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sexta-feira, 28 de agosto de 2026

 




O PROBLEMA DA CONCILIAÇÃO ENTRE DIVINDADE E HUMANIDADE DE CRISTO NOS DOIS PRIMEIROS SÉCULOS

RESUMO

A cristologia cristã dos primeiros séculos precisou enfrentar uma questão que já se encontra nos próprios textos evangélicos: Jesus é apresentado simultaneamente em uma condição extraordinária, associada à filiação divina, e submetido a limitações inequivocamente humanas. Em Mateus 24,36, o Filho não conhece o dia e a hora conhecidos pelo Pai; em Lucas 22,41-44, Jesus experimenta profunda angústia diante da morte e, na tradição que conserva os versículos 43-44, chega a suar como grandes gotas de sangue. Temos, portanto, duas questões distintas, mas intimamente relacionadas: o problema epistemológico do conhecimento limitado do Filho e o problema antropológico da realidade de seu sofrimento. O presente artigo procura investigar essas duas passagens a partir da literatura cristã dos dois primeiros séculos, privilegiando Inácio de Antioquia, Justino Mártir e Irineu de Lião. O objetivo não é transportar para esse período as formulações dogmáticas posteriores, mas procurar compreender de que maneira a tradição cristã antiga começou a enfrentar a tensão produzida entre a elevada identidade atribuída a Jesus e a realidade de sua condição humana. A nosso ver, o problema fundamental não consistia simplesmente em decidir entre a divindade e a humanidade de Cristo, mas em encontrar uma forma de conciliar afirmações que, tomadas isoladamente, produziam dificuldades para a cristologia nascente. A questão da transmissão manuscrita das duas passagens será examinada em artigo posterior.

Palavras-chave: cristologia; Jesus Cristo; Mateus 24,36; Lucas 22,41-44; patrística; encarnação; docetismo.


1 INTRODUÇÃO

Há problemas que a tradição cristã não inventou posteriormente, mas que já estavam contidos nos próprios textos que serviriam de fundamento para sua elaboração cristológica. Uma dessas questões aparece quando colocamos lado a lado duas afirmações aparentemente simples acerca de Jesus: ele não sabe e ele sofre. Em Mateus 24,36, diante da questão escatológica, Jesus afirma que ninguém conhece o dia e a hora, “nem os anjos dos céus, nem o Filho, mas só o Pai”. Em Lucas 22,41-44, no momento que antecede sua prisão, Jesus se afasta dos discípulos, dobra os joelhos, ora ao Pai e pede que, se possível, seja afastado dele aquele cálice. A narrativa o apresenta angustiado diante do futuro que se aproxima; e, na tradição que conserva os versículos 43-44, um anjo aparece para fortalecê-lo e seu suor se torna semelhante a grandes gotas de sangue que caem por terra. Temos, portanto, dois movimentos que parecem colocar a mesma questão sob ângulos diferentes: o Filho que não sabe e o Filho que sofre. Se Jesus é divino, como pode não conhecer aquilo que o Pai conhece? Se Jesus é divino, como pode experimentar uma angústia tão profundamente humana diante da morte? E, se retiramos dele essas limitações para preservar sua divindade, o que resta da humanidade que os mesmos textos parecem afirmar?

Ora, não estamos aqui diante de uma contradição lógica formal já demonstrada. Seria precipitado afirmar que as proposições “Jesus é Deus” e “Jesus não sabe” constituem, por si mesmas, uma contradição, porque isso dependeria das definições utilizadas para “Deus”, “onisciência”, “humanidade” e, sobretudo, da maneira como as propriedades são atribuídas à pessoa de Jesus. Temos, antes, uma dificuldade de natureza cristológica. A questão aparece quando uma tradição que afirma uma condição divina elevada para Jesus precisa, simultaneamente, explicar afirmações e comportamentos que pertencem claramente à experiência humana. Sendo assim, a questão não é simplesmente saber se Jesus era Deus ou homem. A questão mais difícil é outra: como conciliar a divindade e a humanidade de alguém que não sabe tudo, sofre, angustia-se, ora e morre? É justamente essa questão que nos interessa investigar.

A questão torna-se particularmente importante quando observamos que os cristãos dos primeiros séculos não estavam elaborando sua cristologia em um ambiente intelectualmente homogêneo. A identidade de Jesus era objeto de disputa. Diferentes grupos e tradições podiam utilizar os mesmos textos em direções diferentes, conforme as premissas cristológicas que adotavam. Uma afirmação como “nem o Filho” poderia ser lida como evidência de uma inferioridade do Filho em relação ao Pai. A narrativa do Getsêmani, por sua vez, poderia ser utilizada para questionar uma concepção excessivamente elevada da divindade de Jesus. Mas o movimento contrário também era possível. Se Jesus sofre verdadeiramente, se possui carne verdadeira, se experimenta a angústia e a morte, essas mesmas características podem ser utilizadas pelos cristãos para combater aqueles que reduziam sua humanidade a uma aparência. O problema, portanto, não possui apenas uma direção. A mesma humanidade que podia ser utilizada contra a divindade podia também ser utilizada para defender a realidade da encarnação.

Neste sentido, a literatura cristã dos dois primeiros séculos torna-se particularmente importante. Inácio de Antioquia, Justino Mártir e Irineu de Lião pertencem a momentos e contextos diferentes, e não devemos transformá-los em representantes de uma única escola cristológica. Encontramos, entretanto, uma preocupação que atravessa suas argumentações: Jesus não pode ser reduzido a uma aparência de homem. Sua carne, seu sofrimento, sua morte e sua ressurreição precisam ser reais. E essa insistência é particularmente significativa porque demonstra que a afirmação da divindade de Cristo não eliminou a questão da humanidade; ao contrário, quanto mais elevada se torna a identidade atribuída ao Filho, mais urgente se torna explicar o que significa afirmar que ele foi realmente humano.

O recorte deste artigo é deliberadamente restrito. Não entraremos na controvérsia ariana, nem nas formulações conciliares dos séculos IV e V. Também não pretendemos reconstruir toda a história da cristologia antiga. Nosso objetivo é mais específico: investigar o problema produzido por Mateus 24,36 e Lucas 22,41-44 e procurar compreender de que maneira autores cristãos dos dois primeiros séculos responderam à tensão entre a condição divina e a condição humana de Jesus. A questão dos manuscritos, das variantes textuais e da possibilidade de intervenções na transmissão desses textos será tratada separadamente. Aqui nos interessa, antes de tudo, a questão cristológica que os textos colocavam e a maneira como a patrística mais antiga começou a enfrentá-la.



2 O PROBLEMA CRISTOLÓGICO: O FILHO QUE NÃO SABE E O FILHO QUE SOFRE

2.1 Mateus 24,36 e o problema epistemológico

Mateus 24,36 contém uma afirmação de extraordinária força cristológica: acerca daquele dia e daquela hora, ninguém sabe, nem os anjos dos céus, nem o Filho, mas somente o Pai. A passagem não diz simplesmente que Jesus não deseja revelar a informação. O verbo utilizado é o verbo do conhecimento. A questão, portanto, está colocada no próprio texto: há algo que o Pai conhece e que o Filho, naquele momento, não conhece.

Ora, se estivéssemos diante apenas de um mestre humano, não haveria qualquer dificuldade. A ignorância acerca de acontecimentos futuros pertence à condição humana e não exige qualquer explicação especial. Mas a questão muda completamente quando esse mesmo Jesus passa a ser confessado como Filho de Deus em sentido elevado. Surge imediatamente a pergunta: como pode aquele que participa da condição divina desconhecer alguma coisa conhecida pelo Pai? A dificuldade não é criada pela crítica moderna. Ela nasce do encontro entre duas afirmações presentes na tradição cristã: de um lado, a elevada identidade do Filho; de outro, a limitação de seu conhecimento.

