Estudos sobre Religião - Biblioblog

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

Mateus 26,30 — “Depois de terem cantado o hino, saíram para o monte das Oliveiras.”

Encontramos nos Atos de João uma referência particularmente significativa àquilo que pode ser colocado em paralelo com o breve episódio mencionado por Mateus: o hino cantado por Jesus e seus discípulos antes de sua prisão. É importante, desde logo, estabelecer uma distinção. Não podemos afirmar que o texto dos Atos de João preserve historicamente aquilo que aconteceu na última noite de Jesus, tampouco que seu autor esteja simplesmente reproduzindo uma tradição perdida dos evangelhos. Os Atos de João constituem uma obra cuja composição, transmissão e diferentes camadas textuais permanecem objeto de discussão, e a passagem conhecida como “Hino de Jesus”, sobretudo nos capítulos 94–96, apresenta uma elaboração teológica própria. A edição crítica de Éric Junod e Jean-Daniel Kaestli, Acta Iohannis, permanece fundamental para a análise da composição, da transmissão e da estrutura textual da obra, especialmente porque a relação entre os capítulos 94–96 e a revelação da paixão que prossegue até o capítulo 102 impede que o hino seja tratado simplesmente como uma peça isolada. O interesse histórico da passagem encontra-se, portanto, em outro lugar: ela permite observar como determinada tradição cristã antiga imaginou, ritualizou e incorporou corporalmente a paixão de Cristo. A NASSCAL, em sua e-Clavis Christian Apocrypha dedicada aos Atos de João, reúne bibliografia especializada e informações sobre a tradição textual da obra.



O que Mateus registra de maneira extremamente econômica como um canto transforma-se, nessa tradição, em uma experiência comunitária que reúne voz, corpo, movimento, repetição, resposta litúrgica e revelação. Jesus reúne os discípulos, coloca-se no centro de um círculo, ordena-lhes que deem as mãos e inicia um canto ao qual os demais respondem repetidamente “Amém”. Nos Atos de João 94, a cena é apresentada assim:

“Antes que fosse entregue aos ímpios, que receberam sua lei de uma serpente ímpia, reuniu-nos todos e disse: ‘Antes que eu seja entregue a eles, cantemos um hino ao Pai e saiamos para aquilo que está diante de nós’. Então ordenou que fizéssemos como que um círculo, segurando uns nas mãos dos outros, enquanto ele próprio permanecia no meio. E disse: ‘Respondei-me: Amém’. Começou então a cantar um hino, dizendo:

‘Glória a ti, Pai!’

E nós, dando voltas em círculo, respondemos: ‘Amém’.

‘Glória a ti, Palavra! Glória a ti, Graça!’ ‘Amém’.

‘Glória a ti, Espírito! Glória a ti, Santo! Glória à tua glória!’ ‘Amém’.

‘Nós te louvamos, ó Pai. Nós te damos graças, ó Luz, na qual não habita a escuridão.’ ‘Amém’.”

A tradução acima é nossa, realizada a partir da tradução inglesa de M. R. James, disponível integralmente na edição digital de The Acts of John. O texto de James identifica o episódio como Acts of John 94 e registra tanto a formação do círculo quanto a posição de Jesus “in the middle”. A cena é extraordinária porque transforma aquilo que no Evangelho de Mateus é uma informação extremamente econômica — “depois de terem cantado o hino” — em uma experiência comunitária que reúne voz, corpo, movimento, repetição, resposta litúrgica e revelação. Não estamos diante de uma simples ilustração narrativa da paixão. O círculo formado pelos discípulos, o movimento em torno de Jesus e a estrutura responsorial do canto fazem da passagem uma ação ritualizada.

É precisamente por isso que a bibliografia especializada passou a estudar o episódio não apenas como literatura apócrifa ou como curiosidade da chamada literatura gnóstica, mas também como possível testemunho de formas de prática religiosa existentes em determinados ambientes cristãos antigos. Barbara E. Bowe, Arthur J. Dewey e Karin Schlapbach estão entre os estudiosos que trataram diretamente da dança nos Atos de João, discutindo sua função como prática corporal, experiência religiosa e forma de interpretação. A própria tradição crítica reunida por Junod e Kaestli chama atenção para a relação entre o material do hino, a revelação da paixão e os capítulos subsequentes, enquanto estudos posteriores observam que o círculo, a posição central de Jesus e a participação corporal dos discípulos constituem elementos estruturantes da cena. A NASSCAL reúne a bibliografia especializada sobre os Atos de João.

A questão que se coloca, portanto, é muito mais interessante do que aquela que inicialmente poderia parecer: estaria o autor simplesmente inventando uma dança de Jesus ou estaria transformando em narrativa uma prática ritual que seus próprios leitores poderiam reconhecer? Não temos elementos suficientes para responder definitivamente à pergunta. A existência de uma cena tão elaborada não prova, por si só, que uma cerimônia idêntica tenha sido historicamente realizada. Mas a possibilidade de que a passagem conserve elementos reconhecíveis de prática religiosa torna a questão historicamente relevante. Paul Trebilco, ao estudar os Atos de João em relação às comunidades cristãs de Éfeso, considera plausível que uma prática litúrgica comunitária esteja por trás da passagem, embora isso não equivalha a demonstrar historicamente a realização exata da cena narrada. É necessário, portanto, distinguir três níveis diferentes: a descrição literária de uma ação ritualizada, a possibilidade de que determinados elementos reflitam práticas de uma comunidade e a comprovação histórica de que aquela cerimônia específica tenha efetivamente ocorrido. O primeiro nível é evidente; o segundo é plausível e discutível; o terceiro não pode ser demonstrado a partir do texto.

A hipótese torna-se ainda mais interessante quando observamos a estrutura do hino. Jesus não fala simplesmente diante de uma assembleia passiva. Ele pronuncia uma fórmula e a comunidade responde. O “Amém” não é um detalhe secundário; ele constitui o mecanismo através do qual a comunidade entra na própria ação do Cristo. O texto prossegue:

“Agora, enquanto damos graças, eu digo:

‘Eu seria salvo, e salvaria.’ Amém.

‘Eu seria libertado, e libertaria.’ Amém.

‘Eu seria ferido, e feriria.’ Amém.

‘Eu nasceria, e geraria.’ Amém.

‘Eu comeria, e seria comido.’ Amém.

‘Eu ouviria, e seria ouvido.’ Amém.

‘Eu seria entendido, sendo inteiramente aquele que entende.’ Amém.

‘Eu me lavaria, e lavaria.’ Amém.

A Graça dança.

‘Eu tocaria a flauta; dançai todos!’ Amém.

‘Eu lamentaria; lamentai todos!’ Amém.

‘Uma Oitava canta conosco.’ Amém.

‘O Décimo Segundo número dança acima.’ Amém.

‘E o Todo que pode dançar.’ Amém.

‘Aquele que não dança não sabe o que está acontecendo.’ Amém.

‘Eu fugiria e permaneceria.’ Amém.

‘Eu adornaria e seria adornado.’ Amém.

‘Eu seria unido e uniria.’ Amém.

‘Não tenho casa e tenho casas.’ Amém.

‘Não tenho lugar e tenho lugares.’ Amém.

‘Não tenho templo e tenho templos.’ Amém.

‘Sou uma lâmpada para aquele que me contempla.’ Amém.

‘Sou um espelho para aquele que me percebe.’ Amém.

‘Sou uma porta para aquele que bate.’ Amém.

‘Sou um caminho para aquele que viaja.’ Amém.”

Aqui aparece uma característica que merece atenção especial. A linguagem do hino é construída sobre paradoxos. O Cristo é aquele que salva e é salvo; liberta e é libertado; é ferido e fere; nasce e gera; come e é comido; ouve e é ouvido; não possui templo e, simultaneamente, possui templos. Não se trata simplesmente de poesia religiosa. O paradoxo é o próprio mecanismo pelo qual a identidade de Jesus é apresentada. A tradução desse trecho exige algum cuidado. A edição de James traz, por exemplo, “I would be pierced, and I would pierce” e “I would be understood, being wholly understanding”. Por isso, preferimos aqui “seria ferido, e feriria” e “seria entendido, sendo inteiramente aquele que entende”, evitando transformar understanding diretamente em “compreensão” ou “compreendido” e, assim, introduzir uma interpretação epistemológica que o inglês não exige. Também merece atenção a referência à “Oitava” e ao “Décimo Segundo número”. O texto grego emprega termos que podem ser entendidos em relação à Ogdóade e à Duodécade, vocabulário cosmológico que possui especial importância na literatura valentiniana. A presença desses termos não autoriza, por si só, classificar o Hino simplesmente como “valentiniano”, mas constitui um dado relevante para a discussão de sua proveniência teológica. A própria tradição crítica observa a importância da Ogdóade nesse contexto e registra a dificuldade interpretativa da referência ao número doze.

O paradoxo cristológico torna-se ainda mais profundo quando o hino passa da linguagem da ação para a linguagem da identidade. Aquele que está prestes a sofrer não pode ser reduzido ao sofrimento que será observado pelos homens. O Cristo apresentado no hino é simultaneamente sujeito e objeto da ação, aquele que experimenta a realidade humana e aquele que a transforma. É nesse ponto que os Atos de João se afastam radicalmente da narrativa sinótica e entram em uma cristologia muito mais especulativa. A pesquisa moderna tem discutido se devemos classificá-la simplesmente como “gnóstica”, “docética” ou como uma forma heterodoxa de cristianismo joanino. A cautela é necessária: a categoria “gnosticismo” foi construída retrospectivamente e não deve ser aplicada automaticamente a todo texto que apresente uma cristologia dualista ou uma concepção peculiar da corporeidade. Mais prudente é reconhecer que os Atos de João apresentam uma cristologia na qual a relação entre o Jesus visível, o sofrimento corporal e a identidade divina é profundamente problematizada. Junod e Kaestli são particularmente importantes nesse ponto porque relacionam a dança e o hino à revelação da paixão que prossegue nos capítulos 97–102, e o capítulo 101 retoma explicitamente a dança para afirmar que o sofrimento revelado por Cristo deve ser compreendido como “mistério”. A questão, portanto, não é apenas saber se o Hino contém elementos que posteriormente reconheceríamos como gnósticos, mas perceber como o texto constrói uma oposição entre aquilo que parece acontecer com Jesus e aquilo que o próprio Cristo afirma ser a realidade de sua paixão. Taras Khomych coloca diretamente Atos de João 94–96 em diálogo com Inácio de Antioquia, Ephesians 19, tratando ambas as cenas de dança como expressões de determinadas posições cristológicas. O estudo pode ser conferido no arquivo institucional da Hope University.

E é justamente nesse ponto que a dança deixa de ser um elemento pitoresco para adquirir importância teológica. Jesus diz aos discípulos:

“Agora, se respondeis à minha dança, vede-vos em mim, que falo; e, quando tiverdes visto o que faço, guardai silêncio sobre meus mistérios. Tu que danças, percebe o que faço; pois tua é esta paixão da humanidade que estou prestes a sofrer. Pois de modo algum poderias compreender aquilo que sofres se eu não tivesse sido enviado a ti como a Palavra pelo Pai. Quando viste o que sofro, viste-me sofrendo; e, vendo isso, não permaneceste firme, mas foste inteiramente movido.

Movido a tornar-te sábio, tens em mim um apoio. Repousa em mim! Quem sou eu? Não o saberás quando eu partir. O que agora sou visto ser, isso não sou. Verás quando vieres. Se tivesses sabido como sofrer, terias tido o poder de não sofrer. Aprende a sofrer, e serás capaz de não sofrer. Aquilo que não conheces, eu te ensinarei.”

