que os próprios autores tenham fabricado a "melhor prática". A independência de João, enfim, acaba por ser pressuposta e não demonstrada: James Tabor lê a coincidência dos nomes (José e as duas Marias) entre Marcos e João como indício de tradições independentes, apoiando-se nos dados de Bauckham, mas o argumento é de Tabor e pressupõe o que se quer demonstrar.

Dois fatores de confusão (aplicação nossa). Em primeiro lugar, as quatro retenções comuns a Mateus e Lucas pertencem todas à cena da cruz e do túmulo, de modo que a retenção pode refletir a centralidade da cena e não a continuidade de testemunhas. Em segundo, o diálogo com Pilatos (Mc 15:43–45) não teve testemunha entre os discípulos, que haviam fugido; a hipótese testemunhal o atribuiria a José ou ao seu círculo, e uma composição literária o produziria igualmente bem. A hipótese testemunhal é, em suma, uma hipótese sobre a proveniência da tradição e não infere sobre o tipo de sepultura, e as seções 4.3, 6, 8 e 9.7 a retomarão nos pontos em que ela rende previsões.


(Continua...)

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