Poderíamos dizer que Jesus simplesmente não revelou aquilo que sabia. Mas essa hipótese não resolve o problema textual. “Não saber” não é equivalente a “não revelar”. Poderíamos também afirmar que o Filho não sabe enquanto homem, mas sabe enquanto divino. Essa solução já nos coloca diante de uma distinção muito mais elaborada e que será fundamental para o desenvolvimento posterior da cristologia. Mas precisamos observar a ordem histórica do problema: primeiro existe a tensão; depois surge a necessidade de explicá-la. Não devemos colocar retroativamente nos evangelhos uma solução que só será formulada com maior precisão em períodos posteriores.

O problema epistemológico, portanto, não consiste simplesmente em demonstrar que Jesus era ignorante. Consiste em procurar compreender o que essa ignorância significa dentro de uma tradição que simultaneamente lhe atribui uma relação singular com Deus. A afirmação de Mateus é particularmente desconcertante justamente porque estabelece uma comparação: o Pai sabe; os anjos não sabem; o Filho também não sabe. O texto estabelece, assim, uma diferença de conhecimento entre Pai e Filho que não pode ser simplesmente apagada pela interpretação.

E aqui aparece uma questão que será importante no segundo artigo. A expressão “nem o Filho” possui uma história textual complexa. Alguns testemunhos manuscritos antigos a conservam; outros a omitem. A crítica textual discute se a ausência é resultado de uma alteração posterior ou se a inclusão pode ter ocorrido por assimilação ao paralelo de Marcos 13,32. Não podemos, portanto, partir da hipótese de que os copistas retiraram a expressão para eliminar uma dificuldade cristológica. Essa possibilidade precisa ser demonstrada, e não simplesmente pressuposta (METZGER, 1994). Mas, mesmo deixando provisoriamente de lado a história dos manuscritos, o problema permanece. O texto em que a expressão está presente produz uma dificuldade real para qualquer cristologia que queira atribuir ao Filho uma onisciência absoluta. E é precisamente essa dificuldade que torna Mateus 24,36 tão importante para a história da reflexão cristã.


2.2 Lucas 22,41-44 e o problema antropológico

Se Mateus 24,36 coloca o problema do conhecimento, Lucas 22,41-44 coloca diante de nós o problema do sofrimento. Jesus aproxima-se da morte e não reage como alguém indiferente diante dela. Afasta-se dos discípulos, ajoelha-se e ora: “Pai, se queres, afasta de mim este cálice! Contudo, não a minha vontade, mas a tua seja feita!” (Lc 22,42). A cena já é suficientemente forte sem os versículos 43-44. Jesus sabe que a morte se aproxima e manifesta diante do Pai o desejo de que o cálice seja afastado. Existe aqui uma experiência humana evidente: medo, angústia, sofrimento, vontade de escapar da morte. Mas os versículos 43-44 tornam a narrativa ainda mais intensa. Um anjo aparece para fortalecê-lo e Jesus, estando em agonia, ora com maior insistência; seu suor torna-se semelhante a grandes gotas de sangue que caem por terra.

Ora, pode um ser que concebemos como plenamente divino experimentar dessa maneira a angústia diante do próprio futuro? Pode aquele que não está sujeito às limitações humanas experimentar a necessidade de ser fortalecido por um anjo? Pode alguém que possui conhecimento absoluto acerca do futuro pedir ao Pai que afaste dele o acontecimento que se aproxima? Essas perguntas não demonstram, por si mesmas, uma impossibilidade lógica. Mas demonstram uma dificuldade cristológica de primeira ordem. E aqui está o ponto central: não podemos resolver o problema simplesmente eliminando a humanidade de Jesus. Se a angústia é retirada, se o sofrimento é transformado em aparência, se a morte é apenas uma encenação, então a própria encarnação perde parte fundamental de seu sentido. Um Cristo que parece sofrer, mas não sofre; que parece morrer, mas não morre; que parece possuir carne, mas não possui verdadeiramente carne, não é o mesmo Cristo que encontramos na tradição cristã que se consolidará nos primeiros séculos.

É justamente por isso que Lucas 22 possui uma importância que ultrapassa a narrativa da paixão. A passagem podia ser utilizada contra uma cristologia elevada, mas também podia ser utilizada em defesa da humanidade de Jesus. O sofrimento que aparentemente ameaça sua divindade pode, em outro contexto, tornar-se prova de sua humanidade. A questão textual dos versículos 43-44 torna a questão ainda mais interessante. A tradição manuscrita apresenta testemunhos divergentes, e pesquisadores como Bart D. Ehrman e Mark A. Plunkett dedicaram estudo específico à questão textual da passagem. Isso significa que não podemos simplesmente tomar os versículos como testemunho textual incontestado. Mas também não podemos ignorar o fato de que a tradição correspondente à agonia e ao suor de sangue já era conhecida por autores cristãos do século II. O problema cristológico e o problema textual precisam ser analisados conjuntamente, mas não confundidos (EHRMAN; PLUNKETT, 1983). A particularidade do Getsêmani está justamente na conjugação entre consciência da morte, angústia diante do sofrimento, oração e submissão à vontade do Pai.A crucificação apresenta o sofrimento já consumado; o Getsêmani apresenta o sofrimento em sua dimensão antecipatória, quando Jesus ainda se encontra diante da morte que se aproxima e expressa diante do Pai sua vontade de que o cálice seja afastado. É essa combinação entre consciência do destino, angústia e submissão que torna a cena particularmente relevante para uma cristologia preocupada não apenas em afirmar que Cristo sofreu, mas em compreender como aquele que é confessado como Filho enfrenta humanamente o sofrimento que sabe estar por vir.




3 A PRIMEIRA RESPOSTA CRISTÃ: A REALIDADE DA CARNE

3.1 Inácio de Antioquia: Cristo sofreu verdadeiramente

É justamente neste contexto que Inácio de Antioquia se torna uma testemunha fundamental. Em suas cartas, encontramos uma insistência quase obsessiva na realidade da carne de Cristo, de seu nascimento, de seu sofrimento, de sua morte e de sua ressurreição. Em Aos Esmirnenses, Inácio afirma que Jesus Cristo foi verdadeiramente nascido, verdadeiramente crucificado e que verdadeiramente sofreu (INÁCIO DE ANTIOQUIA, Aos Esmirnenses, 1–2). Não se trata de uma escolha casual de linguagem. Inácio repete o “verdadeiramente” porque seu adversário, em sua construção polêmica, representa precisamente aqueles que não reconhecem a realidade do sofrimento. Para Inácio, Cristo não poderia ter sofrido apenas aparentemente. A realidade da carne é fundamental. Se Cristo não sofreu verdadeiramente, então a própria paixão perde sua realidade; e, se a paixão perde sua realidade, a própria estrutura da salvação cristã é comprometida.

Temos aqui uma inversão muito interessante da questão. Se alguém dissesse que o sofrimento é incompatível com a divindade, poderia utilizar o Getsêmani como argumento contra uma concepção elevada de Cristo. Inácio responde praticamente no sentido contrário: é justamente porque Cristo é o Salvador que seu sofrimento precisa ter sido real. A divindade não elimina a carne; a encarnação exige que a carne seja verdadeira. Em Aos Esmirnenses, Inácio também insiste na realidade corporal do Cristo ressuscitado. Os discípulos puderam tocá-lo e verificar que ele não era um ser incorpóreo. A argumentação está diretamente ligada à realidade da carne que sofreu e ressuscitou. Não temos ainda a terminologia técnica que será desenvolvida séculos depois, mas temos algo talvez mais importante para o nosso propósito: a necessidade de preservar simultaneamente a identidade elevada de Cristo e a realidade concreta de sua humanidade.

Esse dado é fundamental para nossa análise. O cristianismo do início do século II não estava simplesmente tentando provar que Jesus era divino. Estava também tentando provar que aquele que era confessado como divino havia realmente entrado na condição humana. E isso significa sofrer, morrer e possuir carne verdadeira. Não devemos, entretanto, transformar todos os adversários de Inácio em uma categoria homogênea chamada simplesmente “docetistas”. A historiografia contemporânea tem mostrado que o chamado docetismo é um fenômeno mais complexo do que uma doutrina perfeitamente delimitada. Neste artigo, portanto, empregamos “docetismo” em sentido descritivo, e não como designação de uma escola cristológica unificada: trata-se de tendências que, em diferentes graus, relativizavam a realidade da carne, da corporeidade ou do sofrimento de Cristo. O que podemos afirmar com segurança é mais simples e mais importante: a realidade do sofrimento e da carne de Cristo era objeto de disputa no início do século II, e Inácio construiu sua resposta insistindo precisamente nessa realidade (KUREK-CHOMYCZ, 2018).