Aqui a tradução também merece atenção. O texto de James utiliza expressões como “respond to my dancing”, “see thyself in me”, “perceive what I do” e, na passagem sobre o sofrimento, “Learn thou to suffer, and thou shalt be able not to suffer”. Por isso, a formulação “Aprende a sofrer, e serás capaz de não sofrer” é preferível a uma tradução mais interpretativa como “Conhece o sofrimento, e terás o poder de não sofrer”. A primeira preserva a dimensão pedagógica explícita do verbo learn. Mais importante, porém, é observar o encadeamento entre sofrimento, conhecimento e identidade. O discípulo vê Cristo sofrendo, mas é justamente nesse momento que recebe a advertência de que aquilo que agora vê não esgota aquilo que Cristo é: “O que agora sou visto ser, isso não sou”. O sofrimento é, assim, simultaneamente real enquanto experiência humana e insuficiente enquanto definição da identidade do Cristo. A tensão não deve ser resolvida rapidamente por meio da simples oposição entre “corpo verdadeiro” e “corpo aparente”; o próprio texto constrói um paradoxo no qual Cristo sofre, revela o sofrimento e, ao mesmo tempo, afirma uma realidade que ultrapassa aquilo que os observadores conseguem apreender.

É justamente por isso que podemos afirmar, em sentido interpretativo, que dançar é compreender. A experiência corporal não é simplesmente consequência do conhecimento; ela é um dos caminhos pelos quais o conhecimento é produzido. O discípulo não recebe uma doutrina abstrata e posteriormente a transforma em comportamento corporal. Ele participa da dança e, através dessa participação, é introduzido no “mistério”. Karin Schlapbach, ao estudar a dança no mundo greco-romano e particularmente sua utilização nos Atos de João, chama atenção justamente para aspectos epistemológicos e experienciais da dança. Seu estudo dedica uma seção específica à dança nos Atos de João e discute a dança como experiência e forma de conhecimento. A obra pode ser consultada na Oxford Academic, inclusive no capítulo dedicado aos aspectos emocionais e epistêmicos da dança.

A partir daí, podemos compreender melhor por que Jesus ocupa o centro do círculo. Não é apenas uma disposição espacial. O Cristo é simultaneamente o centro da comunidade e aquilo em torno do qual a comunidade se movimenta. Os discípulos não estão simplesmente olhando para Jesus; eles estão participando dele. Quando Jesus diz “vede-vos em mim”, a linguagem do hino estabelece uma espécie de espelhamento entre Cristo e aqueles que dançam. O discípulo deve ver-se naquele que está no centro. O círculo, nesse sentido, funciona como uma representação corporal da própria cristologia do texto: o Cristo permanece no centro enquanto a comunidade se movimenta ao seu redor; entretanto, o próprio movimento dos discípulos constitui a maneira pela qual eles entram no mistério do Cristo. É possível compreender aqui por que a dança foi tão importante para os estudiosos do texto. Ela não constitui uma adição superficial à teologia; ela é a teologia convertida em gesto.

As tradições judaicas de culto celestial oferecem, nesse ponto, um horizonte comparativo particularmente fecundo. Não se pode afirmar, evidentemente, que os autores dos Atos de João tenham simplesmente copiado práticas de Qumran. Uma afirmação dessa natureza ultrapassaria completamente aquilo que as fontes permitem demonstrar. Mas existe um dado comparativo extremamente interessante. Entre os manuscritos do Mar Morto encontramos os chamados Cânticos do Sacrifício do Sábado (Songs of the Sabbath Sacrifice), uma coleção litúrgica composta por treze cânticos que descrevem a liturgia celeste, os sacerdotes angélicos, o templo celestial e a adoração realizada no mundo superior. A comunidade terrestre é imaginada em relação com uma ordem litúrgica transcendente. A edição crítica de Carol Newsom reúne os textos de 4Q400–407, o material de Masada e 11QShirShabb, além de dedicar seções específicas à angelologia, ao templo celestial e ao contexto de Qumran. A documentação dos manuscritos mostra que os Songs of the Sabbath Sacrifice foram preservados em exemplares provenientes de Qumran e de Masada, pertencentes ao horizonte do período hasmoneu e herodiano.

Os manuscritos encontrados em Qumran e também um exemplar proveniente de Masada documentam a existência de tradições de culto celestial, sacerdócio angélico e participação litúrgica na realidade superior já presentes em ambientes judaicos do período do Segundo Templo. O que encontramos nesse universo religioso é uma concepção na qual o culto terrestre pode ser imaginado em relação com uma realidade celestial, de modo que a comunidade humana participa, através do louvor e da liturgia, da adoração realizada pelos seres celestes. Essa aproximação precisa ser feita com extrema cautela. Qumran não é a fonte da dança dos Atos de João**.** Não possuímos qualquer cadeia documental que nos permita estabelecer essa transmissão. O que podemos afirmar é algo mais amplo: tanto os Cânticos do Sacrifício do Sábado quanto os Atos de João pertencem a universos religiosos nos quais a fronteira entre culto terrestre e realidade celeste podia ser imaginada como permeável. Os primeiros oferecem, entretanto, uma testemunha cronologicamente muito mais próxima do ambiente judaico do Segundo Templo; os segundos pertencem a um contexto cristão posterior e devem ser interpretados em sua própria configuração teológica.

Em Qumran, a comunidade litúrgica contempla e participa do culto dos anjos; nos Atos de João, a Oitava canta, o Décimo Segundo número dança acima e o Todo pode dançar. O vocabulário cosmológico é diferente, a teologia é diferente e a distância cronológica é real; mas existe uma questão estrutural semelhante: o culto não se limita ao espaço físico ocupado pela comunidade. A ação litúrgica terrestre é imaginada como inserida em uma ordem cósmica superior. Essa comparação é mais fecunda justamente quando abandonamos a hipótese de uma dependência direta e passamos a investigar um repertório religioso mais amplo, no qual música, culto, corpo, comunidade e mundo celestial podiam ser pensados conjuntamente. No caso dos Atos de João, contudo, a linguagem da Ogdóade e da Duodécade acrescenta uma dimensão cosmológica própria, que não deve ser simplesmente assimilada às representações celestes de Qumran.

A tradição da Merkabah, a visão do carro ou trono divino, também pode ser colocada em nosso horizonte comparativo, desde que não projetemos retrospectivamente sobre o século II sistemas místicos judaicos plenamente desenvolvidos em períodos posteriores. A literatura da Merkabah e dos Hekhalot pertence a processos históricos complexos, e não podemos simplesmente afirmar que a dança dos Atos de João seja uma prática de “mística judaica” transplantada para o cristianismo. Além disso, a comparação cronológica é desigual: os Cânticos do Sacrifício do Sábado constituem testemunho material do período do Segundo Templo, enquanto os corpora hekhalóticos preservados pertencem a processos de formação posteriores. O que podemos perceber, de maneira mais ampla, é a existência de um problema religioso semelhante: como o ser humano pode participar de uma realidade que ultrapassa o mundo ordinário? No judaísmo apocalíptico, em determinadas tradições litúrgicas judaicas e, posteriormente, na literatura mística, o acesso ao mundo celestial podia ser representado por visões, louvores, cânticos, ascensões e formas de participação na realidade angelical. Nos Atos de João, essa possibilidade é radicalmente cristianizada: o próprio Cristo torna-se o centro da ação e o corpo dos discípulos participa de sua revelação.

Outro elemento que merece ser reconsiderado é a relação entre o hino e a Eucaristia. O texto dos Atos de João não deve ser lido como se simplesmente reproduzisse a Última Ceia dos Evangelhos. A narrativa anterior aos capítulos 94–96 contém, de fato, elementos relacionados à partilha do pão e à linguagem eucarística, mas a sequência ritual assume uma forma bastante diferente daquela encontrada nos relatos sinóticos. Em Atos de João 85–86, por exemplo, João ora diante do túmulo de Fortunato e posteriormente “faz todos os irmãos participarem da Eucaristia do Senhor”. Em 93, Jesus aparece partilhando o pão com os discípulos; em 109–110, João oferece uma oração sobre o pão, parte-o e o distribui aos irmãos. Esses trechos mostram que a linguagem eucarística está efetivamente presente na obra, mas não permitem identificar o episódio de 94–96 simplesmente como uma celebração eucarística. A própria sequência textual torna essa distinção importante.

Isso abre uma possibilidade particularmente interessante: não estaríamos diante simplesmente de uma dança acrescentada à Eucaristia, mas diante de uma comunidade que concebe o encontro com Cristo através de uma combinação ritual própria, na qual o pão, o canto, a resposta coletiva, o movimento corporal e a revelação cristológica se encontram articulados? Não devemos transformar essa hipótese em certeza histórica. Os Atos de João são literatura narrativa e teológica, e não um manual litúrgico. Mas a hipótese merece ser considerada porque o texto não descreve a dança como um espetáculo ao qual os discípulos assistem. Eles participam. Formam o círculo, seguram as mãos, respondem “Amém”, dançam e são convidados a perceber aquilo que fazem. É precisamente essa participação corporal que torna possível falar em uma dimensão ritual.

Um ritual não precisa ser descrito por um autor como “liturgia” para desempenhar uma função litúrgica. O próprio caráter responsorial da cena, a repetição do “Amém”, a estrutura circular, a centralidade de Jesus e a dimensão comunitária da ação apontam nessa direção. Ao mesmo tempo, é necessário distinguir os níveis que não devem ser confundidos: a descrição literária de uma ação ritualizada; a possibilidade de que determinados elementos reflitam práticas de uma comunidade; e a comprovação histórica de que aquela cerimônia específica tenha efetivamente ocorrido. O primeiro nível é evidente; o segundo é plausível e discutível; o terceiro não pode ser demonstrado a partir do texto. Essa distinção torna-se ainda mais importante quando consideramos a discussão textual e teológica dos capítulos 94–102: a existência de uma tradição ritualizada não significa que possamos reconstruir diretamente uma cerimônia histórica a partir da narrativa que a transmite.

Aqui retornamos à observação inicial sobre Mateus. Não é necessário supor uma continuidade histórica simples entre a frase “depois de terem cantado o hino” e a dança descrita nos Atos de João. Mateus apresenta um canto associado à refeição pascal; os Atos de João apresentam um ritual cristológico que incorpora canto, dança e revelação. A diferença entre ambos é precisamente aquilo que nos interessa. O que os cristãos posteriores fizeram com a memória de Jesus? Como uma breve notícia sobre um canto podia ser integrada, em outra tradição cristã, a uma experiência religiosa completamente desenvolvida?

A resposta talvez esteja na própria transformação da experiência de Jesus em experiência comunitária. O Jesus dos Atos de João não apenas ensina; ele dança. Não apenas fala sobre o sofrimento; ele incorpora o paradoxo do sofrimento. Não apenas promete salvação; ele convida os discípulos a participarem corporalmente daquilo que está prestes a acontecer. O hino afirma: “Eu seria salvo, e salvaria”; “eu seria ferido, e feriria”; “eu nasceria, e geraria”. O paradoxo cristológico é, portanto, acompanhado pelo paradoxo corporal da dança: o discípulo movimenta-se ao redor de Cristo e, simultaneamente, é chamado a ver-se em Cristo. A comunidade aprende através do movimento aquilo que o texto considera impossível de apreender simplesmente por meio da observação da paixão. A dança não é, portanto, apenas uma prática corporal acrescentada a uma doutrina já formulada; ela participa da própria construção daquilo que o texto entende como conhecimento de Cristo.

É justamente por isso que considero particularmente sugestiva a afirmação do próprio texto: “Aquele que não dança não sabe o que está acontecendo.” Aqui estamos diante de uma formulação efetivamente presente no texto de Atos de João 95: “He that danceth not, knoweth not what is being done.” Não se trata, portanto, de uma paráfrase moderna nossa. Talvez essa seja uma das frases mais importantes de toda a passagem. O autor está dizendo que existe uma diferença entre ver e participar. Quem apenas observa não compreende. Quem entra na dança participa do mistério. A afirmação é profundamente coerente com uma religião na qual conhecimento e transformação não estão separados. E a frase ganha ainda maior densidade quando colocada ao lado da afirmação posterior de que o discípulo deve “ver-se” em Cristo e aprender a sofrer para tornar-se capaz de não sofrer. O conhecimento não é apenas aquisição intelectual; é uma transformação do sujeito por meio da participação.