3.2 Justino Mártir: o Getsêmani como testemunho do sofrimento

Em Justino Mártir encontramos um testemunho particularmente importante porque a tradição do Getsêmani aparece explicitamente em sua argumentação. Em Diálogo com Trifão, 103, Justino menciona a oração de Jesus e o suor semelhante a gotas de sangue. O episódio não é apresentado como um detalhe irrelevante da paixão. Justino o utiliza para demonstrar que o Filho realmente experimentou os sofrimentos que lhe sobrevieram (JUSTINO MÁRTIR, Diálogo com Trifão, 103). Ora, aqui temos algo extremamente significativo. Uma tradição que poderia parecer embaraçosa para uma cristologia elevada é transformada em argumento apologético em favor da realidade da humanidade de Cristo. O sofrimento não precisa ser escondido. Ao contrário: ele pode ser utilizado como evidência de que Jesus realmente assumiu a condição humana.

Essa utilização é particularmente importante para nossa hipótese porque mostra que a tradição do Getsêmani já possuía, no século II, uma função dentro da argumentação cristológica. Não estamos afirmando que Justino necessariamente conhecesse os versículos de Lucas exatamente na forma textual que chegou até nós. Essa seria uma conclusão mais forte do que os dados permitem. Podemos afirmar, entretanto, que Justino conhece e utiliza uma tradição correspondente ao conteúdo de Lucas 22,43-44, especialmente a oração de Jesus e a descrição do suor como gotas de sangue. A distinção é metodologicamente importante. A existência de um testemunho patrístico não prova automaticamente a forma exata do texto evangélico que estava diante do autor. Mas demonstra que a tradição do sofrimento de Jesus circulava muito cedo e que podia ser mobilizada em defesa de sua humanidade.

E aqui encontramos novamente a inversão do argumento. Se alguém dissesse: “Jesus sofreu; portanto, não pode ser divino”, Justino poderia responder: “Jesus sofreu; portanto, sua humanidade é real.” A mesma informação pode funcionar como argumento contrário ou favorável dependendo da premissa cristológica adotada. Essa é uma característica fundamental das disputas cristológicas antigas. Os textos não carregavam uma única conclusão teológica obrigatória. Eles eram mobilizados por grupos diferentes em disputas diferentes. A questão não era apenas o que o texto dizia, mas o que poderia ser legitimamente inferido dele.


3.3 Irineu de Lião: a humanidade como condição da encarnação

No final do século II, Irineu de Lião desenvolve a questão em uma construção teológica muito mais abrangente. Para Irineu, a encarnação não é um episódio secundário dentro da economia da salvação. O Filho assume verdadeiramente a humanidade e, ao fazê-lo, torna possível a restauração da própria humanidade. A realidade da carne é, portanto, indispensável. Se o Filho não assumiu verdadeiramente a carne, a salvação não alcança aquilo que precisava ser salvo. Não se trata simplesmente de saber se Jesus parecia humano. Trata-se de saber se a humanidade foi realmente assumida pelo Filho.

É neste contexto que Adversus haereses 3.22.2 ganha importância para nosso problema. Irineu enumera diferentes experiências humanas de Jesus e inclui entre elas a fome, o cansaço, o choro, a tristeza e o suor como gotas de sangue. A tradição do Getsêmani aparece, assim, dentro de uma série de sinais destinados a demonstrar a realidade da carne de Cristo (IRINEU DE LIÃO, Adversus haereses, 3.22.2).

Temos aqui uma formulação que merece atenção. A humanidade não é, para Irineu, uma aparência que precisa ser diminuída para preservar a dignidade do Filho. É justamente aquilo que o Filho assume para realizar a obra da salvação. O sofrimento, portanto, não é um acidente embaraçoso da narrativa. Ele faz parte da realidade da encarnação. Mais uma vez, precisamos evitar a tentação de projetar sobre Irineu as categorias dogmáticas posteriores. Ele não está escrevendo um tratado sobre “duas naturezas” no sentido que essa expressão adquirirá posteriormente. Mas está enfrentando um problema que posteriormente exigirá formulações cada vez mais precisas: como afirmar uma identidade divina para Cristo sem transformar sua humanidade em aparência? A posição de Irineu é inequívoca quanto a um ponto: a humanidade precisa ser real.



4 A DUPLA DIREÇÃO DA CONTROVÉRSIA: DIVINDADE E HUMANIDADE

Temos, portanto, dois movimentos que precisam ser mantidos juntos. O primeiro é o movimento que parte da humanidade de Jesus e questiona sua divindade. Se Jesus não sabe, sofre, chora, angustia-se e morre, como pode ser Deus? O segundo é o movimento inverso: se Jesus é Deus, como pode não saber, sofrer, angustiar-se e morrer? O primeiro movimento ameaça reduzir a divindade; o segundo ameaça dissolver a humanidade. É justamente aqui que aparece aquilo que chamamos de problema da conciliação. A dificuldade não consiste em escolher uma das duas afirmações. Consiste em preservar ambas. A tradição cristã afirma uma identidade extraordinária para Jesus e, ao mesmo tempo, insiste que ele nasceu, possuiu carne, sofreu, morreu e ressuscitou. Quanto mais radicalmente uma dessas dimensões é afirmada isoladamente, maior parece ser o problema produzido pela outra.

E aqui a patrística dos dois primeiros séculos oferece um dado decisivo. Inácio não resolve o problema negando a carne. Justino não resolve o problema negando o sofrimento. Irineu não resolve o problema transformando a humanidade em aparência. Pelo contrário: eles insistem na realidade daquilo que poderia parecer incompatível com uma concepção elevada da divindade. Isso é particularmente importante porque nos permite compreender melhor a função das controvérsias antigas. O cristianismo não estava apenas defendendo uma tese positiva sobre Jesus. Estava também reagindo a interpretações alternativas daquilo que significava ser Cristo. Em determinadas circunstâncias, era necessário defender a divindade; em outras, defender a humanidade. E, frequentemente, era necessário fazer as duas coisas simultaneamente.

A questão de Mateus 24,36 se encaixa nesse quadro, embora com uma dificuldade diferente. A passagem apresenta um problema diretamente relacionado ao conhecimento. Já o Getsêmani coloca a questão da experiência humana. Uma passagem pergunta, em termos implícitos, o que o Filho sabe; a outra pergunta o que o Filho pode sofrer. Em ambos os casos, a resposta cristológica precisa explicar como aquele que é confessado em termos divinos pode experimentar aquilo que pertence à condição humana.

O problema não é meramente semântico. Se “divindade” significar necessariamente onisciência absoluta e ausência de qualquer sofrimento, então Mateus 24,36 e Lucas 22,41-44 criam uma incompatibilidade aparente de grande alcance. Mas se a tradição cristológica admite que a encarnação implica uma condição humana real, a questão passa a ser outra: como propriedades próprias da humanidade podem ser atribuídas ao mesmo Cristo que é confessado como divino? É neste deslocamento que começa a surgir o verdadeiro problema da conciliação.



5 DO PROBLEMA CRISTOLÓGICO AO PROBLEMA TEXTUAL

É justamente neste ponto que nossa investigação precisa mudar de direção. Até aqui, perguntamos: qual é o problema cristológico produzido pelos textos e como os cristãos dos dois primeiros séculos responderam a ele? A partir daqui, precisamos perguntar outra coisa: a própria transmissão dos textos apresenta sinais de que essas dificuldades cristológicas influenciaram sua forma textual? A pergunta é legítima porque as duas passagens possuem histórias manuscritas complexas. Em Mateus 24,36, a expressão “nem o Filho” é omitida em alguns testemunhos. Em Lucas 22,43-44, os dois versículos que intensificam a descrição da agonia estão ausentes em importantes testemunhos antigos e presentes em outros. Temos, portanto, dois casos em que elementos diretamente relevantes para o nosso problema cristológico apresentam variação textual (METZGER, 1994; EHRMAN; PLUNKETT, 1983).

Mas aqui precisamos ser particularmente cuidadosos. Não podemos argumentar da seguinte maneira: “a passagem cria um problema cristológico; existe uma variante; portanto, a variante foi produzida para resolver o problema”. Essa conclusão seria um non sequitur. A existência de uma dificuldade teológica e a existência de uma variante textual são fatos distintos. É necessário demonstrar a relação causal entre ambos.

Da mesma maneira, não podemos assumir que toda alteração textual tenha sido produzida por razões teológicas. Harmonização, acidente de cópia, assimilação, dificuldades linguísticas, omissões involuntárias e outros mecanismos podem explicar variantes. A motivação teológica é uma hipótese entre outras. Por outro lado, seria igualmente precipitado rejeitar de antemão qualquer possibilidade de influência teológica na transmissão textual. Os manuscritos são produzidos por comunidades concretas, por copistas concretos, em ambientes nos quais os textos possuem significado religioso e são utilizados em disputas. A história da transmissão textual não acontece em um laboratório neutro.

Temos, portanto, duas perguntas diferentes que não devem ser confundidas. A primeira é histórica e cristológica: os textos produziram dificuldades para a reflexão cristã antiga? A evidência examinada até aqui permite responder afirmativamente. A segunda é textual: essas dificuldades contribuíram efetivamente para a produção, supressão ou preservação de determinadas variantes? Essa segunda pergunta exige outro conjunto de evidências. É justamente essa distinção que impede que nossa investigação se transforme em uma simples defesa de uma hipótese previamente escolhida. Não estamos dizendo que os copistas alteraram os textos porque os textos eram teologicamente incômodos. Estamos perguntando se existe evidência suficiente para sustentar essa hipótese diante de outras explicações possíveis.



6 CONCLUSÃO: O PROBLEMA ANTES DA SOLUÇÃO

Chegamos, portanto, a uma conclusão que é simultaneamente simples e profunda. Mateus 24,36 e Lucas 22,41-44 colocam diante da cristologia nascente dois problemas diferentes, mas relacionados. Em Mateus, o problema é epistemológico: o Filho não conhece aquilo que somente o Pai conhece. Em Lucas, o problema é antropológico: o Filho sofre, angustia-se diante da morte, ora ao Pai e, na tradição que conserva os versículos 43-44, experimenta uma agonia corporal extraordinária. O Filho não sabe; o Filho sofre. E é justamente essa dupla condição que torna o problema cristológico tão difícil.

Se tomarmos isoladamente a humanidade de Jesus, nada disso constitui uma dificuldade extraordinária. Um homem pode não conhecer o futuro e pode sentir medo diante da morte. A dificuldade nasce quando esse homem é confessado como Filho de Deus. Mas a solução inversa também produz problemas. Se, para preservar sua divindade, retiramos de Jesus a ignorância, a angústia, o sofrimento e a realidade da carne, acabamos produzindo um Cristo cuja humanidade se torna apenas aparente. O problema, portanto, não pode ser resolvido pela eliminação de uma das duas dimensões.

É justamente aqui que Inácio de Antioquia, Justino Mártir e Irineu de Lião se tornam fundamentais. Os três, cada qual em seu contexto, insistem na realidade da carne e do sofrimento de Cristo. Inácio combate uma compreensão na qual o sofrimento poderia ser reduzido à aparência. Justino utiliza a tradição do Getsêmani para demonstrar que o Filho realmente experimentou o sofrimento. Irineu integra a realidade da carne, do sofrimento e da morte de Jesus à própria lógica da encarnação e da salvação. Não encontramos ainda a formulação dogmática posterior, mas encontramos claramente o problema que exigirá essa formulação.

Isso nos permite também compreender de maneira mais precisa a relação entre cristologia e controvérsia. A humanidade de Jesus poderia ser utilizada como argumento contra sua divindade. Mas a mesma humanidade poderia ser utilizada pelos cristãos como argumento contra aqueles que negavam a realidade da encarnação. O sofrimento podia ser um problema para a divindade e, simultaneamente, uma prova da humanidade. A limitação podia ser um argumento contra uma cristologia elevada e, simultaneamente, uma característica que a tradição precisava preservar para que a encarnação fosse verdadeira.

Não devemos, portanto, imaginar que a história da cristologia antiga tenha sido simplesmente uma progressão linear em direção a uma definição posterior. Ela foi, antes, uma história de tensões, respostas, disputas e tentativas de conciliação. O problema estava presente antes de sua solução terminológica. E talvez seja justamente por isso que os textos evangélicos tenham desempenhado papel tão importante: eles preservavam, lado a lado, afirmações que exigiam explicação.

Há, entretanto, uma pergunta que permanece aberta. Se Mateus 24,36 e Lucas 22,43-44 podiam produzir dificuldades cristológicas tão significativas, seria possível que essas dificuldades também tivessem influenciado a transmissão dos textos? A ausência de “nem o Filho” em determinados testemunhos de Mateus seria resultado de uma intervenção motivada pelo constrangimento cristológico? A ausência dos versículos 43-44 em determinados manuscritos de Lucas poderia estar relacionada justamente ao fato de que eles acentuam a humanidade, o sofrimento e a vulnerabilidade de Jesus? Ou devemos procurar explicações textuais independentes dessas disputas? Aqui precisamos interromper o argumento antes de transformar hipótese em conclusão. O problema cristológico está demonstrado; a intervenção textual ainda precisa ser demonstrada. E é exatamente essa passagem que será objeto do segundo artigo: deixar o terreno da lógica cristológica e entrar no terreno da crítica textual. Ali, os manuscritos, as variantes, os copistas e os testemunhos patrísticos deverão ser colocados diante das hipóteses concorrentes. Não para provar antecipadamente que houve manipulação, mas para verificar se os dados permitem sustentar essa possibilidade.

No primeiro movimento de nossa investigação, portanto, podemos afirmar algo com segurança: a tensão entre a divindade e a humanidade de Cristo não é uma construção tardia aplicada artificialmente aos evangelhos. Ela emerge dos próprios textos e já produzia, nos primeiros séculos, um problema que os cristãos precisavam explicar. O Filho que não sabe e o Filho que sofre são, neste sentido, duas faces de uma mesma questão: como pode aquele que é confessado como divino experimentar verdadeiramente os limites da condição humana? É neste problema — e na necessidade de conciliá-lo — que encontramos uma das raízes mais profundas da cristologia cristã.

O segundo artigo que trata dessa mesma temática poderá ser lido aqui.


REFERÊNCIAS

EHRMAN, Bart D.; PLUNKETT, Mark A. The angel and the agony: the textual problem of Luke 22:43-44. Catholic Biblical Quarterly, v. 45, n. 3, p. 401-416, 1983.

INÁCIO DE ANTIOQUIA. Aos Esmirnenses. In: ROBERTS, Alexander; DONALDSON, James (ed.). Ante-Nicene Fathers. Buffalo: Christian Literature Publishing, 1885.

IRINEU DE LIÃO. Against Heresies. In: ROBERTS, Alexander; DONALDSON, James (ed.). Ante-Nicene Fathers. Buffalo: Christian Literature Publishing, 1885.

JUSTINO MÁRTIR. Dialogue with Trypho. Tradução de Thomas B. Falls; revisão de Thomas P. Halton; edição de Michael Slusser. Washington, D.C.: The Catholic University of America Press, 2003.

KUREK-CHOMYCZ, Dominika. “The flesh of our Saviour Jesus Christ, which suffered for our sins”: the early Christian “dying for” formula, suffering, and the Eucharist in IgnSm 7:1. In: VERHEYDEN, Joseph; BIERINGER, René; SCHRÖTER, Jens; JÄGER, Ingo (ed.). Docetism in the Early Church: The Quest for an Elusive Phenomenon. Tübingen: Mohr Siebeck, 2018. p. 197–215.