O conhecimento de Cristo não é simplesmente informação teológica; é uma experiência que deve modificar o próprio sujeito. E aqui chegamos ao ponto que mais interessa nesta investigação. É perfeitamente possível que a nossa estranheza moderna diante da cena — Jesus dançando com os discípulos na véspera de sua execução — seja resultado de uma concepção demasiadamente intelectualizada da religião cristã antiga. Nós estamos acostumados a imaginar os primeiros cristãos sentados, ouvindo sermões, lendo Escrituras e discutindo doutrinas. Os Atos de João apresentam outra possibilidade: uma comunidade que canta, responde, segura as mãos, movimenta o corpo e transforma a própria ação ritual em veículo de conhecimento religioso. Não precisamos afirmar que todas as comunidades cristãs primitivas praticassem esse tipo de ritual. Não precisamos sequer afirmar que essa dança específica tenha sido historicamente realizada em Éfeso ou em qualquer outro lugar.

Basta reconhecer que o autor considerou concebível — e talvez reconhecível para seus leitores — uma experiência cristã na qual o corpo pudesse participar diretamente da revelação. Isso permite compreender melhor também a relação entre os Atos de João e aquilo que posteriormente seria classificado como “gnosticismo”. A questão não é simplesmente determinar se o autor era ou não “gnóstico”. A questão mais fecunda é perceber que determinados cristãos antigos estavam experimentando formas de conhecimento religioso nas quais revelação, corpo, ritual e cosmologia se encontravam profundamente articulados. O hino não é apenas uma profissão de fé; é uma ação ritual por meio da qual o conhecimento é experimentado. Ao mesmo tempo, a presença de elementos cosmológicos como a Ogdóade e a Duodécade mostra que essa experiência corporal está inserida em uma elaboração teológica específica, cuja relação com tradições posteriormente classificadas como valentinianas precisa ser investigada sem que a classificação seja transformada prematuramente em conclusão.

O discípulo não aprende apenas ouvindo uma explicação; ele aprende dançando. E a dança não é uma simples expressão de alegria: ela é a dramatização da passagem entre o mundo visível e a realidade invisível. A comparação com práticas místicas de outras tradições religiosas pode ser preservada, mas precisa ser entendida como comparação fenomenológica e não como hipótese de transmissão histórica. É legítimo perceber que, em diferentes tradições religiosas, o movimento circular, a repetição sonora, a música e a participação coletiva podem constituir meios de transformação da experiência ordinária. O fato de encontrarmos configurações semelhantes em culturas diferentes não prova uma origem comum; demonstra, no máximo, que o corpo humano pode tornar-se um instrumento religioso tão importante quanto a palavra escrita. No caso específico dos Atos de João, porém, não devemos perder de vista que a dança está integrada a uma cristologia particular: o corpo que dança é também o corpo cuja paixão é apresentada como mistério, e o movimento dos discípulos é também uma forma de aprender aquilo que o texto considera impossível de compreender apenas pela aparência.

Talvez seja justamente essa a maior riqueza escondida nessa pequena passagem dos Atos de João. O texto permite olhar para o cristianismo antigo não apenas como um universo de ideias, doutrinas e escritos, mas como uma religião praticada por corpos. Os cristãos cantavam. Repetiam fórmulas. Respondiam “Amém”. Partilhavam alimentos. Reuniam-se em círculos. Movimentavam-se. Choravam. Celebravam. E, em determinados ambientes, talvez dançassem. O cristianismo antigo não era apenas uma religião que falava sobre o corpo; era também uma religião que utilizava o corpo para produzir experiência religiosa. O Hino da Dança radicaliza essa dimensão porque transforma o próprio movimento em instrumento hermenêutico: o discípulo não apenas participa de uma cerimônia; ao participar, é chamado a compreender o mistério que está sendo representado.

Assim, quando Mateus nos diz simplesmente que, terminada a ceia, Jesus e seus discípulos “cantaram o hino” e saíram para o monte das Oliveiras, devemos resistir à tentação de preencher automaticamente esse silêncio com a narrativa dos Atos de João. Não sabemos se Jesus dançou. Não sabemos se os discípulos formaram um círculo. Não sabemos se aquela noite terminou com uma experiência semelhante à descrita pelo apócrifo. Mas sabemos que, algumas gerações depois, determinada tradição cristã antiga imaginou a paixão dessa maneira. E isso, por si só, é historicamente extraordinário.

Eles não imaginaram Jesus simplesmente caminhando para a morte. Imaginaram-no dançando diante dela.

E talvez seja precisamente aí que esteja o segredo dessa passagem. Antes da cruz, existe a dança. Antes da morte, existe o círculo. Antes do silêncio do sepulcro, existe a resposta coletiva: “Amém”. O Cristo que será crucificado encontra-se no centro, enquanto os discípulos giram ao seu redor. E o próprio texto parece dizer que somente aquele que entra no movimento consegue compreender aquilo que está acontecendo.

A dança, portanto, não é apenas uma preparação para a paixão.

Ela é uma interpretação da paixão.


REFERÊNCIAS

ATOS DE JOÃO. Texto inglês da edição de M. R. James, incluindo os capítulos 85–115 e, especificamente, os §§ 94–96. A passagem do Hino pode ser conferida diretamente na edição digital de The Acts of John.

BOWE, Barbara E. “Dancing into the Divine: The Hymn of the Dance in the Acts of John.” Journal of Early Christian Studies, v. 7, n. 1, p. 83–104, 1999. A referência bibliográfica é registrada pela NASSCAL — Acts of John.

DEWEY, Arthur J. “The Hymn in the Acts of John: Dance as Hermeneutic.” Semeia, n. 38, p. 67–80, 1986. A referência bibliográfica também é registrada pela NASSCAL.

ELLIOTT, J. K. The Apocryphal New Testament: A Collection of Apocryphal Christian Literature in an English Translation. Oxford: Clarendon Press, 1993.

JUNOD, Éric; KAESTLI, Jean-Daniel. Acta Iohannis. Turnhout: Brepols, 1983. 2 v. (Corpus Christianorum, Series Apocryphorum, 1–2). A obra constitui a edição crítica de referência dos Atos de João, com texto, aparato, comentários e índices.

KHOMYCH, Taras. “Conflicting Choreographies? Dance as Doctrinal Expression in Ignatius’ Ephesians 19 and Acts of John 94–96.” In: Docetism in the Early Church: The Quest for an Elusive Phenomenon. Tübingen: Mohr Siebeck, 2018. p. 217–229. O capítulo pode ser conferido no arquivo institucional da Hope University.

NEWSOM, Carol A. Songs of the Sabbath Sacrifice: A Critical Edition. Atlanta: Scholars Press, 1985. A edição crítica e sua documentação podem ser consultadas na Brill.

SCHLAPBACH, Karin. The Anatomy of Dance Discourse: Literary and Philosophical Approaches to Dance in the Later Graeco-Roman World. Oxford: Oxford University Press, 2018. A obra e o capítulo dedicado à dança nos Atos de João estão disponíveis na Oxford Academic.

SCHNEIDER, Paul G. The Mystery of the Acts of John: An Interpretation of the Hymn and the Dance in Light of the Acts' Theology. San Francisco: Mellen Research University Press, 1991. Registro bibliográfico disponível no WorldCat.

TREBILCO, Paul. “The Acts of John and Christian Communities in Ephesus in the Mid-Second Century AD.” In: BREYTENBACH, C.; OGEREAU, J. M. (eds.). Authority and Identity in Emerging Christianities: Communities in Asia Minor and Greece. Leiden: Brill, 2018. p. 33–61. DOI: 10.1163/9789004367197_003. A referência é confirmada pela University of Otago.

Nota editorial sobre a tradução

As citações dos Atos de João apresentadas no corpo deste artigo constituem tradução própria a partir da versão inglesa de M. R. James, utilizada como base de conferência textual. Essa opção é particularmente importante nos §§ 95–96, nos quais determinadas formulações inglesas permitem mais de uma solução portuguesa. Foram evitadas traduções excessivamente interpretativas quando poderiam antecipar conclusões do próprio argumento. Nos casos em que a terminologia grega possui implicações teológicas específicas — como as referências à Ogdóade e à Duodécade — procuramos preservar a tradução adotada no corpo do artigo e explicitar seu peso contextual em vez de incorporá-lo silenciosamente à tradução. A edição crítica de Junod e Kaestli permanece referência fundamental para o estabelecimento e a interpretação do texto. O texto inglês integral pode ser conferido pelo leitor diretamente na fonte digital indicada acima.







quarta-feira, 26 de novembro de 2008



No texto anterior, terminamos afirmando que Jesus provavelmente não nasceu em Belém da Judeia e que a associação entre o nascimento de Jesus e aquela cidade parece estar relacionada, em boa medida, a uma elaboração teológica das primeiras comunidades cristãs. A questão, entretanto, não pode ser encerrada nesse ponto. Se retirarmos, ainda que provisoriamente, Belém da Judeia da equação, surge imediatamente uma questão de natureza propriamente histórica: onde, então, poderia ter nascido Jesus? A resposta mais intuitiva seria Nazaré, não apenas porque Jesus aparece reiteradamente nas tradições cristãs como “Jesus de Nazaré”, mas porque a arqueologia contemporânea tornou insustentável a antiga hipótese de que Nazaré simplesmente não existia no período em que Jesus viveu. Durante muito tempo, a escassez de referências literárias e de vestígios arqueológicos conhecidos alimentou dúvidas acerca da existência da localidade no início do século I. A investigação arqueológica mais recente, entretanto, modificou substancialmente esse quadro. O trabalho desenvolvido por Ken Dark e pelo Nazareth Archaeological Project, entre outras pesquisas, permite reconhecer atualmente Nazaré como uma comunidade rural judaica existente no período romano inicial. Dark observa que, embora as fontes escritas sobre Nazaré sejam extraordinariamente escassas, a arqueologia fornece informações consideravelmente mais amplas sobre sua configuração física, sua economia e sua vida cotidiana, chegando à conclusão de que as evidências confirmam a existência de uma comunidade agrícola no século I.

Isso modifica substancialmente o problema. Nazaré não precisa mais ser considerada uma espécie de exceção arqueológica produzida pela narrativa cristã. Ela se apresenta diante de nós como uma pequena comunidade rural da Galileia romana. E talvez seja precisamente essa caracterização que torne a questão historicamente relevante. A arqueologia não encontrou em Nazaré uma grande cidade, um centro administrativo ou um importante núcleo urbano comparável a Jerusalém. O que emerge é uma comunidade constituída por famílias, com estruturas domésticas, instalações agrícolas, silos, cisternas, áreas de cultivo, pedreiras e atividades artesanais. O quadro corresponde muito mais ao universo rural da Galileia do início do período romano do que à representação de uma cidade propriamente dita. Essa constatação é importante porque permite superar uma falsa alternativa: a inexistência de um grande núcleo urbano não implica a inexistência de um assentamento. Nazaré podia ser pequena e pouco relevante para os grandes historiadores da Antiguidade — e, ainda assim, ser precisamente o lugar que os evangelhos identificam como a origem geográfica e o ambiente social associado a Jesus. A investigação arqueológica contemporânea, portanto, não apenas fornece evidências independentes da existência de Nazaré no período pertinente; ela permite também uma reconstrução mais precisa do tipo de comunidade na qual Jesus teria crescido.

Nesse ponto, vale recuperar integralmente a passagem de Crossan, porque ela continua sendo particularmente importante para a nossa discussão:

Entre 1955 e 1960, o erudito franciscano Bellarmino Bagatti fez escavações em Nazaré sob a velha Igreja da Anunciação, já demolida na época, e em outras propriedades franciscanas que se estendiam para o noroeste, em direção à Igreja de São José, que pertencia à mesma ordem. Ele resumiu suas descobertas de forma sucinta: “Em termos cronológicos, temos tumbas de meados da Idade do Bronze [c. 2.000-1500 a.E.C.]; silos com cerâmicas de meados da Idade do Ferro [c. 900-539 a.E.C.]; e depois, sem interrupções, cerâmicas e construções que vão desde o Período Helenístico [c. 332-63 a.E.C.] até os tempos atuais” (BAGATTI, apud CROSSAN, 1994, p. 50). Os vestígios das primeiras ocupações, entretanto, são bastante escassos, enquanto os da ocupação final são abundantes. Portanto, apesar de haver alguns indícios de uma fundação mais antiga, “no século II a.E.C. voltamos a encontrar uma grande quantidade de artefatos, o que indica que a aldeia foi fundada novamente neste período (...). Isso significa que a aldeia tinha menos de duzentos anos no século I E.C.” (MEYERS; STRANGE, apud CROSSAN, 1994, p. 50).


A arqueologia posterior não torna essa passagem obsoleta; ao contrário, permite qualificá-la e refiná-la à luz de evidências posteriores. O trabalho de Ken Dark no sítio das Sisters of Nazareth é particularmente relevante. As investigações identificaram evidências de ocupação doméstica no período romano inicial, posteriormente incorporadas a estruturas cristãs de períodos posteriores. O ponto mais importante, contudo, está justamente na cautela do próprio arqueólogo: não é possível demonstrar que a estrutura identificada seja a casa em que Jesus cresceu. Dark considera impossível, com as evidências atualmente disponíveis, provar ou refutar essa identificação. O que pode ser afirmado com segurança é algo diferente: o sítio contém uma estrutura doméstica do século I e contribui para a reconstrução arqueológica de Nazaré naquele período. A distinção é fundamental. Encontrar uma casa do século I em Nazaré não significa encontrar a casa de Jesus; encontrar evidências de uma comunidade judaica do século I em Nazaré significa, porém, tornar historicamente plausível o ambiente no qual as tradições antigas sobre Jesus o situam.

A questão se torna ainda mais interessante quando deixamos a arqueologia e retornamos às próprias narrativas evangélicas. Se Nazaré era uma comunidade real e se Jesus foi tão fortemente associado a ela que a designação “nazareno” se tornou parte de sua identidade, por que Mateus e Lucas introduzem Belém da Judeia como local de nascimento? A resposta tradicional é conhecida: porque Jesus seria o Messias davídico, e Belém era a cidade de Davi. Mas justamente aqui precisamos distinguir a função teológica da tradição de sua possível memória histórica. Mateus constrói uma narrativa na qual o nascimento em Belém se articula diretamente com a tradição davídica e com a perseguição de Herodes; Lucas, por sua vez, utiliza o recenseamento para deslocar José e Maria de Nazaré para Belém. O problema é que essas narrativas apresentam arquiteturas diferentes e não são facilmente conciliáveis entre si. Ao mesmo tempo, outras tradições neotestamentárias enfatizam a identificação de Jesus com a Galileia e Nazaré sem preservar uma narrativa equivalente sobre seu nascimento em Belém. O historiador precisa, portanto, perguntar não apenas “o que o texto afirma?”, mas também “por que o texto afirma isso?”. Essa distinção é decisiva. A existência de uma narrativa não constitui, por si mesma, demonstração da historicidade do acontecimento narrado.

A discussão acadêmica contemporânea mostra que não estamos diante de uma questão criada por críticos modernos. Steve Mason examinou especificamente a questão do local de nascimento de Jesus e chamou atenção para as tensões entre os relatos de Mateus e Lucas e a tradição mais ampla dos evangelhos. Seu argumento é particularmente útil porque não consiste simplesmente em substituir uma certeza por outra: sua análise conduz a uma posição cautelosa diante da evidência disponível. A discussão publicada pela Bible Review colocou justamente em confronto essa leitura com a defesa da tradição de Belém feita por Jerome Murphy-O’Connor, demonstrando que a questão permanece aberta no âmbito da pesquisa. Mason sustenta uma posição agnóstica diante da questão, enquanto Murphy-O’Connor argumenta em favor da tradição de Belém. John P. Meier, trabalhando em outra vertente da pesquisa do Jesus histórico, considerou que Jesus provavelmente não nasceu em Belém, mas em Nazaré, entendendo a tradição de Belém como um theologoumenon, isto é, uma afirmação teológica apresentada sob a forma de narrativa histórica. Ao mesmo tempo, Meier advertia que não se poderia alcançar certeza absoluta sobre o ponto. Portanto, a hipótese que estamos examinando não constitui simplesmente uma provocação contra a tradição cristã: ela possui antecedentes dentro da própria historiografia crítica do Novo Testamento.

Mas há ainda uma possibilidade que merece ser retomada com maior cuidado: Belém da Galileia. A hipótese é relevante porque nos obriga a abandonar uma falsa dicotomia. Não precisamos necessariamente escolher entre Belém da Judeia e Nazaré como se fossem as únicas possibilidades concebíveis. Existia uma outra Belém, situada na Galileia. E isso é historicamente relevante. A possibilidade de uma Belém galileia não é uma invenção moderna destinada artificialmente a solucionar o problema dos evangelhos. Trata-se de uma localidade real, cuja ocupação em diferentes períodos da Antiguidade é arqueologicamente documentada, inclusive com evidências atribuídas ao período romano inicial. O problema, naturalmente, é outro: existe alguma evidência positiva ligando Jesus especificamente a essa Belém? E aqui a resposta precisa ser muito mais prudente: não temos essa evidência. O máximo que podemos fazer é reconhecer que a existência da localidade torna a hipótese geograficamente possível e, portanto, digna de investigação, sem convertê-la em uma hipótese histórica positivamente demonstrada.

Essa possibilidade adquire interesse especial quando observamos a relação espacial entre Belém da Galileia e Nazaré. Diferentemente de Belém da Judeia, Belém da Galileia está inserida no mesmo universo regional em que encontramos Nazaré. Isso não prova absolutamente nada sobre o nascimento de Jesus, mas modifica os termos da questão histórica. Se, hipoteticamente, uma tradição anterior preservasse apenas a informação de que Jesus nascera em “Belém”, seria necessário investigar quando, como e por que essa tradição passou a ser identificada especificamente com a Belém da Judeia. A própria existência de uma cidade homônima na Galileia impede que tratemos o nome “Belém” como uma referência geográfica absolutamente transparente em qualquer reconstrução hipotética da transmissão da tradição. Mais importante ainda: a tradição cristã não nasceu num vazio geográfico. Ela foi produzida em um ambiente no qual nomes de lugares, tradições messiânicas, genealogias e expectativas escatológicas estavam profundamente entrelaçados. A identificação de Jesus com Davi tornava Belém um lugar extraordinariamente carregado de significado simbólico.

É aqui que a hipótese histórica encontra a história das ideias. Belém não é apenas um lugar; é a cidade de Davi. A tradição que localiza o nascimento de Jesus em Belém produz, portanto, uma operação teológica extremamente eficiente: vincula o nascimento de um camponês galileu à tradição davídica. A geografia passa a funcionar como argumento cristológico. Não se trata simplesmente de dizer onde Jesus nasceu; trata-se de demonstrar quem Jesus é. E essa observação permite compreender por que a narrativa do nascimento pode possuir enorme importância teológica mesmo que sua precisão biográfica seja questionável. O problema deixa de ser simplesmente “os evangelistas erraram o endereço?” e passa a ser: qual afirmação sobre Jesus os evangelistas estavam fazendo através desse endereço?

Nesse sentido, talvez a questão mais interessante não seja decidir prematuramente entre Nazaré e Belém da Galileia. A arqueologia não nos permite fazer isso. O que ela nos permite fazer é estabelecer os limites dentro dos quais uma reconstrução histórica responsável pode operar. Nazaré existia no século I e há evidências arqueológicas de sua ocupação nesse período. A pesquisa de Ken Dark mostra que podemos reconstruir aspectos importantes de sua economia, cultura material e organização doméstica, embora não possamos identificar com segurança nenhuma residência como a casa de Jesus. Belém da Galileia também constitui uma possibilidade geográfica real e apresenta evidências arqueológicas de ocupação antiga, inclusive no período romano inicial, mas a ausência de evidência específica que associe Jesus à localidade impede que transformemos essa possibilidade em conclusão. E Belém da Judeia, embora seja perfeitamente real e esteja fortemente associada à tradição davídica, enfrenta o problema de ser sustentada pelos relatos de Mateus e Lucas, justamente as fontes que possuem maior interesse teológico na construção da genealogia e da identidade messiânica de Jesus.

Portanto, a conclusão desta segunda parte precisa ser mais cuidadosa. Não podemos afirmar historicamente que Jesus nasceu em Nazaré. Tampouco podemos afirmar que nasceu em Belém da Galileia. E a arqueologia, por si mesma, não demonstra que tenha nascido em Belém da Judeia. O que podemos afirmar com segurança muito maior é que Nazaré era uma comunidade real do início do século I e que a associação de Jesus com essa localidade possui uma base histórica particularmente sólida. A questão do nascimento, entretanto, permanece aberta. A tradição de Belém pode preservar uma memória histórica, mas também pode representar uma construção teológica destinada a vincular Jesus à linhagem davídica. A pesquisa crítica contemporânea reconhece precisamente essa dificuldade: parte dela considera Nazaré uma hipótese historicamente mais provável, enquanto outros estudiosos defendem a tradição de Belém ou preferem permanecer agnósticos diante da questão. A própria publicação de Mason e Murphy-O’Connor na Bible Review mostra que a discussão comportava posições substancialmente divergentes.

Talvez, portanto, devamos terminar esta segunda parte não com uma resposta definitiva, mas com uma mudança de perspectiva. Durante séculos, a pergunta pareceu simples: Jesus nasceu em Belém? A investigação histórica mostra que ela é muito mais complexa. Precisamos perguntar quando a tradição de Belém aparece nas fontes que possuímos, quais textos a sustentam, que função desempenha na cristologia dos evangelistas e como ela se relaciona com a tradição, aparentemente mais ampla, que identifica Jesus como galileu e nazareno. Precisamos ainda perguntar se uma eventual tradição anterior poderia ter sido transmitida de forma menos específica e se a existência de uma Belém galileia merece algum papel nessa discussão. Por enquanto, a arqueologia nos oferece uma certeza modesta, mas extraordinariamente importante: a arqueologia fornece evidências independentes de que Nazaré era uma comunidade judaica real no período em que Jesus viveu. O restante pertence ao terreno mais difícil — e mais fascinante — em que arqueologia, crítica textual, história social e construção da memória religiosa se encontram. É justamente aí que devemos prosseguir.


Referências

CROSSAN, John Dominic. O Jesus histórico: a vida de um camponês judeu do Mediterrâneo. Rio de Janeiro: Imago, 1994.

DARK, Ken. Archaeology of Jesus' Nazareth. Oxford: Oxford University Press, 2023.

MASON, Steve. O Little Town of... Nazareth? Where Was Jesus Born? Bible Review, v. 16, n. 1, p. 32–39, 51–53, 2000.

MEIER, John P. A Marginal Jew: Rethinking the Historical Jesus. New York: Doubleday, 1991.

MURPHY-O'CONNOR, Jerome. Bethlehem... Of Course. Bible Review, v. 16, n. 1, 2000. 




terça-feira, 25 de novembro de 2008

Pode parecer estranho para aqueles que acompanham as batalhas entre evolucionistas e criacionistas (principalmente para estes últimos), mas eu realmente tive a minha fundante "compreensão" sobre Deus, assistindo a série COSMOS, conduzida por Carl Sagan em 1980. Eu me lembro de acordar aos domingos pela manhã e correr para a televisão - em Cosmos eu aprendi sobre filosofia, física, história, cosmologia e... Deus. Foi este meu contato com o infinito que me levou a sentir a enormidade da criação.