METZGER, Bruce M. A textual commentary on the Greek New Testament. 2. ed. Stuttgart: United Bible Societies, 1994.

RIBEIRO, Lucas H. G.; PAROSCHI, Wilson. Agony at Gethsemane: a critical-textual study of Luke 22:43–44. Kerygma, Engenheiro Coelho, v. 9, n. 1, p. 53–66, 2013.


 




Existem certas passagens do Novo Testamento que parecem ter sido escritas especialmente para nos colocar em uma situação desconfortável. Não porque sejam difíceis de entender, mas justamente porque, à primeira vista, parecem fáceis demais. Colocamos dois textos lado a lado, lemos aquilo que está escrito e surge imediatamente aquela pergunta incômoda: ora, alguém aqui está dizendo uma coisa diferente da outra.

Na Carta aos Colossenses encontramos uma afirmação bastante curiosa:

“Fostes sepultados com ele no batismo, também com ele fostes ressuscitados, pela fé no poder de Deus, que o ressuscitou dos mortos” (Cl 2,12).

Até aqui, tudo bem. O cristão morreu com Cristo e ressuscitou com Cristo. A formulação parece bastante clara. O problema é que, quando abrimos a Segunda Carta a Timóteo, encontramos uma advertência que parece apontar precisamente para o lado contrário:

“Evita o palavreado vão e ímpio, já que os que o praticam progredirão na impiedade; a palavra deles é como uma gangrena que corrói, entre os quais se acham Himeneu e Fileto. Eles se desviaram da verdade, dizendo que a ressurreição já se realizou, estão pervertendo a fé de vários” (2Tm 2,16-18).

Encontramos aí uma contradição? Porque alguém aparentemente está dizendo que a ressurreição já aconteceu, enquanto o autor de 2Timóteo está dizendo que isso é uma heresia suficientemente grave para ser comparada a uma gangrena. E não é justamente isso que encontramos em Colossenses? Não afirma o autor que os cristãos foram sepultados com Cristo no batismo e que, juntamente com ele, já foram ressuscitados? Se lêssemos os dois textos como se fossem manifestações diretas da mesma voz autoral, o mínimo que poderíamos dizer é que temos um problema.

Na verdade, teríamos um problema bastante curioso. Teríamos Paulo escrevendo aos Colossenses que os cristãos já ressuscitaram com Cristo e, em algum outro momento, escrevendo a Timóteo para condenar como uma perversão da fé justamente a afirmação de que a ressurreição já aconteceu. Poderíamos até imaginar Timóteo, um pouco confuso, perguntando ao apóstolo: “Mas, Paulo, não foi você que disse isso aos Colossenses?”. E Paulo, talvez já cansado das dificuldades da teologia cristã, responderia: “Sim, Timóteo. Mas isso é diferente”. “Diferente como?” “Bem... é complicado.”

E, de fato, é complicado. A dificuldade aumenta quando voltamos às cartas paulinas cuja autenticidade é amplamente reconhecida. Em Romanos 6, Paulo também fala do cristão como alguém que morreu e foi sepultado com Cristo. O batismo representa precisamente essa participação na morte de Jesus: “Fomos, pois, sepultados com ele pelo batismo na morte” (Rm 6,4). Mas, quando Paulo passa a falar da ressurreição, a construção temporal se modifica: “Se nos tornamos uma coisa só com ele por uma morte semelhante à sua, seremos uma coisa só com ele por uma ressurreição semelhante à sua” (Rm 6,5). E acrescenta: “Se morremos com Cristo, cremos que também viveremos com ele” (Rm 6,8).

Aqui aparece uma distinção que será fundamental para o nosso problema. Em Romanos, a morte com Cristo é apresentada como realidade presente, enquanto a ressurreição do cristão aparece projetada para o futuro. Em 1Coríntios 15, essa estrutura se torna ainda mais evidente: Cristo ressuscitou como “primícias dos que morreram” e, depois, virá a ressurreição daqueles que pertencem a Cristo. Existe, portanto, uma sequência temporal relativamente clara: Cristo ressuscitou; os cristãos ainda ressuscitarão.

No entanto, aparece Colossenses. O mesmo universo de linguagem está presente: morte, sepultamento, batismo, Cristo e ressurreição. Só que alguma coisa mudou no caminho. O cristão não apenas morrerá com Cristo; já morreu. Não apenas ressuscitará com Cristo; já ressuscitou. E não se trata de uma afirmação isolada. Em 2,12, o autor afirma que os cristãos foram ressuscitados com ele; em 3,1, retoma a mesma perspectiva: “Se, portanto, ressuscitastes com Cristo, procurai as coisas do alto”. A ressurreição deixa, assim, de ser apenas o acontecimento esperado no fim da história e passa a funcionar como fundamento da própria existência cristã no presente.

É aqui que a questão deixa de ser uma simples curiosidade textual. O que em Romanos aparece como uma realidade ainda futura é apresentado em Colossenses como uma realidade já acontecida. E isso não é uma diferença meramente terminológica. A própria ética de Colossenses depende dessa alteração: o cristão deve procurar “as coisas do alto” precisamente porque já participa, em Cristo, de uma nova condição de existência. A escatologia não desapareceu, mas seu centro de gravidade foi deslocado.

Talvez, portanto, a pergunta inicial esteja errada. Talvez não devêssemos perguntar simplesmente: “Por que Paulo se contradisse?” A pergunta historicamente mais interessante seria outra: “Será que estamos realmente ouvindo Paulo?”


Paulo depois de Paulo





A pergunta torna-se ainda mais interessante quando introduzimos a questão da autoria e da cronologia. Se todas essas cartas fossem necessariamente produtos do mesmo momento histórico e da mesma mão, a contradição exigiria uma explicação interna. Mas essa premissa não corresponde à posição histórico-crítica predominante. Romanos e 1Coríntios pertencem ao conjunto das cartas cuja autenticidade paulina é amplamente reconhecida; Colossenses encontra-se entre as cartas cuja autoria paulina é discutida e que, na reconstrução crítica mais comum, é situada depois da morte de Paulo; e as Cartas Pastorais, entre elas 2Timóteo, são geralmente compreendidas como textos posteriores associados à tradição e à autoridade do apóstolo.

A questão deixa, portanto, de ser simplesmente “o que Paulo disse?” e passa a incluir uma pergunta historicamente mais complexa: o que diferentes autores cristãos fizeram com aquilo que entendiam ser a tradição de Paulo?


Datação e evolução da ideia de ressurreição

TextoData aproximadaAutoridade atribuídaFormulação
1Coríntios53–55 d.C.PauloAinda acontecerá
Romanos56–58 d.C.PauloAinda acontecerá
Colossenses70–90 d.C.Tradição paulinaJá aconteceu em Cristo
Efésios80–100 d.C.Tradição paulinaJá aconteceu em Cristo
2Timóteo90–110 d.C.Tradição paulina posteriorNão aconteceu definitivamente


Quando colocamos esses textos nessa sequência, a cronologia não elimina a tensão. Ela a torna historicamente inteligível. E isso modifica substancialmente o problema. Já não precisamos imaginar um único indivíduo dizendo coisas incompatíveis em momentos diferentes; podemos observar como uma tradição foi recebida, reinterpretada e, eventualmente, utilizada para combater outras interpretações.

Nas cartas autenticamente paulinas, escritas em meados dos anos 50, a expectativa futura da ressurreição permanece fortemente presente. Em 1Coríntios, Cristo é apresentado como as “primícias” daqueles que morreram, e sua ressurreição inaugura aquilo que ainda deverá acontecer aos que lhe pertencem. Em Romanos, a participação do cristão na morte de Cristo é descrita como realidade presente, enquanto a participação na ressurreição aparece vinculada àquilo que ainda deverá acontecer. O futuro, portanto, permanece futuro, mesmo quando a vida nova já começa a ser experimentada no presente.