Não deixa de ser curioso este aprendizado teológico a partir da visão do ateu Sagan. Mas sinceramente posso dizer que devo muito à ele (inclusive meu plano adolescente de me tornar físico). Passados 28 anos, Cosmos continua ainda perfeitamente atual. Certamente, a astrofísica galgou alguns bons passos, bem como o conhecimento científico em geral. Mas a série é ainda muito válida. Me alegrei ao saber que a mesma está sendo repassada para os meninos através do canal governamental TV Escola. Isso me dá boas esperanças sobre os meus futuros alunos na universdade (muito boas, por sinal)!

Enfim... O video a seguir não faz parte de Cosmos. Mas é um dos projetos científicos empreendidos Sagan - como seria a Terra vista de longe? [de bem longe daqui] - A resposta é: The Pale Blue Dot (O pequeno ponto azul)

segunda-feira, 24 de novembro de 2008







Introdução

Os relatos sobre o nascimento de Jesus constituem um dos problemas mais delicados da investigação histórica sobre as origens do cristianismo. A dificuldade não reside apenas na ausência de informações externas capazes de estabelecer com segurança a data ou o local do nascimento, mas sobretudo no fato de que as duas narrativas canônicas que tratam diretamente do assunto — Mateus 1–2 e Lucas 1–2 — apresentam construções literárias significativamente diferentes. Mateus e Lucas concordam em situar o nascimento em Belém e em vinculá-lo, de diferentes maneiras, à linhagem davídica; entretanto, divergem quanto à residência original de José e Maria, quanto às circunstâncias que os conduzem a Belém, quanto aos acontecimentos imediatamente posteriores ao nascimento e, sobretudo, quanto à cronologia implícita em suas narrativas. A crítica histórica já percebeu há muito que essas diferenças não podem ser simplesmente eliminadas por meio de uma harmonização que trate os dois relatos como se fossem registros independentes e complementares. A investigação deve partir de uma questão mais elementar: que tipo de narrativa são Mateus 1–2 e Lucas 1–2 e o que podemos, a partir delas, reconstruir historicamente sobre o nascimento de Jesus? A pesquisa contemporânea continua dividida sobre o grau de historicidade dessas narrativas. Há estudiosos que procuram preservar um núcleo histórico substancial e explicar as dificuldades cronológicas por meio de hipóteses alternativas acerca do recenseamento; outros entendem que os evangelistas trabalharam tradições teológicas cuja finalidade principal não era oferecer uma biografia do nascimento, mas estabelecer a identidade messiânica de Jesus. A questão, portanto, não deve ser resolvida previamente nem pela fé nem pelo ceticismo: é necessário examinar os textos em suas respectivas arquiteturas narrativas, confrontá-los com o contexto histórico conhecido e distinguir aquilo que pode representar memória histórica daquilo que parece resultar de elaboração teológica.

Essa precaução metodológica é particularmente importante porque a narrativa da infância ocupa uma posição singular dentro do conjunto da tradição cristã. Marcos, provavelmente o mais antigo dos evangelhos canônicos, não apresenta qualquer narrativa sobre o nascimento de Jesus: começa seu relato com João Batista e o batismo de Jesus. Paulo, embora anterior aos evangelhos, tampouco oferece uma narrativa da infância comparável à de Mateus ou Lucas. Assim, os relatos desenvolvidos sobre a origem de Jesus aparecem relativamente tarde no processo de formação literária do Novo Testamento e assumem funções teológicas bastante específicas. A pesquisa contemporânea tem enfatizado precisamente essa diversidade: as tradições neotestamentárias sobre a origem de Jesus não constituem um único relato progressivamente ampliado, mas diferentes formas de interpretar sua identidade. Mateus constrói uma narrativa fortemente marcada por citações e alusões às Escrituras de Israel, pela figura de Moisés, pela perseguição de Herodes e pela apresentação de Jesus como aquele que realiza a história de Israel; Lucas, por sua vez, articula a infância de Jesus a uma narrativa mais ampla sobre a história de Israel e a expansão futura do cristianismo, utilizando recursos literários que fazem de sua infância uma espécie de prólogo teológico à obra que continuará nos Atos dos Apóstolos. O problema histórico, portanto, não pode ser separado do problema literário: antes de perguntar se determinado acontecimento ocorreu, precisamos compreender por que o evangelista narrou o acontecimento daquela maneira. A investigação recente sobre as narrativas da infância tem justamente deslocado parte da antiga discussão — excessivamente concentrada na historicidade isolada de episódios como a estrela, os magos ou o nascimento virginal — para a análise de sua função narrativa e teológica.

É nesse ponto que surge a primeira grande questão: onde Jesus nasceu? A pergunta parece simples, mas rapidamente se transforma em um problema historiográfico complexo. Mateus inicia sua narrativa afirmando que Jesus nasceu “em Belém da Judéia, no tempo do rei Herodes” (Mt 2,1). A estrutura do relato sugere que Belém já constitui o ambiente residencial da família: os magos chegam à cidade, encontram Jesus em uma casa e, depois da fuga para o Egito e da morte de Herodes, José retorna com Maria e a criança, mas decide estabelecer-se na Galileia por temor de Arquelau. Lucas apresenta uma construção substancialmente diferente. Nele, José e Maria aparecem associados a Nazaré e deslocam-se para Belém em consequência de um recenseamento decretado por Augusto. Jesus nasce durante essa permanência temporária em Belém e, posteriormente, a família retorna para Nazaré. A diferença não é meramente circunstancial. Em Mateus, Belém parece ser o ponto de partida geográfico da narrativa e Nazaré o destino posterior; em Lucas, Nazaré é o ponto de partida e Belém constitui o destino produzido pelas circunstâncias do recenseamento. Essa diferença já havia sido percebida na crítica histórica clássica e permanece central na pesquisa contemporânea. O problema não é simplesmente decidir qual evangelista “errou”, mas reconhecer que cada autor possui uma estratégia narrativa distinta para resolver uma questão que parece ter sido importante para a tradição cristã: como conciliar a identificação de Jesus como “Nazareno” com sua apresentação como descendente de Davi, cuja cidade era Belém.

A hipótese de Nazaré como local de origem possui, nesse contexto, uma característica metodologicamente interessante: ela não apresenta, à primeira vista, a mesma conveniência teológica de Belém. Nazaré era uma localidade galileia de pouca importância e não possuía o capital simbólico associado à cidade de Davi. A tradição posterior identificou Jesus repetidamente com Nazaré ou com o qualificativo “Nazareno”, enquanto Belém aparece especialmente nas narrativas que precisam resolver sua relação com a expectativa davídica. Essa assimetria merece atenção. Zuurmond observa:

“Nazaré, na Galiléia — eis um dado historicamente bastante certo. A cidade e a região não eram muito estimadas; não se recomendariam como lugar de origem de Jesus se não fosse com base na realidade histórica.” (ZUURMOND, Rochus. Procurais o Jesus histórico?, p. 107)

A observação é importante porque toca em um princípio recorrente da historiografia do cristianismo primitivo: uma tradição que apresenta um elemento pouco conveniente à construção apologética pode, em determinadas circunstâncias, possuir maior probabilidade de preservar memória histórica do que uma tradição cuja função teológica é imediatamente evidente. Isso não constitui uma prova de que Jesus nasceu em Nazaré. O argumento é probabilístico e deve permanecer como tal. Nazaré pode ter sido simplesmente o lugar onde Jesus cresceu; a existência de uma tradição antiga que o identifica como nazareno não elimina logicamente a possibilidade de um nascimento em Belém. Mas, quando essa tradição é confrontada com as divergências internas de Mateus e Lucas e com a função messiânica atribuída a Belém, a hipótese precisa ser investigada em vez de simplesmente pressuposta.


Belém e a tradição messiânica

A importância de Belém para o problema não pode ser compreendida sem considerar sua relação com a tradição davídica. Belém não é apenas uma pequena localidade da Judeia: é a cidade de Davi e, portanto, possui enorme valor simbólico para qualquer narrativa que pretenda apresentar Jesus como o messias davídico. Mateus explicita essa conexão quando os sacerdotes e escribas consultados por Herodes recorrem à tradição profética para localizar o nascimento do governante esperado em Belém. Lucas realiza a mesma associação de maneira diferente, ao identificar José como pertencente à “casa e família de Davi” e ao fazer com que essa genealogia produza seu deslocamento para Belém. A função narrativa é, em ambos os casos, semelhante: Jesus deve nascer na cidade de Davi porque sua identidade messiânica exige uma vinculação com Davi. A questão histórica, então, sofre uma inversão decisiva. Em vez de perguntar simplesmente “Jesus nasceu em Belém porque Mateus e Lucas dizem que nasceu?”, devemos perguntar: qual era a necessidade teológica de afirmar que Jesus nasceu em Belém? E, posteriormente, se essa necessidade teológica poderia ter operado sobre uma tradição histórica anterior, modificando-a ou reorganizando-a.

Essa questão torna-se particularmente interessante quando observamos que as genealogias também apresentam dificuldades próprias. Mateus faz José descender de Jacó (Mt 1,16), enquanto Lucas o apresenta como filho de Eli (Lc 3,23). As duas genealogias diferem substancialmente em sua composição e possuem funções literárias distintas. Isso é particularmente relevante porque ambos os evangelistas sabem que, segundo sua própria teologia, José não é o pai biológico de Jesus. Ainda assim, a genealogia masculina desempenha função decisiva. Ela fornece a Jesus uma inserção formal na história de Israel e, sobretudo, na linhagem davídica. Em Mateus, a genealogia é cuidadosamente organizada em três grupos de quatorze gerações; em Lucas, a sequência é mais extensa e organizada de maneira diferente. Não devemos, portanto, tratá-las como se fossem registros civis destinados a solucionar uma questão biológica. São construções genealógicas teologicamente orientadas. A própria divergência entre elas revela que a questão fundamental para os evangelistas não era produzir uma certidão genealógica moderna, mas afirmar a identidade de Jesus dentro da história sagrada de Israel.

Nesse sentido, permanece particularmente pertinente a observação de Crossan:

“A terceira digressão diz respeito a A Concepção Virginal de Jesus e Da Linhagem de Davi, dois complexos bem atestados que, no entanto, não nos dão nenhuma informação biográfica sobre o Jesus histórico” (CROSSAN, p. 409).

A afirmação deve, contudo, ser utilizada com alguma cautela. Dizer que determinada tradição não fornece informação biográfica segura não significa necessariamente que ela seja uma invenção arbitrária. Uma tradição pode revelar muito sobre a forma como uma comunidade interpretava um personagem e, simultaneamente, pouco sobre sua biografia. Esse princípio é fundamental para o estudo das narrativas da infância. A pergunta “o que aconteceu?” precisa ser acompanhada da pergunta “o que essa narrativa pretendia significar?”. O nascimento em Belém, nesse sentido, pode ter adquirido importância precisamente porque funcionava como elemento de uma cristologia davídica. A existência dessa função teológica não demonstra automaticamente que o acontecimento seja histórico; mas também não permite concluir automaticamente que seja fictício. O historiador precisa examinar o conjunto das evidências.


O problema de Quirino

É no relato de Lucas que surge a dificuldade histórica mais conhecida. Segundo Lucas 2,1-2, um decreto de César Augusto teria determinado um recenseamento de “todo o mundo”, sendo esse o primeiro recenseamento realizado quando Quirino governava a Síria. José, por pertencer à casa de Davi, teria então se deslocado de Nazaré para Belém. O problema é cronológico: o recenseamento de Quirino conhecido por outras fontes ocorreu quando a Judeia passou ao domínio direto de Roma, após a deposição de Arquelau, em 6 d.C.; Herodes, entretanto, morreu em 4 a.C. A diferença é de aproximadamente dez anos. Essa dificuldade é antiga e permanece objeto de discussão acadêmica. A pesquisa contemporânea não é absolutamente unânime quanto às possibilidades de solução: há quem sustente que Lucas confundiu acontecimentos; há quem proponha uma tradução ou interpretação alternativa do grego; há quem suponha um recenseamento anterior; e há quem entenda que a dificuldade simplesmente não pode ser resolvida com os dados atualmente disponíveis.

A dificuldade histórica não termina na cronologia. O próprio mecanismo do recenseamento descrito por Lucas suscita questões. O texto pressupõe que José deveria deslocar-se para Belém porque pertencia à casa de Davi, aproximadamente mil anos depois do reinado de Davi. A lógica administrativa romana conhecida a partir de documentação egípcia e de outras evidências não corresponde facilmente a esse procedimento. Recenseamentos estavam associados fundamentalmente à administração fiscal e à identificação das pessoas em suas localidades de residência e atividade econômica. Isso não significa que deslocamentos nunca tenham ocorrido, nem que seja impossível imaginar procedimentos administrativos extraordinários, mas torna problemática a ideia de uma obrigação geral de retorno à cidade ancestral de uma linhagem remota. A documentação disponível permite conhecer práticas censitárias variadas e recomenda evitar afirmações excessivamente absolutas sobre aquilo que os romanos “sempre” faziam. O debate, portanto, não está encerrado.

É nesse contexto que deve ser considerada a observação de Crossan:

“as pessoas eram recenseadas, de acordo com o costume romano, em seu local de domicílio ou trabalho, e nunca no lugar em que nasceram. Isso é uma questão de senso comum. O objetivo do senso era a taxação; registrar as pessoas no seu local de origem, ao invés de no lugar em que trabalhavam, seria o pesadelo de qualquer burocrata.” (CROSSAN, John Dominic. O Jesus histórico, p. 410)

A formulação de Crossan permanece útil como crítica à leitura literal do mecanismo narrado por Lucas, embora a expressão “nunca” deva ser recebida com a prudência exigida pela documentação administrativa romana. A pesquisa posterior mostrou que há maior complexidade nas práticas de recenseamento do que uma fórmula rígida permitiria supor. Isso, entretanto, não elimina o problema principal: não possuímos evidência independente de um recenseamento imperial de Augusto que tenha obrigado José a viajar de Nazaré a Belém por ser descendente de Davi. Ao contrário, possuímos documentação relativamente clara acerca do recenseamento de 6 d.C. associado a Quirino, o que torna inevitável a questão cronológica.

Uma possibilidade discutida na literatura é que Lucas estivesse se referindo a algum recenseamento anterior ou a um procedimento administrativo diferente daquele registrado por Josefo. Essa hipótese não é simplesmente absurda. Estudos contemporâneos continuam examinando a possibilidade de que a construção gramatical de Lucas 2,2 permita alguma diferenciação entre o recenseamento mencionado e aquele posteriormente associado a Quirino. Do mesmo modo, outros estudos procuram explicar a dificuldade mediante diferentes interpretações da relação entre Quirino e o recenseamento. Isso significa que a conclusão “Lucas simplesmente errou” é possível, mas não deve ser apresentada como a única hipótese acadêmica existente.

Ainda assim, a dificuldade permanece. O fato de existirem tentativas de harmonização não equivale à demonstração de que uma delas seja historicamente correta. A questão precisa ser formulada de modo mais rigoroso: há evidência positiva suficiente para reconstruir um recenseamento anterior que explique a narrativa de Lucas? Até o momento, a resposta não é suficientemente forte para transformar essa possibilidade em certeza histórica. O debate reconhece que o problema permanece controverso. Há estudiosos que consideram possível que o recenseamento de Lucas não seja o famoso recenseamento de 6 d.C., mas um recenseamento anterior hoje não documentado; outros entendem que a narrativa resulta de uma tentativa literária de relacionar o nascimento de Jesus a Belém mediante um mecanismo administrativo conhecido.


Mateus, Herodes e o Egito

Se Lucas apresenta problemas históricos associados ao recenseamento, Mateus apresenta uma arquitetura narrativa igualmente problemática quando confrontada com Lucas. Para Mateus, a família encontra-se em Belém; depois da visita dos magos, Herodes determina a morte das crianças da região; José recebe em sonho a ordem de fugir para o Egito; posteriormente, depois da morte de Herodes, retorna à terra de Israel, mas, por temer Arquelau, estabelece-se na Galileia, em Nazaré. Lucas não conhece absolutamente nada dessa fuga para o Egito. Em seu relato, depois de cumpridos os ritos associados ao nascimento, José, Maria e Jesus retornam a Nazaré. Não existe espaço narrativo para a permanência prolongada no Egito.

Essa diferença é importante porque demonstra que não estamos simplesmente diante de dois autores que preservaram independentemente o mesmo conjunto de memórias. Cada evangelista possui uma narrativa própria. Mateus organiza a infância de Jesus em paralelo com a história de Israel: a ameaça de Herodes evoca a ameaça do faraó; a fuga para o Egito e o retorno à terra prometida estabelecem paralelos com Moisés e com o êxodo; a presença de citações escriturísticas transforma os acontecimentos em cumprimento de uma história anteriormente narrada pelas Escrituras. Lucas, por outro lado, constrói uma narrativa marcada por paralelos entre João Batista e Jesus e por uma progressiva expansão do horizonte da salvação. A ausência, em Lucas, da fuga para o Egito não constitui simplesmente uma omissão casual: revela que a tradição de Mateus desempenha uma função teológica específica dentro de sua narrativa.

É justamente por isso que a discussão sobre a historicidade precisa evitar dois extremos. O primeiro seria aceitar integralmente a narrativa, supondo que cada detalhe tenha sido transmitido como memória ocular. O segundo seria considerar que, porque Mateus organiza seus acontecimentos teologicamente, tudo seja necessariamente invenção. Nenhuma dessas conclusões decorre automaticamente do texto. A crítica histórica trabalha com probabilidades e convergências. Alguns elementos podem remontar a tradições antigas; outros podem ser elaboração do evangelista; outros ainda podem combinar memória histórica e interpretação teológica. O trabalho consiste em determinar, para cada elemento, qual hipótese possui maior poder explicativo.

Essa cautela é particularmente necessária diante da afirmação de Koester:

“Alguns dados externos da vida de Jesus são visíveis como blocos irregulares da tradição. Ele deve ter vindo da cidade galiléia de Nazaré, no norte da Palestina, onde nasceu e cresceu (seu nascimento em Belém é uma ficção teológica posterior que procurou ligar Jesus à cidade de Davi)” (KOESTER, Helmut. Introdução ao Novo Testamento: história e literatura do cristianismo primitivo, p. 86).

A expressão “ficção teológica” é forte e não representa necessariamente um consenso acadêmico. É mais prudente falar em construção teológica, pois essa categoria permite reconhecer a intenção interpretativa do evangelista sem pressupor automaticamente que ele tenha inventado deliberadamente uma informação falsa. A diferença é metodologicamente importante. Um autor antigo podia construir uma narrativa teológica a partir de tradições que considerava verdadeiras, combinar tradições independentes ou interpretar acontecimentos reais por meio de categorias escriturísticas. A reconstrução histórica precisa deixar abertas essas possibilidades.


Nazaré e Belém

É justamente nesse ponto que a tradição de Nazaré ganha importância. Jesus é identificado repetidamente no Novo Testamento como “Nazareno” ou “de Nazaré”. Essa designação aparece não apenas em uma única narrativa de infância, mas em diferentes camadas da tradição cristã. O fenômeno merece atenção porque, se Belém tivesse sido universalmente reconhecida como local de nascimento desde o início, seria necessário explicar por que a identificação de Jesus com Nazaré permaneceu tão forte. Lucas chama Nazaré de lugar onde Jesus foi criado; Mateus explica sua chegada à cidade por circunstâncias posteriores; Marcos, que não apresenta narrativa da infância, começa sua história com Jesus vindo da Galileia e posteriormente o associa diretamente a Nazaré. A tradição, portanto, apresenta uma forte concentração da memória pública de Jesus na Galileia e em Nazaré, enquanto Belém aparece especialmente como local necessário à construção de sua identidade messiânica.

Essa diferença é reforçada pelo fato de que a cidade de Nazaré era pouco prestigiosa. O dado é importante justamente porque não constitui uma escolha evidente para uma construção apologética. Um autor interessado em produzir uma origem gloriosa para Jesus teria razões para preferir uma cidade como Jerusalém ou Belém. Nazaré, ao contrário, precisava ser explicada. A pergunta “De Nazaré pode sair algo de bom?” expressa, no próprio Evangelho de João, a percepção de que a origem nazarena podia ser considerada problemática (Jo 1,46). Isso sugere que a associação de Jesus a Nazaré não foi uma escolha particularmente conveniente para uma construção apologética. Pode, portanto, possuir peso histórico significativo quando considerada em conjunto com outros dados da tradição.

Vermes formula essa cautela da seguinte maneira:

“Jesus viveu na Galiléia, uma província governada, no decorrer de sua vida, não pelos romanos, mas por um filho de Herodes, o Grande. Sua cidade natal foi Nazaré, um lugar insignificante que não mereceu referências de Josefo, do Mishnah, nem do Talmude, e cuja primeira menção fora do Novo Testamento é uma inscrição de Cesaréia datada do século III ou IV. É incerto se ele nasceu em Nazaré ou alhures. De todo modo, a lenda de Belém é altamente suspeita.” (VERMES, Geza. Jesus e o mundo do Judaísmo. São Paulo: Loyola, 2007, p. 13)

A formulação de Vermes é mais equilibrada em sua última frase do que algumas interpretações posteriores poderiam sugerir. Ele não afirma categoricamente que Jesus nasceu em Nazaré; afirma que é incerto se nasceu ali ou em outro lugar, ao mesmo tempo em que considera altamente suspeita a tradição de Belém. Essa distinção deve ser preservada. Historicamente, “Jesus nasceu em Nazaré” e “não temos evidência suficiente para afirmar que nasceu em Belém” são proposições diferentes. A segunda pode ser sustentada com maior segurança do que a primeira. O rigor histórico exige que não preenchamos uma lacuna documental com uma certeza que as fontes não permitem.


A historicidade das narrativas da infância

A posição de Zuurmond é ainda mais radical:

“Seria difícil tirar outra conclusão senão esta: que a credibilidade dessas narrativas é nula. [...] Os evangelistas, cada um de seu modo, cuidam de harmonizar esses prelúdios a sua concepção teológica. São narrativas com teor querigmático, não relatos históricos” (ZUURMOND, p. 108).

A formulação é importante porque identifica corretamente o caráter querigmático das narrativas, mas a expressão “credibilidade nula” precisa ser utilizada com cautela dentro da discussão acadêmica atual. A historiografia contemporânea não costuma considerar necessário escolher entre “relato histórico” e “teologia”. Uma narrativa pode possuir intenção teológica e ainda preservar elementos históricos. Essa questão aparece de maneira especialmente interessante no debate em torno de Raymond Brown. Gregory W. Dawes observou que a análise de Brown sobre as narrativas da infância não permite simplesmente escapar da questão da historicidade, pois, se os evangelistas apresentam seus relatos como narrativas referentes a acontecimentos efetivos, então a investigação de sua intenção teológica não elimina a pergunta histórica.

Essa observação é fundamental para nosso argumento. Não devemos cometer o erro de substituir um literalismo ingênuo por um reducionismo igualmente ingênuo. Dizer que Mateus e Lucas escreveram teologia não significa dizer que nada do que escreveram aconteceu. Da mesma forma, reconhecer que seus relatos possuem pretensão histórica não significa aceitar todos os seus elementos como fatos estabelecidos. O problema é justamente separar os níveis.