Colossenses retoma esse mesmo vocabulário, mas o reorganiza. O batismo continua sendo participação na morte e na ressurreição de Cristo; a diferença é que a ressurreição não está mais apenas no horizonte do que o cristão espera. Ela já aconteceu em uma dimensão decisiva da experiência cristã. O autor pode dizer que os fiéis foram ressuscitados com Cristo e, ao mesmo tempo, afirmar que ainda serão manifestados com ele em glória. Não se trata, portanto, de simplesmente eliminar o futuro, mas de aproximá-lo do presente.

Moreschini e Norelli identificam precisamente essa transformação:

“Particularmente significativa é a modificação da compreensão do batismo. O autor se inspira em Rm 6,1-11, mas, enquanto em Rm os crentes foram sepultados com Cristo e ressuscitarão (futuro) com ele (6,4-5,8), segundo Cl eles já ressuscitaram (2,12-13; 3,1), e é a esta ressurreição advinda que funda a ética, permitindo ‘procurar o que está no alto’ (3,1)” (MORESCHINI; NORELLI, 2005, p. 58).

A observação é importante porque impede que tratemos a diferença como uma simples alteração de vocabulário. A escatologia mudou de posição dentro da construção teológica. Em Romanos, a ressurreição futura pertence à esperança; em Colossenses, a realidade futura já começou a determinar a identidade presente do cristão. O batismo passa a funcionar como expressão de uma participação efetiva na morte e na ressurreição de Cristo, e é precisamente essa condição que fundamenta a nova maneira de viver.

Dale B. Martin formula a diferença de maneira ainda mais direta. Ao comparar Romanos e Colossenses, observa que Colossenses “pulls the resurrection, that for Paul is still in the future, and he puts it in the present” — isto é, desloca para o presente a ressurreição que, para Paulo, ainda estava no futuro. Martin identifica nesse movimento aquilo que a pesquisa denomina “realized eschatology”, ou escatologia realizada.

A formulação de Martin torna explícito aquilo que a comparação dos textos já havia sugerido: não estamos diante de uma simples variação estilística entre duas cartas, mas de uma alteração na localização temporal da salvação. O que antes era aguardado passa, em Colossenses, a ser experimentado antecipadamente. E é justamente essa antecipação que torna possível a linguagem de Colossenses 3,1: “Se, portanto, ressuscitastes com Cristo, procurai as coisas do alto”.

Mas aqui surge uma ressalva importante. Se parássemos em Martin, poderíamos ser tentados a imaginar uma ruptura muito mais radical do que os textos efetivamente permitem. Thomas D. McGlothlin, ao estudar o desenvolvimento e os conflitos do paulinismo pré-niceno, chama atenção justamente para essa continuidade. Ao comparar Romanos com Colossenses, ele observa que “in Colossians the Christian is in some sense resurrected in the present”, isto é, em Colossenses o cristão está, em algum sentido, já ressuscitado no presente. Mas McGlothlin acrescenta que essa mudança de linguagem “does not necessarily represent a significant structural shift in the schema”.

A observação de McGlothlin é importante porque impede que transformemos a diferença entre Romanos e Colossenses numa oposição simplista entre duas teologias completamente incompatíveis. O fato de Colossenses utilizar o verbo da ressurreição no presente não significa necessariamente que tenha abandonado toda a estrutura escatológica encontrada em Paulo. O próprio texto preserva uma expectativa futura: “Quando Cristo, que é a vossa vida, se manifestar, então também vós sereis manifestados com ele em glória” (Cl 3,4). Há, portanto, continuidade e transformação ao mesmo tempo. O cristão já participa da ressurreição, mas ainda espera sua manifestação plena.

É justamente essa tensão que torna o problema mais interessante. A diferença entre Paulo e os paulinos não precisa ser imaginada como uma ruptura entre duas doutrinas mutuamente excludentes. Pode ser compreendida como uma alteração na maneira de distribuir temporalmente uma mesma estrutura soteriológica: aquilo que em Romanos permanece predominantemente projetado para o futuro começa, em Colossenses, a ser experimentado como realidade presente, sem que o futuro seja inteiramente abolido.

Helmut Koester percebe essa transformação e a formula de maneira ainda mais contundente:

“A redenção já está realizada para os crentes, e Colossenses pode dizer, como um teólogo gnóstico, que eles já foram ressuscitados em Cristo (3,1) e já entraram no Reino (1,13). Este é o modo como as coisas acontecem porque Cristo aboliu a lei, ‘apagou em detrimento das ordens legais, o título de dívida que existia contra nós’ (2,14). [...] Conquanto o autor desta carta esteja aqui renovando a tese de Paulo de que Cristo é o fim da lei, ele aceita, ao mesmo tempo, a posição dos adversários de 1 Coríntios, espiritualizando o conceito de escatologia já realizada” (KOESTER, 2005, p. 284).

A formulação de Koester é particularmente provocativa, mas precisa ser lida com alguma cautela. Colossenses não elimina simplesmente a dimensão futura. O próprio texto afirma: “Quando Cristo, que é a vossa vida, se manifestar, então também vós sereis manifestados com ele em glória” (Cl 3,4). O futuro continua existindo. O que mudou é a relação entre presente e futuro. O futuro começou a invadir o presente. A salvação ainda aguarda sua manifestação plena, mas seus efeitos já são experimentados como realidade atual.

É precisamente essa distinção que impede uma identificação automática entre Colossenses e aquilo que 2Timóteo atribui a Himeneu e Fileto. O autor de 2Timóteo não parece condenar simplesmente a ideia de que o cristão possa participar desde já da vida ressuscitada de Cristo. O alvo de sua crítica é a afirmação de que “a ressurreição já se realizou”. A diferença parece pequena, mas é teologicamente decisiva.

Uma coisa é afirmar que o cristão já participa da ressurreição de Cristo; outra é afirmar que o acontecimento escatológico da ressurreição já foi definitivamente consumado.

Essa distinção pode ser formulada de maneira ainda mais simples: uma coisa é dizer “já ressuscitamos com Cristo”; outra é dizer “a ressurreição já aconteceu”. Na primeira formulação, a ressurreição de Cristo inaugura uma realidade da qual o cristão participa antecipadamente, sem que isso elimine a esperança de sua consumação futura. Na segunda, o acontecimento que deveria pertencer ao horizonte escatológico é transferido inteiramente para o passado. O “já” passa a devorar o “ainda não”.

É possível, portanto, que o problema de Himeneu e Fileto estivesse precisamente nesse ponto. Não sabemos exatamente o que eles ensinavam, e seria imprudente reconstruir uma doutrina inteira a partir de duas linhas. Também não possuímos elementos suficientes para afirmar que conhecessem Colossenses ou que estivessem simplesmente reproduzindo sua teologia. Mas 2Timóteo revela que existia uma disputa concreta em torno da maneira como a ressurreição deveria ser compreendida. Havia um limite a partir do qual a afirmação da salvação presente poderia ser considerada uma negação da esperança futura.

É aqui que a cronologia volta a ser decisiva. Se 1Coríntios e Romanos preservam uma expectativa fortemente orientada para o futuro, enquanto Colossenses acentua a participação presente na ressurreição e 2Timóteo combate uma forma radical de escatologia realizada, podemos estar diante não de uma simples contradição, mas de uma tradição tentando controlar suas próprias possibilidades de interpretação.

O problema não seria mais simplesmente descobrir qual frase contém a “verdadeira” doutrina, mas observar como diferentes comunidades cristãs definiram os limites daquilo que entendiam ser uma interpretação legítima da esperança cristã.

Colossenses é particularmente interessante porque não precisa ser lido como uma ruptura consciente com Paulo. Seu autor parece fazer algo muito mais comum no desenvolvimento das tradições religiosas: recebe uma linguagem anterior e a leva para outro lugar. A linguagem de Romanos é preservada — morte com Cristo, sepultamento, batismo, ressurreição —, mas sua organização teológica é modificada. A experiência cristã é interpretada de maneira mais fortemente realizada, sem que o futuro seja simplesmente abolido. É uma releitura, não necessariamente uma rejeição.