As narrativas de infância são, portanto, documentos particularmente importantes para a história das primeiras comunidades cristãs porque mostram como a identidade de Jesus foi retrospectivamente construída a partir de categorias judaicas, messiânicas e escriturísticas. A questão de Belém não é isolada. Ela participa de um conjunto maior que inclui a genealogia davídica, a concepção virginal, a estrela, os magos, Herodes, o Egito, os sonhos de José e as citações das Escrituras. Esses elementos funcionam conjuntamente para responder a uma pergunta cristológica: quem é Jesus? A resposta dada por Mateus e Lucas é, entre outras coisas, que ele é o messias davídico prometido por Israel, e o nascimento em Belém constitui uma das peças dessa resposta.


O problema histórico

Chegamos, então, à questão que estava na origem da investigação: podemos afirmar historicamente que Jesus nasceu em Belém? A resposta mais rigorosa precisa ser formulada com maior precisão. Não dispomos de evidência histórica independente suficiente para estabelecer o nascimento em Belém como fato seguro. A tradição possui importância teológica evidente e está presente tanto em Mateus quanto em Lucas, o que não deve ser ignorado. Entretanto, os dois relatos apresentam arquiteturas tão diferentes que sua concordância quanto a Belém não pode ser tratada automaticamente como a confirmação independente de duas testemunhas. Ao contrário, é necessário investigar se ambos poderiam estar respondendo a uma tradição comum, a uma exigência messiânica ou a uma construção cristológica semelhante.

Por outro lado, a associação de Jesus com Nazaré possui características que merecem peso histórico: aparece amplamente na tradição cristã, não depende exclusivamente das narrativas de infância e corresponde ao ambiente galileu no qual Jesus desenvolveu sua atividade pública. A preferência por Nazaré como local de origem não pode, contudo, ser elevada ao nível de certeza absoluta. O resultado historicamente mais prudente é assimétrico: podemos considerar altamente provável que Jesus tenha sido criado em Nazaré e tenha sido conhecido como nazareno; não podemos determinar com a mesma segurança o local de seu nascimento. A tradição de Belém permanece historicamente possível, mas é acompanhada por problemas cronológicos e literários importantes.

A dificuldade do recenseamento de Lucas permanece como uma das principais razões para essa cautela. A pesquisa acadêmica continua discutindo se Lucas confundiu o recenseamento de 6 d.C. com o nascimento ocorrido durante o reinado de Herodes, se conhecia uma tradição administrativa anterior, se sua formulação grega pode admitir uma cronologia alternativa ou se o recenseamento funciona, em alguma medida, como mecanismo narrativo destinado a deslocar uma família residente em Nazaré para Belém. Não há consenso suficiente para transformar qualquer dessas possibilidades em solução definitiva.

Por isso, a conclusão precisa ser mais sofisticada do que a afirmação de que “Jesus não nasceu em Belém”. Essa afirmação é mais forte do que a evidência permite. O que podemos afirmar é que a tradição do nascimento em Belém apresenta dificuldades históricas significativas e que sua função teológica — vincular Jesus à cidade de Davi e, consequentemente, à expectativa messiânica — é evidente. A hipótese de que Belém seja uma construção teológica destinada a resolver o problema da messianidade davídica possui forte plausibilidade dentro de determinadas correntes da crítica histórica, mas não pode ser apresentada como fato demonstrado. Do mesmo modo, a hipótese de que Jesus tenha nascido em Nazaré permanece possível e talvez historicamente provável, mas também não pode ser transformada em certeza documental.

A conclusão de Crossan ajuda a definir precisamente o limite daquilo que podemos extrair dessas tradições:

“A terceira digressão diz respeito a A Concepção Virginal de Jesus e Da Linhagem de Davi, dois complexos bem atestados que, no entanto, não nos dão nenhuma informação biográfica sobre o Jesus histórico” (CROSSAN, p. 409).

A questão decisiva, portanto, não é simplesmente escolher entre Belém e Nazaré. É compreender como e por que Belém entrou na memória cristã sobre Jesus. Se a cidade de Davi funcionava como peça essencial da construção messiânica, então o nascimento em Belém pode ter sido utilizado para responder a uma necessidade cristológica muito específica: explicar como um homem conhecido como Jesus de Nazaré poderia ser apresentado como o Messias davídico. Nesse sentido, a tradição de Belém pode revelar menos sobre a geografia biográfica de Jesus do que sobre o processo pelo qual seus seguidores interpretaram sua identidade depois de sua morte.


Conclusão: de Nazaré a Belém

A investigação conduz, portanto, a uma conclusão que é simultaneamente mais modesta e mais interessante. Não podemos simplesmente afirmar que Jesus nasceu em Belém porque Mateus e Lucas o dizem; tampouco podemos afirmar categoricamente que nasceu em Nazaré. O que podemos fazer é reconstruir diferentes graus de probabilidade. Nazaré possui forte densidade histórica enquanto lugar associado à vida pública e à formação de Jesus. Belém possui forte densidade teológica enquanto cidade de Davi e lugar adequado à apresentação de Jesus como messias. Mateus constrói uma narrativa na qual Belém aparece como lugar de nascimento e Nazaré como destino posterior; Lucas faz o movimento inverso, partindo de Nazaré e utilizando o recenseamento para conduzir a família a Belém. A cronologia de Lucas, quando relacionada ao recenseamento de Quirino conhecido por fontes externas, permanece problemática. E a tradição de Belém não encontra confirmação independente suficiente para que possa ser tratada como dado biográfico estabelecido.


ElementoMateusLucasAvaliação histórica
Local de nascimentoBelémBelémTradição antiga, mas com função teológica evidente
Residência associada à famíliaBelém → NazaréNazaré → Belém → NazaréDivergência narrativa significativa
Relação com DaviGenealogia e BelémGenealogia e deslocamento a BelémForte função messiânica
HerodesCentral na narrativaPresente apenas na cronologia inicialPersonagem historicamente atestado; episódios narrados por Mateus não confirmados independentemente
QuirinoAusenteFundamental para o deslocamento a BelémGrave problema cronológico
RecenseamentoAusenteMotor narrativo da viagemHistoricidade controversa
NazaréDestino da famíliaLocal de residência e retornoForte presença na tradição sobre Jesus
BelémCidade de nascimento e DaviCidade de nascimento e DaviPossível tradição histórica, mas teologicamente altamente funcional


O resultado dessa análise não permite concluir simplesmente que “Jesus não nasceu em Belém”. A conclusão historicamente mais defensável é outra: o nascimento em Belém não pode ser estabelecido com segurança histórica a partir das evidências disponíveis e encontra dificuldades relevantes nas próprias narrativas que o preservam. Isso não é pouco. Ao contrário, desloca a questão para um terreno muito mais produtivo: o estudo da formação da memória cristã sobre Jesus. Se Belém não pode ser demonstrada historicamente, sua importância passa a residir precisamente naquilo que ela representa. A cidade de Davi funciona como uma coordenada teológica dentro da narrativa de uma comunidade que precisava explicar por que o homem conhecido como Jesus de Nazaré deveria ser reconhecido como o Cristo.

E talvez seja justamente aí que o problema do nascimento de Jesus se torne historicamente mais interessante. A questão deixa de ser apenas “onde nasceu Jesus?” e passa a ser “por que os primeiros cristãos precisaram dizer que Jesus nasceu em Belém?”. Essa segunda pergunta nos conduz diretamente ao coração da formação da cristologia primitiva. O nascimento em Belém, a genealogia davídica, a concepção virginal e as releituras das Escrituras não são elementos independentes: fazem parte de um processo pelo qual a memória de um personagem histórico foi reorganizada à luz das categorias messiânicas disponíveis no judaísmo do período. A pesquisa contemporânea sobre as narrativas da infância continua precisamente nesse ponto: compreender como memória, tradição, literatura e teologia se entrelaçam na construção das narrativas sobre as origens de Jesus.

Assim, a hipótese que melhor preserva simultaneamente a força do argumento e o rigor da investigação histórica pode ser formulada da seguinte maneira: Jesus foi inequivocamente associado a Nazaré e à Galileia, enquanto Belém aparece nas narrativas da infância como o lugar que permite inscrever sua origem na tradição davídica. A historicidade dessa localização permanece possível, mas não demonstrável; sua função teológica, ao contrário, é claramente identificável. O problema não está, portanto, simplesmente em decidir entre dois lugares. Está em reconhecer que os evangelistas estão fazendo algo mais complexo do que registrar um nascimento: estão interpretando esse nascimento. E, ao fazê-lo, transformam uma questão geográfica — Nazaré ou Belém — em uma afirmação teológica muito mais ampla: Jesus de Nazaré é o Cristo, filho de Davi, e sua história precisa ser lida como cumprimento da história de Israel.



Referências

BROWN, Raymond E. The birth of the Messiah: a commentary on the infancy narratives in Matthew and Luke. New York: Doubleday, 1993.

CROSSAN, John Dominic. O Jesus histórico: a vida de um camponês judeu do Mediterrâneo. Rio de Janeiro: Imago, 1994.

DAWES, Gregory W. Why historicity still matters: Raymond Brown and the infancy narratives. Pacifica, v. 19, n. 2, p. 156–176, 2006.

HUEBNER, Sabine R. “In those days a decree went out …”. In: Papyri and the Social World of the New Testament. Cambridge: Cambridge University Press, 2019. p. 31–50.

KOESTER, Helmut. Introdução ao Novo Testamento: história e literatura do cristianismo primitivo. São Paulo: Paulus, 2005.

MOSSHAMMER, Alden A. The Easter Computus and the Origins of the Christian Era. Oxford: Oxford University Press, 2008.

THORLEY, John. The nativity census: what does Luke actually say? Greece & Rome, v. 26, n. 1, p. 81–84, 1979.

VERMES, Geza. Jesus e o mundo do Judaísmo. São Paulo: Loyola, 2007.

ZUURMOND, Rochus. Procurais o Jesus histórico?. São Paulo: Paulus, [s.d.].



sexta-feira, 21 de novembro de 2008

Esta é uma questão para lá de intrigante e até hoje nunca apareceu uma resposta convincente sobre como Noé fez para capturar os bichos e os colocar dentro de sua arca! Bom, eu disse — até hoje...

quinta-feira, 20 de novembro de 2008





Não posso deixar de comentar a notícia publicada pelo New York Times sobre uma descoberta arqueológica extraordinária na região da atual Turquia, onde fica a cidade de Zincirli — local da antiga cidade de Sam’al. Trata-se de uma estela funerária do século VIII a.C., pertencente a um indivíduo chamado Kuttamuwa, funcionário ligado ao rei Panamuwa. A descoberta foi realizada pela equipe do Oriental Institute da Universidade de Chicago e tornou-se particularmente importante porque a estela foi encontrada em seu contexto arqueológico original. Kuttamuwa mandou preparar o monumento ainda em vida e determinou que ele fosse colocado em sua “câmara eterna”. Ali deveria ser realizado um banquete, com sacrifícios destinados a diversas divindades e, de maneira especialmente interessante, um carneiro para sua nbš, que estaria na própria estela. A inscrição completa pode ser consultada no excelente arquivo do Zincirli Archaeological Project, que reúne fotografias, transcrição e tradução do documento.

Para aqueles que não sabem, a crença corrente entre os povos semíticos sobre o post-mortem era bastante mais complexa do que muitas vezes imaginamos. No caso dos antigos israelitas e judaítas, por exemplo, encontramos a concepção do Sheol como domínio dos mortos. Mas é preciso cuidado para não transformar essa tradição em uma espécie de doutrina comum a todos os povos semíticos. O antigo Oriente Próximo era culturalmente muito diversificado, e diferentes sociedades desenvolveram diferentes maneiras de compreender a morte, o corpo, os ancestrais e aquilo que permanecia do indivíduo depois da morte. A estela de Sam’al é particularmente interessante justamente porque nos apresenta uma dessas concepções de maneira excepcionalmente explícita.