Algo semelhante ocorre, em sentido inverso, com 2Timóteo. Seu autor também reivindica a autoridade de Paulo e apresenta-se como guardião de uma tradição recebida. Mas, para ele, existe uma fronteira que não pode ser ultrapassada. A ressurreição futura não pode ser dissolvida em uma experiência espiritual já concluída. A autoridade de Paulo é mobilizada, portanto, não para produzir uniformidade, mas para estabelecer aquilo que o autor considera ser o limite legítimo da interpretação paulina.

Temos aqui uma situação bastante reveladora. Autores diferentes podem reivindicar fidelidade ao mesmo apóstolo e, ainda assim, discordar profundamente sobre o que significa ser fiel a ele. Isso acontece porque uma tradição não é simplesmente um conjunto de frases transmitidas mecanicamente de uma geração para outra. Ela é recebida, interpretada, adaptada, defendida e, quando necessário, utilizada contra outras interpretações que também reivindicam sua legitimidade.

Por isso, talvez seja mais adequado falar em tradições paulinas do que simplesmente em uma única “doutrina paulina”. A expressão não significa que tudo seja arbitrário ou que não exista continuidade entre os textos. Pelo contrário: existe uma extraordinária continuidade de linguagem, temas e categorias. O que muda é a maneira como esses elementos são articulados. O vocabulário permanece reconhecível, mas a arquitetura teológica se desloca.

Essa é uma característica fundamental das tradições religiosas. Elas conservam a linguagem de sua origem justamente porque essa linguagem lhes confere identidade e autoridade; mas, ao mesmo tempo, precisam reinterpretá-la quando surgem novos problemas. Paulo forneceu às comunidades cristãs um vocabulário extraordinariamente poderoso — Cristo, cruz, morte, ressurreição, batismo, nova vida, lei, carne, espírito, justificação. Depois de sua morte, entretanto, esse vocabulário continuou disponível para autores que precisavam responder a situações que Paulo provavelmente não havia enfrentado da mesma maneira.

É por isso que a diferença entre Romanos, Colossenses e 2Timóteo é tão interessante. Não estamos simplesmente diante de três textos que usam palavras diferentes para dizer a mesma coisa. Estamos diante de diferentes maneiras de organizar temporalmente a salvação. Em Paulo, a morte com Cristo pode ser uma realidade presente enquanto a ressurreição permanece futura. Em Colossenses, a ressurreição já começa a ser uma realidade presente em Cristo, embora sua manifestação plena permaneça futura. Em 2Timóteo, por sua vez, encontramos uma reação contra aqueles que teriam levado essa realização presente longe demais, transformando o acontecimento futuro em algo já definitivamente concluído.

Não precisamos, portanto, escolher entre duas soluções igualmente simplificadoras: ou Paulo se contradisse, ou todos os textos dizem rigorosamente a mesma coisa. Existe uma terceira possibilidade, historicamente mais fecunda: Paulo foi interpretado por comunidades e autores posteriores que receberam sua tradição, reorganizaram seus elementos e disputaram entre si os limites dessa herança.

Colossenses pode ser compreendida como uma interpretação de Paulo; 2Timóteo pode representar outra etapa da tentativa de definir aquilo que deveria ser considerado uma interpretação legítima da tradição paulina.

E é justamente aí que a aparente contradição se torna historicamente reveladora. A pergunta “Paulo se contradisse?” pressupõe que a autoridade de Paulo tenha produzido automaticamente uma tradição homogênea. Os textos sugerem algo mais complexo. A autoridade do apóstolo permaneceu suficientemente forte para que autores posteriores continuassem escrevendo em seu horizonte, mas essa mesma autoridade tornou-se objeto de disputa. Ser fiel a Paulo significava também decidir o que, exatamente, deveria contar como fidelidade a Paulo.

Isso explica por que a questão da ressurreição é tão importante. Não se trata apenas de decidir se ela pertence ao presente ou ao futuro. Trata-se de definir como o cristão deve compreender sua própria condição entre aquilo que Cristo já realizou e aquilo que ainda espera. Colossenses aproxima os dois polos e permite dizer que o cristão já ressuscitou com Cristo, sem abandonar completamente a expectativa futura. 2Timóteo, por sua vez, reage contra uma interpretação que, aos seus olhos, teria ultrapassado esse equilíbrio. O problema teológico está, portanto, na fronteira entre o já e o ainda não.

Não sabemos se essa reação de 2Timóteo foi dirigida diretamente contra uma teologia como a de Colossenses. Não há evidência suficiente para afirmá-lo. Seria igualmente imprudente transformar Himeneu e Fileto em representantes de uma escola teológica perfeitamente reconstruível. O que podemos afirmar é algo mais modesto e, historicamente, mais seguro: os documentos testemunham diferentes maneiras de compreender a relação entre a salvação presente e a consumação futura, e essas diferenças foram suficientemente importantes para que determinados autores sentissem a necessidade de estabelecer fronteiras entre aquilo que consideravam ortodoxia e aquilo que consideravam desvio.

É justamente por isso que a noção de tradição paulina se mostra mais produtiva do que a tentativa de reconstruir uma única “doutrina de Paulo” por trás de todos esses textos. A tradição preserva uma memória, mas não preserva necessariamente uma única interpretação dessa memória. Ela pode conservar o vocabulário e modificar sua função; conservar a autoridade e alterar sua aplicação; preservar a referência ao fundador e, ao mesmo tempo, produzir disputas sobre aquilo que o fundador realmente teria querido dizer. A continuidade da tradição não significa ausência de transformação.

Se lermos Romanos, 1Coríntios, Colossenses e 2Timóteo como manifestações contemporâneas de um único pensamento individual, seremos inevitavelmente empurrados para a harmonização. Teremos de explicar que Paulo está usando “ressurreição” em sentidos diferentes, que está enfatizando aspectos distintos ou que uma passagem deve ser lida à luz da outra. Algumas dessas tentativas podem produzir interpretações teologicamente coerentes. Mas elas não eliminam o dado histórico de que os documentos pertencem a contextos diferentes e testemunham diferentes maneiras de articular a experiência cristã entre presente e futuro.

A hipótese das tradições paulinas permite conservar simultaneamente esses dois elementos: continuidade e transformação. De um lado, Colossenses continua profundamente dependente da linguagem e das categorias associadas a Paulo; de outro, reorganiza essas categorias de maneira suficientemente significativa para produzir uma escatologia mais realizada. 2Timóteo, por sua vez, continua reivindicando a autoridade paulina, mas estabelece limites contra uma interpretação que considera destrutiva. O resultado não é uma tradição sem identidade, mas uma tradição em disputa consigo mesma.

E talvez seja justamente essa a verdadeira ironia do problema que encontramos no início. A pergunta “Paulo se contradisse?” parece pressupor que o nome Paulo garanta automaticamente a unidade da tradição posterior. Mas a história do cristianismo primitivo sugere algo mais interessante: a autoridade de Paulo sobreviveu precisamente porque continuou sendo interpretada. Seus herdeiros não receberam um manual pronto de respostas para todas as questões posteriores; receberam textos, argumentos, categorias e uma memória apostólica que precisaram ser continuamente atualizados. E, quando diferentes grupos fizeram isso de maneiras diferentes, surgiu inevitavelmente a disputa sobre quem estava sendo fiel ao apóstolo.

A aparente contradição entre Colossenses e 2Timóteo, portanto, não precisa ser apagada por uma harmonização. Ela pode ser tomada como um vestígio do próprio desenvolvimento da tradição. Em Romanos e 1Coríntios, encontramos uma expectativa fortemente orientada para a ressurreição futura; em Colossenses, essa realidade é antecipada e incorporada à experiência presente do cristão; em 2Timóteo, encontramos uma reação contra a afirmação de que a ressurreição já teria sido definitivamente consumada.

O futuro não desapareceu em Colossenses, mas foi trazido para mais perto do presente; e justamente essa aproximação tornou necessária, em algum momento, uma definição dos limites que não poderiam ser ultrapassados.

Assim, o problema inicial permanece, mas sua natureza mudou. Já não precisamos perguntar simplesmente qual dos dois autores “tem razão”, nem transformar a tensão em uma contradição insolúvel. Podemos perguntar como uma tradição cristã que se reconhecia herdeira de Paulo passou a organizar de maneiras diferentes a relação entre morte, ressurreição, salvação presente e esperança futura.

Essa pergunta nos permite perceber que a história do cristianismo primitivo não foi apenas a transmissão de uma mensagem recebida de uma vez por todas, mas também o processo pelo qual comunidades diferentes interpretaram, defenderam e disputaram o significado de uma herança comum.

No fim, talvez não estejamos diante de um Paulo que primeiro afirmou que os cristãos já haviam ressuscitado e depois condenou aqueles que ensinavam exatamente isso. Estamos diante de algo historicamente mais complexo: uma tradição paulina que, ao longo de algumas décadas, reelaborou a relação entre a ressurreição já experimentada em Cristo e a ressurreição ainda esperada no fim dos tempos.

Colossenses desloca fortemente o centro de gravidade para o presente; 2Timóteo parece reagir contra uma forma de escatologia que, aos olhos de seu autor, havia levado esse deslocamento longe demais. A tensão permanece — e é justamente porque permanece que conseguimos enxergar o processo histórico de interpretação da tradição. Talvez, então, Paulo não tenha se contradito. Talvez tenham mudado os paulinos.



REFERÊNCIAS

KOESTER, Helmut. Introdução ao Novo Testamento: história e literatura do cristianismo primitivo. v. 2. São Paulo: Paulus, 2005.

MARTIN, Dale B. Introduction to the New Testament: History and Literature of Early Christianity. Lecture 17: Paul’s Disciples. New Haven: Yale University, Open Yale Courses, [s.d.]. Disponível em: Open Yale Courses. Acesso em: 28 ago. 2026.

McGLOTHLIN, Thomas D. Resurrection as Salvation: Development and Conflict in Pre-Nicene Paulinism. Cambridge: Cambridge University Press, 2018. DOI: 10.1017/9781108585361.

MORESCHINI, Claudio; NORELLI, Enrico. História da literatura cristã antiga grega e latina: de Paulo à era de Constantino. v. 1. São Paulo: Loyola, 2005.

quinta-feira, 27 de agosto de 2026



Foram 18 anos de produção nesse querido blog AD CUMMULUS! Essa produção foi intercalada por períodos de intensa reflexão e outros de longas ausências. A maior parte do material que está no blog começou a ser produzida a partir de 2003. Nessa época, muitos dos textos ainda estavam em estado embrionário, nascidos das discussões e debates que mantive em fóruns dedicados ao cristianismo e ao judaísmo. Parte significativa dessa produção permaneceu durante anos guardada em arquivos docx, praticamente desconhecidos, à espera de uma retomada. A partir de 2008, quando criei o blog, aqueles primeiros esboços foram sendo gradualmente ampliados, aprofundados e sofisticados, à medida que novas leituras e novas perguntas se incorporavam à investigação. No período que vai de 2003 a 2013, minha biblioteca pessoal na área de religião cresceu de aproximadamente 40 para mais de 300 livros físicos dedicados sobretudo ao judaísmo antigo e ao cristianismo primitivo.

A partir de 2013, porém, minha vida tomou outro rumo: comecei a me dedicar profissionalmente à fotografia e, progressivamente, interrompi minha produção textual. O interesse pela pesquisa, contudo, nunca desapareceu. Continuei lendo, estudando, acumulando referências e amadurecendo questões que, muitas vezes, só encontrariam uma formulação mais consistente muitos anos depois. Parte importante do que estou produzindo hoje, portanto, não nasceu em 2026; é resultado de uma longa gestação intelectual que atravessou quase duas décadas. Nessa caminhada, eu tive também a alegria de ter os amigos Nehemias Monteiro e Rodrigo Souza como colaborades do blog. Eles são parceriros importantíssimos nessa caminhada, na construção dessa casa.

Agora, em agosto de 2026, chegou o momento de retomar o caminho da minha produção textual. Revisitar os textos antigos, recuperar aquilo que estava disperso, corrigir hipóteses, incorporar novas fontes, aprofundar argumentos e, sobretudo, reorganizar a casa. O resultado desse processo começa a aparecer no AD CUMMULUS.


Catálogo Completo — Ad Cummulus (2008–2026)

AnoTítulo do TextoResumoEixo TemáticoImagem (Miniatura)
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201829. O Decálogo, o Shabbat e os judeus cristãosContrasta a desobrigatoriedade das leis judaicas para os conversos gentios com a continuidade da observância do Shabbat e da Torah entre os judeus cristãos.Decálogo · Shabbat · Torah · judeus cristãos · Atos 15/21

202630. Entre a morte e a ressurreição: a genealogia judaica de Mateus 27,51–53Recompõe a cosmovisão judaica sobre Sheol, escatologia e ressurreição que fundamenta o misterioso relato dos santos ressuscitados em Mateus.Mateus 27 · morte · ressurreição · judaísmo · escatologia


202631. A Literatura apocalíptica judaica e Mateus 27,51-53Mapeia a ruptura espacial entre o cosmo, a terra e os sepulcros em Mateus 27 a partir dos modelos da geografia escatológica apocalíptica.apocalíptica · Mateus 27 · geografia escatológica · ressurreição


202632. A literatura cristã apócrifa e Mateus 27:52–53Acompanha a recepção de Mateus 27 na literatura apócrifa, observando como os relatos de descida aos mortos preencheram as lacunas do texto canônico.apócrifos · Mateus 27 · ressurreição · descida aos mortos · recepção


202633. Entre a Torah, Noé e o Dia do SenhorRetoma a controvérsia sobre a observância da Lei por gentios, analisando as Leis Noaquistas, o Decálogo e o sábado na expansão do cristianismo primitivo.Torah · Noé · gentios · Decálogo · sábado · Atos 15

202634. Jesus entre Hillel e Shammai: Doutrina, Concepções Morais e Ética do AgirCompara a conduta e os ensinamentos éticos de Jesus com as escolas rabínicas de Hillel e Shammai, situando-o nos debates morais do judaísmo.Jesus · Hillel · Shammai · ética · moral · Lei

202635. Os Vigilantes e a Genealogia do MalReconstrói a origem do mal na tradição enóquica dos Vigilantes (1 Enoque) e acompanha sua recepção na demonologia e cosmologia cristãs.1 Enoque · Vigilantes · transgressão · mal · demonologia · recepção cristã

202636. DA ASSEMBLEIA CELESTIAL À COMMUNIO SANCTORUMAnalisa a transição entre a assembleia celeste do Segundo Templo e as doutrinas cristãs do martírio, da imitatio Christi e da comunhão dos santos.assembleia celestial · martírio · santos · communio sanctorum · imitatio Christi


202637. Entre Paulo e Tiago: Pedro, a Lei e a progressiva marginalização do cristianismo judaicoEstuda os embates entre Paulo, Pedro e Tiago quanto ao cumprimento da Lei, interpretando a marginalização do cristianismo judaico como processo histórico.Paulo · Tiago · Pedro · Lei · cristianismo judaico · marginalização

202638. A Imagem de Deus — Deus “tem cara”?Explora as fronteiras da representação divina, do aniconismo e do antropomorfismo no judaísmo e cristianismo, questionando se Deus possui imagem/rosto.imagem de Deus · antropomorfismo · iconografia · judaísmo · cristianismo


202639. Paulo, Evangelho de Tomé e Evangelho QCompara paralelos e pontos de interseção entre os escritos paulinos, a fonte Q e o Evangelho de Tomé na circulação das tradições orais de Jesus.Paulo · Tomé · Q · tradição de Jesus · transmissão de tradições


202640. Jesus entre Hillel e Shammai: autoridade rabínica e controvérsia haláquicaExamina os conflitos entre Jesus e os fariseus sob a ótica da autoridade rabínica e do debate jurídico (halakhah), usando Hillel e Shammai como balizas.Jesus · fariseus · Hillel · Shammai · halakhah · autoridade rabínica

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