O texto diz:

“Eu, Kuttamuwa, servo de Panamuwa, sou aquele que fez preparar esta estela para mim mesmo enquanto ainda estava vivo. Eu a coloquei em minha câmara eterna e estabeleci um banquete nesta câmara: um touro para Hadad, um carneiro para Shamash e um carneiro para minha nbš que estará nesta estela.”

A tradução e a documentação arqueológica podem ser consultadas diretamente no projeto oficial de Zincirli. A expressão fundamental é nbš. Ela pertence ao universo linguístico semítico e é cognata do hebraico nefesh. É justamente aqui que começa a parte mais interessante da história. A nbš de Kuttamuwa não é apresentada simplesmente como algo que desaparece junto com o corpo. A inscrição estabelece que ela estará associada à estela e que receberá uma oferenda. O monumento, portanto, não é simplesmente uma lápide destinada a informar aos vivos que Kuttamuwa morreu. Ele constitui o lugar no qual alguma dimensão da pessoa morta continua presente.

A representação pictórica da estela é também impressionante. Kuttamuwa aparece como um indivíduo barbado, sentado diante de uma mesa, com alimentos e bebida. A imagem pode ser vista em alta resolução no material disponibilizado pelo Oriental Institute. Mais importante ainda, a estela não foi encontrada isoladamente. Ela estava associada a uma pequena estrutura funerária, onde foram identificados restos de animais e outros vestígios relacionados às práticas realizadas naquele espaço. Temos, portanto, uma combinação extraordinária: o morto é representado na pedra; seu nome está gravado na pedra; sua nbš é associada à pedra; e os vivos devem retornar àquele lugar para realizar oferendas.

Uma outra variante da notícia pode ser encontrada no arquivo da EurekAlert! sobre a descoberta. Quando a descoberta veio a público, uma das interpretações mais impressionantes era justamente a possibilidade de que estivéssemos diante de uma concepção segundo a qual a alma se separava do corpo e passava a residir na estela. A leitura parecia extraordinária. Encontrávamos, no século VIII a.C., numa cultura do norte da Síria, uma ideia que parecia muito próxima daquilo que posteriormente chamaríamos de separação entre corpo e alma.

É aqui, porém, que precisamos atualizar um pouco aquilo que escrevi originalmente. A interpretação continua possível, mas hoje devemos ser mais cautelosos. Alguns pesquisadores questionaram se nbš precisa necessariamente significar uma “alma” incorpórea no sentido filosófico que posteriormente encontramos em autores gregos. Existe a possibilidade de que o termo esteja relacionado à própria presença, imagem ou representação do morto no monumento. A discussão é importante porque não precisamos transformar Kuttamuwa num “platônico antes de Platão” para reconhecer a extraordinária novidade do documento. O que a estela demonstra com segurança é que alguma dimensão fundamental da identidade de Kuttamuwa continuaria associada ao monumento depois de sua morte e seria objeto de práticas rituais.

Tal descoberta é realmente desconcertante para as concepções excessivamente simplificadas sobre o post-mortem entre os antigos povos do Oriente Próximo. A concepção judaica antiga, por exemplo, não pode ser reduzida simplesmente à ideia de uma “alma imortal” no sentido posterior. O Sheol aparece na Bíblia Hebraica como o domínio dos mortos, embora as concepções sobre ele variem bastante conforme o período e o texto. Posteriormente, sobretudo no período do Segundo Templo, surgirão novas formulações sobre ressurreição, julgamento, vida futura e destino individual. O interessante na estela de Sam’al é justamente encontrarmos, séculos antes dessas formulações judaicas tardias, uma concepção segundo a qual alguma dimensão do indivíduo morto permanece presente e recebe alimento ritual.

A ideia de uma vida boa no post-mortem, regada a boa comida e vinho, é realmente um achado inusitado. Mas aqui também precisamos fazer uma pequena correção em relação ao texto original. Não sabemos se Kuttamuwa imaginava uma espécie de “paraíso” depois da morte. O que sabemos é que sua estela estabelece um banquete funerário e determina oferendas à sua nbš. A comida e a bebida fazem parte do ritual de manutenção da relação entre os vivos e o morto. O morto continua, de algum modo, inserido na ordem social. Seus descendentes deverão retornar, realizar as oferendas e manter sua memória. A morte não dissolve completamente a relação entre o indivíduo e sua comunidade.

O autor da estela faz referência a várias divindades. Entre elas encontramos Hadad, importante divindade da tempestade do antigo Oriente Próximo, e Shamash, o grande deus solar mesopotâmico. Isso também é importante porque nos lembra que Sam’al estava localizada numa região de intensa circulação cultural. A cidade não pertencia a um universo cultural isolado. Sua religião combinava elementos aramaicos e anatólios e esteve posteriormente submetida à influência do Império Assírio. Estamos diante, portanto, de uma cultura de fronteira.

Muito do que se fala, por exemplo, sobre as concepções cristãs sobre o post-mortem refere-se à hipótese de uma incorporação de conceitos platônicos, quer nas primeiras gerações de cristãos, através da junção entre filosofia grega e Escrituras, quer no próprio desenvolvimento do pensamento judaico durante o período helenístico. A expansão do mundo grego depois de Alexandre, o Grande, criou efetivamente um enorme espaço de intercâmbio cultural entre Egito, Síria, Palestina, Ásia Menor e Grécia. O contato entre judaísmo e helenismo foi decisivo para a história intelectual posterior. Mas isso não significa que toda ideia de sobrevivência pessoal depois da morte tenha sido simplesmente importada da filosofia grega.

A estela samaliana introduz justamente uma importante correção nessa narrativa. Encontramos ali, vários séculos antes do cristianismo e aproximadamente três séculos antes de Platão, uma cultura do norte da Síria na qual a nbš de um morto permanece associada a uma representação funerária e recebe oferendas. Isso não significa que Platão tenha conhecido Kuttamuwa, obviamente. Também não significa que a concepção samaliana seja idêntica à concepção platônica. Significa apenas que a ideia de alguma forma de continuidade da pessoa depois da morte não pode ser automaticamente explicada como produto da filosofia grega.

A comparação com Platão, aliás, é particularmente instrutiva. No pensamento platônico, a alma é objeto de uma elaboração filosófica extremamente sofisticada: ela possui uma natureza própria, pode ser separada do corpo e está relacionada ao problema do conhecimento, da ética e do destino último do indivíduo. Nada disso encontramos na estela de Kuttamuwa. Não temos uma teoria metafísica da alma. Temos algo muito mais concreto: um homem que manda construir uma imagem de si mesmo, determina que ela seja colocada em sua câmara funerária e estabelece que os vivos deverão alimentar aquilo que chama de sua nbš. Se quisermos utilizar a palavra “alma”, devemos fazê-lo com essa diferença em mente.

É possível, portanto, que a questão mais interessante não seja perguntar simplesmente se Kuttamuwa acreditava numa alma separada do corpo. Talvez devamos perguntar como ele imaginava que sua pessoa continuaria existindo depois da morte. Sua resposta parece envolver simultaneamente corpo, imagem, monumento, memória e ritual. O morto está representado na pedra; seu nome está inscrito na pedra; sua nbš estará associada à pedra; e seus descendentes continuarão a realizar sacrifícios diante dela. A estela transforma-se, assim, em uma espécie de lugar material da continuidade do morto.

Há aqui uma questão que me parece especialmente interessante para a história das religiões. Durante muito tempo, a discussão sobre “alma” foi apresentada como se tivéssemos de escolher entre duas possibilidades: de um lado, povos antigos que acreditariam simplesmente na sobrevivência física do indivíduo; de outro, os gregos, que teriam descoberto a alma como entidade espiritual separada do corpo. A arqueologia não parece confirmar uma divisão tão simples. O antigo Oriente Próximo apresenta inúmeras formas de relação entre mortos e vivos, monumentos funerários, culto aos ancestrais, oferendas, imagens e concepções sobre aquilo que permanece depois da morte. A estela de Kuttamuwa é particularmente preciosa porque conseguimos observar texto e ritual funcionando juntos.

Isso também nos obriga a relativizar a ideia de que a helenização teria simplesmente introduzido no Oriente a noção de alma. A helenização foi, sem dúvida, um fenômeno histórico de enorme importância, mas o contato cultural não significa necessariamente substituição imediata de uma concepção por outra. As culturas antigas não eram recipientes vazios nos quais os gregos despejaram suas ideias. Existiam tradições locais anteriores, que posteriormente dialogaram, combinaram-se e entraram em conflito com conceitos gregos. A história das ideias sobre a morte no judaísmo e no cristianismo é precisamente uma dessas histórias de interação.

É importante ainda lembrar que Sam’al não era uma cultura “semítica pura”. A própria pesquisa arqueológica de Zincirli revela uma sociedade situada numa zona de contato entre diferentes tradições. Isso torna qualquer genealogia simples ainda mais problemática. Não podemos dizer que Kuttamuwa representa “o pensamento semítico” da mesma maneira que não poderíamos dizer que Platão representa “o pensamento grego” em sua totalidade. O valor da estela está justamente em revelar uma concepção específica, em determinado lugar e momento histórico.

A descoberta, portanto, não permite afirmar que “os semitas acreditavam na separação da alma”. Isso seria generalizar indevidamente. Mas permite afirmar algo muito mais interessante: no século VIII a.C., numa sociedade do norte da Síria, encontramos uma concepção segundo a qual algo identificado com a pessoa morta continua associado ao seu monumento funerário e é destinatário de oferendas. E isso ocorre muito antes da formulação filosófica platônica da alma.

A imagem de Kuttamuwa sentado diante da mesa talvez seja, afinal, a melhor síntese de todo o problema. Ele está morto, mas aparece representado comendo e bebendo. Seu corpo já não está ali, mas sua imagem está. Sua voz desapareceu, mas suas palavras permanecem gravadas. Sua vida terminou, mas seu nome continua inscrito. E sua nbš, seja entendida como alma, presença, identidade ou representação, continua vinculada à pedra. O monumento transforma a ausência em presença.

E há uma ironia histórica particularmente interessante. Kuttamuwa morreu há quase três mil anos, mas alguém deixou instruções bastante precisas para que ele continuasse recebendo alimento. Mandou preparar sua estela enquanto ainda estava vivo, colocou-a em sua câmara funerária e determinou os sacrifícios que deveriam ser realizados. Quase três milênios depois, continuamos diante daquela mesma imagem, tentando compreender o que ele imaginava que permaneceria dele depois da morte.

Talvez a estela de Kuttamuwa não nos permita afirmar exatamente o que é uma “alma”. Mas permite algo talvez mais interessante: observar um homem antigo tentando garantir que alguma coisa dele permanecesse depois que seu corpo desaparecesse. E conseguiu.

Para continuar a investigação

O melhor ponto de partida hoje é o próprio Zincirli Archaeological Project, da Universidade de Chicago, porque reúne fotografias, contexto arqueológico, transcrição e tradução da inscrição. Para uma visão arqueológica mais ampla da descoberta, vale também consultar o material do Oriental Institute sobre Zincirli. E, para visualizar o monumento em contexto histórico mais amplo, a página do Metropolitan Museum of Art sobre o antigo Oriente Próximo oferece uma excelente porta de entrada visual.

Esse formato me parece mais próximo do que fizemos no texto “A Arte e as Sinagogas”: o ensaio continua sendo leitura contínua, mas o leitor pode, a qualquer momento, clicar em Kuttamuwa, Sam’al, Zincirli, nbš, Sheol, Hadad, Shamash, Assíria, Platão, helenização, etc., e aprofundar a investigação.

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